Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
António Ramos Rosa
Na Biblioteca Entre Pedras, Livros, Sombras
Na biblioteca entre pedras, livros, sombras
e a estrela a que está presa a mulher e o cavalo.
A paciência dilacera um último reduto.
Abertas as janelas, dilata-se o desejo
de igualar a altura e a firmeza à sombra.
Preso o cavalo à estrela, dimensão bem clara,
renova-se o ar e a luz penetra a sombra.
Biblioteca de pedras e o mar roendo as rochas.
Pode o cavalo soltar-se sem a mulher e a sombra,
pode o céu afirmar-se na tranquilidade da cena.
Uma luta suave e negra entrega aos ombros
a liberdade oculta e fortalece os ossos.
Um caminho de pedras na biblioteca acesa
e o cavalo pastando entre flores e livros.
e a estrela a que está presa a mulher e o cavalo.
A paciência dilacera um último reduto.
Abertas as janelas, dilata-se o desejo
de igualar a altura e a firmeza à sombra.
Preso o cavalo à estrela, dimensão bem clara,
renova-se o ar e a luz penetra a sombra.
Biblioteca de pedras e o mar roendo as rochas.
Pode o cavalo soltar-se sem a mulher e a sombra,
pode o céu afirmar-se na tranquilidade da cena.
Uma luta suave e negra entrega aos ombros
a liberdade oculta e fortalece os ossos.
Um caminho de pedras na biblioteca acesa
e o cavalo pastando entre flores e livros.
965
António Ramos Rosa
Diz o Objecto E a Imagem Que Não Existe,
Diz o objecto e a imagem que não existe,
diz o elogio do orvalho, a palavra tecida,
órgãos necessários, uma abertura ao lado,
tudo se sobrepõe, se liga na rede destes nomes.
Asfixia quase e sem razão alguma. Algum clamor
ao rés do campo, o ruído da água persistente,
no corpo a náusea e o desejo, o atroz ardor,
o perímetro que permite a dimensão da terra.
Diz a água mais lenta na página da terra,
acorda um clamor de paz, uma ordem escura
de insectos, a frescura das ervas e dos nomes.
Acorda, que é o tempo de acordar a razão,
do clamor do vento, do objecto inerte,
e a imagem que existe é a que permanece.
diz o elogio do orvalho, a palavra tecida,
órgãos necessários, uma abertura ao lado,
tudo se sobrepõe, se liga na rede destes nomes.
Asfixia quase e sem razão alguma. Algum clamor
ao rés do campo, o ruído da água persistente,
no corpo a náusea e o desejo, o atroz ardor,
o perímetro que permite a dimensão da terra.
Diz a água mais lenta na página da terra,
acorda um clamor de paz, uma ordem escura
de insectos, a frescura das ervas e dos nomes.
Acorda, que é o tempo de acordar a razão,
do clamor do vento, do objecto inerte,
e a imagem que existe é a que permanece.
1 159
António Ramos Rosa
O Calor Dos Campos E da Cor Em Ti, Cavalo,
O calor dos campos e da cor em ti, cavalo,
e em mim o muro quente e a força do teu nome.
Não espero mas aceito a tua marcha
como quem navega no campo dessas cores.
Tua abrasada língua, teus olhos sem antolhos,
correm a liberdade dos campos sem a névoa,
relinchas do prazer de ser cavalo
(e não o sabes)
e aqui me tens numa linguagem árida
e tensa. Para que me arrebates ainda mais que nunca
sempre com a paz do teu campo de cores
e a grande paz da força, tua boca descoberta,
sempre a alertar-me em palavras que são brasas
ou cinza ainda cálida do papel, destas formas
do meu amor da liberdade e do vigor
da vontade inteira em mim, cavalo.
e em mim o muro quente e a força do teu nome.
Não espero mas aceito a tua marcha
como quem navega no campo dessas cores.
Tua abrasada língua, teus olhos sem antolhos,
correm a liberdade dos campos sem a névoa,
relinchas do prazer de ser cavalo
(e não o sabes)
e aqui me tens numa linguagem árida
e tensa. Para que me arrebates ainda mais que nunca
sempre com a paz do teu campo de cores
e a grande paz da força, tua boca descoberta,
sempre a alertar-me em palavras que são brasas
ou cinza ainda cálida do papel, destas formas
do meu amor da liberdade e do vigor
da vontade inteira em mim, cavalo.
1 040
António Ramos Rosa
O Direito de Viver Pela Escrita Incorrupta,
O direito de viver pela escrita incorrupta,
a seta disparada acerta ou não o alvo,
o poeta ganha o seu cavalo por dia,
virilmente o arranca do seu escuro magma.
O direito de viver pela vida mais forte
na intensidade pura do cavalo que
reúne em si tensões e rasga a folha escrita,
é o direito ao mar, ao espaço inteiro.
O direito da vida pela palavra viva,
por ela o meu cavalo:
as suas patas ferem o sol e rasgam nuvens.
a seta disparada acerta ou não o alvo,
o poeta ganha o seu cavalo por dia,
virilmente o arranca do seu escuro magma.
O direito de viver pela vida mais forte
na intensidade pura do cavalo que
reúne em si tensões e rasga a folha escrita,
é o direito ao mar, ao espaço inteiro.
O direito da vida pela palavra viva,
por ela o meu cavalo:
as suas patas ferem o sol e rasgam nuvens.
1 030
António Ramos Rosa
Por Uma Serena Viagem Em Busca de Uma Pedra
Por uma serena viagem em busca de uma pedra
de fogo e desse olhar cuja cor é de outono,
parti com meu cavalo e um olho amigo e triste.
Atrás ficou a cinza, a terra calcinada.
Por uma serena viagem em busca de outro espaço
onde o cavalo beba a luz do horizonte
onde eu próprio me perca no lugar que é o meu,
de ninguém e de todos, na paz do espaço interno.
Por uma serena viagem em que eu leia o que escrevo
à luz de olhos amigos e ardentes de desejo
amando este cavalo que do amor nasceu
ou da fúria de ser num combate infindável.
de fogo e desse olhar cuja cor é de outono,
parti com meu cavalo e um olho amigo e triste.
Atrás ficou a cinza, a terra calcinada.
Por uma serena viagem em busca de outro espaço
onde o cavalo beba a luz do horizonte
onde eu próprio me perca no lugar que é o meu,
de ninguém e de todos, na paz do espaço interno.
Por uma serena viagem em que eu leia o que escrevo
à luz de olhos amigos e ardentes de desejo
amando este cavalo que do amor nasceu
ou da fúria de ser num combate infindável.
1 115
António Ramos Rosa
A Elegância Negra. Um Punhal — E Um Corpo.
A elegância negra. Um punhal — e um corpo.
Dissolve-se a leitura
dispersa-se onde
se reduz a sombra toda a palavra opaca.
Quero ver o que não vejo: a igualdade de ombros
extensa a tudo o mais, o calor dos membros,
a fulguração dos papéis espalhados no horizonte.
O nosso olhar atinge o espaço inteiro.
A brancura crucifica-me, o cavalo defende-me.
O cavalo ataca as estruturas frágeis.
Uma cabeça córnea defende o intacto.
A pureza das armas.
A presença das muralhas.
Dissolve-se a leitura
dispersa-se onde
se reduz a sombra toda a palavra opaca.
Quero ver o que não vejo: a igualdade de ombros
extensa a tudo o mais, o calor dos membros,
a fulguração dos papéis espalhados no horizonte.
O nosso olhar atinge o espaço inteiro.
A brancura crucifica-me, o cavalo defende-me.
O cavalo ataca as estruturas frágeis.
Uma cabeça córnea defende o intacto.
A pureza das armas.
A presença das muralhas.
1 066
António Ramos Rosa
Escrevo Pela Paixão de Te Inventar de Um Nada,
Escrevo pela paixão de te inventar de um nada,
um filamento apenas e logo outro sinal,
um tecido febril e temos um cavalo
inteiro com o som e a exactidão do nome.
Não sei a tua cor, mas tens em ti o campo,
a liberdade e a força que eu experimento em ti.
Para onde vais, cavalo, tão veloz, violento
ou na paz do teu trote, sem sela e livre, livre!
Percorro esta terra como um seio amoroso,
corres já no meu corpo com a vida do fogo,
tua paixão me cega e me ilumina a terra.
És tu que me crias com as palavras justas
que da tua elegância e ritmo se libertam
e me erguem a uma vida pura e vertical.
um filamento apenas e logo outro sinal,
um tecido febril e temos um cavalo
inteiro com o som e a exactidão do nome.
Não sei a tua cor, mas tens em ti o campo,
a liberdade e a força que eu experimento em ti.
Para onde vais, cavalo, tão veloz, violento
ou na paz do teu trote, sem sela e livre, livre!
Percorro esta terra como um seio amoroso,
corres já no meu corpo com a vida do fogo,
tua paixão me cega e me ilumina a terra.
És tu que me crias com as palavras justas
que da tua elegância e ritmo se libertam
e me erguem a uma vida pura e vertical.
1 618
António Ramos Rosa
O Desejado Chegado
He llegado a una tierra de llegada.
JUAN RAMÓN JIMÉNEZ
Porque és sem tensão o resultado,
o chegado. A praia e o centro do olhar
no extremo e simples.
A água toda externa, água solar,
por toda a parte visível nua em ti.
Vejo-te desejado pupila toda mar
à varanda de ti próprio.
À varanda do mar.
O desejado desejo
nudez de consciência
livre ao ar de tudo
em palavras nuas de água
eu o recebo, teu princípio e fim.
No espaço interno mar
onde chegaste
o desejo coincide eterno em si
no mar.
JUAN RAMÓN JIMÉNEZ
Porque és sem tensão o resultado,
o chegado. A praia e o centro do olhar
no extremo e simples.
A água toda externa, água solar,
por toda a parte visível nua em ti.
Vejo-te desejado pupila toda mar
à varanda de ti próprio.
À varanda do mar.
O desejado desejo
nudez de consciência
livre ao ar de tudo
em palavras nuas de água
eu o recebo, teu princípio e fim.
No espaço interno mar
onde chegaste
o desejo coincide eterno em si
no mar.
1 002
António Ramos Rosa
À Sombra do Cavalo, o Ócio Retempera-Se.
À sombra do cavalo, o ócio retempera-se.
O prazer de olhar a liberdade do campo
onde cada árvore e cada sombra dizem
o sossego de estar à sombra do cavalo.
O sossego do sol, a terra igual à terra,
e toda a luz firmando os volumes e as cores.
Tudo ressalta em força,
em pureza de estar em paz sob o cavalo.
À sombra do cavalo, o ócio aprende a ser
aquilo mesmo que é, um estar feito de luz,
uma razão de ser sem se saber mais nada
do que a razão das pedras, do que a visão das árvores.
A sombra do cavalo engloba tudo o mais.
O prazer de olhar a liberdade do campo
onde cada árvore e cada sombra dizem
o sossego de estar à sombra do cavalo.
O sossego do sol, a terra igual à terra,
e toda a luz firmando os volumes e as cores.
Tudo ressalta em força,
em pureza de estar em paz sob o cavalo.
À sombra do cavalo, o ócio aprende a ser
aquilo mesmo que é, um estar feito de luz,
uma razão de ser sem se saber mais nada
do que a razão das pedras, do que a visão das árvores.
A sombra do cavalo engloba tudo o mais.
1 251
António Ramos Rosa
Como Se Fora Este o Espaço
Como se fora este o espaço
por habitar
ah não é aqui que se constrói
a madeira e a pedra
ligam-se externamente noutro espaço
Como se fora aqui aqui começo
nada ou só o que desejo e perco
a folha branca sem o vento
e sem a pedra
que sobre a pedra se levanta
num externo esforço além deste começo
Como se fora aqui ó que figura
que branco e nulo vento enfuna
aqui me abro onde não sei se alguma
palavra viva vem ou pobre duna
Aqui seria o rosto o espaço o lento
menear de uma sombra a forma de
um corpo se mover
oco de ser
e o desejo no centro o tempo e a ânsia
a pausa justa de encontrar o termo
o intervalo do sorriso e a rua
aniquilada e viva com o rosto
Como se fora aqui aqui começo
Aqui procuro o gesto de encontrar
onde a procura é febre jovem pressa
a cidade se inclina por um tornozelo lúcido
rodopia a palavra que num lance se espera
o pulso livre martela a luz das têmporas
uma lâmina de água ondula no silêncio
a cidade transpira num corpo desnudado
por uma fenda vivíssima o espaço se ilumina
o poema atravessa o vidro do instante
Aqui encontro a chama adormecida errante
Como se fora aqui aqui começo
por habitar
ah não é aqui que se constrói
a madeira e a pedra
ligam-se externamente noutro espaço
Como se fora aqui aqui começo
nada ou só o que desejo e perco
a folha branca sem o vento
e sem a pedra
que sobre a pedra se levanta
num externo esforço além deste começo
Como se fora aqui ó que figura
que branco e nulo vento enfuna
aqui me abro onde não sei se alguma
palavra viva vem ou pobre duna
Aqui seria o rosto o espaço o lento
menear de uma sombra a forma de
um corpo se mover
oco de ser
e o desejo no centro o tempo e a ânsia
a pausa justa de encontrar o termo
o intervalo do sorriso e a rua
aniquilada e viva com o rosto
Como se fora aqui aqui começo
Aqui procuro o gesto de encontrar
onde a procura é febre jovem pressa
a cidade se inclina por um tornozelo lúcido
rodopia a palavra que num lance se espera
o pulso livre martela a luz das têmporas
uma lâmina de água ondula no silêncio
a cidade transpira num corpo desnudado
por uma fenda vivíssima o espaço se ilumina
o poema atravessa o vidro do instante
Aqui encontro a chama adormecida errante
Como se fora aqui aqui começo
1 096
António Ramos Rosa
Maio de 68
a Eduardo Prado Coelho
As linhas, mil linhas, novas linhas
do ar que circula
numa língua desligada, de uma fábrica
de ervas violentas, jovens,
nutrindo o pulso e os membros,
água de silêncio, no ar agora,
nas avenidas abertas ao silêncio,
nas pedras sem memória, sem medo,
vitória que se perde na frescura rápida,
princípio irrefragável desvanecido, vindo,
lanço a fronte no ar para a linguagem viva
que respira na espessura fragmentada morta
perseguida no vazio, obscura carga,
peso de um olhar, de uma boca ávida sem passado,
no entusiasmo irreparável da língua por viver
do corpo imediato
no centro — turbilhão — da árvore.
Terra, o solo comum, originário, em que descalços
surgir, ó boca, surgir como só um
de nós,
na praia de um presente aberto,
o vulcão surdo convertido em jorro de ar,
a boca restituída ao corpo, a língua
dada ao ar, ao sopro de um corpo a renascer,
razão livre desde sempre, ignota, desde sempre a única
razão,
anterior chama de ar submersa,
que nos lábios soçobra, agora se levanta,
fronte única, fonte, ovo de tudo o que começa,
rajadas de ar,
árvore de homens num estrépito de folhas de ar nas ruas,
a pedra o sol a terra a chama ávida e nua
a praia sob os passos
a página de mil linhas
a boca as palavras que rompem como a água
de um princípio que encontra o seu presente
agora a língua livre e jovem
a língua irrefragável
As linhas, mil linhas, novas linhas
do ar que circula
numa língua desligada, de uma fábrica
de ervas violentas, jovens,
nutrindo o pulso e os membros,
água de silêncio, no ar agora,
nas avenidas abertas ao silêncio,
nas pedras sem memória, sem medo,
vitória que se perde na frescura rápida,
princípio irrefragável desvanecido, vindo,
lanço a fronte no ar para a linguagem viva
que respira na espessura fragmentada morta
perseguida no vazio, obscura carga,
peso de um olhar, de uma boca ávida sem passado,
no entusiasmo irreparável da língua por viver
do corpo imediato
no centro — turbilhão — da árvore.
Terra, o solo comum, originário, em que descalços
surgir, ó boca, surgir como só um
de nós,
na praia de um presente aberto,
o vulcão surdo convertido em jorro de ar,
a boca restituída ao corpo, a língua
dada ao ar, ao sopro de um corpo a renascer,
razão livre desde sempre, ignota, desde sempre a única
razão,
anterior chama de ar submersa,
que nos lábios soçobra, agora se levanta,
fronte única, fonte, ovo de tudo o que começa,
rajadas de ar,
árvore de homens num estrépito de folhas de ar nas ruas,
a pedra o sol a terra a chama ávida e nua
a praia sob os passos
a página de mil linhas
a boca as palavras que rompem como a água
de um princípio que encontra o seu presente
agora a língua livre e jovem
a língua irrefragável
669
António Ramos Rosa
Maio de 68
a Eduardo Prado Coelho
As linhas, mil linhas, novas linhas
do ar que circula
numa língua desligada, de uma fábrica
de ervas violentas, jovens,
nutrindo o pulso e os membros,
água de silêncio, no ar agora,
nas avenidas abertas ao silêncio,
nas pedras sem memória, sem medo,
vitória que se perde na frescura rápida,
princípio irrefragável desvanecido, vindo,
lanço a fronte no ar para a linguagem viva
que respira na espessura fragmentada morta
perseguida no vazio, obscura carga,
peso de um olhar, de uma boca ávida sem passado,
no entusiasmo irreparável da língua por viver
do corpo imediato
no centro — turbilhão — da árvore.
Terra, o solo comum, originário, em que descalços
surgir, ó boca, surgir como só um
de nós,
na praia de um presente aberto,
o vulcão surdo convertido em jorro de ar,
a boca restituída ao corpo, a língua
dada ao ar, ao sopro de um corpo a renascer,
razão livre desde sempre, ignota, desde sempre a única
razão,
anterior chama de ar submersa,
que nos lábios soçobra, agora se levanta,
fronte única, fonte, ovo de tudo o que começa,
rajadas de ar,
árvore de homens num estrépito de folhas de ar nas ruas,
a pedra o sol a terra a chama ávida e nua
a praia sob os passos
a página de mil linhas
a boca as palavras que rompem como a água
de um princípio que encontra o seu presente
agora a língua livre e jovem
a língua irrefragável
As linhas, mil linhas, novas linhas
do ar que circula
numa língua desligada, de uma fábrica
de ervas violentas, jovens,
nutrindo o pulso e os membros,
água de silêncio, no ar agora,
nas avenidas abertas ao silêncio,
nas pedras sem memória, sem medo,
vitória que se perde na frescura rápida,
princípio irrefragável desvanecido, vindo,
lanço a fronte no ar para a linguagem viva
que respira na espessura fragmentada morta
perseguida no vazio, obscura carga,
peso de um olhar, de uma boca ávida sem passado,
no entusiasmo irreparável da língua por viver
do corpo imediato
no centro — turbilhão — da árvore.
Terra, o solo comum, originário, em que descalços
surgir, ó boca, surgir como só um
de nós,
na praia de um presente aberto,
o vulcão surdo convertido em jorro de ar,
a boca restituída ao corpo, a língua
dada ao ar, ao sopro de um corpo a renascer,
razão livre desde sempre, ignota, desde sempre a única
razão,
anterior chama de ar submersa,
que nos lábios soçobra, agora se levanta,
fronte única, fonte, ovo de tudo o que começa,
rajadas de ar,
árvore de homens num estrépito de folhas de ar nas ruas,
a pedra o sol a terra a chama ávida e nua
a praia sob os passos
a página de mil linhas
a boca as palavras que rompem como a água
de um princípio que encontra o seu presente
agora a língua livre e jovem
a língua irrefragável
669
António Ramos Rosa
Onde o Caminho
Onde o caminho é a mão que se abre,
a mão que vai.
O silêncio que respiro é o caminho que vem.
A mão nova palpa a parede do ar.
Uma parede nova.
Caminho para o solo alto.
Desloco a terra.
O fragor branco do céu.
O dia não estala.
a mão que vai.
O silêncio que respiro é o caminho que vem.
A mão nova palpa a parede do ar.
Uma parede nova.
Caminho para o solo alto.
Desloco a terra.
O fragor branco do céu.
O dia não estala.
1 150
António Ramos Rosa
A Fogo E Pedra
Neste campo — qual campo?
não me entrego,
rompo.
Avanço a fogo e pedra
e terra.
*
O triângulo da fronte
pulsa com o ventre
magramente
ao vento.
Arde nuamente
arde alto
com o ventre
ao vento.
*
Por detrás da sombra
da pedra
por baixo da sombra
da pedra
por baixo por detrás
do silêncio
da pedra
o silêncio da pedra
*
Meu país de palavras. País de pedra. Que atravesso, país que treme, hesita, rompe. Nu. Vivo. Pobre.
*
Digo para dizer — esta parede
que não vês,
este ar que não respiras.
Entre a palavra e a figura
treme o nada
a boca branca
*
Nada, ou ainda a pedra, ou ainda a terra, ou ainda o fogo. Nada. A fronte nua interior, boca de ar e morte. E uma pequena rua longa e branca, a rua nua, a rua de um corpo para a via láctea do dia. As árvores brancas. Caminho sem cessar. Não sou vosso habitante de comércio entre portas. Rebento as minhas barricas de ar.
*
Adiro
à minha boca
de terra
ó carne da carne
tumor
de silêncio
vermelho
*
No lugar da árvore. No lugar do ouvido. No lugar do chão. Unidade crepitante no silêncio aberto no trânsito. Tronco, calma bomba indeflagrável, dádiva da identidade.
*
A breve lâmina que nos separa, ou muro ou chama. Contra a esquina, arde. Contra o céu, arde. Na terra, ondula e chama, chama. A breve lâmina, ou rasga ou chama.
*
Neste chão
onde passam as palavras
se brilham
— de quem são?
*
Demasiado alto para
o sono
e o amor.
Contra a vertigem
sonâmbula
esta barragem de pedra
*
Por um país mais lento, filho do ócio
armado ao ombro do ócio,
no ócio da alegria
do ócio.
Ervas de ócio, folhas de ócio,
inimaginável figura do ócio
descabelada, branca e nua
caindo lenta
lenta
lenta,
imponderável, lenta,
interminável.
*
Minhas armas quotidianas para rir, para quebrar, para desarmar.
*
Penso numa linguagem desconcertantemente simples, falsamente transparente, um pouco tosca. Térrea e pétrea. E aí brilha uma lâmpada, uma pedra, o ar. Uma linguagem de restituição.
*
Algo se soltou no corpo
algo se abriu
e a boca.
O corpo abriu-se.
A boca em uníssono com o corpo.
Pela primeira vez
pela primeira vez
a boca foi a boca do corpo.
não me entrego,
rompo.
Avanço a fogo e pedra
e terra.
*
O triângulo da fronte
pulsa com o ventre
magramente
ao vento.
Arde nuamente
arde alto
com o ventre
ao vento.
*
Por detrás da sombra
da pedra
por baixo da sombra
da pedra
por baixo por detrás
do silêncio
da pedra
o silêncio da pedra
*
Meu país de palavras. País de pedra. Que atravesso, país que treme, hesita, rompe. Nu. Vivo. Pobre.
*
Digo para dizer — esta parede
que não vês,
este ar que não respiras.
Entre a palavra e a figura
treme o nada
a boca branca
*
Nada, ou ainda a pedra, ou ainda a terra, ou ainda o fogo. Nada. A fronte nua interior, boca de ar e morte. E uma pequena rua longa e branca, a rua nua, a rua de um corpo para a via láctea do dia. As árvores brancas. Caminho sem cessar. Não sou vosso habitante de comércio entre portas. Rebento as minhas barricas de ar.
*
Adiro
à minha boca
de terra
ó carne da carne
tumor
de silêncio
vermelho
*
No lugar da árvore. No lugar do ouvido. No lugar do chão. Unidade crepitante no silêncio aberto no trânsito. Tronco, calma bomba indeflagrável, dádiva da identidade.
*
A breve lâmina que nos separa, ou muro ou chama. Contra a esquina, arde. Contra o céu, arde. Na terra, ondula e chama, chama. A breve lâmina, ou rasga ou chama.
*
Neste chão
onde passam as palavras
se brilham
— de quem são?
*
Demasiado alto para
o sono
e o amor.
Contra a vertigem
sonâmbula
esta barragem de pedra
*
Por um país mais lento, filho do ócio
armado ao ombro do ócio,
no ócio da alegria
do ócio.
Ervas de ócio, folhas de ócio,
inimaginável figura do ócio
descabelada, branca e nua
caindo lenta
lenta
lenta,
imponderável, lenta,
interminável.
*
Minhas armas quotidianas para rir, para quebrar, para desarmar.
*
Penso numa linguagem desconcertantemente simples, falsamente transparente, um pouco tosca. Térrea e pétrea. E aí brilha uma lâmpada, uma pedra, o ar. Uma linguagem de restituição.
*
Algo se soltou no corpo
algo se abriu
e a boca.
O corpo abriu-se.
A boca em uníssono com o corpo.
Pela primeira vez
pela primeira vez
a boca foi a boca do corpo.
1 147
António Ramos Rosa
Campo de Acção
Quando as forças duras
nas faces dos muros
nas plantas rasteiras
nos intervalos nus
na rede solitária das ruas
quando um corpo através dos poros
interiormente nu
se desfaz entre as árvores
se refaz de ar verdadeiro rindo
toda a pobreza solta
claros intervalos altas forças
cantam
e caminhar
é a luz do vinho nos passos no olhar
altura de ser livre
aberto o arco da fronte sobre as ruas
O corpo é a chama dada
parte viva do ar
cúmplice do cálido rigor das alamedas
a mão é trespassada pela luz dourada
perpendicular caindo sobre o centro do corpo
a seda dos segundos solares
circula num tapete continuamente solto
Olhar é respirar respirar olhar
beber o ouro visível
roda imóvel verde
o corpo envolto
mais vivo do que as folhas mais alto e duro
reunido no silêncio
respira
banhando de ar e sangue todas as palavras
nas faces dos muros
nas plantas rasteiras
nos intervalos nus
na rede solitária das ruas
quando um corpo através dos poros
interiormente nu
se desfaz entre as árvores
se refaz de ar verdadeiro rindo
toda a pobreza solta
claros intervalos altas forças
cantam
e caminhar
é a luz do vinho nos passos no olhar
altura de ser livre
aberto o arco da fronte sobre as ruas
O corpo é a chama dada
parte viva do ar
cúmplice do cálido rigor das alamedas
a mão é trespassada pela luz dourada
perpendicular caindo sobre o centro do corpo
a seda dos segundos solares
circula num tapete continuamente solto
Olhar é respirar respirar olhar
beber o ouro visível
roda imóvel verde
o corpo envolto
mais vivo do que as folhas mais alto e duro
reunido no silêncio
respira
banhando de ar e sangue todas as palavras
957
António Ramos Rosa
Volante Branco
Percorro as ruas contra o sol
numa dança fácil.
As pedras são de praia entre árvores.
O meu volante branco.
Este grande pé de terra, eira do vento.
Sóbrio bêbedo de nua fronte aérea.
Aterro entre casas altas caixas.
Verde leve brincos trémulos verde.
Alegre de fogachos.
numa dança fácil.
As pedras são de praia entre árvores.
O meu volante branco.
Este grande pé de terra, eira do vento.
Sóbrio bêbedo de nua fronte aérea.
Aterro entre casas altas caixas.
Verde leve brincos trémulos verde.
Alegre de fogachos.
820
António Ramos Rosa
Volante Branco
Percorro as ruas contra o sol
numa dança fácil.
As pedras são de praia entre árvores.
O meu volante branco.
Este grande pé de terra, eira do vento.
Sóbrio bêbedo de nua fronte aérea.
Aterro entre casas altas caixas.
Verde leve brincos trémulos verde.
Alegre de fogachos.
numa dança fácil.
As pedras são de praia entre árvores.
O meu volante branco.
Este grande pé de terra, eira do vento.
Sóbrio bêbedo de nua fronte aérea.
Aterro entre casas altas caixas.
Verde leve brincos trémulos verde.
Alegre de fogachos.
820
António Ramos Rosa
Pássaro de Braque
Para ser mestre da cidade
em graça de voo de papel
e ter o sentido do gesso
nas asas rectangulares.
Pássaro duro amarrotado
vitória do pobre nu
que voa na evidência clara
do que pesado se levanta
papel e pedra certa
mais forte do que o céu
moves-te mão liberta
em graça de voo de papel
e ter o sentido do gesso
nas asas rectangulares.
Pássaro duro amarrotado
vitória do pobre nu
que voa na evidência clara
do que pesado se levanta
papel e pedra certa
mais forte do que o céu
moves-te mão liberta
965
António Ramos Rosa
Pássaro de Braque
Para ser mestre da cidade
em graça de voo de papel
e ter o sentido do gesso
nas asas rectangulares.
Pássaro duro amarrotado
vitória do pobre nu
que voa na evidência clara
do que pesado se levanta
papel e pedra certa
mais forte do que o céu
moves-te mão liberta
em graça de voo de papel
e ter o sentido do gesso
nas asas rectangulares.
Pássaro duro amarrotado
vitória do pobre nu
que voa na evidência clara
do que pesado se levanta
papel e pedra certa
mais forte do que o céu
moves-te mão liberta
965
António Ramos Rosa
Horizonte Imediato
Todos os dias me apoio em qualquer coisa
ando, como, esqueço
alguma coisa aprendo
e desaprendo
alguma coisa limpa nua grave
surge
ao lado passa
eu não sou este desejo
que às vezes arde
alto sobre o chão
ando, como, esqueço
alguma coisa aprendo
e desaprendo
alguma coisa limpa nua grave
surge
ao lado passa
eu não sou este desejo
que às vezes arde
alto sobre o chão
1 073
António Ramos Rosa
Através do Dia E da Rua
Para acordar no dia
na confusão real.
Lâmpadas, olhos fáceis.
Fachadas, pedras, faces.
Sou eu que componho a face
deste dia e desta rua.
Sou eu que componho a sombra
que no dia se esconde e rompe.
Sou eu que passo entre as árvores
do próprio dia que sou.
Não posso criar outro dia
nem outra rua.
E a sombra?
Sou eu a rua ou o dia
que arrasta a sombra?
Sou eu que passo pela rua
que comigo próprio caminha.
É a rua o dia em que passo.
É a sombra do próprio dia.
São árvores, pedras e livros
rompendo por entre os passos
na margem de um muro alto
com o vento a bater de frente.
Com o sangue a bater bem alto,
a sombra a bater no dia.
na confusão real.
Lâmpadas, olhos fáceis.
Fachadas, pedras, faces.
Sou eu que componho a face
deste dia e desta rua.
Sou eu que componho a sombra
que no dia se esconde e rompe.
Sou eu que passo entre as árvores
do próprio dia que sou.
Não posso criar outro dia
nem outra rua.
E a sombra?
Sou eu a rua ou o dia
que arrasta a sombra?
Sou eu que passo pela rua
que comigo próprio caminha.
É a rua o dia em que passo.
É a sombra do próprio dia.
São árvores, pedras e livros
rompendo por entre os passos
na margem de um muro alto
com o vento a bater de frente.
Com o sangue a bater bem alto,
a sombra a bater no dia.
534
António Ramos Rosa
Percursos
Atravesso a rua com o gosto do ar na língua, o silencioso pousar que me ergue do solo até à copa das árvores, o mar respirado, a sede entre o olhar e o tronco — estendo a mão para a terra, o ar: para rir entre as folhas na rua do ar.
Atravesso — alguma coisa (a folha/a mão) cai devagar, o corpo mais pequeno — em si — ligação firme da cabeça ao tronco — uma pequena mão moldando a nuca — ver como cego na corrente, descer agora — o momento em que a rua se abre.
Passo entre os que passam, sobre os que passam — consciência gostosa do ar com pequenas crepitações vegetais — o meu pulso bate, flui, retenho-me entre os muros numa febre de solidez consciente — ESTOU na corrente: sou um vivo: vejo o mar vertical.
A minha mão acaricia a esquina da rua: anónimo inexisto na corrente cega de mil olhos — a mão investe-me, retesa-me, osso em brasa, dilatada gota que se articula ao ritmo, à luz, à trepidação, à plenitude deste mar de inexistência, banho-me na mortalidade fluente: ar aglomerado inexisto único entre todos.
Atravesso — não rostos nem olhares — ritmo apenas, movimentos, deslizo como uma gota sem contactos, entre sinuosos sulcos que abro entre formas cegas que me ignoram — avanço cantando esta cegueira de pressa e massa movendo-se sem uma pausa, sem um MOMENTO para respirar, pequena gota que se eleva à alta abertura da rua, mão contida que se estende plana sobre o mar.
Atravesso — alguma coisa (a folha/a mão) cai devagar, o corpo mais pequeno — em si — ligação firme da cabeça ao tronco — uma pequena mão moldando a nuca — ver como cego na corrente, descer agora — o momento em que a rua se abre.
Passo entre os que passam, sobre os que passam — consciência gostosa do ar com pequenas crepitações vegetais — o meu pulso bate, flui, retenho-me entre os muros numa febre de solidez consciente — ESTOU na corrente: sou um vivo: vejo o mar vertical.
A minha mão acaricia a esquina da rua: anónimo inexisto na corrente cega de mil olhos — a mão investe-me, retesa-me, osso em brasa, dilatada gota que se articula ao ritmo, à luz, à trepidação, à plenitude deste mar de inexistência, banho-me na mortalidade fluente: ar aglomerado inexisto único entre todos.
Atravesso — não rostos nem olhares — ritmo apenas, movimentos, deslizo como uma gota sem contactos, entre sinuosos sulcos que abro entre formas cegas que me ignoram — avanço cantando esta cegueira de pressa e massa movendo-se sem uma pausa, sem um MOMENTO para respirar, pequena gota que se eleva à alta abertura da rua, mão contida que se estende plana sobre o mar.
1 209
António Ramos Rosa
Trielo de Poetas
A fonte e a escada. A fonte. E a escada.
No centro o terror ou a loucura. É uma alta árvore.
Este é o primeiro poeta.
O outro caminha no quarto. A cor pousa na página.
Leve. Ou na parede. A praia é extensa.
O terceiro vê um homem de costas. Lê anúncios.
O homem é mortal, caminha à chuva.
Um átrio rodopia na aldeia branca.
Sem o saber combatem entre si.
Por uma lâmpada. Um muro. Ou um zenabre.
Entre mulheres e plátanos traçam linhas
que se encontram em tufos negros, verdes.
Um dirá inocência. Inocência.
Outro dirá pedra ou braço. Pedra ou braço.
O terceiro seguirá ao longo da rua até ao fim da sua idade.
Três poetas que se ignoram e se conhecem.
Três léxicos. Um vermelho. Outro branco. Outro cinza.
Vermelho. Branco. Cinza.
Se um só poeta. Um só escrevesse o poema.
Vermelho branco cinza.
A fonte na parede. Alta no braço. A chuva
caminhando. O jornal aceso.
São três braços, três palavras numa página.
O mesmo fogo violento nos cabelos.
Um só pulso. Uma haste viva. Rompendo
da parede.
E o mesmo ventre. Ou o mesmo muro.
A boca da ausência
beijando as suas sílabas.
Ó poeta da tua idade e do esplendor do ventre
no centro flutuante a mesma lâmpada vazia
que as palavras acendem. As do jornal do dia.
Ó poeta das três idades.
O da lâmpada. O do ventre. O do jornal do dia.
Três da mesma idade. Ao pé da mesma árvore.
Um desfolha o vocabulário violento.
Outro pousa lentamente a mão na árvore.
O terceiro está ausente. As folhas secas rodopiam.
No centro o terror ou a loucura. É uma alta árvore.
Este é o primeiro poeta.
O outro caminha no quarto. A cor pousa na página.
Leve. Ou na parede. A praia é extensa.
O terceiro vê um homem de costas. Lê anúncios.
O homem é mortal, caminha à chuva.
Um átrio rodopia na aldeia branca.
Sem o saber combatem entre si.
Por uma lâmpada. Um muro. Ou um zenabre.
Entre mulheres e plátanos traçam linhas
que se encontram em tufos negros, verdes.
Um dirá inocência. Inocência.
Outro dirá pedra ou braço. Pedra ou braço.
O terceiro seguirá ao longo da rua até ao fim da sua idade.
Três poetas que se ignoram e se conhecem.
Três léxicos. Um vermelho. Outro branco. Outro cinza.
Vermelho. Branco. Cinza.
Se um só poeta. Um só escrevesse o poema.
Vermelho branco cinza.
A fonte na parede. Alta no braço. A chuva
caminhando. O jornal aceso.
São três braços, três palavras numa página.
O mesmo fogo violento nos cabelos.
Um só pulso. Uma haste viva. Rompendo
da parede.
E o mesmo ventre. Ou o mesmo muro.
A boca da ausência
beijando as suas sílabas.
Ó poeta da tua idade e do esplendor do ventre
no centro flutuante a mesma lâmpada vazia
que as palavras acendem. As do jornal do dia.
Ó poeta das três idades.
O da lâmpada. O do ventre. O do jornal do dia.
Três da mesma idade. Ao pé da mesma árvore.
Um desfolha o vocabulário violento.
Outro pousa lentamente a mão na árvore.
O terceiro está ausente. As folhas secas rodopiam.
1 155
António Ramos Rosa
Irradiação
ventre cavo donde parte a primeira sílaba com a redonda força aspirante
palpitação de abóbada até ao arco da cabeça
ampliação surda que a boca ritma de hausto em hausto
— volante que principia a girar
tensão — atenção no limite extensível campo plasmável
volante em punho
conduzo o corpo para a fonte corporal
as mãos jorram dos braços
o rosto nasce entre as mãos
as tenazes da nuca libertam a cabeça
as espáduas são duas ondas livres
posso descer à terra aos grãos do solo vivo
com as plantas dos pés adiro à terra
formo o meu corpo ao ritmo de todos os contactos
acaricio a casca rugosa de uma árvore
balanço como a árvore visível forma de respiração
moldo-me ao silêncio que se alia à luz
implanto-me dilato-me centro-me disperso-me
o meu amplexo amplia-se de círculo em círculo
nas largas avenidas contenho a trepidação
estou no centro do meu corpo e da cidade
a partir das raízes com as fibras mais tensas
circulo
em toda a parte.
palpitação de abóbada até ao arco da cabeça
ampliação surda que a boca ritma de hausto em hausto
— volante que principia a girar
tensão — atenção no limite extensível campo plasmável
volante em punho
conduzo o corpo para a fonte corporal
as mãos jorram dos braços
o rosto nasce entre as mãos
as tenazes da nuca libertam a cabeça
as espáduas são duas ondas livres
posso descer à terra aos grãos do solo vivo
com as plantas dos pés adiro à terra
formo o meu corpo ao ritmo de todos os contactos
acaricio a casca rugosa de uma árvore
balanço como a árvore visível forma de respiração
moldo-me ao silêncio que se alia à luz
implanto-me dilato-me centro-me disperso-me
o meu amplexo amplia-se de círculo em círculo
nas largas avenidas contenho a trepidação
estou no centro do meu corpo e da cidade
a partir das raízes com as fibras mais tensas
circulo
em toda a parte.
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