Poemas neste tema
Natureza e Elementos
António Ramos Rosa
Na Fragilidade Verde
Na fragilidade verde de um intraduzível enclave
a obliquidade do sangue silencioso,
a dispersão das árvores claras e ardentes.
Minúsculas vozes atravessam o silêncio.
Uns joelhos da folhagem sob as lâmpadas
tremem num movimento de pacífica violência.
A pele está liberta na fresca identidade.
O tecto é uma rosácea de voláteis linhas.
A violência do fogo é ligeira e florida.
Um único segredo diz na brisa o seu sangue claro.
a obliquidade do sangue silencioso,
a dispersão das árvores claras e ardentes.
Minúsculas vozes atravessam o silêncio.
Uns joelhos da folhagem sob as lâmpadas
tremem num movimento de pacífica violência.
A pele está liberta na fresca identidade.
O tecto é uma rosácea de voláteis linhas.
A violência do fogo é ligeira e florida.
Um único segredo diz na brisa o seu sangue claro.
1 094
António Ramos Rosa
Na Fragilidade Verde
Na fragilidade verde de um intraduzível enclave
a obliquidade do sangue silencioso,
a dispersão das árvores claras e ardentes.
Minúsculas vozes atravessam o silêncio.
Uns joelhos da folhagem sob as lâmpadas
tremem num movimento de pacífica violência.
A pele está liberta na fresca identidade.
O tecto é uma rosácea de voláteis linhas.
A violência do fogo é ligeira e florida.
Um único segredo diz na brisa o seu sangue claro.
a obliquidade do sangue silencioso,
a dispersão das árvores claras e ardentes.
Minúsculas vozes atravessam o silêncio.
Uns joelhos da folhagem sob as lâmpadas
tremem num movimento de pacífica violência.
A pele está liberta na fresca identidade.
O tecto é uma rosácea de voláteis linhas.
A violência do fogo é ligeira e florida.
Um único segredo diz na brisa o seu sangue claro.
1 094
António Ramos Rosa
Uma Frase
Uma frase sem cor mas com o sabor do vento.
Uma frase que veio do silêncio da claridade.
E agora é o alto sossego na tensão de um dia pleno.
Exacta é a fábula que os teus dedos quase tocam.
Sob o solo entreaberto os teus lábios solares.
Durmo entre folhas, entre braços abertos, em grutas
silenciosas. Terra e corpo conjugam-se num só intenso ardor.
Escrevo o dia, fonte absoluta, invento o que respiro.
Uma frase que veio do silêncio da claridade.
E agora é o alto sossego na tensão de um dia pleno.
Exacta é a fábula que os teus dedos quase tocam.
Sob o solo entreaberto os teus lábios solares.
Durmo entre folhas, entre braços abertos, em grutas
silenciosas. Terra e corpo conjugam-se num só intenso ardor.
Escrevo o dia, fonte absoluta, invento o que respiro.
1 068
António Ramos Rosa
A Cidade Que Habito
Quem vê entre os ramos a delicada
aranha do sol? Um sopro abre as avenidas.
Quem escreve a cidade com o seu hálito?
Vapores cinza e rosa
levantam em leque a barca da terra.
Um ouvido subtil ouve o silêncio oblíquo.
Uma cidade de pedra e de água, de rumores
verticais, de ténues transparências,
que sede a surpreende inicial,
quem abraça no voo de um nascimento?
É aqui ainda a terra, nas colinas,
no odor a peixe, nos obscuros insectos.
Algo se espera talvez entre os plátanos.
Há estrelas e barcos nas calçadas.
Todas as superfícies oscilam à claridade do vento.
aranha do sol? Um sopro abre as avenidas.
Quem escreve a cidade com o seu hálito?
Vapores cinza e rosa
levantam em leque a barca da terra.
Um ouvido subtil ouve o silêncio oblíquo.
Uma cidade de pedra e de água, de rumores
verticais, de ténues transparências,
que sede a surpreende inicial,
quem abraça no voo de um nascimento?
É aqui ainda a terra, nas colinas,
no odor a peixe, nos obscuros insectos.
Algo se espera talvez entre os plátanos.
Há estrelas e barcos nas calçadas.
Todas as superfícies oscilam à claridade do vento.
1 200
António Ramos Rosa
A Cidade Que Habito
Quem vê entre os ramos a delicada
aranha do sol? Um sopro abre as avenidas.
Quem escreve a cidade com o seu hálito?
Vapores cinza e rosa
levantam em leque a barca da terra.
Um ouvido subtil ouve o silêncio oblíquo.
Uma cidade de pedra e de água, de rumores
verticais, de ténues transparências,
que sede a surpreende inicial,
quem abraça no voo de um nascimento?
É aqui ainda a terra, nas colinas,
no odor a peixe, nos obscuros insectos.
Algo se espera talvez entre os plátanos.
Há estrelas e barcos nas calçadas.
Todas as superfícies oscilam à claridade do vento.
aranha do sol? Um sopro abre as avenidas.
Quem escreve a cidade com o seu hálito?
Vapores cinza e rosa
levantam em leque a barca da terra.
Um ouvido subtil ouve o silêncio oblíquo.
Uma cidade de pedra e de água, de rumores
verticais, de ténues transparências,
que sede a surpreende inicial,
quem abraça no voo de um nascimento?
É aqui ainda a terra, nas colinas,
no odor a peixe, nos obscuros insectos.
Algo se espera talvez entre os plátanos.
Há estrelas e barcos nas calçadas.
Todas as superfícies oscilam à claridade do vento.
1 200
António Ramos Rosa
A Cidade Que Habito
Quem vê entre os ramos a delicada
aranha do sol? Um sopro abre as avenidas.
Quem escreve a cidade com o seu hálito?
Vapores cinza e rosa
levantam em leque a barca da terra.
Um ouvido subtil ouve o silêncio oblíquo.
Uma cidade de pedra e de água, de rumores
verticais, de ténues transparências,
que sede a surpreende inicial,
quem abraça no voo de um nascimento?
É aqui ainda a terra, nas colinas,
no odor a peixe, nos obscuros insectos.
Algo se espera talvez entre os plátanos.
Há estrelas e barcos nas calçadas.
Todas as superfícies oscilam à claridade do vento.
aranha do sol? Um sopro abre as avenidas.
Quem escreve a cidade com o seu hálito?
Vapores cinza e rosa
levantam em leque a barca da terra.
Um ouvido subtil ouve o silêncio oblíquo.
Uma cidade de pedra e de água, de rumores
verticais, de ténues transparências,
que sede a surpreende inicial,
quem abraça no voo de um nascimento?
É aqui ainda a terra, nas colinas,
no odor a peixe, nos obscuros insectos.
Algo se espera talvez entre os plátanos.
Há estrelas e barcos nas calçadas.
Todas as superfícies oscilam à claridade do vento.
1 200
António Ramos Rosa
A Cidade Que Habito
Quem vê entre os ramos a delicada
aranha do sol? Um sopro abre as avenidas.
Quem escreve a cidade com o seu hálito?
Vapores cinza e rosa
levantam em leque a barca da terra.
Um ouvido subtil ouve o silêncio oblíquo.
Uma cidade de pedra e de água, de rumores
verticais, de ténues transparências,
que sede a surpreende inicial,
quem abraça no voo de um nascimento?
É aqui ainda a terra, nas colinas,
no odor a peixe, nos obscuros insectos.
Algo se espera talvez entre os plátanos.
Há estrelas e barcos nas calçadas.
Todas as superfícies oscilam à claridade do vento.
aranha do sol? Um sopro abre as avenidas.
Quem escreve a cidade com o seu hálito?
Vapores cinza e rosa
levantam em leque a barca da terra.
Um ouvido subtil ouve o silêncio oblíquo.
Uma cidade de pedra e de água, de rumores
verticais, de ténues transparências,
que sede a surpreende inicial,
quem abraça no voo de um nascimento?
É aqui ainda a terra, nas colinas,
no odor a peixe, nos obscuros insectos.
Algo se espera talvez entre os plátanos.
Há estrelas e barcos nas calçadas.
Todas as superfícies oscilam à claridade do vento.
1 200
António Ramos Rosa
Espaço Soberano
Ela é uma evidência na distância
entre as árvores profunda como a morte.
Soberana iminência se decanta, desmesura
que vagarosa se expande até ao esquecimento.
E são palavras de retorno à sombra húmida
e ao que se abre na luz silenciosamente.
O enigma tem um rosto de sono fulgurante.
Os pássaros embriagam-se com as litanias nos arbustos.
A conivência é completa na amplitude aveludada.
entre as árvores profunda como a morte.
Soberana iminência se decanta, desmesura
que vagarosa se expande até ao esquecimento.
E são palavras de retorno à sombra húmida
e ao que se abre na luz silenciosamente.
O enigma tem um rosto de sono fulgurante.
Os pássaros embriagam-se com as litanias nos arbustos.
A conivência é completa na amplitude aveludada.
1 076
António Ramos Rosa
Espaço Soberano
Ela é uma evidência na distância
entre as árvores profunda como a morte.
Soberana iminência se decanta, desmesura
que vagarosa se expande até ao esquecimento.
E são palavras de retorno à sombra húmida
e ao que se abre na luz silenciosamente.
O enigma tem um rosto de sono fulgurante.
Os pássaros embriagam-se com as litanias nos arbustos.
A conivência é completa na amplitude aveludada.
entre as árvores profunda como a morte.
Soberana iminência se decanta, desmesura
que vagarosa se expande até ao esquecimento.
E são palavras de retorno à sombra húmida
e ao que se abre na luz silenciosamente.
O enigma tem um rosto de sono fulgurante.
Os pássaros embriagam-se com as litanias nos arbustos.
A conivência é completa na amplitude aveludada.
1 076
António Ramos Rosa
A Haste
Na claridade da pedra sobre a poeira áspera
a eloquência imóvel de uma nascente vazia.
Na espessura do vento sem folhagem, a branca incandescência.
Do vazio nada se levanta, nada quebra o sigilo.
O ouvido é liso ao rumor de um poço abandonado.
Não há cifras na força do silêncio. Apenas a mão
é porosa e frágil quando o espaço nos escuta.
Uma chama escrita dilata-se volúvel
e no ardor imóvel inventa-se uma haste.
a eloquência imóvel de uma nascente vazia.
Na espessura do vento sem folhagem, a branca incandescência.
Do vazio nada se levanta, nada quebra o sigilo.
O ouvido é liso ao rumor de um poço abandonado.
Não há cifras na força do silêncio. Apenas a mão
é porosa e frágil quando o espaço nos escuta.
Uma chama escrita dilata-se volúvel
e no ardor imóvel inventa-se uma haste.
1 196
António Ramos Rosa
Momento
Tudo está imóvel na luz: nada indica
uma passagem possível e imediata, o ar
não promove o caminho, o brilho do papel
não sugere a palavra ou o estilo cintilante,
a fidelidade do fogo, os matizes do canto.
Nada que irrompa de um seio e se estenda num aroma.
Mas que urgência volúvel nasce na espessura da sombra!
Para que as linhas de força se transformem em palavras,
para que o estranho se ligue ao simples e o abolido ao pleno.
A maneira como a árvore se inclina, o sol que a atravessa
no seu móvel fulgor, são os estímulos de uma mudança
ou um princípio ardente e claro entre o papel e o corpo.
A claridade vibra no rigor do solo e nas sílabas definidas
e uns lábios latem ainda entre sombrios cães.
A felicidade liberta-se por fim nas grandes superfícies.
uma passagem possível e imediata, o ar
não promove o caminho, o brilho do papel
não sugere a palavra ou o estilo cintilante,
a fidelidade do fogo, os matizes do canto.
Nada que irrompa de um seio e se estenda num aroma.
Mas que urgência volúvel nasce na espessura da sombra!
Para que as linhas de força se transformem em palavras,
para que o estranho se ligue ao simples e o abolido ao pleno.
A maneira como a árvore se inclina, o sol que a atravessa
no seu móvel fulgor, são os estímulos de uma mudança
ou um princípio ardente e claro entre o papel e o corpo.
A claridade vibra no rigor do solo e nas sílabas definidas
e uns lábios latem ainda entre sombrios cães.
A felicidade liberta-se por fim nas grandes superfícies.
620
António Ramos Rosa
Momento
Tudo está imóvel na luz: nada indica
uma passagem possível e imediata, o ar
não promove o caminho, o brilho do papel
não sugere a palavra ou o estilo cintilante,
a fidelidade do fogo, os matizes do canto.
Nada que irrompa de um seio e se estenda num aroma.
Mas que urgência volúvel nasce na espessura da sombra!
Para que as linhas de força se transformem em palavras,
para que o estranho se ligue ao simples e o abolido ao pleno.
A maneira como a árvore se inclina, o sol que a atravessa
no seu móvel fulgor, são os estímulos de uma mudança
ou um princípio ardente e claro entre o papel e o corpo.
A claridade vibra no rigor do solo e nas sílabas definidas
e uns lábios latem ainda entre sombrios cães.
A felicidade liberta-se por fim nas grandes superfícies.
uma passagem possível e imediata, o ar
não promove o caminho, o brilho do papel
não sugere a palavra ou o estilo cintilante,
a fidelidade do fogo, os matizes do canto.
Nada que irrompa de um seio e se estenda num aroma.
Mas que urgência volúvel nasce na espessura da sombra!
Para que as linhas de força se transformem em palavras,
para que o estranho se ligue ao simples e o abolido ao pleno.
A maneira como a árvore se inclina, o sol que a atravessa
no seu móvel fulgor, são os estímulos de uma mudança
ou um princípio ardente e claro entre o papel e o corpo.
A claridade vibra no rigor do solo e nas sílabas definidas
e uns lábios latem ainda entre sombrios cães.
A felicidade liberta-se por fim nas grandes superfícies.
620
António Ramos Rosa
Mulher Barroca
Uma mulher dorme na areia. É uma hélice
de cristal e veludo.
Mas também de barro e cinza e também pedra.
O seu sexo é um tambor donde surgem insectos,
nenúfares, serpentes.
Nos seus olhos há pássaros que nunca conheceram a plenitude da distância.
Quando se levanta em seu redor ondulam os caminhos.
Amor, sentirá amor esta mulher de álcool e madeira?
A sua voz é redonda como uma concha e os seus dedos cantam
as anémonas e os caracóis obscuros que adormecem entre os ossos.
De lâmpada a lâmpada, circula com a sua cabeça transparente
ignorando a nostalgia dos pulsos e a anarquia do vento.
Vagarosa como no centro de um escuro diamante
ela coloca os pés nus sobre um fogo apagado.
de cristal e veludo.
Mas também de barro e cinza e também pedra.
O seu sexo é um tambor donde surgem insectos,
nenúfares, serpentes.
Nos seus olhos há pássaros que nunca conheceram a plenitude da distância.
Quando se levanta em seu redor ondulam os caminhos.
Amor, sentirá amor esta mulher de álcool e madeira?
A sua voz é redonda como uma concha e os seus dedos cantam
as anémonas e os caracóis obscuros que adormecem entre os ossos.
De lâmpada a lâmpada, circula com a sua cabeça transparente
ignorando a nostalgia dos pulsos e a anarquia do vento.
Vagarosa como no centro de um escuro diamante
ela coloca os pés nus sobre um fogo apagado.
610
António Ramos Rosa
Dar Forma Ao Vazio
Alguém está no ângulo da sombra. Alguém
que tenazmente espera ou simplesmente está.
Suponho-o ou suscito-o na sua ausência
num espaço indemonstrável. Sei que ele é completo
e se completa na forma do vazio que quero dar-lhe.
Eis que forço a muralha e fracturo o futuro.
Ele sairá da sombra para ser designado antes da noite.
E eu escreverei ao nível dos tecidos e das fibras.
Lenta claridade sobre a frescura das folhas.
Estou no fundo do ar e escuto imóvel
as estátuas de água que em nuvens se evaporam.
Sinto que o braço ondula e é ele a ondulação.
E sou eu que sou cinza que escrevo o sopro dele.
E ele diz que é só o ar, a fábula do ar.
que tenazmente espera ou simplesmente está.
Suponho-o ou suscito-o na sua ausência
num espaço indemonstrável. Sei que ele é completo
e se completa na forma do vazio que quero dar-lhe.
Eis que forço a muralha e fracturo o futuro.
Ele sairá da sombra para ser designado antes da noite.
E eu escreverei ao nível dos tecidos e das fibras.
Lenta claridade sobre a frescura das folhas.
Estou no fundo do ar e escuto imóvel
as estátuas de água que em nuvens se evaporam.
Sinto que o braço ondula e é ele a ondulação.
E sou eu que sou cinza que escrevo o sopro dele.
E ele diz que é só o ar, a fábula do ar.
627
António Ramos Rosa
O Vento
O ar que se levanta com olhos móveis
quer às vezes ser árvore ou um sol muito escuro.
Vem do fundo onde tudo se cala sobre uma pedra branca.
Busca o odor das ilhas, busca a garganta perfeita
ou uma coluna de pombas. Às vezes nada está vivo
e o vento levanta-se com as suas artérias ligeiras.
E o mar ascende mudo até à boca do vento.
Nos meandros claros aviva-se a visão de uma paisagem
em movimento como um grande pássaro transparente.
Porosa e frágil é a mão que sublinha a caligrafia do vento.
quer às vezes ser árvore ou um sol muito escuro.
Vem do fundo onde tudo se cala sobre uma pedra branca.
Busca o odor das ilhas, busca a garganta perfeita
ou uma coluna de pombas. Às vezes nada está vivo
e o vento levanta-se com as suas artérias ligeiras.
E o mar ascende mudo até à boca do vento.
Nos meandros claros aviva-se a visão de uma paisagem
em movimento como um grande pássaro transparente.
Porosa e frágil é a mão que sublinha a caligrafia do vento.
1 256
António Ramos Rosa
O Vento
O ar que se levanta com olhos móveis
quer às vezes ser árvore ou um sol muito escuro.
Vem do fundo onde tudo se cala sobre uma pedra branca.
Busca o odor das ilhas, busca a garganta perfeita
ou uma coluna de pombas. Às vezes nada está vivo
e o vento levanta-se com as suas artérias ligeiras.
E o mar ascende mudo até à boca do vento.
Nos meandros claros aviva-se a visão de uma paisagem
em movimento como um grande pássaro transparente.
Porosa e frágil é a mão que sublinha a caligrafia do vento.
quer às vezes ser árvore ou um sol muito escuro.
Vem do fundo onde tudo se cala sobre uma pedra branca.
Busca o odor das ilhas, busca a garganta perfeita
ou uma coluna de pombas. Às vezes nada está vivo
e o vento levanta-se com as suas artérias ligeiras.
E o mar ascende mudo até à boca do vento.
Nos meandros claros aviva-se a visão de uma paisagem
em movimento como um grande pássaro transparente.
Porosa e frágil é a mão que sublinha a caligrafia do vento.
1 256
António Ramos Rosa
O Vento
O ar que se levanta com olhos móveis
quer às vezes ser árvore ou um sol muito escuro.
Vem do fundo onde tudo se cala sobre uma pedra branca.
Busca o odor das ilhas, busca a garganta perfeita
ou uma coluna de pombas. Às vezes nada está vivo
e o vento levanta-se com as suas artérias ligeiras.
E o mar ascende mudo até à boca do vento.
Nos meandros claros aviva-se a visão de uma paisagem
em movimento como um grande pássaro transparente.
Porosa e frágil é a mão que sublinha a caligrafia do vento.
quer às vezes ser árvore ou um sol muito escuro.
Vem do fundo onde tudo se cala sobre uma pedra branca.
Busca o odor das ilhas, busca a garganta perfeita
ou uma coluna de pombas. Às vezes nada está vivo
e o vento levanta-se com as suas artérias ligeiras.
E o mar ascende mudo até à boca do vento.
Nos meandros claros aviva-se a visão de uma paisagem
em movimento como um grande pássaro transparente.
Porosa e frágil é a mão que sublinha a caligrafia do vento.
1 256
António Ramos Rosa
Corpo Escrito
Como pintar um corpo ainda submerso pela lama?
Como libertá-lo, libertando a alegria e o alento dos flancos?
Como trazê-lo à superfície sem sufocar o enigma e o sol sonhado?
Entre o sono e a lava uma frase terrestre diz a noite e a folhagem.
As pernas densas estão presas na ganga sombria e nas folhas negras.
Quem tocará, ó mãos do desejo, as suas pálpebras fechadas?
Mas já na garganta nua germina um grito que ilumina o cimo.
Levanta-se para beber e se banhar sob a abóbada
do livro. A água é a mais fresca e a mais obscura.
É ainda a criança na folhagem e um torvelinho
vermelho e violeta e a nuvem que precede a chama.
Entrega-se já à luz e ao tempo que é um barco
carregado de terra. A ausência arde nos seus ombros.
Inclina-se sobre um cristal ou sobre uma sombra tão preciosa
que poderia ser uma prova como um anel de fogo.
Um arco se organiza sobre um tumulto voluptuoso
e na alta gruta desfilam os sortilégios.
A língua adere à ignorância incandescente.
Que próxima está a árvore que obscurece o sentido!
Como libertá-lo, libertando a alegria e o alento dos flancos?
Como trazê-lo à superfície sem sufocar o enigma e o sol sonhado?
Entre o sono e a lava uma frase terrestre diz a noite e a folhagem.
As pernas densas estão presas na ganga sombria e nas folhas negras.
Quem tocará, ó mãos do desejo, as suas pálpebras fechadas?
Mas já na garganta nua germina um grito que ilumina o cimo.
Levanta-se para beber e se banhar sob a abóbada
do livro. A água é a mais fresca e a mais obscura.
É ainda a criança na folhagem e um torvelinho
vermelho e violeta e a nuvem que precede a chama.
Entrega-se já à luz e ao tempo que é um barco
carregado de terra. A ausência arde nos seus ombros.
Inclina-se sobre um cristal ou sobre uma sombra tão preciosa
que poderia ser uma prova como um anel de fogo.
Um arco se organiza sobre um tumulto voluptuoso
e na alta gruta desfilam os sortilégios.
A língua adere à ignorância incandescente.
Que próxima está a árvore que obscurece o sentido!
1 257
António Ramos Rosa
O Losango da Pureza
Imagino na pedra o losango da pureza
e o turbilhão fixado na leveza de uns traços.
A subtil gazela detém-se numa pausa,
cúmplice de um insecto e de uma chuva florida.
Gracioso é o fogo do arbusto que cintila
e adormece entre anjos e formigas.
Ágil seda e já sopro diurno
do pleno espaço puro, na trama verde,
o corpo é língua harmoniosa e sombra nítida.
Um canto branco, mas um hálito, uma noção
nua para um destino de asa ou para um sonho
que fosse a ordem límpida de um teatro
ou a imóvel geometria de um relâmpago.
e o turbilhão fixado na leveza de uns traços.
A subtil gazela detém-se numa pausa,
cúmplice de um insecto e de uma chuva florida.
Gracioso é o fogo do arbusto que cintila
e adormece entre anjos e formigas.
Ágil seda e já sopro diurno
do pleno espaço puro, na trama verde,
o corpo é língua harmoniosa e sombra nítida.
Um canto branco, mas um hálito, uma noção
nua para um destino de asa ou para um sonho
que fosse a ordem límpida de um teatro
ou a imóvel geometria de um relâmpago.
1 012
António Ramos Rosa
O Losango da Pureza
Imagino na pedra o losango da pureza
e o turbilhão fixado na leveza de uns traços.
A subtil gazela detém-se numa pausa,
cúmplice de um insecto e de uma chuva florida.
Gracioso é o fogo do arbusto que cintila
e adormece entre anjos e formigas.
Ágil seda e já sopro diurno
do pleno espaço puro, na trama verde,
o corpo é língua harmoniosa e sombra nítida.
Um canto branco, mas um hálito, uma noção
nua para um destino de asa ou para um sonho
que fosse a ordem límpida de um teatro
ou a imóvel geometria de um relâmpago.
e o turbilhão fixado na leveza de uns traços.
A subtil gazela detém-se numa pausa,
cúmplice de um insecto e de uma chuva florida.
Gracioso é o fogo do arbusto que cintila
e adormece entre anjos e formigas.
Ágil seda e já sopro diurno
do pleno espaço puro, na trama verde,
o corpo é língua harmoniosa e sombra nítida.
Um canto branco, mas um hálito, uma noção
nua para um destino de asa ou para um sonho
que fosse a ordem límpida de um teatro
ou a imóvel geometria de um relâmpago.
1 012
António Ramos Rosa
Palavras
São apenas palavras que procuram
a sombra da língua, o seu pudor
de arbusto, as suas pétalas perdidas.
São palavras que se erguem para o início
onde o anel se abre, onde o jardim
que foi sonhado alvorece junto ao rosto.
São palavras que se dilaceram como vestes
e a noite se entreabre e a matéria
acende-se quando o tempo recomeça.
A espuma amadurece a luz, e as palavras
dizem sombra na sombra e o sono do caminho.
a sombra da língua, o seu pudor
de arbusto, as suas pétalas perdidas.
São palavras que se erguem para o início
onde o anel se abre, onde o jardim
que foi sonhado alvorece junto ao rosto.
São palavras que se dilaceram como vestes
e a noite se entreabre e a matéria
acende-se quando o tempo recomeça.
A espuma amadurece a luz, e as palavras
dizem sombra na sombra e o sono do caminho.
1 100
Carlos Drummond de Andrade
A Vida Passada a Limpo
Ó esplêndida lua, debruçada
sobre Joaquim Nabuco, 81.
Tu não banhas apenas a fachada
e o quarto de dormir, prenda comum.
Baixas a um vago em mim, onde nenhum
halo humano ou divino fez pousada,
e me penetras, lâmina de Ogum,
e sou uma lagoa iluminada.
Tudo branco, no tempo. Que limpeza
nos resíduos e vozes e na cor
que era sinistra, e agora, flor surpresa,
já não destila mágoa nem furor:
fruto de aceitação da natureza,
essa alvura de morte lembra amor.
sobre Joaquim Nabuco, 81.
Tu não banhas apenas a fachada
e o quarto de dormir, prenda comum.
Baixas a um vago em mim, onde nenhum
halo humano ou divino fez pousada,
e me penetras, lâmina de Ogum,
e sou uma lagoa iluminada.
Tudo branco, no tempo. Que limpeza
nos resíduos e vozes e na cor
que era sinistra, e agora, flor surpresa,
já não destila mágoa nem furor:
fruto de aceitação da natureza,
essa alvura de morte lembra amor.
1 261
António Ramos Rosa
Na Transparência de Um Outono
Que na transparência de um outono
o vento avive
a voz que na sombra aceita o fogo
e ressoe na claridade das árvores e dos muros
como uma música que dilacera e que consola
a funda ferida que só ela abre e estende até à luz.
Com as veias, com os lábios, com os pulsos brancos
o corpo há-de tecer o contorno do vento
quando os vestígios das folhas vão libertando o sangue
e protegem as espáduas como num repouso vibrante.
Alguém dirá a esperança, os gomos transparentes
da vida voltada para a vida, a presença incandescente
em cada arbusto, a harmonia que reina um instante
nos seus élitros brancos, num fulgor absoluto.
o vento avive
a voz que na sombra aceita o fogo
e ressoe na claridade das árvores e dos muros
como uma música que dilacera e que consola
a funda ferida que só ela abre e estende até à luz.
Com as veias, com os lábios, com os pulsos brancos
o corpo há-de tecer o contorno do vento
quando os vestígios das folhas vão libertando o sangue
e protegem as espáduas como num repouso vibrante.
Alguém dirá a esperança, os gomos transparentes
da vida voltada para a vida, a presença incandescente
em cada arbusto, a harmonia que reina um instante
nos seus élitros brancos, num fulgor absoluto.
1 185
António Ramos Rosa
Na Transparência de Um Outono
Que na transparência de um outono
o vento avive
a voz que na sombra aceita o fogo
e ressoe na claridade das árvores e dos muros
como uma música que dilacera e que consola
a funda ferida que só ela abre e estende até à luz.
Com as veias, com os lábios, com os pulsos brancos
o corpo há-de tecer o contorno do vento
quando os vestígios das folhas vão libertando o sangue
e protegem as espáduas como num repouso vibrante.
Alguém dirá a esperança, os gomos transparentes
da vida voltada para a vida, a presença incandescente
em cada arbusto, a harmonia que reina um instante
nos seus élitros brancos, num fulgor absoluto.
o vento avive
a voz que na sombra aceita o fogo
e ressoe na claridade das árvores e dos muros
como uma música que dilacera e que consola
a funda ferida que só ela abre e estende até à luz.
Com as veias, com os lábios, com os pulsos brancos
o corpo há-de tecer o contorno do vento
quando os vestígios das folhas vão libertando o sangue
e protegem as espáduas como num repouso vibrante.
Alguém dirá a esperança, os gomos transparentes
da vida voltada para a vida, a presença incandescente
em cada arbusto, a harmonia que reina um instante
nos seus élitros brancos, num fulgor absoluto.
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