Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Fernando Pessoa
Não digas mal de ninguém,
Não digas mal de ninguém,
Que é de ti que dizes mal.
Quando dizes mal de alguém
Tudo no mundo é igual.
Que é de ti que dizes mal.
Quando dizes mal de alguém
Tudo no mundo é igual.
1 860
Fernando Pessoa
Não digas mal de ninguém,
Não digas mal de ninguém,
Que é de ti que dizes mal.
Quando dizes mal de alguém
Tudo no mundo é igual.
Que é de ti que dizes mal.
Quando dizes mal de alguém
Tudo no mundo é igual.
1 860
Fernando Pessoa
RONDEAU - Faz noite em meu coração.
Faz noite em meu coração.
Tenho sono de dormir.
Já me esqueci do porvir.
Não demorem muito, então!
Que o Bi fez chichi no chão.
Não precisam consentir.
Basta-lhe só comichão.
Na cara esfregou o pão
E a manteiga no sorrir,
E fez um chichi no chão.
Vendo bem, e com razão,
Onde o faria? (Advertir
Que o penico é para rir)
No tecto? Claro que não.
O Bi fez chichi no chão.
Envoy
Princesa, este mundo a ir
Para o nada é um sonho vão.
Mande uma (com um esfregão)
Dama de honor aqui vir
Que o Bi fez chichi no chão.
Tenho sono de dormir.
Já me esqueci do porvir.
Não demorem muito, então!
Que o Bi fez chichi no chão.
Não precisam consentir.
Basta-lhe só comichão.
Na cara esfregou o pão
E a manteiga no sorrir,
E fez um chichi no chão.
Vendo bem, e com razão,
Onde o faria? (Advertir
Que o penico é para rir)
No tecto? Claro que não.
O Bi fez chichi no chão.
Envoy
Princesa, este mundo a ir
Para o nada é um sonho vão.
Mande uma (com um esfregão)
Dama de honor aqui vir
Que o Bi fez chichi no chão.
1 362
Fernando Pessoa
O Íbis, ave do Egipto,
O Íbis, ave do Egipto,
Pousa sempre sobre um pé
(O que é
Esquisito).
É uma ave sossegada
Porque assim não anda nada.
Uma cegonha parece
Porque é uma cegonha.
Sonha
E esquece —
Propriedade notável
De toda ave aviável.
Quando vejo esta Lisboa,
Digo sempre, Ah quem me dera
(E essa era
Boa)
Ser um íbis esquisito,
Ou pelo menos estar no Egipto.
Pousa sempre sobre um pé
(O que é
Esquisito).
É uma ave sossegada
Porque assim não anda nada.
Uma cegonha parece
Porque é uma cegonha.
Sonha
E esquece —
Propriedade notável
De toda ave aviável.
Quando vejo esta Lisboa,
Digo sempre, Ah quem me dera
(E essa era
Boa)
Ser um íbis esquisito,
Ou pelo menos estar no Egipto.
1 420
Fernando Pessoa
É Carnaval, e estão as ruas cheias
É Carnaval, e estão as ruas cheias
De gente que conserva a sensação,
Tenho intenções, pensamento, ideias,
Mas não posso ter máscara nem pão.
Esta gente é igual, eu sou diverso —
Mesmo entre os poetas não me aceitariam.
Às vezes nem sequer ponho isto em verso —
E o que digo, eles nunca assim diriam.
Que pouca gente a muita gente aqui!
Estou cansado, com cérebro e cansaço.
Vejo isto, e fico, extremamente aqui
Sozinho com o tempo e com o espaço.
Detrás de máscaras nosso ser espreita,
Detrás de bocas um mistério acode
Que meus versos anódinos enjeita.
Sou maior ou menor? Com mãos e pés
E boca falo e mexo-me no mundo.
Hoje, que todos são máscaras, és
Um ser máscara-gestos, em tão fundo...
De gente que conserva a sensação,
Tenho intenções, pensamento, ideias,
Mas não posso ter máscara nem pão.
Esta gente é igual, eu sou diverso —
Mesmo entre os poetas não me aceitariam.
Às vezes nem sequer ponho isto em verso —
E o que digo, eles nunca assim diriam.
Que pouca gente a muita gente aqui!
Estou cansado, com cérebro e cansaço.
Vejo isto, e fico, extremamente aqui
Sozinho com o tempo e com o espaço.
Detrás de máscaras nosso ser espreita,
Detrás de bocas um mistério acode
Que meus versos anódinos enjeita.
Sou maior ou menor? Com mãos e pés
E boca falo e mexo-me no mundo.
Hoje, que todos são máscaras, és
Um ser máscara-gestos, em tão fundo...
1 208
Fernando Pessoa
É Carnaval, e estão as ruas cheias
É Carnaval, e estão as ruas cheias
De gente que conserva a sensação,
Tenho intenções, pensamento, ideias,
Mas não posso ter máscara nem pão.
Esta gente é igual, eu sou diverso —
Mesmo entre os poetas não me aceitariam.
Às vezes nem sequer ponho isto em verso —
E o que digo, eles nunca assim diriam.
Que pouca gente a muita gente aqui!
Estou cansado, com cérebro e cansaço.
Vejo isto, e fico, extremamente aqui
Sozinho com o tempo e com o espaço.
Detrás de máscaras nosso ser espreita,
Detrás de bocas um mistério acode
Que meus versos anódinos enjeita.
Sou maior ou menor? Com mãos e pés
E boca falo e mexo-me no mundo.
Hoje, que todos são máscaras, és
Um ser máscara-gestos, em tão fundo...
De gente que conserva a sensação,
Tenho intenções, pensamento, ideias,
Mas não posso ter máscara nem pão.
Esta gente é igual, eu sou diverso —
Mesmo entre os poetas não me aceitariam.
Às vezes nem sequer ponho isto em verso —
E o que digo, eles nunca assim diriam.
Que pouca gente a muita gente aqui!
Estou cansado, com cérebro e cansaço.
Vejo isto, e fico, extremamente aqui
Sozinho com o tempo e com o espaço.
Detrás de máscaras nosso ser espreita,
Detrás de bocas um mistério acode
Que meus versos anódinos enjeita.
Sou maior ou menor? Com mãos e pés
E boca falo e mexo-me no mundo.
Hoje, que todos são máscaras, és
Um ser máscara-gestos, em tão fundo...
1 208
Fernando Pessoa
Saber? Que sei eu?
Saber? Que sei eu?
Pensar é descrer.
— Leve e azul é o céu —
Tudo é tão difícil
De compreender!...
A ciência, uma fada
Num conto de louco...
— A luz é lavada —
Como o que nós vemos
É nítido e pouco!
Que sei eu que abrande
Meu anseio fundo?
Ó céu real e grande,
Não saber o modo
De pensar o mundo!
Pensar é descrer.
— Leve e azul é o céu —
Tudo é tão difícil
De compreender!...
A ciência, uma fada
Num conto de louco...
— A luz é lavada —
Como o que nós vemos
É nítido e pouco!
Que sei eu que abrande
Meu anseio fundo?
Ó céu real e grande,
Não saber o modo
De pensar o mundo!
1 643
Fernando Pessoa
Não, não vos disse... A essência inatingível
Não, não vos disse... A essência inatingível
Da profusão das cousas, a substância
Lógica e (...) do caos dos seres,
Furta-se até a si mesma. Se entendeste
Neste ou naquele modo o que vos disse,
Não o entendestes que lhe falta o modo
Per que se entenda.
Da profusão das cousas, a substância
Lógica e (...) do caos dos seres,
Furta-se até a si mesma. Se entendeste
Neste ou naquele modo o que vos disse,
Não o entendestes que lhe falta o modo
Per que se entenda.
903
Fernando Pessoa
ELEGY
On the marriage of my dear friend Mr. Jinks
(but which may with equal aptness be applied
to the marriage of many other gentlemen)
I
Ye nymphs whose beauties all your hills
Adorn,
Embodied graces of the sun‑traced rills,
Mourn;
For gentle Corydon henceforth,
In this hard world where all must pass,
Will feel as icy as the North.
Alas!
II
Ah, Corydon! Ah, Corydon!
And hast thou left all happiness,
Immoraled joy and whiskied liberty?
Ah, Corydon!
Great is our distress.
And art thou no more free?
Bars shall be useless now. Alas! in vain
The music‑hall shall ring with voices known,
In vain the horse shall course the plain
And the struck sparrer groan.
And dogs and beasts and women,
And brandy, gin and wine,
And brutish brutes and human -
Oh, say, shall all these joys no more be thine?
lll
Ah, frailness of mankind!
Thou who didst laugh at woman and didst hold
Thyself superior, now, alas! wilt find,
Amid thy waning joy and waning gold,
Thou learnedst in a sorry school
That taught thee to disdain
The seeming‑tender being whose dread rule
Shall now wreak on thee horrid pain.
Too late now wilt thou learn, too late,
When thy voice is low and humble thy gait,
When thy soul is crushed and thy dress sedate,
The greatest of all ills the gods on humans rain.
IV
Ah, what avails all mourning? Thou art gone
From life and youth and gaudy loveliness,
From that deep rest that men call drunkenness.
Ah, Corydon! Ah, Corydon!
Thou the first hope of all our race
Hast left the blessed paths of peace and love.
Ah, wilt thou be content to rove
From shop to shop with her, thy mother‑in‑law,
Or tremble full to hear at night,
With horror deep and deep affright.
The wordy torrent from thy spouse's jaw?
V
Oh, the troubles to come to thee can ever I dare name?
To work in the day, and at night to walk the bedroom's length,
On a seeming‑heavy baby to waste thy seeming‑waning strength,
And as the husband of thy wife to reach the light of fame.
Now my voice is broke with weeping, and mine eyes red, as with sand,
And my spirit worn with sighing, and with sighing worn my breast
Ah, farewell, that thou art gone now to the dreaded obscure land
Where the wicked cease from troubling and the weary never rest.
(but which may with equal aptness be applied
to the marriage of many other gentlemen)
I
Ye nymphs whose beauties all your hills
Adorn,
Embodied graces of the sun‑traced rills,
Mourn;
For gentle Corydon henceforth,
In this hard world where all must pass,
Will feel as icy as the North.
Alas!
II
Ah, Corydon! Ah, Corydon!
And hast thou left all happiness,
Immoraled joy and whiskied liberty?
Ah, Corydon!
Great is our distress.
And art thou no more free?
Bars shall be useless now. Alas! in vain
The music‑hall shall ring with voices known,
In vain the horse shall course the plain
And the struck sparrer groan.
And dogs and beasts and women,
And brandy, gin and wine,
And brutish brutes and human -
Oh, say, shall all these joys no more be thine?
lll
Ah, frailness of mankind!
Thou who didst laugh at woman and didst hold
Thyself superior, now, alas! wilt find,
Amid thy waning joy and waning gold,
Thou learnedst in a sorry school
That taught thee to disdain
The seeming‑tender being whose dread rule
Shall now wreak on thee horrid pain.
Too late now wilt thou learn, too late,
When thy voice is low and humble thy gait,
When thy soul is crushed and thy dress sedate,
The greatest of all ills the gods on humans rain.
IV
Ah, what avails all mourning? Thou art gone
From life and youth and gaudy loveliness,
From that deep rest that men call drunkenness.
Ah, Corydon! Ah, Corydon!
Thou the first hope of all our race
Hast left the blessed paths of peace and love.
Ah, wilt thou be content to rove
From shop to shop with her, thy mother‑in‑law,
Or tremble full to hear at night,
With horror deep and deep affright.
The wordy torrent from thy spouse's jaw?
V
Oh, the troubles to come to thee can ever I dare name?
To work in the day, and at night to walk the bedroom's length,
On a seeming‑heavy baby to waste thy seeming‑waning strength,
And as the husband of thy wife to reach the light of fame.
Now my voice is broke with weeping, and mine eyes red, as with sand,
And my spirit worn with sighing, and with sighing worn my breast
Ah, farewell, that thou art gone now to the dreaded obscure land
Where the wicked cease from troubling and the weary never rest.
1 737
Fernando Pessoa
Tão pouco heráldica a vida!
Tão pouco heráldica a vida!
Tão sem tronos e ouropéis quotidianos!
Tão de si própria oca, tão do sentir-se despida
Afogai-me, ó ruído da acção, no som dos vossos oceanos!
Sede abençoados, (...) carros, comboios e trens
Respirar regular de fábricas, motores trementes a atroar
Com vossa crónica (...)
Sede abençoados, vós ocultais-me a mim...
Vós ocultais o silêncio real e inteiro da Hora
Vós despis de seu murmúrio o mistério
Aquele que dentro de mim quase grita, quase, quase chora
Dorme em vosso embalar férreo,
Levai-me para longe de eu saber que vida é que sinto
Enchei de banal e de material o meu ouvido vosso
A vida que eu vivo — ó (...) - é a vida que me minto
Só tenho aquilo que (...); só quero o que ter não posso.
Tão sem tronos e ouropéis quotidianos!
Tão de si própria oca, tão do sentir-se despida
Afogai-me, ó ruído da acção, no som dos vossos oceanos!
Sede abençoados, (...) carros, comboios e trens
Respirar regular de fábricas, motores trementes a atroar
Com vossa crónica (...)
Sede abençoados, vós ocultais-me a mim...
Vós ocultais o silêncio real e inteiro da Hora
Vós despis de seu murmúrio o mistério
Aquele que dentro de mim quase grita, quase, quase chora
Dorme em vosso embalar férreo,
Levai-me para longe de eu saber que vida é que sinto
Enchei de banal e de material o meu ouvido vosso
A vida que eu vivo — ó (...) - é a vida que me minto
Só tenho aquilo que (...); só quero o que ter não posso.
956
Fernando Pessoa
Tão pouco heráldica a vida!
Tão pouco heráldica a vida!
Tão sem tronos e ouropéis quotidianos!
Tão de si própria oca, tão do sentir-se despida
Afogai-me, ó ruído da acção, no som dos vossos oceanos!
Sede abençoados, (...) carros, comboios e trens
Respirar regular de fábricas, motores trementes a atroar
Com vossa crónica (...)
Sede abençoados, vós ocultais-me a mim...
Vós ocultais o silêncio real e inteiro da Hora
Vós despis de seu murmúrio o mistério
Aquele que dentro de mim quase grita, quase, quase chora
Dorme em vosso embalar férreo,
Levai-me para longe de eu saber que vida é que sinto
Enchei de banal e de material o meu ouvido vosso
A vida que eu vivo — ó (...) - é a vida que me minto
Só tenho aquilo que (...); só quero o que ter não posso.
Tão sem tronos e ouropéis quotidianos!
Tão de si própria oca, tão do sentir-se despida
Afogai-me, ó ruído da acção, no som dos vossos oceanos!
Sede abençoados, (...) carros, comboios e trens
Respirar regular de fábricas, motores trementes a atroar
Com vossa crónica (...)
Sede abençoados, vós ocultais-me a mim...
Vós ocultais o silêncio real e inteiro da Hora
Vós despis de seu murmúrio o mistério
Aquele que dentro de mim quase grita, quase, quase chora
Dorme em vosso embalar férreo,
Levai-me para longe de eu saber que vida é que sinto
Enchei de banal e de material o meu ouvido vosso
A vida que eu vivo — ó (...) - é a vida que me minto
Só tenho aquilo que (...); só quero o que ter não posso.
956
Fernando Pessoa
VIAGEM
VIAGEM
Sonhar um sonho é perder outro. Tristonho
Fito a ponte pesada e calma...
Cada sonho é um existir de outro sonho
Ó eterna desterrada em ti própria, ó minha alma!
Sinto em meu corpo mais conscientemente
O rodar estremecido do comboio. Pára?...
Com um como que intento intermitente
De (...) mal-roda, estaca. Numa estação, clara
De realidade e gente e movimento.
Olho p'ra fora... Cesso. Estagno em mim.
Resfolgar da máquina... Carícia de vento
Pela janela que se abre... Estou desatento...
Parar... seguir... parar... Isto é sem fim
Ó o horror da chegada! Ó horror. Ó nunca
chegares, ó ferro em trémulo seguir!
À margem da viagem prossegue... Trunca
A realidade, passa ao lado do ir
E pelo lado interior da Hora
Foge, usa a eternidade, vive...
Sobrevive ao momento (...) vai!
Suavemente... suavemente, mais suavemente e demora
(...) entra na gare... Range-se... estaca... É agora!
Tudo o que fui de sonho, o eu-outro que tive
Resvala-me pela alma... Negro declive
Resvala, some-se, para sempre se esvai
E da minha consciência um Eu que não obtive
Dentro em mim de mim cai.
Sonhar um sonho é perder outro. Tristonho
Fito a ponte pesada e calma...
Cada sonho é um existir de outro sonho
Ó eterna desterrada em ti própria, ó minha alma!
Sinto em meu corpo mais conscientemente
O rodar estremecido do comboio. Pára?...
Com um como que intento intermitente
De (...) mal-roda, estaca. Numa estação, clara
De realidade e gente e movimento.
Olho p'ra fora... Cesso. Estagno em mim.
Resfolgar da máquina... Carícia de vento
Pela janela que se abre... Estou desatento...
Parar... seguir... parar... Isto é sem fim
Ó o horror da chegada! Ó horror. Ó nunca
chegares, ó ferro em trémulo seguir!
À margem da viagem prossegue... Trunca
A realidade, passa ao lado do ir
E pelo lado interior da Hora
Foge, usa a eternidade, vive...
Sobrevive ao momento (...) vai!
Suavemente... suavemente, mais suavemente e demora
(...) entra na gare... Range-se... estaca... É agora!
Tudo o que fui de sonho, o eu-outro que tive
Resvala-me pela alma... Negro declive
Resvala, some-se, para sempre se esvai
E da minha consciência um Eu que não obtive
Dentro em mim de mim cai.
6 123
Fernando Pessoa
Lentidão dos vapores pelo mar...
Lentidão dos vapores pelo mar...
Tanto que ver, tanto que abarcar.
No eterno presente da pupila
Ilhas ao longe, costas a despontar
Na imensidão oceânica e tranquila.
Mais depressa... Sigamos... Hoje é o real...
O momento embriaga... A alma esquece
Que existe no mover-se... Cais, carnal...
Para os botes no cais quem é que desce?
Que importa? Vamos! Tudo é tão real!
Quantas vidas que ignoro que me ignoram!
Passo por casas, fumo em chaminés
Interiores que adivinho! Choram
Em mim desejos lívidos resvés
Do tédio de ser isto aqui, e ali
Outro não-eu... Sigamos... Outras terras!
Quantas paisagens vivi!
Planícies! mares! serras
Ao longe! Pareceis com tanta curva,
Pinheirais! Igualdade das culturas!
Dias monótonos de chuva...
Noites de lua nova — canto de ruelas escuras
Antros... Dias de sol — de agasalho
De que o olhar abrasa e amodorrado
Mal tem espaço para desejar...
Campos cheios de vultos em trabalho
À sombra de um carvalho ali isolado
— Ah e eu passo! — um mendigo a descansar.
O longe! O além! O outro! A rota! Ir!
Ir absolutamente! ir entregadamente
Ir sem mais consciência de sentir
Que tem um suicida na corrente
Que passa a dor da morte na água a rir.
Sonho-desolação!
Ó meu desejo e tédio das viagens,
Cansado anseio do meu coração —
Cidades, brumas, margens
De rios desejadas para olhar...
Costa triste, ermo mar
Barulhando segredos,
Negrume cortiçado dos rochedos
D'onde pulsa chiando a espuma na água —
— Frio pela consciência dos meus nervos —
De não estar eu a ver-vos, ódio-mágoa!
Ó Tédio! só pensar estar a ver-vos...
Gozo gloriosamente estéril e oco
De encher de memórias de cidades,
De campos fugitivos, feitos pouco
Na fuga do comboio — sociedades
Só pensadas de velha bancarrota
Surpresas no olhar sobre colinas,
Rios sob pontes, águas instantâneas
Grandes cidades através neblinas
Fábricas — fumo e fragor — sonhos insónias...
Mares súbitos, através carruagens
Vistos por meu olhar sempre cansado
Tudo isto cansa, só de imaginado
Tenho em minha alma o tédio das viagens
Que quero eu ser? Eu que desejo querer?
Feche eu os olhos, e o comboio seja
Apenas um estremecimento a [encher?]
Meu corpo inerte, meu cérebro que nada deseja
E já não quer saber o que é viver...
Minuto exterior pulsando em mim
Minuciosamente, entreondulando
Numa oscilada indecisão sem fim
Meu corpo inerte... Sigo, recostando
Minha cabeça no vidro que me treme
De encontro à consciência o meu ser todo;
Para quê viajar? O tédio vai ao leme
De cada meu angustiado modo.
Por entre árvores — fumo...
Ó domésticos (...) escondidos!
Ó tédio... Ó dor... O vago é o meu rumo.
Viajo só pelos meus sentidos
Dói-me a monotonia dessa viagem...
Peso-me... Entreolho sem me levantar
Estações (...) ... [Campolides?]... Reagem
Inutilmente em mim desejos de gozar...
Tanto que ver, tanto que abarcar.
No eterno presente da pupila
Ilhas ao longe, costas a despontar
Na imensidão oceânica e tranquila.
Mais depressa... Sigamos... Hoje é o real...
O momento embriaga... A alma esquece
Que existe no mover-se... Cais, carnal...
Para os botes no cais quem é que desce?
Que importa? Vamos! Tudo é tão real!
Quantas vidas que ignoro que me ignoram!
Passo por casas, fumo em chaminés
Interiores que adivinho! Choram
Em mim desejos lívidos resvés
Do tédio de ser isto aqui, e ali
Outro não-eu... Sigamos... Outras terras!
Quantas paisagens vivi!
Planícies! mares! serras
Ao longe! Pareceis com tanta curva,
Pinheirais! Igualdade das culturas!
Dias monótonos de chuva...
Noites de lua nova — canto de ruelas escuras
Antros... Dias de sol — de agasalho
De que o olhar abrasa e amodorrado
Mal tem espaço para desejar...
Campos cheios de vultos em trabalho
À sombra de um carvalho ali isolado
— Ah e eu passo! — um mendigo a descansar.
O longe! O além! O outro! A rota! Ir!
Ir absolutamente! ir entregadamente
Ir sem mais consciência de sentir
Que tem um suicida na corrente
Que passa a dor da morte na água a rir.
Sonho-desolação!
Ó meu desejo e tédio das viagens,
Cansado anseio do meu coração —
Cidades, brumas, margens
De rios desejadas para olhar...
Costa triste, ermo mar
Barulhando segredos,
Negrume cortiçado dos rochedos
D'onde pulsa chiando a espuma na água —
— Frio pela consciência dos meus nervos —
De não estar eu a ver-vos, ódio-mágoa!
Ó Tédio! só pensar estar a ver-vos...
Gozo gloriosamente estéril e oco
De encher de memórias de cidades,
De campos fugitivos, feitos pouco
Na fuga do comboio — sociedades
Só pensadas de velha bancarrota
Surpresas no olhar sobre colinas,
Rios sob pontes, águas instantâneas
Grandes cidades através neblinas
Fábricas — fumo e fragor — sonhos insónias...
Mares súbitos, através carruagens
Vistos por meu olhar sempre cansado
Tudo isto cansa, só de imaginado
Tenho em minha alma o tédio das viagens
Que quero eu ser? Eu que desejo querer?
Feche eu os olhos, e o comboio seja
Apenas um estremecimento a [encher?]
Meu corpo inerte, meu cérebro que nada deseja
E já não quer saber o que é viver...
Minuto exterior pulsando em mim
Minuciosamente, entreondulando
Numa oscilada indecisão sem fim
Meu corpo inerte... Sigo, recostando
Minha cabeça no vidro que me treme
De encontro à consciência o meu ser todo;
Para quê viajar? O tédio vai ao leme
De cada meu angustiado modo.
Por entre árvores — fumo...
Ó domésticos (...) escondidos!
Ó tédio... Ó dor... O vago é o meu rumo.
Viajo só pelos meus sentidos
Dói-me a monotonia dessa viagem...
Peso-me... Entreolho sem me levantar
Estações (...) ... [Campolides?]... Reagem
Inutilmente em mim desejos de gozar...
1 424
Fernando Pessoa
RONDEAU — I swore my love should never fall
I swore my love should never fall
For her, the one entrancing she;
I promised marriage, I recall,
And said none was more dear to me.
But soon this love began to fall,
And all her joy was turned to gall;
Till from the beak there came a call
To mind me that in times of glee
I swore.
At court all men she did enthrall,
Myself was left no room to crawl;
She won the case. When I did see
Five thousand was the hellish fee,
Why — hang it — then, confound it all,
I swore.
For her, the one entrancing she;
I promised marriage, I recall,
And said none was more dear to me.
But soon this love began to fall,
And all her joy was turned to gall;
Till from the beak there came a call
To mind me that in times of glee
I swore.
At court all men she did enthrall,
Myself was left no room to crawl;
She won the case. When I did see
Five thousand was the hellish fee,
Why — hang it — then, confound it all,
I swore.
1 350
Fernando Pessoa
RONDEAU — I swore my love should never fall
I swore my love should never fall
For her, the one entrancing she;
I promised marriage, I recall,
And said none was more dear to me.
But soon this love began to fall,
And all her joy was turned to gall;
Till from the beak there came a call
To mind me that in times of glee
I swore.
At court all men she did enthrall,
Myself was left no room to crawl;
She won the case. When I did see
Five thousand was the hellish fee,
Why — hang it — then, confound it all,
I swore.
For her, the one entrancing she;
I promised marriage, I recall,
And said none was more dear to me.
But soon this love began to fall,
And all her joy was turned to gall;
Till from the beak there came a call
To mind me that in times of glee
I swore.
At court all men she did enthrall,
Myself was left no room to crawl;
She won the case. When I did see
Five thousand was the hellish fee,
Why — hang it — then, confound it all,
I swore.
1 350
Fernando Pessoa
GOD'S EPITAPH
Here lies a tyrant whom some called a devil,
Snake-like his folds around our life he curled;
He's dead now, and the world hath no more evil,
Because there is no longer any world.
Snake-like his folds around our life he curled;
He's dead now, and the world hath no more evil,
Because there is no longer any world.
919
Fernando Pessoa
Quis que comigo vísseis
Quis que comigo vísseis
A sombra essencial, o abstracto fruto
Do inúmero universo. Mas, não fostes
Mais que uma luz extinta em noite densa
Um pampal sem fruto.
(...) — Que é pensar
Sem ser? poeta, o que pensa vive o que é,
E a raiz não medita.
A sombra essencial, o abstracto fruto
Do inúmero universo. Mas, não fostes
Mais que uma luz extinta em noite densa
Um pampal sem fruto.
(...) — Que é pensar
Sem ser? poeta, o que pensa vive o que é,
E a raiz não medita.
1 189
Fernando Pessoa
TO A MATERIALIST
Thou dost explain by Law the weaving
Of all the world, by Chance ruled ever.
I never thought Law was so living,
Nor did I deem Chance was so clever.
Of all the world, by Chance ruled ever.
I never thought Law was so living,
Nor did I deem Chance was so clever.
1 386
Fernando Pessoa
Lavadeira a bater roupa
Lavadeira a bater roupa
Na pedra que está na água,
Achas a minha mágoa pouca?
É muito tudo o que é mágoa.
Na pedra que está na água,
Achas a minha mágoa pouca?
É muito tudo o que é mágoa.
1 553
Fernando Pessoa
Débil no vício, débil na virtude
Débil no vício, débil na virtude
A humanidade débil, nem na fúria
Conhece mais que a norma.
Pares e diferentes nos regemos
Por uma norma própria, e inda que dura,
Será à liberdade.
Ser livre é ser a própria imposta norma
Igual a todos, salvo no amplo e duro
Mando e uso de si mesmo.
A humanidade débil, nem na fúria
Conhece mais que a norma.
Pares e diferentes nos regemos
Por uma norma própria, e inda que dura,
Será à liberdade.
Ser livre é ser a própria imposta norma
Igual a todos, salvo no amplo e duro
Mando e uso de si mesmo.
1 045
Fernando Pessoa
Débil no vício, débil na virtude
Débil no vício, débil na virtude
A humanidade débil, nem na fúria
Conhece mais que a norma.
Pares e diferentes nos regemos
Por uma norma própria, e inda que dura,
Será à liberdade.
Ser livre é ser a própria imposta norma
Igual a todos, salvo no amplo e duro
Mando e uso de si mesmo.
A humanidade débil, nem na fúria
Conhece mais que a norma.
Pares e diferentes nos regemos
Por uma norma própria, e inda que dura,
Será à liberdade.
Ser livre é ser a própria imposta norma
Igual a todos, salvo no amplo e duro
Mando e uso de si mesmo.
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