Poemas neste tema
Natureza e Elementos
António Ramos Rosa
Uma Mão Vazia
Uma mão vazia que poderia ser, um deslize
que multiplicasse os arcos e as figuras
transparentes. Um sopro da paisagem, um erro
dilacerante e puro, um perfume, um segredo.
A vida ampliou-se sonâmbula sob o vento.
Ninguém divide o rio: evidências, enigmas,
libertam-se na folhagem em animais do ar.
Ó antigas ervas, amadurecidas pedras, cores
nunca sonhadas tão simples, ó lisa confiança!
Tão suave, tão imensa a onda nupcial!
Alguém escreve? Alguém saberá dizer as adivinhas
cintilantes, os murmúrios, as móveis manchas
de um só corpo liberto em clara confluência?
Nenhuma palavra diz a alegria do vento.
Esta é a terra nua da nossa identidade.
que multiplicasse os arcos e as figuras
transparentes. Um sopro da paisagem, um erro
dilacerante e puro, um perfume, um segredo.
A vida ampliou-se sonâmbula sob o vento.
Ninguém divide o rio: evidências, enigmas,
libertam-se na folhagem em animais do ar.
Ó antigas ervas, amadurecidas pedras, cores
nunca sonhadas tão simples, ó lisa confiança!
Tão suave, tão imensa a onda nupcial!
Alguém escreve? Alguém saberá dizer as adivinhas
cintilantes, os murmúrios, as móveis manchas
de um só corpo liberto em clara confluência?
Nenhuma palavra diz a alegria do vento.
Esta é a terra nua da nossa identidade.
1 102
António Ramos Rosa
Nuvens
Encantei-me com as nuvens, como se fossem calmas
locuções de um pensamento aberto. No vazio de tudo
eram frontes do universo deslumbrantes.
Em silêncio vi-as deslizar num gozo obscuro
e luminoso, tão suave na visão que se dilata.
Que clamor, que clamores mas em silêncio
na brancura unânime! Um sopro do desejo
que repousa no seio do movimento, que modela
as formas amorosas, os cavalos, os barcos
com as cabeças e as proas na luz que é toda sonho.
Unificado olho as nuvens no seu suave dinamismo.
Sou mais que um corpo, sou um corpo que se eleva
ao espaço inteiro, à luz ilimitada.
No gozo de ver num sono transparente
navego em centro aberto, o olhar e o sonho.
locuções de um pensamento aberto. No vazio de tudo
eram frontes do universo deslumbrantes.
Em silêncio vi-as deslizar num gozo obscuro
e luminoso, tão suave na visão que se dilata.
Que clamor, que clamores mas em silêncio
na brancura unânime! Um sopro do desejo
que repousa no seio do movimento, que modela
as formas amorosas, os cavalos, os barcos
com as cabeças e as proas na luz que é toda sonho.
Unificado olho as nuvens no seu suave dinamismo.
Sou mais que um corpo, sou um corpo que se eleva
ao espaço inteiro, à luz ilimitada.
No gozo de ver num sono transparente
navego em centro aberto, o olhar e o sonho.
1 127
António Ramos Rosa
Um Discurso Transparente
Avanço através de um caos silencioso.
Nem um som nem uma sombra. É uma lenta descida.
É vazio o princípio do princípio. Solipsismo.
A possibilidade de nascer é o desejo que nasce.
Esquecer, viver. Tudo dizer em evidências brancas.
Com as armas mais puras, com a luz das minhas ervas
enuncio a fragrância de uma lâmpada. Comovo-me
com a água do poema. Crianças de cor solar
acenam em campos silenciosos. É suficiente estar aqui
mais além de todo o lugar, na superfície nua.
Habito agora o movimento do meio-dia.
Inesgotável um campo tão contínuo.
O sol fixou-se na corola do tempo, o espaço é puro.
O mar levanta-se do fundo até aos seus limites.
Um discurso flui completo e transparente.
Nem um som nem uma sombra. É uma lenta descida.
É vazio o princípio do princípio. Solipsismo.
A possibilidade de nascer é o desejo que nasce.
Esquecer, viver. Tudo dizer em evidências brancas.
Com as armas mais puras, com a luz das minhas ervas
enuncio a fragrância de uma lâmpada. Comovo-me
com a água do poema. Crianças de cor solar
acenam em campos silenciosos. É suficiente estar aqui
mais além de todo o lugar, na superfície nua.
Habito agora o movimento do meio-dia.
Inesgotável um campo tão contínuo.
O sol fixou-se na corola do tempo, o espaço é puro.
O mar levanta-se do fundo até aos seus limites.
Um discurso flui completo e transparente.
637
António Ramos Rosa
Um Discurso Transparente
Avanço através de um caos silencioso.
Nem um som nem uma sombra. É uma lenta descida.
É vazio o princípio do princípio. Solipsismo.
A possibilidade de nascer é o desejo que nasce.
Esquecer, viver. Tudo dizer em evidências brancas.
Com as armas mais puras, com a luz das minhas ervas
enuncio a fragrância de uma lâmpada. Comovo-me
com a água do poema. Crianças de cor solar
acenam em campos silenciosos. É suficiente estar aqui
mais além de todo o lugar, na superfície nua.
Habito agora o movimento do meio-dia.
Inesgotável um campo tão contínuo.
O sol fixou-se na corola do tempo, o espaço é puro.
O mar levanta-se do fundo até aos seus limites.
Um discurso flui completo e transparente.
Nem um som nem uma sombra. É uma lenta descida.
É vazio o princípio do princípio. Solipsismo.
A possibilidade de nascer é o desejo que nasce.
Esquecer, viver. Tudo dizer em evidências brancas.
Com as armas mais puras, com a luz das minhas ervas
enuncio a fragrância de uma lâmpada. Comovo-me
com a água do poema. Crianças de cor solar
acenam em campos silenciosos. É suficiente estar aqui
mais além de todo o lugar, na superfície nua.
Habito agora o movimento do meio-dia.
Inesgotável um campo tão contínuo.
O sol fixou-se na corola do tempo, o espaço é puro.
O mar levanta-se do fundo até aos seus limites.
Um discurso flui completo e transparente.
637
António Ramos Rosa
Tangência No Centro
Até à terra, sem me inclinar, inclinando-me,
a cabeça idêntica ao solo circular,
lenta velocidade num fundo indefinido,
relação de folha e língua e pedra e água
e ar, leve tangência de um imenso sopro.
Cheguei a um silencioso, a um suave centro.
Desperto um fogo errante em minúsculas crateras.
Estou isolado, aberto a uma vida repentina.
A minha boca é incestuosa, os meus lábios verdes.
Há vozes submersas, há palavras que requerem
a visão das pálpebras. Sinto-me ligeiro
como um pequeno peixe, uma coisa vagarosa.
Feliz, feliz, na frescura das veias, nos músculos libertos.
Ouço as flores bebendo luz, ouço o esplendor
absoluto. Como saberei cantar no grande círculo móvel?
Lugar de aroma e claridade e de palavras,
o ar e a água e o fogo, o murmúrio essencial.
A primavera ascende com uma leveza de sílaba.
Tudo oscila em hastes e flores e folhas.
Suave fulguração de horizonte a horizonte.
a cabeça idêntica ao solo circular,
lenta velocidade num fundo indefinido,
relação de folha e língua e pedra e água
e ar, leve tangência de um imenso sopro.
Cheguei a um silencioso, a um suave centro.
Desperto um fogo errante em minúsculas crateras.
Estou isolado, aberto a uma vida repentina.
A minha boca é incestuosa, os meus lábios verdes.
Há vozes submersas, há palavras que requerem
a visão das pálpebras. Sinto-me ligeiro
como um pequeno peixe, uma coisa vagarosa.
Feliz, feliz, na frescura das veias, nos músculos libertos.
Ouço as flores bebendo luz, ouço o esplendor
absoluto. Como saberei cantar no grande círculo móvel?
Lugar de aroma e claridade e de palavras,
o ar e a água e o fogo, o murmúrio essencial.
A primavera ascende com uma leveza de sílaba.
Tudo oscila em hastes e flores e folhas.
Suave fulguração de horizonte a horizonte.
1 030
António Ramos Rosa
Tangência No Centro
Até à terra, sem me inclinar, inclinando-me,
a cabeça idêntica ao solo circular,
lenta velocidade num fundo indefinido,
relação de folha e língua e pedra e água
e ar, leve tangência de um imenso sopro.
Cheguei a um silencioso, a um suave centro.
Desperto um fogo errante em minúsculas crateras.
Estou isolado, aberto a uma vida repentina.
A minha boca é incestuosa, os meus lábios verdes.
Há vozes submersas, há palavras que requerem
a visão das pálpebras. Sinto-me ligeiro
como um pequeno peixe, uma coisa vagarosa.
Feliz, feliz, na frescura das veias, nos músculos libertos.
Ouço as flores bebendo luz, ouço o esplendor
absoluto. Como saberei cantar no grande círculo móvel?
Lugar de aroma e claridade e de palavras,
o ar e a água e o fogo, o murmúrio essencial.
A primavera ascende com uma leveza de sílaba.
Tudo oscila em hastes e flores e folhas.
Suave fulguração de horizonte a horizonte.
a cabeça idêntica ao solo circular,
lenta velocidade num fundo indefinido,
relação de folha e língua e pedra e água
e ar, leve tangência de um imenso sopro.
Cheguei a um silencioso, a um suave centro.
Desperto um fogo errante em minúsculas crateras.
Estou isolado, aberto a uma vida repentina.
A minha boca é incestuosa, os meus lábios verdes.
Há vozes submersas, há palavras que requerem
a visão das pálpebras. Sinto-me ligeiro
como um pequeno peixe, uma coisa vagarosa.
Feliz, feliz, na frescura das veias, nos músculos libertos.
Ouço as flores bebendo luz, ouço o esplendor
absoluto. Como saberei cantar no grande círculo móvel?
Lugar de aroma e claridade e de palavras,
o ar e a água e o fogo, o murmúrio essencial.
A primavera ascende com uma leveza de sílaba.
Tudo oscila em hastes e flores e folhas.
Suave fulguração de horizonte a horizonte.
1 030
António Ramos Rosa
Não Sei Escrever
Não sei escrever, oscilo no obscuro, a terra adormeceu.
Formas obscuras, ecos, sons, suspiros
e areias estéreis, o móvel sono do vento.
A calma completa do inerte sobre as pálpebras.
Vacuidade mineral sem vibrações.
Escrevo titubeante. Nada se move. Desço talvez
a uma sombra. Procuro minúsculos
prodígios, descubro insectos, pedras negras.
Onde o corpo errante? Que seja agora a folha
e o sangue verde, a pulsação do vento.
Escrevo, não sei escrever. Nada tenho a dizer.
Respiro algumas vezes. Respiro. É uma nuvem
incandescente na folhagem. É um espaço fundo e plano
e alto. O corpo inteiro na claridade azul.
Não está comigo agora e é um planeta branco.
Formas obscuras, ecos, sons, suspiros
e areias estéreis, o móvel sono do vento.
A calma completa do inerte sobre as pálpebras.
Vacuidade mineral sem vibrações.
Escrevo titubeante. Nada se move. Desço talvez
a uma sombra. Procuro minúsculos
prodígios, descubro insectos, pedras negras.
Onde o corpo errante? Que seja agora a folha
e o sangue verde, a pulsação do vento.
Escrevo, não sei escrever. Nada tenho a dizer.
Respiro algumas vezes. Respiro. É uma nuvem
incandescente na folhagem. É um espaço fundo e plano
e alto. O corpo inteiro na claridade azul.
Não está comigo agora e é um planeta branco.
1 135
António Ramos Rosa
No Centro da Aparência
Repousa no espaço de um olhar. O ar dança na rua.
Sombras e ruídos. As árvores têm uma idade clara.
Vagarosa persistência, a alguns metros do solo.
O enigma está vivo no centro da aparência.
Uma criança designa o mar. Alguém traz uma folha.
Alguém compreende a sede de uma pedra?
Quem estuda a felicidade? Quem define um jardim?
Que linguagem é a do espaço? O que é o sal da sombra?
Esquecemos a linguagem do vento e do vazio.
Nunca houve um encontro. Quando será o início?
Vejo a folhagem e os frutos da distância.
Olho longamente até ao cimo da ternura.
Vivo na luz extrema em todas as direcções.
O pequeno e o grande conjugam-se, consagram-se.
Canto na luz suave e bebo o espaço.
Sombras e ruídos. As árvores têm uma idade clara.
Vagarosa persistência, a alguns metros do solo.
O enigma está vivo no centro da aparência.
Uma criança designa o mar. Alguém traz uma folha.
Alguém compreende a sede de uma pedra?
Quem estuda a felicidade? Quem define um jardim?
Que linguagem é a do espaço? O que é o sal da sombra?
Esquecemos a linguagem do vento e do vazio.
Nunca houve um encontro. Quando será o início?
Vejo a folhagem e os frutos da distância.
Olho longamente até ao cimo da ternura.
Vivo na luz extrema em todas as direcções.
O pequeno e o grande conjugam-se, consagram-se.
Canto na luz suave e bebo o espaço.
1 010
António Ramos Rosa
No Centro da Aparência
Repousa no espaço de um olhar. O ar dança na rua.
Sombras e ruídos. As árvores têm uma idade clara.
Vagarosa persistência, a alguns metros do solo.
O enigma está vivo no centro da aparência.
Uma criança designa o mar. Alguém traz uma folha.
Alguém compreende a sede de uma pedra?
Quem estuda a felicidade? Quem define um jardim?
Que linguagem é a do espaço? O que é o sal da sombra?
Esquecemos a linguagem do vento e do vazio.
Nunca houve um encontro. Quando será o início?
Vejo a folhagem e os frutos da distância.
Olho longamente até ao cimo da ternura.
Vivo na luz extrema em todas as direcções.
O pequeno e o grande conjugam-se, consagram-se.
Canto na luz suave e bebo o espaço.
Sombras e ruídos. As árvores têm uma idade clara.
Vagarosa persistência, a alguns metros do solo.
O enigma está vivo no centro da aparência.
Uma criança designa o mar. Alguém traz uma folha.
Alguém compreende a sede de uma pedra?
Quem estuda a felicidade? Quem define um jardim?
Que linguagem é a do espaço? O que é o sal da sombra?
Esquecemos a linguagem do vento e do vazio.
Nunca houve um encontro. Quando será o início?
Vejo a folhagem e os frutos da distância.
Olho longamente até ao cimo da ternura.
Vivo na luz extrema em todas as direcções.
O pequeno e o grande conjugam-se, consagram-se.
Canto na luz suave e bebo o espaço.
1 010
António Ramos Rosa
No Centro da Aparência
Repousa no espaço de um olhar. O ar dança na rua.
Sombras e ruídos. As árvores têm uma idade clara.
Vagarosa persistência, a alguns metros do solo.
O enigma está vivo no centro da aparência.
Uma criança designa o mar. Alguém traz uma folha.
Alguém compreende a sede de uma pedra?
Quem estuda a felicidade? Quem define um jardim?
Que linguagem é a do espaço? O que é o sal da sombra?
Esquecemos a linguagem do vento e do vazio.
Nunca houve um encontro. Quando será o início?
Vejo a folhagem e os frutos da distância.
Olho longamente até ao cimo da ternura.
Vivo na luz extrema em todas as direcções.
O pequeno e o grande conjugam-se, consagram-se.
Canto na luz suave e bebo o espaço.
Sombras e ruídos. As árvores têm uma idade clara.
Vagarosa persistência, a alguns metros do solo.
O enigma está vivo no centro da aparência.
Uma criança designa o mar. Alguém traz uma folha.
Alguém compreende a sede de uma pedra?
Quem estuda a felicidade? Quem define um jardim?
Que linguagem é a do espaço? O que é o sal da sombra?
Esquecemos a linguagem do vento e do vazio.
Nunca houve um encontro. Quando será o início?
Vejo a folhagem e os frutos da distância.
Olho longamente até ao cimo da ternura.
Vivo na luz extrema em todas as direcções.
O pequeno e o grande conjugam-se, consagram-se.
Canto na luz suave e bebo o espaço.
1 010
António Ramos Rosa
Os Prestígios Simples
Conheço as palavras das árvores, as voluptuosas têmporas
das pedras. Toda a minha vida é um sono de árvores.
Vivo oscilando como uma simples coisa
na paz do espaço. Não pergunto às folhas
onde o país unânime. Sou uma chama do ar.
Oscilo na folhagem. Vibro entre mãos aéreas
sobre os sulcos dos insectos. Amo os simples
prestígios, os percursos leves, as sombras verdes.
Esta é a minha casa de pedras e de sol.
Esta é a minha firmeza suave, minha alegria nova.
Estou no meio do vento, sou uma haste solitária.
Bebo as sombras que deslizam numa volúpia aérea.
Dispo-me e sou um tronco, ou um ramo, uma figura da terra.
Adormeço e desperto para o júbilo do mar.
A boca encontra o seio da primeira harmonia.
das pedras. Toda a minha vida é um sono de árvores.
Vivo oscilando como uma simples coisa
na paz do espaço. Não pergunto às folhas
onde o país unânime. Sou uma chama do ar.
Oscilo na folhagem. Vibro entre mãos aéreas
sobre os sulcos dos insectos. Amo os simples
prestígios, os percursos leves, as sombras verdes.
Esta é a minha casa de pedras e de sol.
Esta é a minha firmeza suave, minha alegria nova.
Estou no meio do vento, sou uma haste solitária.
Bebo as sombras que deslizam numa volúpia aérea.
Dispo-me e sou um tronco, ou um ramo, uma figura da terra.
Adormeço e desperto para o júbilo do mar.
A boca encontra o seio da primeira harmonia.
1 086
António Ramos Rosa
Os Prestígios Simples
Conheço as palavras das árvores, as voluptuosas têmporas
das pedras. Toda a minha vida é um sono de árvores.
Vivo oscilando como uma simples coisa
na paz do espaço. Não pergunto às folhas
onde o país unânime. Sou uma chama do ar.
Oscilo na folhagem. Vibro entre mãos aéreas
sobre os sulcos dos insectos. Amo os simples
prestígios, os percursos leves, as sombras verdes.
Esta é a minha casa de pedras e de sol.
Esta é a minha firmeza suave, minha alegria nova.
Estou no meio do vento, sou uma haste solitária.
Bebo as sombras que deslizam numa volúpia aérea.
Dispo-me e sou um tronco, ou um ramo, uma figura da terra.
Adormeço e desperto para o júbilo do mar.
A boca encontra o seio da primeira harmonia.
das pedras. Toda a minha vida é um sono de árvores.
Vivo oscilando como uma simples coisa
na paz do espaço. Não pergunto às folhas
onde o país unânime. Sou uma chama do ar.
Oscilo na folhagem. Vibro entre mãos aéreas
sobre os sulcos dos insectos. Amo os simples
prestígios, os percursos leves, as sombras verdes.
Esta é a minha casa de pedras e de sol.
Esta é a minha firmeza suave, minha alegria nova.
Estou no meio do vento, sou uma haste solitária.
Bebo as sombras que deslizam numa volúpia aérea.
Dispo-me e sou um tronco, ou um ramo, uma figura da terra.
Adormeço e desperto para o júbilo do mar.
A boca encontra o seio da primeira harmonia.
1 086
António Ramos Rosa
Os Prestígios Simples
Conheço as palavras das árvores, as voluptuosas têmporas
das pedras. Toda a minha vida é um sono de árvores.
Vivo oscilando como uma simples coisa
na paz do espaço. Não pergunto às folhas
onde o país unânime. Sou uma chama do ar.
Oscilo na folhagem. Vibro entre mãos aéreas
sobre os sulcos dos insectos. Amo os simples
prestígios, os percursos leves, as sombras verdes.
Esta é a minha casa de pedras e de sol.
Esta é a minha firmeza suave, minha alegria nova.
Estou no meio do vento, sou uma haste solitária.
Bebo as sombras que deslizam numa volúpia aérea.
Dispo-me e sou um tronco, ou um ramo, uma figura da terra.
Adormeço e desperto para o júbilo do mar.
A boca encontra o seio da primeira harmonia.
das pedras. Toda a minha vida é um sono de árvores.
Vivo oscilando como uma simples coisa
na paz do espaço. Não pergunto às folhas
onde o país unânime. Sou uma chama do ar.
Oscilo na folhagem. Vibro entre mãos aéreas
sobre os sulcos dos insectos. Amo os simples
prestígios, os percursos leves, as sombras verdes.
Esta é a minha casa de pedras e de sol.
Esta é a minha firmeza suave, minha alegria nova.
Estou no meio do vento, sou uma haste solitária.
Bebo as sombras que deslizam numa volúpia aérea.
Dispo-me e sou um tronco, ou um ramo, uma figura da terra.
Adormeço e desperto para o júbilo do mar.
A boca encontra o seio da primeira harmonia.
1 086
António Ramos Rosa
Onde a Terra Será Branca
Onde a terra será branca. Num domínio
oblíquo. A liberdade silenciosa.
Lábios iluminados. Dedos quase felizes.
Um volume verde, a narrativa quase exacta.
Espaço e corpo no interior das linhas.
Que suave aventura descansar dentro de um corpo!
Com o ouvido no vento, com o coração no escuro,
digo o nome do indizível, sigo um fluxo
de minúsculas coisas, uma música de insectos.
O ar tornou-se branco através do silêncio.
Como uma mulher aberta, o poema é um pomar.
A terra inteira resplandece como um fruto.
Tudo parece imóvel como uma árvore transparente.
O tempo abriu espaços entre os muros.
Somos a incessante luz na água azul.
oblíquo. A liberdade silenciosa.
Lábios iluminados. Dedos quase felizes.
Um volume verde, a narrativa quase exacta.
Espaço e corpo no interior das linhas.
Que suave aventura descansar dentro de um corpo!
Com o ouvido no vento, com o coração no escuro,
digo o nome do indizível, sigo um fluxo
de minúsculas coisas, uma música de insectos.
O ar tornou-se branco através do silêncio.
Como uma mulher aberta, o poema é um pomar.
A terra inteira resplandece como um fruto.
Tudo parece imóvel como uma árvore transparente.
O tempo abriu espaços entre os muros.
Somos a incessante luz na água azul.
1 005
António Ramos Rosa
Onde a Terra Será Branca
Onde a terra será branca. Num domínio
oblíquo. A liberdade silenciosa.
Lábios iluminados. Dedos quase felizes.
Um volume verde, a narrativa quase exacta.
Espaço e corpo no interior das linhas.
Que suave aventura descansar dentro de um corpo!
Com o ouvido no vento, com o coração no escuro,
digo o nome do indizível, sigo um fluxo
de minúsculas coisas, uma música de insectos.
O ar tornou-se branco através do silêncio.
Como uma mulher aberta, o poema é um pomar.
A terra inteira resplandece como um fruto.
Tudo parece imóvel como uma árvore transparente.
O tempo abriu espaços entre os muros.
Somos a incessante luz na água azul.
oblíquo. A liberdade silenciosa.
Lábios iluminados. Dedos quase felizes.
Um volume verde, a narrativa quase exacta.
Espaço e corpo no interior das linhas.
Que suave aventura descansar dentro de um corpo!
Com o ouvido no vento, com o coração no escuro,
digo o nome do indizível, sigo um fluxo
de minúsculas coisas, uma música de insectos.
O ar tornou-se branco através do silêncio.
Como uma mulher aberta, o poema é um pomar.
A terra inteira resplandece como um fruto.
Tudo parece imóvel como uma árvore transparente.
O tempo abriu espaços entre os muros.
Somos a incessante luz na água azul.
1 005
António Ramos Rosa
Fronteiras Não Fronteiras
As fronteiras são estas não fronteiras.
No fundo, sempre, um elemento de negra exaltação.
Mas também o espaço, o círculo intacto
em que a beleza do mundo se oferece à superfície.
Imolam-se os sinais rígidos, arqueiam-se as hastes luminosas
e a fábula imediata brilha nas perspectivas.
O vento imita as árvores, o corpo imita o vento.
Onde está o fim das coisas? Livre, livre é o espaço.
Onde estamos é um movimento leve e rápido.
O que dizemos é uma vibração do mundo.
O sim das árvores e dos caminhos, o sim do vento,
o sim do corpo, o sim do espaço, o sim da língua,
são páginas e páginas de ar leve e de silêncio
e de um fogo que nasce, na imóvel velocidade,
em que se adere ao mundo como a um corpo amado.
No fundo, sempre, um elemento de negra exaltação.
Mas também o espaço, o círculo intacto
em que a beleza do mundo se oferece à superfície.
Imolam-se os sinais rígidos, arqueiam-se as hastes luminosas
e a fábula imediata brilha nas perspectivas.
O vento imita as árvores, o corpo imita o vento.
Onde está o fim das coisas? Livre, livre é o espaço.
Onde estamos é um movimento leve e rápido.
O que dizemos é uma vibração do mundo.
O sim das árvores e dos caminhos, o sim do vento,
o sim do corpo, o sim do espaço, o sim da língua,
são páginas e páginas de ar leve e de silêncio
e de um fogo que nasce, na imóvel velocidade,
em que se adere ao mundo como a um corpo amado.
923
António Ramos Rosa
Agora Que a Água É Clara E o Vento Livre
Agora que a água é clara e o vento livre
atiro esta cega flecha sobre o teu dorso
Tu dormes entre caminhos e sombras
e bebes as luzes da terra como um cavalo selvagem
Ouço um clamor na escada e há um gesto esquecido
não vejo no mar senão um navio silencioso
Tuas palavras seriam as sombras musicais
enquanto a minha mão se agita como uma chama
Há um massacre de insectos no metal negro do teu sangue
Tu és mais do que a virgem a imperceptível coluna
Distingo ainda teus olhos semicerrados entre as pedras
Suspenso de ti da tua distância desço à tua seiva
Sou um animal moribundo uivando silencioso
A minha morte nasce do teu olhar Morro de te ver
Interrompo os teus olhos Sou uma sombra interminável
Desapareço sempre que te levantas entre as ervas
Afasto-me para dar lugar à sombra de um cavalo
Por vezes o teu silêncio desperta sobre o mar
e vivo nas tuas mãos um sono maternal
Mas agora sou tão escuro como um pedaço de terra
Algum cão ladra às tuas pernas de deusa
Se eu te fizesse gritar acertando em tuas coxas
com estas cegas flechas ó branca sombra da noite!
atiro esta cega flecha sobre o teu dorso
Tu dormes entre caminhos e sombras
e bebes as luzes da terra como um cavalo selvagem
Ouço um clamor na escada e há um gesto esquecido
não vejo no mar senão um navio silencioso
Tuas palavras seriam as sombras musicais
enquanto a minha mão se agita como uma chama
Há um massacre de insectos no metal negro do teu sangue
Tu és mais do que a virgem a imperceptível coluna
Distingo ainda teus olhos semicerrados entre as pedras
Suspenso de ti da tua distância desço à tua seiva
Sou um animal moribundo uivando silencioso
A minha morte nasce do teu olhar Morro de te ver
Interrompo os teus olhos Sou uma sombra interminável
Desapareço sempre que te levantas entre as ervas
Afasto-me para dar lugar à sombra de um cavalo
Por vezes o teu silêncio desperta sobre o mar
e vivo nas tuas mãos um sono maternal
Mas agora sou tão escuro como um pedaço de terra
Algum cão ladra às tuas pernas de deusa
Se eu te fizesse gritar acertando em tuas coxas
com estas cegas flechas ó branca sombra da noite!
1 155
António Ramos Rosa
Agora Que a Água É Clara E o Vento Livre
Agora que a água é clara e o vento livre
atiro esta cega flecha sobre o teu dorso
Tu dormes entre caminhos e sombras
e bebes as luzes da terra como um cavalo selvagem
Ouço um clamor na escada e há um gesto esquecido
não vejo no mar senão um navio silencioso
Tuas palavras seriam as sombras musicais
enquanto a minha mão se agita como uma chama
Há um massacre de insectos no metal negro do teu sangue
Tu és mais do que a virgem a imperceptível coluna
Distingo ainda teus olhos semicerrados entre as pedras
Suspenso de ti da tua distância desço à tua seiva
Sou um animal moribundo uivando silencioso
A minha morte nasce do teu olhar Morro de te ver
Interrompo os teus olhos Sou uma sombra interminável
Desapareço sempre que te levantas entre as ervas
Afasto-me para dar lugar à sombra de um cavalo
Por vezes o teu silêncio desperta sobre o mar
e vivo nas tuas mãos um sono maternal
Mas agora sou tão escuro como um pedaço de terra
Algum cão ladra às tuas pernas de deusa
Se eu te fizesse gritar acertando em tuas coxas
com estas cegas flechas ó branca sombra da noite!
atiro esta cega flecha sobre o teu dorso
Tu dormes entre caminhos e sombras
e bebes as luzes da terra como um cavalo selvagem
Ouço um clamor na escada e há um gesto esquecido
não vejo no mar senão um navio silencioso
Tuas palavras seriam as sombras musicais
enquanto a minha mão se agita como uma chama
Há um massacre de insectos no metal negro do teu sangue
Tu és mais do que a virgem a imperceptível coluna
Distingo ainda teus olhos semicerrados entre as pedras
Suspenso de ti da tua distância desço à tua seiva
Sou um animal moribundo uivando silencioso
A minha morte nasce do teu olhar Morro de te ver
Interrompo os teus olhos Sou uma sombra interminável
Desapareço sempre que te levantas entre as ervas
Afasto-me para dar lugar à sombra de um cavalo
Por vezes o teu silêncio desperta sobre o mar
e vivo nas tuas mãos um sono maternal
Mas agora sou tão escuro como um pedaço de terra
Algum cão ladra às tuas pernas de deusa
Se eu te fizesse gritar acertando em tuas coxas
com estas cegas flechas ó branca sombra da noite!
1 155
António Ramos Rosa
Agora Que a Água É Clara E o Vento Livre
Agora que a água é clara e o vento livre
atiro esta cega flecha sobre o teu dorso
Tu dormes entre caminhos e sombras
e bebes as luzes da terra como um cavalo selvagem
Ouço um clamor na escada e há um gesto esquecido
não vejo no mar senão um navio silencioso
Tuas palavras seriam as sombras musicais
enquanto a minha mão se agita como uma chama
Há um massacre de insectos no metal negro do teu sangue
Tu és mais do que a virgem a imperceptível coluna
Distingo ainda teus olhos semicerrados entre as pedras
Suspenso de ti da tua distância desço à tua seiva
Sou um animal moribundo uivando silencioso
A minha morte nasce do teu olhar Morro de te ver
Interrompo os teus olhos Sou uma sombra interminável
Desapareço sempre que te levantas entre as ervas
Afasto-me para dar lugar à sombra de um cavalo
Por vezes o teu silêncio desperta sobre o mar
e vivo nas tuas mãos um sono maternal
Mas agora sou tão escuro como um pedaço de terra
Algum cão ladra às tuas pernas de deusa
Se eu te fizesse gritar acertando em tuas coxas
com estas cegas flechas ó branca sombra da noite!
atiro esta cega flecha sobre o teu dorso
Tu dormes entre caminhos e sombras
e bebes as luzes da terra como um cavalo selvagem
Ouço um clamor na escada e há um gesto esquecido
não vejo no mar senão um navio silencioso
Tuas palavras seriam as sombras musicais
enquanto a minha mão se agita como uma chama
Há um massacre de insectos no metal negro do teu sangue
Tu és mais do que a virgem a imperceptível coluna
Distingo ainda teus olhos semicerrados entre as pedras
Suspenso de ti da tua distância desço à tua seiva
Sou um animal moribundo uivando silencioso
A minha morte nasce do teu olhar Morro de te ver
Interrompo os teus olhos Sou uma sombra interminável
Desapareço sempre que te levantas entre as ervas
Afasto-me para dar lugar à sombra de um cavalo
Por vezes o teu silêncio desperta sobre o mar
e vivo nas tuas mãos um sono maternal
Mas agora sou tão escuro como um pedaço de terra
Algum cão ladra às tuas pernas de deusa
Se eu te fizesse gritar acertando em tuas coxas
com estas cegas flechas ó branca sombra da noite!
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António Ramos Rosa
Onde As Águas
Onde as águas se sublevam inesperadas, brancas
num prodigioso silêncio. É a visão mais viva,
a mais violenta e mais suave, quase imperceptível.
Respiramos o ar na incandescência calma.
A boca desliza sem verdades, livre nas evidências.
A luz é vagarosa, vemos como animais
através da água. As coisas têm a cor do sangue
ou da sombra. Cada forma difunde o seu silêncio.
Todos os corpos são formosos como criações repentinas.
Respiro na corola imensa todo o azul aberto.
Tanto azul, tanta brancura! Aqui é um templo
natural. Tudo pulsa num nítido tremor.
Corpo com um odor a terra, corpo desperto, alegre.
Os ombros inclinam-se ao rumor da confiança.
As bocas iluminam-se nas lúcidas colinas.
num prodigioso silêncio. É a visão mais viva,
a mais violenta e mais suave, quase imperceptível.
Respiramos o ar na incandescência calma.
A boca desliza sem verdades, livre nas evidências.
A luz é vagarosa, vemos como animais
através da água. As coisas têm a cor do sangue
ou da sombra. Cada forma difunde o seu silêncio.
Todos os corpos são formosos como criações repentinas.
Respiro na corola imensa todo o azul aberto.
Tanto azul, tanta brancura! Aqui é um templo
natural. Tudo pulsa num nítido tremor.
Corpo com um odor a terra, corpo desperto, alegre.
Os ombros inclinam-se ao rumor da confiança.
As bocas iluminam-se nas lúcidas colinas.
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António Ramos Rosa
Onde As Águas
Onde as águas se sublevam inesperadas, brancas
num prodigioso silêncio. É a visão mais viva,
a mais violenta e mais suave, quase imperceptível.
Respiramos o ar na incandescência calma.
A boca desliza sem verdades, livre nas evidências.
A luz é vagarosa, vemos como animais
através da água. As coisas têm a cor do sangue
ou da sombra. Cada forma difunde o seu silêncio.
Todos os corpos são formosos como criações repentinas.
Respiro na corola imensa todo o azul aberto.
Tanto azul, tanta brancura! Aqui é um templo
natural. Tudo pulsa num nítido tremor.
Corpo com um odor a terra, corpo desperto, alegre.
Os ombros inclinam-se ao rumor da confiança.
As bocas iluminam-se nas lúcidas colinas.
num prodigioso silêncio. É a visão mais viva,
a mais violenta e mais suave, quase imperceptível.
Respiramos o ar na incandescência calma.
A boca desliza sem verdades, livre nas evidências.
A luz é vagarosa, vemos como animais
através da água. As coisas têm a cor do sangue
ou da sombra. Cada forma difunde o seu silêncio.
Todos os corpos são formosos como criações repentinas.
Respiro na corola imensa todo o azul aberto.
Tanto azul, tanta brancura! Aqui é um templo
natural. Tudo pulsa num nítido tremor.
Corpo com um odor a terra, corpo desperto, alegre.
Os ombros inclinam-se ao rumor da confiança.
As bocas iluminam-se nas lúcidas colinas.
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António Ramos Rosa
Entre Pequenos Tumultos Brancos
Entre pequenos tumultos brancos, entre os cabelos do ar,
dentro de uma membrana verde, contra um peito redondo,
entre lâmpadas veladas, entre murmúrios do mar,
acaricio um corpo, uma árvore de argila,
ou a serpente do verão ou uma chama de vento.
A pedra pulsa no fundo, há uma escada que desce
para uma varanda branca. A terra volta a amanhecer
com a cabeça incendiada. Os barcos do vento
seguem entre as árvores, os armários do mar
soltam os seus pássaros verdes. Desperto transparente
e nu. Onde o abrigo? O abrigo do vento
é uma folha de vento. Quem se perde entre a folhagem,
entre as dunas, entre as ondas? Vou transformando a pedra
em bosque, vou abrindo os sulcos
das palavras em carícias de água libertada.
dentro de uma membrana verde, contra um peito redondo,
entre lâmpadas veladas, entre murmúrios do mar,
acaricio um corpo, uma árvore de argila,
ou a serpente do verão ou uma chama de vento.
A pedra pulsa no fundo, há uma escada que desce
para uma varanda branca. A terra volta a amanhecer
com a cabeça incendiada. Os barcos do vento
seguem entre as árvores, os armários do mar
soltam os seus pássaros verdes. Desperto transparente
e nu. Onde o abrigo? O abrigo do vento
é uma folha de vento. Quem se perde entre a folhagem,
entre as dunas, entre as ondas? Vou transformando a pedra
em bosque, vou abrindo os sulcos
das palavras em carícias de água libertada.
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António Ramos Rosa
Entre Pequenos Tumultos Brancos
Entre pequenos tumultos brancos, entre os cabelos do ar,
dentro de uma membrana verde, contra um peito redondo,
entre lâmpadas veladas, entre murmúrios do mar,
acaricio um corpo, uma árvore de argila,
ou a serpente do verão ou uma chama de vento.
A pedra pulsa no fundo, há uma escada que desce
para uma varanda branca. A terra volta a amanhecer
com a cabeça incendiada. Os barcos do vento
seguem entre as árvores, os armários do mar
soltam os seus pássaros verdes. Desperto transparente
e nu. Onde o abrigo? O abrigo do vento
é uma folha de vento. Quem se perde entre a folhagem,
entre as dunas, entre as ondas? Vou transformando a pedra
em bosque, vou abrindo os sulcos
das palavras em carícias de água libertada.
dentro de uma membrana verde, contra um peito redondo,
entre lâmpadas veladas, entre murmúrios do mar,
acaricio um corpo, uma árvore de argila,
ou a serpente do verão ou uma chama de vento.
A pedra pulsa no fundo, há uma escada que desce
para uma varanda branca. A terra volta a amanhecer
com a cabeça incendiada. Os barcos do vento
seguem entre as árvores, os armários do mar
soltam os seus pássaros verdes. Desperto transparente
e nu. Onde o abrigo? O abrigo do vento
é uma folha de vento. Quem se perde entre a folhagem,
entre as dunas, entre as ondas? Vou transformando a pedra
em bosque, vou abrindo os sulcos
das palavras em carícias de água libertada.
543
António Ramos Rosa
Encontro
Tu te ofereceste aberta como eras
no sentido da dança, do fogo e do mar,
ergueste-te do fundo até à praia lisa
rodando em círculos de luz e ondas
no ar de uma asa imensa e transparente.
O vento conduzia-te devagar, seguindo
o teu desejo. Com que descanso pleno!
Eu descobria-te em luminoso movimento
porque tu eras a minha forma e o meu mundo,
o caminho enrolado em suas ondas curvas.
Vinhas despertar a encantada noite
e a alta música, o fundo do oriente.
Abolindo, começando na hora mais redonda
a fábula mais intensa que nasce do desejo,
ó mais completo sonho, ó maravilha viva!
no sentido da dança, do fogo e do mar,
ergueste-te do fundo até à praia lisa
rodando em círculos de luz e ondas
no ar de uma asa imensa e transparente.
O vento conduzia-te devagar, seguindo
o teu desejo. Com que descanso pleno!
Eu descobria-te em luminoso movimento
porque tu eras a minha forma e o meu mundo,
o caminho enrolado em suas ondas curvas.
Vinhas despertar a encantada noite
e a alta música, o fundo do oriente.
Abolindo, começando na hora mais redonda
a fábula mais intensa que nasce do desejo,
ó mais completo sonho, ó maravilha viva!
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