Poemas neste tema
Natureza e Elementos
António Ramos Rosa
13. Palavra, Planta Activa, Trepadeira
13
Palavra, planta activa, trepadeira
que se entrelaça no muro da imagem — lâmina
lâmina de laços na verdura.
Ó árvore ó palavra ó árvore
no jardim porque é jardim folhagem espaço
e o melro negro é duplo em duplos saltos.
É esta a aragem da palavra e é este o rosto
da figura
palavra que aviva o verde da folhagem.
Palavra, planta activa, trepadeira
que se entrelaça no muro da imagem — lâmina
lâmina de laços na verdura.
Ó árvore ó palavra ó árvore
no jardim porque é jardim folhagem espaço
e o melro negro é duplo em duplos saltos.
É esta a aragem da palavra e é este o rosto
da figura
palavra que aviva o verde da folhagem.
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António Ramos Rosa
28. Trémulas — de Quê — Ó Trémulas
28
Trémulas — de quê — ó trémulas.
Os raios imperceptíveis mas
cobrindo o aspecto da sombra e o seio da pomba.
Abrem-se e não cintilam pobres de
pobreza da terra não dita ou impossível
ou ainda e sempre e sempre oculta
o não da terra sendo a terra única.
Trémulas e pobres, pobres trémulas
vamos, abram-se aqui sem nenhuma
poesia na não terra mas terra pobre terra.
Trémulas — de quê — ó trémulas.
Os raios imperceptíveis mas
cobrindo o aspecto da sombra e o seio da pomba.
Abrem-se e não cintilam pobres de
pobreza da terra não dita ou impossível
ou ainda e sempre e sempre oculta
o não da terra sendo a terra única.
Trémulas e pobres, pobres trémulas
vamos, abram-se aqui sem nenhuma
poesia na não terra mas terra pobre terra.
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António Ramos Rosa
9. Contra Algo, Inconsistente, Interrogado
9
Contra algo, inconsistente, interrogado
respiração de infância, insecto imperceptível
aranha de água brilhante aranha.
Contra algo — o quê? Contra isso
pelo desejo obscuro da terra obscura
pela respiração das imagens e dos lagos.
Pelos dados do não-dado contra
o contra que embranquece a página
contra a virgindade da árvore contra o seio.
Contra algo, inconsistente, interrogado
respiração de infância, insecto imperceptível
aranha de água brilhante aranha.
Contra algo — o quê? Contra isso
pelo desejo obscuro da terra obscura
pela respiração das imagens e dos lagos.
Pelos dados do não-dado contra
o contra que embranquece a página
contra a virgindade da árvore contra o seio.
1 151
António Ramos Rosa
9. Contra Algo, Inconsistente, Interrogado
9
Contra algo, inconsistente, interrogado
respiração de infância, insecto imperceptível
aranha de água brilhante aranha.
Contra algo — o quê? Contra isso
pelo desejo obscuro da terra obscura
pela respiração das imagens e dos lagos.
Pelos dados do não-dado contra
o contra que embranquece a página
contra a virgindade da árvore contra o seio.
Contra algo, inconsistente, interrogado
respiração de infância, insecto imperceptível
aranha de água brilhante aranha.
Contra algo — o quê? Contra isso
pelo desejo obscuro da terra obscura
pela respiração das imagens e dos lagos.
Pelos dados do não-dado contra
o contra que embranquece a página
contra a virgindade da árvore contra o seio.
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António Ramos Rosa
37. Instituição da Árvore No Poema
37
Instituição da árvore no poema
da terra e já sem terra a terra ainda
louvor do pássaro sobre as partes negras
de um inseguro trajecto incendiado.
Aqui, isto é, silêncio, não-poema
do poema aqui silêncio e arco
e isto o fragmento a face negra
destruída pelos insectos do incêndio.
Soberba impura face da figura
retendo a mão no vidro
a cruel ignorância encerrando a palavra
e a boca negra fechando o horizonte.
Instituição da árvore no poema
da terra e já sem terra a terra ainda
louvor do pássaro sobre as partes negras
de um inseguro trajecto incendiado.
Aqui, isto é, silêncio, não-poema
do poema aqui silêncio e arco
e isto o fragmento a face negra
destruída pelos insectos do incêndio.
Soberba impura face da figura
retendo a mão no vidro
a cruel ignorância encerrando a palavra
e a boca negra fechando o horizonte.
512
António Ramos Rosa
37. Instituição da Árvore No Poema
37
Instituição da árvore no poema
da terra e já sem terra a terra ainda
louvor do pássaro sobre as partes negras
de um inseguro trajecto incendiado.
Aqui, isto é, silêncio, não-poema
do poema aqui silêncio e arco
e isto o fragmento a face negra
destruída pelos insectos do incêndio.
Soberba impura face da figura
retendo a mão no vidro
a cruel ignorância encerrando a palavra
e a boca negra fechando o horizonte.
Instituição da árvore no poema
da terra e já sem terra a terra ainda
louvor do pássaro sobre as partes negras
de um inseguro trajecto incendiado.
Aqui, isto é, silêncio, não-poema
do poema aqui silêncio e arco
e isto o fragmento a face negra
destruída pelos insectos do incêndio.
Soberba impura face da figura
retendo a mão no vidro
a cruel ignorância encerrando a palavra
e a boca negra fechando o horizonte.
512
António Ramos Rosa
7. Amor da Imagem Ferida Aberta
7
Amor da imagem ferida aberta
pelo lábio perdido e o dente exacto
seja o delírio no nome no límpido quadrado.
Terrível branca imagem trémula
na mão de face dupla e branca
e branca como a folha na margem extrema
oblíqua sem espelho sem exemplo.
Lua de um crepúsculo e transeunte
no transe perfeito do acaso aberto
aqui: quase: quase exígua rara.
Amor da imagem ferida aberta
pelo lábio perdido e o dente exacto
seja o delírio no nome no límpido quadrado.
Terrível branca imagem trémula
na mão de face dupla e branca
e branca como a folha na margem extrema
oblíqua sem espelho sem exemplo.
Lua de um crepúsculo e transeunte
no transe perfeito do acaso aberto
aqui: quase: quase exígua rara.
1 156
António Ramos Rosa
31. É Uma Mulher Inequívoca Oscilante
31
É uma mulher inequívoca oscilante
com a lâmpada entre os espinhos e fugindo
sob as folhas dos plátanos sob as ondas
dos animais que crescem sob a lua
e em que as moedas brancas se iluminam
revelando a ligeireza das sandálias.
Os seus seios irrigam os quadris
e os seus lábios são de terra azul.
Ela é abelha é lâmpada é uma vértebra
é um canto uma árvore
um ramo do ar.
É uma mulher inequívoca oscilante
com a lâmpada entre os espinhos e fugindo
sob as folhas dos plátanos sob as ondas
dos animais que crescem sob a lua
e em que as moedas brancas se iluminam
revelando a ligeireza das sandálias.
Os seus seios irrigam os quadris
e os seus lábios são de terra azul.
Ela é abelha é lâmpada é uma vértebra
é um canto uma árvore
um ramo do ar.
591
António Ramos Rosa
31. É Uma Mulher Inequívoca Oscilante
31
É uma mulher inequívoca oscilante
com a lâmpada entre os espinhos e fugindo
sob as folhas dos plátanos sob as ondas
dos animais que crescem sob a lua
e em que as moedas brancas se iluminam
revelando a ligeireza das sandálias.
Os seus seios irrigam os quadris
e os seus lábios são de terra azul.
Ela é abelha é lâmpada é uma vértebra
é um canto uma árvore
um ramo do ar.
É uma mulher inequívoca oscilante
com a lâmpada entre os espinhos e fugindo
sob as folhas dos plátanos sob as ondas
dos animais que crescem sob a lua
e em que as moedas brancas se iluminam
revelando a ligeireza das sandálias.
Os seus seios irrigam os quadris
e os seus lábios são de terra azul.
Ela é abelha é lâmpada é uma vértebra
é um canto uma árvore
um ramo do ar.
591
António Ramos Rosa
31. É Uma Mulher Inequívoca Oscilante
31
É uma mulher inequívoca oscilante
com a lâmpada entre os espinhos e fugindo
sob as folhas dos plátanos sob as ondas
dos animais que crescem sob a lua
e em que as moedas brancas se iluminam
revelando a ligeireza das sandálias.
Os seus seios irrigam os quadris
e os seus lábios são de terra azul.
Ela é abelha é lâmpada é uma vértebra
é um canto uma árvore
um ramo do ar.
É uma mulher inequívoca oscilante
com a lâmpada entre os espinhos e fugindo
sob as folhas dos plátanos sob as ondas
dos animais que crescem sob a lua
e em que as moedas brancas se iluminam
revelando a ligeireza das sandálias.
Os seus seios irrigam os quadris
e os seus lábios são de terra azul.
Ela é abelha é lâmpada é uma vértebra
é um canto uma árvore
um ramo do ar.
591
António Ramos Rosa
36. Imagem (Não Ardente Aqui) da Figura
36
Imagem (não ardente aqui) da figura
ardente e enterrada sob o ventre
do cavalo e da mulher ardente igreja
sendo a pausa do seio vermelho e branco.
A nuvem que atravessa o dom da boca
da imagem liberta do deserto
institui o segredo do ouvido da ave
abrindo o horizonte às negras ancas.
Traição presente da nuvem da figura
redução ao simples animal da erva
pedra para saber o segredo do insecto.
Imagem (não ardente aqui) da figura
ardente e enterrada sob o ventre
do cavalo e da mulher ardente igreja
sendo a pausa do seio vermelho e branco.
A nuvem que atravessa o dom da boca
da imagem liberta do deserto
institui o segredo do ouvido da ave
abrindo o horizonte às negras ancas.
Traição presente da nuvem da figura
redução ao simples animal da erva
pedra para saber o segredo do insecto.
1 062
António Ramos Rosa
4. Não Será o Anjo do Losango Azul
4
Não será o anjo do losango azul
mas arma negra de água e ferro
para abrir as feridas das pernas longas
obscenas e negras ou de mortal brancura.
Quem abre o triângulo exacto e crespo
fere a árvore da imagem
fere o vidro
do não retido ou não saber do gesto.
Não ser a limpidez das pernas nuas
mas abrir o sexo da árvore obscura
terminar o luto da terra sem a terra.
Não será o anjo do losango azul
mas arma negra de água e ferro
para abrir as feridas das pernas longas
obscenas e negras ou de mortal brancura.
Quem abre o triângulo exacto e crespo
fere a árvore da imagem
fere o vidro
do não retido ou não saber do gesto.
Não ser a limpidez das pernas nuas
mas abrir o sexo da árvore obscura
terminar o luto da terra sem a terra.
920
António Ramos Rosa
27. Aspecto de — Ou Circunstância Simples
27
Aspecto de — ou circunstância simples
do pobre membro inútil de tão pobre
que ninguém diz a terra e o muro de cinza
que ninguém fala do membro pobre e nu.
A não verdade e a verdade, a dupla
vulva longa e querida impenetrável
despe o membro da terra/adoração
do simples sol pequeno mas palpável.
O nascimento é isto: o isto
de nenhuma fala, escrita na
parede corrompida e curta
onde está o membro, o sol pequeno.
Aspecto de — ou circunstância simples
do pobre membro inútil de tão pobre
que ninguém diz a terra e o muro de cinza
que ninguém fala do membro pobre e nu.
A não verdade e a verdade, a dupla
vulva longa e querida impenetrável
despe o membro da terra/adoração
do simples sol pequeno mas palpável.
O nascimento é isto: o isto
de nenhuma fala, escrita na
parede corrompida e curta
onde está o membro, o sol pequeno.
978
António Ramos Rosa
25. o Ombro de — Nenhum Ombro Ó Ombro
25
O ombro de — nenhum ombro ó ombro
sob a cálida treva o tambor do sol
e a riqueza hermética da harpa hermética
o sol restituído à iniciação da árvore.
Respirar respirar primeiro plano
de água ao nível dessa nuvem
onde o animal pedestre nos restitui o rastro
por onde descemos à terra mais terrestre.
Final do sim — o ombro branco
e sim do sim do não do não
jogo de afirmação jogo da mão
e o primeiro sol na mão na outra mão.
O ombro de — nenhum ombro ó ombro
sob a cálida treva o tambor do sol
e a riqueza hermética da harpa hermética
o sol restituído à iniciação da árvore.
Respirar respirar primeiro plano
de água ao nível dessa nuvem
onde o animal pedestre nos restitui o rastro
por onde descemos à terra mais terrestre.
Final do sim — o ombro branco
e sim do sim do não do não
jogo de afirmação jogo da mão
e o primeiro sol na mão na outra mão.
1 028
António Ramos Rosa
25. o Ombro de — Nenhum Ombro Ó Ombro
25
O ombro de — nenhum ombro ó ombro
sob a cálida treva o tambor do sol
e a riqueza hermética da harpa hermética
o sol restituído à iniciação da árvore.
Respirar respirar primeiro plano
de água ao nível dessa nuvem
onde o animal pedestre nos restitui o rastro
por onde descemos à terra mais terrestre.
Final do sim — o ombro branco
e sim do sim do não do não
jogo de afirmação jogo da mão
e o primeiro sol na mão na outra mão.
O ombro de — nenhum ombro ó ombro
sob a cálida treva o tambor do sol
e a riqueza hermética da harpa hermética
o sol restituído à iniciação da árvore.
Respirar respirar primeiro plano
de água ao nível dessa nuvem
onde o animal pedestre nos restitui o rastro
por onde descemos à terra mais terrestre.
Final do sim — o ombro branco
e sim do sim do não do não
jogo de afirmação jogo da mão
e o primeiro sol na mão na outra mão.
1 028
António Ramos Rosa
Aqui Se Abre Um Parêntese
Aqui se abre um parêntese
cinza verde
que restou do dia
(foi tudo água e sombra sobre sombra
e água)
esquecidas folhas
Aqui se fecha o punho deste dia
e os limites claros
que a mão não encontrou
Aqui outra sombra entre parênteses
(a mão penetra na folhagem nocturna)
aqui no chão da noite
o corpo espera
atravessar o não de terra negra
cinza verde
que restou do dia
(foi tudo água e sombra sobre sombra
e água)
esquecidas folhas
Aqui se fecha o punho deste dia
e os limites claros
que a mão não encontrou
Aqui outra sombra entre parênteses
(a mão penetra na folhagem nocturna)
aqui no chão da noite
o corpo espera
atravessar o não de terra negra
970
António Ramos Rosa
Semelhante À Dança a Dança Mesma
Semelhante à dança a dança mesma
dos sinais como pedras sobre a água
como figuras
nas varandas
palavras queimadas numa boca negra
mas as flores
vermelhas de novo e violentas
Semelhante à dança de água e fogo
imagem desnudada
pelos punhos
nas muralhas
o corpo aberto na sombria terra
perfeição vermelha apaixonada
da imagem
inacessível
semelhante
à inviolada folha
dos sinais como pedras sobre a água
como figuras
nas varandas
palavras queimadas numa boca negra
mas as flores
vermelhas de novo e violentas
Semelhante à dança de água e fogo
imagem desnudada
pelos punhos
nas muralhas
o corpo aberto na sombria terra
perfeição vermelha apaixonada
da imagem
inacessível
semelhante
à inviolada folha
964
António Ramos Rosa
Na Morte de Celestino Alves
O lugar abandonado
Estes serão os membros de um silêncio
ou de uma súplica
na folha desesperada.
Por alguém, por cujas pálpebras
cerradas
nada eu saberei dizer.
Mas se … tu o dizes,
mesmo esta erva rasa
sem tremor
despertará um ruído abandonado.
Por alguém, por ninguém,
por cujas pálpebras
cerradas,
o olhar aqui liberto
diria a claridade de um lugar
aqui abandonado.
O cavalo vivo
Estes os membros mudos
e no entanto do branco sem paisagem
consistentes já de que desejo
de pedra e de tremor de linhas puras.
Ervas rasas, cavalo caído, sem a sombra
os acordes serão
de cores sóbrias. A mão ligada à linha
da terra, e o cavalo
no seu dorso verde
de terra reunida.
Estes os membros já perdidos
de insectos sobre
o crânio branco.
Mas eis os troncos negros
das raízes
vermelhas,
o vigor vivo do cavalo.
O sulco do rosto
Que sulco traça o teu rosto
na cinza branca
se o vejo vivo ardendo em vida?
Se as palavras corressem como as nuvens
respirando
dir-te-ia as palavras que desejo.
Oiço o silêncio inteiro sobre o teu rosto.
Estes serão os membros de um silêncio
ou de uma súplica
na folha desesperada.
Por alguém, por cujas pálpebras
cerradas
nada eu saberei dizer.
Mas se … tu o dizes,
mesmo esta erva rasa
sem tremor
despertará um ruído abandonado.
Por alguém, por ninguém,
por cujas pálpebras
cerradas,
o olhar aqui liberto
diria a claridade de um lugar
aqui abandonado.
O cavalo vivo
Estes os membros mudos
e no entanto do branco sem paisagem
consistentes já de que desejo
de pedra e de tremor de linhas puras.
Ervas rasas, cavalo caído, sem a sombra
os acordes serão
de cores sóbrias. A mão ligada à linha
da terra, e o cavalo
no seu dorso verde
de terra reunida.
Estes os membros já perdidos
de insectos sobre
o crânio branco.
Mas eis os troncos negros
das raízes
vermelhas,
o vigor vivo do cavalo.
O sulco do rosto
Que sulco traça o teu rosto
na cinza branca
se o vejo vivo ardendo em vida?
Se as palavras corressem como as nuvens
respirando
dir-te-ia as palavras que desejo.
Oiço o silêncio inteiro sobre o teu rosto.
1 127
António Ramos Rosa
Na Morte de Celestino Alves
O lugar abandonado
Estes serão os membros de um silêncio
ou de uma súplica
na folha desesperada.
Por alguém, por cujas pálpebras
cerradas
nada eu saberei dizer.
Mas se … tu o dizes,
mesmo esta erva rasa
sem tremor
despertará um ruído abandonado.
Por alguém, por ninguém,
por cujas pálpebras
cerradas,
o olhar aqui liberto
diria a claridade de um lugar
aqui abandonado.
O cavalo vivo
Estes os membros mudos
e no entanto do branco sem paisagem
consistentes já de que desejo
de pedra e de tremor de linhas puras.
Ervas rasas, cavalo caído, sem a sombra
os acordes serão
de cores sóbrias. A mão ligada à linha
da terra, e o cavalo
no seu dorso verde
de terra reunida.
Estes os membros já perdidos
de insectos sobre
o crânio branco.
Mas eis os troncos negros
das raízes
vermelhas,
o vigor vivo do cavalo.
O sulco do rosto
Que sulco traça o teu rosto
na cinza branca
se o vejo vivo ardendo em vida?
Se as palavras corressem como as nuvens
respirando
dir-te-ia as palavras que desejo.
Oiço o silêncio inteiro sobre o teu rosto.
Estes serão os membros de um silêncio
ou de uma súplica
na folha desesperada.
Por alguém, por cujas pálpebras
cerradas
nada eu saberei dizer.
Mas se … tu o dizes,
mesmo esta erva rasa
sem tremor
despertará um ruído abandonado.
Por alguém, por ninguém,
por cujas pálpebras
cerradas,
o olhar aqui liberto
diria a claridade de um lugar
aqui abandonado.
O cavalo vivo
Estes os membros mudos
e no entanto do branco sem paisagem
consistentes já de que desejo
de pedra e de tremor de linhas puras.
Ervas rasas, cavalo caído, sem a sombra
os acordes serão
de cores sóbrias. A mão ligada à linha
da terra, e o cavalo
no seu dorso verde
de terra reunida.
Estes os membros já perdidos
de insectos sobre
o crânio branco.
Mas eis os troncos negros
das raízes
vermelhas,
o vigor vivo do cavalo.
O sulco do rosto
Que sulco traça o teu rosto
na cinza branca
se o vejo vivo ardendo em vida?
Se as palavras corressem como as nuvens
respirando
dir-te-ia as palavras que desejo.
Oiço o silêncio inteiro sobre o teu rosto.
1 127
António Ramos Rosa
Até À Face Inteira
Um campo
vivido no olhar na lentidão
da pausa
momento no esquecimento
da terra
a breve folha
em que
nos reunimos na espessura
do alento do
compacto
É um lado forte
vindo devagar deixando-o vir
um lado para
absorver nu
e recomeçar o limpo
intacto
Volta sobre o campo
anterior
até à face inteira
percorrendo o chão
da nudez recomeçada
até estar todo junto de si de fora
a mão na folha
ao alcance do rumor
da árvore finda
e que não finda no rumor de si
e recomeça e se percorre o branco
de uma respirada pausa o aspirado
espaço
vivido no olhar na lentidão
da pausa
momento no esquecimento
da terra
a breve folha
em que
nos reunimos na espessura
do alento do
compacto
É um lado forte
vindo devagar deixando-o vir
um lado para
absorver nu
e recomeçar o limpo
intacto
Volta sobre o campo
anterior
até à face inteira
percorrendo o chão
da nudez recomeçada
até estar todo junto de si de fora
a mão na folha
ao alcance do rumor
da árvore finda
e que não finda no rumor de si
e recomeça e se percorre o branco
de uma respirada pausa o aspirado
espaço
1 057
António Ramos Rosa
Feliz Fusão de Sol Parede E Água, Sol…
Feliz fusão de sol parede e água, sol — mancha entre lábios e olhos, sol de água, pedra que toco no ar, no princípio do ar.
1 559
António Ramos Rosa
O Personagem Viola Uma Viola
O personagem viola uma viola
no vento. O personagem sabe
descobrir um coração de literato.
Não é a carne que se rasga nem a dor,
mas o humor universal de um só momento,
concerto de matizes, mortes, vozes,
desastres entre nuvens, velocidades,
crimes, cópulas, distinções confusas,
icebergs, insónias. Palavras e palavras
que reúnem os factos num só acto,
todas as sombras nas sombras deste sono
e um silêncio final de madrugada.
no vento. O personagem sabe
descobrir um coração de literato.
Não é a carne que se rasga nem a dor,
mas o humor universal de um só momento,
concerto de matizes, mortes, vozes,
desastres entre nuvens, velocidades,
crimes, cópulas, distinções confusas,
icebergs, insónias. Palavras e palavras
que reúnem os factos num só acto,
todas as sombras nas sombras deste sono
e um silêncio final de madrugada.
1 097
António Ramos Rosa
Há Um Animal Que Ilumina o Caminho
Há um animal que ilumina o caminho
de uma boca a outra boca de um seio a outro seio
e há um repouso na noite material de um negro espesso
no espaço do vento na profunda esfera do ventre
quem move as vibrações mínimas do sangue e as cores da página
sabemos onde a pedra reina onde os olhos se perdem
onde se bebe a água do ventre onde as cigarras se calam
O que desejamos agora são as luzes dos barcos as encostas imóveis
as pálpebras da terra e o sulco que se desce
com os pulsos do medo e do frio da noite
até um lugar onde a espessura se abre entre o vento e a sombra
e as palavras repousam na pedra do horizonte
Falamos sem o saber da argila de uma lâmpada uma lenta inclinação
e a noite vacila a linguagem vacila há uma falha um grito
quem poderá fugir sobre a face da terra
quem poderá colocar um ponto nesta frase
ninguém decidirá a opacidade trémula e nula
quem avança é uma sombra a sombra de uma sombra
e se alguém fala se alguém diz árvore lâmina
verá ainda o rosto desfeito na paciência da areia
o último sinal inútil a chuva das setas sobre o muro
de uma boca a outra boca de um seio a outro seio
e há um repouso na noite material de um negro espesso
no espaço do vento na profunda esfera do ventre
quem move as vibrações mínimas do sangue e as cores da página
sabemos onde a pedra reina onde os olhos se perdem
onde se bebe a água do ventre onde as cigarras se calam
O que desejamos agora são as luzes dos barcos as encostas imóveis
as pálpebras da terra e o sulco que se desce
com os pulsos do medo e do frio da noite
até um lugar onde a espessura se abre entre o vento e a sombra
e as palavras repousam na pedra do horizonte
Falamos sem o saber da argila de uma lâmpada uma lenta inclinação
e a noite vacila a linguagem vacila há uma falha um grito
quem poderá fugir sobre a face da terra
quem poderá colocar um ponto nesta frase
ninguém decidirá a opacidade trémula e nula
quem avança é uma sombra a sombra de uma sombra
e se alguém fala se alguém diz árvore lâmina
verá ainda o rosto desfeito na paciência da areia
o último sinal inútil a chuva das setas sobre o muro
1 123
António Ramos Rosa
O Sol Negro o Sol Branco
Pedras sombras árvores. Palavras
consciência negra do sol. Consciência da contínua
explosão.
Consciência do inifinitamente frágil e mortal.
Consciência da consciência efémera.
Sabor fúnebre da iminência.
Vácuo na cabeça e a mão que escreve
lenta, consciente? Estas palavras
que não são do desejo
nem de combate
nem são ainda do completo abandono
do desencontro mortal.
Podem dizer-me que estas pedras não são pedras
que acumulo sombras
e que não respiro as árvores
que ignoro tudo e escrevo nada.
Vivo ainda destas palavras
as mais pobres que encontro
nenhuma delas tão pobre como eu
nenhuma delas tão nua que te atinja a ti
a nós.
Disse sol outrora como se dissesse o sol
e era a morte viva que designava
era o negro esplendor do nada
era o vazio entre os espaços
de cada ser e cada coisa.
Mas era a vontade de um combate.
Era o desejo de alcançar a força viva
de lhe criar um espaço para mim e para ti
para viver ao sol desperto e nu
para viver no ser aberto
como um animal
como uma força fraterna
um corpo livre.
Cada palavra como uma pedra sobre a pedra
exacta e verdadeira.
E entre sombras e ramos entrar na clareira
do ser
onde a luz é a do encontro e do repouso
a perfeição tranquila e vegetal
a unidade íntima
o amor de estar.
consciência negra do sol. Consciência da contínua
explosão.
Consciência do inifinitamente frágil e mortal.
Consciência da consciência efémera.
Sabor fúnebre da iminência.
Vácuo na cabeça e a mão que escreve
lenta, consciente? Estas palavras
que não são do desejo
nem de combate
nem são ainda do completo abandono
do desencontro mortal.
Podem dizer-me que estas pedras não são pedras
que acumulo sombras
e que não respiro as árvores
que ignoro tudo e escrevo nada.
Vivo ainda destas palavras
as mais pobres que encontro
nenhuma delas tão pobre como eu
nenhuma delas tão nua que te atinja a ti
a nós.
Disse sol outrora como se dissesse o sol
e era a morte viva que designava
era o negro esplendor do nada
era o vazio entre os espaços
de cada ser e cada coisa.
Mas era a vontade de um combate.
Era o desejo de alcançar a força viva
de lhe criar um espaço para mim e para ti
para viver ao sol desperto e nu
para viver no ser aberto
como um animal
como uma força fraterna
um corpo livre.
Cada palavra como uma pedra sobre a pedra
exacta e verdadeira.
E entre sombras e ramos entrar na clareira
do ser
onde a luz é a do encontro e do repouso
a perfeição tranquila e vegetal
a unidade íntima
o amor de estar.
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