Poemas neste tema
Natureza e Elementos
António Ramos Rosa
No Centro Tranquilo
Casa: com o rumor das dunas e das aves
que se alongam imóveis nas paredes.
Alguém que toque vibrando os olhos fulvos
está no centro tranquilo unindo as folhas.
Acendem-se os contornos devagar
e às mãos chega um sabor a veias e a lábios.
Tudo está completo num secreto
repouso que acolhe o sonho exacto.
Tão simples são as minúcias deste solo
quase mágico mas no sossego das corolas.
Alguém apaga a febre com a palma serena
e reúne as mãos e as folhas num gesto nupcial.
que se alongam imóveis nas paredes.
Alguém que toque vibrando os olhos fulvos
está no centro tranquilo unindo as folhas.
Acendem-se os contornos devagar
e às mãos chega um sabor a veias e a lábios.
Tudo está completo num secreto
repouso que acolhe o sonho exacto.
Tão simples são as minúcias deste solo
quase mágico mas no sossego das corolas.
Alguém apaga a febre com a palma serena
e reúne as mãos e as folhas num gesto nupcial.
535
António Ramos Rosa
Onde Ainda Não Nasci
Será montanha e amoroso destino.
Será sob a ligeira pele o peito vivo.
Será uma ilha que navega silenciosa.
Ou não será mais que uma cabeça, uma penumbra.
Ou uma delicada mão lentamente pousada.
Olho a tua fronte sossegada, a tua sombra ébria.
Envolvo-me na tua cabeleira fulgurante.
Sim, quero viver onde ainda não nasci,
onde ainda é noite e há um navio frágil sobre os ombros.
Eis o instante em que o mundo roda
e a madeira dos gritos antigos se incendeia
e uma voz entre os ramos canta a terra nua.
Já nada me separa de uma matéria lúcida
que trabalho e acaricio com o meu corpo inteiro.
Uma abóbada se curva em torno das carícias
que esculpem as palavras brancas e violentas.
Será sob a ligeira pele o peito vivo.
Será uma ilha que navega silenciosa.
Ou não será mais que uma cabeça, uma penumbra.
Ou uma delicada mão lentamente pousada.
Olho a tua fronte sossegada, a tua sombra ébria.
Envolvo-me na tua cabeleira fulgurante.
Sim, quero viver onde ainda não nasci,
onde ainda é noite e há um navio frágil sobre os ombros.
Eis o instante em que o mundo roda
e a madeira dos gritos antigos se incendeia
e uma voz entre os ramos canta a terra nua.
Já nada me separa de uma matéria lúcida
que trabalho e acaricio com o meu corpo inteiro.
Uma abóbada se curva em torno das carícias
que esculpem as palavras brancas e violentas.
1 068
António Ramos Rosa
Um Rosto Ou Uma Folha
É um rosto ou uma folha com um hálito de sangue.
Nas têmporas as teclas tenazes do excesso.
Como unir um desígnio claro a um gesto obscuro?
Uma haste toca a narina do monstro fluvial.
Ergue-se nas paredes um vulto de reflexos e de sombras,
é cada vez mais noite e a sombra mais profunda
e a noite com as suas pontes os seus mastros corre silenciosa
e o deus da noite é um óleo errante entre músculos feridos.
E é um rosto ou uma folha ou uma folha que é um rosto
no instante em que a luz regressa à sua fonte.
E a noite amadurece com o mar numa aliança imóvel.
Nas têmporas as teclas tenazes do excesso.
Como unir um desígnio claro a um gesto obscuro?
Uma haste toca a narina do monstro fluvial.
Ergue-se nas paredes um vulto de reflexos e de sombras,
é cada vez mais noite e a sombra mais profunda
e a noite com as suas pontes os seus mastros corre silenciosa
e o deus da noite é um óleo errante entre músculos feridos.
E é um rosto ou uma folha ou uma folha que é um rosto
no instante em que a luz regressa à sua fonte.
E a noite amadurece com o mar numa aliança imóvel.
1 112
António Ramos Rosa
Um Rosto Ou Uma Folha
É um rosto ou uma folha com um hálito de sangue.
Nas têmporas as teclas tenazes do excesso.
Como unir um desígnio claro a um gesto obscuro?
Uma haste toca a narina do monstro fluvial.
Ergue-se nas paredes um vulto de reflexos e de sombras,
é cada vez mais noite e a sombra mais profunda
e a noite com as suas pontes os seus mastros corre silenciosa
e o deus da noite é um óleo errante entre músculos feridos.
E é um rosto ou uma folha ou uma folha que é um rosto
no instante em que a luz regressa à sua fonte.
E a noite amadurece com o mar numa aliança imóvel.
Nas têmporas as teclas tenazes do excesso.
Como unir um desígnio claro a um gesto obscuro?
Uma haste toca a narina do monstro fluvial.
Ergue-se nas paredes um vulto de reflexos e de sombras,
é cada vez mais noite e a sombra mais profunda
e a noite com as suas pontes os seus mastros corre silenciosa
e o deus da noite é um óleo errante entre músculos feridos.
E é um rosto ou uma folha ou uma folha que é um rosto
no instante em que a luz regressa à sua fonte.
E a noite amadurece com o mar numa aliança imóvel.
1 112
António Ramos Rosa
Terra
Terra verde e ensanguentada
e negra sob as folhas,
quero pintar o teu sono, a espádua nua
que estremece entre as árvores e a espuma obscura.
Desço aos teus húmidos patamares,
às clareiras onde a paz da seiva é o ignorado.
Bebo perto da tua sede
a água incerta e fresca da primeira manhã.
Toco as tuas espigas verdes e pesadas
e um seio inchado pelo fluxo da sombra.
Escorrem delgadas línguas entre ciprestes,
cabeleiras amarelas entre braços.
Ouço o fundo clamor das entranhas vermelhas
e os suspiros tíbios de um corpo juvenil.
Um sossegado barco preso a uma muralha
diz o vazio verde e o seu cego rumor.
Terra, quantos latidos, quantos metais furiosos,
quantas vacilações, quantos volumes densos!
Crispada a mão quer afagar as tuas ancas,
o teu púbis violento e fulgurante.
Ó generoso corpo que te curvas a um vento cálido
e voas como pólen à deliciosa superfície,
que estas palavras sejam papel, areia ou lua,
mas que sejam também as coxas negras
e o teu ventre escuro de soberana mãe.
e negra sob as folhas,
quero pintar o teu sono, a espádua nua
que estremece entre as árvores e a espuma obscura.
Desço aos teus húmidos patamares,
às clareiras onde a paz da seiva é o ignorado.
Bebo perto da tua sede
a água incerta e fresca da primeira manhã.
Toco as tuas espigas verdes e pesadas
e um seio inchado pelo fluxo da sombra.
Escorrem delgadas línguas entre ciprestes,
cabeleiras amarelas entre braços.
Ouço o fundo clamor das entranhas vermelhas
e os suspiros tíbios de um corpo juvenil.
Um sossegado barco preso a uma muralha
diz o vazio verde e o seu cego rumor.
Terra, quantos latidos, quantos metais furiosos,
quantas vacilações, quantos volumes densos!
Crispada a mão quer afagar as tuas ancas,
o teu púbis violento e fulgurante.
Ó generoso corpo que te curvas a um vento cálido
e voas como pólen à deliciosa superfície,
que estas palavras sejam papel, areia ou lua,
mas que sejam também as coxas negras
e o teu ventre escuro de soberana mãe.
1 202
António Ramos Rosa
Presente
Neste círculo de pedras simplifica-se a ausência.
Eclipse na cabeça onde germina o branco.
Abolição no presente, soberania do gérmen
que dorme acordado entre o todo e o nada.
Quem não tem nome é um filho do vento
mais perto do enigma do ar e da distância.
O nada em pleno rosto volve-se o instante azul.
O fundo inacessível torna-se a superfície.
O inominado ilumina-se nos seus sombrios flancos.
O inerte mutismo vibra no silêncio que é o vento.
Eclipse na cabeça onde germina o branco.
Abolição no presente, soberania do gérmen
que dorme acordado entre o todo e o nada.
Quem não tem nome é um filho do vento
mais perto do enigma do ar e da distância.
O nada em pleno rosto volve-se o instante azul.
O fundo inacessível torna-se a superfície.
O inominado ilumina-se nos seus sombrios flancos.
O inerte mutismo vibra no silêncio que é o vento.
1 208
António Ramos Rosa
Na Terra
Sorvo na garganta das folhas
o bafo verde e o rumor das vespas.
Uma neblina ascende, é a hora das raízes
e das pétalas de areia fulgurantes.
Olho por dentro dos ramos, as pequenas
espirais, as extensas plumas.
A luz da boca estende-se
no sílex, nas cicatrizes da mica.
Rodeio-me do fulgor das pedras
e dos torsos que, opacos, ainda abrigam.
Sou escolhido pela amplitude
no vagaroso tropel das árvores
e das nuvens. Todo o azul é meu.
Estou plantado e liberto, com um braço
intenso sobre a terra.
o bafo verde e o rumor das vespas.
Uma neblina ascende, é a hora das raízes
e das pétalas de areia fulgurantes.
Olho por dentro dos ramos, as pequenas
espirais, as extensas plumas.
A luz da boca estende-se
no sílex, nas cicatrizes da mica.
Rodeio-me do fulgor das pedras
e dos torsos que, opacos, ainda abrigam.
Sou escolhido pela amplitude
no vagaroso tropel das árvores
e das nuvens. Todo o azul é meu.
Estou plantado e liberto, com um braço
intenso sobre a terra.
1 054
António Ramos Rosa
Na Terra
Sorvo na garganta das folhas
o bafo verde e o rumor das vespas.
Uma neblina ascende, é a hora das raízes
e das pétalas de areia fulgurantes.
Olho por dentro dos ramos, as pequenas
espirais, as extensas plumas.
A luz da boca estende-se
no sílex, nas cicatrizes da mica.
Rodeio-me do fulgor das pedras
e dos torsos que, opacos, ainda abrigam.
Sou escolhido pela amplitude
no vagaroso tropel das árvores
e das nuvens. Todo o azul é meu.
Estou plantado e liberto, com um braço
intenso sobre a terra.
o bafo verde e o rumor das vespas.
Uma neblina ascende, é a hora das raízes
e das pétalas de areia fulgurantes.
Olho por dentro dos ramos, as pequenas
espirais, as extensas plumas.
A luz da boca estende-se
no sílex, nas cicatrizes da mica.
Rodeio-me do fulgor das pedras
e dos torsos que, opacos, ainda abrigam.
Sou escolhido pela amplitude
no vagaroso tropel das árvores
e das nuvens. Todo o azul é meu.
Estou plantado e liberto, com um braço
intenso sobre a terra.
1 054
António Ramos Rosa
Na Terra
Sorvo na garganta das folhas
o bafo verde e o rumor das vespas.
Uma neblina ascende, é a hora das raízes
e das pétalas de areia fulgurantes.
Olho por dentro dos ramos, as pequenas
espirais, as extensas plumas.
A luz da boca estende-se
no sílex, nas cicatrizes da mica.
Rodeio-me do fulgor das pedras
e dos torsos que, opacos, ainda abrigam.
Sou escolhido pela amplitude
no vagaroso tropel das árvores
e das nuvens. Todo o azul é meu.
Estou plantado e liberto, com um braço
intenso sobre a terra.
o bafo verde e o rumor das vespas.
Uma neblina ascende, é a hora das raízes
e das pétalas de areia fulgurantes.
Olho por dentro dos ramos, as pequenas
espirais, as extensas plumas.
A luz da boca estende-se
no sílex, nas cicatrizes da mica.
Rodeio-me do fulgor das pedras
e dos torsos que, opacos, ainda abrigam.
Sou escolhido pela amplitude
no vagaroso tropel das árvores
e das nuvens. Todo o azul é meu.
Estou plantado e liberto, com um braço
intenso sobre a terra.
1 054
António Ramos Rosa
Vagas de Amplitude
Vagas de amplitude sobre o país mesquinho.
Nitidez de ondas que ascendem, embriagam
até à espuma do espaço. O inominável espraia-se
dissipando o insignificante, o turvo, o tépido.
Quase uma catástrofe ou as imagens de um sonho.
Mas o ritmo é soberano e simples e as perspectivas lisas.
As ondas derrubam as estátuas, os demónios e os deuses.
O ar fica vibrante e limpo na unidade do silêncio.
A igualdade estabelece-se no esparso e no diverso.
Frescura imensa do supremo, suspensão indefinida.
Equilíbrio ligeiro. A sabedoria apaga-se
no próprio ar que a incendeia. A respiração é transparente.
Tudo é incomparável mas tudo é simples.
Tocamos as teclas da terra com o orvalho do sol.
Vestidos de vento dançamos com o claro enigma.
Já não há fronteiras entre o abandono e a vigília.
Espáduas dilaceradas são agora tranquilas dunas.
Ouve-se o riso pacífico e dourado de marulhantes mulheres.
Tanta embriaguez clara, tanta ligeira liberdade!
Nitidez de ondas que ascendem, embriagam
até à espuma do espaço. O inominável espraia-se
dissipando o insignificante, o turvo, o tépido.
Quase uma catástrofe ou as imagens de um sonho.
Mas o ritmo é soberano e simples e as perspectivas lisas.
As ondas derrubam as estátuas, os demónios e os deuses.
O ar fica vibrante e limpo na unidade do silêncio.
A igualdade estabelece-se no esparso e no diverso.
Frescura imensa do supremo, suspensão indefinida.
Equilíbrio ligeiro. A sabedoria apaga-se
no próprio ar que a incendeia. A respiração é transparente.
Tudo é incomparável mas tudo é simples.
Tocamos as teclas da terra com o orvalho do sol.
Vestidos de vento dançamos com o claro enigma.
Já não há fronteiras entre o abandono e a vigília.
Espáduas dilaceradas são agora tranquilas dunas.
Ouve-se o riso pacífico e dourado de marulhantes mulheres.
Tanta embriaguez clara, tanta ligeira liberdade!
605
António Ramos Rosa
Uma Voz
Quero pertencer à abóbada escura como um amante inerme
e ser o alento do silêncio sobre os ombros das nuvens.
Quero aderir à sombra das palavras da folhagem
e compreender a terra na selvagem seda do desejo.
e ser o alento do silêncio sobre os ombros das nuvens.
Quero aderir à sombra das palavras da folhagem
e compreender a terra na selvagem seda do desejo.
1 149
António Ramos Rosa
Uma Voz
Quero pertencer à abóbada escura como um amante inerme
e ser o alento do silêncio sobre os ombros das nuvens.
Quero aderir à sombra das palavras da folhagem
e compreender a terra na selvagem seda do desejo.
e ser o alento do silêncio sobre os ombros das nuvens.
Quero aderir à sombra das palavras da folhagem
e compreender a terra na selvagem seda do desejo.
1 149
António Ramos Rosa
Na Colina
Apenas margem e talvez lua, um torso que resvala
pela colina que amanhece numa neblina azul.
A figura recorta-se colorida no silêncio como uma melodia.
É ténue como uma moeda e como um halo entre os arbustos.
Musical na polpa terna das palavras, madeira, vinho.
Quase se desagrega sobre o rio tremulando como poeira.
Sob nomes disseminados recolhe a corola do vazio.
Interroga a chama onde ela é verde, onde ela se perde.
A sua boca desaparece na luz silenciosa.
O desejo apazigua-se entre as abelhas da folhagem.
pela colina que amanhece numa neblina azul.
A figura recorta-se colorida no silêncio como uma melodia.
É ténue como uma moeda e como um halo entre os arbustos.
Musical na polpa terna das palavras, madeira, vinho.
Quase se desagrega sobre o rio tremulando como poeira.
Sob nomes disseminados recolhe a corola do vazio.
Interroga a chama onde ela é verde, onde ela se perde.
A sua boca desaparece na luz silenciosa.
O desejo apazigua-se entre as abelhas da folhagem.
1 084
António Ramos Rosa
Na Colina
Apenas margem e talvez lua, um torso que resvala
pela colina que amanhece numa neblina azul.
A figura recorta-se colorida no silêncio como uma melodia.
É ténue como uma moeda e como um halo entre os arbustos.
Musical na polpa terna das palavras, madeira, vinho.
Quase se desagrega sobre o rio tremulando como poeira.
Sob nomes disseminados recolhe a corola do vazio.
Interroga a chama onde ela é verde, onde ela se perde.
A sua boca desaparece na luz silenciosa.
O desejo apazigua-se entre as abelhas da folhagem.
pela colina que amanhece numa neblina azul.
A figura recorta-se colorida no silêncio como uma melodia.
É ténue como uma moeda e como um halo entre os arbustos.
Musical na polpa terna das palavras, madeira, vinho.
Quase se desagrega sobre o rio tremulando como poeira.
Sob nomes disseminados recolhe a corola do vazio.
Interroga a chama onde ela é verde, onde ela se perde.
A sua boca desaparece na luz silenciosa.
O desejo apazigua-se entre as abelhas da folhagem.
1 084
António Ramos Rosa
Eclipse E Germinações
Sempre no início o eclipse e os seus insectos.
A areia cintila entre secretos cílios.
O rosto interrompido, as obscuras sílabas.
As armas esbarram nas paredes áridas.
Quem designará o solo negro, os seus arbustos de ferro?
Quem escreverá o tempo e as suas muralhas vazias?
Que são estas palavras senão as cinzas do sol?
Há no entanto um rumor de germinações furtivas.
O que escrevo é uma árvore com os seus pulsos cinzentos.
O vento profere o sabor dos frutos do opaco.
Salubre é o sexo rasgado ao rés da terra.
O vento abre até ao fundo o ventre errante.
A areia cintila entre secretos cílios.
O rosto interrompido, as obscuras sílabas.
As armas esbarram nas paredes áridas.
Quem designará o solo negro, os seus arbustos de ferro?
Quem escreverá o tempo e as suas muralhas vazias?
Que são estas palavras senão as cinzas do sol?
Há no entanto um rumor de germinações furtivas.
O que escrevo é uma árvore com os seus pulsos cinzentos.
O vento profere o sabor dos frutos do opaco.
Salubre é o sexo rasgado ao rés da terra.
O vento abre até ao fundo o ventre errante.
1 079
António Ramos Rosa
A Presença
Entre o não saber e o poder
a mais ligeira ponte.
Entre as ruínas dos olhos e a limpidez da luz
as frágeis escadas de sombra.
Entre a língua cega e as palavras intactas
a mão que procura o hálito de um deus
na revelação do mar e do poema.
O que se resolve em espuma no final de uma frase,
o que vem do fundo ininteligível da noite
e é uma súbita ordenação transparente
e o frémito de um equilíbrio, uma modulação, uma frescura
e o reino absoluto no instante, o verdadeiro lugar
e um grito, um grito de alegria na sua forma pura.
Simplicidade da presença discreta, furtiva e no entanto límpida.
Coerência fragílima, claridade confiante à beira de ser nada.
Era o que esperava, era o que não esperava no imediato sabor
das palavras e das coisas.
a mais ligeira ponte.
Entre as ruínas dos olhos e a limpidez da luz
as frágeis escadas de sombra.
Entre a língua cega e as palavras intactas
a mão que procura o hálito de um deus
na revelação do mar e do poema.
O que se resolve em espuma no final de uma frase,
o que vem do fundo ininteligível da noite
e é uma súbita ordenação transparente
e o frémito de um equilíbrio, uma modulação, uma frescura
e o reino absoluto no instante, o verdadeiro lugar
e um grito, um grito de alegria na sua forma pura.
Simplicidade da presença discreta, furtiva e no entanto límpida.
Coerência fragílima, claridade confiante à beira de ser nada.
Era o que esperava, era o que não esperava no imediato sabor
das palavras e das coisas.
996
António Ramos Rosa
O Corpo Inacessível
Cabeça adormecida iluminada nas varandas,
completa sonhadora do mar e dos caminhos,
mescla os troncos nas ladeiras dos bosques,
multiplica-se nos ramos como uma cigarra obstinada.
Dorme mas caminha em perspectivas coerentes
embora errantes: e separadas por um vazio silencioso.
Sente a alegria sempre incerta
de uma futura floração branca.
Tudo o que não é nomeado no limiar dos olhos
é o imenso fundo em que crepita rápida.
Ela não evita o tumulto e a abundância dos vocábulos,
os ecos e a dança, a fúria, os acordes e a graça.
Ela procura o ponto de equilíbrio, a equivalência
da nudez profunda. No centro de si mesma um animal
que se estende em transparente oval
vibra e desaparece desenhando um rastro
inextricável. Mas um olhar arbitrário penetra
através das frestas o corpo seminu.
No limbo ainda verde, numa respiração pausada,
ela confunde-se com a hera e a silenciosa música.
completa sonhadora do mar e dos caminhos,
mescla os troncos nas ladeiras dos bosques,
multiplica-se nos ramos como uma cigarra obstinada.
Dorme mas caminha em perspectivas coerentes
embora errantes: e separadas por um vazio silencioso.
Sente a alegria sempre incerta
de uma futura floração branca.
Tudo o que não é nomeado no limiar dos olhos
é o imenso fundo em que crepita rápida.
Ela não evita o tumulto e a abundância dos vocábulos,
os ecos e a dança, a fúria, os acordes e a graça.
Ela procura o ponto de equilíbrio, a equivalência
da nudez profunda. No centro de si mesma um animal
que se estende em transparente oval
vibra e desaparece desenhando um rastro
inextricável. Mas um olhar arbitrário penetra
através das frestas o corpo seminu.
No limbo ainda verde, numa respiração pausada,
ela confunde-se com a hera e a silenciosa música.
598
António Ramos Rosa
O Corpo Inacessível
Cabeça adormecida iluminada nas varandas,
completa sonhadora do mar e dos caminhos,
mescla os troncos nas ladeiras dos bosques,
multiplica-se nos ramos como uma cigarra obstinada.
Dorme mas caminha em perspectivas coerentes
embora errantes: e separadas por um vazio silencioso.
Sente a alegria sempre incerta
de uma futura floração branca.
Tudo o que não é nomeado no limiar dos olhos
é o imenso fundo em que crepita rápida.
Ela não evita o tumulto e a abundância dos vocábulos,
os ecos e a dança, a fúria, os acordes e a graça.
Ela procura o ponto de equilíbrio, a equivalência
da nudez profunda. No centro de si mesma um animal
que se estende em transparente oval
vibra e desaparece desenhando um rastro
inextricável. Mas um olhar arbitrário penetra
através das frestas o corpo seminu.
No limbo ainda verde, numa respiração pausada,
ela confunde-se com a hera e a silenciosa música.
completa sonhadora do mar e dos caminhos,
mescla os troncos nas ladeiras dos bosques,
multiplica-se nos ramos como uma cigarra obstinada.
Dorme mas caminha em perspectivas coerentes
embora errantes: e separadas por um vazio silencioso.
Sente a alegria sempre incerta
de uma futura floração branca.
Tudo o que não é nomeado no limiar dos olhos
é o imenso fundo em que crepita rápida.
Ela não evita o tumulto e a abundância dos vocábulos,
os ecos e a dança, a fúria, os acordes e a graça.
Ela procura o ponto de equilíbrio, a equivalência
da nudez profunda. No centro de si mesma um animal
que se estende em transparente oval
vibra e desaparece desenhando um rastro
inextricável. Mas um olhar arbitrário penetra
através das frestas o corpo seminu.
No limbo ainda verde, numa respiração pausada,
ela confunde-se com a hera e a silenciosa música.
598
Carlos Drummond de Andrade
Sonetos do Pássaro
I
Amar um passarinho é coisa louca.
Gira livre na longa azul gaiola
que o peito me constringe, enquanto a pouca
liberdade de amar logo se evola.
É amor meação? pecúlio? esmola?
Uma necessidade urgente e rouca
de no amor nos amarmos se desola
em cada beijo que não sai da boca.
O passarinho baixa a nosso alcance,
e na queda submissa um voo segue,
e prossegue sem asas, pura ausência,
outro romance ocluso no romance.
Por mais que amor transite ou que se negue,
é canto (não é ave) sua essência.
Amar um passarinho é coisa louca.
Gira livre na longa azul gaiola
que o peito me constringe, enquanto a pouca
liberdade de amar logo se evola.
É amor meação? pecúlio? esmola?
Uma necessidade urgente e rouca
de no amor nos amarmos se desola
em cada beijo que não sai da boca.
O passarinho baixa a nosso alcance,
e na queda submissa um voo segue,
e prossegue sem asas, pura ausência,
outro romance ocluso no romance.
Por mais que amor transite ou que se negue,
é canto (não é ave) sua essência.
1 851
António Ramos Rosa
O Movimento do Dia
Assim prolongo a paisagem e as suas pistas cálidas.
Defendo o meu peito árido com a gramática do sono.
Penetro no seio do esplendor e nas fendas de argila.
Que temeridade, que confiança no movimento do dia!
O horizonte corre à velocidade de um rio.
Os sinais são azuis ou rosa, amarelos ou fulvos.
Na fluidez vagarosa vejo as áreas deslumbradas
de um reino táctil anterior à palavra.
Colho um resto de frescura entre a poeira e a água
e alguns calhaus esparsos que irradiam na areia.
Nada desvendei: tudo é liso e tudo é vago.
Trago nas mãos o odor a pedra e a orvalho.
Defendo o meu peito árido com a gramática do sono.
Penetro no seio do esplendor e nas fendas de argila.
Que temeridade, que confiança no movimento do dia!
O horizonte corre à velocidade de um rio.
Os sinais são azuis ou rosa, amarelos ou fulvos.
Na fluidez vagarosa vejo as áreas deslumbradas
de um reino táctil anterior à palavra.
Colho um resto de frescura entre a poeira e a água
e alguns calhaus esparsos que irradiam na areia.
Nada desvendei: tudo é liso e tudo é vago.
Trago nas mãos o odor a pedra e a orvalho.
1 055
António Ramos Rosa
Escrever
Escrever semear um pouco de cegueira
num arvoredo
com a ignorante mão
entre o não e o sim
na volúvel incerteza
das paredes do vento.
Sem violência mas na paixão mais viva
formar o sopro ao sopro da folhagem
atingir o cimo do excesso simples
com as sombras no vento com as sombras no mar.
Nenhum sentido se forma no caminho aéreo.
O corpo é um desenho de água seguro e frágil.
O informulado transparece no corpo aéreo da voz.
Já não a violência fulgurante do dia silencioso
mas a música do mar e os frutos entre os vidros da sombra
e os risos entre as árvores, o fascínio, o jogo
na transparência de tudo, no alento de um rio,
e a mão de água que escreve
a montanha que respira.
num arvoredo
com a ignorante mão
entre o não e o sim
na volúvel incerteza
das paredes do vento.
Sem violência mas na paixão mais viva
formar o sopro ao sopro da folhagem
atingir o cimo do excesso simples
com as sombras no vento com as sombras no mar.
Nenhum sentido se forma no caminho aéreo.
O corpo é um desenho de água seguro e frágil.
O informulado transparece no corpo aéreo da voz.
Já não a violência fulgurante do dia silencioso
mas a música do mar e os frutos entre os vidros da sombra
e os risos entre as árvores, o fascínio, o jogo
na transparência de tudo, no alento de um rio,
e a mão de água que escreve
a montanha que respira.
1 164
António Ramos Rosa
Escrever
Escrever semear um pouco de cegueira
num arvoredo
com a ignorante mão
entre o não e o sim
na volúvel incerteza
das paredes do vento.
Sem violência mas na paixão mais viva
formar o sopro ao sopro da folhagem
atingir o cimo do excesso simples
com as sombras no vento com as sombras no mar.
Nenhum sentido se forma no caminho aéreo.
O corpo é um desenho de água seguro e frágil.
O informulado transparece no corpo aéreo da voz.
Já não a violência fulgurante do dia silencioso
mas a música do mar e os frutos entre os vidros da sombra
e os risos entre as árvores, o fascínio, o jogo
na transparência de tudo, no alento de um rio,
e a mão de água que escreve
a montanha que respira.
num arvoredo
com a ignorante mão
entre o não e o sim
na volúvel incerteza
das paredes do vento.
Sem violência mas na paixão mais viva
formar o sopro ao sopro da folhagem
atingir o cimo do excesso simples
com as sombras no vento com as sombras no mar.
Nenhum sentido se forma no caminho aéreo.
O corpo é um desenho de água seguro e frágil.
O informulado transparece no corpo aéreo da voz.
Já não a violência fulgurante do dia silencioso
mas a música do mar e os frutos entre os vidros da sombra
e os risos entre as árvores, o fascínio, o jogo
na transparência de tudo, no alento de um rio,
e a mão de água que escreve
a montanha que respira.
1 164
António Ramos Rosa
Escrever
Escrever semear um pouco de cegueira
num arvoredo
com a ignorante mão
entre o não e o sim
na volúvel incerteza
das paredes do vento.
Sem violência mas na paixão mais viva
formar o sopro ao sopro da folhagem
atingir o cimo do excesso simples
com as sombras no vento com as sombras no mar.
Nenhum sentido se forma no caminho aéreo.
O corpo é um desenho de água seguro e frágil.
O informulado transparece no corpo aéreo da voz.
Já não a violência fulgurante do dia silencioso
mas a música do mar e os frutos entre os vidros da sombra
e os risos entre as árvores, o fascínio, o jogo
na transparência de tudo, no alento de um rio,
e a mão de água que escreve
a montanha que respira.
num arvoredo
com a ignorante mão
entre o não e o sim
na volúvel incerteza
das paredes do vento.
Sem violência mas na paixão mais viva
formar o sopro ao sopro da folhagem
atingir o cimo do excesso simples
com as sombras no vento com as sombras no mar.
Nenhum sentido se forma no caminho aéreo.
O corpo é um desenho de água seguro e frágil.
O informulado transparece no corpo aéreo da voz.
Já não a violência fulgurante do dia silencioso
mas a música do mar e os frutos entre os vidros da sombra
e os risos entre as árvores, o fascínio, o jogo
na transparência de tudo, no alento de um rio,
e a mão de água que escreve
a montanha que respira.
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António Ramos Rosa
O Fogo Na Pele
Saborear a saliva do ar e o suor
de uma paisagem escura que se inclina
para um barco de raízes. Aderir
à afirmação da pedra impenetrável.
Entrar, estar no simples alcance do presente.
O fogo está na pele e é a urgência do ócio.
As pupilas de resina vêem os círculos de terra.
Nas axilas do vento há palavras redondas.
Os arbustos giram com as suas pedras verdes.
de uma paisagem escura que se inclina
para um barco de raízes. Aderir
à afirmação da pedra impenetrável.
Entrar, estar no simples alcance do presente.
O fogo está na pele e é a urgência do ócio.
As pupilas de resina vêem os círculos de terra.
Nas axilas do vento há palavras redondas.
Os arbustos giram com as suas pedras verdes.
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