Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Fernando Pessoa
VIAGEM
VIAGEM
Sonhar um sonho é perder outro. Tristonho
Fito a ponte pesada e calma...
Cada sonho é um existir de outro sonho
Ó eterna desterrada em ti própria, ó minha alma!
Sinto em meu corpo mais conscientemente
O rodar estremecido do comboio. Pára?...
Com um como que intento intermitente
De (...) mal-roda, estaca. Numa estação, clara
De realidade e gente e movimento.
Olho p'ra fora... Cesso. Estagno em mim.
Resfolgar da máquina... Carícia de vento
Pela janela que se abre... Estou desatento...
Parar... seguir... parar... Isto é sem fim
Ó o horror da chegada! Ó horror. Ó nunca
chegares, ó ferro em trémulo seguir!
À margem da viagem prossegue... Trunca
A realidade, passa ao lado do ir
E pelo lado interior da Hora
Foge, usa a eternidade, vive...
Sobrevive ao momento (...) vai!
Suavemente... suavemente, mais suavemente e demora
(...) entra na gare... Range-se... estaca... É agora!
Tudo o que fui de sonho, o eu-outro que tive
Resvala-me pela alma... Negro declive
Resvala, some-se, para sempre se esvai
E da minha consciência um Eu que não obtive
Dentro em mim de mim cai.
Sonhar um sonho é perder outro. Tristonho
Fito a ponte pesada e calma...
Cada sonho é um existir de outro sonho
Ó eterna desterrada em ti própria, ó minha alma!
Sinto em meu corpo mais conscientemente
O rodar estremecido do comboio. Pára?...
Com um como que intento intermitente
De (...) mal-roda, estaca. Numa estação, clara
De realidade e gente e movimento.
Olho p'ra fora... Cesso. Estagno em mim.
Resfolgar da máquina... Carícia de vento
Pela janela que se abre... Estou desatento...
Parar... seguir... parar... Isto é sem fim
Ó o horror da chegada! Ó horror. Ó nunca
chegares, ó ferro em trémulo seguir!
À margem da viagem prossegue... Trunca
A realidade, passa ao lado do ir
E pelo lado interior da Hora
Foge, usa a eternidade, vive...
Sobrevive ao momento (...) vai!
Suavemente... suavemente, mais suavemente e demora
(...) entra na gare... Range-se... estaca... É agora!
Tudo o que fui de sonho, o eu-outro que tive
Resvala-me pela alma... Negro declive
Resvala, some-se, para sempre se esvai
E da minha consciência um Eu que não obtive
Dentro em mim de mim cai.
6 098
Fernando Pessoa
Tão pouco heráldica a vida!
Tão pouco heráldica a vida!
Tão sem tronos e ouropéis quotidianos!
Tão de si própria oca, tão do sentir-se despida
Afogai-me, ó ruído da acção, no som dos vossos oceanos!
Sede abençoados, (...) carros, comboios e trens
Respirar regular de fábricas, motores trementes a atroar
Com vossa crónica (...)
Sede abençoados, vós ocultais-me a mim...
Vós ocultais o silêncio real e inteiro da Hora
Vós despis de seu murmúrio o mistério
Aquele que dentro de mim quase grita, quase, quase chora
Dorme em vosso embalar férreo,
Levai-me para longe de eu saber que vida é que sinto
Enchei de banal e de material o meu ouvido vosso
A vida que eu vivo — ó (...) - é a vida que me minto
Só tenho aquilo que (...); só quero o que ter não posso.
Tão sem tronos e ouropéis quotidianos!
Tão de si própria oca, tão do sentir-se despida
Afogai-me, ó ruído da acção, no som dos vossos oceanos!
Sede abençoados, (...) carros, comboios e trens
Respirar regular de fábricas, motores trementes a atroar
Com vossa crónica (...)
Sede abençoados, vós ocultais-me a mim...
Vós ocultais o silêncio real e inteiro da Hora
Vós despis de seu murmúrio o mistério
Aquele que dentro de mim quase grita, quase, quase chora
Dorme em vosso embalar férreo,
Levai-me para longe de eu saber que vida é que sinto
Enchei de banal e de material o meu ouvido vosso
A vida que eu vivo — ó (...) - é a vida que me minto
Só tenho aquilo que (...); só quero o que ter não posso.
950
Fernando Pessoa
Tão pouco heráldica a vida!
Tão pouco heráldica a vida!
Tão sem tronos e ouropéis quotidianos!
Tão de si própria oca, tão do sentir-se despida
Afogai-me, ó ruído da acção, no som dos vossos oceanos!
Sede abençoados, (...) carros, comboios e trens
Respirar regular de fábricas, motores trementes a atroar
Com vossa crónica (...)
Sede abençoados, vós ocultais-me a mim...
Vós ocultais o silêncio real e inteiro da Hora
Vós despis de seu murmúrio o mistério
Aquele que dentro de mim quase grita, quase, quase chora
Dorme em vosso embalar férreo,
Levai-me para longe de eu saber que vida é que sinto
Enchei de banal e de material o meu ouvido vosso
A vida que eu vivo — ó (...) - é a vida que me minto
Só tenho aquilo que (...); só quero o que ter não posso.
Tão sem tronos e ouropéis quotidianos!
Tão de si própria oca, tão do sentir-se despida
Afogai-me, ó ruído da acção, no som dos vossos oceanos!
Sede abençoados, (...) carros, comboios e trens
Respirar regular de fábricas, motores trementes a atroar
Com vossa crónica (...)
Sede abençoados, vós ocultais-me a mim...
Vós ocultais o silêncio real e inteiro da Hora
Vós despis de seu murmúrio o mistério
Aquele que dentro de mim quase grita, quase, quase chora
Dorme em vosso embalar férreo,
Levai-me para longe de eu saber que vida é que sinto
Enchei de banal e de material o meu ouvido vosso
A vida que eu vivo — ó (...) - é a vida que me minto
Só tenho aquilo que (...); só quero o que ter não posso.
950
Fernando Pessoa
Quis que comigo vísseis
Quis que comigo vísseis
A sombra essencial, o abstracto fruto
Do inúmero universo. Mas, não fostes
Mais que uma luz extinta em noite densa
Um pampal sem fruto.
(...) — Que é pensar
Sem ser? poeta, o que pensa vive o que é,
E a raiz não medita.
A sombra essencial, o abstracto fruto
Do inúmero universo. Mas, não fostes
Mais que uma luz extinta em noite densa
Um pampal sem fruto.
(...) — Que é pensar
Sem ser? poeta, o que pensa vive o que é,
E a raiz não medita.
1 183
Fernando Pessoa
RONDEAU — I swore my love should never fall
I swore my love should never fall
For her, the one entrancing she;
I promised marriage, I recall,
And said none was more dear to me.
But soon this love began to fall,
And all her joy was turned to gall;
Till from the beak there came a call
To mind me that in times of glee
I swore.
At court all men she did enthrall,
Myself was left no room to crawl;
She won the case. When I did see
Five thousand was the hellish fee,
Why — hang it — then, confound it all,
I swore.
For her, the one entrancing she;
I promised marriage, I recall,
And said none was more dear to me.
But soon this love began to fall,
And all her joy was turned to gall;
Till from the beak there came a call
To mind me that in times of glee
I swore.
At court all men she did enthrall,
Myself was left no room to crawl;
She won the case. When I did see
Five thousand was the hellish fee,
Why — hang it — then, confound it all,
I swore.
1 343
Fernando Pessoa
RONDEAU — I swore my love should never fall
I swore my love should never fall
For her, the one entrancing she;
I promised marriage, I recall,
And said none was more dear to me.
But soon this love began to fall,
And all her joy was turned to gall;
Till from the beak there came a call
To mind me that in times of glee
I swore.
At court all men she did enthrall,
Myself was left no room to crawl;
She won the case. When I did see
Five thousand was the hellish fee,
Why — hang it — then, confound it all,
I swore.
For her, the one entrancing she;
I promised marriage, I recall,
And said none was more dear to me.
But soon this love began to fall,
And all her joy was turned to gall;
Till from the beak there came a call
To mind me that in times of glee
I swore.
At court all men she did enthrall,
Myself was left no room to crawl;
She won the case. When I did see
Five thousand was the hellish fee,
Why — hang it — then, confound it all,
I swore.
1 343
Fernando Pessoa
Levava eu um jarrinho
Levava eu um jarrinho
P’ra ir buscar vinho
Levava um tostão
P’ra comprar pão;
E levava uma fita
Para ir bonita.
Correu atrás
De mim um rapaz:
Foi o jarro p’ra o chão,
Perdi o tostão,
Rasgou-se-me a fita...
Vejam que desdita!
Se eu não levasse um jarrinho,
Nem fosse buscar vinho,
Nem trouxesse uma fita
Para ir bonita,
Nem corresse atrás
De mim um rapaz
Para ver o que eu fazia,
Nada disto acontecia.
P’ra ir buscar vinho
Levava um tostão
P’ra comprar pão;
E levava uma fita
Para ir bonita.
Correu atrás
De mim um rapaz:
Foi o jarro p’ra o chão,
Perdi o tostão,
Rasgou-se-me a fita...
Vejam que desdita!
Se eu não levasse um jarrinho,
Nem fosse buscar vinho,
Nem trouxesse uma fita
Para ir bonita,
Nem corresse atrás
De mim um rapaz
Para ver o que eu fazia,
Nada disto acontecia.
1 804
Fernando Pessoa
Tarda o verão. No campo tributário
Tarda o verão. No campo tributário
Da nossa esperança, não há sol bastante,
Nem se esperavam as que vêm, chuvas
Na estação, deslocadas.
Meu vão conhecimento do que vejo
Com o que é falso se contenta, a noite,
Em pouco dando à conclusão factícia
Do moribundo tudo.
Da nossa esperança, não há sol bastante,
Nem se esperavam as que vêm, chuvas
Na estação, deslocadas.
Meu vão conhecimento do que vejo
Com o que é falso se contenta, a noite,
Em pouco dando à conclusão factícia
Do moribundo tudo.
1 360
Fernando Pessoa
GOD'S EPITAPH
Here lies a tyrant whom some called a devil,
Snake-like his folds around our life he curled;
He's dead now, and the world hath no more evil,
Because there is no longer any world.
Snake-like his folds around our life he curled;
He's dead now, and the world hath no more evil,
Because there is no longer any world.
904
Fernando Pessoa
TO A MATERIALIST
Thou dost explain by Law the weaving
Of all the world, by Chance ruled ever.
I never thought Law was so living,
Nor did I deem Chance was so clever.
Of all the world, by Chance ruled ever.
I never thought Law was so living,
Nor did I deem Chance was so clever.
1 374
Fernando Pessoa
Débil no vício, débil na virtude
Débil no vício, débil na virtude
A humanidade débil, nem na fúria
Conhece mais que a norma.
Pares e diferentes nos regemos
Por uma norma própria, e inda que dura,
Será à liberdade.
Ser livre é ser a própria imposta norma
Igual a todos, salvo no amplo e duro
Mando e uso de si mesmo.
A humanidade débil, nem na fúria
Conhece mais que a norma.
Pares e diferentes nos regemos
Por uma norma própria, e inda que dura,
Será à liberdade.
Ser livre é ser a própria imposta norma
Igual a todos, salvo no amplo e duro
Mando e uso de si mesmo.
1 030
Fernando Pessoa
Débil no vício, débil na virtude
Débil no vício, débil na virtude
A humanidade débil, nem na fúria
Conhece mais que a norma.
Pares e diferentes nos regemos
Por uma norma própria, e inda que dura,
Será à liberdade.
Ser livre é ser a própria imposta norma
Igual a todos, salvo no amplo e duro
Mando e uso de si mesmo.
A humanidade débil, nem na fúria
Conhece mais que a norma.
Pares e diferentes nos regemos
Por uma norma própria, e inda que dura,
Será à liberdade.
Ser livre é ser a própria imposta norma
Igual a todos, salvo no amplo e duro
Mando e uso de si mesmo.
1 030
Fernando Pessoa
Lavadeira a bater roupa
Lavadeira a bater roupa
Na pedra que está na água,
Achas a minha mágoa pouca?
É muito tudo o que é mágoa.
Na pedra que está na água,
Achas a minha mágoa pouca?
É muito tudo o que é mágoa.
1 537
Fernando Pessoa
Sê lanterna, sê luz com vidro em torno,
Sê lanterna, sê luz com vidro em torno,
Porém o calor guarda.
Não poderão os ventos opressivos
Apagar tua luz;
Nem teu calor, disperso, irá ser frio
No inútil infinito.
Porém o calor guarda.
Não poderão os ventos opressivos
Apagar tua luz;
Nem teu calor, disperso, irá ser frio
No inútil infinito.
4 710
Fernando Pessoa
Não há verdade na vida
Não há verdade na vida
Que se não diga a mentir.
Há quem apresse a subida
Para descer a sorrir.
Que se não diga a mentir.
Há quem apresse a subida
Para descer a sorrir.
1 839
Fernando Pessoa
Para quê complicar inutilmente,
Para quê complicar inutilmente,
Pensando, o que impensado existe? Nascem
Ervas sem razão dada —
Para elas olhos, não razões, tenhamos.
Como através de um rio as contemplemos.
Pensando, o que impensado existe? Nascem
Ervas sem razão dada —
Para elas olhos, não razões, tenhamos.
Como através de um rio as contemplemos.
1 473
Fernando Pessoa
O anel dado ao mendigo é injúria, e a sorte
O anel dado ao mendigo é injúria, e a sorte
Dada a quem pensa é infâmia, que quem pensa —
Quer verdade, e não sorte.
Como um mendigo a quem é dado o nome
De rei, não come dele, mas do prato
Do rei, minha esperança
Da razão que lia em tê-la se alimenta
E não do que deseja.
Dada a quem pensa é infâmia, que quem pensa —
Quer verdade, e não sorte.
Como um mendigo a quem é dado o nome
De rei, não come dele, mas do prato
Do rei, minha esperança
Da razão que lia em tê-la se alimenta
E não do que deseja.
1 594
Fernando Pessoa
O anel dado ao mendigo é injúria, e a sorte
O anel dado ao mendigo é injúria, e a sorte
Dada a quem pensa é infâmia, que quem pensa —
Quer verdade, e não sorte.
Como um mendigo a quem é dado o nome
De rei, não come dele, mas do prato
Do rei, minha esperança
Da razão que lia em tê-la se alimenta
E não do que deseja.
Dada a quem pensa é infâmia, que quem pensa —
Quer verdade, e não sorte.
Como um mendigo a quem é dado o nome
De rei, não come dele, mas do prato
Do rei, minha esperança
Da razão que lia em tê-la se alimenta
E não do que deseja.
1 594
Fernando Pessoa
O rosário da vontade,
O rosário da vontade,
Rezei-o trocado e a esmo.
Se vens dizer-me a verdade,
Vê lá bem se é isso mesmo.
Rezei-o trocado e a esmo.
Se vens dizer-me a verdade,
Vê lá bem se é isso mesmo.
1 242
Fernando Pessoa
Descasquei o camarão,
Descasquei o camarão,
Tirei-lhe a cabeça toda.
Quando o amor não tem razão
É que o amor incomoda.
Tirei-lhe a cabeça toda.
Quando o amor não tem razão
É que o amor incomoda.
2 471
Fernando Pessoa
Quando te vais a deitar
Quando te vais a deitar
Não sei se rezas se não.
Devias sempre rezar
E sempre a pedir perdão.
Não sei se rezas se não.
Devias sempre rezar
E sempre a pedir perdão.
1 294
Fernando Pessoa
Pobre Espanha, já sem ter
Pobre Espanha, já sem ter
Alma onde ser!
Fragmento sobrevivente
De ti mesma, ente
De te perder!
Relembremos na hora
Em que em ti chora
O que não ouves em ti,
Aquele que foi
O herói em si
Do que em ti se perdeu de herói.
Fidalgo que toda a alma deu
Ao Rei e à Grei que o perdeu
No incêndio da hora estranha,
Saibamo-lo, alheios mas homens, chorar,
Com quem a alma da fidalguia da Espanha
Foi a enterrar.
Alma onde ser!
Fragmento sobrevivente
De ti mesma, ente
De te perder!
Relembremos na hora
Em que em ti chora
O que não ouves em ti,
Aquele que foi
O herói em si
Do que em ti se perdeu de herói.
Fidalgo que toda a alma deu
Ao Rei e à Grei que o perdeu
No incêndio da hora estranha,
Saibamo-lo, alheios mas homens, chorar,
Com quem a alma da fidalguia da Espanha
Foi a enterrar.
1 557
Fernando Pessoa
14 - Fierce dreams of something else!
Fierce dreams of something else!
Frenzy to go away
(O wave in me that swells!)
From life, where life must stay -
Life ever at to‑day!
Some other place and thing!
Not a life! not mine so!
O to be a wind, a wing.
A bark me there to bring!
Whither? If I could know,
I would not wish to go.
Frenzy to go away
(O wave in me that swells!)
From life, where life must stay -
Life ever at to‑day!
Some other place and thing!
Not a life! not mine so!
O to be a wind, a wing.
A bark me there to bring!
Whither? If I could know,
I would not wish to go.
1 271