Poemas neste tema
Natureza e Elementos
António Ramos Rosa
28. Trémulas — de Quê — Ó Trémulas
28
Trémulas — de quê — ó trémulas.
Os raios imperceptíveis mas
cobrindo o aspecto da sombra e o seio da pomba.
Abrem-se e não cintilam pobres de
pobreza da terra não dita ou impossível
ou ainda e sempre e sempre oculta
o não da terra sendo a terra única.
Trémulas e pobres, pobres trémulas
vamos, abram-se aqui sem nenhuma
poesia na não terra mas terra pobre terra.
Trémulas — de quê — ó trémulas.
Os raios imperceptíveis mas
cobrindo o aspecto da sombra e o seio da pomba.
Abrem-se e não cintilam pobres de
pobreza da terra não dita ou impossível
ou ainda e sempre e sempre oculta
o não da terra sendo a terra única.
Trémulas e pobres, pobres trémulas
vamos, abram-se aqui sem nenhuma
poesia na não terra mas terra pobre terra.
1 082
António Ramos Rosa
36. Imagem (Não Ardente Aqui) da Figura
36
Imagem (não ardente aqui) da figura
ardente e enterrada sob o ventre
do cavalo e da mulher ardente igreja
sendo a pausa do seio vermelho e branco.
A nuvem que atravessa o dom da boca
da imagem liberta do deserto
institui o segredo do ouvido da ave
abrindo o horizonte às negras ancas.
Traição presente da nuvem da figura
redução ao simples animal da erva
pedra para saber o segredo do insecto.
Imagem (não ardente aqui) da figura
ardente e enterrada sob o ventre
do cavalo e da mulher ardente igreja
sendo a pausa do seio vermelho e branco.
A nuvem que atravessa o dom da boca
da imagem liberta do deserto
institui o segredo do ouvido da ave
abrindo o horizonte às negras ancas.
Traição presente da nuvem da figura
redução ao simples animal da erva
pedra para saber o segredo do insecto.
1 072
António Ramos Rosa
49. Oscila — E Eis a Palavra — E É Uma Palavra
49
Oscila — e eis a palavra — e é uma palavra
da boca ávida e vértebra ou plátano
preenche o ar unânime do lugar
da boca e suas unhas singulares.
Pelo quarto onde as ondas batem
é um verso de mulher um olhar de
mulher que pela janela irriga
as vértebras do vento e da linguagem.
Exausto cresce oscila ao olhar a imagem
de uma linguagem do livro da linguagem
sob os golpes desferidos pelo martelo do ar.
Oscila — e eis a palavra — e é uma palavra
da boca ávida e vértebra ou plátano
preenche o ar unânime do lugar
da boca e suas unhas singulares.
Pelo quarto onde as ondas batem
é um verso de mulher um olhar de
mulher que pela janela irriga
as vértebras do vento e da linguagem.
Exausto cresce oscila ao olhar a imagem
de uma linguagem do livro da linguagem
sob os golpes desferidos pelo martelo do ar.
941
António Ramos Rosa
60. Não Oculto a Visão Da
60
Não oculto a visão da
variável paisagem mínima que
seria do desejo sanguíneo deste dedo
nem a pulsão de uma palavra insecto.
O que oculto não sei, o que desejo é a árvore,
a expulsão do pai, substituto, o verde
crepúsculo de uma escrita pobre
no pré-formal desejo da forma e da não forma.
O mais depressa cai sobre a folha: escreve-se
sem a razão do ritmo, o espaço e ainda um ritmo,
uma pressão ou um quase nada, umas palavras
que não dão vida, que não vivem, aqui são.
Não oculto a visão da
variável paisagem mínima que
seria do desejo sanguíneo deste dedo
nem a pulsão de uma palavra insecto.
O que oculto não sei, o que desejo é a árvore,
a expulsão do pai, substituto, o verde
crepúsculo de uma escrita pobre
no pré-formal desejo da forma e da não forma.
O mais depressa cai sobre a folha: escreve-se
sem a razão do ritmo, o espaço e ainda um ritmo,
uma pressão ou um quase nada, umas palavras
que não dão vida, que não vivem, aqui são.
1 146
António Ramos Rosa
46. Uma Indelicadeza de Flor Ou o Nada Poético
46
Uma indelicadeza de flor ou o nada poético
não nega a prosa da coisa viva e verde
não é o contraste é o sereno ardente
de energia em espiral (.)
De quando não cesse o fogo ou
negação
da árvore incandescente indo à sombra
nas raízes na inversão do sim do sempre.
Qual será o principal princípio
que não procure o oposto o ausente o pouco
não destruindo a destruição e destruindo-a.
Uma indelicadeza de flor ou o nada poético
não nega a prosa da coisa viva e verde
não é o contraste é o sereno ardente
de energia em espiral (.)
De quando não cesse o fogo ou
negação
da árvore incandescente indo à sombra
nas raízes na inversão do sim do sempre.
Qual será o principal princípio
que não procure o oposto o ausente o pouco
não destruindo a destruição e destruindo-a.
952
António Ramos Rosa
46. Uma Indelicadeza de Flor Ou o Nada Poético
46
Uma indelicadeza de flor ou o nada poético
não nega a prosa da coisa viva e verde
não é o contraste é o sereno ardente
de energia em espiral (.)
De quando não cesse o fogo ou
negação
da árvore incandescente indo à sombra
nas raízes na inversão do sim do sempre.
Qual será o principal princípio
que não procure o oposto o ausente o pouco
não destruindo a destruição e destruindo-a.
Uma indelicadeza de flor ou o nada poético
não nega a prosa da coisa viva e verde
não é o contraste é o sereno ardente
de energia em espiral (.)
De quando não cesse o fogo ou
negação
da árvore incandescente indo à sombra
nas raízes na inversão do sim do sempre.
Qual será o principal princípio
que não procure o oposto o ausente o pouco
não destruindo a destruição e destruindo-a.
952
António Ramos Rosa
68. Descontínuas, Desfechadas Linhas
68
Descontínuas, desfechadas linhas
cintilam no lugar no não-lugar
e o indefinido incêndio da folhagem
desfaz as sílabas da visão igual.
Uma cavidade do encontro, o sim,
ou a coluna ou as colunas, umas linhas
solares que dividem o lugar
poderiam multiplicar-se, renovar
o sopro essencial do ser (azul interno)
e a pulsação da terra sobre as linhas livres
libertar o tempo da não-razão de ser.
Descontínuas, desfechadas linhas
cintilam no lugar no não-lugar
e o indefinido incêndio da folhagem
desfaz as sílabas da visão igual.
Uma cavidade do encontro, o sim,
ou a coluna ou as colunas, umas linhas
solares que dividem o lugar
poderiam multiplicar-se, renovar
o sopro essencial do ser (azul interno)
e a pulsação da terra sobre as linhas livres
libertar o tempo da não-razão de ser.
1 094
António Ramos Rosa
68. Descontínuas, Desfechadas Linhas
68
Descontínuas, desfechadas linhas
cintilam no lugar no não-lugar
e o indefinido incêndio da folhagem
desfaz as sílabas da visão igual.
Uma cavidade do encontro, o sim,
ou a coluna ou as colunas, umas linhas
solares que dividem o lugar
poderiam multiplicar-se, renovar
o sopro essencial do ser (azul interno)
e a pulsação da terra sobre as linhas livres
libertar o tempo da não-razão de ser.
Descontínuas, desfechadas linhas
cintilam no lugar no não-lugar
e o indefinido incêndio da folhagem
desfaz as sílabas da visão igual.
Uma cavidade do encontro, o sim,
ou a coluna ou as colunas, umas linhas
solares que dividem o lugar
poderiam multiplicar-se, renovar
o sopro essencial do ser (azul interno)
e a pulsação da terra sobre as linhas livres
libertar o tempo da não-razão de ser.
1 094
António Ramos Rosa
70. Incide a Água Onde Ainda É Água
70
Incide a água onde ainda é água
e o princípio é um não-saber
e a ilha poderia ser iluminada
pela outra ilha do horizonte incerto.
Assim as palavras mudam na carne ausente
que é a tua carne e o silêncio dessa carne
para um país real de excesso e maravilha
para a festa animal onde a montanha vibra.
As palavras mudas animam-se no dia
da sua festa incerta maravilha
é a parte que cabe à luz da vida.
Incide a água onde ainda é água
e o princípio é um não-saber
e a ilha poderia ser iluminada
pela outra ilha do horizonte incerto.
Assim as palavras mudam na carne ausente
que é a tua carne e o silêncio dessa carne
para um país real de excesso e maravilha
para a festa animal onde a montanha vibra.
As palavras mudas animam-se no dia
da sua festa incerta maravilha
é a parte que cabe à luz da vida.
1 137
António Ramos Rosa
64. Mão Sem Sombra Sensível Veio
64
Mão sem sombra sensível veio
de água estranha escrita
do animal sem referência a terra
na ansiosa paciência da sua teia.
Na ferida ardente de uma página
domina a feliz respiração
antes do aparecimento da folhagem.
Soletrar o espaço o quanto de água
sobre a brilhante sede de uma parede ardente
e respirando o espaço no espaço da água
quadriculada de um claro verde.
Mão sem sombra sensível veio
de água estranha escrita
do animal sem referência a terra
na ansiosa paciência da sua teia.
Na ferida ardente de uma página
domina a feliz respiração
antes do aparecimento da folhagem.
Soletrar o espaço o quanto de água
sobre a brilhante sede de uma parede ardente
e respirando o espaço no espaço da água
quadriculada de um claro verde.
1 065
António Ramos Rosa
45. a Mão Não Vai Ao Fundo da Noite
45
A mão não vai ao fundo da noite
nem a noite é musical aranha
nem sopro mais ligeiro nem pedra do desejo
a mão não esquece a árvore nem a língua morre.
A pedra sob a aranha musical
resiste: em seus grânulos negros
em seu estar que é um não estar de pedra
nunca dirás a pedra; granito ou quartzo.
Proporções difíceis, não complexas, são:
não flores de um limbo, mas língua ou linguagem
iluminado livro pela sombra das palavras.
A mão não vai ao fundo da noite
nem a noite é musical aranha
nem sopro mais ligeiro nem pedra do desejo
a mão não esquece a árvore nem a língua morre.
A pedra sob a aranha musical
resiste: em seus grânulos negros
em seu estar que é um não estar de pedra
nunca dirás a pedra; granito ou quartzo.
Proporções difíceis, não complexas, são:
não flores de um limbo, mas língua ou linguagem
iluminado livro pela sombra das palavras.
1 109
António Ramos Rosa
43. Definição do Dia Pela Palavra do Corpo
43
Definição do dia pela palavra do corpo
aceso: cintilação das imagens sob
a escrita não límpida e escrita impura
da negra verdura do não saber exacto.
A aranha verde da folhagem verde
tece as linhas de linguagem e sombra
ardente e esquece o que tece esquece a arma
o corpo do desejo armas discretas.
Quem saberá do silêncio das folhas
e da perspectiva incendiada sob
a não verdade a confusão o medo.
Definição do dia pela palavra do corpo
aceso: cintilação das imagens sob
a escrita não límpida e escrita impura
da negra verdura do não saber exacto.
A aranha verde da folhagem verde
tece as linhas de linguagem e sombra
ardente e esquece o que tece esquece a arma
o corpo do desejo armas discretas.
Quem saberá do silêncio das folhas
e da perspectiva incendiada sob
a não verdade a confusão o medo.
1 079
António Ramos Rosa
31. É Uma Mulher Inequívoca Oscilante
31
É uma mulher inequívoca oscilante
com a lâmpada entre os espinhos e fugindo
sob as folhas dos plátanos sob as ondas
dos animais que crescem sob a lua
e em que as moedas brancas se iluminam
revelando a ligeireza das sandálias.
Os seus seios irrigam os quadris
e os seus lábios são de terra azul.
Ela é abelha é lâmpada é uma vértebra
é um canto uma árvore
um ramo do ar.
É uma mulher inequívoca oscilante
com a lâmpada entre os espinhos e fugindo
sob as folhas dos plátanos sob as ondas
dos animais que crescem sob a lua
e em que as moedas brancas se iluminam
revelando a ligeireza das sandálias.
Os seus seios irrigam os quadris
e os seus lábios são de terra azul.
Ela é abelha é lâmpada é uma vértebra
é um canto uma árvore
um ramo do ar.
598
António Ramos Rosa
31. É Uma Mulher Inequívoca Oscilante
31
É uma mulher inequívoca oscilante
com a lâmpada entre os espinhos e fugindo
sob as folhas dos plátanos sob as ondas
dos animais que crescem sob a lua
e em que as moedas brancas se iluminam
revelando a ligeireza das sandálias.
Os seus seios irrigam os quadris
e os seus lábios são de terra azul.
Ela é abelha é lâmpada é uma vértebra
é um canto uma árvore
um ramo do ar.
É uma mulher inequívoca oscilante
com a lâmpada entre os espinhos e fugindo
sob as folhas dos plátanos sob as ondas
dos animais que crescem sob a lua
e em que as moedas brancas se iluminam
revelando a ligeireza das sandálias.
Os seus seios irrigam os quadris
e os seus lábios são de terra azul.
Ela é abelha é lâmpada é uma vértebra
é um canto uma árvore
um ramo do ar.
598
António Ramos Rosa
31. É Uma Mulher Inequívoca Oscilante
31
É uma mulher inequívoca oscilante
com a lâmpada entre os espinhos e fugindo
sob as folhas dos plátanos sob as ondas
dos animais que crescem sob a lua
e em que as moedas brancas se iluminam
revelando a ligeireza das sandálias.
Os seus seios irrigam os quadris
e os seus lábios são de terra azul.
Ela é abelha é lâmpada é uma vértebra
é um canto uma árvore
um ramo do ar.
É uma mulher inequívoca oscilante
com a lâmpada entre os espinhos e fugindo
sob as folhas dos plátanos sob as ondas
dos animais que crescem sob a lua
e em que as moedas brancas se iluminam
revelando a ligeireza das sandálias.
Os seus seios irrigam os quadris
e os seus lábios são de terra azul.
Ela é abelha é lâmpada é uma vértebra
é um canto uma árvore
um ramo do ar.
598
António Ramos Rosa
37. Instituição da Árvore No Poema
37
Instituição da árvore no poema
da terra e já sem terra a terra ainda
louvor do pássaro sobre as partes negras
de um inseguro trajecto incendiado.
Aqui, isto é, silêncio, não-poema
do poema aqui silêncio e arco
e isto o fragmento a face negra
destruída pelos insectos do incêndio.
Soberba impura face da figura
retendo a mão no vidro
a cruel ignorância encerrando a palavra
e a boca negra fechando o horizonte.
Instituição da árvore no poema
da terra e já sem terra a terra ainda
louvor do pássaro sobre as partes negras
de um inseguro trajecto incendiado.
Aqui, isto é, silêncio, não-poema
do poema aqui silêncio e arco
e isto o fragmento a face negra
destruída pelos insectos do incêndio.
Soberba impura face da figura
retendo a mão no vidro
a cruel ignorância encerrando a palavra
e a boca negra fechando o horizonte.
526
António Ramos Rosa
37. Instituição da Árvore No Poema
37
Instituição da árvore no poema
da terra e já sem terra a terra ainda
louvor do pássaro sobre as partes negras
de um inseguro trajecto incendiado.
Aqui, isto é, silêncio, não-poema
do poema aqui silêncio e arco
e isto o fragmento a face negra
destruída pelos insectos do incêndio.
Soberba impura face da figura
retendo a mão no vidro
a cruel ignorância encerrando a palavra
e a boca negra fechando o horizonte.
Instituição da árvore no poema
da terra e já sem terra a terra ainda
louvor do pássaro sobre as partes negras
de um inseguro trajecto incendiado.
Aqui, isto é, silêncio, não-poema
do poema aqui silêncio e arco
e isto o fragmento a face negra
destruída pelos insectos do incêndio.
Soberba impura face da figura
retendo a mão no vidro
a cruel ignorância encerrando a palavra
e a boca negra fechando o horizonte.
526
António Ramos Rosa
4. Não Será o Anjo do Losango Azul
4
Não será o anjo do losango azul
mas arma negra de água e ferro
para abrir as feridas das pernas longas
obscenas e negras ou de mortal brancura.
Quem abre o triângulo exacto e crespo
fere a árvore da imagem
fere o vidro
do não retido ou não saber do gesto.
Não ser a limpidez das pernas nuas
mas abrir o sexo da árvore obscura
terminar o luto da terra sem a terra.
Não será o anjo do losango azul
mas arma negra de água e ferro
para abrir as feridas das pernas longas
obscenas e negras ou de mortal brancura.
Quem abre o triângulo exacto e crespo
fere a árvore da imagem
fere o vidro
do não retido ou não saber do gesto.
Não ser a limpidez das pernas nuas
mas abrir o sexo da árvore obscura
terminar o luto da terra sem a terra.
928
António Ramos Rosa
Estamos À Sombra de Uma Grande Folha Verde
Estamos à sombra de uma grande folha verde.
Uma grande folha de água.
Sem vertigens, mergulhamos na materna espessura de um paraíso vegetal. Toda a densidade do obscuro mundo animal se resolveu na paciência forte e suave de uma terna e acolhedora superfície arborescente que nos envolve na sensual flexuosidade dos seus ramos robustos, linhas determinadas, completas e compactas na sua generosa amplitude de promessa que em folhas, frutos, flores mantém a integridade da energia única que as compõe e as conduz ao seu termo último.
É a metamorfose de uma flora abolindo a fronteira entre o terrestre e o aquático, é o mar e a floresta, é a amorosa e firme direcção do desejo incandescente que encontra o limite da forma terminal e se manifesta na pujante plenitude do compacto, a energia viva visível em toda a sua extensão, como se todo o impulso criador se configurasse no limite máximo da fixação, da imobilidade.
Uma flora iridiscente mas cálida, paciente e impetuosa.
como o rio do pulso que a rasga
como a seiva das veias harmoniosas
árvore marinha
liberta em volutas e espirais
com ramos densos como lâmpadas,
delicadeza vegetal, aquática,
dança navegada.
A grande folha verde olha-nos liberta das suas profundezas. Que vegetal suavidade há nesse olhar de um mocho liberto da incandescente noite dos seus olhos, liberto da densa noite animal, da negrura cósmica, todo ele restituído à cálida pureza de uma verde claridade diurna arrancada às trevas brilhantes do olhar profundo e vazio. Há nesta doce e tranquila claridade verde a ligeira ondulação de certas superfícies de água cuja imobilidade não anula o ténue fluir da corrente que a conduz. É a densidade mansa da espessura materna, o sol verde coado pelo fundo e vindo à tona como uma larga e lisa folha de água.
A circulante fronteira
entre a terra e a água
entre o verde e a treva
entre a raiz e a flor
entre a noite e a luz
entre as veias e o espaço.
Habitamos a espessura do fundo obscuro da floresta-mar, mas somos ao mesmo tempo reconduzidos a um campo de claridade em que o informulado se metamorfoseou na límpida e fixa pureza de um olhar.
Habitamos a superfície, a verdadeira superfície, a verde pele de um corpo, um seio de terra e água onde a boca dos olhos e o olho da boca se dessedentam desde as raízes da sede, onde todos os poros do olhar se nutrem como pólipos que se distendessem até atingirem a aderência pura à lisa parede de água materna. Formas cumpridas como frutos fixos, compactos, límpidos, nutridos do radioso vigor de todo um percurso de seiva irradiando na amplitude mas cuja nítida generosidade evitou a dissipação mantendo a plenitude concêntrica no aberto movimento da irradiação.
No interior, na perfeita suavidade do interior aberto, visão no limite em que a imobilidade, ou a suspensão, dir-se-ia oferecer-nos a própria matéria do olhar, a libertação da visão em si mesma, essa delicadíssima flutuação de algas, anémonas, estrelas-do-mar, captação viva do movimento de uma subtilíssima percepção a um tempo musical e poética e todavia essencialmente pictórica. Tal percepção mantém a compacidade do objecto, o contorno, a luz e o sabor das suas formas, a sua densidade de coisa. Mas para além da fixidez e da retenção que poderiam congelar a vida das formas, para além dos respeitados limites objectivos que poderiam circunscrever-se à fria perfeição das linhas, existe este vigor verde, este maternal e puro saber da vida que vai encontrando as flexões, os ritmos e o pulsar da verdadeira terra original, de um mundo descoberto na sua pureza radiosa.
Uma grande folha de água.
Sem vertigens, mergulhamos na materna espessura de um paraíso vegetal. Toda a densidade do obscuro mundo animal se resolveu na paciência forte e suave de uma terna e acolhedora superfície arborescente que nos envolve na sensual flexuosidade dos seus ramos robustos, linhas determinadas, completas e compactas na sua generosa amplitude de promessa que em folhas, frutos, flores mantém a integridade da energia única que as compõe e as conduz ao seu termo último.
É a metamorfose de uma flora abolindo a fronteira entre o terrestre e o aquático, é o mar e a floresta, é a amorosa e firme direcção do desejo incandescente que encontra o limite da forma terminal e se manifesta na pujante plenitude do compacto, a energia viva visível em toda a sua extensão, como se todo o impulso criador se configurasse no limite máximo da fixação, da imobilidade.
Uma flora iridiscente mas cálida, paciente e impetuosa.
como o rio do pulso que a rasga
como a seiva das veias harmoniosas
árvore marinha
liberta em volutas e espirais
com ramos densos como lâmpadas,
delicadeza vegetal, aquática,
dança navegada.
A grande folha verde olha-nos liberta das suas profundezas. Que vegetal suavidade há nesse olhar de um mocho liberto da incandescente noite dos seus olhos, liberto da densa noite animal, da negrura cósmica, todo ele restituído à cálida pureza de uma verde claridade diurna arrancada às trevas brilhantes do olhar profundo e vazio. Há nesta doce e tranquila claridade verde a ligeira ondulação de certas superfícies de água cuja imobilidade não anula o ténue fluir da corrente que a conduz. É a densidade mansa da espessura materna, o sol verde coado pelo fundo e vindo à tona como uma larga e lisa folha de água.
A circulante fronteira
entre a terra e a água
entre o verde e a treva
entre a raiz e a flor
entre a noite e a luz
entre as veias e o espaço.
Habitamos a espessura do fundo obscuro da floresta-mar, mas somos ao mesmo tempo reconduzidos a um campo de claridade em que o informulado se metamorfoseou na límpida e fixa pureza de um olhar.
Habitamos a superfície, a verdadeira superfície, a verde pele de um corpo, um seio de terra e água onde a boca dos olhos e o olho da boca se dessedentam desde as raízes da sede, onde todos os poros do olhar se nutrem como pólipos que se distendessem até atingirem a aderência pura à lisa parede de água materna. Formas cumpridas como frutos fixos, compactos, límpidos, nutridos do radioso vigor de todo um percurso de seiva irradiando na amplitude mas cuja nítida generosidade evitou a dissipação mantendo a plenitude concêntrica no aberto movimento da irradiação.
No interior, na perfeita suavidade do interior aberto, visão no limite em que a imobilidade, ou a suspensão, dir-se-ia oferecer-nos a própria matéria do olhar, a libertação da visão em si mesma, essa delicadíssima flutuação de algas, anémonas, estrelas-do-mar, captação viva do movimento de uma subtilíssima percepção a um tempo musical e poética e todavia essencialmente pictórica. Tal percepção mantém a compacidade do objecto, o contorno, a luz e o sabor das suas formas, a sua densidade de coisa. Mas para além da fixidez e da retenção que poderiam congelar a vida das formas, para além dos respeitados limites objectivos que poderiam circunscrever-se à fria perfeição das linhas, existe este vigor verde, este maternal e puro saber da vida que vai encontrando as flexões, os ritmos e o pulsar da verdadeira terra original, de um mundo descoberto na sua pureza radiosa.
1 091
António Ramos Rosa
Estamos À Sombra de Uma Grande Folha Verde
Estamos à sombra de uma grande folha verde.
Uma grande folha de água.
Sem vertigens, mergulhamos na materna espessura de um paraíso vegetal. Toda a densidade do obscuro mundo animal se resolveu na paciência forte e suave de uma terna e acolhedora superfície arborescente que nos envolve na sensual flexuosidade dos seus ramos robustos, linhas determinadas, completas e compactas na sua generosa amplitude de promessa que em folhas, frutos, flores mantém a integridade da energia única que as compõe e as conduz ao seu termo último.
É a metamorfose de uma flora abolindo a fronteira entre o terrestre e o aquático, é o mar e a floresta, é a amorosa e firme direcção do desejo incandescente que encontra o limite da forma terminal e se manifesta na pujante plenitude do compacto, a energia viva visível em toda a sua extensão, como se todo o impulso criador se configurasse no limite máximo da fixação, da imobilidade.
Uma flora iridiscente mas cálida, paciente e impetuosa.
como o rio do pulso que a rasga
como a seiva das veias harmoniosas
árvore marinha
liberta em volutas e espirais
com ramos densos como lâmpadas,
delicadeza vegetal, aquática,
dança navegada.
A grande folha verde olha-nos liberta das suas profundezas. Que vegetal suavidade há nesse olhar de um mocho liberto da incandescente noite dos seus olhos, liberto da densa noite animal, da negrura cósmica, todo ele restituído à cálida pureza de uma verde claridade diurna arrancada às trevas brilhantes do olhar profundo e vazio. Há nesta doce e tranquila claridade verde a ligeira ondulação de certas superfícies de água cuja imobilidade não anula o ténue fluir da corrente que a conduz. É a densidade mansa da espessura materna, o sol verde coado pelo fundo e vindo à tona como uma larga e lisa folha de água.
A circulante fronteira
entre a terra e a água
entre o verde e a treva
entre a raiz e a flor
entre a noite e a luz
entre as veias e o espaço.
Habitamos a espessura do fundo obscuro da floresta-mar, mas somos ao mesmo tempo reconduzidos a um campo de claridade em que o informulado se metamorfoseou na límpida e fixa pureza de um olhar.
Habitamos a superfície, a verdadeira superfície, a verde pele de um corpo, um seio de terra e água onde a boca dos olhos e o olho da boca se dessedentam desde as raízes da sede, onde todos os poros do olhar se nutrem como pólipos que se distendessem até atingirem a aderência pura à lisa parede de água materna. Formas cumpridas como frutos fixos, compactos, límpidos, nutridos do radioso vigor de todo um percurso de seiva irradiando na amplitude mas cuja nítida generosidade evitou a dissipação mantendo a plenitude concêntrica no aberto movimento da irradiação.
No interior, na perfeita suavidade do interior aberto, visão no limite em que a imobilidade, ou a suspensão, dir-se-ia oferecer-nos a própria matéria do olhar, a libertação da visão em si mesma, essa delicadíssima flutuação de algas, anémonas, estrelas-do-mar, captação viva do movimento de uma subtilíssima percepção a um tempo musical e poética e todavia essencialmente pictórica. Tal percepção mantém a compacidade do objecto, o contorno, a luz e o sabor das suas formas, a sua densidade de coisa. Mas para além da fixidez e da retenção que poderiam congelar a vida das formas, para além dos respeitados limites objectivos que poderiam circunscrever-se à fria perfeição das linhas, existe este vigor verde, este maternal e puro saber da vida que vai encontrando as flexões, os ritmos e o pulsar da verdadeira terra original, de um mundo descoberto na sua pureza radiosa.
Uma grande folha de água.
Sem vertigens, mergulhamos na materna espessura de um paraíso vegetal. Toda a densidade do obscuro mundo animal se resolveu na paciência forte e suave de uma terna e acolhedora superfície arborescente que nos envolve na sensual flexuosidade dos seus ramos robustos, linhas determinadas, completas e compactas na sua generosa amplitude de promessa que em folhas, frutos, flores mantém a integridade da energia única que as compõe e as conduz ao seu termo último.
É a metamorfose de uma flora abolindo a fronteira entre o terrestre e o aquático, é o mar e a floresta, é a amorosa e firme direcção do desejo incandescente que encontra o limite da forma terminal e se manifesta na pujante plenitude do compacto, a energia viva visível em toda a sua extensão, como se todo o impulso criador se configurasse no limite máximo da fixação, da imobilidade.
Uma flora iridiscente mas cálida, paciente e impetuosa.
como o rio do pulso que a rasga
como a seiva das veias harmoniosas
árvore marinha
liberta em volutas e espirais
com ramos densos como lâmpadas,
delicadeza vegetal, aquática,
dança navegada.
A grande folha verde olha-nos liberta das suas profundezas. Que vegetal suavidade há nesse olhar de um mocho liberto da incandescente noite dos seus olhos, liberto da densa noite animal, da negrura cósmica, todo ele restituído à cálida pureza de uma verde claridade diurna arrancada às trevas brilhantes do olhar profundo e vazio. Há nesta doce e tranquila claridade verde a ligeira ondulação de certas superfícies de água cuja imobilidade não anula o ténue fluir da corrente que a conduz. É a densidade mansa da espessura materna, o sol verde coado pelo fundo e vindo à tona como uma larga e lisa folha de água.
A circulante fronteira
entre a terra e a água
entre o verde e a treva
entre a raiz e a flor
entre a noite e a luz
entre as veias e o espaço.
Habitamos a espessura do fundo obscuro da floresta-mar, mas somos ao mesmo tempo reconduzidos a um campo de claridade em que o informulado se metamorfoseou na límpida e fixa pureza de um olhar.
Habitamos a superfície, a verdadeira superfície, a verde pele de um corpo, um seio de terra e água onde a boca dos olhos e o olho da boca se dessedentam desde as raízes da sede, onde todos os poros do olhar se nutrem como pólipos que se distendessem até atingirem a aderência pura à lisa parede de água materna. Formas cumpridas como frutos fixos, compactos, límpidos, nutridos do radioso vigor de todo um percurso de seiva irradiando na amplitude mas cuja nítida generosidade evitou a dissipação mantendo a plenitude concêntrica no aberto movimento da irradiação.
No interior, na perfeita suavidade do interior aberto, visão no limite em que a imobilidade, ou a suspensão, dir-se-ia oferecer-nos a própria matéria do olhar, a libertação da visão em si mesma, essa delicadíssima flutuação de algas, anémonas, estrelas-do-mar, captação viva do movimento de uma subtilíssima percepção a um tempo musical e poética e todavia essencialmente pictórica. Tal percepção mantém a compacidade do objecto, o contorno, a luz e o sabor das suas formas, a sua densidade de coisa. Mas para além da fixidez e da retenção que poderiam congelar a vida das formas, para além dos respeitados limites objectivos que poderiam circunscrever-se à fria perfeição das linhas, existe este vigor verde, este maternal e puro saber da vida que vai encontrando as flexões, os ritmos e o pulsar da verdadeira terra original, de um mundo descoberto na sua pureza radiosa.
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António Ramos Rosa
7. Amor da Imagem Ferida Aberta
7
Amor da imagem ferida aberta
pelo lábio perdido e o dente exacto
seja o delírio no nome no límpido quadrado.
Terrível branca imagem trémula
na mão de face dupla e branca
e branca como a folha na margem extrema
oblíqua sem espelho sem exemplo.
Lua de um crepúsculo e transeunte
no transe perfeito do acaso aberto
aqui: quase: quase exígua rara.
Amor da imagem ferida aberta
pelo lábio perdido e o dente exacto
seja o delírio no nome no límpido quadrado.
Terrível branca imagem trémula
na mão de face dupla e branca
e branca como a folha na margem extrema
oblíqua sem espelho sem exemplo.
Lua de um crepúsculo e transeunte
no transe perfeito do acaso aberto
aqui: quase: quase exígua rara.
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António Ramos Rosa
Quase Nada Ou Nada
Por quase nada ou nada
que junção de alegria corpo e terra
que mão sobrou entre as ruínas
que braço ainda respira sobre as pedras?
Isto é uma árvore ou a sombra de umas ancas?
Isto é a terra ou o suor dos ossos nus?
Ainda dirias aqui a sombra azul?
Que mulher te acompanha até ao muro?
Isto é um mar ou um nome sem espessura?
Por quase nada, uma sombra apenas,
uma sombra de quê, breve horizonte, altura
ou boca unida ainda à árvore obscura
ou só a mão que sobra entre ruínas.
Por nada eu te diria,
por um espasmo de frescura nas palavras,
ó voz entre formigas,
ó forma de desejo já perdida,
ó junção da terra ao corpo em que respiras!
que junção de alegria corpo e terra
que mão sobrou entre as ruínas
que braço ainda respira sobre as pedras?
Isto é uma árvore ou a sombra de umas ancas?
Isto é a terra ou o suor dos ossos nus?
Ainda dirias aqui a sombra azul?
Que mulher te acompanha até ao muro?
Isto é um mar ou um nome sem espessura?
Por quase nada, uma sombra apenas,
uma sombra de quê, breve horizonte, altura
ou boca unida ainda à árvore obscura
ou só a mão que sobra entre ruínas.
Por nada eu te diria,
por um espasmo de frescura nas palavras,
ó voz entre formigas,
ó forma de desejo já perdida,
ó junção da terra ao corpo em que respiras!
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António Ramos Rosa
Feliz Fusão de Sol Parede E Água, Sol…
Feliz fusão de sol parede e água, sol — mancha entre lábios e olhos, sol de água, pedra que toco no ar, no princípio do ar.
1 567
António Ramos Rosa
O Sol Negro o Sol Branco
Pedras sombras árvores. Palavras
consciência negra do sol. Consciência da contínua
explosão.
Consciência do inifinitamente frágil e mortal.
Consciência da consciência efémera.
Sabor fúnebre da iminência.
Vácuo na cabeça e a mão que escreve
lenta, consciente? Estas palavras
que não são do desejo
nem de combate
nem são ainda do completo abandono
do desencontro mortal.
Podem dizer-me que estas pedras não são pedras
que acumulo sombras
e que não respiro as árvores
que ignoro tudo e escrevo nada.
Vivo ainda destas palavras
as mais pobres que encontro
nenhuma delas tão pobre como eu
nenhuma delas tão nua que te atinja a ti
a nós.
Disse sol outrora como se dissesse o sol
e era a morte viva que designava
era o negro esplendor do nada
era o vazio entre os espaços
de cada ser e cada coisa.
Mas era a vontade de um combate.
Era o desejo de alcançar a força viva
de lhe criar um espaço para mim e para ti
para viver ao sol desperto e nu
para viver no ser aberto
como um animal
como uma força fraterna
um corpo livre.
Cada palavra como uma pedra sobre a pedra
exacta e verdadeira.
E entre sombras e ramos entrar na clareira
do ser
onde a luz é a do encontro e do repouso
a perfeição tranquila e vegetal
a unidade íntima
o amor de estar.
consciência negra do sol. Consciência da contínua
explosão.
Consciência do inifinitamente frágil e mortal.
Consciência da consciência efémera.
Sabor fúnebre da iminência.
Vácuo na cabeça e a mão que escreve
lenta, consciente? Estas palavras
que não são do desejo
nem de combate
nem são ainda do completo abandono
do desencontro mortal.
Podem dizer-me que estas pedras não são pedras
que acumulo sombras
e que não respiro as árvores
que ignoro tudo e escrevo nada.
Vivo ainda destas palavras
as mais pobres que encontro
nenhuma delas tão pobre como eu
nenhuma delas tão nua que te atinja a ti
a nós.
Disse sol outrora como se dissesse o sol
e era a morte viva que designava
era o negro esplendor do nada
era o vazio entre os espaços
de cada ser e cada coisa.
Mas era a vontade de um combate.
Era o desejo de alcançar a força viva
de lhe criar um espaço para mim e para ti
para viver ao sol desperto e nu
para viver no ser aberto
como um animal
como uma força fraterna
um corpo livre.
Cada palavra como uma pedra sobre a pedra
exacta e verdadeira.
E entre sombras e ramos entrar na clareira
do ser
onde a luz é a do encontro e do repouso
a perfeição tranquila e vegetal
a unidade íntima
o amor de estar.
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