Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Jaime Rocha
RUÍNAS
É um espaço de morte onde vai um corvo
comer todas as manhãs. Poisa junto
ao amontoado de pedras e procura no meio
da vegetação algumas larvas e o cheiro
de outros corvos. É um cheiro novo, azeitado,
que consegue surpreender quem pára um carro
junto a uma montanha.
Nessas ruínas passa um rio que está sujo
e que mostra ao longo das margens mais
de duzentos peixes mortos. É um rio esverdeado
sem vegetação, apenas com uma baba, onde
os corvos vão beber. Tem sons que desaparecem
de repente. Dentro dessas ruínas existem vários
objectos de ferro, outros de plástico.
Tudo está ordenado conforme o seu tempo de uso
e o espaço que ocupam. A um canto que é o canto
mais antigo das ruínas existe já uma grande
quantidade de musgo e cogumelos castanhos
dispersos subindo por uma árvore. É a árvore
dos corvos e é dali que se vê o horizonte,
umas vezes deserto outras com um vento
acinzentado. Os objectos de plástico mudam
de sítio e de cor durante a noite. Quase sempre
são levados pelos ratos para um esconderijo
escavado na terra, sem saída.
É um rio podre, embora nas palavras se possa
inventar uma lenda com um monge de branco
e uma estátua enfeitada de organdi, cheirando
a tabaco. Quando está cheio, ele reflecte
as ruínas com exactidão, as cores, os volumes,
os ácidos, uma temperatura quase quente,
como se as pedras e o barro fervessem para dentro.
Quando seca, as crostas aparecem circulares,
levantadas pelos bichos. E toda a força da terra
então resplandece chamando os lenhadores
e os machados. Os corvos fogem no chão do rio.
Uma cobra de água rodopia da nascente para a foz,
amaciando as ruínas. Todo o espaço está morto
sem barcos, um corpo que é um osso apenas
e que aguarda a chuva.
Esse rio existe nas ruínas, não está desenhado
num livro. Os corvos que lá vão também existem
porque bebem a água todas as manhãs. E isso
é um alimento sedutor. Alguém escreveu a tinta
junto à árvore do canto mais antigo das ruínas.
É onde antes íam mulheres lavar a roupa
e se banhavam mergulhando com os corvos,
quase sempre para nunca mais voltar
comer todas as manhãs. Poisa junto
ao amontoado de pedras e procura no meio
da vegetação algumas larvas e o cheiro
de outros corvos. É um cheiro novo, azeitado,
que consegue surpreender quem pára um carro
junto a uma montanha.
Nessas ruínas passa um rio que está sujo
e que mostra ao longo das margens mais
de duzentos peixes mortos. É um rio esverdeado
sem vegetação, apenas com uma baba, onde
os corvos vão beber. Tem sons que desaparecem
de repente. Dentro dessas ruínas existem vários
objectos de ferro, outros de plástico.
Tudo está ordenado conforme o seu tempo de uso
e o espaço que ocupam. A um canto que é o canto
mais antigo das ruínas existe já uma grande
quantidade de musgo e cogumelos castanhos
dispersos subindo por uma árvore. É a árvore
dos corvos e é dali que se vê o horizonte,
umas vezes deserto outras com um vento
acinzentado. Os objectos de plástico mudam
de sítio e de cor durante a noite. Quase sempre
são levados pelos ratos para um esconderijo
escavado na terra, sem saída.
É um rio podre, embora nas palavras se possa
inventar uma lenda com um monge de branco
e uma estátua enfeitada de organdi, cheirando
a tabaco. Quando está cheio, ele reflecte
as ruínas com exactidão, as cores, os volumes,
os ácidos, uma temperatura quase quente,
como se as pedras e o barro fervessem para dentro.
Quando seca, as crostas aparecem circulares,
levantadas pelos bichos. E toda a força da terra
então resplandece chamando os lenhadores
e os machados. Os corvos fogem no chão do rio.
Uma cobra de água rodopia da nascente para a foz,
amaciando as ruínas. Todo o espaço está morto
sem barcos, um corpo que é um osso apenas
e que aguarda a chuva.
Esse rio existe nas ruínas, não está desenhado
num livro. Os corvos que lá vão também existem
porque bebem a água todas as manhãs. E isso
é um alimento sedutor. Alguém escreveu a tinta
junto à árvore do canto mais antigo das ruínas.
É onde antes íam mulheres lavar a roupa
e se banhavam mergulhando com os corvos,
quase sempre para nunca mais voltar
740
Jaime Rocha
RUÍNAS
É um espaço de morte onde vai um corvo
comer todas as manhãs. Poisa junto
ao amontoado de pedras e procura no meio
da vegetação algumas larvas e o cheiro
de outros corvos. É um cheiro novo, azeitado,
que consegue surpreender quem pára um carro
junto a uma montanha.
Nessas ruínas passa um rio que está sujo
e que mostra ao longo das margens mais
de duzentos peixes mortos. É um rio esverdeado
sem vegetação, apenas com uma baba, onde
os corvos vão beber. Tem sons que desaparecem
de repente. Dentro dessas ruínas existem vários
objectos de ferro, outros de plástico.
Tudo está ordenado conforme o seu tempo de uso
e o espaço que ocupam. A um canto que é o canto
mais antigo das ruínas existe já uma grande
quantidade de musgo e cogumelos castanhos
dispersos subindo por uma árvore. É a árvore
dos corvos e é dali que se vê o horizonte,
umas vezes deserto outras com um vento
acinzentado. Os objectos de plástico mudam
de sítio e de cor durante a noite. Quase sempre
são levados pelos ratos para um esconderijo
escavado na terra, sem saída.
É um rio podre, embora nas palavras se possa
inventar uma lenda com um monge de branco
e uma estátua enfeitada de organdi, cheirando
a tabaco. Quando está cheio, ele reflecte
as ruínas com exactidão, as cores, os volumes,
os ácidos, uma temperatura quase quente,
como se as pedras e o barro fervessem para dentro.
Quando seca, as crostas aparecem circulares,
levantadas pelos bichos. E toda a força da terra
então resplandece chamando os lenhadores
e os machados. Os corvos fogem no chão do rio.
Uma cobra de água rodopia da nascente para a foz,
amaciando as ruínas. Todo o espaço está morto
sem barcos, um corpo que é um osso apenas
e que aguarda a chuva.
Esse rio existe nas ruínas, não está desenhado
num livro. Os corvos que lá vão também existem
porque bebem a água todas as manhãs. E isso
é um alimento sedutor. Alguém escreveu a tinta
junto à árvore do canto mais antigo das ruínas.
É onde antes íam mulheres lavar a roupa
e se banhavam mergulhando com os corvos,
quase sempre para nunca mais voltar
comer todas as manhãs. Poisa junto
ao amontoado de pedras e procura no meio
da vegetação algumas larvas e o cheiro
de outros corvos. É um cheiro novo, azeitado,
que consegue surpreender quem pára um carro
junto a uma montanha.
Nessas ruínas passa um rio que está sujo
e que mostra ao longo das margens mais
de duzentos peixes mortos. É um rio esverdeado
sem vegetação, apenas com uma baba, onde
os corvos vão beber. Tem sons que desaparecem
de repente. Dentro dessas ruínas existem vários
objectos de ferro, outros de plástico.
Tudo está ordenado conforme o seu tempo de uso
e o espaço que ocupam. A um canto que é o canto
mais antigo das ruínas existe já uma grande
quantidade de musgo e cogumelos castanhos
dispersos subindo por uma árvore. É a árvore
dos corvos e é dali que se vê o horizonte,
umas vezes deserto outras com um vento
acinzentado. Os objectos de plástico mudam
de sítio e de cor durante a noite. Quase sempre
são levados pelos ratos para um esconderijo
escavado na terra, sem saída.
É um rio podre, embora nas palavras se possa
inventar uma lenda com um monge de branco
e uma estátua enfeitada de organdi, cheirando
a tabaco. Quando está cheio, ele reflecte
as ruínas com exactidão, as cores, os volumes,
os ácidos, uma temperatura quase quente,
como se as pedras e o barro fervessem para dentro.
Quando seca, as crostas aparecem circulares,
levantadas pelos bichos. E toda a força da terra
então resplandece chamando os lenhadores
e os machados. Os corvos fogem no chão do rio.
Uma cobra de água rodopia da nascente para a foz,
amaciando as ruínas. Todo o espaço está morto
sem barcos, um corpo que é um osso apenas
e que aguarda a chuva.
Esse rio existe nas ruínas, não está desenhado
num livro. Os corvos que lá vão também existem
porque bebem a água todas as manhãs. E isso
é um alimento sedutor. Alguém escreveu a tinta
junto à árvore do canto mais antigo das ruínas.
É onde antes íam mulheres lavar a roupa
e se banhavam mergulhando com os corvos,
quase sempre para nunca mais voltar
740
Joaquim Manuel Magalhães
Uma pá
Uma pá, a equipa de alumínio.
Cravelha e picareta.
Piquete de granizo.
Resíduo, tina, pilar.
A sanguínea aviva
o souto na aduela
de goivo e poejo.
A caleira gafa,
o lasso ferrolho
do herbicida e do adubo.
Açucena albarrã.
Ancoradouro. A vaga
uma voluptuosa vereda.
Colmeia, taça, maçã.
Cravelha e picareta.
Piquete de granizo.
Resíduo, tina, pilar.
A sanguínea aviva
o souto na aduela
de goivo e poejo.
A caleira gafa,
o lasso ferrolho
do herbicida e do adubo.
Açucena albarrã.
Ancoradouro. A vaga
uma voluptuosa vereda.
Colmeia, taça, maçã.
1 172
Carlito Azevedo
BANHISTA
Apenas
em frente
ao mar
um dia de verão -
quando tua voz
acesa percorresse,
consumindo-o,
o pavio de um verso
até sua última
sílaba inflamável -
quando o súbito
atrito de um nome
em tua memória te
incendiasse os cabelos -
(e sobre tua pele
de fogo a
brisa fizesse
rasgaduras
de água)
em frente
ao mar
um dia de verão -
quando tua voz
acesa percorresse,
consumindo-o,
o pavio de um verso
até sua última
sílaba inflamável -
quando o súbito
atrito de um nome
em tua memória te
incendiasse os cabelos -
(e sobre tua pele
de fogo a
brisa fizesse
rasgaduras
de água)
848
Carlito Azevedo
ABERTURA
Desta janela
domou-se o infinito à esquadria;
desde além, aonde a púrpura sobre a serra
assoma como fumaça desatando-se da lenha,
até aqui, nesta flor quieta sobre o
parapeito – em cujas bordas se lêem
as primeiras deserções da
geometria.
domou-se o infinito à esquadria;
desde além, aonde a púrpura sobre a serra
assoma como fumaça desatando-se da lenha,
até aqui, nesta flor quieta sobre o
parapeito – em cujas bordas se lêem
as primeiras deserções da
geometria.
824
Jaime Rocha
48 A mulher mostra-se na luz
A mulher mostra-se na luz, entre a folhagem.
A cor dos seus cabelos está intacta. Ela tece
um caminho para o homem, mas as mãos dele
colaram-se ao cimento, os seus olhos pararam
no tempo. Todo o seu corpo se assemelha agora
a uma árvore acorrentada pelas heras onde não
entra a música, nem o tempo que separa os dias.
As ondas sustiveram o movimento em direcção
à praia, regressando ao outro lado do horizonte.
As nuvens caíram. As aves perderam as asas.
Tudo, até os cães, desapareceu na escuridão.
Apenas umas pétalas esvoaçaram ao acaso,
seguindo o rasto dos morcegos, num último
torpor, numa vergonha.
A cor dos seus cabelos está intacta. Ela tece
um caminho para o homem, mas as mãos dele
colaram-se ao cimento, os seus olhos pararam
no tempo. Todo o seu corpo se assemelha agora
a uma árvore acorrentada pelas heras onde não
entra a música, nem o tempo que separa os dias.
As ondas sustiveram o movimento em direcção
à praia, regressando ao outro lado do horizonte.
As nuvens caíram. As aves perderam as asas.
Tudo, até os cães, desapareceu na escuridão.
Apenas umas pétalas esvoaçaram ao acaso,
seguindo o rasto dos morcegos, num último
torpor, numa vergonha.
1 136
Jaime Rocha
13 Toda aquela assombração
Toda aquela assombração está gravada
na tinta como se pertencesse a um livro
queimado, roído pelo sol. O homem sabe
que se trata de uma morta, mas não
entende que é a cicatriz do seu peito que
lhe ocupa o sono e o cativa para um ritual
demoníaco. Conhece os seus cabelos, os
lábios a descerem pelas amoras, pela cera.
E toda a sua pele sobressai, pintada na
parede, nos pregos, nas mãos que descansam
em cima de uma toalha. Um navio incendeia-se
contra um recife. É ela ou os seus vestidos a
desaparecerem no horizonte, no fim de tudo.
na tinta como se pertencesse a um livro
queimado, roído pelo sol. O homem sabe
que se trata de uma morta, mas não
entende que é a cicatriz do seu peito que
lhe ocupa o sono e o cativa para um ritual
demoníaco. Conhece os seus cabelos, os
lábios a descerem pelas amoras, pela cera.
E toda a sua pele sobressai, pintada na
parede, nos pregos, nas mãos que descansam
em cima de uma toalha. Um navio incendeia-se
contra um recife. É ela ou os seus vestidos a
desaparecerem no horizonte, no fim de tudo.
1 111
Carlito Azevedo
NA NOITE FÍSICA
(desentranhado de um poema de Charles Peixoto)
A luz do quarto apagada,na escuridão se destaca
a insônia que nos atraca,
dois gêmeos na bolsa d'água.
Ao despertar levo as marcas
que de noite rabiscavas
em minha pele com a sarna
ávida de tua raiva?
E em você a cega trama
algum mal pôde? ou maltrata
ainda, que penetrava
concha, espádua, gargalhada?
E, em nosso rosto essa raiva
aberta? que estranha lava
é essa que, rubra (baba
de algum diabo), se espalha?
A luz do quarto apagada,
na escuridão se destaca
a fúria que nos atraca,
dois gêmeos na bolsa d'água.
A luz do quarto apagada,na escuridão se destaca
a insônia que nos atraca,
dois gêmeos na bolsa d'água.
Ao despertar levo as marcas
que de noite rabiscavas
em minha pele com a sarna
ávida de tua raiva?
E em você a cega trama
algum mal pôde? ou maltrata
ainda, que penetrava
concha, espádua, gargalhada?
E, em nosso rosto essa raiva
aberta? que estranha lava
é essa que, rubra (baba
de algum diabo), se espalha?
A luz do quarto apagada,
na escuridão se destaca
a fúria que nos atraca,
dois gêmeos na bolsa d'água.
812
Ademir Assunção
LENDA URBANA
Sombra Vermelha perseguia lenhadores
no coração da floresta.
Mas o coração da floresta parou.
Não há mais lenhadores.
Não há mais árvores.
Sombra Vermelha teve a pele coberta
por grossas escamas de petróleo.
Lili Maconha escuta vozes na secretária eletrônica,
vindas de muito longe.
As cortinas esfarrapadas tremulam levemente
ante a paisagem de escombros.
Cavalos de névoa são vistos trotando na Praça da Sé,
depois que o sino badala
as últimas blasfêmias da noite
e o breu desaba sobre o chafariz de água suja.
As paredes dos manicômios sangram óleo de caminhão.
no coração da floresta.
Mas o coração da floresta parou.
Não há mais lenhadores.
Não há mais árvores.
Sombra Vermelha teve a pele coberta
por grossas escamas de petróleo.
Lili Maconha escuta vozes na secretária eletrônica,
vindas de muito longe.
As cortinas esfarrapadas tremulam levemente
ante a paisagem de escombros.
Cavalos de névoa são vistos trotando na Praça da Sé,
depois que o sino badala
as últimas blasfêmias da noite
e o breu desaba sobre o chafariz de água suja.
As paredes dos manicômios sangram óleo de caminhão.
1 209
Carlito Azevedo
RÓI
Rói qualquer possibilidade de sono
essa minimalíssima música
de cupins esboroando
tacos sob a cama
imagino a rede de canais
que a perquirição predatória
possa ter riscado
pelo madeirame apodrecido
se aguço o ouvido
capto súbito
o mundo dos vermes
essa minimalíssima música
de cupins esboroando
tacos sob a cama
imagino a rede de canais
que a perquirição predatória
possa ter riscado
pelo madeirame apodrecido
se aguço o ouvido
capto súbito
o mundo dos vermes
756
Ademir Assunção
JACK KEROUAC NA PRAIA BRAVA
sonhei com jack kerouac
sentado na varanda da casa
de waldemar cordeiro. eu acabara
de acordar e dei de cara
com aquele vulto imerso
na neblina. bem acima da copa
das árvores a lua cheia ardia
entre nuvens espessas, com sua
cara de gângster. eu disse: “ei, man,
onde é que vamos parar?” jack
deu uma longa tragada
no cigarro, fumaça branca na névoa
branca, e me estendeu
o copo de uísque.
continuou encarando a lua, pálido
como um fantasma. disse
que estava a bordo de um navio
mercante da marinha americana na costa
da indonésia até a semana passada.
perguntou se ainda havia hippies
nas ruas, feministas queimando sutiãs
em praça pública e negros
enforcados nos galhos de grossos carvalhos
no novo méxico. “oh, não, jack, isso
faz tanto tempo. agora eles mandam os jovens
negros pobres para a guerra no iraque.”
descemos até a mercearia da praia brava
atrás de umas latinhas de cerveja
e de uma garrafa de conhaque. no caminho
contei-lhe que leminski e itamar assumpção
estiveram nesta mesma casa no carnaval
de 1988. “oh, yeah”, disse jack. “os grandes
poetas são como as marés: engolem os
barcos dos imprudentes e lançam os destroços
na praia”. quando voltamos da mercearia,
minha filha de 16 anos lia jorge luis borges
e meu filho de 13 lia david goodis. nina
simone cantava just call me angel of the morning.
jack abriu uma lata de cerveja, bebeu
um longo gole olhando as folhas da mata
e disse a eles: “não deixem que os idiotas
calem sua voz. aquela voz que vem lá do fundo
de vocês mesmos. contem comigo
pro que der e vier”. minha filha
sussurrou no meu ouvido: “quem é esse
cara?” “jack kerouac”, eu respondi. “uau”,
ela balbuciou. meu filho levantou os olhos
do livro e gritou: “eddie acabou de acertar um
cruzado de direita na cara do leão de chácara”.
eu olhei para jack e em silêncio
fizemos um trato: “deixe-os viver. ainda é cedo
para contar-lhes sobre as mentiras do mundo”.
jack jogou pra dentro um bom gole
de conhaque e assentiu com a cabeça. a noite
estava fria. a lua continuava socando as nuvens
com sua cara de gângster mal-humorado.
sentado na varanda da casa
de waldemar cordeiro. eu acabara
de acordar e dei de cara
com aquele vulto imerso
na neblina. bem acima da copa
das árvores a lua cheia ardia
entre nuvens espessas, com sua
cara de gângster. eu disse: “ei, man,
onde é que vamos parar?” jack
deu uma longa tragada
no cigarro, fumaça branca na névoa
branca, e me estendeu
o copo de uísque.
continuou encarando a lua, pálido
como um fantasma. disse
que estava a bordo de um navio
mercante da marinha americana na costa
da indonésia até a semana passada.
perguntou se ainda havia hippies
nas ruas, feministas queimando sutiãs
em praça pública e negros
enforcados nos galhos de grossos carvalhos
no novo méxico. “oh, não, jack, isso
faz tanto tempo. agora eles mandam os jovens
negros pobres para a guerra no iraque.”
descemos até a mercearia da praia brava
atrás de umas latinhas de cerveja
e de uma garrafa de conhaque. no caminho
contei-lhe que leminski e itamar assumpção
estiveram nesta mesma casa no carnaval
de 1988. “oh, yeah”, disse jack. “os grandes
poetas são como as marés: engolem os
barcos dos imprudentes e lançam os destroços
na praia”. quando voltamos da mercearia,
minha filha de 16 anos lia jorge luis borges
e meu filho de 13 lia david goodis. nina
simone cantava just call me angel of the morning.
jack abriu uma lata de cerveja, bebeu
um longo gole olhando as folhas da mata
e disse a eles: “não deixem que os idiotas
calem sua voz. aquela voz que vem lá do fundo
de vocês mesmos. contem comigo
pro que der e vier”. minha filha
sussurrou no meu ouvido: “quem é esse
cara?” “jack kerouac”, eu respondi. “uau”,
ela balbuciou. meu filho levantou os olhos
do livro e gritou: “eddie acabou de acertar um
cruzado de direita na cara do leão de chácara”.
eu olhei para jack e em silêncio
fizemos um trato: “deixe-os viver. ainda é cedo
para contar-lhes sobre as mentiras do mundo”.
jack jogou pra dentro um bom gole
de conhaque e assentiu com a cabeça. a noite
estava fria. a lua continuava socando as nuvens
com sua cara de gângster mal-humorado.
1 016
Jaime Rocha
38 Ela diz
Ela diz, é a sua primeira fala depois de morta,
tapar-te-ei com os meus cetins como se o meu
corpo fosse um risco no céu.
O homem sabe que as palavras são apenas uma
memória. A sua cintura procura reviver depois
de os cães o terem dilacerado. É um grito, um
beijo frio. Ela avança com a roupa ensanguentada.
Mas é apenas uma moldura envolvida pelo âmbar,
uma luminosidade difusa, saída de uma necrópole.
Um dos lados do seu rosto fica negro, como se a
lua tivesse passado por cima dele e o deixasse
marcado por uma dor.
tapar-te-ei com os meus cetins como se o meu
corpo fosse um risco no céu.
O homem sabe que as palavras são apenas uma
memória. A sua cintura procura reviver depois
de os cães o terem dilacerado. É um grito, um
beijo frio. Ela avança com a roupa ensanguentada.
Mas é apenas uma moldura envolvida pelo âmbar,
uma luminosidade difusa, saída de uma necrópole.
Um dos lados do seu rosto fica negro, como se a
lua tivesse passado por cima dele e o deixasse
marcado por uma dor.
1 080
Jaime Rocha
1 A mulher caminha pelas urzes
A mulher caminha pelas urzes, no auge
do vento, já depois da morte, enovelada
pelos ramos que cortam a paisagem.
O homem está parado como uma ave
de pedra, batida pelo fumo. Depois, é o
corpo dela desfeito sobre os rochedos,
uma faísca que incendeia um pedaço
de madeira. O homem, amarrado a uma
mancha de ferro, contempla o corpo vazio.
Um pássaro cego cai em cima de um espelho.
É o rosto dele despedaçado, a dor.
Tudo é medonho à sua volta, a parte
de trás da luz, a humidade, a respiração
das plantas.
do vento, já depois da morte, enovelada
pelos ramos que cortam a paisagem.
O homem está parado como uma ave
de pedra, batida pelo fumo. Depois, é o
corpo dela desfeito sobre os rochedos,
uma faísca que incendeia um pedaço
de madeira. O homem, amarrado a uma
mancha de ferro, contempla o corpo vazio.
Um pássaro cego cai em cima de um espelho.
É o rosto dele despedaçado, a dor.
Tudo é medonho à sua volta, a parte
de trás da luz, a humidade, a respiração
das plantas.
1 150
Everardo Norões
pampas
Para Hildebrando Pérez Grande
São sempre linhas
as paisagens,
a cortarem geometricamente
nossas rotinas.
As curvas senoidais
das serras,
as retas dormentes
das planícies.
E nós:
pequenos pontos
num papel rasgado.
São sempre linhas
as paisagens,
a cortarem geometricamente
nossas rotinas.
As curvas senoidais
das serras,
as retas dormentes
das planícies.
E nós:
pequenos pontos
num papel rasgado.
723
João Filho
Quase Gregas - Quinta
Dos possíveis caminhos propôs o Caminho.
E, assim, nascida sem fim, luz fundante,
sabendo que o cosmo é insuficiente
neste mundo-minuto
– do gozo do corpo
ao pó de tudo –,
profere: sim!
Rompe nãos, nadas
e principia a traçar o que não poderia ter sido.
Aqui, no largo do instante,
persente o espanto e celebra por celebrar –
das funduras da noite ao sussurro do sangue.
Luz generosa repete seu átimo,
assíduo em sumir,
mas delimita e, ao fazê-lo, liberta,
contorna e penetra toda a folhagem em fibra e
[verdura –
no centro da vida ,
a amendoeira transpira silêncio.
Manhã.
No trajeto, a luz atravessa o copo com água
na mesa da sala,
blocos de cores,
miríades rebentam
– rasante azulado cantante cruzando a varanda –
e desaparecem.
Ama? E degola.
O intento é cumprido
e os dias nos acontecem.
E, assim, nascida sem fim, luz fundante,
sabendo que o cosmo é insuficiente
neste mundo-minuto
– do gozo do corpo
ao pó de tudo –,
profere: sim!
Rompe nãos, nadas
e principia a traçar o que não poderia ter sido.
Aqui, no largo do instante,
persente o espanto e celebra por celebrar –
das funduras da noite ao sussurro do sangue.
Luz generosa repete seu átimo,
assíduo em sumir,
mas delimita e, ao fazê-lo, liberta,
contorna e penetra toda a folhagem em fibra e
[verdura –
no centro da vida ,
a amendoeira transpira silêncio.
Manhã.
No trajeto, a luz atravessa o copo com água
na mesa da sala,
blocos de cores,
miríades rebentam
– rasante azulado cantante cruzando a varanda –
e desaparecem.
Ama? E degola.
O intento é cumprido
e os dias nos acontecem.
641
João Filho
Quase Gregas - Quinta
Dos possíveis caminhos propôs o Caminho.
E, assim, nascida sem fim, luz fundante,
sabendo que o cosmo é insuficiente
neste mundo-minuto
– do gozo do corpo
ao pó de tudo –,
profere: sim!
Rompe nãos, nadas
e principia a traçar o que não poderia ter sido.
Aqui, no largo do instante,
persente o espanto e celebra por celebrar –
das funduras da noite ao sussurro do sangue.
Luz generosa repete seu átimo,
assíduo em sumir,
mas delimita e, ao fazê-lo, liberta,
contorna e penetra toda a folhagem em fibra e
[verdura –
no centro da vida ,
a amendoeira transpira silêncio.
Manhã.
No trajeto, a luz atravessa o copo com água
na mesa da sala,
blocos de cores,
miríades rebentam
– rasante azulado cantante cruzando a varanda –
e desaparecem.
Ama? E degola.
O intento é cumprido
e os dias nos acontecem.
E, assim, nascida sem fim, luz fundante,
sabendo que o cosmo é insuficiente
neste mundo-minuto
– do gozo do corpo
ao pó de tudo –,
profere: sim!
Rompe nãos, nadas
e principia a traçar o que não poderia ter sido.
Aqui, no largo do instante,
persente o espanto e celebra por celebrar –
das funduras da noite ao sussurro do sangue.
Luz generosa repete seu átimo,
assíduo em sumir,
mas delimita e, ao fazê-lo, liberta,
contorna e penetra toda a folhagem em fibra e
[verdura –
no centro da vida ,
a amendoeira transpira silêncio.
Manhã.
No trajeto, a luz atravessa o copo com água
na mesa da sala,
blocos de cores,
miríades rebentam
– rasante azulado cantante cruzando a varanda –
e desaparecem.
Ama? E degola.
O intento é cumprido
e os dias nos acontecem.
641
Grazia Deledda
A Primavera
O inverno arrefeceu também
a cor das rochas. Da montanha desciam
veias de prata, mil riachos silenciosos,
brilhando no verde vivo da erva.
Um sobressalto de torrente no fundo do vale
entre pêssegos e amendoeiras em flor, e tudo era puro,
jovem, fresco, sob a luz prateada do céu.
a cor das rochas. Da montanha desciam
veias de prata, mil riachos silenciosos,
brilhando no verde vivo da erva.
Um sobressalto de torrente no fundo do vale
entre pêssegos e amendoeiras em flor, e tudo era puro,
jovem, fresco, sob a luz prateada do céu.
713
Grazia Deledda
A Primavera
O inverno arrefeceu também
a cor das rochas. Da montanha desciam
veias de prata, mil riachos silenciosos,
brilhando no verde vivo da erva.
Um sobressalto de torrente no fundo do vale
entre pêssegos e amendoeiras em flor, e tudo era puro,
jovem, fresco, sob a luz prateada do céu.
a cor das rochas. Da montanha desciam
veias de prata, mil riachos silenciosos,
brilhando no verde vivo da erva.
Um sobressalto de torrente no fundo do vale
entre pêssegos e amendoeiras em flor, e tudo era puro,
jovem, fresco, sob a luz prateada do céu.
713
Grazia Deledda
A Primavera
O inverno arrefeceu também
a cor das rochas. Da montanha desciam
veias de prata, mil riachos silenciosos,
brilhando no verde vivo da erva.
Um sobressalto de torrente no fundo do vale
entre pêssegos e amendoeiras em flor, e tudo era puro,
jovem, fresco, sob a luz prateada do céu.
a cor das rochas. Da montanha desciam
veias de prata, mil riachos silenciosos,
brilhando no verde vivo da erva.
Um sobressalto de torrente no fundo do vale
entre pêssegos e amendoeiras em flor, e tudo era puro,
jovem, fresco, sob a luz prateada do céu.
713
Everardo Norões
fractais
Pelo mergulho
das sombras,
calculo
o itinerário da luz.
Meço
os contornos de nossas ruínas
na matemática particular
dos desesperos.
Abro a janela
da página do sonho:
soletro, devagar, o Aywu rapitá:
o ser do ser da palavra,
(flor pronunciada
entre as estrelas).
A noite
desaba sobre as telhas
na explosão de um meteoro.
Conto estilhaços,
recomponho parábolas:
um mínimo do que sou
lembra as fronteiras
do Universo.
das sombras,
calculo
o itinerário da luz.
Meço
os contornos de nossas ruínas
na matemática particular
dos desesperos.
Abro a janela
da página do sonho:
soletro, devagar, o Aywu rapitá:
o ser do ser da palavra,
(flor pronunciada
entre as estrelas).
A noite
desaba sobre as telhas
na explosão de um meteoro.
Conto estilhaços,
recomponho parábolas:
um mínimo do que sou
lembra as fronteiras
do Universo.
676
Everardo Norões
fractais
Pelo mergulho
das sombras,
calculo
o itinerário da luz.
Meço
os contornos de nossas ruínas
na matemática particular
dos desesperos.
Abro a janela
da página do sonho:
soletro, devagar, o Aywu rapitá:
o ser do ser da palavra,
(flor pronunciada
entre as estrelas).
A noite
desaba sobre as telhas
na explosão de um meteoro.
Conto estilhaços,
recomponho parábolas:
um mínimo do que sou
lembra as fronteiras
do Universo.
das sombras,
calculo
o itinerário da luz.
Meço
os contornos de nossas ruínas
na matemática particular
dos desesperos.
Abro a janela
da página do sonho:
soletro, devagar, o Aywu rapitá:
o ser do ser da palavra,
(flor pronunciada
entre as estrelas).
A noite
desaba sobre as telhas
na explosão de um meteoro.
Conto estilhaços,
recomponho parábolas:
um mínimo do que sou
lembra as fronteiras
do Universo.
676
Ademir Assunção
CHACAIS E HIENAS
a história sempre termina assim
os chacais – e também as hienas
saltam sobre o leão ferido
os chacais – e também as hienas
saltam sobre o leão ferido
para devorar sua carne – até o osso
os chacais – e também as hienas
saciam a fome atávica de séculos
e mostram os dentes pontiagudos
mostram os dentes pontiagudos
fiapos de carne entre os caninos
e riem seu riso de escárnios e ganância
e o riso de escárnio e ganância
é ouvido em toda a pradaria
toda a savana toda a cidade
as ovelhas balem nos currais os lobos
uivam nos cerrados as águias
apuram a visão no alto das árvores
o cheiro de carniça persiste por dias
vermes fermentam os restos de carne
e o couro do leão ferido se degrada
o vento crepita nos galhos secos
um silêncio – que não é paz nem trégua
se espalha pela pradaria savana cidade
a chuva não vem o sol é inclemente
a fome o escárnio a ganância persistem
e a história recomeça de novo e de novo
os chacais – e também as hienas
saltam sobre o leão ferido
os chacais – e também as hienas
saltam sobre o leão ferido
para devorar sua carne – até o osso
os chacais – e também as hienas
saciam a fome atávica de séculos
e mostram os dentes pontiagudos
mostram os dentes pontiagudos
fiapos de carne entre os caninos
e riem seu riso de escárnios e ganância
e o riso de escárnio e ganância
é ouvido em toda a pradaria
toda a savana toda a cidade
as ovelhas balem nos currais os lobos
uivam nos cerrados as águias
apuram a visão no alto das árvores
o cheiro de carniça persiste por dias
vermes fermentam os restos de carne
e o couro do leão ferido se degrada
o vento crepita nos galhos secos
um silêncio – que não é paz nem trégua
se espalha pela pradaria savana cidade
a chuva não vem o sol é inclemente
a fome o escárnio a ganância persistem
e a história recomeça de novo e de novo
1 257
Everardo Norões
TRISTÃO
Em pé, ao sol e ao vento do sertão,
ele não se decompôs.
Pedro Nava (Baú de Ossos)
As palavras no alforje. E o rosário,
a escorrer das penas e dos dias.
O azul da barba lembra uma paisagem
onde campeiam cabras. E ramagens
desatam-se em sombras nas janelas.
A morrinha dos bichos. O mormaço,
trazendo o desespero, em vez de março:
um luto atravancando as taramelas.
A sela desapeada. E na garupa
do cavalo, a sentença das esporas.
Pendentes dos estribos, estão as horas,
relampejos de facas. E o sono da jurema.
O braço descarnado, o giz dos dentes,
e o olho além do corpo do poema.
No chão do meu degredo, sempre chão,
sete frases do ofício e um bordão.
ele não se decompôs.
Pedro Nava (Baú de Ossos)
As palavras no alforje. E o rosário,
a escorrer das penas e dos dias.
O azul da barba lembra uma paisagem
onde campeiam cabras. E ramagens
desatam-se em sombras nas janelas.
A morrinha dos bichos. O mormaço,
trazendo o desespero, em vez de março:
um luto atravancando as taramelas.
A sela desapeada. E na garupa
do cavalo, a sentença das esporas.
Pendentes dos estribos, estão as horas,
relampejos de facas. E o sono da jurema.
O braço descarnado, o giz dos dentes,
e o olho além do corpo do poema.
No chão do meu degredo, sempre chão,
sete frases do ofício e um bordão.
679
Everardo Norões
OS ENCOURADOS
A tarde chega.
A luz se dispersa:
quem anunciará a morte,
soltará o chicote,
abrirá a fresta?
Quem domará o espaço
entre o gume e a alma,
entre a cerca e a palma,
entre o assombro e a calma?
E dormirá no cio
de árvores cativas
ao solstício das pedras,
no despencar das sombras?
A tarde chega,
a luz se dispersa.
É uma luz de sede
do sol dos Inhamuns:
branca e calada.
Os encourados se miram
num horizonte de varas.
A copa é pequena:
na redondez dos cabos,
lâminas severas.
Nem palavras:
o vento soletra a mata,
converte-se em faca.
Sumida nos esteiros,
detida nas vazantes,
segue,
na garupa,
a sina dos instantes.
Adonde vosmecê,
alumia o sobrosso,
desmazelo do corpo?
A alma se estropia
nesses retirados
dentro dos Teus lustres...
A tarde chega.
A luz se dispersa.
E uma luz de sede
do sol dos Inhamuns:
branca e calada.
Ponto de cruz ou estrela:
uma rede bordada.
De Retábulo de Jerônimo Bosch (2009)
A luz se dispersa:
quem anunciará a morte,
soltará o chicote,
abrirá a fresta?
Quem domará o espaço
entre o gume e a alma,
entre a cerca e a palma,
entre o assombro e a calma?
E dormirá no cio
de árvores cativas
ao solstício das pedras,
no despencar das sombras?
A tarde chega,
a luz se dispersa.
É uma luz de sede
do sol dos Inhamuns:
branca e calada.
Os encourados se miram
num horizonte de varas.
A copa é pequena:
na redondez dos cabos,
lâminas severas.
Nem palavras:
o vento soletra a mata,
converte-se em faca.
Sumida nos esteiros,
detida nas vazantes,
segue,
na garupa,
a sina dos instantes.
Adonde vosmecê,
alumia o sobrosso,
desmazelo do corpo?
A alma se estropia
nesses retirados
dentro dos Teus lustres...
A tarde chega.
A luz se dispersa.
E uma luz de sede
do sol dos Inhamuns:
branca e calada.
Ponto de cruz ou estrela:
uma rede bordada.
De Retábulo de Jerônimo Bosch (2009)
630