Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Fernando Pessoa
Quando penso nas outras consciências
Quando penso nas outras consciências
E no mistério que contêm, de haver
Pluralidade de conscientes (pois
Una se afigura ao pensamento
A consciência) quando penso assim
Angustia-me logo o não poder
Penetrar nessas vidas e sentir
(Como não sei) as várias sensações
Das várias humanas personalidades:
Do guerreiro, da virgem, do (...)
Do sábio, do operário,
Da costureira, da rameira mesmo,
Do assassino, do homem das montanhas
De tudo e de todos. Atormenta-me
Uma necessidade de o saber
Que faz sorrir o pranto da minha alma.
O que pensarão eles, sentirão?
Eu quisera sabê-lo, conhecê-lo,
Perdendo e não perdendo este meu ser.
Curiosidade louca que se impõe
À minha (...) Todo mistério
Tento ver e cada um vai incompreensível
Rindo, rindo, chorando, cantando
Pelejando, sofrendo, enfim morrendo
Inconsciente do que leva em si,
Além da loucura.
E no mistério que contêm, de haver
Pluralidade de conscientes (pois
Una se afigura ao pensamento
A consciência) quando penso assim
Angustia-me logo o não poder
Penetrar nessas vidas e sentir
(Como não sei) as várias sensações
Das várias humanas personalidades:
Do guerreiro, da virgem, do (...)
Do sábio, do operário,
Da costureira, da rameira mesmo,
Do assassino, do homem das montanhas
De tudo e de todos. Atormenta-me
Uma necessidade de o saber
Que faz sorrir o pranto da minha alma.
O que pensarão eles, sentirão?
Eu quisera sabê-lo, conhecê-lo,
Perdendo e não perdendo este meu ser.
Curiosidade louca que se impõe
À minha (...) Todo mistério
Tento ver e cada um vai incompreensível
Rindo, rindo, chorando, cantando
Pelejando, sofrendo, enfim morrendo
Inconsciente do que leva em si,
Além da loucura.
1 284
Fernando Pessoa
ODE MARCIAL [e]
ODE MARCIAL
O que quer que seja que cria e mantém este mundo,
Se é gente, que sinta como gente, tenha piedade da gente!
E se não é nada, que o acaso, guiado ou vivo antes,
O esboroe na terra e acabe com esta dolorosa função.
A pensar em tudo, eu quero que tudo (...),
Pensar em tudo isto é doer-me a alma angustiadamente
E o ver isso é vermos melhor o que fazer ou poder.
O que quer que seja que cria e mantém este mundo,
Se é gente, que sinta como gente, tenha piedade da gente!
E se não é nada, que o acaso, guiado ou vivo antes,
O esboroe na terra e acabe com esta dolorosa função.
A pensar em tudo, eu quero que tudo (...),
Pensar em tudo isto é doer-me a alma angustiadamente
E o ver isso é vermos melhor o que fazer ou poder.
1 371
Fernando Pessoa
PRIEST AND HANGMAN
«Burn me that book well, hangman,
Burn it to the last leaf,
Put at the stake the apostate
Whose hand of truth was thief.
«Burn his house to the ground, man,
Starve his children and wife,
His friends disperse, dissever,
His followers put to the knife.
«His works, his books, his poems
To fire's oblivion fling;
Let ashes remain of all this.
Remains there anything?»
«Some that stand by on looking
Have tears within their eyes.»
«In the stake shall be their ending
And vain and lone their cries.»
«All's done, my lord.» - «Remaineth
There aught that was, of theirs?»
«Ashes» - «Throw them to the winds then;
Still aught of them appears?»
My lord, there still persisteth
The name they had of good.»
Trouble not; t'will be forgotten
As their ashes and their blood.»
«Nothing remaineth. - «My lord, yet
Aught can I not dispel:
Our name that will be ever
A curse and a living hell.»
We also shall be forgotten
As these shall cease to be.
What will remain then? - My lord, still
The name of Tyranny.»
«That also will remain not.»
«But the Cause of what we do,
Of this bad world will. «What thou meanest
My mind cannot construe.»
My lord, I mean 'tis useless
That all things be crushed and trod.
There will then stand out to be hated
The accursed name of God»
Burn it to the last leaf,
Put at the stake the apostate
Whose hand of truth was thief.
«Burn his house to the ground, man,
Starve his children and wife,
His friends disperse, dissever,
His followers put to the knife.
«His works, his books, his poems
To fire's oblivion fling;
Let ashes remain of all this.
Remains there anything?»
«Some that stand by on looking
Have tears within their eyes.»
«In the stake shall be their ending
And vain and lone their cries.»
«All's done, my lord.» - «Remaineth
There aught that was, of theirs?»
«Ashes» - «Throw them to the winds then;
Still aught of them appears?»
My lord, there still persisteth
The name they had of good.»
Trouble not; t'will be forgotten
As their ashes and their blood.»
«Nothing remaineth. - «My lord, yet
Aught can I not dispel:
Our name that will be ever
A curse and a living hell.»
We also shall be forgotten
As these shall cease to be.
What will remain then? - My lord, still
The name of Tyranny.»
«That also will remain not.»
«But the Cause of what we do,
Of this bad world will. «What thou meanest
My mind cannot construe.»
My lord, I mean 'tis useless
That all things be crushed and trod.
There will then stand out to be hated
The accursed name of God»
1 606
Fernando Pessoa
PRIEST AND HANGMAN
«Burn me that book well, hangman,
Burn it to the last leaf,
Put at the stake the apostate
Whose hand of truth was thief.
«Burn his house to the ground, man,
Starve his children and wife,
His friends disperse, dissever,
His followers put to the knife.
«His works, his books, his poems
To fire's oblivion fling;
Let ashes remain of all this.
Remains there anything?»
«Some that stand by on looking
Have tears within their eyes.»
«In the stake shall be their ending
And vain and lone their cries.»
«All's done, my lord.» - «Remaineth
There aught that was, of theirs?»
«Ashes» - «Throw them to the winds then;
Still aught of them appears?»
My lord, there still persisteth
The name they had of good.»
Trouble not; t'will be forgotten
As their ashes and their blood.»
«Nothing remaineth. - «My lord, yet
Aught can I not dispel:
Our name that will be ever
A curse and a living hell.»
We also shall be forgotten
As these shall cease to be.
What will remain then? - My lord, still
The name of Tyranny.»
«That also will remain not.»
«But the Cause of what we do,
Of this bad world will. «What thou meanest
My mind cannot construe.»
My lord, I mean 'tis useless
That all things be crushed and trod.
There will then stand out to be hated
The accursed name of God»
Burn it to the last leaf,
Put at the stake the apostate
Whose hand of truth was thief.
«Burn his house to the ground, man,
Starve his children and wife,
His friends disperse, dissever,
His followers put to the knife.
«His works, his books, his poems
To fire's oblivion fling;
Let ashes remain of all this.
Remains there anything?»
«Some that stand by on looking
Have tears within their eyes.»
«In the stake shall be their ending
And vain and lone their cries.»
«All's done, my lord.» - «Remaineth
There aught that was, of theirs?»
«Ashes» - «Throw them to the winds then;
Still aught of them appears?»
My lord, there still persisteth
The name they had of good.»
Trouble not; t'will be forgotten
As their ashes and their blood.»
«Nothing remaineth. - «My lord, yet
Aught can I not dispel:
Our name that will be ever
A curse and a living hell.»
We also shall be forgotten
As these shall cease to be.
What will remain then? - My lord, still
The name of Tyranny.»
«That also will remain not.»
«But the Cause of what we do,
Of this bad world will. «What thou meanest
My mind cannot construe.»
My lord, I mean 'tis useless
That all things be crushed and trod.
There will then stand out to be hated
The accursed name of God»
1 606
Fernando Pessoa
Quanto mais fundamente penso, mais
Quanto mais fundamente penso, mais
Profundamente me descompreendo.
O saber é a inconsciência de ignorar,
Mesmo quem sabe muito nada sabe.
Quanto mais fundamente penso, sim,
Mais fundamente me sinto ignorar,
Mais fundamente sinto alguma coisa
Além do que profundamente penso.
E é isto que dizer me faz: eu penso
Profundamente.
Profundamente me descompreendo.
O saber é a inconsciência de ignorar,
Mesmo quem sabe muito nada sabe.
Quanto mais fundamente penso, sim,
Mais fundamente me sinto ignorar,
Mais fundamente sinto alguma coisa
Além do que profundamente penso.
E é isto que dizer me faz: eu penso
Profundamente.
1 782
Fernando Pessoa
Foi numa das minhas viagens...
Foi numa das minhas viagens...
Era mar-alto e luar.
Cessara o ruído da noite a bordo.
Um a um grupo a grupo, recolheram-se os passageiros,
A banda era só uma estante que ficara a um canto não sei porquê...
Só na sala de fumo em silêncio jogava xadrez...
A vida soava pela porta aberta para a casa das máquinas.
Só... E um era uma alma nua diante do Universo...
(Ó minha vila natal em Portugal tão longe!
Porque não morri eu criança quando só te conhecia a ti?)
Ah. quando nos fazemos ao mar
Quando largamos da terra, quando a vamos perdendo de vista,
Quando tudo se vai enchendo de vento puramente marítimo,
Quando a costa se torna uma linha sombria,
Nessa linha cada vez mais vaga no anoitecer (pairam luzes) —
Ah então que alegria de liberdade para quem se sente.
Cessa de haver razão para existir socialmente.
Não há já razões para amar, odiar, dever,
Não há já leis, não há mágoas que tenham sabor humano...
Há só a Partida Abstracta, o movimento das águas
O movimento do afastamento, o som
Das ondas arrulhando à proa,
E uma grande paz intranquila entrando suave, no espírito.
Ah ter toda a minha vida
Fixa instavelmente num momento destes,
Ter todo o sentido da minha duração sobre a terra
Tornado um afastamento dessa costa onde deixei tudo —
Amores, irritações, tristezas, cumplicidades, deveres,
A angústia irrequieta dos remorsos,
A fadiga da inutilidade de tudo,
A saciedade até das coisas imaginadas,
A náusea, as luzes,
As pálpebras pesadas sobre a minha vida perdida...
Irei p'ra longe, p'ra longe! P'ra longe, ó barco sem causa,
Para a irresponsabilidade pré-histórica das águas eternas,
Para longe, p’ra sempre para longe, ó morte.
Quando [souber?] onde para longe e porque para longe, ó vida...
Era mar-alto e luar.
Cessara o ruído da noite a bordo.
Um a um grupo a grupo, recolheram-se os passageiros,
A banda era só uma estante que ficara a um canto não sei porquê...
Só na sala de fumo em silêncio jogava xadrez...
A vida soava pela porta aberta para a casa das máquinas.
Só... E um era uma alma nua diante do Universo...
(Ó minha vila natal em Portugal tão longe!
Porque não morri eu criança quando só te conhecia a ti?)
Ah. quando nos fazemos ao mar
Quando largamos da terra, quando a vamos perdendo de vista,
Quando tudo se vai enchendo de vento puramente marítimo,
Quando a costa se torna uma linha sombria,
Nessa linha cada vez mais vaga no anoitecer (pairam luzes) —
Ah então que alegria de liberdade para quem se sente.
Cessa de haver razão para existir socialmente.
Não há já razões para amar, odiar, dever,
Não há já leis, não há mágoas que tenham sabor humano...
Há só a Partida Abstracta, o movimento das águas
O movimento do afastamento, o som
Das ondas arrulhando à proa,
E uma grande paz intranquila entrando suave, no espírito.
Ah ter toda a minha vida
Fixa instavelmente num momento destes,
Ter todo o sentido da minha duração sobre a terra
Tornado um afastamento dessa costa onde deixei tudo —
Amores, irritações, tristezas, cumplicidades, deveres,
A angústia irrequieta dos remorsos,
A fadiga da inutilidade de tudo,
A saciedade até das coisas imaginadas,
A náusea, as luzes,
As pálpebras pesadas sobre a minha vida perdida...
Irei p'ra longe, p'ra longe! P'ra longe, ó barco sem causa,
Para a irresponsabilidade pré-histórica das águas eternas,
Para longe, p’ra sempre para longe, ó morte.
Quando [souber?] onde para longe e porque para longe, ó vida...
1 433
Fernando Pessoa
Foi numa das minhas viagens...
Foi numa das minhas viagens...
Era mar-alto e luar.
Cessara o ruído da noite a bordo.
Um a um grupo a grupo, recolheram-se os passageiros,
A banda era só uma estante que ficara a um canto não sei porquê...
Só na sala de fumo em silêncio jogava xadrez...
A vida soava pela porta aberta para a casa das máquinas.
Só... E um era uma alma nua diante do Universo...
(Ó minha vila natal em Portugal tão longe!
Porque não morri eu criança quando só te conhecia a ti?)
Ah. quando nos fazemos ao mar
Quando largamos da terra, quando a vamos perdendo de vista,
Quando tudo se vai enchendo de vento puramente marítimo,
Quando a costa se torna uma linha sombria,
Nessa linha cada vez mais vaga no anoitecer (pairam luzes) —
Ah então que alegria de liberdade para quem se sente.
Cessa de haver razão para existir socialmente.
Não há já razões para amar, odiar, dever,
Não há já leis, não há mágoas que tenham sabor humano...
Há só a Partida Abstracta, o movimento das águas
O movimento do afastamento, o som
Das ondas arrulhando à proa,
E uma grande paz intranquila entrando suave, no espírito.
Ah ter toda a minha vida
Fixa instavelmente num momento destes,
Ter todo o sentido da minha duração sobre a terra
Tornado um afastamento dessa costa onde deixei tudo —
Amores, irritações, tristezas, cumplicidades, deveres,
A angústia irrequieta dos remorsos,
A fadiga da inutilidade de tudo,
A saciedade até das coisas imaginadas,
A náusea, as luzes,
As pálpebras pesadas sobre a minha vida perdida...
Irei p'ra longe, p'ra longe! P'ra longe, ó barco sem causa,
Para a irresponsabilidade pré-histórica das águas eternas,
Para longe, p’ra sempre para longe, ó morte.
Quando [souber?] onde para longe e porque para longe, ó vida...
Era mar-alto e luar.
Cessara o ruído da noite a bordo.
Um a um grupo a grupo, recolheram-se os passageiros,
A banda era só uma estante que ficara a um canto não sei porquê...
Só na sala de fumo em silêncio jogava xadrez...
A vida soava pela porta aberta para a casa das máquinas.
Só... E um era uma alma nua diante do Universo...
(Ó minha vila natal em Portugal tão longe!
Porque não morri eu criança quando só te conhecia a ti?)
Ah. quando nos fazemos ao mar
Quando largamos da terra, quando a vamos perdendo de vista,
Quando tudo se vai enchendo de vento puramente marítimo,
Quando a costa se torna uma linha sombria,
Nessa linha cada vez mais vaga no anoitecer (pairam luzes) —
Ah então que alegria de liberdade para quem se sente.
Cessa de haver razão para existir socialmente.
Não há já razões para amar, odiar, dever,
Não há já leis, não há mágoas que tenham sabor humano...
Há só a Partida Abstracta, o movimento das águas
O movimento do afastamento, o som
Das ondas arrulhando à proa,
E uma grande paz intranquila entrando suave, no espírito.
Ah ter toda a minha vida
Fixa instavelmente num momento destes,
Ter todo o sentido da minha duração sobre a terra
Tornado um afastamento dessa costa onde deixei tudo —
Amores, irritações, tristezas, cumplicidades, deveres,
A angústia irrequieta dos remorsos,
A fadiga da inutilidade de tudo,
A saciedade até das coisas imaginadas,
A náusea, as luzes,
As pálpebras pesadas sobre a minha vida perdida...
Irei p'ra longe, p'ra longe! P'ra longe, ó barco sem causa,
Para a irresponsabilidade pré-histórica das águas eternas,
Para longe, p’ra sempre para longe, ó morte.
Quando [souber?] onde para longe e porque para longe, ó vida...
1 433
Fernando Pessoa
Com as malas feitas e tudo a bordo
Com as malas feitas e tudo a bordo
E nada mais a esperar da terra que deixamos,
Já com os trajes moles característicos dos viajantes, debruçados da amurada
Digamos adeus com um levantar da alegria ao que fica,
Adeus às afeições, e aos pensamentos domésticos, e às lareiras, e aos irmãos,
E enquanto se abre o espaço entre o navio lento e o cais
Gozemos uma grande esperança indefinida e arrepiada,
Uma trémula sensação de futuro.
Eis-nos a caminho, e quase a meio do rio
Aumenta a nitidez deixada na terra
Dos alpendres e dos guindastes ou das mercadorias descarregadas
E não é a nós, felizmente, que diz adeus aquela família
Aglomerada no extremo do cais, com um cuidado subjectivo e visível
De não cair dentro de água no meio da emoção.
Olhemos para os companheiros de bordo. Como são diversos!
Uns vão em trânsito. Não é com eles nenhuma destas despedidas.
Outros, com um ar palidamente sorridente de não querer chorar,
Acenam com um gesto deselegante e pouco afoito com os lenços
Para lenços que se acenam de outra gente que ficou no cais
No cais — ah reparem — subitamente tão mais longe do que notámos.
A amargura alegre da ida,
O sabor especial a começo de viagem marítima, a mistura com nossos sentidos
De cheiro das malas, de cheiro a navio, de cheiro a comida de bordo,
E a nossa alma é um composto confuso de cheiros e sabores
E tudo é a viagem indefinida que faremos vista através do paladar e do olfacto,
Tudo é a incerteza sensual da vida sentida pela espinha abaixo...
E nós não deixamos ninguém...
Se deixássemos, ah os lenços que lindos!, o navio que se afasta
Afastar-se-ia de mais do que da terra;
Afastava-se do nosso passado todo, de nós-mesmos, ficados no cais e aqui a caminho,
Do sentimento doméstico com que beijamos a nossa mãe,
Da alegria com que às vezes, brincando, arreliamos as nossas irmãs...
Partir! partir é viver excessivamente. O que é tudo senão partir...
Todos os dias do cais da nossa vida nos separamos, navios (...),
E vamos para o futuro como se fossemos para o Mistério,
Mas que sabemos nós para onde vamos, ó dor, e o que somos,
E que proteico e fluido Deus é tutelar das partidas?
Olha, de longe, já os guindastes ainda mexendo,
Olha as figuras no cais, negras figuras, manchadas de lenços que se acenam,
Olha os casarões de zinco ondulado dos cais e docas, às portas deles,
O sossego destacado e acostumado a isto dos empregados e dos carregadores...
Vai tal angústia, tão inexplicável angústia na minha alma,
Que não sei como têm coragem, vendo que eu grito assim, para estarem parados
No cais, tranquilamente os descarregadores e os guardas fiscais!
Bebedeira da vida... ligeiro nervoso nas nossas sensações...
Perturbação alcoólica dos nossos sentidos íntimos...
A nossa alma sai um pouco para fora do seu lugar
E as rodas da nossa vida quotidiana começam a cambalear como se fossem sair do eixo...
Pelo convés fora a gente que já está acostumada a estar aqui a bordo
Está alheia a isto e interessada contudo
(Ah [enquanto eu atirar meu directo olhar, nunca?] olhar tranquilo,
Fremem em mim os nervos vibrados de todos que vejo que sentem,
Correm-me dos olhos as lágrimas de todos que choram porque se separam,
Tenho nas mãos os gestos circulares de mãos saudosas já que acenam com lenços,
Sou todas as penas que toda esta gente tem de se ir embora...
Sou as esperanças que levam consigo e agora lhes fazem mais trémula a dor da partida,
Estou [...] por dentro deles todos, na roupa que compraram para a viagem,
Nos pequenos objectos que, na véspera («Lá me ia esquecendo» dizem, e era uma coisa inútil)
Compraram de noite numa loja feérica cheia de malas de couro e que ia fechar...
Ah, com todos os nervos de toda a gente, os meus nervos vibram...
E com os estremeções das máquinas do navio, e com o estralejar da bandeira ao vento
E com o túmido tremor das enxárcias e com o ondular dos toldos
E toda a minha alma é uma dolorosa vibração física em ritmos de mim).
Vida cosmopolita atirada aos quatro ventos...
Vida de tanta gente real a bordo de tantos navios...
Embriaguez de lidar com outra gente e saber que eles existem e têm vidas passadas, preparadas, gozadas,
Sofridas, e tão curioso o traje, interessante a moral, de cada pessoa,
E tão cheio de enigmas e de metafísicas o modo como falam, como riem, como arranjam o cabelo, como se entendem uns com os outros...
Sensação metafísica das outras pessoas e das suas realidades, e do seu décor...
Ó doença humanitária dos meus nervos vibrando cheios de outras pessoas,
Volúpia de gozar e sofrer através de hipóteses dos outros...
E eu ser só eu, só eu eternamente, e não ter outras vidas senão a minha!
Como se tocassem o fado de repente à meia-noite numa aldeia na América do Norte,
Um fatalismo metafísico com os nervos de toda a gente vibra em mim a cada momento
Quando reparo cosmopoliticamente nos outros, e ouço várias línguas
E vejo nos gestos e nos trajes — que parecem idênticos mas são tão diferentes — várias pátrias, vários costumes,
E entrevejo lares diversos, vidas comerciais complexas, amores desconhecidos, mas de cidades que desconheço,
Tudo como num animatógrafo num teatro do tamanho do Universo,
Onde se soubesse que acabava o mundo e saindo para fora,
Não há casa para onde se regresse, nem automóvel que nos leve para um lugar qualquer,
Mas a Noite Absoluta, e Deus talvez como uma Lua Enorme significando
IV
Profunda e religiosa solidão do indefinido Universo,
Vastidão enorme, nem larga nem alta nem comprida, mas só espaço, o constelado espaço
Deste mistério azul-negro e estrelado onde a terra é uma coisa
E as vidas aparecem como lanchas à superfície da água...
Raios de sol entrando pela janela entreaberta no quarto da casa de campo,
Meios-dias nas eiras abandonadas,
Tardes noites para encontros em outras margens de rios,
Fazei do nosso conseguimento natural um sossego, uma capa
E descei sobre a minha alma...
Vós, ó campos repousados e incivilizados
Vós ó rios tranquilamente passando por uma inquietação,
Vós ó jardins públicos às tardes visitados
Vós ó tanques de quintas, vós ó lareiras em solares,
E disperso arfar de sedas pretas o silêncio da noite.
E nada mais a esperar da terra que deixamos,
Já com os trajes moles característicos dos viajantes, debruçados da amurada
Digamos adeus com um levantar da alegria ao que fica,
Adeus às afeições, e aos pensamentos domésticos, e às lareiras, e aos irmãos,
E enquanto se abre o espaço entre o navio lento e o cais
Gozemos uma grande esperança indefinida e arrepiada,
Uma trémula sensação de futuro.
Eis-nos a caminho, e quase a meio do rio
Aumenta a nitidez deixada na terra
Dos alpendres e dos guindastes ou das mercadorias descarregadas
E não é a nós, felizmente, que diz adeus aquela família
Aglomerada no extremo do cais, com um cuidado subjectivo e visível
De não cair dentro de água no meio da emoção.
Olhemos para os companheiros de bordo. Como são diversos!
Uns vão em trânsito. Não é com eles nenhuma destas despedidas.
Outros, com um ar palidamente sorridente de não querer chorar,
Acenam com um gesto deselegante e pouco afoito com os lenços
Para lenços que se acenam de outra gente que ficou no cais
No cais — ah reparem — subitamente tão mais longe do que notámos.
A amargura alegre da ida,
O sabor especial a começo de viagem marítima, a mistura com nossos sentidos
De cheiro das malas, de cheiro a navio, de cheiro a comida de bordo,
E a nossa alma é um composto confuso de cheiros e sabores
E tudo é a viagem indefinida que faremos vista através do paladar e do olfacto,
Tudo é a incerteza sensual da vida sentida pela espinha abaixo...
E nós não deixamos ninguém...
Se deixássemos, ah os lenços que lindos!, o navio que se afasta
Afastar-se-ia de mais do que da terra;
Afastava-se do nosso passado todo, de nós-mesmos, ficados no cais e aqui a caminho,
Do sentimento doméstico com que beijamos a nossa mãe,
Da alegria com que às vezes, brincando, arreliamos as nossas irmãs...
Partir! partir é viver excessivamente. O que é tudo senão partir...
Todos os dias do cais da nossa vida nos separamos, navios (...),
E vamos para o futuro como se fossemos para o Mistério,
Mas que sabemos nós para onde vamos, ó dor, e o que somos,
E que proteico e fluido Deus é tutelar das partidas?
Olha, de longe, já os guindastes ainda mexendo,
Olha as figuras no cais, negras figuras, manchadas de lenços que se acenam,
Olha os casarões de zinco ondulado dos cais e docas, às portas deles,
O sossego destacado e acostumado a isto dos empregados e dos carregadores...
Vai tal angústia, tão inexplicável angústia na minha alma,
Que não sei como têm coragem, vendo que eu grito assim, para estarem parados
No cais, tranquilamente os descarregadores e os guardas fiscais!
Bebedeira da vida... ligeiro nervoso nas nossas sensações...
Perturbação alcoólica dos nossos sentidos íntimos...
A nossa alma sai um pouco para fora do seu lugar
E as rodas da nossa vida quotidiana começam a cambalear como se fossem sair do eixo...
Pelo convés fora a gente que já está acostumada a estar aqui a bordo
Está alheia a isto e interessada contudo
(Ah [enquanto eu atirar meu directo olhar, nunca?] olhar tranquilo,
Fremem em mim os nervos vibrados de todos que vejo que sentem,
Correm-me dos olhos as lágrimas de todos que choram porque se separam,
Tenho nas mãos os gestos circulares de mãos saudosas já que acenam com lenços,
Sou todas as penas que toda esta gente tem de se ir embora...
Sou as esperanças que levam consigo e agora lhes fazem mais trémula a dor da partida,
Estou [...] por dentro deles todos, na roupa que compraram para a viagem,
Nos pequenos objectos que, na véspera («Lá me ia esquecendo» dizem, e era uma coisa inútil)
Compraram de noite numa loja feérica cheia de malas de couro e que ia fechar...
Ah, com todos os nervos de toda a gente, os meus nervos vibram...
E com os estremeções das máquinas do navio, e com o estralejar da bandeira ao vento
E com o túmido tremor das enxárcias e com o ondular dos toldos
E toda a minha alma é uma dolorosa vibração física em ritmos de mim).
Vida cosmopolita atirada aos quatro ventos...
Vida de tanta gente real a bordo de tantos navios...
Embriaguez de lidar com outra gente e saber que eles existem e têm vidas passadas, preparadas, gozadas,
Sofridas, e tão curioso o traje, interessante a moral, de cada pessoa,
E tão cheio de enigmas e de metafísicas o modo como falam, como riem, como arranjam o cabelo, como se entendem uns com os outros...
Sensação metafísica das outras pessoas e das suas realidades, e do seu décor...
Ó doença humanitária dos meus nervos vibrando cheios de outras pessoas,
Volúpia de gozar e sofrer através de hipóteses dos outros...
E eu ser só eu, só eu eternamente, e não ter outras vidas senão a minha!
Como se tocassem o fado de repente à meia-noite numa aldeia na América do Norte,
Um fatalismo metafísico com os nervos de toda a gente vibra em mim a cada momento
Quando reparo cosmopoliticamente nos outros, e ouço várias línguas
E vejo nos gestos e nos trajes — que parecem idênticos mas são tão diferentes — várias pátrias, vários costumes,
E entrevejo lares diversos, vidas comerciais complexas, amores desconhecidos, mas de cidades que desconheço,
Tudo como num animatógrafo num teatro do tamanho do Universo,
Onde se soubesse que acabava o mundo e saindo para fora,
Não há casa para onde se regresse, nem automóvel que nos leve para um lugar qualquer,
Mas a Noite Absoluta, e Deus talvez como uma Lua Enorme significando
IV
Profunda e religiosa solidão do indefinido Universo,
Vastidão enorme, nem larga nem alta nem comprida, mas só espaço, o constelado espaço
Deste mistério azul-negro e estrelado onde a terra é uma coisa
E as vidas aparecem como lanchas à superfície da água...
Raios de sol entrando pela janela entreaberta no quarto da casa de campo,
Meios-dias nas eiras abandonadas,
Tardes noites para encontros em outras margens de rios,
Fazei do nosso conseguimento natural um sossego, uma capa
E descei sobre a minha alma...
Vós, ó campos repousados e incivilizados
Vós ó rios tranquilamente passando por uma inquietação,
Vós ó jardins públicos às tardes visitados
Vós ó tanques de quintas, vós ó lareiras em solares,
E disperso arfar de sedas pretas o silêncio da noite.
1 647
Fernando Pessoa
Não é o vício
Não é o vício
Nem a experiência que desflora a alma:
É só o pensamento. Há inocência
Em Nero mesmo e em Tibério louco
Porque há inconsciência. Só pensar
Desflora até ao íntimo do ser.
Este perpétuo analisar de tudo,
Este buscar duma nudez suprema
Raciocinada coerentemente,
É que tira a inocência verdadeira
Pela suprema consciência funda
De si, do mundo, de todos. Guarde, guarde
Fora do vício e do vil mundo além
Em gruta ou solidão o eremita;
Se o pensamento vir tudo
(...)
Pensar, pensar e não poder viver!
Pensar, sempre pensar, perenemente,
Sem poder ter mão nele! Ah eu sorrio
Quando às vezes eu noto o inconsciente
Riso vazio do bandido,
Rindo-se da inocência! Se ele soubesse
O que é perder a inocência toda...
Não a inocência vã do corpo ao olhar,
Ou vulgar e banal conhecimento,
Mas a inocência bela do viver;
De sentir — seja mesmo como ele
Esse (...) escravo do deboche-seja!
Sentir um sentir que abertamente
Se não ache vazio.
O Tédio! O Tédio quem me dera Tê-lo!
Se os (...)
Soubessem o que eu sinto. Eles não pensam
E eu... e eu...
Nem a experiência que desflora a alma:
É só o pensamento. Há inocência
Em Nero mesmo e em Tibério louco
Porque há inconsciência. Só pensar
Desflora até ao íntimo do ser.
Este perpétuo analisar de tudo,
Este buscar duma nudez suprema
Raciocinada coerentemente,
É que tira a inocência verdadeira
Pela suprema consciência funda
De si, do mundo, de todos. Guarde, guarde
Fora do vício e do vil mundo além
Em gruta ou solidão o eremita;
Se o pensamento vir tudo
(...)
Pensar, pensar e não poder viver!
Pensar, sempre pensar, perenemente,
Sem poder ter mão nele! Ah eu sorrio
Quando às vezes eu noto o inconsciente
Riso vazio do bandido,
Rindo-se da inocência! Se ele soubesse
O que é perder a inocência toda...
Não a inocência vã do corpo ao olhar,
Ou vulgar e banal conhecimento,
Mas a inocência bela do viver;
De sentir — seja mesmo como ele
Esse (...) escravo do deboche-seja!
Sentir um sentir que abertamente
Se não ache vazio.
O Tédio! O Tédio quem me dera Tê-lo!
Se os (...)
Soubessem o que eu sinto. Eles não pensam
E eu... e eu...
1 505
Fernando Pessoa
Ah, estranha vida a de bordo! Cada novo dia
Ah, estranha vida a de bordo! Cada novo dia
Raia mais novo e mais outro que cada dia na terra.
Ruído dos guindastes! Carga em transbordo! Energia
Das coisas (...)
(...) melodia
Para a minha alma que ante o Real o perde e o erra...
No mar, no navegar, — ruído de hélice eterno!
O tempo é outro tempo, o espaço é de outra largura
E cada costa que surge é um dia que raia e é terno
De oco o olhar que abrange a imensidão e nada possui,
E o respirar do ar
Raia mais novo e mais outro que cada dia na terra.
Ruído dos guindastes! Carga em transbordo! Energia
Das coisas (...)
(...) melodia
Para a minha alma que ante o Real o perde e o erra...
No mar, no navegar, — ruído de hélice eterno!
O tempo é outro tempo, o espaço é de outra largura
E cada costa que surge é um dia que raia e é terno
De oco o olhar que abrange a imensidão e nada possui,
E o respirar do ar
1 335
Fernando Pessoa
Cena da Taberna
— Doutor Fausto?
FAUSTO:
Sim.
— O Doutor Fausto?
FAUSTO:
O Doutor Fausto, sim: o que há em sê-lo?
— Nada, confesso-o a rir e acreditara-o
Pois o não vira, mas de vós diziam
Serdes versado em artes e matérias
Do mágico e (...) horror (...)
A rir o digo que vos vejo aqui
Entre nós e bebendo como nós.
FAUSTO:
Sim, assim é; quem como eu vivia
Aparte logra sempre a negra fama
De bruxo... Há em mim cousa que mostre
Conhecimento d'artes vis e negras
Ou sacerdócio escuro de Satan?
— Nada; olhando bem em vós só vejo
Algo de triste que não é tristeza
No vosso rosto e no vosso olhar
Há uma causa a menos ou a mais
Que em outro... Isto vejo, ou me parece.
Perguntastes-me e rindo respondi.
FAUSTO:
Agradeço-vos; traçastes-me retrato
Tão completo de bruxo
Que começo a ter medo de mim mesmo.
— Canta, oh Frederico
Aquela canção doida de beber
Chamada «O Bebedor» ou coisa assim.
FRED:
A do «Bom Bebedor».
OUTRO:
É essa mesmo.
TODOS:
Venha, venha a canção.
FRED:
Lá vai amigos
(e depois)
E oxalá que, ao cantá-la, esquecer possa
Ou antes, não lembrar onde a aprendi.
Criança então era feliz. Lá vai:
Bom bebedor, bebe-me bem
Bebe-me, bom bebedor.
Só uma cousa boa esta vida tem
É o vinho: mira-lh’ a cor!
CORO
A vida é um dia e a morte um horror
Bebe-me, bebe-me, bom bebedor.
Que morra de fome mulher e mãe
Haja vinho, que é o melhor!
CORO
A vida é um dia e a morte um horror
Bebe-me, bebe-me bom bebedor.
Deixe a guela o vinho lá quando vem
Em lugar dele o estertor.
CORO
A vida é um dia e a morte um horror
Bebe-me, bebe-me bom bebedor.
A vida sem vinho é um triste horror
Bebe-me, bebe-me bom bebedor.
O, leite, da parra é melhor que o amor
Bebe-me, bebe-me bom bebedor
CORO
Bom bebedor bebe-lhe bem
Bebe-lhe bom bebedor
Que faz que a mulher ande à gandaia
E a filha seja pior
E a puta da neta levante a saia
Até ao quintal do prior?
O vinho é o mesmo e da mesma cor
Bebe-lhe, bebe-lhe, bom bebedor
CORO
Bom bebedor, bebe-lhe bem
Bebe-lhe bom bebedor.
Bom bebedor, bebe-lhe rijo
Bom bebedor, bebe-lhe bem;
O vinho que dá? Alegria e mijo,
E a vida não vale melhor
E se a vida é isto e a cova um horror
Bebe-lhe, bebe-lhe, bom bebedor.
TODOS:
Bravo! Bravo!
FAUSTO:(saudando)
A quem escreveu essa canção.
Não foi o camarada?
FRED:
Versos, eu?
Nada aprendi-a, e há o tempo. É pouca coisa,
Uma maneira qualquer de berrar.
FAUSTO:
Eu sinto-me irrequieto.
FRED:
Isso é do vinho!
FAUSTO:
Do vinho?
FRED:
Olá se é. A uns dá-lhe assim
A outros doutra maneira. Isso é confuso.
Um velho tio meu que não fazia
Senão beber...
OUTRO:
Fazia bem...
FRED:
Pois esse
Dizia ser indício de saúde
Dar o vinho p'ra bulhas e contendas
«Estar irrequieto» como este lhe chama.
FAUSTO:
Sim.
— O Doutor Fausto?
FAUSTO:
O Doutor Fausto, sim: o que há em sê-lo?
— Nada, confesso-o a rir e acreditara-o
Pois o não vira, mas de vós diziam
Serdes versado em artes e matérias
Do mágico e (...) horror (...)
A rir o digo que vos vejo aqui
Entre nós e bebendo como nós.
FAUSTO:
Sim, assim é; quem como eu vivia
Aparte logra sempre a negra fama
De bruxo... Há em mim cousa que mostre
Conhecimento d'artes vis e negras
Ou sacerdócio escuro de Satan?
— Nada; olhando bem em vós só vejo
Algo de triste que não é tristeza
No vosso rosto e no vosso olhar
Há uma causa a menos ou a mais
Que em outro... Isto vejo, ou me parece.
Perguntastes-me e rindo respondi.
FAUSTO:
Agradeço-vos; traçastes-me retrato
Tão completo de bruxo
Que começo a ter medo de mim mesmo.
— Canta, oh Frederico
Aquela canção doida de beber
Chamada «O Bebedor» ou coisa assim.
FRED:
A do «Bom Bebedor».
OUTRO:
É essa mesmo.
TODOS:
Venha, venha a canção.
FRED:
Lá vai amigos
(e depois)
E oxalá que, ao cantá-la, esquecer possa
Ou antes, não lembrar onde a aprendi.
Criança então era feliz. Lá vai:
Bom bebedor, bebe-me bem
Bebe-me, bom bebedor.
Só uma cousa boa esta vida tem
É o vinho: mira-lh’ a cor!
CORO
A vida é um dia e a morte um horror
Bebe-me, bebe-me, bom bebedor.
Que morra de fome mulher e mãe
Haja vinho, que é o melhor!
CORO
A vida é um dia e a morte um horror
Bebe-me, bebe-me bom bebedor.
Deixe a guela o vinho lá quando vem
Em lugar dele o estertor.
CORO
A vida é um dia e a morte um horror
Bebe-me, bebe-me bom bebedor.
A vida sem vinho é um triste horror
Bebe-me, bebe-me bom bebedor.
O, leite, da parra é melhor que o amor
Bebe-me, bebe-me bom bebedor
CORO
Bom bebedor bebe-lhe bem
Bebe-lhe bom bebedor
Que faz que a mulher ande à gandaia
E a filha seja pior
E a puta da neta levante a saia
Até ao quintal do prior?
O vinho é o mesmo e da mesma cor
Bebe-lhe, bebe-lhe, bom bebedor
CORO
Bom bebedor, bebe-lhe bem
Bebe-lhe bom bebedor.
Bom bebedor, bebe-lhe rijo
Bom bebedor, bebe-lhe bem;
O vinho que dá? Alegria e mijo,
E a vida não vale melhor
E se a vida é isto e a cova um horror
Bebe-lhe, bebe-lhe, bom bebedor.
TODOS:
Bravo! Bravo!
FAUSTO:(saudando)
A quem escreveu essa canção.
Não foi o camarada?
FRED:
Versos, eu?
Nada aprendi-a, e há o tempo. É pouca coisa,
Uma maneira qualquer de berrar.
FAUSTO:
Eu sinto-me irrequieto.
FRED:
Isso é do vinho!
FAUSTO:
Do vinho?
FRED:
Olá se é. A uns dá-lhe assim
A outros doutra maneira. Isso é confuso.
Um velho tio meu que não fazia
Senão beber...
OUTRO:
Fazia bem...
FRED:
Pois esse
Dizia ser indício de saúde
Dar o vinho p'ra bulhas e contendas
«Estar irrequieto» como este lhe chama.
1 565
Fernando Pessoa
Mundo confranges-me por existir.
Mundo confranges-me por existir.
Tenho-te horror porque te sinto ser
E compreendo que te sinto ser
Até às fezes da compreensão.
Bebi a taça (...) do pensamento
Até ao fim; reconheci-a pois
Vazia e achei horror. Mas eu bebi-a.
Raciocinei até achar verdade,
Achei-a e não a entendo. Já se esvai
Neste desejo de compreensão
Inatendido inalteravelmente,
Neste lidar com seres e absolutos
O que em mim por sentir me liga à vida
E pelo pensamento me faz homem.
Já não penso como antes, nem que existo
Nem que existisse. E neste orgulho certo
Fechado mais ainda e alheado
Me vou do limitado e relativo
Mundo em que arrasto a cruz do meu pensar.
Com dolorosas incompreensões
E com compreensões mais dolorosas
Tenho-te horror porque te sinto ser
E compreendo que te sinto ser
Até às fezes da compreensão.
Bebi a taça (...) do pensamento
Até ao fim; reconheci-a pois
Vazia e achei horror. Mas eu bebi-a.
Raciocinei até achar verdade,
Achei-a e não a entendo. Já se esvai
Neste desejo de compreensão
Inatendido inalteravelmente,
Neste lidar com seres e absolutos
O que em mim por sentir me liga à vida
E pelo pensamento me faz homem.
Já não penso como antes, nem que existo
Nem que existisse. E neste orgulho certo
Fechado mais ainda e alheado
Me vou do limitado e relativo
Mundo em que arrasto a cruz do meu pensar.
Com dolorosas incompreensões
E com compreensões mais dolorosas
1 468
Fernando Pessoa
FRANZ: Isto de ser soldado
[FRANZ]:
Isto de ser soldado
Tem uma filosofia obrigatória
Como o pé ao fim da perna. Hoje vivo
Amanhã morto... D'aqui se conclui
Que sendo o vivo vivo enquanto é vivo
É morto é morto.
OUTRO:
Tira-lhe o cangirão da mão oh Vesgo
[FRANZ]:
Ia eu dizendo — deixa o cangirão! —
Que quem hoje vive e que não sabe
Se amanhã viverá é viver hoje
Por amanhã. Como isto de amanhã
Nem é aí um dia, mas é muitos
Enquanto a gente vive é ir vivendo
Em cada dia como se ele fosse
Uma vida completa
— Bravo o vinho
Faz a este pensar. O que diria
O teu tio bêbado, oh Francisco?
[FRANZ]:
É esta
A tal filosofia do soldado
A qual, senhores, a pensarmos bem
É a de toda a vida. E não é pouco.
FAUSTO:
Dá-te o vinho razão, amigo. O homem
É um soldado. E este com certeza
De morrer no combate de amanhã.
Portanto a tal (...) filosofia
Que entre goles aí me gaguejaste
É mais certa que pensas, meu amigo.
É viver hoje que amanhã na vida
Não há talvez — é certo — vem a morte.
Bebo à saúde aqui do nosso amigo!
TODOS:
À saúde do Franz!
[FRANZ]:
Vá que o mereço!
Mas olha lá: dá cá o cangirão
Então só eu não beberei à minha?
OUTRO:
Vá que é beber-lhe bem.
Não é por ser
Minha saúde. É só por ser vinho
Minha mãe! Minha triste vida!
Minha sorte!
(Chora)
OUTRO:
O que é isso?
[FRANZ]:
O cangirão
Não tem mais vinho! Caguei vida. Rei e corno!
Um rei corno — isso sabe a não sei o quê!
E o cangirão já não tem quase nada
O rei corno e eu sem vinho.
(cai para debaixo da mesa)
FAUSTO:
Arre que besta! Mas tem sua graça!
Está abraçado ao cangirão
Diz que é uma rainha.
[FRANZ]:
Dá-me cá mais um gole
Que isto de leito e corpo de rainha
Não é com quatro goles que se entende.
Um rei corno — isso é grande! Alma danada
Onde é que me escondeste ó cangirão?
(de debaixo da mesa)
Já o rei é corno!
FAUSTO:
Lá quanto a Deus
Quando o sinto a amargar-me a boca muito
Faço isto
(bebe)
Tomo um gole. E vai p'ra baixo.
TODOS:
Viva Fausto! Eia, viva! viva! viva!
FRITZ:
Mas a vida rapaz?
FAUSTO:
Caguei p'rá vida!
FRITZ:
Toma! É assim rapaz! Canta-me dessas!
És cá dos meus, apesar de doutor...
TODOS:
Doutor? Isto Doutor? Viva o Doutor!
FAUSTO:
Morra o doutor e viva Fausto! É assim!
TODOS:
Bravo. Morra o doutor e viva Fausto!
FRANZ:
...Revolta... Não compreendo bem
Passa-me o cangirão que já te entendo.
Sem mais dois goles não percebo nada.
FAUSTO:
Já percebes
Estupor avinhado? Já me entendes?
Isto de vida — ouve — é sentir tudo
Meter o agradável num só dia
Como o pé num chinelo. Deixa lá
O cangirão e ouve... Isto de vida
É a gente gozar e após gozar
Gozar mais, entendeste?
FRANZ:
E depois disso?
FAUSTO:
Depois disso gozar mais ainda.
— Deixa-o lá. Só tem força p'ra beber.
Não vê já mais que o olho do gargalo.
FRITZ:
Que é isso?
FRANZ:
Quero piscar o olho. Já me custa!
Arre! Ou fecho ambos ou então nenhum.
Bebendo mais um gole isto já passa...
FAUSTO:
Eu queria obter
Uma enormidade de sensações
Daquelas mais intensas que nós temos
arrepio, calor, etcetra e tal...
Isso como diz o matemático
Elevado ao infinito e num momento
Aqui é que é tentar chegar...
UM:
«Arrepio, calor, etcetra e tal»
O que não se diz fica por dizer.
Isto de ser soldado
Tem uma filosofia obrigatória
Como o pé ao fim da perna. Hoje vivo
Amanhã morto... D'aqui se conclui
Que sendo o vivo vivo enquanto é vivo
É morto é morto.
OUTRO:
Tira-lhe o cangirão da mão oh Vesgo
[FRANZ]:
Ia eu dizendo — deixa o cangirão! —
Que quem hoje vive e que não sabe
Se amanhã viverá é viver hoje
Por amanhã. Como isto de amanhã
Nem é aí um dia, mas é muitos
Enquanto a gente vive é ir vivendo
Em cada dia como se ele fosse
Uma vida completa
— Bravo o vinho
Faz a este pensar. O que diria
O teu tio bêbado, oh Francisco?
[FRANZ]:
É esta
A tal filosofia do soldado
A qual, senhores, a pensarmos bem
É a de toda a vida. E não é pouco.
FAUSTO:
Dá-te o vinho razão, amigo. O homem
É um soldado. E este com certeza
De morrer no combate de amanhã.
Portanto a tal (...) filosofia
Que entre goles aí me gaguejaste
É mais certa que pensas, meu amigo.
É viver hoje que amanhã na vida
Não há talvez — é certo — vem a morte.
Bebo à saúde aqui do nosso amigo!
TODOS:
À saúde do Franz!
[FRANZ]:
Vá que o mereço!
Mas olha lá: dá cá o cangirão
Então só eu não beberei à minha?
OUTRO:
Vá que é beber-lhe bem.
Não é por ser
Minha saúde. É só por ser vinho
Minha mãe! Minha triste vida!
Minha sorte!
(Chora)
OUTRO:
O que é isso?
[FRANZ]:
O cangirão
Não tem mais vinho! Caguei vida. Rei e corno!
Um rei corno — isso sabe a não sei o quê!
E o cangirão já não tem quase nada
O rei corno e eu sem vinho.
(cai para debaixo da mesa)
FAUSTO:
Arre que besta! Mas tem sua graça!
Está abraçado ao cangirão
Diz que é uma rainha.
[FRANZ]:
Dá-me cá mais um gole
Que isto de leito e corpo de rainha
Não é com quatro goles que se entende.
Um rei corno — isso é grande! Alma danada
Onde é que me escondeste ó cangirão?
(de debaixo da mesa)
Já o rei é corno!
FAUSTO:
Lá quanto a Deus
Quando o sinto a amargar-me a boca muito
Faço isto
(bebe)
Tomo um gole. E vai p'ra baixo.
TODOS:
Viva Fausto! Eia, viva! viva! viva!
FRITZ:
Mas a vida rapaz?
FAUSTO:
Caguei p'rá vida!
FRITZ:
Toma! É assim rapaz! Canta-me dessas!
És cá dos meus, apesar de doutor...
TODOS:
Doutor? Isto Doutor? Viva o Doutor!
FAUSTO:
Morra o doutor e viva Fausto! É assim!
TODOS:
Bravo. Morra o doutor e viva Fausto!
FRANZ:
...Revolta... Não compreendo bem
Passa-me o cangirão que já te entendo.
Sem mais dois goles não percebo nada.
FAUSTO:
Já percebes
Estupor avinhado? Já me entendes?
Isto de vida — ouve — é sentir tudo
Meter o agradável num só dia
Como o pé num chinelo. Deixa lá
O cangirão e ouve... Isto de vida
É a gente gozar e após gozar
Gozar mais, entendeste?
FRANZ:
E depois disso?
FAUSTO:
Depois disso gozar mais ainda.
— Deixa-o lá. Só tem força p'ra beber.
Não vê já mais que o olho do gargalo.
FRITZ:
Que é isso?
FRANZ:
Quero piscar o olho. Já me custa!
Arre! Ou fecho ambos ou então nenhum.
Bebendo mais um gole isto já passa...
FAUSTO:
Eu queria obter
Uma enormidade de sensações
Daquelas mais intensas que nós temos
arrepio, calor, etcetra e tal...
Isso como diz o matemático
Elevado ao infinito e num momento
Aqui é que é tentar chegar...
UM:
«Arrepio, calor, etcetra e tal»
O que não se diz fica por dizer.
1 427
Fernando Pessoa
Quando acorda p'ra vida o pensamento
Quando acorda p'ra vida o pensamento
E sente a luz e (...) do existir
Diz «Tudo é bom». Depois, exausto já
O que ao ser a novidade (...)
Exausta a variedade invariável
Da vida, diz (...) «tudo é mau».
Mas, acordando mais o raciocínio,
Pensa que mal é o nome universal
Do limitado que se sente
Limitado, e diz «tudo é limitado
E porque é limitado é tudo mau»
E então como (...) uma esperança
Nasce, de que outra vida possa vir
E fazer esquecer ou relembrar
Em loucas transcendências esta vida,
[...]
Mas se além vai o duro pensamento,
Se mais pensa e mais (...)
Vê que o mundo, o universo, enfim o Ser
Transcende na sua essência incognoscível
(Única essência, pois o ser é o ser)
Bem e mal, limitado e ilimitado.
E quanto o pensamento assoberbado
Aqui chega e enfim se reconhece
À verdade chegado, vê que a orla
Da terra do pensar é procurar
Ter um mar que (...) não navegue.
A verdade esta é e eu a achei.
Achei-a, não a achando; conheci-a,
Reconhecendo-a sempre incognoscível,
Não vulgarmente, com a isenção
Do filósofo cinto em (...)
Mas pensei-a sentindo-a, e assim estou,
De ter chegado aqui pávido e mudo,
Orgulhoso de ter chegado aqui,
E orgulhoso e irado de não poder
Manifestar (que palavras não o dizem)
Aos homens o que sinto e o que penso
E até onde penso e onde sinto.
Nesta desolação de pensamento
Minha alma rígida reside e sorve
O fel do incognoscíel compreendido
Pelos poros doridos do pensar.
O incognoscível compreendido enfim
E incognoscível sempre. Aqui ninguém
Chega nem chegará.
Orgulho vão.
A que vens? Não sei eu o que tu és?
E sente a luz e (...) do existir
Diz «Tudo é bom». Depois, exausto já
O que ao ser a novidade (...)
Exausta a variedade invariável
Da vida, diz (...) «tudo é mau».
Mas, acordando mais o raciocínio,
Pensa que mal é o nome universal
Do limitado que se sente
Limitado, e diz «tudo é limitado
E porque é limitado é tudo mau»
E então como (...) uma esperança
Nasce, de que outra vida possa vir
E fazer esquecer ou relembrar
Em loucas transcendências esta vida,
[...]
Mas se além vai o duro pensamento,
Se mais pensa e mais (...)
Vê que o mundo, o universo, enfim o Ser
Transcende na sua essência incognoscível
(Única essência, pois o ser é o ser)
Bem e mal, limitado e ilimitado.
E quanto o pensamento assoberbado
Aqui chega e enfim se reconhece
À verdade chegado, vê que a orla
Da terra do pensar é procurar
Ter um mar que (...) não navegue.
A verdade esta é e eu a achei.
Achei-a, não a achando; conheci-a,
Reconhecendo-a sempre incognoscível,
Não vulgarmente, com a isenção
Do filósofo cinto em (...)
Mas pensei-a sentindo-a, e assim estou,
De ter chegado aqui pávido e mudo,
Orgulhoso de ter chegado aqui,
E orgulhoso e irado de não poder
Manifestar (que palavras não o dizem)
Aos homens o que sinto e o que penso
E até onde penso e onde sinto.
Nesta desolação de pensamento
Minha alma rígida reside e sorve
O fel do incognoscíel compreendido
Pelos poros doridos do pensar.
O incognoscível compreendido enfim
E incognoscível sempre. Aqui ninguém
Chega nem chegará.
Orgulho vão.
A que vens? Não sei eu o que tu és?
1 179
Fernando Pessoa
Meu cérebro fotográfico...
Meu cérebro fotográfico...
Vaga náusea física... o cies no longe cheira-me a aqui perto...
Que tristeza a de partir! What time did the captain say an order to leave? de partir e deixar atrás de nós
Não só as pedras da cidade, e as casas e a cidade vista de longe
Mas oh, [...] just ever and ever on that village on the other side up at river, it's just perfect in this [...]
Também as memórias antigas, as carícias maternas hoje na sepultura,
Tudo isso parece que ficou aqui, deixado aqui, e nós indo sem levar
isso tudo... Non, Monsieur, c'est de l'autre bord...
Ó Chico, não te chegues para fora
([...] oh!) podes cair!
Que lume na lenha da velha lareira provinciana — o senhor dá-me
licença?... passa uma farda de guarda fiscal pelo meu ombro
— e dos contos que me contavam nas noites de inverno
u-uf-u-u-u-u... o apito do vapor...
Et vous aussi, Mark — Sim senhor, para o Rio de Janeiro
Tenho lá... yes, all the time... Ó pobre pequenino rio da minha terra!
O ruído da água — shl, shl, shlbrtsher, shlbrtsher, e o meu velho primo, perdido para sempre
Quase que me esqueço de me poder lembrar dele
came into the smoking room... God [...] Lisboa? Oh, yes, but
not (entram para dentro alguns dias [...] através da minha sensação
deles no meu cérebro que não tem olhos para os ver)
u-u-u-u-u-u-u
u u-u
u-u-u-u-u-u
u-u-u-u-u-u-u-u-u
u-u-u-u-u-u-u
u-u-u-u-u-u u
u-u-u
u-u-u
u-u
u-fff-(uu uff)
f.f.
(fff)
Vaga náusea física... o cies no longe cheira-me a aqui perto...
Que tristeza a de partir! What time did the captain say an order to leave? de partir e deixar atrás de nós
Não só as pedras da cidade, e as casas e a cidade vista de longe
Mas oh, [...] just ever and ever on that village on the other side up at river, it's just perfect in this [...]
Também as memórias antigas, as carícias maternas hoje na sepultura,
Tudo isso parece que ficou aqui, deixado aqui, e nós indo sem levar
isso tudo... Non, Monsieur, c'est de l'autre bord...
Ó Chico, não te chegues para fora
([...] oh!) podes cair!
Que lume na lenha da velha lareira provinciana — o senhor dá-me
licença?... passa uma farda de guarda fiscal pelo meu ombro
— e dos contos que me contavam nas noites de inverno
u-uf-u-u-u-u... o apito do vapor...
Et vous aussi, Mark — Sim senhor, para o Rio de Janeiro
Tenho lá... yes, all the time... Ó pobre pequenino rio da minha terra!
O ruído da água — shl, shl, shlbrtsher, shlbrtsher, e o meu velho primo, perdido para sempre
Quase que me esqueço de me poder lembrar dele
came into the smoking room... God [...] Lisboa? Oh, yes, but
not (entram para dentro alguns dias [...] através da minha sensação
deles no meu cérebro que não tem olhos para os ver)
u-u-u-u-u-u-u
u u-u
u-u-u-u-u-u
u-u-u-u-u-u-u-u-u
u-u-u-u-u-u-u
u-u-u-u-u-u u
u-u-u
u-u-u
u-u
u-fff-(uu uff)
f.f.
(fff)
898
Fernando Pessoa
Meu cérebro fotográfico...
Meu cérebro fotográfico...
Vaga náusea física... o cies no longe cheira-me a aqui perto...
Que tristeza a de partir! What time did the captain say an order to leave? de partir e deixar atrás de nós
Não só as pedras da cidade, e as casas e a cidade vista de longe
Mas oh, [...] just ever and ever on that village on the other side up at river, it's just perfect in this [...]
Também as memórias antigas, as carícias maternas hoje na sepultura,
Tudo isso parece que ficou aqui, deixado aqui, e nós indo sem levar
isso tudo... Non, Monsieur, c'est de l'autre bord...
Ó Chico, não te chegues para fora
([...] oh!) podes cair!
Que lume na lenha da velha lareira provinciana — o senhor dá-me
licença?... passa uma farda de guarda fiscal pelo meu ombro
— e dos contos que me contavam nas noites de inverno
u-uf-u-u-u-u... o apito do vapor...
Et vous aussi, Mark — Sim senhor, para o Rio de Janeiro
Tenho lá... yes, all the time... Ó pobre pequenino rio da minha terra!
O ruído da água — shl, shl, shlbrtsher, shlbrtsher, e o meu velho primo, perdido para sempre
Quase que me esqueço de me poder lembrar dele
came into the smoking room... God [...] Lisboa? Oh, yes, but
not (entram para dentro alguns dias [...] através da minha sensação
deles no meu cérebro que não tem olhos para os ver)
u-u-u-u-u-u-u
u u-u
u-u-u-u-u-u
u-u-u-u-u-u-u-u-u
u-u-u-u-u-u-u
u-u-u-u-u-u u
u-u-u
u-u-u
u-u
u-fff-(uu uff)
f.f.
(fff)
Vaga náusea física... o cies no longe cheira-me a aqui perto...
Que tristeza a de partir! What time did the captain say an order to leave? de partir e deixar atrás de nós
Não só as pedras da cidade, e as casas e a cidade vista de longe
Mas oh, [...] just ever and ever on that village on the other side up at river, it's just perfect in this [...]
Também as memórias antigas, as carícias maternas hoje na sepultura,
Tudo isso parece que ficou aqui, deixado aqui, e nós indo sem levar
isso tudo... Non, Monsieur, c'est de l'autre bord...
Ó Chico, não te chegues para fora
([...] oh!) podes cair!
Que lume na lenha da velha lareira provinciana — o senhor dá-me
licença?... passa uma farda de guarda fiscal pelo meu ombro
— e dos contos que me contavam nas noites de inverno
u-uf-u-u-u-u... o apito do vapor...
Et vous aussi, Mark — Sim senhor, para o Rio de Janeiro
Tenho lá... yes, all the time... Ó pobre pequenino rio da minha terra!
O ruído da água — shl, shl, shlbrtsher, shlbrtsher, e o meu velho primo, perdido para sempre
Quase que me esqueço de me poder lembrar dele
came into the smoking room... God [...] Lisboa? Oh, yes, but
not (entram para dentro alguns dias [...] através da minha sensação
deles no meu cérebro que não tem olhos para os ver)
u-u-u-u-u-u-u
u u-u
u-u-u-u-u-u
u-u-u-u-u-u-u-u-u
u-u-u-u-u-u-u
u-u-u-u-u-u u
u-u-u
u-u-u
u-u
u-fff-(uu uff)
f.f.
(fff)
898
Fernando Pessoa
Na ponta de cada baioneta luzem os olhos de Kant,
Na ponta de cada baioneta luzem os olhos de Kant,
Hegel é disparado das goelas de cada canhão
E as grandes hostes calmas avançando para a morte são Goethe
Que está ali múltiplo tornado todo o seu povo.
O próprio Heine vem, sorrindo à morte nas trincheiras,
Porque por detrás de todos com a Força [?], e adiante de todos com a couraça
Toda a filosofia, toda a poesia, toda a música da Alemanha,
Batem-se, fundidas em balas, raivam luzindo em espadas,
Escancaram-se em fogo na viva muralha dos canhões.
Hegel é disparado das goelas de cada canhão
E as grandes hostes calmas avançando para a morte são Goethe
Que está ali múltiplo tornado todo o seu povo.
O próprio Heine vem, sorrindo à morte nas trincheiras,
Porque por detrás de todos com a Força [?], e adiante de todos com a couraça
Toda a filosofia, toda a poesia, toda a música da Alemanha,
Batem-se, fundidas em balas, raivam luzindo em espadas,
Escancaram-se em fogo na viva muralha dos canhões.
1 290
Fernando Pessoa
Na ponta de cada baioneta luzem os olhos de Kant,
Na ponta de cada baioneta luzem os olhos de Kant,
Hegel é disparado das goelas de cada canhão
E as grandes hostes calmas avançando para a morte são Goethe
Que está ali múltiplo tornado todo o seu povo.
O próprio Heine vem, sorrindo à morte nas trincheiras,
Porque por detrás de todos com a Força [?], e adiante de todos com a couraça
Toda a filosofia, toda a poesia, toda a música da Alemanha,
Batem-se, fundidas em balas, raivam luzindo em espadas,
Escancaram-se em fogo na viva muralha dos canhões.
Hegel é disparado das goelas de cada canhão
E as grandes hostes calmas avançando para a morte são Goethe
Que está ali múltiplo tornado todo o seu povo.
O próprio Heine vem, sorrindo à morte nas trincheiras,
Porque por detrás de todos com a Força [?], e adiante de todos com a couraça
Toda a filosofia, toda a poesia, toda a música da Alemanha,
Batem-se, fundidas em balas, raivam luzindo em espadas,
Escancaram-se em fogo na viva muralha dos canhões.
1 290
Fernando Pessoa
FAUSTO: - Não descreio de Deus, passei p'ra além...
Não descreio de Deus, passei p'ra além...
Um dia, meditando
Uma ideia espontânea e horrorosa
Como um vulto supremo sem ter vulto,
Surgiu no fundo do meu pensamento...
Como a noite corporizada, e o medo
Vestindo-a, e (...)
Apareceu-me Deus em esqueleto...
Tudo despira do seu corpo ideal
Não de infinito só, de inatingível,
Mas mesmo de mais do que inatingível.
Até ao fundo do seu ser abstracto
O meu ser despi, e eu vi o (...)
Esqueleto (...) do Mistério...
O informe tomou forma dentro em mim...
Ah inda hoje, se relembro, sinto
Como um medo no longe, um pavor negro
Não em mim, mas em todo o Universo,
Um arrepio pelas estrelas fora
E um grande horror arrepanhando os céus
Como à humana pele que tem medo...
(treme)
— Isso é um pensamento...
FAUSTO:
Se eu pensei
Isto, se isto me foi possível
É crível que a verdade seja
Mais profunda que o meu pensamento.
Como pensei eu cousas mais profundas
Do que a verdade em si?
Apareceu-me o Universo íntimo
Do misterioso avesso... E eu vi, (...)
O outro lado das cousas, não das cousas
Aparentes apenas, mas o outro
Lado até do Essencial, do Inaparente,
Do além-divino e do Divino em Deus...
Tinha a forma, sensível aos meus olhos
Do espírito, dum imenso céu estrelado.
Mas eu, com nítida visão de dentro,
Via que era infinito, como se visse
Em corpo e forma (...) [...]
E sob o meu olhar apavorado
Vi o nosso sistema do universo
Mais perto... A ideia abstracta e nua,
A vida extrema e última de nós.
O Ser, o ser abstracto e (...)
Era um sol — sol de (...) e seguia
Como da circunferência para o centro
(Não como nós que vemos sempre — e em sonho
É o mesmo (do centro sempre p'ra o espaço,
Real ou suposto nessa circunferência) —
Eu vi, e cada sol e seu sistema
Ia em outros sóis e outros sistemas
Na órbita de sóis mais interiores
(O centro de cuja circunferência
Eu via em infinito para dentro,
Não para fora como infinito mesmo)
E o nosso mundo como um deus nele
Era um mero satélite
De um sol do só primeiro sistema
Raiando a ideia sobre o seu mundo.
Infinito interior ao interior!
Pavorosa agonia do Profundo!
Vacuidade e realidade negra
De tudo!
Um dia, meditando
Uma ideia espontânea e horrorosa
Como um vulto supremo sem ter vulto,
Surgiu no fundo do meu pensamento...
Como a noite corporizada, e o medo
Vestindo-a, e (...)
Apareceu-me Deus em esqueleto...
Tudo despira do seu corpo ideal
Não de infinito só, de inatingível,
Mas mesmo de mais do que inatingível.
Até ao fundo do seu ser abstracto
O meu ser despi, e eu vi o (...)
Esqueleto (...) do Mistério...
O informe tomou forma dentro em mim...
Ah inda hoje, se relembro, sinto
Como um medo no longe, um pavor negro
Não em mim, mas em todo o Universo,
Um arrepio pelas estrelas fora
E um grande horror arrepanhando os céus
Como à humana pele que tem medo...
(treme)
— Isso é um pensamento...
FAUSTO:
Se eu pensei
Isto, se isto me foi possível
É crível que a verdade seja
Mais profunda que o meu pensamento.
Como pensei eu cousas mais profundas
Do que a verdade em si?
Apareceu-me o Universo íntimo
Do misterioso avesso... E eu vi, (...)
O outro lado das cousas, não das cousas
Aparentes apenas, mas o outro
Lado até do Essencial, do Inaparente,
Do além-divino e do Divino em Deus...
Tinha a forma, sensível aos meus olhos
Do espírito, dum imenso céu estrelado.
Mas eu, com nítida visão de dentro,
Via que era infinito, como se visse
Em corpo e forma (...) [...]
E sob o meu olhar apavorado
Vi o nosso sistema do universo
Mais perto... A ideia abstracta e nua,
A vida extrema e última de nós.
O Ser, o ser abstracto e (...)
Era um sol — sol de (...) e seguia
Como da circunferência para o centro
(Não como nós que vemos sempre — e em sonho
É o mesmo (do centro sempre p'ra o espaço,
Real ou suposto nessa circunferência) —
Eu vi, e cada sol e seu sistema
Ia em outros sóis e outros sistemas
Na órbita de sóis mais interiores
(O centro de cuja circunferência
Eu via em infinito para dentro,
Não para fora como infinito mesmo)
E o nosso mundo como um deus nele
Era um mero satélite
De um sol do só primeiro sistema
Raiando a ideia sobre o seu mundo.
Infinito interior ao interior!
Pavorosa agonia do Profundo!
Vacuidade e realidade negra
De tudo!
1 313
Fernando Pessoa
Lidas, / guerras... e guerras
Lidas,
guerras... e guerras
Porque é tudo tão falso e irreal
Tão intimamente (um) sonho?
guerras... e guerras
Porque é tudo tão falso e irreal
Tão intimamente (um) sonho?
1 374
Fernando Pessoa
Quisera ter
Quisera ter
Isso que escuramente em mim aspiro:
O pensamento abrangedor de tudo
Numa compreensão única e funda.
Todo o contido em artes, letras, todas
As leis no fundo do universo nadas
Que regem (...) até a história
Em modalizações(...)
Era isto que eu, num pensamento único,
Abrangedor, quisera compreender.
Isso que escuramente em mim aspiro:
O pensamento abrangedor de tudo
Numa compreensão única e funda.
Todo o contido em artes, letras, todas
As leis no fundo do universo nadas
Que regem (...) até a história
Em modalizações(...)
Era isto que eu, num pensamento único,
Abrangedor, quisera compreender.
981
Fernando Pessoa
A MORTE: Em mim acaba
Em mim acaba
Mudo, profundo
Como ruína que desaba
Tudo o que vive e sente o mundo.
A humanidade cujo rir
É um esquecimento fundo
Sabe, sem o analisar,
Que em mim naufraga o sentir
Nos rochedos do pensar.
Mudo, profundo
Como ruína que desaba
Tudo o que vive e sente o mundo.
A humanidade cujo rir
É um esquecimento fundo
Sabe, sem o analisar,
Que em mim naufraga o sentir
Nos rochedos do pensar.
1 552
Fernando Pessoa
Morrer — esta palavra toda horror —
Morrer — esta palavra toda horror —
Repito-a e re-repito-a para ver
Se aumenta em mim 'té à compreensão
O pensamento e sentimento vagos
Que produz, e dos quais a intensidade
Em contraste com esse vago imenso
Faz dum horror um horror supremo;
Repito sim — Morrer — e não obtenho
Uma qualquer nitidificação
Do desolado caos do meu ser.
Agonia suprema! Suma dor
Não poder eu — sem morte, sem (...)
Tornar-me em um estranho inanimado
D'inconcebida essência que encontrasse
O impensável desejo da minha alma.
Tudo é mistério e o mistério é tudo
E a mais próxima forma, essa mais nossa
A sua forma mais (...)
É a morte.
Uns têm — e é sofrer — o duvidar:
Há Deus ou não há Deus? Há alma ou não?
Eu não duvido, ignoro. E se o horror
De duvidar é grande o de ignorar
Não tem nome nem entre os pensamentos.
Hesitar: «Há Deus ou não há?» é triste
Mas saber: «Não há Deus» e perguntar
«O que há então?» Aqui dúvida e ânsia
Por humildes em dor não se concebem.
Eu, Fausto, achei a ciência suprema
Que o homem pode ter; nela encontrei
O (...) de desolação
D'ânsia, d'horror, de medo, de delírio,
De hesitação, de estranheza na terra,
De vacuidade em mim e em todo o mundo,
E em todo o pensamento e em todo o Ser.
Repito-a e re-repito-a para ver
Se aumenta em mim 'té à compreensão
O pensamento e sentimento vagos
Que produz, e dos quais a intensidade
Em contraste com esse vago imenso
Faz dum horror um horror supremo;
Repito sim — Morrer — e não obtenho
Uma qualquer nitidificação
Do desolado caos do meu ser.
Agonia suprema! Suma dor
Não poder eu — sem morte, sem (...)
Tornar-me em um estranho inanimado
D'inconcebida essência que encontrasse
O impensável desejo da minha alma.
Tudo é mistério e o mistério é tudo
E a mais próxima forma, essa mais nossa
A sua forma mais (...)
É a morte.
Uns têm — e é sofrer — o duvidar:
Há Deus ou não há Deus? Há alma ou não?
Eu não duvido, ignoro. E se o horror
De duvidar é grande o de ignorar
Não tem nome nem entre os pensamentos.
Hesitar: «Há Deus ou não há?» é triste
Mas saber: «Não há Deus» e perguntar
«O que há então?» Aqui dúvida e ânsia
Por humildes em dor não se concebem.
Eu, Fausto, achei a ciência suprema
Que o homem pode ter; nela encontrei
O (...) de desolação
D'ânsia, d'horror, de medo, de delírio,
De hesitação, de estranheza na terra,
De vacuidade em mim e em todo o mundo,
E em todo o pensamento e em todo o Ser.
1 133
Fernando Pessoa
Valendo mais ou menos entre si
Valendo mais ou menos entre si
Várias formas de erro equidistantes
No seu valor real e a só verdade
Infinitamente inatingível.
A verdade
Intuitivamente, de repente
Se compreenderia, sem a dúvida,
Por todos; o universo não contém
Esta verdade. Porque pois buscar
Sistemas vãos de vãs filosofias
Religiões, seitas, pensadorias
Se o erro é a condição da nossa vida,
A única certeza da existência?
Assim cheguei a isto: tudo é erro,
Da verdade há apenas uma ideia
À qual não corresponde realidade.
Crer é morrer; pensar é duvidar.
A crença é o sono e o sonho do intelecto
Cansado, exausto, que a sonhar obtém
Efeitos lúcidos do engano fácil
Que antepôs a si mesmo mais sentidos,
Mais vistos que o usual do seu pensar.
A fé é isto: o pensamento
A querer enganar-se eternamente,
Fraco no engano, (...) no desengano,
Quer na ilusão quer na desilusão.
Várias formas de erro equidistantes
No seu valor real e a só verdade
Infinitamente inatingível.
A verdade
Intuitivamente, de repente
Se compreenderia, sem a dúvida,
Por todos; o universo não contém
Esta verdade. Porque pois buscar
Sistemas vãos de vãs filosofias
Religiões, seitas, pensadorias
Se o erro é a condição da nossa vida,
A única certeza da existência?
Assim cheguei a isto: tudo é erro,
Da verdade há apenas uma ideia
À qual não corresponde realidade.
Crer é morrer; pensar é duvidar.
A crença é o sono e o sonho do intelecto
Cansado, exausto, que a sonhar obtém
Efeitos lúcidos do engano fácil
Que antepôs a si mesmo mais sentidos,
Mais vistos que o usual do seu pensar.
A fé é isto: o pensamento
A querer enganar-se eternamente,
Fraco no engano, (...) no desengano,
Quer na ilusão quer na desilusão.
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