Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Pablo Neruda
11
Quase fora do céu ancora entre duas montanhas
a metade da lua.
Girante, errante noite, a escavadora de olhos.
A ver quantos fragmentos de estrelas nas poças.
Faz uma cruz de luto em minha testa, foge.
Forja de metais azuis,noites de lutas silenciosas,
meu coração dá voltas como um volante louco.
Menina que vem de tão longe,trazida de tão longe,
às vezes teu olhar fulgura sob o céu.
Queixume, tempestade, redemoinho de fúria,
cruza meu coração, sem te deteres.
Vento dos sepúlcros carrega, destroça, dispersa tua raiz sonolenta.
Decepa as grandes árvores do outro lado dela.
Mas você, alva menina, pergunta de fumo, espiga.
Era a que ia formando o vento com folhas luzidias.
Atrás das montanhas noturnas, lírio branco de incêndio,
ah nada posso dizer! Era feita de todas as coisas.
Ansiedade que partiu meu peito a cuteladas,
é hora de seguir outro caminho,onde ela não sorria.
Tempestade que enterrou campanários, turva revoada de tormentas
para que tocá-la agora, para que entristecê-la.
Ai, seguir o caminho que se afasta de tudo,
onde não estejam vagando a angústia, a morte, o inverno,
com seus olhos abertos entre o orvalho.
a metade da lua.
Girante, errante noite, a escavadora de olhos.
A ver quantos fragmentos de estrelas nas poças.
Faz uma cruz de luto em minha testa, foge.
Forja de metais azuis,noites de lutas silenciosas,
meu coração dá voltas como um volante louco.
Menina que vem de tão longe,trazida de tão longe,
às vezes teu olhar fulgura sob o céu.
Queixume, tempestade, redemoinho de fúria,
cruza meu coração, sem te deteres.
Vento dos sepúlcros carrega, destroça, dispersa tua raiz sonolenta.
Decepa as grandes árvores do outro lado dela.
Mas você, alva menina, pergunta de fumo, espiga.
Era a que ia formando o vento com folhas luzidias.
Atrás das montanhas noturnas, lírio branco de incêndio,
ah nada posso dizer! Era feita de todas as coisas.
Ansiedade que partiu meu peito a cuteladas,
é hora de seguir outro caminho,onde ela não sorria.
Tempestade que enterrou campanários, turva revoada de tormentas
para que tocá-la agora, para que entristecê-la.
Ai, seguir o caminho que se afasta de tudo,
onde não estejam vagando a angústia, a morte, o inverno,
com seus olhos abertos entre o orvalho.
1 169
Pablo Neruda
Os dias
Quem separa o ontem da noite e do hoje que emprenhava sua taça?
E que lâmina de água incessante ou de bronze roído ou de gelo
impediu que acudisse meu peito às chamas que me
procriaram?
E quem sou? pergunto às ondas quando enfim naveguei sem navio
e pude me dar conta que o mar eu mesmo o levava nos olhos.
No entanto este dia que ardeu e consumiu sua distância
deixou para trás suas sombrias origens, olvidou a uterina treva,
e cresceu como a levedura levantando para cima os braços
até que desagregou a substância da luz que o favorecia,
e se foi separando do céu até que convertido outra vez em família da fumaça
se desfez na sombra que outra vez convertida em abelha
saía voando na luz de outro dia radiante e redondo.
E que lâmina de água incessante ou de bronze roído ou de gelo
impediu que acudisse meu peito às chamas que me
procriaram?
E quem sou? pergunto às ondas quando enfim naveguei sem navio
e pude me dar conta que o mar eu mesmo o levava nos olhos.
No entanto este dia que ardeu e consumiu sua distância
deixou para trás suas sombrias origens, olvidou a uterina treva,
e cresceu como a levedura levantando para cima os braços
até que desagregou a substância da luz que o favorecia,
e se foi separando do céu até que convertido outra vez em família da fumaça
se desfez na sombra que outra vez convertida em abelha
saía voando na luz de outro dia radiante e redondo.
546
Pablo Neruda
A noite
Oh, noite, oh substância que muda teu corpo e devolve à terra a estrela,
pensei, sacudido entre incertos temores tocando teus dedos,
pensando na rosa de sal deslumbrante que havia caído do céu.
Oh amor, oh infinito regado pela geologia,
oh corpo de lábios noturnos que me anteciparam a aurora
com a exatidão da uma fruta celeste amparada pela claridade do orvalho.
pensei, sacudido entre incertos temores tocando teus dedos,
pensando na rosa de sal deslumbrante que havia caído do céu.
Oh amor, oh infinito regado pela geologia,
oh corpo de lábios noturnos que me anteciparam a aurora
com a exatidão da uma fruta celeste amparada pela claridade do orvalho.
969
Pablo Neruda
A noite
Oh, noite, oh substância que muda teu corpo e devolve à terra a estrela,
pensei, sacudido entre incertos temores tocando teus dedos,
pensando na rosa de sal deslumbrante que havia caído do céu.
Oh amor, oh infinito regado pela geologia,
oh corpo de lábios noturnos que me anteciparam a aurora
com a exatidão da uma fruta celeste amparada pela claridade do orvalho.
pensei, sacudido entre incertos temores tocando teus dedos,
pensando na rosa de sal deslumbrante que havia caído do céu.
Oh amor, oh infinito regado pela geologia,
oh corpo de lábios noturnos que me anteciparam a aurora
com a exatidão da uma fruta celeste amparada pela claridade do orvalho.
969
Pablo Neruda
Manhã - IX
Ao golpe da onda contra a pedra indócil
estala a claridade e estabelece sua rosa
e o círculo do mar se reduz a um cacho,
a uma só gota de sal azul que tomba.
Oh radiante magnólia desatada na espuma,
magnética viageira cuja morte floresce
e eternamente volta a ser e a não ser nada:
sal roto, deslumbrante movimento marinho.
Juntos tu e eu, amor meu, selamos o silêncio,
enquanto o mar destrói suas constantes estátuas
e derruba suas torres de enlevo e brancura,
porque na trama destes tecidos invisíveis
da água entornada, da incessante areia,
sustentamos a única e acossada ternura.
estala a claridade e estabelece sua rosa
e o círculo do mar se reduz a um cacho,
a uma só gota de sal azul que tomba.
Oh radiante magnólia desatada na espuma,
magnética viageira cuja morte floresce
e eternamente volta a ser e a não ser nada:
sal roto, deslumbrante movimento marinho.
Juntos tu e eu, amor meu, selamos o silêncio,
enquanto o mar destrói suas constantes estátuas
e derruba suas torres de enlevo e brancura,
porque na trama destes tecidos invisíveis
da água entornada, da incessante areia,
sustentamos a única e acossada ternura.
1 155
Pablo Neruda
LIV
É verdade que as andorinhas
vão se estabelecer na lua?
Levarão a primavera
tirando-a das cornijas?
Se afastarão no outono
as andorinhas da lua?
Buscarão amostras de bismuto
a bicadas no céu?
E aos balcões voltarão
polvilhadas de cinza?
vão se estabelecer na lua?
Levarão a primavera
tirando-a das cornijas?
Se afastarão no outono
as andorinhas da lua?
Buscarão amostras de bismuto
a bicadas no céu?
E aos balcões voltarão
polvilhadas de cinza?
1 178
Pablo Neruda
LIV
É verdade que as andorinhas
vão se estabelecer na lua?
Levarão a primavera
tirando-a das cornijas?
Se afastarão no outono
as andorinhas da lua?
Buscarão amostras de bismuto
a bicadas no céu?
E aos balcões voltarão
polvilhadas de cinza?
vão se estabelecer na lua?
Levarão a primavera
tirando-a das cornijas?
Se afastarão no outono
as andorinhas da lua?
Buscarão amostras de bismuto
a bicadas no céu?
E aos balcões voltarão
polvilhadas de cinza?
1 178
Pablo Neruda
Manhã - XXXI
Com loureiros do Sul e orégão de Lota
cinjo-te a coroa, pequena monarca de meus ossos,
e não pode faltar-te essa coroa
que elabora a terra com bálsamo e folhagem.
És, como o que te ama, das províncias verdes:
de lá trouxemos barro que nos corre no sangue,
na cidade andamos, como tantos, perdidos,
temerosos de que fechem o mercado.
Bem-amada, tua sombra tem olor de ameixa,
teus olhos esconderam no Sul suas raízes,
teu coração é uma pomba de alcanzia,
teu corpo é liso como as pedras na água,
teus beijos são cachos com orvalho,
e eu a teu lado vivo com a terra.
cinjo-te a coroa, pequena monarca de meus ossos,
e não pode faltar-te essa coroa
que elabora a terra com bálsamo e folhagem.
És, como o que te ama, das províncias verdes:
de lá trouxemos barro que nos corre no sangue,
na cidade andamos, como tantos, perdidos,
temerosos de que fechem o mercado.
Bem-amada, tua sombra tem olor de ameixa,
teus olhos esconderam no Sul suas raízes,
teu coração é uma pomba de alcanzia,
teu corpo é liso como as pedras na água,
teus beijos são cachos com orvalho,
e eu a teu lado vivo com a terra.
1 222
Pablo Neruda
O Mar
Ali combateram mexendo-se na turbulência
os germes, a espora túrgida, as gomas da alga,
as ovas de um mar diminuto que ferve à beira do mar,
até que a rede quebrantada vasa na areia
os descendentes rotos, os tristes corais, os nardos do frio,
e ali se alimenta o outono, o espaço, a costa litúrgica,
com a podridão minguante e crescente que lança à areia o enlace infinito.
os germes, a espora túrgida, as gomas da alga,
as ovas de um mar diminuto que ferve à beira do mar,
até que a rede quebrantada vasa na areia
os descendentes rotos, os tristes corais, os nardos do frio,
e ali se alimenta o outono, o espaço, a costa litúrgica,
com a podridão minguante e crescente que lança à areia o enlace infinito.
1 607
Pablo Neruda
O Mar
Ali combateram mexendo-se na turbulência
os germes, a espora túrgida, as gomas da alga,
as ovas de um mar diminuto que ferve à beira do mar,
até que a rede quebrantada vasa na areia
os descendentes rotos, os tristes corais, os nardos do frio,
e ali se alimenta o outono, o espaço, a costa litúrgica,
com a podridão minguante e crescente que lança à areia o enlace infinito.
os germes, a espora túrgida, as gomas da alga,
as ovas de um mar diminuto que ferve à beira do mar,
até que a rede quebrantada vasa na areia
os descendentes rotos, os tristes corais, os nardos do frio,
e ali se alimenta o outono, o espaço, a costa litúrgica,
com a podridão minguante e crescente que lança à areia o enlace infinito.
1 607
Pablo Neruda
O Mar
Ali combateram mexendo-se na turbulência
os germes, a espora túrgida, as gomas da alga,
as ovas de um mar diminuto que ferve à beira do mar,
até que a rede quebrantada vasa na areia
os descendentes rotos, os tristes corais, os nardos do frio,
e ali se alimenta o outono, o espaço, a costa litúrgica,
com a podridão minguante e crescente que lança à areia o enlace infinito.
os germes, a espora túrgida, as gomas da alga,
as ovas de um mar diminuto que ferve à beira do mar,
até que a rede quebrantada vasa na areia
os descendentes rotos, os tristes corais, os nardos do frio,
e ali se alimenta o outono, o espaço, a costa litúrgica,
com a podridão minguante e crescente que lança à areia o enlace infinito.
1 607
Pablo Neruda
Meio-Dia - XXXVII
Oh amor, oh raio louco e ameaça purpúrea,
me visitas e sobes por tua viçosa escada
o castelo que o tempo coroou de neblinas,
as pálidas paredes do coração fechado.
Ninguém saberá que só foi a delicadeza
construindo cristais duros como cidades
e que o sangue abria túneis inditosos
sem que sua monarquia derrubasse o inverno.
Por isso, amor, tua boca, teu pé, tua luz, tuas penas,
foram o patrimônio da vida, os dons
sagrados da chuva, da natureza
que recebe e levanta a gravidez do grão,
a tempestade secreta do vinho nas cantinas,
a chama do cereal no solo.
me visitas e sobes por tua viçosa escada
o castelo que o tempo coroou de neblinas,
as pálidas paredes do coração fechado.
Ninguém saberá que só foi a delicadeza
construindo cristais duros como cidades
e que o sangue abria túneis inditosos
sem que sua monarquia derrubasse o inverno.
Por isso, amor, tua boca, teu pé, tua luz, tuas penas,
foram o patrimônio da vida, os dons
sagrados da chuva, da natureza
que recebe e levanta a gravidez do grão,
a tempestade secreta do vinho nas cantinas,
a chama do cereal no solo.
1 086
Pablo Neruda
Meio-Dia - XXXVII
Oh amor, oh raio louco e ameaça purpúrea,
me visitas e sobes por tua viçosa escada
o castelo que o tempo coroou de neblinas,
as pálidas paredes do coração fechado.
Ninguém saberá que só foi a delicadeza
construindo cristais duros como cidades
e que o sangue abria túneis inditosos
sem que sua monarquia derrubasse o inverno.
Por isso, amor, tua boca, teu pé, tua luz, tuas penas,
foram o patrimônio da vida, os dons
sagrados da chuva, da natureza
que recebe e levanta a gravidez do grão,
a tempestade secreta do vinho nas cantinas,
a chama do cereal no solo.
me visitas e sobes por tua viçosa escada
o castelo que o tempo coroou de neblinas,
as pálidas paredes do coração fechado.
Ninguém saberá que só foi a delicadeza
construindo cristais duros como cidades
e que o sangue abria túneis inditosos
sem que sua monarquia derrubasse o inverno.
Por isso, amor, tua boca, teu pé, tua luz, tuas penas,
foram o patrimônio da vida, os dons
sagrados da chuva, da natureza
que recebe e levanta a gravidez do grão,
a tempestade secreta do vinho nas cantinas,
a chama do cereal no solo.
1 086
Pablo Neruda
O Tempo
Outono de fábula, oh ventre remoto do mar apagado
piscar de estrela redonda repleta de impuros racimos,
oh ressurreições da ânfora, oh planta pletórica,
oh imenso arvoredo compacto que mexe a lua em sua copa,
começa o desfile delgado das migrações, extensa
é a côncava névoa e nela vai o coro e a flecha:
é a procissão procelária, é o Polo que emigra em suas asas.
Parecem imóveis aves dormindo na raia invisível dos
hemisférios,
progridem suspensas ao céu, ao rumor desse mar oxidado,
e no ar navega a linha impecável de flechas famintas;
as plumagens que até ontem sustinham sua estirpe de luto
sobre a primavera do tímpano, como uma auréola de neve sombria.
Dali, de meu inferno puído, dos iracundos farrapos da Patagônia,
da negra desordem voou este bando de espinhos, de
plumas, de pássaros,
a onda nua no céu, a luz dirigida, a lança formada no vento
pela necessária grandeza das unidades unidas.
piscar de estrela redonda repleta de impuros racimos,
oh ressurreições da ânfora, oh planta pletórica,
oh imenso arvoredo compacto que mexe a lua em sua copa,
começa o desfile delgado das migrações, extensa
é a côncava névoa e nela vai o coro e a flecha:
é a procissão procelária, é o Polo que emigra em suas asas.
Parecem imóveis aves dormindo na raia invisível dos
hemisférios,
progridem suspensas ao céu, ao rumor desse mar oxidado,
e no ar navega a linha impecável de flechas famintas;
as plumagens que até ontem sustinham sua estirpe de luto
sobre a primavera do tímpano, como uma auréola de neve sombria.
Dali, de meu inferno puído, dos iracundos farrapos da Patagônia,
da negra desordem voou este bando de espinhos, de
plumas, de pássaros,
a onda nua no céu, a luz dirigida, a lança formada no vento
pela necessária grandeza das unidades unidas.
642
Pablo Neruda
O Tempo
Outono de fábula, oh ventre remoto do mar apagado
piscar de estrela redonda repleta de impuros racimos,
oh ressurreições da ânfora, oh planta pletórica,
oh imenso arvoredo compacto que mexe a lua em sua copa,
começa o desfile delgado das migrações, extensa
é a côncava névoa e nela vai o coro e a flecha:
é a procissão procelária, é o Polo que emigra em suas asas.
Parecem imóveis aves dormindo na raia invisível dos
hemisférios,
progridem suspensas ao céu, ao rumor desse mar oxidado,
e no ar navega a linha impecável de flechas famintas;
as plumagens que até ontem sustinham sua estirpe de luto
sobre a primavera do tímpano, como uma auréola de neve sombria.
Dali, de meu inferno puído, dos iracundos farrapos da Patagônia,
da negra desordem voou este bando de espinhos, de
plumas, de pássaros,
a onda nua no céu, a luz dirigida, a lança formada no vento
pela necessária grandeza das unidades unidas.
piscar de estrela redonda repleta de impuros racimos,
oh ressurreições da ânfora, oh planta pletórica,
oh imenso arvoredo compacto que mexe a lua em sua copa,
começa o desfile delgado das migrações, extensa
é a côncava névoa e nela vai o coro e a flecha:
é a procissão procelária, é o Polo que emigra em suas asas.
Parecem imóveis aves dormindo na raia invisível dos
hemisférios,
progridem suspensas ao céu, ao rumor desse mar oxidado,
e no ar navega a linha impecável de flechas famintas;
as plumagens que até ontem sustinham sua estirpe de luto
sobre a primavera do tímpano, como uma auréola de neve sombria.
Dali, de meu inferno puído, dos iracundos farrapos da Patagônia,
da negra desordem voou este bando de espinhos, de
plumas, de pássaros,
a onda nua no céu, a luz dirigida, a lança formada no vento
pela necessária grandeza das unidades unidas.
642
Pablo Neruda
O Tempo
Outono de fábula, oh ventre remoto do mar apagado
piscar de estrela redonda repleta de impuros racimos,
oh ressurreições da ânfora, oh planta pletórica,
oh imenso arvoredo compacto que mexe a lua em sua copa,
começa o desfile delgado das migrações, extensa
é a côncava névoa e nela vai o coro e a flecha:
é a procissão procelária, é o Polo que emigra em suas asas.
Parecem imóveis aves dormindo na raia invisível dos
hemisférios,
progridem suspensas ao céu, ao rumor desse mar oxidado,
e no ar navega a linha impecável de flechas famintas;
as plumagens que até ontem sustinham sua estirpe de luto
sobre a primavera do tímpano, como uma auréola de neve sombria.
Dali, de meu inferno puído, dos iracundos farrapos da Patagônia,
da negra desordem voou este bando de espinhos, de
plumas, de pássaros,
a onda nua no céu, a luz dirigida, a lança formada no vento
pela necessária grandeza das unidades unidas.
piscar de estrela redonda repleta de impuros racimos,
oh ressurreições da ânfora, oh planta pletórica,
oh imenso arvoredo compacto que mexe a lua em sua copa,
começa o desfile delgado das migrações, extensa
é a côncava névoa e nela vai o coro e a flecha:
é a procissão procelária, é o Polo que emigra em suas asas.
Parecem imóveis aves dormindo na raia invisível dos
hemisférios,
progridem suspensas ao céu, ao rumor desse mar oxidado,
e no ar navega a linha impecável de flechas famintas;
as plumagens que até ontem sustinham sua estirpe de luto
sobre a primavera do tímpano, como uma auréola de neve sombria.
Dali, de meu inferno puído, dos iracundos farrapos da Patagônia,
da negra desordem voou este bando de espinhos, de
plumas, de pássaros,
a onda nua no céu, a luz dirigida, a lança formada no vento
pela necessária grandeza das unidades unidas.
642
Pablo Neruda
O Tempo
Outono de fábula, oh ventre remoto do mar apagado
piscar de estrela redonda repleta de impuros racimos,
oh ressurreições da ânfora, oh planta pletórica,
oh imenso arvoredo compacto que mexe a lua em sua copa,
começa o desfile delgado das migrações, extensa
é a côncava névoa e nela vai o coro e a flecha:
é a procissão procelária, é o Polo que emigra em suas asas.
Parecem imóveis aves dormindo na raia invisível dos
hemisférios,
progridem suspensas ao céu, ao rumor desse mar oxidado,
e no ar navega a linha impecável de flechas famintas;
as plumagens que até ontem sustinham sua estirpe de luto
sobre a primavera do tímpano, como uma auréola de neve sombria.
Dali, de meu inferno puído, dos iracundos farrapos da Patagônia,
da negra desordem voou este bando de espinhos, de
plumas, de pássaros,
a onda nua no céu, a luz dirigida, a lança formada no vento
pela necessária grandeza das unidades unidas.
piscar de estrela redonda repleta de impuros racimos,
oh ressurreições da ânfora, oh planta pletórica,
oh imenso arvoredo compacto que mexe a lua em sua copa,
começa o desfile delgado das migrações, extensa
é a côncava névoa e nela vai o coro e a flecha:
é a procissão procelária, é o Polo que emigra em suas asas.
Parecem imóveis aves dormindo na raia invisível dos
hemisférios,
progridem suspensas ao céu, ao rumor desse mar oxidado,
e no ar navega a linha impecável de flechas famintas;
as plumagens que até ontem sustinham sua estirpe de luto
sobre a primavera do tímpano, como uma auréola de neve sombria.
Dali, de meu inferno puído, dos iracundos farrapos da Patagônia,
da negra desordem voou este bando de espinhos, de
plumas, de pássaros,
a onda nua no céu, a luz dirigida, a lança formada no vento
pela necessária grandeza das unidades unidas.
642
Pablo Neruda
Eu Me Chamava Reyes
Eu me chamava Reyes, Catrileo,
Arellano, Rodriguez, tenho esquecido
meus nomes verdadeiros.
Nasci com sobrenome
de carvalho velho, de árvores recentes,
de madeira que assobia.
Eu fui depositado
nas folhas caídas,
afundou o recém-nascido
na derrota e no nascimento
de bosques que caíam
e casas pobres que recém choravam.
Eu não nasci mas me fundaram,
me puseram todos os nomes
de uma só vez,
me chamei matagal,
depois ameixeira, lariço e depois trigo,
por isso sou tanto e tão pouco,
tão multidão e tão desamparado,
porque venho debaixo,
da terra.
Arellano, Rodriguez, tenho esquecido
meus nomes verdadeiros.
Nasci com sobrenome
de carvalho velho, de árvores recentes,
de madeira que assobia.
Eu fui depositado
nas folhas caídas,
afundou o recém-nascido
na derrota e no nascimento
de bosques que caíam
e casas pobres que recém choravam.
Eu não nasci mas me fundaram,
me puseram todos os nomes
de uma só vez,
me chamei matagal,
depois ameixeira, lariço e depois trigo,
por isso sou tanto e tão pouco,
tão multidão e tão desamparado,
porque venho debaixo,
da terra.
1 139
Pablo Neruda
Tarde - LXXV
Esta é a casa, o mar e a bandeira.
Errávamos por outros longos muros.
Não achávamos a porta nem o som
desde a ausência como desde mortos.
E ao fim a casa abre seu silêncio,
entramos a pisar o abandono,
os momentos mortos, o adeus vazio,
a água que chorou no encanamento.
Chorou, chorou a casa noite e dia,
gemeu com as aranhas4, entreaberta,
se desgastou desde seus olhos negros,
e agora de repente a revolvemos viva,
a povoamos e não nos reconhece:
tem que florescer, e não se acorda.
4 Aranhas – pequenas carruagens puxadas por cavalos. (N.T.)
Errávamos por outros longos muros.
Não achávamos a porta nem o som
desde a ausência como desde mortos.
E ao fim a casa abre seu silêncio,
entramos a pisar o abandono,
os momentos mortos, o adeus vazio,
a água que chorou no encanamento.
Chorou, chorou a casa noite e dia,
gemeu com as aranhas4, entreaberta,
se desgastou desde seus olhos negros,
e agora de repente a revolvemos viva,
a povoamos e não nos reconhece:
tem que florescer, e não se acorda.
4 Aranhas – pequenas carruagens puxadas por cavalos. (N.T.)
1 052
Pablo Neruda
Noite - LXXXIII
É bom, amor, sentir-te perto de mim na noite,
invisível em teu sonho, seriamente noturna,
enquanto eu desenrolo minhas preocupações
como se fossem redes confundidas.
Ausente, pelos sonhos teu coração navega,
mas teu corpo assim abandonado respira
buscando-me sem ver-me, completando meu sonho
como uma planta que se duplica na sombra.
Erguida, serás outra que viverá amanhã,
mas das fronteiras perdidas na noite,
deste ser e não ser em que nos encontramos
algo fica acercando-nos na luz da vida
como se o selo da sombra assinalasse
com fogo suas secretas criaturas.
invisível em teu sonho, seriamente noturna,
enquanto eu desenrolo minhas preocupações
como se fossem redes confundidas.
Ausente, pelos sonhos teu coração navega,
mas teu corpo assim abandonado respira
buscando-me sem ver-me, completando meu sonho
como uma planta que se duplica na sombra.
Erguida, serás outra que viverá amanhã,
mas das fronteiras perdidas na noite,
deste ser e não ser em que nos encontramos
algo fica acercando-nos na luz da vida
como se o selo da sombra assinalasse
com fogo suas secretas criaturas.
1 292
Pablo Neruda
Regresso
Ardente é voltar à espuma que acossa minha casa, ao vazio
que deixa o oceano depois de entregar sua carreta de trovões,
tocar outra vez com o sangue a rajada de frio e salmoura
que morde a beira do Chile aventando a areia amarela.
É azul regressar à terra escolhida durante o combate,
levantar a bandeira de um homem sem reino
e esperar da luz uma rede que aprisione a trêmula prata
dos peixes escuros que povoam o pélago puro.
É eterno comer outra vez com o vinho ancestral no copo
a carne enrolada, os tomates de Janeiro com a linguiça,
a pimenta cuja fresca fragrância te ataca e te morde,
e a esta hora de sol as humitas6 de sal e delícia
desenroladas de suas folhas de ouro como virgens no sacrifício.
que deixa o oceano depois de entregar sua carreta de trovões,
tocar outra vez com o sangue a rajada de frio e salmoura
que morde a beira do Chile aventando a areia amarela.
É azul regressar à terra escolhida durante o combate,
levantar a bandeira de um homem sem reino
e esperar da luz uma rede que aprisione a trêmula prata
dos peixes escuros que povoam o pélago puro.
É eterno comer outra vez com o vinho ancestral no copo
a carne enrolada, os tomates de Janeiro com a linguiça,
a pimenta cuja fresca fragrância te ataca e te morde,
e a esta hora de sol as humitas6 de sal e delícia
desenroladas de suas folhas de ouro como virgens no sacrifício.
1 000
Pablo Neruda
Espaços
Dali, da honra do oceano e da Patagônia agachada
pelo vendaval, pelo peso da solidão rancorosa,
voando vai o voo, a fúria e a ordem, longitudinal e severo,
voando o transcurso queimando a dura distância,
engolindo a névoa:
as aves do mar em seu triângulo atravessam o céu como calafrio
e em seu movimento reúnem a terra selvagem do Sul de minha pátria
com meu coração transbordado que espera na torre da fumaça
o signo do gelo magnético, o Sul da dor borrascosa,
a hipnótica herança olvidada entre o pasto e as cavalgaduras.
pelo vendaval, pelo peso da solidão rancorosa,
voando vai o voo, a fúria e a ordem, longitudinal e severo,
voando o transcurso queimando a dura distância,
engolindo a névoa:
as aves do mar em seu triângulo atravessam o céu como calafrio
e em seu movimento reúnem a terra selvagem do Sul de minha pátria
com meu coração transbordado que espera na torre da fumaça
o signo do gelo magnético, o Sul da dor borrascosa,
a hipnótica herança olvidada entre o pasto e as cavalgaduras.
594
Pablo Neruda
Espaços
Dali, da honra do oceano e da Patagônia agachada
pelo vendaval, pelo peso da solidão rancorosa,
voando vai o voo, a fúria e a ordem, longitudinal e severo,
voando o transcurso queimando a dura distância,
engolindo a névoa:
as aves do mar em seu triângulo atravessam o céu como calafrio
e em seu movimento reúnem a terra selvagem do Sul de minha pátria
com meu coração transbordado que espera na torre da fumaça
o signo do gelo magnético, o Sul da dor borrascosa,
a hipnótica herança olvidada entre o pasto e as cavalgaduras.
pelo vendaval, pelo peso da solidão rancorosa,
voando vai o voo, a fúria e a ordem, longitudinal e severo,
voando o transcurso queimando a dura distância,
engolindo a névoa:
as aves do mar em seu triângulo atravessam o céu como calafrio
e em seu movimento reúnem a terra selvagem do Sul de minha pátria
com meu coração transbordado que espera na torre da fumaça
o signo do gelo magnético, o Sul da dor borrascosa,
a hipnótica herança olvidada entre o pasto e as cavalgaduras.
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Pablo Neruda
Ressurreição
Eu diminuo a cada dia que corre e que cai,
como se nascesse: é a aurora em meu sangue; sacudo a roupa,
se enredam os ramos do carvalho, coroa o orvalho com sete diademas minhas recém-nascidas orelhas,
no meio-dia reluzo como uma papoula em um traje de luto,
mais tarde a luz ferroviária que fugiu transmigrando os arquipélagos
se agarra a meus pés convidando-me a fugir com os trens
que alongam o dia do Chile por uma semana
e quando saciada a sombra com o luminoso alimento
estática se abre mostrando em seu seio moreno a ponta de Vênus
eu durmo feito noite, feito criança ou laranja,
extinto e prenhe do novo ditame do dia.
como se nascesse: é a aurora em meu sangue; sacudo a roupa,
se enredam os ramos do carvalho, coroa o orvalho com sete diademas minhas recém-nascidas orelhas,
no meio-dia reluzo como uma papoula em um traje de luto,
mais tarde a luz ferroviária que fugiu transmigrando os arquipélagos
se agarra a meus pés convidando-me a fugir com os trens
que alongam o dia do Chile por uma semana
e quando saciada a sombra com o luminoso alimento
estática se abre mostrando em seu seio moreno a ponta de Vênus
eu durmo feito noite, feito criança ou laranja,
extinto e prenhe do novo ditame do dia.
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