Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Roberto Pontes
Quando o Verbo se Encarna
por Moacyr Félix
A atual poesia cearense é importante, muito importante, pela contribuição que traz à nossa mais válida literatura, aquela que se quer e se faz contra esses aparentemente desvairados cultos da irracionalidade, pregados pelos que se dizem "rebeldes sem causa", e que, por isso mesmo, servem apenas de vaso para o modismo das "vanguardas" conservadoramente aplaudidas pelo poder, por interesses e medos da classe dominante.
A atual poesia cearense, no seu aspecto mais significativo, deixa evidente que vê a literatura como a arte da palavra posta filosoficamente – ou seja, sem simplificações a aleijar as móveis espessuras do real – a serviço das idéias e dos sentimentos que se realizam nas lutas contra as alienações que dolorosamente deformam os sentidos da existência humana. É uma poesia de pé, não há dúvida, uma poesia contra o que oprime e a favor do que liberta, uma poesia dos que sentem na pele dos seus corpos e das suas calçadas o baque das horas sujas e quebradas pela miséria e pela ignorância.
As matrizes da divulgação literária no Rio e em São Paulo, sobretudo, e em outras importantes cidades do Sul e do Centro do nosso país, cercam com uma pesada cortina de silêncio os muitos livros desses poetas editados em Fortaleza.
Para ser reconhecido ou lido nacionalmente, tem-se que ir, pelo menos, ao Rio ou a São Paulo, e ali buscar relacionar-se com os "donos do poder cultural", ou, pelo menos, com os seus parentes e subaltaernos, freqüentar suas casas, levar cartões de visitas sob os olhos das secretárias, alisar com o traseiro as poltronas das editoras, fazer reverências nas redações, encher a todo momento a boca de elogios aos chamados "vencedores da vida", etc., etc. E agora – Deus meu! – é a hora de lembrar o quanto vem sendo badalado, no Rio e em São Paulo, aquele amontoado de ignorância e de imposturas que fez Carlos Drummond de Andrade morrer denunciando o alastramento: da poluição cultural, que consiste na divulgação estonteante de valores intelectuais e artísticos da pior qualidade, absorvidos com avidez por consumidores despreparados e alienados da realidade brasileira.
Por mais que para a imprensa e os escritores daqui fossem enviados, que escritor ou jornal deu cobertura a iniciativas como, por exemplo, a de imprimir e lançar Nação Cariry, uma revista de qualidades bem mais altas do que as babaquices das revistecas e jornalecos em que aqui bailam reunidas a mediocridade e a leviandade?! E se voltarmos atrás, o que dizer da nenhuma esquálida, quando não envenenada, repercussão de movimentos importantes da poesia que foram Clã, na década de 40, o Sin na de 60, O Saco, na de 70?! E isso não é por acaso: o Nordeste – sofrido e ferido sob um regime econômico que já fez por merecer a alcunha de "capitalismo selvagem" – se encontra em autores como os dessa poesia de rebeldes com causa; e se à sua gente fosse dado o mínimo poder de comprar e ler os seus livros, o grito do colonizado se levantaria contra o colonizador.
E é nesse grito, portanto, que a dor mais funda do povo brasileiro, como um todo, encontra o seu verdadeiro eco, aquele cuja história é a do ser contrário aos sons cosmopolitas com que somos vendidos às matrizes do capitalismo financeiro internacional. Matrizes que são as mesmas que dão corda e limite às matrizes da orientação fundamental dos nossos mais potentes meios de comunicação.
E aqui fico pensando em alguns dos mais significativos poetas vivos que hoje o Ceará nos oferece, cada um senhor das técnicas do verso com que vão abrindo – ora com sucesso, ora com fracasso – as muitas janelas da vida que se acha e que se perde no exterior interiorizado do ser humano.
Sem esquecer o relevo dos mortos como Jáder de Carvalho e Aluízio Medeiros, ou o já celebrado em vida Gerardo de Melo Mourão, vale citar, entre os mais velhos, Francisco Carvalho, Alcides Pinto, Arthur Eduardo Benevides e Caetano Ximenes Aragão; e entre os mais moços, além de Luciano Maia e Rosemberg Cariry, vale destacar também Oswald Barroso, Adriano Espínola, Airton Monte, Pedro Lyra, Carlos Augusto Viana, Rogaciano Leite Filho e o digno de ser muito estudado popular poeta Patativa do Assaré. E entre esses, e com o devido destaque, é de incluir-se o nome do autor deste Verbo Encarnado.
Desde as leituras de Contracanto, Lições de Espaço e Memória Corporal, ou seja, há muitos anos, conheci e me fiz amigo pessoal de Roberto Pontes, essa musical figura humana que sabe se fazer tão parte das ruas da cidade em que se orquestra. Da sua ternura guevarina, como indivíduo e poeta, é que ele fez a sombra e o vazio de que também são feitos os atos da vida dos homens. Porque em 1970 ela já escrevia em "Raízes", um poema publicado no número 5 de O Saco, que:
As raízes explicam sempre as folhas
adidas aos ramos projetados
e nelas a essência bruxuleia.
Da sua duração subterrânea
vem o vago e o complexo das plantas
onde apanho o real pelos cabelos.
E assim ele caminha desde os becos escuros ou as praias esverdeadas pelas ondas que levam os perfis da sua Fortaleza até o jogo da luz e da treva nos fatos e nas figuras da nossa história contemporânea que mais o tocaram. O mundo, o nosso mundo e este país dentro dele – esse o barco dos seus pensamentos; o povo, todos os povos, e a singularidade do ser individual neles imerso, esses os tripulantes do seu barco. Aqui o verbo se encarna na dança linotípica das escrituras de significados e significantes; e é uma recusa de todas as ditaduras que levam ao sectarismo e ao dogmatismo, a tudo que prende numa conceitual camisa-de-força os inconceituáveis e quase infinitos tons pesados no olho das velocidades em que giram, se acendendo e se apagando, as contradições de cada ser humano. Aqui, neste livro, o chão de todo verdadeiro poeta, o chão em que cada poeta escolhe a sua singularíssima viagem, o chão em que Roberto Pontes realiza os melhores poemas deste livro. E aqui pinço, como exemplificação, o poema dedicado a Tatá, a negra retinta que foi mãe dos princípios do poeta, a que, no dia da notícia da morte de Stalin, deu-lhe o quefoi a primeira lição de liberdade.
Eu tinha nove anos e sorria
apenas nove anos e sonhava.
Tudo formando a descrição do momento do quanto aprendera, desde então, que a existência humana é maior do que qualquer esquematismo político:
As flores transpiravam mil segredos
elas eram brancas, roxas, e teimavam.
Aqui vemos o que aparecerá várias vezes neste livro: o fato mais individual a servir de eixo para a definição de fatos da grande história dos homens, o próximo e o singular mostrando seu rosto do distante e do plural.
E por issso – ora aplaudindo e abraçamdo, ora condenado e vergastando – o poeta vai costurando, em torno da sua noção de liberdade, a evocação de nomes de tiranias e tiranos – como Stalin, Salazar, e o golpe militar em 64 – com os nomes de Neruda, Ho Chi Minh, Frei Tito, José Genoíno, Luther King e outros.
Roberto Pontes está convencido de que a fala insubmissa do poeta não deve ser concebida "apenas como resitência" e sim "muito mais como incitação das consciências". E a partir dessas idéias estrutura neste livro uma verdadeira lição do que deve ser verdadeiramente uma poética: lutando para não se aprisionar nos dogmatismos e sectarismos contrários à complexidade da existência, aberto aos infinitos que ainda não sabemos, o poeta colhe a poesia no que vê e sente como o não-ser do que foi ou que não pôde ser sob os golpes do destino e da história; e em nome disso faz da Liberdade a porta e o caminho e o horizonte para o verbo com que intenta dar fala ao ser que nele move idéias e sentimentos:
A noite será feia
enquanto houver uma cadeia.
O poeta não abre exceções, não as admite; a liberdade é indivisível e para todos, ou não é liberdade. Ela é o fundamento de todos os atos do s
A atual poesia cearense é importante, muito importante, pela contribuição que traz à nossa mais válida literatura, aquela que se quer e se faz contra esses aparentemente desvairados cultos da irracionalidade, pregados pelos que se dizem "rebeldes sem causa", e que, por isso mesmo, servem apenas de vaso para o modismo das "vanguardas" conservadoramente aplaudidas pelo poder, por interesses e medos da classe dominante.
A atual poesia cearense, no seu aspecto mais significativo, deixa evidente que vê a literatura como a arte da palavra posta filosoficamente – ou seja, sem simplificações a aleijar as móveis espessuras do real – a serviço das idéias e dos sentimentos que se realizam nas lutas contra as alienações que dolorosamente deformam os sentidos da existência humana. É uma poesia de pé, não há dúvida, uma poesia contra o que oprime e a favor do que liberta, uma poesia dos que sentem na pele dos seus corpos e das suas calçadas o baque das horas sujas e quebradas pela miséria e pela ignorância.
As matrizes da divulgação literária no Rio e em São Paulo, sobretudo, e em outras importantes cidades do Sul e do Centro do nosso país, cercam com uma pesada cortina de silêncio os muitos livros desses poetas editados em Fortaleza.
Para ser reconhecido ou lido nacionalmente, tem-se que ir, pelo menos, ao Rio ou a São Paulo, e ali buscar relacionar-se com os "donos do poder cultural", ou, pelo menos, com os seus parentes e subaltaernos, freqüentar suas casas, levar cartões de visitas sob os olhos das secretárias, alisar com o traseiro as poltronas das editoras, fazer reverências nas redações, encher a todo momento a boca de elogios aos chamados "vencedores da vida", etc., etc. E agora – Deus meu! – é a hora de lembrar o quanto vem sendo badalado, no Rio e em São Paulo, aquele amontoado de ignorância e de imposturas que fez Carlos Drummond de Andrade morrer denunciando o alastramento: da poluição cultural, que consiste na divulgação estonteante de valores intelectuais e artísticos da pior qualidade, absorvidos com avidez por consumidores despreparados e alienados da realidade brasileira.
Por mais que para a imprensa e os escritores daqui fossem enviados, que escritor ou jornal deu cobertura a iniciativas como, por exemplo, a de imprimir e lançar Nação Cariry, uma revista de qualidades bem mais altas do que as babaquices das revistecas e jornalecos em que aqui bailam reunidas a mediocridade e a leviandade?! E se voltarmos atrás, o que dizer da nenhuma esquálida, quando não envenenada, repercussão de movimentos importantes da poesia que foram Clã, na década de 40, o Sin na de 60, O Saco, na de 70?! E isso não é por acaso: o Nordeste – sofrido e ferido sob um regime econômico que já fez por merecer a alcunha de "capitalismo selvagem" – se encontra em autores como os dessa poesia de rebeldes com causa; e se à sua gente fosse dado o mínimo poder de comprar e ler os seus livros, o grito do colonizado se levantaria contra o colonizador.
E é nesse grito, portanto, que a dor mais funda do povo brasileiro, como um todo, encontra o seu verdadeiro eco, aquele cuja história é a do ser contrário aos sons cosmopolitas com que somos vendidos às matrizes do capitalismo financeiro internacional. Matrizes que são as mesmas que dão corda e limite às matrizes da orientação fundamental dos nossos mais potentes meios de comunicação.
E aqui fico pensando em alguns dos mais significativos poetas vivos que hoje o Ceará nos oferece, cada um senhor das técnicas do verso com que vão abrindo – ora com sucesso, ora com fracasso – as muitas janelas da vida que se acha e que se perde no exterior interiorizado do ser humano.
Sem esquecer o relevo dos mortos como Jáder de Carvalho e Aluízio Medeiros, ou o já celebrado em vida Gerardo de Melo Mourão, vale citar, entre os mais velhos, Francisco Carvalho, Alcides Pinto, Arthur Eduardo Benevides e Caetano Ximenes Aragão; e entre os mais moços, além de Luciano Maia e Rosemberg Cariry, vale destacar também Oswald Barroso, Adriano Espínola, Airton Monte, Pedro Lyra, Carlos Augusto Viana, Rogaciano Leite Filho e o digno de ser muito estudado popular poeta Patativa do Assaré. E entre esses, e com o devido destaque, é de incluir-se o nome do autor deste Verbo Encarnado.
Desde as leituras de Contracanto, Lições de Espaço e Memória Corporal, ou seja, há muitos anos, conheci e me fiz amigo pessoal de Roberto Pontes, essa musical figura humana que sabe se fazer tão parte das ruas da cidade em que se orquestra. Da sua ternura guevarina, como indivíduo e poeta, é que ele fez a sombra e o vazio de que também são feitos os atos da vida dos homens. Porque em 1970 ela já escrevia em "Raízes", um poema publicado no número 5 de O Saco, que:
As raízes explicam sempre as folhas
adidas aos ramos projetados
e nelas a essência bruxuleia.
Da sua duração subterrânea
vem o vago e o complexo das plantas
onde apanho o real pelos cabelos.
E assim ele caminha desde os becos escuros ou as praias esverdeadas pelas ondas que levam os perfis da sua Fortaleza até o jogo da luz e da treva nos fatos e nas figuras da nossa história contemporânea que mais o tocaram. O mundo, o nosso mundo e este país dentro dele – esse o barco dos seus pensamentos; o povo, todos os povos, e a singularidade do ser individual neles imerso, esses os tripulantes do seu barco. Aqui o verbo se encarna na dança linotípica das escrituras de significados e significantes; e é uma recusa de todas as ditaduras que levam ao sectarismo e ao dogmatismo, a tudo que prende numa conceitual camisa-de-força os inconceituáveis e quase infinitos tons pesados no olho das velocidades em que giram, se acendendo e se apagando, as contradições de cada ser humano. Aqui, neste livro, o chão de todo verdadeiro poeta, o chão em que cada poeta escolhe a sua singularíssima viagem, o chão em que Roberto Pontes realiza os melhores poemas deste livro. E aqui pinço, como exemplificação, o poema dedicado a Tatá, a negra retinta que foi mãe dos princípios do poeta, a que, no dia da notícia da morte de Stalin, deu-lhe o quefoi a primeira lição de liberdade.
Eu tinha nove anos e sorria
apenas nove anos e sonhava.
Tudo formando a descrição do momento do quanto aprendera, desde então, que a existência humana é maior do que qualquer esquematismo político:
As flores transpiravam mil segredos
elas eram brancas, roxas, e teimavam.
Aqui vemos o que aparecerá várias vezes neste livro: o fato mais individual a servir de eixo para a definição de fatos da grande história dos homens, o próximo e o singular mostrando seu rosto do distante e do plural.
E por issso – ora aplaudindo e abraçamdo, ora condenado e vergastando – o poeta vai costurando, em torno da sua noção de liberdade, a evocação de nomes de tiranias e tiranos – como Stalin, Salazar, e o golpe militar em 64 – com os nomes de Neruda, Ho Chi Minh, Frei Tito, José Genoíno, Luther King e outros.
Roberto Pontes está convencido de que a fala insubmissa do poeta não deve ser concebida "apenas como resitência" e sim "muito mais como incitação das consciências". E a partir dessas idéias estrutura neste livro uma verdadeira lição do que deve ser verdadeiramente uma poética: lutando para não se aprisionar nos dogmatismos e sectarismos contrários à complexidade da existência, aberto aos infinitos que ainda não sabemos, o poeta colhe a poesia no que vê e sente como o não-ser do que foi ou que não pôde ser sob os golpes do destino e da história; e em nome disso faz da Liberdade a porta e o caminho e o horizonte para o verbo com que intenta dar fala ao ser que nele move idéias e sentimentos:
A noite será feia
enquanto houver uma cadeia.
O poeta não abre exceções, não as admite; a liberdade é indivisível e para todos, ou não é liberdade. Ela é o fundamento de todos os atos do s
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Roberto Pontes
Quando o Verbo se Encarna
por Moacyr Félix
A atual poesia cearense é importante, muito importante, pela contribuição que traz à nossa mais válida literatura, aquela que se quer e se faz contra esses aparentemente desvairados cultos da irracionalidade, pregados pelos que se dizem "rebeldes sem causa", e que, por isso mesmo, servem apenas de vaso para o modismo das "vanguardas" conservadoramente aplaudidas pelo poder, por interesses e medos da classe dominante.
A atual poesia cearense, no seu aspecto mais significativo, deixa evidente que vê a literatura como a arte da palavra posta filosoficamente – ou seja, sem simplificações a aleijar as móveis espessuras do real – a serviço das idéias e dos sentimentos que se realizam nas lutas contra as alienações que dolorosamente deformam os sentidos da existência humana. É uma poesia de pé, não há dúvida, uma poesia contra o que oprime e a favor do que liberta, uma poesia dos que sentem na pele dos seus corpos e das suas calçadas o baque das horas sujas e quebradas pela miséria e pela ignorância.
As matrizes da divulgação literária no Rio e em São Paulo, sobretudo, e em outras importantes cidades do Sul e do Centro do nosso país, cercam com uma pesada cortina de silêncio os muitos livros desses poetas editados em Fortaleza.
Para ser reconhecido ou lido nacionalmente, tem-se que ir, pelo menos, ao Rio ou a São Paulo, e ali buscar relacionar-se com os "donos do poder cultural", ou, pelo menos, com os seus parentes e subaltaernos, freqüentar suas casas, levar cartões de visitas sob os olhos das secretárias, alisar com o traseiro as poltronas das editoras, fazer reverências nas redações, encher a todo momento a boca de elogios aos chamados "vencedores da vida", etc., etc. E agora – Deus meu! – é a hora de lembrar o quanto vem sendo badalado, no Rio e em São Paulo, aquele amontoado de ignorância e de imposturas que fez Carlos Drummond de Andrade morrer denunciando o alastramento: da poluição cultural, que consiste na divulgação estonteante de valores intelectuais e artísticos da pior qualidade, absorvidos com avidez por consumidores despreparados e alienados da realidade brasileira.
Por mais que para a imprensa e os escritores daqui fossem enviados, que escritor ou jornal deu cobertura a iniciativas como, por exemplo, a de imprimir e lançar Nação Cariry, uma revista de qualidades bem mais altas do que as babaquices das revistecas e jornalecos em que aqui bailam reunidas a mediocridade e a leviandade?! E se voltarmos atrás, o que dizer da nenhuma esquálida, quando não envenenada, repercussão de movimentos importantes da poesia que foram Clã, na década de 40, o Sin na de 60, O Saco, na de 70?! E isso não é por acaso: o Nordeste – sofrido e ferido sob um regime econômico que já fez por merecer a alcunha de "capitalismo selvagem" – se encontra em autores como os dessa poesia de rebeldes com causa; e se à sua gente fosse dado o mínimo poder de comprar e ler os seus livros, o grito do colonizado se levantaria contra o colonizador.
E é nesse grito, portanto, que a dor mais funda do povo brasileiro, como um todo, encontra o seu verdadeiro eco, aquele cuja história é a do ser contrário aos sons cosmopolitas com que somos vendidos às matrizes do capitalismo financeiro internacional. Matrizes que são as mesmas que dão corda e limite às matrizes da orientação fundamental dos nossos mais potentes meios de comunicação.
E aqui fico pensando em alguns dos mais significativos poetas vivos que hoje o Ceará nos oferece, cada um senhor das técnicas do verso com que vão abrindo – ora com sucesso, ora com fracasso – as muitas janelas da vida que se acha e que se perde no exterior interiorizado do ser humano.
Sem esquecer o relevo dos mortos como Jáder de Carvalho e Aluízio Medeiros, ou o já celebrado em vida Gerardo de Melo Mourão, vale citar, entre os mais velhos, Francisco Carvalho, Alcides Pinto, Arthur Eduardo Benevides e Caetano Ximenes Aragão; e entre os mais moços, além de Luciano Maia e Rosemberg Cariry, vale destacar também Oswald Barroso, Adriano Espínola, Airton Monte, Pedro Lyra, Carlos Augusto Viana, Rogaciano Leite Filho e o digno de ser muito estudado popular poeta Patativa do Assaré. E entre esses, e com o devido destaque, é de incluir-se o nome do autor deste Verbo Encarnado.
Desde as leituras de Contracanto, Lições de Espaço e Memória Corporal, ou seja, há muitos anos, conheci e me fiz amigo pessoal de Roberto Pontes, essa musical figura humana que sabe se fazer tão parte das ruas da cidade em que se orquestra. Da sua ternura guevarina, como indivíduo e poeta, é que ele fez a sombra e o vazio de que também são feitos os atos da vida dos homens. Porque em 1970 ela já escrevia em "Raízes", um poema publicado no número 5 de O Saco, que:
As raízes explicam sempre as folhas
adidas aos ramos projetados
e nelas a essência bruxuleia.
Da sua duração subterrânea
vem o vago e o complexo das plantas
onde apanho o real pelos cabelos.
E assim ele caminha desde os becos escuros ou as praias esverdeadas pelas ondas que levam os perfis da sua Fortaleza até o jogo da luz e da treva nos fatos e nas figuras da nossa história contemporânea que mais o tocaram. O mundo, o nosso mundo e este país dentro dele – esse o barco dos seus pensamentos; o povo, todos os povos, e a singularidade do ser individual neles imerso, esses os tripulantes do seu barco. Aqui o verbo se encarna na dança linotípica das escrituras de significados e significantes; e é uma recusa de todas as ditaduras que levam ao sectarismo e ao dogmatismo, a tudo que prende numa conceitual camisa-de-força os inconceituáveis e quase infinitos tons pesados no olho das velocidades em que giram, se acendendo e se apagando, as contradições de cada ser humano. Aqui, neste livro, o chão de todo verdadeiro poeta, o chão em que cada poeta escolhe a sua singularíssima viagem, o chão em que Roberto Pontes realiza os melhores poemas deste livro. E aqui pinço, como exemplificação, o poema dedicado a Tatá, a negra retinta que foi mãe dos princípios do poeta, a que, no dia da notícia da morte de Stalin, deu-lhe o quefoi a primeira lição de liberdade.
Eu tinha nove anos e sorria
apenas nove anos e sonhava.
Tudo formando a descrição do momento do quanto aprendera, desde então, que a existência humana é maior do que qualquer esquematismo político:
As flores transpiravam mil segredos
elas eram brancas, roxas, e teimavam.
Aqui vemos o que aparecerá várias vezes neste livro: o fato mais individual a servir de eixo para a definição de fatos da grande história dos homens, o próximo e o singular mostrando seu rosto do distante e do plural.
E por issso – ora aplaudindo e abraçamdo, ora condenado e vergastando – o poeta vai costurando, em torno da sua noção de liberdade, a evocação de nomes de tiranias e tiranos – como Stalin, Salazar, e o golpe militar em 64 – com os nomes de Neruda, Ho Chi Minh, Frei Tito, José Genoíno, Luther King e outros.
Roberto Pontes está convencido de que a fala insubmissa do poeta não deve ser concebida "apenas como resitência" e sim "muito mais como incitação das consciências". E a partir dessas idéias estrutura neste livro uma verdadeira lição do que deve ser verdadeiramente uma poética: lutando para não se aprisionar nos dogmatismos e sectarismos contrários à complexidade da existência, aberto aos infinitos que ainda não sabemos, o poeta colhe a poesia no que vê e sente como o não-ser do que foi ou que não pôde ser sob os golpes do destino e da história; e em nome disso faz da Liberdade a porta e o caminho e o horizonte para o verbo com que intenta dar fala ao ser que nele move idéias e sentimentos:
A noite será feia
enquanto houver uma cadeia.
O poeta não abre exceções, não as admite; a liberdade é indivisível e para todos, ou não é liberdade. Ela é o fundamento de todos os atos do s
A atual poesia cearense é importante, muito importante, pela contribuição que traz à nossa mais válida literatura, aquela que se quer e se faz contra esses aparentemente desvairados cultos da irracionalidade, pregados pelos que se dizem "rebeldes sem causa", e que, por isso mesmo, servem apenas de vaso para o modismo das "vanguardas" conservadoramente aplaudidas pelo poder, por interesses e medos da classe dominante.
A atual poesia cearense, no seu aspecto mais significativo, deixa evidente que vê a literatura como a arte da palavra posta filosoficamente – ou seja, sem simplificações a aleijar as móveis espessuras do real – a serviço das idéias e dos sentimentos que se realizam nas lutas contra as alienações que dolorosamente deformam os sentidos da existência humana. É uma poesia de pé, não há dúvida, uma poesia contra o que oprime e a favor do que liberta, uma poesia dos que sentem na pele dos seus corpos e das suas calçadas o baque das horas sujas e quebradas pela miséria e pela ignorância.
As matrizes da divulgação literária no Rio e em São Paulo, sobretudo, e em outras importantes cidades do Sul e do Centro do nosso país, cercam com uma pesada cortina de silêncio os muitos livros desses poetas editados em Fortaleza.
Para ser reconhecido ou lido nacionalmente, tem-se que ir, pelo menos, ao Rio ou a São Paulo, e ali buscar relacionar-se com os "donos do poder cultural", ou, pelo menos, com os seus parentes e subaltaernos, freqüentar suas casas, levar cartões de visitas sob os olhos das secretárias, alisar com o traseiro as poltronas das editoras, fazer reverências nas redações, encher a todo momento a boca de elogios aos chamados "vencedores da vida", etc., etc. E agora – Deus meu! – é a hora de lembrar o quanto vem sendo badalado, no Rio e em São Paulo, aquele amontoado de ignorância e de imposturas que fez Carlos Drummond de Andrade morrer denunciando o alastramento: da poluição cultural, que consiste na divulgação estonteante de valores intelectuais e artísticos da pior qualidade, absorvidos com avidez por consumidores despreparados e alienados da realidade brasileira.
Por mais que para a imprensa e os escritores daqui fossem enviados, que escritor ou jornal deu cobertura a iniciativas como, por exemplo, a de imprimir e lançar Nação Cariry, uma revista de qualidades bem mais altas do que as babaquices das revistecas e jornalecos em que aqui bailam reunidas a mediocridade e a leviandade?! E se voltarmos atrás, o que dizer da nenhuma esquálida, quando não envenenada, repercussão de movimentos importantes da poesia que foram Clã, na década de 40, o Sin na de 60, O Saco, na de 70?! E isso não é por acaso: o Nordeste – sofrido e ferido sob um regime econômico que já fez por merecer a alcunha de "capitalismo selvagem" – se encontra em autores como os dessa poesia de rebeldes com causa; e se à sua gente fosse dado o mínimo poder de comprar e ler os seus livros, o grito do colonizado se levantaria contra o colonizador.
E é nesse grito, portanto, que a dor mais funda do povo brasileiro, como um todo, encontra o seu verdadeiro eco, aquele cuja história é a do ser contrário aos sons cosmopolitas com que somos vendidos às matrizes do capitalismo financeiro internacional. Matrizes que são as mesmas que dão corda e limite às matrizes da orientação fundamental dos nossos mais potentes meios de comunicação.
E aqui fico pensando em alguns dos mais significativos poetas vivos que hoje o Ceará nos oferece, cada um senhor das técnicas do verso com que vão abrindo – ora com sucesso, ora com fracasso – as muitas janelas da vida que se acha e que se perde no exterior interiorizado do ser humano.
Sem esquecer o relevo dos mortos como Jáder de Carvalho e Aluízio Medeiros, ou o já celebrado em vida Gerardo de Melo Mourão, vale citar, entre os mais velhos, Francisco Carvalho, Alcides Pinto, Arthur Eduardo Benevides e Caetano Ximenes Aragão; e entre os mais moços, além de Luciano Maia e Rosemberg Cariry, vale destacar também Oswald Barroso, Adriano Espínola, Airton Monte, Pedro Lyra, Carlos Augusto Viana, Rogaciano Leite Filho e o digno de ser muito estudado popular poeta Patativa do Assaré. E entre esses, e com o devido destaque, é de incluir-se o nome do autor deste Verbo Encarnado.
Desde as leituras de Contracanto, Lições de Espaço e Memória Corporal, ou seja, há muitos anos, conheci e me fiz amigo pessoal de Roberto Pontes, essa musical figura humana que sabe se fazer tão parte das ruas da cidade em que se orquestra. Da sua ternura guevarina, como indivíduo e poeta, é que ele fez a sombra e o vazio de que também são feitos os atos da vida dos homens. Porque em 1970 ela já escrevia em "Raízes", um poema publicado no número 5 de O Saco, que:
As raízes explicam sempre as folhas
adidas aos ramos projetados
e nelas a essência bruxuleia.
Da sua duração subterrânea
vem o vago e o complexo das plantas
onde apanho o real pelos cabelos.
E assim ele caminha desde os becos escuros ou as praias esverdeadas pelas ondas que levam os perfis da sua Fortaleza até o jogo da luz e da treva nos fatos e nas figuras da nossa história contemporânea que mais o tocaram. O mundo, o nosso mundo e este país dentro dele – esse o barco dos seus pensamentos; o povo, todos os povos, e a singularidade do ser individual neles imerso, esses os tripulantes do seu barco. Aqui o verbo se encarna na dança linotípica das escrituras de significados e significantes; e é uma recusa de todas as ditaduras que levam ao sectarismo e ao dogmatismo, a tudo que prende numa conceitual camisa-de-força os inconceituáveis e quase infinitos tons pesados no olho das velocidades em que giram, se acendendo e se apagando, as contradições de cada ser humano. Aqui, neste livro, o chão de todo verdadeiro poeta, o chão em que cada poeta escolhe a sua singularíssima viagem, o chão em que Roberto Pontes realiza os melhores poemas deste livro. E aqui pinço, como exemplificação, o poema dedicado a Tatá, a negra retinta que foi mãe dos princípios do poeta, a que, no dia da notícia da morte de Stalin, deu-lhe o quefoi a primeira lição de liberdade.
Eu tinha nove anos e sorria
apenas nove anos e sonhava.
Tudo formando a descrição do momento do quanto aprendera, desde então, que a existência humana é maior do que qualquer esquematismo político:
As flores transpiravam mil segredos
elas eram brancas, roxas, e teimavam.
Aqui vemos o que aparecerá várias vezes neste livro: o fato mais individual a servir de eixo para a definição de fatos da grande história dos homens, o próximo e o singular mostrando seu rosto do distante e do plural.
E por issso – ora aplaudindo e abraçamdo, ora condenado e vergastando – o poeta vai costurando, em torno da sua noção de liberdade, a evocação de nomes de tiranias e tiranos – como Stalin, Salazar, e o golpe militar em 64 – com os nomes de Neruda, Ho Chi Minh, Frei Tito, José Genoíno, Luther King e outros.
Roberto Pontes está convencido de que a fala insubmissa do poeta não deve ser concebida "apenas como resitência" e sim "muito mais como incitação das consciências". E a partir dessas idéias estrutura neste livro uma verdadeira lição do que deve ser verdadeiramente uma poética: lutando para não se aprisionar nos dogmatismos e sectarismos contrários à complexidade da existência, aberto aos infinitos que ainda não sabemos, o poeta colhe a poesia no que vê e sente como o não-ser do que foi ou que não pôde ser sob os golpes do destino e da história; e em nome disso faz da Liberdade a porta e o caminho e o horizonte para o verbo com que intenta dar fala ao ser que nele move idéias e sentimentos:
A noite será feia
enquanto houver uma cadeia.
O poeta não abre exceções, não as admite; a liberdade é indivisível e para todos, ou não é liberdade. Ela é o fundamento de todos os atos do s
1 009
Roberto Pontes
Para O Bem da Poesia
por Fernando Py
Dentre os livros que, de uma forma ou outra, tomam como assunto exclusivo as questões sócio-econômicas e políticas do nosso tempo, enfocando sobretudo o período negro da ditadura militar recente no Brasil, este Verbo Encarnado se assinala imediatamente pela coerência de propósitos e pela coesão interna.
Coerência que se mostra na atitude severa de combate, denúncia e condenação, mesmo quando não trata das mazelas originárias do golpe militar, mas igualmente das presentes na vida brasileira, principalmente no Nordeste sempre sofrido que o poeta vivencia no sangue e na alma. Coesão que enforma todos os poemas do livro, pois, de certo modo, eles se complementam uns aos outros, lançando luzes novas sobre os problemas dos desvalidos e dos miseráveis, no Brasil e no exterior.
Verbo Encarnado, porém, não representa apenas o desabafo e a revolta. Também reafirma uma posição já assumida na obra anterior do poeta, a sua marca pessoal diante desse mundo em que vivemos, com freqüência hostil e desprezível, mas que poderá vir a ser um dia o universo ideal da espécie humana. Roberto Pontes sabe que reformar o mundo é uma tarefa inglória, senão inútil. Caberia ao indivíduo particular, pela denúncia e pelo combate, contribuir com sua parcela na luta para melhorá-lo. E a parcela do poeta é sua obra poética.
Assim, este livro expõe o que há de errado no contexto sócio-econômico do Brasil, vibra e vergasta os nossos males – mas, acima de tudo, não se esquece de que é um livro de poemas e não um mero folheto panfletário. É importante chamar a atenção para isto, pois essa poesia, tão "datada", não se restringe ao simples fato político-social que a gerou; vai além, impõe-se ao leitor pelo acabamento dos poemas, muito bem cuidados.
E mesmo aí, mostra-se Roberto Pontes um artista acima do mero artesão. Raramente exibe ao leitor um produto bem acabado demais, certinho e sem alcance maior. Em poemas cuja forma fixa é natural – senão obrigatória – não se detém o poeta na medida rigorosa dos versos, antes deixa-os quase sempre a flutuar no balanço de uma ou duas sílabas a mais ou a menos, o que não só contribui para a melodia das linhas, como para o lucro poético do conjunto.
Se poemas como "Verbo Encarnado", "Didática do Homem", "Soul por Luther King", "Fala sobre o Medo" e muitos outros, mostram um poeta bastante afinado com o que acontece no mundo e suas repercussões em cada um de nós, já versos como os da "Chula da Rendeira" e da "Gemedeira da Floreira" provam-no senhor dos ritmos melódicos dos versos, um artista que não se deixa apequenar pelas contingências, antes assimila-as admiravelmente, transformando em matéria poética tudo o que existe de perverso no homem e no mundo. Para o bem da poesia.
FERNANDO PY é tradutor de autores como André Maurois,
Saul Bellow, Marguerite Duras e Marcel Proust. Crítico, colabora
com artigos sobre literatura para jornais e revistas do Rio, São
Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre, dos quais alguns foram
reunidos no volume Chão da Crítica (1984). Poeta, autor de
Aurora de Vidro (1962), A Construção e a Crise (1969); Vozes
do Corpo (1981), Dezoito Sextinas para Mulheres de Outrora
(1981), Antiuniverso (1994); participante do livro Quatro Poetas
(1976). Foi organizador das Poesias Completas de Joaquim
Cardozo (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971) e de
Auto-Retrato e Outras Crônicas de Drummond (Rio de Janeiro:
Record, 1981). Membro da Academia Petropolitana de Letras,
dirige juntamente com Camilo Mota o jornal Poiésis/Literatura
em Petrópolis.
Leia Obra Poética de Fernando Py
Dentre os livros que, de uma forma ou outra, tomam como assunto exclusivo as questões sócio-econômicas e políticas do nosso tempo, enfocando sobretudo o período negro da ditadura militar recente no Brasil, este Verbo Encarnado se assinala imediatamente pela coerência de propósitos e pela coesão interna.
Coerência que se mostra na atitude severa de combate, denúncia e condenação, mesmo quando não trata das mazelas originárias do golpe militar, mas igualmente das presentes na vida brasileira, principalmente no Nordeste sempre sofrido que o poeta vivencia no sangue e na alma. Coesão que enforma todos os poemas do livro, pois, de certo modo, eles se complementam uns aos outros, lançando luzes novas sobre os problemas dos desvalidos e dos miseráveis, no Brasil e no exterior.
Verbo Encarnado, porém, não representa apenas o desabafo e a revolta. Também reafirma uma posição já assumida na obra anterior do poeta, a sua marca pessoal diante desse mundo em que vivemos, com freqüência hostil e desprezível, mas que poderá vir a ser um dia o universo ideal da espécie humana. Roberto Pontes sabe que reformar o mundo é uma tarefa inglória, senão inútil. Caberia ao indivíduo particular, pela denúncia e pelo combate, contribuir com sua parcela na luta para melhorá-lo. E a parcela do poeta é sua obra poética.
Assim, este livro expõe o que há de errado no contexto sócio-econômico do Brasil, vibra e vergasta os nossos males – mas, acima de tudo, não se esquece de que é um livro de poemas e não um mero folheto panfletário. É importante chamar a atenção para isto, pois essa poesia, tão "datada", não se restringe ao simples fato político-social que a gerou; vai além, impõe-se ao leitor pelo acabamento dos poemas, muito bem cuidados.
E mesmo aí, mostra-se Roberto Pontes um artista acima do mero artesão. Raramente exibe ao leitor um produto bem acabado demais, certinho e sem alcance maior. Em poemas cuja forma fixa é natural – senão obrigatória – não se detém o poeta na medida rigorosa dos versos, antes deixa-os quase sempre a flutuar no balanço de uma ou duas sílabas a mais ou a menos, o que não só contribui para a melodia das linhas, como para o lucro poético do conjunto.
Se poemas como "Verbo Encarnado", "Didática do Homem", "Soul por Luther King", "Fala sobre o Medo" e muitos outros, mostram um poeta bastante afinado com o que acontece no mundo e suas repercussões em cada um de nós, já versos como os da "Chula da Rendeira" e da "Gemedeira da Floreira" provam-no senhor dos ritmos melódicos dos versos, um artista que não se deixa apequenar pelas contingências, antes assimila-as admiravelmente, transformando em matéria poética tudo o que existe de perverso no homem e no mundo. Para o bem da poesia.
FERNANDO PY é tradutor de autores como André Maurois,
Saul Bellow, Marguerite Duras e Marcel Proust. Crítico, colabora
com artigos sobre literatura para jornais e revistas do Rio, São
Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre, dos quais alguns foram
reunidos no volume Chão da Crítica (1984). Poeta, autor de
Aurora de Vidro (1962), A Construção e a Crise (1969); Vozes
do Corpo (1981), Dezoito Sextinas para Mulheres de Outrora
(1981), Antiuniverso (1994); participante do livro Quatro Poetas
(1976). Foi organizador das Poesias Completas de Joaquim
Cardozo (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971) e de
Auto-Retrato e Outras Crônicas de Drummond (Rio de Janeiro:
Record, 1981). Membro da Academia Petropolitana de Letras,
dirige juntamente com Camilo Mota o jornal Poiésis/Literatura
em Petrópolis.
Leia Obra Poética de Fernando Py
1 001
Roberto Pontes
Para O Bem da Poesia
por Fernando Py
Dentre os livros que, de uma forma ou outra, tomam como assunto exclusivo as questões sócio-econômicas e políticas do nosso tempo, enfocando sobretudo o período negro da ditadura militar recente no Brasil, este Verbo Encarnado se assinala imediatamente pela coerência de propósitos e pela coesão interna.
Coerência que se mostra na atitude severa de combate, denúncia e condenação, mesmo quando não trata das mazelas originárias do golpe militar, mas igualmente das presentes na vida brasileira, principalmente no Nordeste sempre sofrido que o poeta vivencia no sangue e na alma. Coesão que enforma todos os poemas do livro, pois, de certo modo, eles se complementam uns aos outros, lançando luzes novas sobre os problemas dos desvalidos e dos miseráveis, no Brasil e no exterior.
Verbo Encarnado, porém, não representa apenas o desabafo e a revolta. Também reafirma uma posição já assumida na obra anterior do poeta, a sua marca pessoal diante desse mundo em que vivemos, com freqüência hostil e desprezível, mas que poderá vir a ser um dia o universo ideal da espécie humana. Roberto Pontes sabe que reformar o mundo é uma tarefa inglória, senão inútil. Caberia ao indivíduo particular, pela denúncia e pelo combate, contribuir com sua parcela na luta para melhorá-lo. E a parcela do poeta é sua obra poética.
Assim, este livro expõe o que há de errado no contexto sócio-econômico do Brasil, vibra e vergasta os nossos males – mas, acima de tudo, não se esquece de que é um livro de poemas e não um mero folheto panfletário. É importante chamar a atenção para isto, pois essa poesia, tão "datada", não se restringe ao simples fato político-social que a gerou; vai além, impõe-se ao leitor pelo acabamento dos poemas, muito bem cuidados.
E mesmo aí, mostra-se Roberto Pontes um artista acima do mero artesão. Raramente exibe ao leitor um produto bem acabado demais, certinho e sem alcance maior. Em poemas cuja forma fixa é natural – senão obrigatória – não se detém o poeta na medida rigorosa dos versos, antes deixa-os quase sempre a flutuar no balanço de uma ou duas sílabas a mais ou a menos, o que não só contribui para a melodia das linhas, como para o lucro poético do conjunto.
Se poemas como "Verbo Encarnado", "Didática do Homem", "Soul por Luther King", "Fala sobre o Medo" e muitos outros, mostram um poeta bastante afinado com o que acontece no mundo e suas repercussões em cada um de nós, já versos como os da "Chula da Rendeira" e da "Gemedeira da Floreira" provam-no senhor dos ritmos melódicos dos versos, um artista que não se deixa apequenar pelas contingências, antes assimila-as admiravelmente, transformando em matéria poética tudo o que existe de perverso no homem e no mundo. Para o bem da poesia.
FERNANDO PY é tradutor de autores como André Maurois,
Saul Bellow, Marguerite Duras e Marcel Proust. Crítico, colabora
com artigos sobre literatura para jornais e revistas do Rio, São
Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre, dos quais alguns foram
reunidos no volume Chão da Crítica (1984). Poeta, autor de
Aurora de Vidro (1962), A Construção e a Crise (1969); Vozes
do Corpo (1981), Dezoito Sextinas para Mulheres de Outrora
(1981), Antiuniverso (1994); participante do livro Quatro Poetas
(1976). Foi organizador das Poesias Completas de Joaquim
Cardozo (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971) e de
Auto-Retrato e Outras Crônicas de Drummond (Rio de Janeiro:
Record, 1981). Membro da Academia Petropolitana de Letras,
dirige juntamente com Camilo Mota o jornal Poiésis/Literatura
em Petrópolis.
Leia Obra Poética de Fernando Py
Dentre os livros que, de uma forma ou outra, tomam como assunto exclusivo as questões sócio-econômicas e políticas do nosso tempo, enfocando sobretudo o período negro da ditadura militar recente no Brasil, este Verbo Encarnado se assinala imediatamente pela coerência de propósitos e pela coesão interna.
Coerência que se mostra na atitude severa de combate, denúncia e condenação, mesmo quando não trata das mazelas originárias do golpe militar, mas igualmente das presentes na vida brasileira, principalmente no Nordeste sempre sofrido que o poeta vivencia no sangue e na alma. Coesão que enforma todos os poemas do livro, pois, de certo modo, eles se complementam uns aos outros, lançando luzes novas sobre os problemas dos desvalidos e dos miseráveis, no Brasil e no exterior.
Verbo Encarnado, porém, não representa apenas o desabafo e a revolta. Também reafirma uma posição já assumida na obra anterior do poeta, a sua marca pessoal diante desse mundo em que vivemos, com freqüência hostil e desprezível, mas que poderá vir a ser um dia o universo ideal da espécie humana. Roberto Pontes sabe que reformar o mundo é uma tarefa inglória, senão inútil. Caberia ao indivíduo particular, pela denúncia e pelo combate, contribuir com sua parcela na luta para melhorá-lo. E a parcela do poeta é sua obra poética.
Assim, este livro expõe o que há de errado no contexto sócio-econômico do Brasil, vibra e vergasta os nossos males – mas, acima de tudo, não se esquece de que é um livro de poemas e não um mero folheto panfletário. É importante chamar a atenção para isto, pois essa poesia, tão "datada", não se restringe ao simples fato político-social que a gerou; vai além, impõe-se ao leitor pelo acabamento dos poemas, muito bem cuidados.
E mesmo aí, mostra-se Roberto Pontes um artista acima do mero artesão. Raramente exibe ao leitor um produto bem acabado demais, certinho e sem alcance maior. Em poemas cuja forma fixa é natural – senão obrigatória – não se detém o poeta na medida rigorosa dos versos, antes deixa-os quase sempre a flutuar no balanço de uma ou duas sílabas a mais ou a menos, o que não só contribui para a melodia das linhas, como para o lucro poético do conjunto.
Se poemas como "Verbo Encarnado", "Didática do Homem", "Soul por Luther King", "Fala sobre o Medo" e muitos outros, mostram um poeta bastante afinado com o que acontece no mundo e suas repercussões em cada um de nós, já versos como os da "Chula da Rendeira" e da "Gemedeira da Floreira" provam-no senhor dos ritmos melódicos dos versos, um artista que não se deixa apequenar pelas contingências, antes assimila-as admiravelmente, transformando em matéria poética tudo o que existe de perverso no homem e no mundo. Para o bem da poesia.
FERNANDO PY é tradutor de autores como André Maurois,
Saul Bellow, Marguerite Duras e Marcel Proust. Crítico, colabora
com artigos sobre literatura para jornais e revistas do Rio, São
Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre, dos quais alguns foram
reunidos no volume Chão da Crítica (1984). Poeta, autor de
Aurora de Vidro (1962), A Construção e a Crise (1969); Vozes
do Corpo (1981), Dezoito Sextinas para Mulheres de Outrora
(1981), Antiuniverso (1994); participante do livro Quatro Poetas
(1976). Foi organizador das Poesias Completas de Joaquim
Cardozo (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971) e de
Auto-Retrato e Outras Crônicas de Drummond (Rio de Janeiro:
Record, 1981). Membro da Academia Petropolitana de Letras,
dirige juntamente com Camilo Mota o jornal Poiésis/Literatura
em Petrópolis.
Leia Obra Poética de Fernando Py
1 001
Roberto Pontes
Para O Bem da Poesia
por Fernando Py
Dentre os livros que, de uma forma ou outra, tomam como assunto exclusivo as questões sócio-econômicas e políticas do nosso tempo, enfocando sobretudo o período negro da ditadura militar recente no Brasil, este Verbo Encarnado se assinala imediatamente pela coerência de propósitos e pela coesão interna.
Coerência que se mostra na atitude severa de combate, denúncia e condenação, mesmo quando não trata das mazelas originárias do golpe militar, mas igualmente das presentes na vida brasileira, principalmente no Nordeste sempre sofrido que o poeta vivencia no sangue e na alma. Coesão que enforma todos os poemas do livro, pois, de certo modo, eles se complementam uns aos outros, lançando luzes novas sobre os problemas dos desvalidos e dos miseráveis, no Brasil e no exterior.
Verbo Encarnado, porém, não representa apenas o desabafo e a revolta. Também reafirma uma posição já assumida na obra anterior do poeta, a sua marca pessoal diante desse mundo em que vivemos, com freqüência hostil e desprezível, mas que poderá vir a ser um dia o universo ideal da espécie humana. Roberto Pontes sabe que reformar o mundo é uma tarefa inglória, senão inútil. Caberia ao indivíduo particular, pela denúncia e pelo combate, contribuir com sua parcela na luta para melhorá-lo. E a parcela do poeta é sua obra poética.
Assim, este livro expõe o que há de errado no contexto sócio-econômico do Brasil, vibra e vergasta os nossos males – mas, acima de tudo, não se esquece de que é um livro de poemas e não um mero folheto panfletário. É importante chamar a atenção para isto, pois essa poesia, tão "datada", não se restringe ao simples fato político-social que a gerou; vai além, impõe-se ao leitor pelo acabamento dos poemas, muito bem cuidados.
E mesmo aí, mostra-se Roberto Pontes um artista acima do mero artesão. Raramente exibe ao leitor um produto bem acabado demais, certinho e sem alcance maior. Em poemas cuja forma fixa é natural – senão obrigatória – não se detém o poeta na medida rigorosa dos versos, antes deixa-os quase sempre a flutuar no balanço de uma ou duas sílabas a mais ou a menos, o que não só contribui para a melodia das linhas, como para o lucro poético do conjunto.
Se poemas como "Verbo Encarnado", "Didática do Homem", "Soul por Luther King", "Fala sobre o Medo" e muitos outros, mostram um poeta bastante afinado com o que acontece no mundo e suas repercussões em cada um de nós, já versos como os da "Chula da Rendeira" e da "Gemedeira da Floreira" provam-no senhor dos ritmos melódicos dos versos, um artista que não se deixa apequenar pelas contingências, antes assimila-as admiravelmente, transformando em matéria poética tudo o que existe de perverso no homem e no mundo. Para o bem da poesia.
FERNANDO PY é tradutor de autores como André Maurois,
Saul Bellow, Marguerite Duras e Marcel Proust. Crítico, colabora
com artigos sobre literatura para jornais e revistas do Rio, São
Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre, dos quais alguns foram
reunidos no volume Chão da Crítica (1984). Poeta, autor de
Aurora de Vidro (1962), A Construção e a Crise (1969); Vozes
do Corpo (1981), Dezoito Sextinas para Mulheres de Outrora
(1981), Antiuniverso (1994); participante do livro Quatro Poetas
(1976). Foi organizador das Poesias Completas de Joaquim
Cardozo (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971) e de
Auto-Retrato e Outras Crônicas de Drummond (Rio de Janeiro:
Record, 1981). Membro da Academia Petropolitana de Letras,
dirige juntamente com Camilo Mota o jornal Poiésis/Literatura
em Petrópolis.
Leia Obra Poética de Fernando Py
Dentre os livros que, de uma forma ou outra, tomam como assunto exclusivo as questões sócio-econômicas e políticas do nosso tempo, enfocando sobretudo o período negro da ditadura militar recente no Brasil, este Verbo Encarnado se assinala imediatamente pela coerência de propósitos e pela coesão interna.
Coerência que se mostra na atitude severa de combate, denúncia e condenação, mesmo quando não trata das mazelas originárias do golpe militar, mas igualmente das presentes na vida brasileira, principalmente no Nordeste sempre sofrido que o poeta vivencia no sangue e na alma. Coesão que enforma todos os poemas do livro, pois, de certo modo, eles se complementam uns aos outros, lançando luzes novas sobre os problemas dos desvalidos e dos miseráveis, no Brasil e no exterior.
Verbo Encarnado, porém, não representa apenas o desabafo e a revolta. Também reafirma uma posição já assumida na obra anterior do poeta, a sua marca pessoal diante desse mundo em que vivemos, com freqüência hostil e desprezível, mas que poderá vir a ser um dia o universo ideal da espécie humana. Roberto Pontes sabe que reformar o mundo é uma tarefa inglória, senão inútil. Caberia ao indivíduo particular, pela denúncia e pelo combate, contribuir com sua parcela na luta para melhorá-lo. E a parcela do poeta é sua obra poética.
Assim, este livro expõe o que há de errado no contexto sócio-econômico do Brasil, vibra e vergasta os nossos males – mas, acima de tudo, não se esquece de que é um livro de poemas e não um mero folheto panfletário. É importante chamar a atenção para isto, pois essa poesia, tão "datada", não se restringe ao simples fato político-social que a gerou; vai além, impõe-se ao leitor pelo acabamento dos poemas, muito bem cuidados.
E mesmo aí, mostra-se Roberto Pontes um artista acima do mero artesão. Raramente exibe ao leitor um produto bem acabado demais, certinho e sem alcance maior. Em poemas cuja forma fixa é natural – senão obrigatória – não se detém o poeta na medida rigorosa dos versos, antes deixa-os quase sempre a flutuar no balanço de uma ou duas sílabas a mais ou a menos, o que não só contribui para a melodia das linhas, como para o lucro poético do conjunto.
Se poemas como "Verbo Encarnado", "Didática do Homem", "Soul por Luther King", "Fala sobre o Medo" e muitos outros, mostram um poeta bastante afinado com o que acontece no mundo e suas repercussões em cada um de nós, já versos como os da "Chula da Rendeira" e da "Gemedeira da Floreira" provam-no senhor dos ritmos melódicos dos versos, um artista que não se deixa apequenar pelas contingências, antes assimila-as admiravelmente, transformando em matéria poética tudo o que existe de perverso no homem e no mundo. Para o bem da poesia.
FERNANDO PY é tradutor de autores como André Maurois,
Saul Bellow, Marguerite Duras e Marcel Proust. Crítico, colabora
com artigos sobre literatura para jornais e revistas do Rio, São
Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre, dos quais alguns foram
reunidos no volume Chão da Crítica (1984). Poeta, autor de
Aurora de Vidro (1962), A Construção e a Crise (1969); Vozes
do Corpo (1981), Dezoito Sextinas para Mulheres de Outrora
(1981), Antiuniverso (1994); participante do livro Quatro Poetas
(1976). Foi organizador das Poesias Completas de Joaquim
Cardozo (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971) e de
Auto-Retrato e Outras Crônicas de Drummond (Rio de Janeiro:
Record, 1981). Membro da Academia Petropolitana de Letras,
dirige juntamente com Camilo Mota o jornal Poiésis/Literatura
em Petrópolis.
Leia Obra Poética de Fernando Py
1 001
Roberto Pontes
Para O Bem da Poesia
por Fernando Py
Dentre os livros que, de uma forma ou outra, tomam como assunto exclusivo as questões sócio-econômicas e políticas do nosso tempo, enfocando sobretudo o período negro da ditadura militar recente no Brasil, este Verbo Encarnado se assinala imediatamente pela coerência de propósitos e pela coesão interna.
Coerência que se mostra na atitude severa de combate, denúncia e condenação, mesmo quando não trata das mazelas originárias do golpe militar, mas igualmente das presentes na vida brasileira, principalmente no Nordeste sempre sofrido que o poeta vivencia no sangue e na alma. Coesão que enforma todos os poemas do livro, pois, de certo modo, eles se complementam uns aos outros, lançando luzes novas sobre os problemas dos desvalidos e dos miseráveis, no Brasil e no exterior.
Verbo Encarnado, porém, não representa apenas o desabafo e a revolta. Também reafirma uma posição já assumida na obra anterior do poeta, a sua marca pessoal diante desse mundo em que vivemos, com freqüência hostil e desprezível, mas que poderá vir a ser um dia o universo ideal da espécie humana. Roberto Pontes sabe que reformar o mundo é uma tarefa inglória, senão inútil. Caberia ao indivíduo particular, pela denúncia e pelo combate, contribuir com sua parcela na luta para melhorá-lo. E a parcela do poeta é sua obra poética.
Assim, este livro expõe o que há de errado no contexto sócio-econômico do Brasil, vibra e vergasta os nossos males – mas, acima de tudo, não se esquece de que é um livro de poemas e não um mero folheto panfletário. É importante chamar a atenção para isto, pois essa poesia, tão "datada", não se restringe ao simples fato político-social que a gerou; vai além, impõe-se ao leitor pelo acabamento dos poemas, muito bem cuidados.
E mesmo aí, mostra-se Roberto Pontes um artista acima do mero artesão. Raramente exibe ao leitor um produto bem acabado demais, certinho e sem alcance maior. Em poemas cuja forma fixa é natural – senão obrigatória – não se detém o poeta na medida rigorosa dos versos, antes deixa-os quase sempre a flutuar no balanço de uma ou duas sílabas a mais ou a menos, o que não só contribui para a melodia das linhas, como para o lucro poético do conjunto.
Se poemas como "Verbo Encarnado", "Didática do Homem", "Soul por Luther King", "Fala sobre o Medo" e muitos outros, mostram um poeta bastante afinado com o que acontece no mundo e suas repercussões em cada um de nós, já versos como os da "Chula da Rendeira" e da "Gemedeira da Floreira" provam-no senhor dos ritmos melódicos dos versos, um artista que não se deixa apequenar pelas contingências, antes assimila-as admiravelmente, transformando em matéria poética tudo o que existe de perverso no homem e no mundo. Para o bem da poesia.
FERNANDO PY é tradutor de autores como André Maurois,
Saul Bellow, Marguerite Duras e Marcel Proust. Crítico, colabora
com artigos sobre literatura para jornais e revistas do Rio, São
Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre, dos quais alguns foram
reunidos no volume Chão da Crítica (1984). Poeta, autor de
Aurora de Vidro (1962), A Construção e a Crise (1969); Vozes
do Corpo (1981), Dezoito Sextinas para Mulheres de Outrora
(1981), Antiuniverso (1994); participante do livro Quatro Poetas
(1976). Foi organizador das Poesias Completas de Joaquim
Cardozo (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971) e de
Auto-Retrato e Outras Crônicas de Drummond (Rio de Janeiro:
Record, 1981). Membro da Academia Petropolitana de Letras,
dirige juntamente com Camilo Mota o jornal Poiésis/Literatura
em Petrópolis.
Leia Obra Poética de Fernando Py
Dentre os livros que, de uma forma ou outra, tomam como assunto exclusivo as questões sócio-econômicas e políticas do nosso tempo, enfocando sobretudo o período negro da ditadura militar recente no Brasil, este Verbo Encarnado se assinala imediatamente pela coerência de propósitos e pela coesão interna.
Coerência que se mostra na atitude severa de combate, denúncia e condenação, mesmo quando não trata das mazelas originárias do golpe militar, mas igualmente das presentes na vida brasileira, principalmente no Nordeste sempre sofrido que o poeta vivencia no sangue e na alma. Coesão que enforma todos os poemas do livro, pois, de certo modo, eles se complementam uns aos outros, lançando luzes novas sobre os problemas dos desvalidos e dos miseráveis, no Brasil e no exterior.
Verbo Encarnado, porém, não representa apenas o desabafo e a revolta. Também reafirma uma posição já assumida na obra anterior do poeta, a sua marca pessoal diante desse mundo em que vivemos, com freqüência hostil e desprezível, mas que poderá vir a ser um dia o universo ideal da espécie humana. Roberto Pontes sabe que reformar o mundo é uma tarefa inglória, senão inútil. Caberia ao indivíduo particular, pela denúncia e pelo combate, contribuir com sua parcela na luta para melhorá-lo. E a parcela do poeta é sua obra poética.
Assim, este livro expõe o que há de errado no contexto sócio-econômico do Brasil, vibra e vergasta os nossos males – mas, acima de tudo, não se esquece de que é um livro de poemas e não um mero folheto panfletário. É importante chamar a atenção para isto, pois essa poesia, tão "datada", não se restringe ao simples fato político-social que a gerou; vai além, impõe-se ao leitor pelo acabamento dos poemas, muito bem cuidados.
E mesmo aí, mostra-se Roberto Pontes um artista acima do mero artesão. Raramente exibe ao leitor um produto bem acabado demais, certinho e sem alcance maior. Em poemas cuja forma fixa é natural – senão obrigatória – não se detém o poeta na medida rigorosa dos versos, antes deixa-os quase sempre a flutuar no balanço de uma ou duas sílabas a mais ou a menos, o que não só contribui para a melodia das linhas, como para o lucro poético do conjunto.
Se poemas como "Verbo Encarnado", "Didática do Homem", "Soul por Luther King", "Fala sobre o Medo" e muitos outros, mostram um poeta bastante afinado com o que acontece no mundo e suas repercussões em cada um de nós, já versos como os da "Chula da Rendeira" e da "Gemedeira da Floreira" provam-no senhor dos ritmos melódicos dos versos, um artista que não se deixa apequenar pelas contingências, antes assimila-as admiravelmente, transformando em matéria poética tudo o que existe de perverso no homem e no mundo. Para o bem da poesia.
FERNANDO PY é tradutor de autores como André Maurois,
Saul Bellow, Marguerite Duras e Marcel Proust. Crítico, colabora
com artigos sobre literatura para jornais e revistas do Rio, São
Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre, dos quais alguns foram
reunidos no volume Chão da Crítica (1984). Poeta, autor de
Aurora de Vidro (1962), A Construção e a Crise (1969); Vozes
do Corpo (1981), Dezoito Sextinas para Mulheres de Outrora
(1981), Antiuniverso (1994); participante do livro Quatro Poetas
(1976). Foi organizador das Poesias Completas de Joaquim
Cardozo (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971) e de
Auto-Retrato e Outras Crônicas de Drummond (Rio de Janeiro:
Record, 1981). Membro da Academia Petropolitana de Letras,
dirige juntamente com Camilo Mota o jornal Poiésis/Literatura
em Petrópolis.
Leia Obra Poética de Fernando Py
1 001
Rolf de Souza
Seu cabelo é raíz exposta
Seu cabelo é raíz exposta
que deixa a amostra
uma História que não se pode calar!
Uma História plantada na cabeça.
Para que não se esqueça
a áfrica de seus ancestrais.
Quem não conhece esta História
com a pele se conforma,
mas com o cabelo, não há perdão, o deforma.
De repente: uma história! Não: A História!
Uma História que, como não se fosse pouco,
vira dona de todo o corpo.
Nela se aprende que cabeça
não é só cabeça: é orí.
É nela que está a força que te faz existir.
Seu cabelo de fora será um escândalo!
Mas lembra da Rainha Nefertiti,
cuja coroa é a própria carapinha!
que deixa a amostra
uma História que não se pode calar!
Uma História plantada na cabeça.
Para que não se esqueça
a áfrica de seus ancestrais.
Quem não conhece esta História
com a pele se conforma,
mas com o cabelo, não há perdão, o deforma.
De repente: uma história! Não: A História!
Uma História que, como não se fosse pouco,
vira dona de todo o corpo.
Nela se aprende que cabeça
não é só cabeça: é orí.
É nela que está a força que te faz existir.
Seu cabelo de fora será um escândalo!
Mas lembra da Rainha Nefertiti,
cuja coroa é a própria carapinha!
837
Roberto Pontes
Definição
Rosa não rosa
eu não rescendo a flor.
Nada mais nada
eu fui tirado
de onde o mundo veio.
Mundo ó mundo
a dor constante
de compreender.
Roda com roda
quero a ciranda
orando pela paz.
Rumo e mais rumo
trunfo e conquista
não canto canção.
Vida vida vida
flor de existência
curta mas bela.
Grito então grito
trago um chicote
inquieto na mão.
(In: Poiésis Literatura. Petrópolis, n. 41, nov. 1996)
eu não rescendo a flor.
Nada mais nada
eu fui tirado
de onde o mundo veio.
Mundo ó mundo
a dor constante
de compreender.
Roda com roda
quero a ciranda
orando pela paz.
Rumo e mais rumo
trunfo e conquista
não canto canção.
Vida vida vida
flor de existência
curta mas bela.
Grito então grito
trago um chicote
inquieto na mão.
(In: Poiésis Literatura. Petrópolis, n. 41, nov. 1996)
928
Roberto Pontes
Definição
Rosa não rosa
eu não rescendo a flor.
Nada mais nada
eu fui tirado
de onde o mundo veio.
Mundo ó mundo
a dor constante
de compreender.
Roda com roda
quero a ciranda
orando pela paz.
Rumo e mais rumo
trunfo e conquista
não canto canção.
Vida vida vida
flor de existência
curta mas bela.
Grito então grito
trago um chicote
inquieto na mão.
(In: Poiésis Literatura. Petrópolis, n. 41, nov. 1996)
eu não rescendo a flor.
Nada mais nada
eu fui tirado
de onde o mundo veio.
Mundo ó mundo
a dor constante
de compreender.
Roda com roda
quero a ciranda
orando pela paz.
Rumo e mais rumo
trunfo e conquista
não canto canção.
Vida vida vida
flor de existência
curta mas bela.
Grito então grito
trago um chicote
inquieto na mão.
(In: Poiésis Literatura. Petrópolis, n. 41, nov. 1996)
928
Roberto Pontes
Definição
Rosa não rosa
eu não rescendo a flor.
Nada mais nada
eu fui tirado
de onde o mundo veio.
Mundo ó mundo
a dor constante
de compreender.
Roda com roda
quero a ciranda
orando pela paz.
Rumo e mais rumo
trunfo e conquista
não canto canção.
Vida vida vida
flor de existência
curta mas bela.
Grito então grito
trago um chicote
inquieto na mão.
(In: Poiésis Literatura. Petrópolis, n. 41, nov. 1996)
eu não rescendo a flor.
Nada mais nada
eu fui tirado
de onde o mundo veio.
Mundo ó mundo
a dor constante
de compreender.
Roda com roda
quero a ciranda
orando pela paz.
Rumo e mais rumo
trunfo e conquista
não canto canção.
Vida vida vida
flor de existência
curta mas bela.
Grito então grito
trago um chicote
inquieto na mão.
(In: Poiésis Literatura. Petrópolis, n. 41, nov. 1996)
928
Roberto Pontes
Lamento do Rio Raivoso
Essa água
onde um tronco vai
não é água.
É sangue.
Esse rio que corre
não é rio.
É rei coroado de pontes.
Essas conchas
que servem de leito
não são ostras.
São ossos trazidos dos mangues.
Essa nascente do rio Cocó
só pode ser dois olhos
muito grandes
chorando a vida toda
por ter nascido rio
e não fuzil.
(De Contracanto. Fortaleza: SINedições, 1968)
onde um tronco vai
não é água.
É sangue.
Esse rio que corre
não é rio.
É rei coroado de pontes.
Essas conchas
que servem de leito
não são ostras.
São ossos trazidos dos mangues.
Essa nascente do rio Cocó
só pode ser dois olhos
muito grandes
chorando a vida toda
por ter nascido rio
e não fuzil.
(De Contracanto. Fortaleza: SINedições, 1968)
1 394
Roberto Pontes
Teletipo 1957
hoje eclodiu a chama
o oriente cavalga o cosmos
seu cavalo sputnik
vai sem chouto
a 7 mil km por segundo
rompe a barra magnética
o cinto atmosférico
abre a cortina do espectro
e proclama nova era
o oriente cavalga o cosmos
seu cavalo sputnik
vai sem chouto
a 7 mil km por segundo
rompe a barra magnética
o cinto atmosférico
abre a cortina do espectro
e proclama nova era
1 032
Roberto Pontes
Teletipo 1957
hoje eclodiu a chama
o oriente cavalga o cosmos
seu cavalo sputnik
vai sem chouto
a 7 mil km por segundo
rompe a barra magnética
o cinto atmosférico
abre a cortina do espectro
e proclama nova era
o oriente cavalga o cosmos
seu cavalo sputnik
vai sem chouto
a 7 mil km por segundo
rompe a barra magnética
o cinto atmosférico
abre a cortina do espectro
e proclama nova era
1 032
Roberto Pontes
Sugestões
Se me dizem a palavra trigo
quero possuir a lírica semente.
Se me falam a palavra pedra
Logo imagino o leito de uma estrada.
Se a palavra polícia é-me dita
Sonho com a segurança da cidade.
Porém, se os valores vão ficando invertidos,
Se me dizem a palavra trigo
Penso então nas mãos mais calejadas;
Se me falam a palavra pedra
Logo explode a idéia de confronto;
E se a palavra polícia é ouvida
Vem com os berros e o gemer dos torturados.
(De Sincretismo: A poesia da Geração 60 [Org. Pedro
Lyra]. Rio de Janeiro, Topbooks, 1995)
quero possuir a lírica semente.
Se me falam a palavra pedra
Logo imagino o leito de uma estrada.
Se a palavra polícia é-me dita
Sonho com a segurança da cidade.
Porém, se os valores vão ficando invertidos,
Se me dizem a palavra trigo
Penso então nas mãos mais calejadas;
Se me falam a palavra pedra
Logo explode a idéia de confronto;
E se a palavra polícia é ouvida
Vem com os berros e o gemer dos torturados.
(De Sincretismo: A poesia da Geração 60 [Org. Pedro
Lyra]. Rio de Janeiro, Topbooks, 1995)
1 016
Roberto Pontes
Sugestões
Se me dizem a palavra trigo
quero possuir a lírica semente.
Se me falam a palavra pedra
Logo imagino o leito de uma estrada.
Se a palavra polícia é-me dita
Sonho com a segurança da cidade.
Porém, se os valores vão ficando invertidos,
Se me dizem a palavra trigo
Penso então nas mãos mais calejadas;
Se me falam a palavra pedra
Logo explode a idéia de confronto;
E se a palavra polícia é ouvida
Vem com os berros e o gemer dos torturados.
(De Sincretismo: A poesia da Geração 60 [Org. Pedro
Lyra]. Rio de Janeiro, Topbooks, 1995)
quero possuir a lírica semente.
Se me falam a palavra pedra
Logo imagino o leito de uma estrada.
Se a palavra polícia é-me dita
Sonho com a segurança da cidade.
Porém, se os valores vão ficando invertidos,
Se me dizem a palavra trigo
Penso então nas mãos mais calejadas;
Se me falam a palavra pedra
Logo explode a idéia de confronto;
E se a palavra polícia é ouvida
Vem com os berros e o gemer dos torturados.
(De Sincretismo: A poesia da Geração 60 [Org. Pedro
Lyra]. Rio de Janeiro, Topbooks, 1995)
1 016
Roberto Pontes
Sugestões
Se me dizem a palavra trigo
quero possuir a lírica semente.
Se me falam a palavra pedra
Logo imagino o leito de uma estrada.
Se a palavra polícia é-me dita
Sonho com a segurança da cidade.
Porém, se os valores vão ficando invertidos,
Se me dizem a palavra trigo
Penso então nas mãos mais calejadas;
Se me falam a palavra pedra
Logo explode a idéia de confronto;
E se a palavra polícia é ouvida
Vem com os berros e o gemer dos torturados.
(De Sincretismo: A poesia da Geração 60 [Org. Pedro
Lyra]. Rio de Janeiro, Topbooks, 1995)
quero possuir a lírica semente.
Se me falam a palavra pedra
Logo imagino o leito de uma estrada.
Se a palavra polícia é-me dita
Sonho com a segurança da cidade.
Porém, se os valores vão ficando invertidos,
Se me dizem a palavra trigo
Penso então nas mãos mais calejadas;
Se me falam a palavra pedra
Logo explode a idéia de confronto;
E se a palavra polícia é ouvida
Vem com os berros e o gemer dos torturados.
(De Sincretismo: A poesia da Geração 60 [Org. Pedro
Lyra]. Rio de Janeiro, Topbooks, 1995)
1 016
Roberto Pontes
No Centenário do Cão
In memoriam Adolf Hitler
A merda com que Hitler pintou as paredes da Alemanha
Logo Bertolt Brecht decifrou
E enquanto o "pintor"salpicava seus merdiscos
O poeta transpunha a fronteira de sua pátria
Porque tinha de anunciar aos sete povos do planeta
O grande feito do temível ditador
Um dia Hitler foi coberto de bombas
em seu bunker, em seu próprio jardim
E, mais louco do que Nero
Disparou um tiro de pistola nos seus miolos de excremento
Então, aquela com que pintara as paredes da Alemanha
Escorreu dos muros do Terceiro Reich, o seu império
E cobriu a terra onde sepultaram o seu corpo de merda
A merda com que Hitler pintou as paredes da Alemanha
Logo Bertolt Brecht decifrou
E enquanto o "pintor"salpicava seus merdiscos
O poeta transpunha a fronteira de sua pátria
Porque tinha de anunciar aos sete povos do planeta
O grande feito do temível ditador
Um dia Hitler foi coberto de bombas
em seu bunker, em seu próprio jardim
E, mais louco do que Nero
Disparou um tiro de pistola nos seus miolos de excremento
Então, aquela com que pintara as paredes da Alemanha
Escorreu dos muros do Terceiro Reich, o seu império
E cobriu a terra onde sepultaram o seu corpo de merda
899
Roberto Pontes
No Centenário do Cão
In memoriam Adolf Hitler
A merda com que Hitler pintou as paredes da Alemanha
Logo Bertolt Brecht decifrou
E enquanto o "pintor"salpicava seus merdiscos
O poeta transpunha a fronteira de sua pátria
Porque tinha de anunciar aos sete povos do planeta
O grande feito do temível ditador
Um dia Hitler foi coberto de bombas
em seu bunker, em seu próprio jardim
E, mais louco do que Nero
Disparou um tiro de pistola nos seus miolos de excremento
Então, aquela com que pintara as paredes da Alemanha
Escorreu dos muros do Terceiro Reich, o seu império
E cobriu a terra onde sepultaram o seu corpo de merda
A merda com que Hitler pintou as paredes da Alemanha
Logo Bertolt Brecht decifrou
E enquanto o "pintor"salpicava seus merdiscos
O poeta transpunha a fronteira de sua pátria
Porque tinha de anunciar aos sete povos do planeta
O grande feito do temível ditador
Um dia Hitler foi coberto de bombas
em seu bunker, em seu próprio jardim
E, mais louco do que Nero
Disparou um tiro de pistola nos seus miolos de excremento
Então, aquela com que pintara as paredes da Alemanha
Escorreu dos muros do Terceiro Reich, o seu império
E cobriu a terra onde sepultaram o seu corpo de merda
899
Roberto Pontes
No Centenário do Cão
In memoriam Adolf Hitler
A merda com que Hitler pintou as paredes da Alemanha
Logo Bertolt Brecht decifrou
E enquanto o "pintor"salpicava seus merdiscos
O poeta transpunha a fronteira de sua pátria
Porque tinha de anunciar aos sete povos do planeta
O grande feito do temível ditador
Um dia Hitler foi coberto de bombas
em seu bunker, em seu próprio jardim
E, mais louco do que Nero
Disparou um tiro de pistola nos seus miolos de excremento
Então, aquela com que pintara as paredes da Alemanha
Escorreu dos muros do Terceiro Reich, o seu império
E cobriu a terra onde sepultaram o seu corpo de merda
A merda com que Hitler pintou as paredes da Alemanha
Logo Bertolt Brecht decifrou
E enquanto o "pintor"salpicava seus merdiscos
O poeta transpunha a fronteira de sua pátria
Porque tinha de anunciar aos sete povos do planeta
O grande feito do temível ditador
Um dia Hitler foi coberto de bombas
em seu bunker, em seu próprio jardim
E, mais louco do que Nero
Disparou um tiro de pistola nos seus miolos de excremento
Então, aquela com que pintara as paredes da Alemanha
Escorreu dos muros do Terceiro Reich, o seu império
E cobriu a terra onde sepultaram o seu corpo de merda
899
Roberto Pontes
Quântica 1
artefacto futuro
flores flos tet flaus
corolas e cálices
discos i halos
címbalos et cordas
o aço em hélices
turbinas a jato
capaciômetros
and elétrodos
transistores
filamentos
ruídos e chilreares
pssssTTssssPssss
orbinauta
astro magnus mare
tranqüilidade imponderável
pssssTTssssPssss
EEUU versus CCCP
e a pássara em seu compasso
é uma cápsula
que pisca seu percurso
bat bit bat
y soy solo azul
flores flos tet flaus
corolas e cálices
discos i halos
címbalos et cordas
o aço em hélices
turbinas a jato
capaciômetros
and elétrodos
transistores
filamentos
ruídos e chilreares
pssssTTssssPssss
orbinauta
astro magnus mare
tranqüilidade imponderável
pssssTTssssPssss
EEUU versus CCCP
e a pássara em seu compasso
é uma cápsula
que pisca seu percurso
bat bit bat
y soy solo azul
688
Roberto Pontes
Olhe a Poça
Há quem olhe a poça e veja a lua
Numa noite de intenso tremedal
Nela viaja a sede acre, insaciável
Do homem que trabalha, mas não vive
Daquele que não sabe já quem é
A sede é de tudo e de justiça
E o sedento não vê flores no caminho
A não ser nos canteiros do futuro
Mas como o advir não lhe pertence
Sendo a certeza um fruto de amanhã
Pisar na poça talvez não lhe pareça
Senão mero obstáculo a vencer
Um passo a mais do corpo que carrega
E enquanto a vida for seus dias de alugado
O seu suor, o seu sangue, o excremento
Para ele todo o céu será cinzento
Ter nascido foi ganhar uma sentença
Vai o homem, pisa a poça na calçada
E há quem olhe a mesma poça e veja a lua
Numa noite de intenso tremedal
Nela viaja a sede acre, insaciável
Do homem que trabalha, mas não vive
Daquele que não sabe já quem é
A sede é de tudo e de justiça
E o sedento não vê flores no caminho
A não ser nos canteiros do futuro
Mas como o advir não lhe pertence
Sendo a certeza um fruto de amanhã
Pisar na poça talvez não lhe pareça
Senão mero obstáculo a vencer
Um passo a mais do corpo que carrega
E enquanto a vida for seus dias de alugado
O seu suor, o seu sangue, o excremento
Para ele todo o céu será cinzento
Ter nascido foi ganhar uma sentença
Vai o homem, pisa a poça na calçada
E há quem olhe a mesma poça e veja a lua
944
Roberto Pontes
Olhe a Poça
Há quem olhe a poça e veja a lua
Numa noite de intenso tremedal
Nela viaja a sede acre, insaciável
Do homem que trabalha, mas não vive
Daquele que não sabe já quem é
A sede é de tudo e de justiça
E o sedento não vê flores no caminho
A não ser nos canteiros do futuro
Mas como o advir não lhe pertence
Sendo a certeza um fruto de amanhã
Pisar na poça talvez não lhe pareça
Senão mero obstáculo a vencer
Um passo a mais do corpo que carrega
E enquanto a vida for seus dias de alugado
O seu suor, o seu sangue, o excremento
Para ele todo o céu será cinzento
Ter nascido foi ganhar uma sentença
Vai o homem, pisa a poça na calçada
E há quem olhe a mesma poça e veja a lua
Numa noite de intenso tremedal
Nela viaja a sede acre, insaciável
Do homem que trabalha, mas não vive
Daquele que não sabe já quem é
A sede é de tudo e de justiça
E o sedento não vê flores no caminho
A não ser nos canteiros do futuro
Mas como o advir não lhe pertence
Sendo a certeza um fruto de amanhã
Pisar na poça talvez não lhe pareça
Senão mero obstáculo a vencer
Um passo a mais do corpo que carrega
E enquanto a vida for seus dias de alugado
O seu suor, o seu sangue, o excremento
Para ele todo o céu será cinzento
Ter nascido foi ganhar uma sentença
Vai o homem, pisa a poça na calçada
E há quem olhe a mesma poça e veja a lua
944
Roberto Pontes
Poema de Descrença
Não acredito no poeta banqueiro
E ainda menos no poeta bancário
Ambos se estragam
O primeiro por muito, o outro
Por pouquíssimo dinheiro
E mal assim começa a vida acaba
Não confio no poeta banqueiro
Porque camufla na palavra sonho
As moedas que a caixa-forte guarda
E onde ele escreve a palavra amor
Esta vai ditada pelos cifrões do subconsciente
Não confio no poeta bancário
Pois seu emprego, afinal, é tudo
E quando quer dizer que é explorado
Esquece das palavras, perde a fala
E a poesia no tampo de sua mesa vai sacrificada
Por isso, meus amigos
O cavalo Pegasus não lambe o ouro de Midas
O ouro, todos sabem, não voa
Mas o cavalo, sim, porque tem duas asas
Para fugir das operações de crédito e usura
E ainda menos no poeta bancário
Ambos se estragam
O primeiro por muito, o outro
Por pouquíssimo dinheiro
E mal assim começa a vida acaba
Não confio no poeta banqueiro
Porque camufla na palavra sonho
As moedas que a caixa-forte guarda
E onde ele escreve a palavra amor
Esta vai ditada pelos cifrões do subconsciente
Não confio no poeta bancário
Pois seu emprego, afinal, é tudo
E quando quer dizer que é explorado
Esquece das palavras, perde a fala
E a poesia no tampo de sua mesa vai sacrificada
Por isso, meus amigos
O cavalo Pegasus não lambe o ouro de Midas
O ouro, todos sabem, não voa
Mas o cavalo, sim, porque tem duas asas
Para fugir das operações de crédito e usura
1 050
Roberto Pontes
Poema de Descrença
Não acredito no poeta banqueiro
E ainda menos no poeta bancário
Ambos se estragam
O primeiro por muito, o outro
Por pouquíssimo dinheiro
E mal assim começa a vida acaba
Não confio no poeta banqueiro
Porque camufla na palavra sonho
As moedas que a caixa-forte guarda
E onde ele escreve a palavra amor
Esta vai ditada pelos cifrões do subconsciente
Não confio no poeta bancário
Pois seu emprego, afinal, é tudo
E quando quer dizer que é explorado
Esquece das palavras, perde a fala
E a poesia no tampo de sua mesa vai sacrificada
Por isso, meus amigos
O cavalo Pegasus não lambe o ouro de Midas
O ouro, todos sabem, não voa
Mas o cavalo, sim, porque tem duas asas
Para fugir das operações de crédito e usura
E ainda menos no poeta bancário
Ambos se estragam
O primeiro por muito, o outro
Por pouquíssimo dinheiro
E mal assim começa a vida acaba
Não confio no poeta banqueiro
Porque camufla na palavra sonho
As moedas que a caixa-forte guarda
E onde ele escreve a palavra amor
Esta vai ditada pelos cifrões do subconsciente
Não confio no poeta bancário
Pois seu emprego, afinal, é tudo
E quando quer dizer que é explorado
Esquece das palavras, perde a fala
E a poesia no tampo de sua mesa vai sacrificada
Por isso, meus amigos
O cavalo Pegasus não lambe o ouro de Midas
O ouro, todos sabem, não voa
Mas o cavalo, sim, porque tem duas asas
Para fugir das operações de crédito e usura
1 050