Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Charles Bukowski
a gata
essa gata relaxa nos ferros da saída de incêndio
e é amarela como um sol
e nunca viu um cão naquela área
da cidade, e, cara, como é gorda,
cheia de ratos e petiscos do HARVEY'S BAR
e eu tenho subido pela saída de incêndio
pra visitar certa dama no hotel
e ela me mostra cartas do filho
na França, e é um quarto muito pequeno
cheio de garrafas de vinho e tristeza,
e às vezes lhe deixo um dinheirinho,
e quando desço pela saída de incêndio,
lá está de novo a gata e
ela se esfrega nas minhas pernas e
enquanto vou até O carro
ela me segue, e preciso ter cuidado
quando dou a partida, mas não muito:
ela é bem esperta, sabe
que o carro não é seu amigo.
e um dia fui visitar a dama
e ela estava morta. quer dizer, ela não estava lá,
o quarto estava vazio. tinha sido uma hemorragia,
me disseram. e agora iam alugar o quarto.
bem, ficar triste não adianta. desci
os degraus de ferro e eis ali a gata. eu
a peguei e fiz carinho nela, mas, estranho,
não era a mesma gata. o pelo era áspero
e os olhos, malignos. joguei-a no chão
e observei sua fuga, olhar raivoso em cima de mim.
então entrei no carro
e fui embora.
e é amarela como um sol
e nunca viu um cão naquela área
da cidade, e, cara, como é gorda,
cheia de ratos e petiscos do HARVEY'S BAR
e eu tenho subido pela saída de incêndio
pra visitar certa dama no hotel
e ela me mostra cartas do filho
na França, e é um quarto muito pequeno
cheio de garrafas de vinho e tristeza,
e às vezes lhe deixo um dinheirinho,
e quando desço pela saída de incêndio,
lá está de novo a gata e
ela se esfrega nas minhas pernas e
enquanto vou até O carro
ela me segue, e preciso ter cuidado
quando dou a partida, mas não muito:
ela é bem esperta, sabe
que o carro não é seu amigo.
e um dia fui visitar a dama
e ela estava morta. quer dizer, ela não estava lá,
o quarto estava vazio. tinha sido uma hemorragia,
me disseram. e agora iam alugar o quarto.
bem, ficar triste não adianta. desci
os degraus de ferro e eis ali a gata. eu
a peguei e fiz carinho nela, mas, estranho,
não era a mesma gata. o pelo era áspero
e os olhos, malignos. joguei-a no chão
e observei sua fuga, olhar raivoso em cima de mim.
então entrei no carro
e fui embora.
934
Charles Bukowski
acordando pra vida como fogo
em grave divindade meu gato
vagueia sem rumo
ele vagueia sem rumo e sem parar
com rabo elétrico e
olhos de
botão de apertar
ele é
vivo e
sedoso e
definitivo como um pé
de ameixa
nem eu nem ele entendemos
catedrais ou
o homem lá fora
molhando seu
gramado
se eu fosse tanto homem
quanto ele é gato - se
existissem homens assim
o mundo poderia
começar
ele pula em cima do sofá
e atravessa
pórticos da minha
admiração.
vagueia sem rumo
ele vagueia sem rumo e sem parar
com rabo elétrico e
olhos de
botão de apertar
ele é
vivo e
sedoso e
definitivo como um pé
de ameixa
nem eu nem ele entendemos
catedrais ou
o homem lá fora
molhando seu
gramado
se eu fosse tanto homem
quanto ele é gato - se
existissem homens assim
o mundo poderia
começar
ele pula em cima do sofá
e atravessa
pórticos da minha
admiração.
1 141
Charles Bukowski
conversa em um telefone
eu via pelo agachamento do gato,
por seu jeito achatado,
que ele estava enlouquecido com presa;
e quando meu carro chegou perto,
ele se levantou no crepúsculo
e caiu fora
com pássaro abocanhado,
um pássaro enorme, cinza,
asas caídas como amor desfeito,
caninos cravados,
vida ainda ali,
mas pouca,
quase nada.
periquito de coração partido
gato anda na minha mente
e não consigo decifrá-lo:
o telefone toca,
respondo a uma voz,
mas o vejo sem parar,
e as asas moles
cinzentas asas moles,
e aquela coisa transfixada
numa cabeça sem misericórdia;
é o mundo, nosso;
desligo o telefone
e os lados felinos da sala
se fecham sobre mim
e quero gritar,
mas existem lugares para gente
que grita;
e o gato anda
o gato anda para sempre
no meu cérebro.
por seu jeito achatado,
que ele estava enlouquecido com presa;
e quando meu carro chegou perto,
ele se levantou no crepúsculo
e caiu fora
com pássaro abocanhado,
um pássaro enorme, cinza,
asas caídas como amor desfeito,
caninos cravados,
vida ainda ali,
mas pouca,
quase nada.
periquito de coração partido
gato anda na minha mente
e não consigo decifrá-lo:
o telefone toca,
respondo a uma voz,
mas o vejo sem parar,
e as asas moles
cinzentas asas moles,
e aquela coisa transfixada
numa cabeça sem misericórdia;
é o mundo, nosso;
desligo o telefone
e os lados felinos da sala
se fecham sobre mim
e quero gritar,
mas existem lugares para gente
que grita;
e o gato anda
o gato anda para sempre
no meu cérebro.
1 175
Charles Bukowski
Conversa às Três e Meia da Madrugada
às três e meia da madrugada
a porta se abre
e há passos na entrada
que trazem um corpo,
e uma batida
e você repousa a cerveja
e vai ver quem é.
com os diabos, ela diz, você não dorme nunca?
e ela entra
com o cabelo nos rolinhos e num robe de seda
estampado de coelho e passarinho
e ela trouxe a sua própria garrafa
à qual você gloriosamente acrescenta
2 copos,
o marido, ela diz, está na Flórida
e a irmã manda dinheiro e vestidos para ela,
e ela tem estado procurando emprego
nos últimos 32 dias.
você diz a ela
que é um cambista de jóquei e
um compositor de jazz e canções românticas,
e depois de uns dois copos
ela não se preocupa com cobrir
as pernas
com a beira do robe que está sempre caindo.
não são pernas nada feias,
na verdade são pernas ótimas,
e logo você está beijando uma
cabeça cheia de rolinhos,
e os coelhos estão começando a
piscar, e a Flórida é longe, e ela diz
que não somos realmente estranhos
porque ela tem me visto na entrada.
e finalmente
há muito pouca coisa
para dizer.
a porta se abre
e há passos na entrada
que trazem um corpo,
e uma batida
e você repousa a cerveja
e vai ver quem é.
com os diabos, ela diz, você não dorme nunca?
e ela entra
com o cabelo nos rolinhos e num robe de seda
estampado de coelho e passarinho
e ela trouxe a sua própria garrafa
à qual você gloriosamente acrescenta
2 copos,
o marido, ela diz, está na Flórida
e a irmã manda dinheiro e vestidos para ela,
e ela tem estado procurando emprego
nos últimos 32 dias.
você diz a ela
que é um cambista de jóquei e
um compositor de jazz e canções românticas,
e depois de uns dois copos
ela não se preocupa com cobrir
as pernas
com a beira do robe que está sempre caindo.
não são pernas nada feias,
na verdade são pernas ótimas,
e logo você está beijando uma
cabeça cheia de rolinhos,
e os coelhos estão começando a
piscar, e a Flórida é longe, e ela diz
que não somos realmente estranhos
porque ela tem me visto na entrada.
e finalmente
há muito pouca coisa
para dizer.
1 079
Charles Bukowski
A Noite Em Que Eles Pegaram o Branquelo
sonho de pássaro e papéis de parede descolando
sintomas de um sono sombrio
e às 4 da manhã o Branquelo saiu do seu quarto
(o consolo para o pobre está nos números
como papoulas no verão)
e ele começou a gritar socorro! socorro! socorro!
(um velho com um cabelo tão branco quanto uma presa de marfim)
e ele vomitava sangue
socorro socorro socorro
e eu o ajudei a se esticar no chão do hall
e bati na porta da senhoria
(ela é francesa como o melhor dos vinhos mas dura como
um bife americano) e
gritei seu nome, Marcella! Marcella!
(o leiteiro logo chegaria com suas garrafas
de um branco puro como gélidos lírios)
Marcella! Marcella! socorro socorro socorro,
e ela gritou através da porta:
seu polaco de merda, encheu a cara de novo? Então
o olho de Prometeu à porta
e ela
calculando o rio vermelho em seu cérebro retangular
(oh, não passo de um polaco bêbado
um cara de segunda classe um escritor de cartas para jornais)
e ela falou ao telefone como uma senhora que ordenasse pão e ovos,
e eu me agarrei à parede
sonhando com poemas ruins e com minha própria morte
e então os homens vieram... um com um charuto, o outro com a barba por fazer,
e eles o puseram de pé e desceram a escada
sua cabeça de marfim em chamas (Branquelo, meu parceiro de trago...
todas as canções, as agitadas canções ciganas, falam de
guerra, lutas, das boas putas,
de pardieiros flutuando em vinho,
flutuando num falar frenético,
charutos baratos e raiva)
e a sirene o levou de vez, exceto pela parte vermelha
e eu comecei a vomitar e a besta francesa gritou
você vai ter que limpar essa sujeira, toda ela, você e o Branquelo!
e os navios a vapor partiram e os homens ricos em seus iates
beijam garotas jovens o suficiente para serem suas filhas,
e o leiteiro chegou e ficou apenas olhando
e as luzes de néon piscavam vendendo alguma coisa
pneus ou óleo ou roupas íntimas
e ela bateu a porta e eu estava mais uma vez sozinho
envergonhado
era a guerra, a guerra eterna, a guerra que não se acaba nunca,
e eu gritei colado às paredes descascadas,
a fraqueza de nossos ossos, nossos cérebros fracos e embriagados,
e a manhã começou a rastejar pelo hall...
soavam as descargas, havia bacon, havia café,
havia ressacas, e eu também
entrei e fechei minha porta e me sentei e esperei pelo nascer do sol.
sintomas de um sono sombrio
e às 4 da manhã o Branquelo saiu do seu quarto
(o consolo para o pobre está nos números
como papoulas no verão)
e ele começou a gritar socorro! socorro! socorro!
(um velho com um cabelo tão branco quanto uma presa de marfim)
e ele vomitava sangue
socorro socorro socorro
e eu o ajudei a se esticar no chão do hall
e bati na porta da senhoria
(ela é francesa como o melhor dos vinhos mas dura como
um bife americano) e
gritei seu nome, Marcella! Marcella!
(o leiteiro logo chegaria com suas garrafas
de um branco puro como gélidos lírios)
Marcella! Marcella! socorro socorro socorro,
e ela gritou através da porta:
seu polaco de merda, encheu a cara de novo? Então
o olho de Prometeu à porta
e ela
calculando o rio vermelho em seu cérebro retangular
(oh, não passo de um polaco bêbado
um cara de segunda classe um escritor de cartas para jornais)
e ela falou ao telefone como uma senhora que ordenasse pão e ovos,
e eu me agarrei à parede
sonhando com poemas ruins e com minha própria morte
e então os homens vieram... um com um charuto, o outro com a barba por fazer,
e eles o puseram de pé e desceram a escada
sua cabeça de marfim em chamas (Branquelo, meu parceiro de trago...
todas as canções, as agitadas canções ciganas, falam de
guerra, lutas, das boas putas,
de pardieiros flutuando em vinho,
flutuando num falar frenético,
charutos baratos e raiva)
e a sirene o levou de vez, exceto pela parte vermelha
e eu comecei a vomitar e a besta francesa gritou
você vai ter que limpar essa sujeira, toda ela, você e o Branquelo!
e os navios a vapor partiram e os homens ricos em seus iates
beijam garotas jovens o suficiente para serem suas filhas,
e o leiteiro chegou e ficou apenas olhando
e as luzes de néon piscavam vendendo alguma coisa
pneus ou óleo ou roupas íntimas
e ela bateu a porta e eu estava mais uma vez sozinho
envergonhado
era a guerra, a guerra eterna, a guerra que não se acaba nunca,
e eu gritei colado às paredes descascadas,
a fraqueza de nossos ossos, nossos cérebros fracos e embriagados,
e a manhã começou a rastejar pelo hall...
soavam as descargas, havia bacon, havia café,
havia ressacas, e eu também
entrei e fechei minha porta e me sentei e esperei pelo nascer do sol.
1 140
Charles Bukowski
nasci para trambicar rosas nas avenidas dos mortos
você perdeu uma discussão felina o cinza estava
cansado louco batendo rabo e encheu
o saco do preto que não queria ser
incomodado e aí o preto
correu atrás do cinza lhe deu uma patada o
cinza disse ui
disparou embora parou coçou a orelha
deu piparote numa palha disparou no ar e
se mandou derrotado e fazendo planos enquanto um
branco (outro) passava correndo pelo
outro lado da cerca perseguindo um
gafanhoto enquanto alguém atirava no sr.
Kennedy.
cansado louco batendo rabo e encheu
o saco do preto que não queria ser
incomodado e aí o preto
correu atrás do cinza lhe deu uma patada o
cinza disse ui
disparou embora parou coçou a orelha
deu piparote numa palha disparou no ar e
se mandou derrotado e fazendo planos enquanto um
branco (outro) passava correndo pelo
outro lado da cerca perseguindo um
gafanhoto enquanto alguém atirava no sr.
Kennedy.
608
Charles Bukowski
Noite de Vento
eles sorriem e trazem a comida
sorriem e se curvam
enquanto um pequeno tufão aturde
os cegos
e o íbis escarlate aparece
e dança no esterco
em meu prato
eu não estou mesmo com fome
Leda, Tyndareus, Clytemnestra,
Castor, Pollux ou quem mais seja
que eu conheça não
comia essa porcaria.
peço uma sacola pra comida de cachorro.
ele sorriem e derramam a comida
dentro.
mais tarde, em minha cozinha,
divido a comida nos pratos,
ponho tudo no chão
enquanto os meus três gatos ficam imóveis
olhando pra mim
e eu pergunto: "O que é que há?
O que é que há? Comam!”
com a ventania
os galhos batem no vidro da janela
enquanto apago a luz da
cozinha
e vou para a sala
ligo a TV
bem na hora em que um guarda atira num
homem no alto de uma escada de incêndio
e ele cai e cai
e se esborracha na
rua:
esse nunca mais vai ter que comer
camarão Szechwan com ervilha chinesa
na vida.
sorriem e se curvam
enquanto um pequeno tufão aturde
os cegos
e o íbis escarlate aparece
e dança no esterco
em meu prato
eu não estou mesmo com fome
Leda, Tyndareus, Clytemnestra,
Castor, Pollux ou quem mais seja
que eu conheça não
comia essa porcaria.
peço uma sacola pra comida de cachorro.
ele sorriem e derramam a comida
dentro.
mais tarde, em minha cozinha,
divido a comida nos pratos,
ponho tudo no chão
enquanto os meus três gatos ficam imóveis
olhando pra mim
e eu pergunto: "O que é que há?
O que é que há? Comam!”
com a ventania
os galhos batem no vidro da janela
enquanto apago a luz da
cozinha
e vou para a sala
ligo a TV
bem na hora em que um guarda atira num
homem no alto de uma escada de incêndio
e ele cai e cai
e se esborracha na
rua:
esse nunca mais vai ter que comer
camarão Szechwan com ervilha chinesa
na vida.
1 287
Charles Bukowski
A Morte Quer Mais Morte
a morte quer mais morte, e suas teias estão cheias:
lembro da garagem do meu pai, como de modo infantil
eu arrancaria os cadáveres das moscas
das janelas que lhes tinham parecido uma chance de fuga...
seus corpos endurecidos, feios, vibrantes
gritando como cães loucos e tolos contra os vidros
apenas para rodar e revoltear
naquele segundo mais longo que o céu e o inferno
limite dos limites,
e então a aranha vinda de seu buraco úmido
nervosa e exposta
a protuberância do corpo
ali balançando
ainda sem saber plenamente
e logo sabendo –
lançando seus fios,
a teia pegajosa,
em direção à fraca cortina de zumbido,
o pulsar;
um último movimento desesperado da perna peluda
lá, contra o vidro
lá, viva ao sol,
envolta em branco;
e quase como o amor:
a aproximação
o primeiro e silencioso sugar da aranha;
a pança cheia
aquela coisa que um dia esteve viva;
arrastando-se sobre as patas
sugando seu sangue garantido
enquanto o mundo segue seu rumo lá fora
e minhas têmporas gritam
e disparo a vassoura contra elas:
a aranha embotada em sua fúria de aranha
ainda pensando em sua presa
balançando uma surpreendente perna quebrada;
a mosca muito fixa,
uma mancha suja grudada ao fio de palha;
solto a assassina com um chacoalhar
e ela se move aleijada e ensandecida
em direção a um canto escuro
mas intercepto seu esforço vão
seu rastejar como uma heroína abatida,
e as palhas esmagam suas pernas
agora a ondular
sobre sua cabeça
sem deixar de buscar
o inimigo
de certa forma valente
a aranha morre sem dor aparente
arrastando-se para trás, com simplicidade
levando todos os pedaços
sem deixar nada por ali
até que por fim seu estômago se rompe
espalhando seu segredo,
e eu corro como uma criança
com a fúria de Deus em meus calcanhares,
de volta à pura luz do sol,
me perguntando
enquanto o mundo segue igual
com um sorriso torto
se alguém mais
viu ou percebeu o meu crime.
lembro da garagem do meu pai, como de modo infantil
eu arrancaria os cadáveres das moscas
das janelas que lhes tinham parecido uma chance de fuga...
seus corpos endurecidos, feios, vibrantes
gritando como cães loucos e tolos contra os vidros
apenas para rodar e revoltear
naquele segundo mais longo que o céu e o inferno
limite dos limites,
e então a aranha vinda de seu buraco úmido
nervosa e exposta
a protuberância do corpo
ali balançando
ainda sem saber plenamente
e logo sabendo –
lançando seus fios,
a teia pegajosa,
em direção à fraca cortina de zumbido,
o pulsar;
um último movimento desesperado da perna peluda
lá, contra o vidro
lá, viva ao sol,
envolta em branco;
e quase como o amor:
a aproximação
o primeiro e silencioso sugar da aranha;
a pança cheia
aquela coisa que um dia esteve viva;
arrastando-se sobre as patas
sugando seu sangue garantido
enquanto o mundo segue seu rumo lá fora
e minhas têmporas gritam
e disparo a vassoura contra elas:
a aranha embotada em sua fúria de aranha
ainda pensando em sua presa
balançando uma surpreendente perna quebrada;
a mosca muito fixa,
uma mancha suja grudada ao fio de palha;
solto a assassina com um chacoalhar
e ela se move aleijada e ensandecida
em direção a um canto escuro
mas intercepto seu esforço vão
seu rastejar como uma heroína abatida,
e as palhas esmagam suas pernas
agora a ondular
sobre sua cabeça
sem deixar de buscar
o inimigo
de certa forma valente
a aranha morre sem dor aparente
arrastando-se para trás, com simplicidade
levando todos os pedaços
sem deixar nada por ali
até que por fim seu estômago se rompe
espalhando seu segredo,
e eu corro como uma criança
com a fúria de Deus em meus calcanhares,
de volta à pura luz do sol,
me perguntando
enquanto o mundo segue igual
com um sorriso torto
se alguém mais
viu ou percebeu o meu crime.
1 208
Charles Bukowski
Não Temos Grana, Querida, mas temos a Chuva
chame isso de efeito estufa ou do que quiser
mas já não chove mais como antes
lembro particularmente das chuvas na época da
depressão.
estavam todos sem grana mas havia
muita chuva.
não era chuva que durava uma noite ou
um dia,
CHOVIA por 7 dias e 7
noites
e em Los Angeles as bocas de lobo
não eram construídas para suportar essa quantidade de
água
e a chuva caía PESADA e
INCLEMENTE e
CONSTANTE
e você a OUVIA bater contra
os telhados e descer até o chão
cascatas de água desciam
dos telhados
e de vez em quando havia GRANIZOS
grandes PEDRAS DE GELO
bombardeando
explodindo
chocando-se contra as coisas
e a chuva
simplesmente
NÃO PARAVA
começavam as goteiras...
bacias,
panelas
eram espalhadas por toda parte;
todo aquele gotejar barulhento
e a necessidade de esvaziá-las
vez após
vez.
a chuva inundava as ruas e os meio-fios
invadia os gramados, escalava os degraus e
entrava nas casas.
havia panos de chão e toalhas de banho,
e a chuva com frequência subia pelas
privadas: borbulhante, marrom, enlouquecida, a girar,
e os carros velhos ficavam nas ruas,
carros que já tinham problemas para dar a partida num
dia ensolarado,
e os homens sem emprego plantados
acompanhando das janelas
o perecer das velhas carroças
como criaturas vivas
lá fora.
os homens sem emprego,
fracassados em um tempo fracassado
tornavam-se prisioneiros em suas casas com suas
mulheres e crianças
e seus animais de
estimação.
os bichos se recusavam a sair
e deixavam seus dejetos em
lugares estranhos.
os homens sem emprego enlouqueciam
confinados com
suas mulheres que um dia foram belas.
havia terríveis discussões
assim que as ações de despejo
chegavam pelo correio.
chuva e granizo, latas de feijão,
pão sem manteiga; ovos
fritos, ovos cozidos, ovos
mexidos; sanduíches de manteiga de
amendoim, e uma galinha
invisível
em cada panela.
meu pai, nem de longe um homem
decente, batia em minha mãe
quando chovia
enquanto eu me lançava
entre eles,
as pernas, os joelhos, os
gritos
até que eles se
separassem.
“Eu te mato”, eu gritava
para ele. “Se bater de novo nela
eu acabo com a tua raça!”
“Tire esse fedelho filho da puta
daqui!”
“não, Henry, você fica com
a sua mãe!”
todas as famílias estavam
sitiadas mas creio que a nossa
continha mais terror do que o
normal.
e à noite
quando tentávamos dormir
o dilúvio continuava caindo
e foi na cama
no escuro
observando a lua contra
a janela marcada
cheia de bravura
suportando
grande parte da chuva,
que pensei em Noé e na
Arca
e que estava acontecendo
de novo.
todos pensamos
isso.
e então, de súbito, ela
parava.
sempre por volta das 5 ou 6 da manhã,
e havia paz,
mas não um silêncio enxuto
porque as coisas continuavam a
pingar
pingar
pingar
e então não havia a cerração poluída
e lá pelas oito da manhã
surgia
um sol amarelo e escaldante,
um amarelo de Van Gogh –
ofuscante, enlouquecedor!
e então
os telhados escoavam
aliviados das correntes de
água
e começavam a se dilatar
com o calor:
PLAC! PLAC! PLAC!
e todos se levantavam
e davam uma olhada para fora
lá estavam todos os gramados
ainda encharcados
mais verdes do que o próprio verde poderia
ser
e lá estavam os pássaros
sobre o gramado
PIANDO como loucos,
não haviam se alimentado decentemente
há 7 dias e 7 noites
e estavam fartos de
frutinhas
e
esperavam que as minhocas
viessem à superfície,
minhocas semiafogadas.
os pássaros as arrancavam
e
as tragavam com
voracidade; havia
melros e pardais.
os melros tentavam
afugentar os pardais
mas os pardais,
ensandecidos pela fome,
menores e mais rápidos,
pegavam a maior
parte.
os homens ficavam nas varandas
fumando cigarros,
sabendo que agora
teriam que sair
para
procurar aquele emprego
que provavelmente não estaria
lá, que teriam que dar partida num carro
que provavelmente não iria
pegar.
e as mulheres que um dia foram
belas
ficavam nos banheiros
penteando os cabelos,
passando maquiagem,
tentando recompor outra vez o que lhes
restava do mundo,
tentando esquecer a
medonha tristeza que se lhes
aferrava,
perguntando-se o que podiam
arrumar para o
café da manhã.
e pelo rádio
sabíamos que
as escolas já estavam
abertas.
e
logo
lá estava eu
a caminho da escola,
poças imensas pela
rua,
o sol como um novo
mundo,
meus pais voltando para dentro de
casa,
e eu entrando na sala de aula
no horário.
a sra. Sorenson nos saudou
com “não teremos o nosso
recreio de sempre, o pátio está
muito molhado”.
“Ah, não”, disseram quase todos os
garotos.
“mas vamos fazer
algo especial na hora do
recreio”, ela prosseguiu,
“e será bem
divertido!”
bem, ficamos nos perguntando
o que
seria
e as duas horas de espera
pareceram infinitas
enquanto a sra. Sorenson
seguia
com sua
lição.
Eu olhava para as
garotinhas, todas eram tão
bonitas e limpas e
espertas,
sentavam-se aprumadas e
eretas
e seus cabelos eram
lindos
debaixo do sol da
Califórnia.
então a sineta do recreio soou
e todos esperávamos pela
diversão.
então a sra. Sorenson nos
disse:
“agora, o que faremos
é dizer uns aos
outros o que fizemos
durante o temporal!
começaremos pela fila da
frente e iremos até o fundo!
bem, Michael, você é
o primeiro!...”
bem, nós todos começamos a contar
nossas histórias, Michael foi o primeiro
e depois aquilo seguiu,
e logo percebemos que
todos mentíamos, não
exatamente em tudo mas em boa parte
sim e alguns dos garotos
começaram a dar risadinhas e algumas
das garotas começaram a
olhar feio para eles e
a sra. Sorenson disse,
“tudo bem, exijo que se faça
um pouquinho de silêncio
aqui!
estou interessada no que
vocês fizeram
durante o temporal
ainda que vocês
não estejam!”
então tivemos que seguir com nossas
histórias e eram histórias
inventadas.
uma garota disse que
assim que o arco-íris
apareceu
ela viu a face de Deus
numa das extremidades.
esqueceu apenas de dizer
em qual delas.
um dos garotos disse que estendeu
sua vara de pescar
pela janela
e apanhou um
peixinho
e deu para o seu gato
comer.
quase todo mundo contou
uma mentira.
a verdade era simplesmente
terrível e por demais
embaraçosa para ser
dita.
então a sineta soou
e o recreio chegou ao
fim.
“obrigada”, disse a sra.
Sorenson, “isso foi muito
legal.
e amanhã o pátio
estará seco
e poderemos
usá-lo
outra vez.”
boa parte dos garotos
sorriu
e as garotinhas
sentaram-se bem eretas e
aprumadas,
parecendo tão bonitas e
limpas e
espertas,
seus cabelos lindos
debaixo de um sol que
o mundo talvez
jamais voltasse
a ver.
Uma noite meu pai me levou com ele na entrega do leite. Não havia mais carroça puxada a cavalo. Os caminhões de leite agora eram movidos a motor. Após carregar a caçamba lá na companhia de leite, seguimos o trajeto das entregas. Era bom já estar na rua antes do amanhecer. A lua ainda estava no céu, e eu podia ver as estrelas. Fazia frio, mas era excitante. Perguntava-me por que meu pai me convidara para vir com ele uma vez que dera para me bater com o amolador da navalha uma ou duas vezes por semana e não havia entre nós qualquer intimidade.
A cada parada, ele saltava e entregava uma ou duas garrafas de leite. Às vezes era queijo cottage, ou coalhada, ou manteiga e, de vez em quando, uma garrafa de suco de laranja. A maioria das pessoas deixava bilhetes nas garrafas vazias explicando o que queriam.
Meu pai ia guiando, parando e dando a partida no motor, fazendo entregas.
– Bem, garoto, em que direção estamos indo agora?
– Norte.
– Você está certo, estamos indo pro norte.
Percorríamos as ruas, parando e seguindo adiante.
– Bem, e agora? Em qual direção?
– Oeste.
– Não, estamos indo pro sul.
Seguimos mais um tempo, em silêncio.
– Vamos supor que eu expulse você do caminhão agora e o deixe no meio da calçada. O que você faria?
– Não sei.
– Quero dizer, como você sobreviveria?
– Bem, acho que voltaria até a última casa e pegaria o leite e o suco de laranja que você deixou nos degraus.
– E depois disso? O que faria?
– Encontraria um policial e contaria a ele o que você fez comigo.
– Contaria, hein? E o que é que você iria contar?
– Diria a ele que você quis que eu me perdesse afirmando que o “oeste” era o “sul”.
O dia começava a raiar. Logo todas as entregas haviam sido feitas e paramos para tomar café numa lancheria. A garçonete se aproximou.
– Olá, Henry – ela disse a meu pai.
– Olá, Betty.
– Quem é o garoto?
– Este é o pequeno Henry.
– É a sua cara.
– Mas não tem meus miolos, acho.
– Espero que não.
Fizemos o pedido. Ovos com bacon. Enquanto comíamos, meu pai disse:
– Agora vem a parte mais difícil.
– Qual?
– Tenho que recolher o dinheiro que as pessoas me devem. Algumas delas não querem pagar.
– Mas elas têm que pagar.
– É o que sempre lhes digo.
Terminamos de comer e voltamos ao trabalho. Meu pai descia e batia nas portas. Eu podia ouvi-lo reclamar aos berros:
– COMO, DIABOS, PENSA QUE EU VOU TER O QUE COMER? VOCÊ JÁ SECOU O LEITE, AGORA É HORA DE CAGAR O DINHEIRO!
Usava um discurso diferente a cada cobrança. Às vezes voltava com o dinheiro, em outras não.
Então o vi entrar numa espécie de cortiço. Uma porta se abriu, e uma mulher ficou ali parada, vestida num quimono de seda desatado. Ela fumava um cigarro.
– Escute, boneca, preciso receber o dinheiro. Você é minha maior devedora!
Ela riu na cara dele.
– Veja, boneca, me dê a metade, me pague alguma coisa, dê algum sinal.
Ela fez um anel de fumaça e em seguida o rompeu com o dedo.
– Escute, você precisa me pagar – disse meu pai. – Esta é uma situação desesperadora.
– Entre. Falaremos sobre isso – disse a mulher.
Meu pai entrou, e a porta se fechou. Ficou lá dentro por uma eternidade. O sol já ia alto. Quando meu pai saiu, o cabelo lhe caía sobre o rosto e ele colocava a barra da camisa para dentro das calças. Subiu no caminhão.
– A mulher deu o dinheiro? – perguntei.
– Esta foi a última parada – disse meu pai. – Estou exausto. Vamos devolver o caminhão e voltar para casa...
Eu voltaria a ver aquela mulher. Um dia voltei para casa depois da escola, e ela estava sentada numa cadeira na nossa sala da frente. Minha mãe e meu pai também estavam sentados ali, e minha mãe chorava. Quando me viu, correu em minha direção e me agarrou. Levou-me para o quarto e fez com que eu sentasse na cama.
– Henry, você ama sua mãe?
Eu na verdade não a amava, mas ela parecia tão triste que respondi:
– Sim.
Ela me levou de volta para a sala.
– Seu pai está dizendo que ama essa mulher – ela me disse.
– Amo vocês duas! Agora, tire esse garoto daqui!
Senti que meu pai estava fazendo minha mãe muito infeliz.
– Vou matar você – eu disse a meu pai.
– Tire esse garoto daqui!
– Como você pode amar essa mulher? – perguntei. – Veja o nariz dela. O nariz parece uma tromba de elefante!
– Cristo! – exclamou a mulher. – Não sou obrigada a ouvir isso! – Olhou para o meu pai: – Escolha, Henry! Uma ou outra! Agora!
– Mas não consigo! Amo vocês duas!
– Vou matar você! – eu disse a meu pai.
Ele veio em minha direção e me deu um tapa no ouvido, me derrubando no chão. A mulher se levantou e saiu correndo da casa, e meu pai foi atrás dela. A mulher saltou para dentro do carro do meu pai, deu a partida e seguiu. Tudo se deu de maneira muito rápida. Meu pai saiu correndo rua afora atrás dela e do carro.
– EDNA! EDNA, VOLTE!
Meu pai conseguiu alcançar o carro, pôs a mão no banco da frente e agarrou a bolsa de Edna. Então o carro acelerou e meu pai ficou para trás com a bolsa.
– Eu sabia que algo estava acontecendo – me disse minha mãe. – Então, me escondi no porta-malas e peguei os dois juntos. Seu pai me trouxe até aqui na companhia daquela mulher horrível. Agora ela levou o carro dele.
Meu pai retornou com a bolsa de Edna.
– Todo mundo pra dentro de casa!
Entramos, e meu pai me trancou no quarto. Os dois começaram a discutir. Gritavam e se diziam coisas pavorosas. Então meu pai começou a bater na minha mãe. Ela gritava e ele seguia lhe dando uma surra. Pulei pela janela e tentei entrar pela porta da frente. Estava trancada. Tentei a porta dos fundos, as janelas. Tudo estava trancado. Fiquei plantado no pátio dos fundos, ouvindo os gritos e a pancadaria.
Então os gritos e a pancadaria cessaram e tudo o que eu podia ouvir era minha mãe soluçando. Soluçou por um longo tempo. Gradualmente, os espasmos foram diminuindo e diminuindo, até que ela silenciou.
– Misto-quente
mas já não chove mais como antes
lembro particularmente das chuvas na época da
depressão.
estavam todos sem grana mas havia
muita chuva.
não era chuva que durava uma noite ou
um dia,
CHOVIA por 7 dias e 7
noites
e em Los Angeles as bocas de lobo
não eram construídas para suportar essa quantidade de
água
e a chuva caía PESADA e
INCLEMENTE e
CONSTANTE
e você a OUVIA bater contra
os telhados e descer até o chão
cascatas de água desciam
dos telhados
e de vez em quando havia GRANIZOS
grandes PEDRAS DE GELO
bombardeando
explodindo
chocando-se contra as coisas
e a chuva
simplesmente
NÃO PARAVA
começavam as goteiras...
bacias,
panelas
eram espalhadas por toda parte;
todo aquele gotejar barulhento
e a necessidade de esvaziá-las
vez após
vez.
a chuva inundava as ruas e os meio-fios
invadia os gramados, escalava os degraus e
entrava nas casas.
havia panos de chão e toalhas de banho,
e a chuva com frequência subia pelas
privadas: borbulhante, marrom, enlouquecida, a girar,
e os carros velhos ficavam nas ruas,
carros que já tinham problemas para dar a partida num
dia ensolarado,
e os homens sem emprego plantados
acompanhando das janelas
o perecer das velhas carroças
como criaturas vivas
lá fora.
os homens sem emprego,
fracassados em um tempo fracassado
tornavam-se prisioneiros em suas casas com suas
mulheres e crianças
e seus animais de
estimação.
os bichos se recusavam a sair
e deixavam seus dejetos em
lugares estranhos.
os homens sem emprego enlouqueciam
confinados com
suas mulheres que um dia foram belas.
havia terríveis discussões
assim que as ações de despejo
chegavam pelo correio.
chuva e granizo, latas de feijão,
pão sem manteiga; ovos
fritos, ovos cozidos, ovos
mexidos; sanduíches de manteiga de
amendoim, e uma galinha
invisível
em cada panela.
meu pai, nem de longe um homem
decente, batia em minha mãe
quando chovia
enquanto eu me lançava
entre eles,
as pernas, os joelhos, os
gritos
até que eles se
separassem.
“Eu te mato”, eu gritava
para ele. “Se bater de novo nela
eu acabo com a tua raça!”
“Tire esse fedelho filho da puta
daqui!”
“não, Henry, você fica com
a sua mãe!”
todas as famílias estavam
sitiadas mas creio que a nossa
continha mais terror do que o
normal.
e à noite
quando tentávamos dormir
o dilúvio continuava caindo
e foi na cama
no escuro
observando a lua contra
a janela marcada
cheia de bravura
suportando
grande parte da chuva,
que pensei em Noé e na
Arca
e que estava acontecendo
de novo.
todos pensamos
isso.
e então, de súbito, ela
parava.
sempre por volta das 5 ou 6 da manhã,
e havia paz,
mas não um silêncio enxuto
porque as coisas continuavam a
pingar
pingar
pingar
e então não havia a cerração poluída
e lá pelas oito da manhã
surgia
um sol amarelo e escaldante,
um amarelo de Van Gogh –
ofuscante, enlouquecedor!
e então
os telhados escoavam
aliviados das correntes de
água
e começavam a se dilatar
com o calor:
PLAC! PLAC! PLAC!
e todos se levantavam
e davam uma olhada para fora
lá estavam todos os gramados
ainda encharcados
mais verdes do que o próprio verde poderia
ser
e lá estavam os pássaros
sobre o gramado
PIANDO como loucos,
não haviam se alimentado decentemente
há 7 dias e 7 noites
e estavam fartos de
frutinhas
e
esperavam que as minhocas
viessem à superfície,
minhocas semiafogadas.
os pássaros as arrancavam
e
as tragavam com
voracidade; havia
melros e pardais.
os melros tentavam
afugentar os pardais
mas os pardais,
ensandecidos pela fome,
menores e mais rápidos,
pegavam a maior
parte.
os homens ficavam nas varandas
fumando cigarros,
sabendo que agora
teriam que sair
para
procurar aquele emprego
que provavelmente não estaria
lá, que teriam que dar partida num carro
que provavelmente não iria
pegar.
e as mulheres que um dia foram
belas
ficavam nos banheiros
penteando os cabelos,
passando maquiagem,
tentando recompor outra vez o que lhes
restava do mundo,
tentando esquecer a
medonha tristeza que se lhes
aferrava,
perguntando-se o que podiam
arrumar para o
café da manhã.
e pelo rádio
sabíamos que
as escolas já estavam
abertas.
e
logo
lá estava eu
a caminho da escola,
poças imensas pela
rua,
o sol como um novo
mundo,
meus pais voltando para dentro de
casa,
e eu entrando na sala de aula
no horário.
a sra. Sorenson nos saudou
com “não teremos o nosso
recreio de sempre, o pátio está
muito molhado”.
“Ah, não”, disseram quase todos os
garotos.
“mas vamos fazer
algo especial na hora do
recreio”, ela prosseguiu,
“e será bem
divertido!”
bem, ficamos nos perguntando
o que
seria
e as duas horas de espera
pareceram infinitas
enquanto a sra. Sorenson
seguia
com sua
lição.
Eu olhava para as
garotinhas, todas eram tão
bonitas e limpas e
espertas,
sentavam-se aprumadas e
eretas
e seus cabelos eram
lindos
debaixo do sol da
Califórnia.
então a sineta do recreio soou
e todos esperávamos pela
diversão.
então a sra. Sorenson nos
disse:
“agora, o que faremos
é dizer uns aos
outros o que fizemos
durante o temporal!
começaremos pela fila da
frente e iremos até o fundo!
bem, Michael, você é
o primeiro!...”
bem, nós todos começamos a contar
nossas histórias, Michael foi o primeiro
e depois aquilo seguiu,
e logo percebemos que
todos mentíamos, não
exatamente em tudo mas em boa parte
sim e alguns dos garotos
começaram a dar risadinhas e algumas
das garotas começaram a
olhar feio para eles e
a sra. Sorenson disse,
“tudo bem, exijo que se faça
um pouquinho de silêncio
aqui!
estou interessada no que
vocês fizeram
durante o temporal
ainda que vocês
não estejam!”
então tivemos que seguir com nossas
histórias e eram histórias
inventadas.
uma garota disse que
assim que o arco-íris
apareceu
ela viu a face de Deus
numa das extremidades.
esqueceu apenas de dizer
em qual delas.
um dos garotos disse que estendeu
sua vara de pescar
pela janela
e apanhou um
peixinho
e deu para o seu gato
comer.
quase todo mundo contou
uma mentira.
a verdade era simplesmente
terrível e por demais
embaraçosa para ser
dita.
então a sineta soou
e o recreio chegou ao
fim.
“obrigada”, disse a sra.
Sorenson, “isso foi muito
legal.
e amanhã o pátio
estará seco
e poderemos
usá-lo
outra vez.”
boa parte dos garotos
sorriu
e as garotinhas
sentaram-se bem eretas e
aprumadas,
parecendo tão bonitas e
limpas e
espertas,
seus cabelos lindos
debaixo de um sol que
o mundo talvez
jamais voltasse
a ver.
Uma noite meu pai me levou com ele na entrega do leite. Não havia mais carroça puxada a cavalo. Os caminhões de leite agora eram movidos a motor. Após carregar a caçamba lá na companhia de leite, seguimos o trajeto das entregas. Era bom já estar na rua antes do amanhecer. A lua ainda estava no céu, e eu podia ver as estrelas. Fazia frio, mas era excitante. Perguntava-me por que meu pai me convidara para vir com ele uma vez que dera para me bater com o amolador da navalha uma ou duas vezes por semana e não havia entre nós qualquer intimidade.
A cada parada, ele saltava e entregava uma ou duas garrafas de leite. Às vezes era queijo cottage, ou coalhada, ou manteiga e, de vez em quando, uma garrafa de suco de laranja. A maioria das pessoas deixava bilhetes nas garrafas vazias explicando o que queriam.
Meu pai ia guiando, parando e dando a partida no motor, fazendo entregas.
– Bem, garoto, em que direção estamos indo agora?
– Norte.
– Você está certo, estamos indo pro norte.
Percorríamos as ruas, parando e seguindo adiante.
– Bem, e agora? Em qual direção?
– Oeste.
– Não, estamos indo pro sul.
Seguimos mais um tempo, em silêncio.
– Vamos supor que eu expulse você do caminhão agora e o deixe no meio da calçada. O que você faria?
– Não sei.
– Quero dizer, como você sobreviveria?
– Bem, acho que voltaria até a última casa e pegaria o leite e o suco de laranja que você deixou nos degraus.
– E depois disso? O que faria?
– Encontraria um policial e contaria a ele o que você fez comigo.
– Contaria, hein? E o que é que você iria contar?
– Diria a ele que você quis que eu me perdesse afirmando que o “oeste” era o “sul”.
O dia começava a raiar. Logo todas as entregas haviam sido feitas e paramos para tomar café numa lancheria. A garçonete se aproximou.
– Olá, Henry – ela disse a meu pai.
– Olá, Betty.
– Quem é o garoto?
– Este é o pequeno Henry.
– É a sua cara.
– Mas não tem meus miolos, acho.
– Espero que não.
Fizemos o pedido. Ovos com bacon. Enquanto comíamos, meu pai disse:
– Agora vem a parte mais difícil.
– Qual?
– Tenho que recolher o dinheiro que as pessoas me devem. Algumas delas não querem pagar.
– Mas elas têm que pagar.
– É o que sempre lhes digo.
Terminamos de comer e voltamos ao trabalho. Meu pai descia e batia nas portas. Eu podia ouvi-lo reclamar aos berros:
– COMO, DIABOS, PENSA QUE EU VOU TER O QUE COMER? VOCÊ JÁ SECOU O LEITE, AGORA É HORA DE CAGAR O DINHEIRO!
Usava um discurso diferente a cada cobrança. Às vezes voltava com o dinheiro, em outras não.
Então o vi entrar numa espécie de cortiço. Uma porta se abriu, e uma mulher ficou ali parada, vestida num quimono de seda desatado. Ela fumava um cigarro.
– Escute, boneca, preciso receber o dinheiro. Você é minha maior devedora!
Ela riu na cara dele.
– Veja, boneca, me dê a metade, me pague alguma coisa, dê algum sinal.
Ela fez um anel de fumaça e em seguida o rompeu com o dedo.
– Escute, você precisa me pagar – disse meu pai. – Esta é uma situação desesperadora.
– Entre. Falaremos sobre isso – disse a mulher.
Meu pai entrou, e a porta se fechou. Ficou lá dentro por uma eternidade. O sol já ia alto. Quando meu pai saiu, o cabelo lhe caía sobre o rosto e ele colocava a barra da camisa para dentro das calças. Subiu no caminhão.
– A mulher deu o dinheiro? – perguntei.
– Esta foi a última parada – disse meu pai. – Estou exausto. Vamos devolver o caminhão e voltar para casa...
Eu voltaria a ver aquela mulher. Um dia voltei para casa depois da escola, e ela estava sentada numa cadeira na nossa sala da frente. Minha mãe e meu pai também estavam sentados ali, e minha mãe chorava. Quando me viu, correu em minha direção e me agarrou. Levou-me para o quarto e fez com que eu sentasse na cama.
– Henry, você ama sua mãe?
Eu na verdade não a amava, mas ela parecia tão triste que respondi:
– Sim.
Ela me levou de volta para a sala.
– Seu pai está dizendo que ama essa mulher – ela me disse.
– Amo vocês duas! Agora, tire esse garoto daqui!
Senti que meu pai estava fazendo minha mãe muito infeliz.
– Vou matar você – eu disse a meu pai.
– Tire esse garoto daqui!
– Como você pode amar essa mulher? – perguntei. – Veja o nariz dela. O nariz parece uma tromba de elefante!
– Cristo! – exclamou a mulher. – Não sou obrigada a ouvir isso! – Olhou para o meu pai: – Escolha, Henry! Uma ou outra! Agora!
– Mas não consigo! Amo vocês duas!
– Vou matar você! – eu disse a meu pai.
Ele veio em minha direção e me deu um tapa no ouvido, me derrubando no chão. A mulher se levantou e saiu correndo da casa, e meu pai foi atrás dela. A mulher saltou para dentro do carro do meu pai, deu a partida e seguiu. Tudo se deu de maneira muito rápida. Meu pai saiu correndo rua afora atrás dela e do carro.
– EDNA! EDNA, VOLTE!
Meu pai conseguiu alcançar o carro, pôs a mão no banco da frente e agarrou a bolsa de Edna. Então o carro acelerou e meu pai ficou para trás com a bolsa.
– Eu sabia que algo estava acontecendo – me disse minha mãe. – Então, me escondi no porta-malas e peguei os dois juntos. Seu pai me trouxe até aqui na companhia daquela mulher horrível. Agora ela levou o carro dele.
Meu pai retornou com a bolsa de Edna.
– Todo mundo pra dentro de casa!
Entramos, e meu pai me trancou no quarto. Os dois começaram a discutir. Gritavam e se diziam coisas pavorosas. Então meu pai começou a bater na minha mãe. Ela gritava e ele seguia lhe dando uma surra. Pulei pela janela e tentei entrar pela porta da frente. Estava trancada. Tentei a porta dos fundos, as janelas. Tudo estava trancado. Fiquei plantado no pátio dos fundos, ouvindo os gritos e a pancadaria.
Então os gritos e a pancadaria cessaram e tudo o que eu podia ouvir era minha mãe soluçando. Soluçou por um longo tempo. Gradualmente, os espasmos foram diminuindo e diminuindo, até que ela silenciou.
– Misto-quente
1 240
Charles Bukowski
retrato de uma alma para moscas
ele é um homem com camisa de baixo usadíssima de desbotada
revolução
avançando a matemática de sua impureza rumo ao
zero final
e despertando esta manhã com o sabor do salmão
em minha língua
pensei nele
embora eu sentisse precisar de um sacerdote
ou pelo menos da carícia de sua mulher do lar
para devolver a minhas partes íntimas alguma partícula de
majestade
há uma carta na mão dele
de um homem rico em Santa Fé:
"Você está deslizando, você está deslizando, V. e eu
que somos seus fãs de muitos anos
estamos seriamente preocupados com seu declínio
artístico - muito embora sua popularidade ainda pareça estar
subindo. por que você não consulta um psiquiatra e faz com que a
rolha seja expelida de sua
bunda?
os comprimidos de Alka-Seltzer, como aranhas rastejantes,
ganham vida enquanto seu gato branco se senta dentro da janela
olhando para ele
meu gato é bonitão, ele pensa,
meu gato não precisa ficar SE FAZENDO
na labuta
do ideal americano
e ele mete seu nariz
seu nariz ideal americano
nas bolhas nítidas de que o gato nunca precisa
e bebe as bolhas
enquanto a transpiração da noite -18 cervejas e meio litro de scotch ontem
moureja por suas orelhas e pescoço
eu devia chamar Fat Freddy o Arremessador de Bosta
eu devia encontrar uma montanha de bronze para esconder minha
psique de quitandeiro ambulante embaixo
um pássaro se eleva na moita lá fora
apanhado entre o sol e ele mesmo
e a mancha de uma enorme sombra de asa
passa por cima dele
passa por cima do canto da casa -
o gato pula contra a tela
e tudo é mais velho do que a Normandia e Stalingrado
e o bombardeio dos portos
Winston Churchill
com cérebro de criança
cuspe no queixo
acena para a multidão desnorteada de amor
da janela alta
e então ele está morto
como quase tudo
mais
mas o homem com a camisa de baixo usadíssima:
seu gato está zangado
a tela o enganou
e os olhos amarelos do gato despencam sobre os dele
que nem os olhos de um pequeno empresário
que certa vez o demitiu por vadiar
no almoxarifado
"vai à merda você", ele diz ao gato, "e
à merda todas as condutas pouco talentosas de meu
talento minguante."
30 minutos depois
aquela primeira garrafa de cerveja
é melhor do que qualquer sexo em qualquer lugar do mundo
com qualquer vaca de bunda grande
da qual
ele jamais rasgou seda e renda
ele entra no quarto em que sua mulher está sentada
embalando na barriga o filho dele
e tira o cigarro da mão dela
coloca na própria boca
e tosse tosse tosse
e ainda o talento minguante
ele pensa, já ouvi essa tosse antes:
cavalo trincando lavagem de saliva em bocal de ferro
enquanto puxa sua primeira carroça de lixo
pela inútil e gélida manhã
em certa cidade pequena
na qual um único homem possui um
Mercedes
ele está suando
deve estar fedendo
mas as paredes são educadas
e ele segura meia cerveja numa garrafa
e a mulher fala:
espero que não tenha sido a sério tudo aquilo que você disse ontem à noite."
"ah, só as coisas boas."
"bem, isso já é uma redução.
você não vai beber hoje?"
"só um pouquinho, querida. eu sou um covarde."
"alimente o gato."
"tá."
na porta está um mensageiro da Western Union. ele lhe dá uma
gorjeta insubstancial e o mensageiro se manda
suando
o batalhador americano
Deus o proteja
PRAZO FINAL PARA NOSSA EDIÇÃO DE POESIA ORIGINAL
A SAIR EM SETEMBRO É 17 DE AGOSTO EU
GOSTARIA MUITO DE UMA CONTRIBUIÇÃO SUA A ESSA
EDIÇÃO EXCLUSIVA MEUS MELHORES CUMPRIMENTOS
GENE COLE INTERMISSION MAGAZINE
3212 NORTH BROADWAY
CHICAGO
ILL
"alguém morreu?"
ele passa para ela
o telegrama
"uuuh, você está famoso!"
"consigo até ver agora: eu e Genet e Sartre
bebendo juntos num café de calçada em Parri."
"quem são eles?"
"ninguém. outros geni."
"ah. bem, alimente o gato."
então alimentei o gato
bebi mais 18 latas de cerveja e
escrevi
isto.
revolução
avançando a matemática de sua impureza rumo ao
zero final
e despertando esta manhã com o sabor do salmão
em minha língua
pensei nele
embora eu sentisse precisar de um sacerdote
ou pelo menos da carícia de sua mulher do lar
para devolver a minhas partes íntimas alguma partícula de
majestade
há uma carta na mão dele
de um homem rico em Santa Fé:
"Você está deslizando, você está deslizando, V. e eu
que somos seus fãs de muitos anos
estamos seriamente preocupados com seu declínio
artístico - muito embora sua popularidade ainda pareça estar
subindo. por que você não consulta um psiquiatra e faz com que a
rolha seja expelida de sua
bunda?
os comprimidos de Alka-Seltzer, como aranhas rastejantes,
ganham vida enquanto seu gato branco se senta dentro da janela
olhando para ele
meu gato é bonitão, ele pensa,
meu gato não precisa ficar SE FAZENDO
na labuta
do ideal americano
e ele mete seu nariz
seu nariz ideal americano
nas bolhas nítidas de que o gato nunca precisa
e bebe as bolhas
enquanto a transpiração da noite -18 cervejas e meio litro de scotch ontem
moureja por suas orelhas e pescoço
eu devia chamar Fat Freddy o Arremessador de Bosta
eu devia encontrar uma montanha de bronze para esconder minha
psique de quitandeiro ambulante embaixo
um pássaro se eleva na moita lá fora
apanhado entre o sol e ele mesmo
e a mancha de uma enorme sombra de asa
passa por cima dele
passa por cima do canto da casa -
o gato pula contra a tela
e tudo é mais velho do que a Normandia e Stalingrado
e o bombardeio dos portos
Winston Churchill
com cérebro de criança
cuspe no queixo
acena para a multidão desnorteada de amor
da janela alta
e então ele está morto
como quase tudo
mais
mas o homem com a camisa de baixo usadíssima:
seu gato está zangado
a tela o enganou
e os olhos amarelos do gato despencam sobre os dele
que nem os olhos de um pequeno empresário
que certa vez o demitiu por vadiar
no almoxarifado
"vai à merda você", ele diz ao gato, "e
à merda todas as condutas pouco talentosas de meu
talento minguante."
30 minutos depois
aquela primeira garrafa de cerveja
é melhor do que qualquer sexo em qualquer lugar do mundo
com qualquer vaca de bunda grande
da qual
ele jamais rasgou seda e renda
ele entra no quarto em que sua mulher está sentada
embalando na barriga o filho dele
e tira o cigarro da mão dela
coloca na própria boca
e tosse tosse tosse
e ainda o talento minguante
ele pensa, já ouvi essa tosse antes:
cavalo trincando lavagem de saliva em bocal de ferro
enquanto puxa sua primeira carroça de lixo
pela inútil e gélida manhã
em certa cidade pequena
na qual um único homem possui um
Mercedes
ele está suando
deve estar fedendo
mas as paredes são educadas
e ele segura meia cerveja numa garrafa
e a mulher fala:
espero que não tenha sido a sério tudo aquilo que você disse ontem à noite."
"ah, só as coisas boas."
"bem, isso já é uma redução.
você não vai beber hoje?"
"só um pouquinho, querida. eu sou um covarde."
"alimente o gato."
"tá."
na porta está um mensageiro da Western Union. ele lhe dá uma
gorjeta insubstancial e o mensageiro se manda
suando
o batalhador americano
Deus o proteja
PRAZO FINAL PARA NOSSA EDIÇÃO DE POESIA ORIGINAL
A SAIR EM SETEMBRO É 17 DE AGOSTO EU
GOSTARIA MUITO DE UMA CONTRIBUIÇÃO SUA A ESSA
EDIÇÃO EXCLUSIVA MEUS MELHORES CUMPRIMENTOS
GENE COLE INTERMISSION MAGAZINE
3212 NORTH BROADWAY
CHICAGO
ILL
"alguém morreu?"
ele passa para ela
o telegrama
"uuuh, você está famoso!"
"consigo até ver agora: eu e Genet e Sartre
bebendo juntos num café de calçada em Parri."
"quem são eles?"
"ninguém. outros geni."
"ah. bem, alimente o gato."
então alimentei o gato
bebi mais 18 latas de cerveja e
escrevi
isto.
1 154
Charles Bukowski
Comida de Cavalo
I
estaciono, saio, fecho o carro, é um dia perfeito, quente e fácil, me sinto bem, começo a caminhar para a entrada e um cara gordinho se aproxima, caminha a meu lado,
não sei de onde veio.
"oi", diz ele, "como vai indo?"
"ok", respondo.
ele diz "acho que você não se lembra de mim. você já me viu antes,
talvez duas ou três vezes".
"é possível", digo, "venho à pista diariamente."
"eu venho talvez três ou quatro vezes por mês", ele diz.
"com sua mulher?", eu pergunto.
"oh, não", ele diz, "nunca trago minha mulher."
seguimos juntos e eu vou mais depressa, ele luta para me acompanhar.
"qual para você vai chegar em primeiro?", ele pergunta
respondo que ainda não vi o programa.
"onde você fica?", pergunta ele.
respondo que em lugares diferentes a cada vez que vou.
"este maldito Gilligan", diz ele, "é o pior jóquei da pista. perdi uma nota nele outro dia. por que deixam ele correr?"
digo a ele que Whittingham e Longden acham que ele é legal.
"claro, são amigos", responde. "sei uma coisa sobre o Gilligan. quer saber o que é?" digo a ele que deixe pra lá.
vamos nos aproximando da banca de jornais perto da entrada
e eu desguio para a esquerda como se fosse comprar um jornal.
"boa sorte", digo a ele, enquanto caio fora.
ele fica perplexo, os olhos como em estado de choque, me lembra
algumas mulheres que só se sentem seguras quando sentem o polegar de alguém
enfiado na bunda.
ele olha em torno, mira um velho grisalho que puxa
pela perna, investe, emparelha com ele e começa a conversar...
II
Estar sozinho sempre foi fundamental para mim. Numa época entrei numa fase quente de vencer todas, nas corridas. O dinheiro caía do céu. Algum sistema básico e simples estava dando certo comigo. Os cavalos se deslocavam e eu saía do meu trabalho e ia atrás deles até Del Mar.
Era uma vida boa. Eu ganhava todo dia, na pista. Tinha uma rotina. Depois da corrida parava na loja de bebidas para comprar minha meia garrafa de uísque, as seis cervejas e os charutos. Ai voltava para o carro e seguia pela praia até algum motel, estacionava, levava meu material par Jentro, tomava uma chuveirada, trocava de roupa, então sentava o rabo no carro e seguia pela praia de novo - agora em busca de um restaurante. E o que procurava era um restaurante vazio. (São os piores, eu sei.) Mas eu não gostava de multidões. Sempre achava um como queria. Entrava e fazia meu pedido.
Assim, naquela noite em particular, encontrei um lugar, entrei, sentei no balcão, fiz o pedido: bife com fritas, cerveja. Estava tudo bem. A garçonete não me chateou Mamei minha cerveja, pedi outra. Aí veio a comida. Arre, diabos, parecia ótima! Comecei Comi uns tantos bocados bem bons e aí a porta se abriu e entrou um cara. Tinha uns 14 bancos vazios no balcão
O cara veio e sentou ao meu lado.
"Oi, Dóris, como vão as coisas?"
"Ok, Eddie. E você?"
"Ótimo."
"Que é que vai ser, Eddie?"
"Oh, somente um café, eu acho..."
Dóris trouxe o café para Eddie.
"Acho que estou ficando de saco cheio..."
"Sempre problemas, hein, Eddie?"
"É, Dóris, agora é minha mulher que quer pratos novos."
"Você diz louça de casa?"
"Não, novas comidas!"
"Oh, Eddie, há, há, há!"
"Bem", disse Eddie, "uma desgraça nunca vem só!"
Peguei meu prato e minha cerveja, meu garfo, minha faca, minha colher, meu guardanapo, minha bunda e arrastei tudo para um compartimento bem longe dali.
Sentei e comecei de novo. E enquanto isso espiava Eddie e Dóris
Estavam cochichando. Aí Dóris olhou pra mim:
"Está tudo certo, senhor?"
"Agora", eu respondi, "está."
III
uma mexicana gorda na fila na minha frente
deposita seus últimos dois dólares tudo trocadinho:
em moedas variadas e níqueis
enquanto aposta no número errado.
vou à frente, aposto vinte na cabeça
e erro também enquanto um
peido de trovões explode no céu, seguido
por uma luz distante
pequenas gotas de chuva começam seu trabalho e nós
saímos para ver o último páreo:
doze montarias de três anos para mil e seiscentos metros,
que não venceram em dois páreos
rompem num jorro de cor e esperança
lutando pela posição na curva rápida
entrando na reta distante diante das encantadoras
montanhas
há uma chance para todo mundo
exceto para o cavalo 6 que rompe uma
pata dianteira e joga um milionário chamado Pincay no chão duro duro enquanto alguns dos pobres apostadores gemem por ele
outros não se importam
e uns poucos ficam secretamente deliciados.
a ambulância de pista circula no
sentido anti-horário
a corrida se desdobra e desdobra
com três cavalos em linha
na reta de chegada
o favorito cede lugar
fica para trás
e o segundo melhor junto com um que pagaria 26 por um
cruzam o disco como uma criatura de oito patas,
o ponto mais avançado na foto pertencendo
ao azarão.
quase todos nós rasgamos nossos bilhetes e começamos
nossa caminhada para o estacionamento e o que
mais nos reste
as gotas quentes de chuva aumentam
esfriam
tudo o que esperamos agora é que nossos carros
ainda estejam lá
enquanto Pincay recobra a consciência na
enfermaria e pergunta
"que diabos
aconteceu?"
estaciono, saio, fecho o carro, é um dia perfeito, quente e fácil, me sinto bem, começo a caminhar para a entrada e um cara gordinho se aproxima, caminha a meu lado,
não sei de onde veio.
"oi", diz ele, "como vai indo?"
"ok", respondo.
ele diz "acho que você não se lembra de mim. você já me viu antes,
talvez duas ou três vezes".
"é possível", digo, "venho à pista diariamente."
"eu venho talvez três ou quatro vezes por mês", ele diz.
"com sua mulher?", eu pergunto.
"oh, não", ele diz, "nunca trago minha mulher."
seguimos juntos e eu vou mais depressa, ele luta para me acompanhar.
"qual para você vai chegar em primeiro?", ele pergunta
respondo que ainda não vi o programa.
"onde você fica?", pergunta ele.
respondo que em lugares diferentes a cada vez que vou.
"este maldito Gilligan", diz ele, "é o pior jóquei da pista. perdi uma nota nele outro dia. por que deixam ele correr?"
digo a ele que Whittingham e Longden acham que ele é legal.
"claro, são amigos", responde. "sei uma coisa sobre o Gilligan. quer saber o que é?" digo a ele que deixe pra lá.
vamos nos aproximando da banca de jornais perto da entrada
e eu desguio para a esquerda como se fosse comprar um jornal.
"boa sorte", digo a ele, enquanto caio fora.
ele fica perplexo, os olhos como em estado de choque, me lembra
algumas mulheres que só se sentem seguras quando sentem o polegar de alguém
enfiado na bunda.
ele olha em torno, mira um velho grisalho que puxa
pela perna, investe, emparelha com ele e começa a conversar...
II
Estar sozinho sempre foi fundamental para mim. Numa época entrei numa fase quente de vencer todas, nas corridas. O dinheiro caía do céu. Algum sistema básico e simples estava dando certo comigo. Os cavalos se deslocavam e eu saía do meu trabalho e ia atrás deles até Del Mar.
Era uma vida boa. Eu ganhava todo dia, na pista. Tinha uma rotina. Depois da corrida parava na loja de bebidas para comprar minha meia garrafa de uísque, as seis cervejas e os charutos. Ai voltava para o carro e seguia pela praia até algum motel, estacionava, levava meu material par Jentro, tomava uma chuveirada, trocava de roupa, então sentava o rabo no carro e seguia pela praia de novo - agora em busca de um restaurante. E o que procurava era um restaurante vazio. (São os piores, eu sei.) Mas eu não gostava de multidões. Sempre achava um como queria. Entrava e fazia meu pedido.
Assim, naquela noite em particular, encontrei um lugar, entrei, sentei no balcão, fiz o pedido: bife com fritas, cerveja. Estava tudo bem. A garçonete não me chateou Mamei minha cerveja, pedi outra. Aí veio a comida. Arre, diabos, parecia ótima! Comecei Comi uns tantos bocados bem bons e aí a porta se abriu e entrou um cara. Tinha uns 14 bancos vazios no balcão
O cara veio e sentou ao meu lado.
"Oi, Dóris, como vão as coisas?"
"Ok, Eddie. E você?"
"Ótimo."
"Que é que vai ser, Eddie?"
"Oh, somente um café, eu acho..."
Dóris trouxe o café para Eddie.
"Acho que estou ficando de saco cheio..."
"Sempre problemas, hein, Eddie?"
"É, Dóris, agora é minha mulher que quer pratos novos."
"Você diz louça de casa?"
"Não, novas comidas!"
"Oh, Eddie, há, há, há!"
"Bem", disse Eddie, "uma desgraça nunca vem só!"
Peguei meu prato e minha cerveja, meu garfo, minha faca, minha colher, meu guardanapo, minha bunda e arrastei tudo para um compartimento bem longe dali.
Sentei e comecei de novo. E enquanto isso espiava Eddie e Dóris
Estavam cochichando. Aí Dóris olhou pra mim:
"Está tudo certo, senhor?"
"Agora", eu respondi, "está."
III
uma mexicana gorda na fila na minha frente
deposita seus últimos dois dólares tudo trocadinho:
em moedas variadas e níqueis
enquanto aposta no número errado.
vou à frente, aposto vinte na cabeça
e erro também enquanto um
peido de trovões explode no céu, seguido
por uma luz distante
pequenas gotas de chuva começam seu trabalho e nós
saímos para ver o último páreo:
doze montarias de três anos para mil e seiscentos metros,
que não venceram em dois páreos
rompem num jorro de cor e esperança
lutando pela posição na curva rápida
entrando na reta distante diante das encantadoras
montanhas
há uma chance para todo mundo
exceto para o cavalo 6 que rompe uma
pata dianteira e joga um milionário chamado Pincay no chão duro duro enquanto alguns dos pobres apostadores gemem por ele
outros não se importam
e uns poucos ficam secretamente deliciados.
a ambulância de pista circula no
sentido anti-horário
a corrida se desdobra e desdobra
com três cavalos em linha
na reta de chegada
o favorito cede lugar
fica para trás
e o segundo melhor junto com um que pagaria 26 por um
cruzam o disco como uma criatura de oito patas,
o ponto mais avançado na foto pertencendo
ao azarão.
quase todos nós rasgamos nossos bilhetes e começamos
nossa caminhada para o estacionamento e o que
mais nos reste
as gotas quentes de chuva aumentam
esfriam
tudo o que esperamos agora é que nossos carros
ainda estejam lá
enquanto Pincay recobra a consciência na
enfermaria e pergunta
"que diabos
aconteceu?"
1 199
Charles Bukowski
o tortuoso bem de socorrer quem sofre
tendo ficado muito magro e nervoso
como um músico passando fome
alimentei-o bem
e ele ficou gordo
como um texano magnata do petróleo e não tão
nervoso
mas mesmo assim
esquisito.
adormecido na cama eu desperto
e seu nariz está tocando meu
nariz e aqueles
grandes olhos amarelos
SONDANDO
o que resta de minha alma
e aí eu digo -
Sai, desgraçado!
tira esse seu nariz do meu
nariz!
ronronando como uma aranha cheia de
moscas ele se afasta um
pouco.
eu estava na banheira ontem
e ele veio andando
pernas esticadas alto
cauda sacudindo
e eu ali
fumando um charuto e lendo a
NEW YORKER
e ele pulou na borda da
banheira
equilibrando-se sobre o marfim escorregadio
curvando-se
e eu disse a ele:
meu caro, o senhor é um gato e gatos
não gostam de água.
mas ele se voltou rumo às torneiras
e ficou pendurado ali com seus pés pretos
e a outra parte dele estava
de cabeça para baixo
farejando a água e a água estava
QUENTE e ele começou a bebê-la
a fina língua vermelha
acanhada e milagrosa
mergulhando na água quente
e ele continuou
farejando
tentando imaginar o que eu estava fazendo ali dentro
o que eu via de tão bom naquilo
e então aquele tolo branco e gordo
caiu na água! -
nós todos saímos dali
molhados e velozes;
gato, eu, charuto e NEW YORKER
salivando, soando, silvando, ensaboados
e minha esposa entrou correndo
MEU DEUS! O QUE ACONTECEU? O QUE ACONTECEU?
falei por entre meu charuto desemaranhado:
o cara não pode nem mesmo ter um pouco de privacidade
em sua própria banheira, foi isso!
ela somente riu de nós
e O gato sequer ficou zangado
ainda estava molhado e inchado
exceto pelo rabo
que agora parecia quase tão fino quanto um
rabo de rato e muito triste e
ele começou a se
lamber.
usei uma toalha,
então fui para o quarto
deitei na cama
e tentei encontrar meu lugar na
revista.
mas o bom humor estava desfeito
larguei a publicação de lado
e olhei para o teto
lá para o espaço onde Deus supostamente
estava
então escutei:
MIIIAuiAU!
o próximo gato desgarrado que aparecer na minha porta vai
continuar sendo um
desgarrado.
como um músico passando fome
alimentei-o bem
e ele ficou gordo
como um texano magnata do petróleo e não tão
nervoso
mas mesmo assim
esquisito.
adormecido na cama eu desperto
e seu nariz está tocando meu
nariz e aqueles
grandes olhos amarelos
SONDANDO
o que resta de minha alma
e aí eu digo -
Sai, desgraçado!
tira esse seu nariz do meu
nariz!
ronronando como uma aranha cheia de
moscas ele se afasta um
pouco.
eu estava na banheira ontem
e ele veio andando
pernas esticadas alto
cauda sacudindo
e eu ali
fumando um charuto e lendo a
NEW YORKER
e ele pulou na borda da
banheira
equilibrando-se sobre o marfim escorregadio
curvando-se
e eu disse a ele:
meu caro, o senhor é um gato e gatos
não gostam de água.
mas ele se voltou rumo às torneiras
e ficou pendurado ali com seus pés pretos
e a outra parte dele estava
de cabeça para baixo
farejando a água e a água estava
QUENTE e ele começou a bebê-la
a fina língua vermelha
acanhada e milagrosa
mergulhando na água quente
e ele continuou
farejando
tentando imaginar o que eu estava fazendo ali dentro
o que eu via de tão bom naquilo
e então aquele tolo branco e gordo
caiu na água! -
nós todos saímos dali
molhados e velozes;
gato, eu, charuto e NEW YORKER
salivando, soando, silvando, ensaboados
e minha esposa entrou correndo
MEU DEUS! O QUE ACONTECEU? O QUE ACONTECEU?
falei por entre meu charuto desemaranhado:
o cara não pode nem mesmo ter um pouco de privacidade
em sua própria banheira, foi isso!
ela somente riu de nós
e O gato sequer ficou zangado
ainda estava molhado e inchado
exceto pelo rabo
que agora parecia quase tão fino quanto um
rabo de rato e muito triste e
ele começou a se
lamber.
usei uma toalha,
então fui para o quarto
deitei na cama
e tentei encontrar meu lugar na
revista.
mas o bom humor estava desfeito
larguei a publicação de lado
e olhei para o teto
lá para o espaço onde Deus supostamente
estava
então escutei:
MIIIAuiAU!
o próximo gato desgarrado que aparecer na minha porta vai
continuar sendo um
desgarrado.
1 173
Charles Bukowski
Jovem Em Nova Orleans
morrendo de fome por ali, percorrendo os bares,
e à noite caminhando pelas ruas por
horas,
a luz do luar sempre me parecia
falsa, talvez fosse mesmo,
e no Bairro Francês eu via
passar os cavalos e as carroças,
todos sentados muito eretos nos carros
abertos, o motorista negro, e na
traseira o homem e a mulher,
frequentemente jovens e sempre brancos.
e eu estava sempre branco.
e muito pouco encantado com o
mundo.
Nova Orleans era um lugar onde se
esconder.
eu podia jogar fora a minha vida,
sem ser molestado.
exceto pelos ratos.
os ratos no meu quarto acanhado e escuro
profundamente ressentidos por terem de dividi-lo
comigo.
eles eram grandes e destemidos
e me encaravam com olhos
que comunicavam
sem pestanejar
uma ideia de morte.
as mulheres estavam fora do meu alcance.
viam em mim algo de
depravado.
havia uma garçonete
um pouco mais velha do que
eu, que esboçava um sorriso,
demorando-se ao me
trazer o
café.
aquilo me bastava,
era o
suficiente.
havia alguma coisa, porém,
naquela cidade:
ela não me deixava sentir culpa
por não ter sentimentos em relação às
coisas que tantos outros
precisavam.
ela me deixava em paz.
sentado em minha cama
as luzes apagadas,
ouvindo os sons que vinham
de fora,
erguendo a minha garrafa
de vinho barato,
deixando o calor
da uva
entrar
em mim
enquanto eu escutava os ratos
movendo-se ao redor do
quarto,
eu os preferia
aos
humanos.
estar perdido
quem sabe louco
não era tão mau
se você pudesse
ficar assim:
quieto no seu canto.
foi algo que Nova Orleans me
deu.
ninguém jamais chamou
meu nome.
nada de telefonemas,
nem carro,
nem emprego,
nada de
nada.
apenas eu e os
ratos
e minha juventude,
naquele tempo,
aquele tempo
eu sabia
mesmo através do
vazio,
era uma
celebração
não de algo a ser
feito
mas apenas
conhecido.
e à noite caminhando pelas ruas por
horas,
a luz do luar sempre me parecia
falsa, talvez fosse mesmo,
e no Bairro Francês eu via
passar os cavalos e as carroças,
todos sentados muito eretos nos carros
abertos, o motorista negro, e na
traseira o homem e a mulher,
frequentemente jovens e sempre brancos.
e eu estava sempre branco.
e muito pouco encantado com o
mundo.
Nova Orleans era um lugar onde se
esconder.
eu podia jogar fora a minha vida,
sem ser molestado.
exceto pelos ratos.
os ratos no meu quarto acanhado e escuro
profundamente ressentidos por terem de dividi-lo
comigo.
eles eram grandes e destemidos
e me encaravam com olhos
que comunicavam
sem pestanejar
uma ideia de morte.
as mulheres estavam fora do meu alcance.
viam em mim algo de
depravado.
havia uma garçonete
um pouco mais velha do que
eu, que esboçava um sorriso,
demorando-se ao me
trazer o
café.
aquilo me bastava,
era o
suficiente.
havia alguma coisa, porém,
naquela cidade:
ela não me deixava sentir culpa
por não ter sentimentos em relação às
coisas que tantos outros
precisavam.
ela me deixava em paz.
sentado em minha cama
as luzes apagadas,
ouvindo os sons que vinham
de fora,
erguendo a minha garrafa
de vinho barato,
deixando o calor
da uva
entrar
em mim
enquanto eu escutava os ratos
movendo-se ao redor do
quarto,
eu os preferia
aos
humanos.
estar perdido
quem sabe louco
não era tão mau
se você pudesse
ficar assim:
quieto no seu canto.
foi algo que Nova Orleans me
deu.
ninguém jamais chamou
meu nome.
nada de telefonemas,
nem carro,
nem emprego,
nada de
nada.
apenas eu e os
ratos
e minha juventude,
naquele tempo,
aquele tempo
eu sabia
mesmo através do
vazio,
era uma
celebração
não de algo a ser
feito
mas apenas
conhecido.
1 136
Charles Bukowski
pois eles tinham coisas para dizer
os canários estavam lá, e o limoeiro
e a mulher velha com verrugas;
e eu estava lá, uma criança
e eu tocava as teclas do piano
enquanto eles conversavam
mas não tão alto
pois tinham coisas para dizer
todos os três;
e eu os espiava a cobrirem os canários à noite
com sacos:
"assim eles conseguem dormir, querido."
eu toquei o piano bem baixo
uma nota por vez,
os canários sob seus sacos,
e havia pimenteiras,
pimenteiras roçando o telhado feito chuva
e pendendo de fora da janela
como chuva verde,
e eles conversavam, os três
sentados em um semicírculo na noite quente,
e as teclas eram pretas e brancas
e respondiam a meus dedos
como a magia secreta
de um mundo adulto à espera; e agora eles se foram, todos os três
e eu estou velho:
pés de piratas pisotearam os assoalhos bem varridos
da minha alma,
e os canários não cantam mais.
e a mulher velha com verrugas;
e eu estava lá, uma criança
e eu tocava as teclas do piano
enquanto eles conversavam
mas não tão alto
pois tinham coisas para dizer
todos os três;
e eu os espiava a cobrirem os canários à noite
com sacos:
"assim eles conseguem dormir, querido."
eu toquei o piano bem baixo
uma nota por vez,
os canários sob seus sacos,
e havia pimenteiras,
pimenteiras roçando o telhado feito chuva
e pendendo de fora da janela
como chuva verde,
e eles conversavam, os três
sentados em um semicírculo na noite quente,
e as teclas eram pretas e brancas
e respondiam a meus dedos
como a magia secreta
de um mundo adulto à espera; e agora eles se foram, todos os três
e eu estou velho:
pés de piratas pisotearam os assoalhos bem varridos
da minha alma,
e os canários não cantam mais.
1 217
Charles Bukowski
Oração Para Uma Puta Sob Mau Tempo
por Deus, não sei o que
fazer.
elas são tão boas de se ter por perto.
elas têm um jeito de brincar com
as bolas
e olhar para o pau muito
seriamente
torcendo-o
puxando-o
examinando cada parte
enquanto seus longos cabelos caem sobre
a nossa barriga.
não é o foder e o chupar
apenas
o que alcança o íntimo do homem
e o suaviza,
são os extras,
são todos os extras.
está chovendo agora nesta noite
e não há ninguém por aqui.
estão em outros lugares
examinando coisas
em novos quartos
em novos humores
ou talvez em velhos
quartos.
de qualquer forma, está chovendo nesta noite,
um diabo de chuva grossa,
torrencial...
muito pouco a fazer.
já li o jornal
paguei a conta do gás
a cia. elétrica
a conta do telefone.
continua chovendo.
elas suavizam o sujeito
e então o deixam a nadar
em seu próprio suco.
preciso de uma puta à moda antiga
batendo à porta esta noite
fechando seu guarda-chuva verde,
gotas de chuva enluarada em sua
bolsa, dizendo “merda, cara,
você consegue achar música melhor
do que essa no seu rádio...
e aumente o aquecimento...”
é sempre quando um homem está
com tesão de amor e tudo
mais
que só continua chovendo
espirrante
vomitante
chuva
boa para as árvores e a
grama e o ar...
boa para coisas que conseguem
viver sozinhas.
eu daria qualquer coisa
pela mão de uma fêmea nas minhas bolas
esta noite.
elas pegam o cara de jeito e
depois o deixam escutando
a chuva.
FAZ QUATRO ANOS QUE NÃO PEGO UMA MULHER
fazer.
elas são tão boas de se ter por perto.
elas têm um jeito de brincar com
as bolas
e olhar para o pau muito
seriamente
torcendo-o
puxando-o
examinando cada parte
enquanto seus longos cabelos caem sobre
a nossa barriga.
não é o foder e o chupar
apenas
o que alcança o íntimo do homem
e o suaviza,
são os extras,
são todos os extras.
está chovendo agora nesta noite
e não há ninguém por aqui.
estão em outros lugares
examinando coisas
em novos quartos
em novos humores
ou talvez em velhos
quartos.
de qualquer forma, está chovendo nesta noite,
um diabo de chuva grossa,
torrencial...
muito pouco a fazer.
já li o jornal
paguei a conta do gás
a cia. elétrica
a conta do telefone.
continua chovendo.
elas suavizam o sujeito
e então o deixam a nadar
em seu próprio suco.
preciso de uma puta à moda antiga
batendo à porta esta noite
fechando seu guarda-chuva verde,
gotas de chuva enluarada em sua
bolsa, dizendo “merda, cara,
você consegue achar música melhor
do que essa no seu rádio...
e aumente o aquecimento...”
é sempre quando um homem está
com tesão de amor e tudo
mais
que só continua chovendo
espirrante
vomitante
chuva
boa para as árvores e a
grama e o ar...
boa para coisas que conseguem
viver sozinhas.
eu daria qualquer coisa
pela mão de uma fêmea nas minhas bolas
esta noite.
elas pegam o cara de jeito e
depois o deixam escutando
a chuva.
FAZ QUATRO ANOS QUE NÃO PEGO UMA MULHER
1 092
Charles Bukowski
Um Mágico Desaparecido
eles vão um por um e conforme vão indo isso chega mais perto
de mim e
não me importo muito, é
só que não consigo ser prático quanto à
matemática que leva outros
ao ponto de fuga.
sábado passado
um dos maiores ases da corrida de arreios
morreu – o pequeno Joe O’Brien.
eu o vira ganhar inúmeras
corridas. ele
tinha um peculiar movimento balanceado
ele estalava as rédeas
e balançava o corpo pra trás e
pra frente. ele
aplicava esse movimento
durante a reta final e
era algo bastante dramático e
efetivo...
ele era tão pequeno que não conseguia
golpear o chicote com a mesma força dos
outros
então
ele balançava e balançava
na charrete
e o cavalo sentia o relâmpago
de sua excitação
aquele balanço ritmado e louco era
transferido do homem para o
animal...
o negócio todo dava a sensação de um
jogador de dados invocando os
deuses, e os deuses
respondiam com tamanha frequência...
eu vi Joe O’Brien vencer
incontáveis fotos de linha de chegada
várias por um
nariz.
ele pegava um cavalo
que outro condutor não conseguia
fazer correr
e Joe lhe dava seu
toque
e o animal quase
sempre respondia com
uma enxurrada de energia selvagem.
Joe O’Brien era o melhor corredor de arreios
que eu já tinha visto
e eu tinha visto vários ao longo das
décadas.
ninguém conseguia mimar e adular
um trotador ou marchador
como o pequeno Joe
ninguém conseguia fazer a magia funcionar
como Joe.
eles vão um por um
presidentes
lixeiros
assassinos
atores
batedores de carteiras
pugilistas
pistoleiros
bailarinos
pescadores
médicos
fritadores
bem
assim
mas Joe O’Brien
vai ser difícil
difícil
encontrar um substituto para
o pequeno Joe
e
na cerimônia
realizada para ele
na pista esta noite
(Los Alamitos 10-1-84)
enquanto os condutores se reuniam num
círculo
em seus uniformes
na linha de chegada
eu precisei dar minhas costas
à multidão
e subir os degraus da
arquibancada superior
rumo ao muro
para que as pessoas não
me vissem
chorar.
de mim e
não me importo muito, é
só que não consigo ser prático quanto à
matemática que leva outros
ao ponto de fuga.
sábado passado
um dos maiores ases da corrida de arreios
morreu – o pequeno Joe O’Brien.
eu o vira ganhar inúmeras
corridas. ele
tinha um peculiar movimento balanceado
ele estalava as rédeas
e balançava o corpo pra trás e
pra frente. ele
aplicava esse movimento
durante a reta final e
era algo bastante dramático e
efetivo...
ele era tão pequeno que não conseguia
golpear o chicote com a mesma força dos
outros
então
ele balançava e balançava
na charrete
e o cavalo sentia o relâmpago
de sua excitação
aquele balanço ritmado e louco era
transferido do homem para o
animal...
o negócio todo dava a sensação de um
jogador de dados invocando os
deuses, e os deuses
respondiam com tamanha frequência...
eu vi Joe O’Brien vencer
incontáveis fotos de linha de chegada
várias por um
nariz.
ele pegava um cavalo
que outro condutor não conseguia
fazer correr
e Joe lhe dava seu
toque
e o animal quase
sempre respondia com
uma enxurrada de energia selvagem.
Joe O’Brien era o melhor corredor de arreios
que eu já tinha visto
e eu tinha visto vários ao longo das
décadas.
ninguém conseguia mimar e adular
um trotador ou marchador
como o pequeno Joe
ninguém conseguia fazer a magia funcionar
como Joe.
eles vão um por um
presidentes
lixeiros
assassinos
atores
batedores de carteiras
pugilistas
pistoleiros
bailarinos
pescadores
médicos
fritadores
bem
assim
mas Joe O’Brien
vai ser difícil
difícil
encontrar um substituto para
o pequeno Joe
e
na cerimônia
realizada para ele
na pista esta noite
(Los Alamitos 10-1-84)
enquanto os condutores se reuniam num
círculo
em seus uniformes
na linha de chegada
eu precisei dar minhas costas
à multidão
e subir os degraus da
arquibancada superior
rumo ao muro
para que as pessoas não
me vissem
chorar.
953
Charles Bukowski
A Sova do Consolo
numa semana eu tive 6 mulheres diferentes
em 6 camas diferentes
(tirei uma quinta-feira de folga
para descansar)
e só falhei
sexualmente
uma noite,
a última noite da semana:
aconteceu quando eu estava em ação.
ela levou para o lado pessoal.
agora fiquei com uma só mulher
e eu não a traio.
quando você constata que pode se foder
facilmente
você constata que não precisa sair
por aí
simplesmente fodendo mulheres
e usando seus banheiros e seus
chuveiros e suas toalhas
e suas entranhas,
seus pensamentos, seus
sentimentos.
agora tenho um belo jardim lá fora.
ela o plantou.
eu o rego diariamente.
vasos de plantas pendem de cordas.
estou em paz.
ela fica aqui 3 dias por semana
então volta para sua casa.
o carteiro me pergunta: “ei, o que
aconteceu com todas as suas mulheres? você
costumava ter umas duas delas
sentadas na sua varanda quando eu passava
por aqui...”
“Sam”, eu lhe digo, “eu estava começando
a me sentir como um consolo...”
o cara da entrega de bebidas aparece:
“ei, cara! onde foi parar a mulherada toda?
você está sozinho nesta noite...”
“mais bebida pra mim,
Ernie...”
fodi a cidade, bebi a
metrópole, trepei com o país,
mijei no universo.
resta pouco a fazer exceto
firmar posição e relaxar.
tenho um belo jardim.
tenho uma mulher adorável.
já não me sinto como um
consolo.
eu me sinto como um homem.
a sensação é bem
melhor, é
mesmo. não se preocupem
comigo.
em 6 camas diferentes
(tirei uma quinta-feira de folga
para descansar)
e só falhei
sexualmente
uma noite,
a última noite da semana:
aconteceu quando eu estava em ação.
ela levou para o lado pessoal.
agora fiquei com uma só mulher
e eu não a traio.
quando você constata que pode se foder
facilmente
você constata que não precisa sair
por aí
simplesmente fodendo mulheres
e usando seus banheiros e seus
chuveiros e suas toalhas
e suas entranhas,
seus pensamentos, seus
sentimentos.
agora tenho um belo jardim lá fora.
ela o plantou.
eu o rego diariamente.
vasos de plantas pendem de cordas.
estou em paz.
ela fica aqui 3 dias por semana
então volta para sua casa.
o carteiro me pergunta: “ei, o que
aconteceu com todas as suas mulheres? você
costumava ter umas duas delas
sentadas na sua varanda quando eu passava
por aqui...”
“Sam”, eu lhe digo, “eu estava começando
a me sentir como um consolo...”
o cara da entrega de bebidas aparece:
“ei, cara! onde foi parar a mulherada toda?
você está sozinho nesta noite...”
“mais bebida pra mim,
Ernie...”
fodi a cidade, bebi a
metrópole, trepei com o país,
mijei no universo.
resta pouco a fazer exceto
firmar posição e relaxar.
tenho um belo jardim.
tenho uma mulher adorável.
já não me sinto como um
consolo.
eu me sinto como um homem.
a sensação é bem
melhor, é
mesmo. não se preocupem
comigo.
759
Charles Bukowski
Um Cachorro
veja só você, meias e calções, latas de cerveja
pelo chão, você não quer se comunicar,
para você uma mulher não é nada senão algo
para sua conveniência, você só fica ali sentado
bebendo como um porco, por que você não diz algo?
esta é a sua casa então você não pode ir embora, se eu estivesse
falando desse jeito na minha casa você sairia pela porta
sem demora.
por que você está sorrindo?
algo disso é engraçado?
tudo que você faz é beber como um porco e ir ao hipódromo!
o que há de tão sensacional num cavalo?
o que é que um cavalo tem que eu não tenho?
quatro pernas?
você não é genial?
ora, você não é o máximo?
você age como se nada importasse!
bem, deixa eu te dizer, babaca, eu importo!
você acha que é o único homem nesta cidade?
bem, deixa eu te dizer, existem homens aos montes que
me desejam, meu corpo, minha mente, meu espírito!
as pessoas me perguntam: “O que é que você está fazendo
com uma pessoa como aquela?”
o quê?
não, eu não quero um drinque!
quero que você se dê conta do que está acontecendo antes que
seja tarde demais!
veja só você entornando que nem bicho!
você sabe o que acontece quando você bebe
demais!
daria no mesmo eu estar morando com um eunuco!
minha mãe me avisou!
todo mundo me avisou!
veja só você agora!
por que você não se barbeia?
você derramou vinho na sua camisa toda!
e esse charuto barato!
você sabe qual é o cheiro que essa coisa
tem?
de bosta de cavalo!
ei, pra onde você está indo?
algum bar, algum bar de merda!
vai ficar lá sentado, acalentando a sua autopiedade
com todos aqueles outros perdedores!
se você passar por aquela porta eu vou
sair pra dançar!
vou sair para me divertir!
se você sair por aquela porta, aí é
o fim!
tá bom, vai lá então, seu babaca!
babaca!
babaca!
BABACA!
Você ainda tá vivendoem 1938,babaca!
pelo chão, você não quer se comunicar,
para você uma mulher não é nada senão algo
para sua conveniência, você só fica ali sentado
bebendo como um porco, por que você não diz algo?
esta é a sua casa então você não pode ir embora, se eu estivesse
falando desse jeito na minha casa você sairia pela porta
sem demora.
por que você está sorrindo?
algo disso é engraçado?
tudo que você faz é beber como um porco e ir ao hipódromo!
o que há de tão sensacional num cavalo?
o que é que um cavalo tem que eu não tenho?
quatro pernas?
você não é genial?
ora, você não é o máximo?
você age como se nada importasse!
bem, deixa eu te dizer, babaca, eu importo!
você acha que é o único homem nesta cidade?
bem, deixa eu te dizer, existem homens aos montes que
me desejam, meu corpo, minha mente, meu espírito!
as pessoas me perguntam: “O que é que você está fazendo
com uma pessoa como aquela?”
o quê?
não, eu não quero um drinque!
quero que você se dê conta do que está acontecendo antes que
seja tarde demais!
veja só você entornando que nem bicho!
você sabe o que acontece quando você bebe
demais!
daria no mesmo eu estar morando com um eunuco!
minha mãe me avisou!
todo mundo me avisou!
veja só você agora!
por que você não se barbeia?
você derramou vinho na sua camisa toda!
e esse charuto barato!
você sabe qual é o cheiro que essa coisa
tem?
de bosta de cavalo!
ei, pra onde você está indo?
algum bar, algum bar de merda!
vai ficar lá sentado, acalentando a sua autopiedade
com todos aqueles outros perdedores!
se você passar por aquela porta eu vou
sair pra dançar!
vou sair para me divertir!
se você sair por aquela porta, aí é
o fim!
tá bom, vai lá então, seu babaca!
babaca!
babaca!
BABACA!
Você ainda tá vivendoem 1938,babaca!
1 199
Charles Bukowski
Quatro e Meia da Manhã
os barulhos do mundo
com passarinhos vermelhos,
são quatro e meia da
manhã,
são sempre
quatro e meia da manhã,
e eu escuto
meus amigos:
os lixeiros
e os ladrões,
e gatos sonhando
com passarinhos vermelhos
e estes sonhando com
minhocas,
e as minhocas sonhando
os ossos do
meu amor,
e eu não posso dormir,
e logo vai amanhecer,
os trabalhadores vão se levantar
e dirão:
e vão procurar por mim
no estaleiro
"ele tá bêbado de novo",
mas eu estarei adormecido,
finalmente,
no meio das garrafas e da
luz do sol,
toda a escuridão acabada,
os braços abertos como
uma cruz,
os passarinhos vermelhos
voando,
voando,
rosas se abrindo no fumo
e
como algo esfaqueado e
cicatrizando,
como
40 páginas de um romance ruim,
um sorriso bem na
minha cara de idiota.
com passarinhos vermelhos,
são quatro e meia da
manhã,
são sempre
quatro e meia da manhã,
e eu escuto
meus amigos:
os lixeiros
e os ladrões,
e gatos sonhando
com passarinhos vermelhos
e estes sonhando com
minhocas,
e as minhocas sonhando
os ossos do
meu amor,
e eu não posso dormir,
e logo vai amanhecer,
os trabalhadores vão se levantar
e dirão:
e vão procurar por mim
no estaleiro
"ele tá bêbado de novo",
mas eu estarei adormecido,
finalmente,
no meio das garrafas e da
luz do sol,
toda a escuridão acabada,
os braços abertos como
uma cruz,
os passarinhos vermelhos
voando,
voando,
rosas se abrindo no fumo
e
como algo esfaqueado e
cicatrizando,
como
40 páginas de um romance ruim,
um sorriso bem na
minha cara de idiota.
1 362
Charles Bukowski
Jane E Droll
estávamos num barraco apertado na
região central de L.A.
havia uma mulher na cama
comigo
e havia um enorme
cão
ao pé da cama
e enquanto os dois dormiam
fiquei escutando suas
respirações
e pensei: eles dependem
de mim.
absurdamente curioso.
esse pensamento continuou comigo
pela manhã
depois do nosso café
dando a ré com o carro
na saída da garagem
a mulher e o cão
no degrau da frente
sentados e me
observando
enquanto eu ria e acenava
e ela sorria e
acenava
e o cão olhava
enquanto eu recuava até a
rua e desaparecia
cidade adentro.
agora nesta noite
ainda penso neles
sentados naquele
degrau da frente
é como um filme
antigo – de 35 anos
atrás – que ninguém jamais
viu ou entendeu
exceto eu
e muito embora os
críticos possam rotulá-lo de
ordinário
eu gosto dele
bastante.
região central de L.A.
havia uma mulher na cama
comigo
e havia um enorme
cão
ao pé da cama
e enquanto os dois dormiam
fiquei escutando suas
respirações
e pensei: eles dependem
de mim.
absurdamente curioso.
esse pensamento continuou comigo
pela manhã
depois do nosso café
dando a ré com o carro
na saída da garagem
a mulher e o cão
no degrau da frente
sentados e me
observando
enquanto eu ria e acenava
e ela sorria e
acenava
e o cão olhava
enquanto eu recuava até a
rua e desaparecia
cidade adentro.
agora nesta noite
ainda penso neles
sentados naquele
degrau da frente
é como um filme
antigo – de 35 anos
atrás – que ninguém jamais
viu ou entendeu
exceto eu
e muito embora os
críticos possam rotulá-lo de
ordinário
eu gosto dele
bastante.
1 024
Charles Bukowski
Cavalo-marinho
tenho a indicação de um cavalo
tenho a barriga dele e seus colhões
o modo como vira os olhos
tenho isso
como come feno
e como caga e
como dorme em pé
ele é meu
esta máquina
como um trem azul com que eu brincava
quando minhas mãos eram menores
e minha cabeça melhor
possuo este cavalo,
algum dia vou cavalgar
por todas as ruas
pelas árvores passaremos
subindo a montanha
e vale abaixo
o assinalamento e os olhos e colhões
nós dois
vamos aos lugares onde os reis se alimentam
de margaridas*
no mar gigante
onde pensar não é nenhum erro
onde os olhos não vão para a rua
como crianças de sábado à noite
o cavalo que possuo e o eu que possuo
ficaremos azuis maravilhosos e limpos
de novo
e eu sairei e
esperarei por você.
* No original dandelion, "dente-de-leão". (NT)
tenho a barriga dele e seus colhões
o modo como vira os olhos
tenho isso
como come feno
e como caga e
como dorme em pé
ele é meu
esta máquina
como um trem azul com que eu brincava
quando minhas mãos eram menores
e minha cabeça melhor
possuo este cavalo,
algum dia vou cavalgar
por todas as ruas
pelas árvores passaremos
subindo a montanha
e vale abaixo
o assinalamento e os olhos e colhões
nós dois
vamos aos lugares onde os reis se alimentam
de margaridas*
no mar gigante
onde pensar não é nenhum erro
onde os olhos não vão para a rua
como crianças de sábado à noite
o cavalo que possuo e o eu que possuo
ficaremos azuis maravilhosos e limpos
de novo
e eu sairei e
esperarei por você.
* No original dandelion, "dente-de-leão". (NT)
1 121
Charles Bukowski
Cavalo-marinho
tenho a indicação de um cavalo
tenho a barriga dele e seus colhões
o modo como vira os olhos
tenho isso
como come feno
e como caga e
como dorme em pé
ele é meu
esta máquina
como um trem azul com que eu brincava
quando minhas mãos eram menores
e minha cabeça melhor
possuo este cavalo,
algum dia vou cavalgar
por todas as ruas
pelas árvores passaremos
subindo a montanha
e vale abaixo
o assinalamento e os olhos e colhões
nós dois
vamos aos lugares onde os reis se alimentam
de margaridas*
no mar gigante
onde pensar não é nenhum erro
onde os olhos não vão para a rua
como crianças de sábado à noite
o cavalo que possuo e o eu que possuo
ficaremos azuis maravilhosos e limpos
de novo
e eu sairei e
esperarei por você.
* No original dandelion, "dente-de-leão". (NT)
tenho a barriga dele e seus colhões
o modo como vira os olhos
tenho isso
como come feno
e como caga e
como dorme em pé
ele é meu
esta máquina
como um trem azul com que eu brincava
quando minhas mãos eram menores
e minha cabeça melhor
possuo este cavalo,
algum dia vou cavalgar
por todas as ruas
pelas árvores passaremos
subindo a montanha
e vale abaixo
o assinalamento e os olhos e colhões
nós dois
vamos aos lugares onde os reis se alimentam
de margaridas*
no mar gigante
onde pensar não é nenhum erro
onde os olhos não vão para a rua
como crianças de sábado à noite
o cavalo que possuo e o eu que possuo
ficaremos azuis maravilhosos e limpos
de novo
e eu sairei e
esperarei por você.
* No original dandelion, "dente-de-leão". (NT)
1 121
Charles Bukowski
Cavalo-marinho
tenho a indicação de um cavalo
tenho a barriga dele e seus colhões
o modo como vira os olhos
tenho isso
como come feno
e como caga e
como dorme em pé
ele é meu
esta máquina
como um trem azul com que eu brincava
quando minhas mãos eram menores
e minha cabeça melhor
possuo este cavalo,
algum dia vou cavalgar
por todas as ruas
pelas árvores passaremos
subindo a montanha
e vale abaixo
o assinalamento e os olhos e colhões
nós dois
vamos aos lugares onde os reis se alimentam
de margaridas*
no mar gigante
onde pensar não é nenhum erro
onde os olhos não vão para a rua
como crianças de sábado à noite
o cavalo que possuo e o eu que possuo
ficaremos azuis maravilhosos e limpos
de novo
e eu sairei e
esperarei por você.
* No original dandelion, "dente-de-leão". (NT)
tenho a barriga dele e seus colhões
o modo como vira os olhos
tenho isso
como come feno
e como caga e
como dorme em pé
ele é meu
esta máquina
como um trem azul com que eu brincava
quando minhas mãos eram menores
e minha cabeça melhor
possuo este cavalo,
algum dia vou cavalgar
por todas as ruas
pelas árvores passaremos
subindo a montanha
e vale abaixo
o assinalamento e os olhos e colhões
nós dois
vamos aos lugares onde os reis se alimentam
de margaridas*
no mar gigante
onde pensar não é nenhum erro
onde os olhos não vão para a rua
como crianças de sábado à noite
o cavalo que possuo e o eu que possuo
ficaremos azuis maravilhosos e limpos
de novo
e eu sairei e
esperarei por você.
* No original dandelion, "dente-de-leão". (NT)
1 121
Charles Bukowski
Visita a Venice
nós fomos dar uma caminhada ao longo da praia em Venice
os hippies sentados esperando pelo Nirvana
alguns deles golpeando bongôs,
as últimas das velhas damas judias esperando a morte
esperando pelo momento de seguir seus maridos que já partiram faz tanto tempo,
o mar ondulava para lá e para cá,
ficamos cansados e nos deitamos num gramado
e minha filha de 8 anos passou os dedos por
minha barba dizendo: “Hank, está ficando cada vez mais
branca!” Eu ri direto para o céu, ela era
tão engraçada. então ela tocou meu bigode: “Está ficando
branco também”. Eu ri de novo. “E as minhas sobrancelhas?”,
eu perguntei. “Tem um aqui. É meio branco e meio
vermelho.”
“é?” “sim.”
fechei meus olhos por um momento. ela passou os dedos pelo meu
cabelo. “Mas não tem branco no seu cabelo, Hank. Nem um único
cabelo é branco...”
“Não, aqui perto da orelha direita”, eu disse, “está começando.”
levantamos e continuamos nossa caminhada até o carro.
“Frances tem o cabelo todo branco”, ela disse.
“Sim”, eu disse, “mas são aqueles 5 longos cabelos brancos
pendurados no queixo dela que não são muito bonitos.”
“Foi por isso que vocês se separaram?”
“Não, ela alegou que eu fui pra cama com outra mulher.”
“Você fez isso?”
“Veja como o céu está alto!”
o mar ondulava pra lá e pra cá.
“Ela não vai achar homem algum disposto a beijá-la com aqueles 5 cabelos brancos
no queixo dela.”
“Mas ela acha!”
“Ah é?”
“Bem, não muitos...”
“50.000?”
“Ah, não...”
“5?”
“Sim, 5. Um homem para cada cabelo.”
entramos de volta no carro e eu a conduzi de volta até
sua mãe.
os hippies sentados esperando pelo Nirvana
alguns deles golpeando bongôs,
as últimas das velhas damas judias esperando a morte
esperando pelo momento de seguir seus maridos que já partiram faz tanto tempo,
o mar ondulava para lá e para cá,
ficamos cansados e nos deitamos num gramado
e minha filha de 8 anos passou os dedos por
minha barba dizendo: “Hank, está ficando cada vez mais
branca!” Eu ri direto para o céu, ela era
tão engraçada. então ela tocou meu bigode: “Está ficando
branco também”. Eu ri de novo. “E as minhas sobrancelhas?”,
eu perguntei. “Tem um aqui. É meio branco e meio
vermelho.”
“é?” “sim.”
fechei meus olhos por um momento. ela passou os dedos pelo meu
cabelo. “Mas não tem branco no seu cabelo, Hank. Nem um único
cabelo é branco...”
“Não, aqui perto da orelha direita”, eu disse, “está começando.”
levantamos e continuamos nossa caminhada até o carro.
“Frances tem o cabelo todo branco”, ela disse.
“Sim”, eu disse, “mas são aqueles 5 longos cabelos brancos
pendurados no queixo dela que não são muito bonitos.”
“Foi por isso que vocês se separaram?”
“Não, ela alegou que eu fui pra cama com outra mulher.”
“Você fez isso?”
“Veja como o céu está alto!”
o mar ondulava pra lá e pra cá.
“Ela não vai achar homem algum disposto a beijá-la com aqueles 5 cabelos brancos
no queixo dela.”
“Mas ela acha!”
“Ah é?”
“Bem, não muitos...”
“50.000?”
“Ah, não...”
“5?”
“Sim, 5. Um homem para cada cabelo.”
entramos de volta no carro e eu a conduzi de volta até
sua mãe.
1 124