Poemas neste tema
Natureza e Elementos
António Ramos Rosa
Húmido Como a Névoa
Húmido como a névoa
assim ainda se diz
Húmido pode ser um bosque
na sua densa massa
Um bosque? Uma luxúria
de verdes
semeado de clareiras
na espessura
Espessura esquiva onde se esconde a caça
onde ela se acende
e onde o esconder é grácil
como um jogo de analogia
assim ainda se diz
Húmido pode ser um bosque
na sua densa massa
Um bosque? Uma luxúria
de verdes
semeado de clareiras
na espessura
Espessura esquiva onde se esconde a caça
onde ela se acende
e onde o esconder é grácil
como um jogo de analogia
1 128
António Ramos Rosa
Húmido Como a Névoa
Húmido como a névoa
assim ainda se diz
Húmido pode ser um bosque
na sua densa massa
Um bosque? Uma luxúria
de verdes
semeado de clareiras
na espessura
Espessura esquiva onde se esconde a caça
onde ela se acende
e onde o esconder é grácil
como um jogo de analogia
assim ainda se diz
Húmido pode ser um bosque
na sua densa massa
Um bosque? Uma luxúria
de verdes
semeado de clareiras
na espessura
Espessura esquiva onde se esconde a caça
onde ela se acende
e onde o esconder é grácil
como um jogo de analogia
1 128
António Ramos Rosa
Aqui Está Um Arbusto E a Sua Luz
Aqui está um arbusto e a sua luz
tão branca O seu volume
é leve surpreendente intacto
Se o trabalharmos sobre a terra parda
não saberemos não adivinhamos
a surpresa da flor vermelha
mas saberemos que insectos o assaltam
Ao vento à chuva
as flores tornam-se negras
são negras e todas hão-de arder
tão branca O seu volume
é leve surpreendente intacto
Se o trabalharmos sobre a terra parda
não saberemos não adivinhamos
a surpresa da flor vermelha
mas saberemos que insectos o assaltam
Ao vento à chuva
as flores tornam-se negras
são negras e todas hão-de arder
1 025
António Ramos Rosa
O Lugar Onde o Lugar
O lugar onde o lugar
com a face da noite em pleno dia
o lugar onde passa o insecto
e o horizonte
Um pequeno círculo a clareira
onde se respira a luz
dividida em sílabas de seixos
e nas lagartixas que atravessam rápidas
Estamos perto do corpo da ínfima
nudez
Há curvas inesperadas um atalho secreto
O lugar não é aqui onde o designamos
com a face da noite em pleno dia
o lugar onde passa o insecto
e o horizonte
Um pequeno círculo a clareira
onde se respira a luz
dividida em sílabas de seixos
e nas lagartixas que atravessam rápidas
Estamos perto do corpo da ínfima
nudez
Há curvas inesperadas um atalho secreto
O lugar não é aqui onde o designamos
1 102
António Ramos Rosa
Oscilação No Branco
A oscilação quase, quase pressentida, de um vocábulo ou de uma lâmpada branca. Mas o que oscila, invisível (quase?) não é palavra nem objecto. Poderá ser para um efeito poético uma nuvem ou uma sombra. Não é nada. Nem sequer oscila. Quem escreve sente a matéria gráfica e o branco da superfície da página. O que se passa? Alguém expira. O silêncio é feito da sufocação de uma impossível agonia. Ao sol. Na plenitude do sol. Na plenitude do branco. O que, talvez, oscile será o sentido absoluto de que livro, de que estranha estranheza e ilegível livro? Nenhuma frase pode corresponder à agonia dos que já não podem morrer e sucumbem infindavelmente na sua impossível morte. Nenhuma frase, nenhuma palavra… mas a brancura do sentido que a um tempo corrói e exalta os vocábulos, não é para a definitiva nudez que aponta sem que no entanto a possa alguma vez dizer?
1 121
António Ramos Rosa
Um Corpo Se Retrai E Se Constrói
Um corpo se retrai e se constrói
pelo vazio que gira em torno dele o espaço é limitado
e se algo avança sem colunas
são formas que respiram na brancura
Aqui nesta procura a mão
dilata-se
A história que nos vence não nos vence
O desejo é o objecto da metamorfose
Com o desejo o corpo se levanta
As formas estão nas linhas
e um rosto se imagina
na árvore em ramos abstractos
pelo vazio que gira em torno dele o espaço é limitado
e se algo avança sem colunas
são formas que respiram na brancura
Aqui nesta procura a mão
dilata-se
A história que nos vence não nos vence
O desejo é o objecto da metamorfose
Com o desejo o corpo se levanta
As formas estão nas linhas
e um rosto se imagina
na árvore em ramos abstractos
964
António Ramos Rosa
Secreta a Amadurecer E Abrindo-Se
Secreta a amadurecer e abrindo-se
quando a noite é a folhagem
Diria flor ou pétala mas não
Este segredo é de água une-se ao vento
São linhas ou corpos indecidida
resta a palavra que não segue a imagem
Entre uns e outros respira-se talvez
e uns caem separados na distância
e outros formam o volume branco
que une o obscuro à claridade
quando a noite é a folhagem
Diria flor ou pétala mas não
Este segredo é de água une-se ao vento
São linhas ou corpos indecidida
resta a palavra que não segue a imagem
Entre uns e outros respira-se talvez
e uns caem separados na distância
e outros formam o volume branco
que une o obscuro à claridade
1 042
António Ramos Rosa
As Coisas Que Olhamos São Às Vezes Olhares
As coisas que olhamos são às vezes olhares
rostos Figuras da matéria
Como as estátuas nos antigos templos
Elas abrem os olhos as portas do olhar
O olhar é uma chave é esta chave
Avanço até à beira ainda visível
As pedras existem Existe esta montanha
São olhares também mas que se apagam já
Eu sei que assim me perco e tudo perco
se não souber arquitectar o fogo
desta matéria nova do rectângulo
rostos Figuras da matéria
Como as estátuas nos antigos templos
Elas abrem os olhos as portas do olhar
O olhar é uma chave é esta chave
Avanço até à beira ainda visível
As pedras existem Existe esta montanha
São olhares também mas que se apagam já
Eu sei que assim me perco e tudo perco
se não souber arquitectar o fogo
desta matéria nova do rectângulo
1 125
António Ramos Rosa
A Superfície da Água Móvel
A superfície da água móvel
agita as nuvens
a claridade é urgente
para a linha única a marca
branca
O que germina na espessura
oscila em mil percursos
Os juncos seguem os meandros da água subterrânea
o ar move-se dança sobre a areia
As palavras dizem o que diz o ar
agita as nuvens
a claridade é urgente
para a linha única a marca
branca
O que germina na espessura
oscila em mil percursos
Os juncos seguem os meandros da água subterrânea
o ar move-se dança sobre a areia
As palavras dizem o que diz o ar
1 114
António Ramos Rosa
A Superfície da Água Móvel
A superfície da água móvel
agita as nuvens
a claridade é urgente
para a linha única a marca
branca
O que germina na espessura
oscila em mil percursos
Os juncos seguem os meandros da água subterrânea
o ar move-se dança sobre a areia
As palavras dizem o que diz o ar
agita as nuvens
a claridade é urgente
para a linha única a marca
branca
O que germina na espessura
oscila em mil percursos
Os juncos seguem os meandros da água subterrânea
o ar move-se dança sobre a areia
As palavras dizem o que diz o ar
1 114
António Ramos Rosa
Na Sequência Viva
O que tu lês é/será uma música da folhagem, não do lábio sôfrego, não do fôlego exausto. O que procuramos está no vento que se vai levantar, na seiva e no sangue dos dois lábios amantes, o teu e o meu, na sequência viva da substância escrita, homogénea, heterogénea. O que arde é a chama do silêncio do não-lugar que é clareira e cimo, vértice e prumo de uma linguagem enamorada do rosto de cada palavra, das veias da árvore que nos ergue à transparência oculta de cada folha. O instante, na sua aérea fugacidade, o espaço na sua disseminação amante, requer a confiança sem delírio nem vertigem, um silêncio que não é o silêncio mas a sombra da claridade que cada palavra cria no seu descoberto caminho.
1 198
António Ramos Rosa
Entre o Sal E o Sol
Esta página é talvez o deserto ou talvez uma praia. Percorre-a, sílaba por sílaba, até que. Uma sílaba, uma parede coberta de folhagem. Folhagem ou água ou vento. Uma boca devorada pela língua ou pelo sol. Uma praia na pele entre o sal e o sol. Uma frase, uma só frase despojada, nua, selvagem. As gaivotas sublinham uma boca enublada e límpida. A mão levanta-se até tocar uma raiz, uma veia, uma palavra. O texto é um clamor de silêncios e sombras e luzes. O corpo é uma sombra luminosa, uma pedra fresquíssima. Toca-lhe. É um animal entre o vento e o sol. É uma sombra ondulante e leve. Que respira entre a areia e a água.
1 248
António Ramos Rosa
Olhar Sem Olhar
Em qualquer parte, talvez, uma palavra arde. Um acto do universo, não uma palavra, mas uma palavra ainda: a chuva cai sobre as cores, lava os pórticos, refresca os deuses. O que me atrai são os confusos indícios de uma prosa marinha, os fluxos, os matizes, as pausas, as minúcias de uma música que se esvai ao mesmo tempo que se abate sobre a muralha a grande ressaca de uma outra escrita ou contra-escrita. Quero seguir o bulício mais vivo de uma outra cidade que nunca vi. As manchas das casas revelariam as relações que só se distinguem nos indefiníveis intervalos em que a morte de súbito se extingue e um rosto intacto se entremostra. Há uma limpidez exacta e uma vivacidade mate nos murmúrios e nas cenas, nas sombras e surpresas. Então, num impulso de atenção outra, cega e vidente, a mão levanta-se e compreende o intenso e inenarrável momento de aliança completa entre o corpo e a terra, entre as sombras e a claridade.
1 041
António Ramos Rosa
A Esperança do Livro
Como um painel, soerguendo-se da névoa marinha, um busto vermelho, carcomido, a boca hiante, de um mistério vazio. A meus pés, um exército de formigas negras procura, num árido frenesim, o caminho para a pedra. A orla branca de espuma, as vagas que rolam violentas, impedem o acesso do negro exército de insectos.
Quem poderá escutar da boca daquela divindade algo para além da sua mudez de morte? O seu frio eco trespassa-me de horror, a distância perdida torna-se fúnebre. As máscaras encobrem em vão o inexorável.
«Onde está a esperança?» alguém grita ou seria apenas o amplo espaço que flamejara? Era um esplendor cruel e o grito, se alguém o gritara, logo fora varrido pela força do vento. Alguém no entanto gritara: «Não feches o livro.» Respondi: «Virei todas as páginas sem encontrar a esperança.» A voz pronunciara ainda algumas palavras de um além da bruma: «A esperança é talvez o livro.»
Cansara-me de fitar a carcaça de pedra vermelha, olhos e boca abertos por onde entravam o sol e a água. A tenacidade da ruína muda aterrorizava-me. Mas além da bruma eu ouvia a voz de uma possível esperança. Era preciso atravessar a inexorável claridade e procurar na tarde a merenda que me desse o alento para prolongar o livro. As folhas escritas pesavam sobre o dorso direito; as folhas brancas curvavam o ombro esquerdo. Desejava libertar-me das primeiras, como de um fardo, mas as outras, na vertigem do possível, tornam a marcha ébria, de um vagabundo prenhe do murmúrio de todas as palavras que um dia seriam o Livro, que já o eram no passo ligeiro em que caminhava através da bruma.
Quem poderá escutar da boca daquela divindade algo para além da sua mudez de morte? O seu frio eco trespassa-me de horror, a distância perdida torna-se fúnebre. As máscaras encobrem em vão o inexorável.
«Onde está a esperança?» alguém grita ou seria apenas o amplo espaço que flamejara? Era um esplendor cruel e o grito, se alguém o gritara, logo fora varrido pela força do vento. Alguém no entanto gritara: «Não feches o livro.» Respondi: «Virei todas as páginas sem encontrar a esperança.» A voz pronunciara ainda algumas palavras de um além da bruma: «A esperança é talvez o livro.»
Cansara-me de fitar a carcaça de pedra vermelha, olhos e boca abertos por onde entravam o sol e a água. A tenacidade da ruína muda aterrorizava-me. Mas além da bruma eu ouvia a voz de uma possível esperança. Era preciso atravessar a inexorável claridade e procurar na tarde a merenda que me desse o alento para prolongar o livro. As folhas escritas pesavam sobre o dorso direito; as folhas brancas curvavam o ombro esquerdo. Desejava libertar-me das primeiras, como de um fardo, mas as outras, na vertigem do possível, tornam a marcha ébria, de um vagabundo prenhe do murmúrio de todas as palavras que um dia seriam o Livro, que já o eram no passo ligeiro em que caminhava através da bruma.
1 011
António Ramos Rosa
Um Jardim Um Jardim Obscuro
Um jardim um jardim obscuro
É da luz que vem o obscuro
Os animais surgem numerosos
Ainda escuros mas sobretudo espessos
Cinzentos sobre o dorso
É inútil olhar
Só um maciço no branco é uma reserva
de um virtual contacto de uma chama
É da luz que vem o obscuro
Os animais surgem numerosos
Ainda escuros mas sobretudo espessos
Cinzentos sobre o dorso
É inútil olhar
Só um maciço no branco é uma reserva
de um virtual contacto de uma chama
1 104
António Ramos Rosa
Um Jardim Um Jardim Obscuro
Um jardim um jardim obscuro
É da luz que vem o obscuro
Os animais surgem numerosos
Ainda escuros mas sobretudo espessos
Cinzentos sobre o dorso
É inútil olhar
Só um maciço no branco é uma reserva
de um virtual contacto de uma chama
É da luz que vem o obscuro
Os animais surgem numerosos
Ainda escuros mas sobretudo espessos
Cinzentos sobre o dorso
É inútil olhar
Só um maciço no branco é uma reserva
de um virtual contacto de uma chama
1 104
António Ramos Rosa
Ei-La Despida Ou
Ei-la despida ou
dir-se-ia a altura de uma nuvem
a árvore seria densa espada
A expressão é forte
é ela própria o que diz
e mais forte ainda quando
se implanta no músculo
por onde
O vento é a inteligência libertada
E agora a árvore se adensa
no músculo
para que o acto da forma seja intenso
dir-se-ia a altura de uma nuvem
a árvore seria densa espada
A expressão é forte
é ela própria o que diz
e mais forte ainda quando
se implanta no músculo
por onde
O vento é a inteligência libertada
E agora a árvore se adensa
no músculo
para que o acto da forma seja intenso
1 036
António Ramos Rosa
Ei-La Despida Ou
Ei-la despida ou
dir-se-ia a altura de uma nuvem
a árvore seria densa espada
A expressão é forte
é ela própria o que diz
e mais forte ainda quando
se implanta no músculo
por onde
O vento é a inteligência libertada
E agora a árvore se adensa
no músculo
para que o acto da forma seja intenso
dir-se-ia a altura de uma nuvem
a árvore seria densa espada
A expressão é forte
é ela própria o que diz
e mais forte ainda quando
se implanta no músculo
por onde
O vento é a inteligência libertada
E agora a árvore se adensa
no músculo
para que o acto da forma seja intenso
1 036
António Ramos Rosa
A Distracção do Vento
A distracção do vento ou a despreocupação pelos obstáculos até à dissipação no ar. Vento, esquecimento vivo, cegueira activa do ar. As palavras terão alguma vez esta respiração fluida de uma dança rebelde, livre? A sede do ar sufoca as palavras ou liberta-as? É o branco sempre, errante e puro, que lavra este grande lábio mutilado que é a palavra no limiar do vazio e do silêncio? A linguagem é um animal equívoco que voa sobre a areia do deserto num voo raso de elipse ou a sombra de um puro momento de ruptura indescritível? A ausência devasta a linguagem, até que ela se torne o sopro da brancura e da única vida que não soçobra na sua própria sombra? Os vocábulos respiram quando a distância os liberta da sua presença opaca restituindo-os à fragilidade de um sopro e de uma transparência livre e nunca literal. No corpo das palavras pressente-se o imperceptível ardor de um fluxo discreto, mínimo, como a pulsação de um pulso de insecto, indemonstrável, secreto.
1 070
António Ramos Rosa
Talvez Cante Um Pássaro E o Céu Talvez Seja Na Aparente
Talvez cante um pássaro e o céu talvez seja na aparente
tranquilidade um liso tecido
Mas não se sabe como nomeá-lo indefinido vago
móvel sem as formas nítidas através do vidro
Talvez seja mais tarde o céu de novo em seus
pedaços ou o que através da palavra se mudou num
tecto imponderável
tranquilidade um liso tecido
Mas não se sabe como nomeá-lo indefinido vago
móvel sem as formas nítidas através do vidro
Talvez seja mais tarde o céu de novo em seus
pedaços ou o que através da palavra se mudou num
tecto imponderável
1 093
António Ramos Rosa
Há Uma Clareza Nas Pedras
Há uma clareza nas pedras
Uma obstinação ligeira nestas vespas
Entre a inércia e o voo
o fogo do ar
um sono escuro dos animais
o grande sono da brancura
Uma obstinação ligeira nestas vespas
Entre a inércia e o voo
o fogo do ar
um sono escuro dos animais
o grande sono da brancura
1 012
António Ramos Rosa
Terra de Um Sabor Denso
Terra de um sabor denso
e o olhar retido no tronco
para que o inerte se transforme
no triunfo de uma palavra viva
A seiva escorre cor de ferrugem
os insectos desviam-se
circulam sobre as inscrições
A folhagem desperta sobre o muro
Há um caminho pequeno
E alto e forte
o tumulto da aragem aqui afirma
a saída do chão outra palavra viva
e o olhar retido no tronco
para que o inerte se transforme
no triunfo de uma palavra viva
A seiva escorre cor de ferrugem
os insectos desviam-se
circulam sobre as inscrições
A folhagem desperta sobre o muro
Há um caminho pequeno
E alto e forte
o tumulto da aragem aqui afirma
a saída do chão outra palavra viva
1 029