Poemas neste tema
Natureza e Elementos
António Ramos Rosa
Génese
Ouço dentro da água as calmas revoluções
e vejo os músculos de um texto em ritmo de ressaca.
Este é o rigor primeiro de um turbilhão compacto.
Todas as relações vibram enquanto a luz respira.
Um espaço se descobre onde não havia espaço.
Largos caminhos nascem sob o pulso do vento.
Uma cabeça límpida deambula entre as artérias verdes.
O que eu amo é a sede e o rigor do esquecimento.
A vista quase se apaga numa visão tão nua.
Os gestos e os aromas ondulam entre as sombras.
Que rumores tão lisos, que silêncio vegetal!
Talvez dentro do ouvido azul de um deus.
Um corpo germina em movimentos de palma.
Outro se consome numa folhagem de fogo.
Outro dorme como uma arma branca sobre a areia.
e vejo os músculos de um texto em ritmo de ressaca.
Este é o rigor primeiro de um turbilhão compacto.
Todas as relações vibram enquanto a luz respira.
Um espaço se descobre onde não havia espaço.
Largos caminhos nascem sob o pulso do vento.
Uma cabeça límpida deambula entre as artérias verdes.
O que eu amo é a sede e o rigor do esquecimento.
A vista quase se apaga numa visão tão nua.
Os gestos e os aromas ondulam entre as sombras.
Que rumores tão lisos, que silêncio vegetal!
Talvez dentro do ouvido azul de um deus.
Um corpo germina em movimentos de palma.
Outro se consome numa folhagem de fogo.
Outro dorme como uma arma branca sobre a areia.
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António Ramos Rosa
A Terra
Um corpo estende-se no pó, entre estrelas, paredes, folhas. Tem o céu inteiro sobre a sombra intacta. A plenitude do espaço é um relâmpago perfeito. A grande respiração da noite, cálida e serena, é a língua da unidade com os seus cães e astros gloriosos. A distância já não anula nem separa na sua única vibração monótona. Tudo se reúne e se compreende sob a sombra da noite porque a terra nos rodeia sem confusão nem imagens ilusórias. A terra é agora um barco tranquilo. Abertas estão as portas do mundo silencioso adormecido e vivo.
1 079
António Ramos Rosa
A Terra
Um corpo estende-se no pó, entre estrelas, paredes, folhas. Tem o céu inteiro sobre a sombra intacta. A plenitude do espaço é um relâmpago perfeito. A grande respiração da noite, cálida e serena, é a língua da unidade com os seus cães e astros gloriosos. A distância já não anula nem separa na sua única vibração monótona. Tudo se reúne e se compreende sob a sombra da noite porque a terra nos rodeia sem confusão nem imagens ilusórias. A terra é agora um barco tranquilo. Abertas estão as portas do mundo silencioso adormecido e vivo.
1 079
António Ramos Rosa
No Cimo
Abolido no cimo com o deus nulo do ar. A verdade apaga-se sem caminho, sem trama, sem as consoantes de pedra. Nudez com a terra e o sol no prisma flexível, no extremo círculo do silêncio. Veias abertas. Sulcos subtis. O corpo abriu-se inteiramente às brancas nascentes do vazio. Enraizado num lugar errante onde tudo respira, o deserto já não é o exílio, mas o astro único onde a sombra reverdece. Terra, ainda, dos ardentes cabelos, das primaveras vivas. O segredo indizível, maravilha discreta, ondula no ar como um aroma, como um murmúrio ou um nome leve que perpassa sem sentido, um sabor apenas, uma luz breve na morada móvel, uma trémula ilha transparente.
1 243
António Ramos Rosa
O Efémero Paraíso
Um mundo onde a ignorância é primavera
onde a alegria estremece deslumbrada
por um país que é um efémero paraíso
que se demora até ao fundo de uma esfera
por onde tudo se liberta com o vento e aclara.
O inalterável resplandece numa concha cristalina.
O próprio sopro é o movimento e as torrentes vibram.
Tudo se completa na unidade do silêncio.
Respira-se a folhagem com uma inteligência nova.
As linhas íntimas brilham na sombra do ar.
Um campo intenso recebe a grande luz. As sombras
cintilam na lucidez do repouso. A página abre-se.
Por graciosos canais circula o sentido iminente.
Uma única sílaba se respira ágil e leve.
Uma árvore marinha dá a resposta branca.
onde a alegria estremece deslumbrada
por um país que é um efémero paraíso
que se demora até ao fundo de uma esfera
por onde tudo se liberta com o vento e aclara.
O inalterável resplandece numa concha cristalina.
O próprio sopro é o movimento e as torrentes vibram.
Tudo se completa na unidade do silêncio.
Respira-se a folhagem com uma inteligência nova.
As linhas íntimas brilham na sombra do ar.
Um campo intenso recebe a grande luz. As sombras
cintilam na lucidez do repouso. A página abre-se.
Por graciosos canais circula o sentido iminente.
Uma única sílaba se respira ágil e leve.
Uma árvore marinha dá a resposta branca.
1 139
António Ramos Rosa
O Efémero Paraíso
Um mundo onde a ignorância é primavera
onde a alegria estremece deslumbrada
por um país que é um efémero paraíso
que se demora até ao fundo de uma esfera
por onde tudo se liberta com o vento e aclara.
O inalterável resplandece numa concha cristalina.
O próprio sopro é o movimento e as torrentes vibram.
Tudo se completa na unidade do silêncio.
Respira-se a folhagem com uma inteligência nova.
As linhas íntimas brilham na sombra do ar.
Um campo intenso recebe a grande luz. As sombras
cintilam na lucidez do repouso. A página abre-se.
Por graciosos canais circula o sentido iminente.
Uma única sílaba se respira ágil e leve.
Uma árvore marinha dá a resposta branca.
onde a alegria estremece deslumbrada
por um país que é um efémero paraíso
que se demora até ao fundo de uma esfera
por onde tudo se liberta com o vento e aclara.
O inalterável resplandece numa concha cristalina.
O próprio sopro é o movimento e as torrentes vibram.
Tudo se completa na unidade do silêncio.
Respira-se a folhagem com uma inteligência nova.
As linhas íntimas brilham na sombra do ar.
Um campo intenso recebe a grande luz. As sombras
cintilam na lucidez do repouso. A página abre-se.
Por graciosos canais circula o sentido iminente.
Uma única sílaba se respira ágil e leve.
Uma árvore marinha dá a resposta branca.
1 139
António Ramos Rosa
O Efémero Paraíso
Um mundo onde a ignorância é primavera
onde a alegria estremece deslumbrada
por um país que é um efémero paraíso
que se demora até ao fundo de uma esfera
por onde tudo se liberta com o vento e aclara.
O inalterável resplandece numa concha cristalina.
O próprio sopro é o movimento e as torrentes vibram.
Tudo se completa na unidade do silêncio.
Respira-se a folhagem com uma inteligência nova.
As linhas íntimas brilham na sombra do ar.
Um campo intenso recebe a grande luz. As sombras
cintilam na lucidez do repouso. A página abre-se.
Por graciosos canais circula o sentido iminente.
Uma única sílaba se respira ágil e leve.
Uma árvore marinha dá a resposta branca.
onde a alegria estremece deslumbrada
por um país que é um efémero paraíso
que se demora até ao fundo de uma esfera
por onde tudo se liberta com o vento e aclara.
O inalterável resplandece numa concha cristalina.
O próprio sopro é o movimento e as torrentes vibram.
Tudo se completa na unidade do silêncio.
Respira-se a folhagem com uma inteligência nova.
As linhas íntimas brilham na sombra do ar.
Um campo intenso recebe a grande luz. As sombras
cintilam na lucidez do repouso. A página abre-se.
Por graciosos canais circula o sentido iminente.
Uma única sílaba se respira ágil e leve.
Uma árvore marinha dá a resposta branca.
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António Ramos Rosa
O Corpo Na Folhagem
O corpo está na folhagem, na difusa
madurez. Conhece a alegria da argila
e os violinos verdes da terra. Entre a luz antiga
e a sombra, está na paz que ilumina os nomes.
Ouve os rumores confusos que tornam a solidão feliz.
Com o vento oscilam os vestígios ilegíveis.
Uma porta sempre fresca abre-se continuamente.
Como é suave a cinza do seu olhar na brisa!
Toca a pedra e ela responde com um sortilégio limpo.
Escreve com a brancura das pálpebras dos pássaros.
Não, tu não existes e existes, ó vivo ser!
Giras como os amantes em luminosos anéis.
Nas mãos o impalpável, as minúsculas estrelas de pólen.
A realidade é um bosque onde estremece a tua ausência.
Tu és o pássaro que atravessa a pedra opaca.
madurez. Conhece a alegria da argila
e os violinos verdes da terra. Entre a luz antiga
e a sombra, está na paz que ilumina os nomes.
Ouve os rumores confusos que tornam a solidão feliz.
Com o vento oscilam os vestígios ilegíveis.
Uma porta sempre fresca abre-se continuamente.
Como é suave a cinza do seu olhar na brisa!
Toca a pedra e ela responde com um sortilégio limpo.
Escreve com a brancura das pálpebras dos pássaros.
Não, tu não existes e existes, ó vivo ser!
Giras como os amantes em luminosos anéis.
Nas mãos o impalpável, as minúsculas estrelas de pólen.
A realidade é um bosque onde estremece a tua ausência.
Tu és o pássaro que atravessa a pedra opaca.
987
António Ramos Rosa
O Corpo Na Folhagem
O corpo está na folhagem, na difusa
madurez. Conhece a alegria da argila
e os violinos verdes da terra. Entre a luz antiga
e a sombra, está na paz que ilumina os nomes.
Ouve os rumores confusos que tornam a solidão feliz.
Com o vento oscilam os vestígios ilegíveis.
Uma porta sempre fresca abre-se continuamente.
Como é suave a cinza do seu olhar na brisa!
Toca a pedra e ela responde com um sortilégio limpo.
Escreve com a brancura das pálpebras dos pássaros.
Não, tu não existes e existes, ó vivo ser!
Giras como os amantes em luminosos anéis.
Nas mãos o impalpável, as minúsculas estrelas de pólen.
A realidade é um bosque onde estremece a tua ausência.
Tu és o pássaro que atravessa a pedra opaca.
madurez. Conhece a alegria da argila
e os violinos verdes da terra. Entre a luz antiga
e a sombra, está na paz que ilumina os nomes.
Ouve os rumores confusos que tornam a solidão feliz.
Com o vento oscilam os vestígios ilegíveis.
Uma porta sempre fresca abre-se continuamente.
Como é suave a cinza do seu olhar na brisa!
Toca a pedra e ela responde com um sortilégio limpo.
Escreve com a brancura das pálpebras dos pássaros.
Não, tu não existes e existes, ó vivo ser!
Giras como os amantes em luminosos anéis.
Nas mãos o impalpável, as minúsculas estrelas de pólen.
A realidade é um bosque onde estremece a tua ausência.
Tu és o pássaro que atravessa a pedra opaca.
987
António Ramos Rosa
A Palavra Viva
Muro em vez de boca, cal em vez de língua. Boca em vez de muro, língua em vez de cal. Um ímpeto, uma cor, uma mancha, uma marca escrita, um círculo de terra, uma coisa viva. Tantos astros de areia, tantos rostos de pedra! E o céu vasto, redondo, completo, os vultos vivos, ligeiros, matinais. Ritmo, crescimento, inundação. Por toda a parte o silencioso calor de um animal aéreo. O mundo acendeu-se com as suas árvores transparentes. Tudo é fácil, tudo é fluido. Suavemente vazio, na nudez intacta, o corpo escreve com a espuma do ar.
1 165
António Ramos Rosa
A Palavra Viva
Muro em vez de boca, cal em vez de língua. Boca em vez de muro, língua em vez de cal. Um ímpeto, uma cor, uma mancha, uma marca escrita, um círculo de terra, uma coisa viva. Tantos astros de areia, tantos rostos de pedra! E o céu vasto, redondo, completo, os vultos vivos, ligeiros, matinais. Ritmo, crescimento, inundação. Por toda a parte o silencioso calor de um animal aéreo. O mundo acendeu-se com as suas árvores transparentes. Tudo é fácil, tudo é fluido. Suavemente vazio, na nudez intacta, o corpo escreve com a espuma do ar.
1 165
António Ramos Rosa
A Palavra Viva
Muro em vez de boca, cal em vez de língua. Boca em vez de muro, língua em vez de cal. Um ímpeto, uma cor, uma mancha, uma marca escrita, um círculo de terra, uma coisa viva. Tantos astros de areia, tantos rostos de pedra! E o céu vasto, redondo, completo, os vultos vivos, ligeiros, matinais. Ritmo, crescimento, inundação. Por toda a parte o silencioso calor de um animal aéreo. O mundo acendeu-se com as suas árvores transparentes. Tudo é fácil, tudo é fluido. Suavemente vazio, na nudez intacta, o corpo escreve com a espuma do ar.
1 165
António Ramos Rosa
No Ar
Ouves a pequena pergunta dos pássaros? O vento sopra o meu corpo apagado entre palavras dispersas. Os olhos abertos no espaço, não tenho nome nem história. Sou uma semente, uma folha entre folhas. A respiração cresce. Sou exactamente o que sou. Redondo, transparente, nulo. O meu sangue é uma colmeia aberta. Meandros, mil meandros luminosos, rapidíssimos, por onde circulo, ébrio, de sopro em sopro. Sou uma rapariga aérea que ora se apaga na luz, ora se acende com o vento. Para nascer, para continuar nascendo, escrevo como se estas linhas fossem de vento.
1 276
António Ramos Rosa
No Ar
Ouves a pequena pergunta dos pássaros? O vento sopra o meu corpo apagado entre palavras dispersas. Os olhos abertos no espaço, não tenho nome nem história. Sou uma semente, uma folha entre folhas. A respiração cresce. Sou exactamente o que sou. Redondo, transparente, nulo. O meu sangue é uma colmeia aberta. Meandros, mil meandros luminosos, rapidíssimos, por onde circulo, ébrio, de sopro em sopro. Sou uma rapariga aérea que ora se apaga na luz, ora se acende com o vento. Para nascer, para continuar nascendo, escrevo como se estas linhas fossem de vento.
1 276
António Ramos Rosa
O Reino Está Aqui
O reino está aqui
no seu rumor de oceano
no seu horizonte fundo
na sua redondez cintilante.
Mas nós perdemos as leves
sandálias do vento
já não conhecemos o gozo
vegetal
de uma nua eternidade.
no seu rumor de oceano
no seu horizonte fundo
na sua redondez cintilante.
Mas nós perdemos as leves
sandálias do vento
já não conhecemos o gozo
vegetal
de uma nua eternidade.
580
António Ramos Rosa
O Corpo do Vento
Obstinado, volve o vento a areia. Sulcos ou palavras de metal alegre e trémulo, despertas e ao acaso, embriagadas de vento, voltijantes, fugidias. De que boca ou lâmpada saiu este vento que revolve a areia como um corpo? Obstinado, leve, invade, confunde, acaricia, sonha. Abre suavemente lábios, inscreve delicadamente umbigos, modela seios, desenha púbis evanescentes. É um corpo, um corpo de vento que voltija, incandescente, na geometria branca do ar. Que são as palavras agora se não forem as pétalas deste corpo vertiginoso? Elas correm, elas querem nascer entre os cabelos e o mar, como lâmpadas verdes, como latidos nupciais.
1 300
António Ramos Rosa
O Corpo do Vento
Obstinado, volve o vento a areia. Sulcos ou palavras de metal alegre e trémulo, despertas e ao acaso, embriagadas de vento, voltijantes, fugidias. De que boca ou lâmpada saiu este vento que revolve a areia como um corpo? Obstinado, leve, invade, confunde, acaricia, sonha. Abre suavemente lábios, inscreve delicadamente umbigos, modela seios, desenha púbis evanescentes. É um corpo, um corpo de vento que voltija, incandescente, na geometria branca do ar. Que são as palavras agora se não forem as pétalas deste corpo vertiginoso? Elas correm, elas querem nascer entre os cabelos e o mar, como lâmpadas verdes, como latidos nupciais.
1 300
António Ramos Rosa
Oscilando Na Ligeireza
Urdindo talvez a água e as lâmpadas de madeira.
Abandonando ao ócio o tempo e as suas rodas cinzentas.
Oscilando na ligeireza, aliado ao vigor da sombra.
Linhas, linhas em radiações vagarosas, lúcidas.
A orfandade encontrou a clareira harmoniosa.
Em uníssono com a folhagem numa suavidade de seda
penetro num prisma onde tudo é reverência.
Carícias e carícias lavam o corpo ferido.
O ouro mais vibrante sai de incessantes ilhas.
Já não luto. Dilato-me. Pertenço.
Outros nomes, outros frémitos, noutros campos
que uma inteligência de dança transformou.
Escuto milhares de folhas e não palavras surdas.
Um declive me aspira num espaço adolescente.
Tenho a facilidade verde e a volúpia das vogais.
Abandonando ao ócio o tempo e as suas rodas cinzentas.
Oscilando na ligeireza, aliado ao vigor da sombra.
Linhas, linhas em radiações vagarosas, lúcidas.
A orfandade encontrou a clareira harmoniosa.
Em uníssono com a folhagem numa suavidade de seda
penetro num prisma onde tudo é reverência.
Carícias e carícias lavam o corpo ferido.
O ouro mais vibrante sai de incessantes ilhas.
Já não luto. Dilato-me. Pertenço.
Outros nomes, outros frémitos, noutros campos
que uma inteligência de dança transformou.
Escuto milhares de folhas e não palavras surdas.
Um declive me aspira num espaço adolescente.
Tenho a facilidade verde e a volúpia das vogais.
1 046
António Ramos Rosa
Palavras Terrestres
Ante a imensa e silenciosa insistência de um céu imaculado, os lábios libertam-se, dilatam-se, dissipam-se e reúnem-se, flexíveis, numa boca de sombra e esquecimento. Palavras ou não palavras, nomes silenciosos, ascendem de um fundo ilimitado e obscuro. Um corpo em formação dilata-se, volátil. Na velocidade lenta que se espraia, corola imensa, a felicidade grita. Impaciência ou paciência, a vigilância infinita do poema. Escreve-se agora surpresa, sabor, sílex, espaço, palavras talvez, palavras terrestres, mas nada mais que folhagem, brancura e sopro.
1 176
António Ramos Rosa
Corpo Nocturno
Suspenso de uma varanda nocturna, na densa evanescência da noite, quem escuta, quem vê as sílabas derrubadas, as vogais e as gotas noctâmbulas, as miríades estilhaçadas de um dédalo que é talvez o corpo incendiado, o corpo inacessível? Todo o desejo é desejo de espaço e das gargantas que o habitam, despertas, vivíssimas. Um sombrio sangue mistura-se à espuma do ar, combina-se com o silêncio das árvores, penetra nas bocas com um delicado calor. Breve maravilha imóvel. Que música de minúcias leves! É apenas um lábio ou uma boca que crepita na sombra? Os ombros respiram como barcos, as palavras enrolam-se como folhas calmas no corpo que se abandona à terra numa obscura e ardente lucidez.
1 180
António Ramos Rosa
A Espera do Vento
Espero. Espero o vento. Coloco-me na área aberta entre a areia e o sal. O meu desejo é pólen, delírio da pedra, labirinto de folhas. É talvez a energia da cinza que me move. Escrevo com três vogais de água pura e quatro palavras de sol branco. Um sinal desenhado na argila, uma minúscula aranha, uma pequena chama no solo, o tremor do ar, tudo indica que as palavras, entre o sono e o sol, se consumarão com a verde energia do desejo liberto.
1 142
António Ramos Rosa
No Vaivém Imóvel
Nada mais que um pouco de luz e um pouco de vento. E umas quantas árvores cuja folhagem tremula e fulge, no delírio do ar. É real o que vejo, o que respiro: sou o próprio espaço em que estou. Trânsito fresco de minúsculas sombras e de folhas cintilantes. Circulam palavras leves de silêncio, de água, de ar. Ninguém é o sopro ligeiro que estimula e tranquiliza o vinho do sangue. Límpido o corpo, aberto e completo, límpida a sua ferida vertical. No vaivém imóvel há uma fulguração de um voo branco de sossegada iridiscência. Livre e certo, numa embriagada incerteza, o coração repousa e arde de luz e de alegria.
1 083
António Ramos Rosa
No Vaivém Imóvel
Nada mais que um pouco de luz e um pouco de vento. E umas quantas árvores cuja folhagem tremula e fulge, no delírio do ar. É real o que vejo, o que respiro: sou o próprio espaço em que estou. Trânsito fresco de minúsculas sombras e de folhas cintilantes. Circulam palavras leves de silêncio, de água, de ar. Ninguém é o sopro ligeiro que estimula e tranquiliza o vinho do sangue. Límpido o corpo, aberto e completo, límpida a sua ferida vertical. No vaivém imóvel há uma fulguração de um voo branco de sossegada iridiscência. Livre e certo, numa embriagada incerteza, o coração repousa e arde de luz e de alegria.
1 083
António Ramos Rosa
No Círculo Total
Onde estou respiro e ardo. Nada sei. Sou a seiva incandescente do compacto. Mas a densidade coincide com a mais viva ligeireza. A grande massa móvel da folhagem insufla-me um sangue verde que me dá uma sensação aérea de imponderável vigor. Estou completo como uma onda do mar, como uma árvore, como um muro branco. A tranquilidade é absoluta. Ninguém responde, nada responde, é aqui o círculo total. Movimentos leves, movimentos fundos, movimentos obscuros e sempre aéreos, movimentos claros. O que outrora eram os deuses estende-se no esplendor das coisas e dos seres. Que magnífica dilatação de todo o espaço interno! Estou talvez no centro liberto. Sinto a realidade numa profusão harmoniosa que me inclui, que me abraça, que a mim vem e de mim rompe em tranquilos e ardentes jorros. Tudo o que vejo toco. O vento que perpassa nas folhas corre-me pelas veias e pelas fibras. Fibras de um corpo, fibras do universo, vibrando no universo. Suspenderam-se as interrogações, nada pode ser proclamado nem aclamado aqui. Estou no templo natural. Totalmente ébrio de uma totalidade em que repouso e vibro. Sou tudo aquilo em que estou. Folhagem e água, ar, pedras, o sono verde da terra, as cores, os muros, as árvores e as casas adormecidas, rugosas, tudo, o todo inteiro, aqui, na coincidência feliz de ser, de mais ser, ebriamente límpido, misteriosamente idêntico.
1 101