Poemas neste tema
Natureza e Elementos
António Ramos Rosa
Escrever
Escrever para
descer
no fundo da nudez
na invenção de cada frase
que respira o ar
Gérmenes entrelaçados, negra
pureza
da terra e da mulher
da produção de um fogo sobre o chão e a página
corpo flutuante impelido
pelo sangue das palavras e pelo sangue
contínua curva dos flancos
das conjunções
disseminadas
respiração total
no horizonte
Escrever E as folhas
separavam-se de novo
de novo a terra um corpo adormecido
despojado
o tecido trémulo sob
a epiderme
o ciclo repercutido do silêncio
uma ponte e outra ponte e outra ponte
a parede permanente o vácuo
e o súbito cavalo
sobre
as constelações silenciosas
descer
no fundo da nudez
na invenção de cada frase
que respira o ar
Gérmenes entrelaçados, negra
pureza
da terra e da mulher
da produção de um fogo sobre o chão e a página
corpo flutuante impelido
pelo sangue das palavras e pelo sangue
contínua curva dos flancos
das conjunções
disseminadas
respiração total
no horizonte
Escrever E as folhas
separavam-se de novo
de novo a terra um corpo adormecido
despojado
o tecido trémulo sob
a epiderme
o ciclo repercutido do silêncio
uma ponte e outra ponte e outra ponte
a parede permanente o vácuo
e o súbito cavalo
sobre
as constelações silenciosas
631
António Ramos Rosa
Não Reflectir Não Pousar Isto É Uma
Não reflectir não pousar isto é uma
modulação uma parcela viva uma outra forma do ar
(mas uma parede separa-te da própria folha onde escreves)
todas as palavras se buscam sobre degraus de espuma
aproximamo-nos de uma montanha ou de um parágrafo luminoso
Desejaria escrever sobre a perfeita unidade nocturna
sobre o eclipse do teu corpo que é uma única sílaba e uma elipse
e as cores e as pausas das cores no teu corpo os teus ombros nas ervas
que abstracções tão vivas que intensidades leves
eu lembro-me sempre dessa lâmpada que se extingue no teu quarto
a uma hora indeterminável e absolutamente incoincidente
eu guardo na boca o sabor das tuas coxas cálidas e musgosas
e esta é a hora do silêncio nas ervas e nos pulsos flutuantes
modulação uma parcela viva uma outra forma do ar
(mas uma parede separa-te da própria folha onde escreves)
todas as palavras se buscam sobre degraus de espuma
aproximamo-nos de uma montanha ou de um parágrafo luminoso
Desejaria escrever sobre a perfeita unidade nocturna
sobre o eclipse do teu corpo que é uma única sílaba e uma elipse
e as cores e as pausas das cores no teu corpo os teus ombros nas ervas
que abstracções tão vivas que intensidades leves
eu lembro-me sempre dessa lâmpada que se extingue no teu quarto
a uma hora indeterminável e absolutamente incoincidente
eu guardo na boca o sabor das tuas coxas cálidas e musgosas
e esta é a hora do silêncio nas ervas e nos pulsos flutuantes
1 024
António Ramos Rosa
A Espessura É Branca
A espessura da árvore
é branca
A casa repercute
os favos do silêncio
Ouço a medula da madeira
o pudor do silêncio jovem
O sangue circula sem bandeiras
ri na brancura
do corpo
Um rosto sob a cabeleira
rompe
no ardor do instante
em relâmpagos de ternura
Todas as hastes livres nascem
do quadrado aberto
sobre o rio
A palavra é um rosto que deixa ver o branco
do seu tremor
Do branco ao negro o branco
fogo
de uma árvore que estala em cada mão
O tronco antigo
é a casa nova
nos seus ramos vivos
*
Não uma escrita invulgar mas como as ervas
pobres. Como as pedras.
Tu poderás captar o esplendor.
Chamar-lhe-ás suave sob um sono de árvores.
Caminharás entre as plantas. Sentirás a sua sede.
E o olhar abrir-se-á no escuro fresco.
Ninguém te dirá que não te perdes na
densa água negra. Ou no branco papel.
Nunca apagarás o desejo. Nem
desistirás de procurar o lugar
ainda que lhe chames ausência.
Procura e não procures. Não existe um centro.
Mas a clareira por vezes
de súbito retém-nos.
*
Não é o tempo da lucidez amada.
Não é o tempo do templo, não invoques
a chama da árvore. Estende o braço na água.
Escreve como se não escrevesses.
Este é um campo onde plantas brancas
se avermelham às vezes nos quadrados.
Se puderes aviva as fugidias
relações
de uma parede de sombra
interrompe o clamor da cidade
lê os indecifráveis signos da força silenciosa.
Que os insectos estalem de súbito no ardor
de uma estação precária
e entre as ruínas, a frescura da luz,
de umas palavras: argila fogo pedra
iluminem o frágil rosto macerado.
*
A linguagem das coisas é um sono
verde. E tu não procuras
ver, tu vês a sombra e o espaço.
E o teu desejo é no lugar a água branca.
A casa junto aos juncos,
memória anulada, amor de nada e súbita
queda num apagado rumor de um nome.
A terra que pronuncias sabe ao desejo
de uma boca nas ervas
ou de um vaso escuro cheio de água clara.
Tudo o que se diz fica por dizer.
Como se um elemento faltasse na paisagem,
mas de súbito na distância próxima
a figura de luz do horizonte.
é branca
A casa repercute
os favos do silêncio
Ouço a medula da madeira
o pudor do silêncio jovem
O sangue circula sem bandeiras
ri na brancura
do corpo
Um rosto sob a cabeleira
rompe
no ardor do instante
em relâmpagos de ternura
Todas as hastes livres nascem
do quadrado aberto
sobre o rio
A palavra é um rosto que deixa ver o branco
do seu tremor
Do branco ao negro o branco
fogo
de uma árvore que estala em cada mão
O tronco antigo
é a casa nova
nos seus ramos vivos
*
Não uma escrita invulgar mas como as ervas
pobres. Como as pedras.
Tu poderás captar o esplendor.
Chamar-lhe-ás suave sob um sono de árvores.
Caminharás entre as plantas. Sentirás a sua sede.
E o olhar abrir-se-á no escuro fresco.
Ninguém te dirá que não te perdes na
densa água negra. Ou no branco papel.
Nunca apagarás o desejo. Nem
desistirás de procurar o lugar
ainda que lhe chames ausência.
Procura e não procures. Não existe um centro.
Mas a clareira por vezes
de súbito retém-nos.
*
Não é o tempo da lucidez amada.
Não é o tempo do templo, não invoques
a chama da árvore. Estende o braço na água.
Escreve como se não escrevesses.
Este é um campo onde plantas brancas
se avermelham às vezes nos quadrados.
Se puderes aviva as fugidias
relações
de uma parede de sombra
interrompe o clamor da cidade
lê os indecifráveis signos da força silenciosa.
Que os insectos estalem de súbito no ardor
de uma estação precária
e entre as ruínas, a frescura da luz,
de umas palavras: argila fogo pedra
iluminem o frágil rosto macerado.
*
A linguagem das coisas é um sono
verde. E tu não procuras
ver, tu vês a sombra e o espaço.
E o teu desejo é no lugar a água branca.
A casa junto aos juncos,
memória anulada, amor de nada e súbita
queda num apagado rumor de um nome.
A terra que pronuncias sabe ao desejo
de uma boca nas ervas
ou de um vaso escuro cheio de água clara.
Tudo o que se diz fica por dizer.
Como se um elemento faltasse na paisagem,
mas de súbito na distância próxima
a figura de luz do horizonte.
1 077
António Ramos Rosa
Amamos Num Vislumbre Terra Suspensa
Amamos num vislumbre terra suspensa
chamamos limiar a esta chama
e uma ideia de fogo branco habita o pulso
um vaso negro irradia sobre o branco
Amamos o limiar o pólen dos mortos
na sombra desta palma deste odor de chama
chamamos alta a esta chama nua
E é uma mulher direita imóvel nua
Amamos esta terra esta sombra da mão
amamos esta escrita de água e dança obscura
caminhamos contra o hálito da noite
chamamos limiar a esta chama
e uma ideia de fogo branco habita o pulso
um vaso negro irradia sobre o branco
Amamos o limiar o pólen dos mortos
na sombra desta palma deste odor de chama
chamamos alta a esta chama nua
E é uma mulher direita imóvel nua
Amamos esta terra esta sombra da mão
amamos esta escrita de água e dança obscura
caminhamos contra o hálito da noite
1 036
António Ramos Rosa
O Sol Negro o Sol Branco
Pedras sombras árvores. Palavras
consciência negra do sol. Consciência da contínua
explosão.
Consciência do inifinitamente frágil e mortal.
Consciência da consciência efémera.
Sabor fúnebre da iminência.
Vácuo na cabeça e a mão que escreve
lenta, consciente? Estas palavras
que não são do desejo
nem de combate
nem são ainda do completo abandono
do desencontro mortal.
Podem dizer-me que estas pedras não são pedras
que acumulo sombras
e que não respiro as árvores
que ignoro tudo e escrevo nada.
Vivo ainda destas palavras
as mais pobres que encontro
nenhuma delas tão pobre como eu
nenhuma delas tão nua que te atinja a ti
a nós.
Disse sol outrora como se dissesse o sol
e era a morte viva que designava
era o negro esplendor do nada
era o vazio entre os espaços
de cada ser e cada coisa.
Mas era a vontade de um combate.
Era o desejo de alcançar a força viva
de lhe criar um espaço para mim e para ti
para viver ao sol desperto e nu
para viver no ser aberto
como um animal
como uma força fraterna
um corpo livre.
Cada palavra como uma pedra sobre a pedra
exacta e verdadeira.
E entre sombras e ramos entrar na clareira
do ser
onde a luz é a do encontro e do repouso
a perfeição tranquila e vegetal
a unidade íntima
o amor de estar.
consciência negra do sol. Consciência da contínua
explosão.
Consciência do inifinitamente frágil e mortal.
Consciência da consciência efémera.
Sabor fúnebre da iminência.
Vácuo na cabeça e a mão que escreve
lenta, consciente? Estas palavras
que não são do desejo
nem de combate
nem são ainda do completo abandono
do desencontro mortal.
Podem dizer-me que estas pedras não são pedras
que acumulo sombras
e que não respiro as árvores
que ignoro tudo e escrevo nada.
Vivo ainda destas palavras
as mais pobres que encontro
nenhuma delas tão pobre como eu
nenhuma delas tão nua que te atinja a ti
a nós.
Disse sol outrora como se dissesse o sol
e era a morte viva que designava
era o negro esplendor do nada
era o vazio entre os espaços
de cada ser e cada coisa.
Mas era a vontade de um combate.
Era o desejo de alcançar a força viva
de lhe criar um espaço para mim e para ti
para viver ao sol desperto e nu
para viver no ser aberto
como um animal
como uma força fraterna
um corpo livre.
Cada palavra como uma pedra sobre a pedra
exacta e verdadeira.
E entre sombras e ramos entrar na clareira
do ser
onde a luz é a do encontro e do repouso
a perfeição tranquila e vegetal
a unidade íntima
o amor de estar.
647
António Ramos Rosa
Corpo Solto Instantâneo…
Corpo solto instantâneo entre as árvores e o mar, margem de uma claridade de lâmina deserta, corpo devastado pela usura última, caminhando como na primeira página do deserto e já pressentindo e perdendo a primeira palavra do mar.
1 111
António Ramos Rosa
Corpo Solto Instantâneo…
Corpo solto instantâneo entre as árvores e o mar, margem de uma claridade de lâmina deserta, corpo devastado pela usura última, caminhando como na primeira página do deserto e já pressentindo e perdendo a primeira palavra do mar.
1 111
António Ramos Rosa
Há Um Animal Que Ilumina o Caminho
Há um animal que ilumina o caminho
de uma boca a outra boca de um seio a outro seio
e há um repouso na noite material de um negro espesso
no espaço do vento na profunda esfera do ventre
quem move as vibrações mínimas do sangue e as cores da página
sabemos onde a pedra reina onde os olhos se perdem
onde se bebe a água do ventre onde as cigarras se calam
O que desejamos agora são as luzes dos barcos as encostas imóveis
as pálpebras da terra e o sulco que se desce
com os pulsos do medo e do frio da noite
até um lugar onde a espessura se abre entre o vento e a sombra
e as palavras repousam na pedra do horizonte
Falamos sem o saber da argila de uma lâmpada uma lenta inclinação
e a noite vacila a linguagem vacila há uma falha um grito
quem poderá fugir sobre a face da terra
quem poderá colocar um ponto nesta frase
ninguém decidirá a opacidade trémula e nula
quem avança é uma sombra a sombra de uma sombra
e se alguém fala se alguém diz árvore lâmina
verá ainda o rosto desfeito na paciência da areia
o último sinal inútil a chuva das setas sobre o muro
de uma boca a outra boca de um seio a outro seio
e há um repouso na noite material de um negro espesso
no espaço do vento na profunda esfera do ventre
quem move as vibrações mínimas do sangue e as cores da página
sabemos onde a pedra reina onde os olhos se perdem
onde se bebe a água do ventre onde as cigarras se calam
O que desejamos agora são as luzes dos barcos as encostas imóveis
as pálpebras da terra e o sulco que se desce
com os pulsos do medo e do frio da noite
até um lugar onde a espessura se abre entre o vento e a sombra
e as palavras repousam na pedra do horizonte
Falamos sem o saber da argila de uma lâmpada uma lenta inclinação
e a noite vacila a linguagem vacila há uma falha um grito
quem poderá fugir sobre a face da terra
quem poderá colocar um ponto nesta frase
ninguém decidirá a opacidade trémula e nula
quem avança é uma sombra a sombra de uma sombra
e se alguém fala se alguém diz árvore lâmina
verá ainda o rosto desfeito na paciência da areia
o último sinal inútil a chuva das setas sobre o muro
1 135
António Ramos Rosa
Feliz Fusão de Sol Parede E Água, Sol…
Feliz fusão de sol parede e água, sol — mancha entre lábios e olhos, sol de água, pedra que toco no ar, no princípio do ar.
1 566
António Ramos Rosa
Horizontal Linguagem
Há demasiadas sombras sobre a pedra
aqui o sol é branco o sol é branco
nenhum animal avança sobre o ramo
se nada vejo já e não verei é porque vejo
o desejo e a sombra a sombra e o desejo
Ruptura ou inversão do objecto
do desejo a sua cor é a do animal
na água a água aqui no novo
espaço
A boca bebe sombra e água
bebe
sombra
e
água
Na página o sol é branco
o sol
*
Estas pedras sem aranhas
são palavras
nuas
uma corrente límpida atravessa a página
uma árvore irrompe
nova edição de folhas
um sopro sobre os olhos sobre as pernas
a fenda negra e crespa sangra sobre a boca
sangue e cal
saliva sombra
*
Mutação de cores e música de lâmpadas
Em qualquer outra parte dir-se-ia um beijo
aqui é a trajectória da sombra branca
e de súbito vermelha num território de verdura ardente
Noutro país seria o mistério do crepúsculo
sobre um corpo inerme e verde
noutro país
mas aqui
Esplendor de um corpo penetração solar
mutação da lua em sol de língua em língua
livre caos na caverna limpidez nas trevas
e o que é a boca na boca a música do sol
e a densidade azul a aliança lisa
os nomes com os nomes lâminas lábios
fogo água argila sangue
Corrente de lâmpadas
brancas
os arcos
da água sobre as ancas destes deuses ou insectos
os números e as formigas doces as árvores das muralhas
a terra
e os seus ombros descobertos gotejantes
a tua garganta alta
as tuas pernas altas
o esplendor e a sombra do teu corpo
tudo se transforma no esplendor
da página
mutação rumor ou música
*
O corpo e a terra uniram-se num corpo
numa página
as pernas sobre as pernas eis o sol
o novo sol nos braços
e
nos dentes
eu como-te nas ervas
no silêncio da folhagem
E eu digo que tu és o meu silêncio
e bebo-te
Esta é a terra do corpo
e a cúpula do desejo com a sombra
e
uma espécie de música incerta o sussurro de um insecto
Que violência nova na muralha
do teu corpo
e nas palavras do teu corpo
incandescente
Entre os dentes da sombra
uma agonia verde um esplendor
o enigma da terra
o silêncio
*
Que terra ainda e sempre
a amplitude Agora
ouvimos outras bocas entre as lâmpadas
latejantes
quem canta? Ninguém Alguém
Entre ouvir e não ouvir existe um sim
Se soubéssemos o que sabemos não saberíamos
A torre transformou-se numa planície vermelha
A caverna mudou-se num rio luminoso
*
Quando viveste
se é agora que vives
se é agora agora
que caminhas
no sol novo
A terra Aqui escrita uma vez mais Uma única vez
aqui a folhagem límpida
sobre a muralha
e o teu próprio corpo contra
é ainda uma muralha
contra a muralha verde e sombria, gotejante
Ouvimos agora a torrente do silêncio
ouvimos o silêncio e
os nomes
*
Ascendem brancas pernas bocas entre lâmpadas
altos seios
e o interior de um barco os sexos verdes
braços ou polvos estrelas animais redondos
Não dissemos amor mas aqui e agora
é um rio, um rio e não sabemos
o que sabemos: água ou fogo, água e fogo, sangue
Caminhamos Flutuamos Navegamos no fogo
da água
é o nosso sangue, o sangue de outros, o sangue
de ninguém
e onde termina
o que principia?
Aqui, do sangue, nasceu o encontro
o esplendor
bocas vivas braços vivos olhos vivos
e mãos vivas
escrevem
como se fossem apenas
esta mão
sobre esta folha
o rio de fogo que não cessa
*
E eis que de novo a sombra cai
sobre a pedra
ou sobre a mão
Onde de novo a luz do sol
Recomeço o que nunca cessa
a outra mão
aquela
que descreve o que a outra escreve
e a surpresa nasce de um novo sol
jogo de sombras e reflexos pálpebras
dedos suaves sobre suaves sexos olhos
que são palavras e palavras que são olhos
dizem tudo o que não dizem, dizem,
inexplicável corrente em mutação constante,
espelho e muralha, luz e sombra,
entre a terra e a página, entre a treva e a música
animais animais são bocas que dizem bocas
e são formas de amor sofrimento e medo
atravessam écrans entre ofuscantes lâmpadas
esgueiram-se, fluidas, em rios e rios de espelhos
*
Por vezes as palavras quase se perdem quase
nem música nem treva,
mas uma mancha de cal
uma mão decepada
mas apenas um sombrio sussurro
Mas tudo podem ser e mesmo nada
e entre nada e nada
lançam ainda um arco
que pode ser de água ou de silêncio
Sangue
argila
fogo
ou terra
Incessantes entre o branco e o sangue
entre a terra e a página
elas recomeçam Chamo-lhes pedras
ou folhagem
e são surpresas de água ou fogo e sombra
E recomeçam E recomeçam
aqui o sol é branco o sol é branco
nenhum animal avança sobre o ramo
se nada vejo já e não verei é porque vejo
o desejo e a sombra a sombra e o desejo
Ruptura ou inversão do objecto
do desejo a sua cor é a do animal
na água a água aqui no novo
espaço
A boca bebe sombra e água
bebe
sombra
e
água
Na página o sol é branco
o sol
*
Estas pedras sem aranhas
são palavras
nuas
uma corrente límpida atravessa a página
uma árvore irrompe
nova edição de folhas
um sopro sobre os olhos sobre as pernas
a fenda negra e crespa sangra sobre a boca
sangue e cal
saliva sombra
*
Mutação de cores e música de lâmpadas
Em qualquer outra parte dir-se-ia um beijo
aqui é a trajectória da sombra branca
e de súbito vermelha num território de verdura ardente
Noutro país seria o mistério do crepúsculo
sobre um corpo inerme e verde
noutro país
mas aqui
Esplendor de um corpo penetração solar
mutação da lua em sol de língua em língua
livre caos na caverna limpidez nas trevas
e o que é a boca na boca a música do sol
e a densidade azul a aliança lisa
os nomes com os nomes lâminas lábios
fogo água argila sangue
Corrente de lâmpadas
brancas
os arcos
da água sobre as ancas destes deuses ou insectos
os números e as formigas doces as árvores das muralhas
a terra
e os seus ombros descobertos gotejantes
a tua garganta alta
as tuas pernas altas
o esplendor e a sombra do teu corpo
tudo se transforma no esplendor
da página
mutação rumor ou música
*
O corpo e a terra uniram-se num corpo
numa página
as pernas sobre as pernas eis o sol
o novo sol nos braços
e
nos dentes
eu como-te nas ervas
no silêncio da folhagem
E eu digo que tu és o meu silêncio
e bebo-te
Esta é a terra do corpo
e a cúpula do desejo com a sombra
e
uma espécie de música incerta o sussurro de um insecto
Que violência nova na muralha
do teu corpo
e nas palavras do teu corpo
incandescente
Entre os dentes da sombra
uma agonia verde um esplendor
o enigma da terra
o silêncio
*
Que terra ainda e sempre
a amplitude Agora
ouvimos outras bocas entre as lâmpadas
latejantes
quem canta? Ninguém Alguém
Entre ouvir e não ouvir existe um sim
Se soubéssemos o que sabemos não saberíamos
A torre transformou-se numa planície vermelha
A caverna mudou-se num rio luminoso
*
Quando viveste
se é agora que vives
se é agora agora
que caminhas
no sol novo
A terra Aqui escrita uma vez mais Uma única vez
aqui a folhagem límpida
sobre a muralha
e o teu próprio corpo contra
é ainda uma muralha
contra a muralha verde e sombria, gotejante
Ouvimos agora a torrente do silêncio
ouvimos o silêncio e
os nomes
*
Ascendem brancas pernas bocas entre lâmpadas
altos seios
e o interior de um barco os sexos verdes
braços ou polvos estrelas animais redondos
Não dissemos amor mas aqui e agora
é um rio, um rio e não sabemos
o que sabemos: água ou fogo, água e fogo, sangue
Caminhamos Flutuamos Navegamos no fogo
da água
é o nosso sangue, o sangue de outros, o sangue
de ninguém
e onde termina
o que principia?
Aqui, do sangue, nasceu o encontro
o esplendor
bocas vivas braços vivos olhos vivos
e mãos vivas
escrevem
como se fossem apenas
esta mão
sobre esta folha
o rio de fogo que não cessa
*
E eis que de novo a sombra cai
sobre a pedra
ou sobre a mão
Onde de novo a luz do sol
Recomeço o que nunca cessa
a outra mão
aquela
que descreve o que a outra escreve
e a surpresa nasce de um novo sol
jogo de sombras e reflexos pálpebras
dedos suaves sobre suaves sexos olhos
que são palavras e palavras que são olhos
dizem tudo o que não dizem, dizem,
inexplicável corrente em mutação constante,
espelho e muralha, luz e sombra,
entre a terra e a página, entre a treva e a música
animais animais são bocas que dizem bocas
e são formas de amor sofrimento e medo
atravessam écrans entre ofuscantes lâmpadas
esgueiram-se, fluidas, em rios e rios de espelhos
*
Por vezes as palavras quase se perdem quase
nem música nem treva,
mas uma mancha de cal
uma mão decepada
mas apenas um sombrio sussurro
Mas tudo podem ser e mesmo nada
e entre nada e nada
lançam ainda um arco
que pode ser de água ou de silêncio
Sangue
argila
fogo
ou terra
Incessantes entre o branco e o sangue
entre a terra e a página
elas recomeçam Chamo-lhes pedras
ou folhagem
e são surpresas de água ou fogo e sombra
E recomeçam E recomeçam
1 224
António Ramos Rosa
Quase Nada Ou Nada
Por quase nada ou nada
que junção de alegria corpo e terra
que mão sobrou entre as ruínas
que braço ainda respira sobre as pedras?
Isto é uma árvore ou a sombra de umas ancas?
Isto é a terra ou o suor dos ossos nus?
Ainda dirias aqui a sombra azul?
Que mulher te acompanha até ao muro?
Isto é um mar ou um nome sem espessura?
Por quase nada, uma sombra apenas,
uma sombra de quê, breve horizonte, altura
ou boca unida ainda à árvore obscura
ou só a mão que sobra entre ruínas.
Por nada eu te diria,
por um espasmo de frescura nas palavras,
ó voz entre formigas,
ó forma de desejo já perdida,
ó junção da terra ao corpo em que respiras!
que junção de alegria corpo e terra
que mão sobrou entre as ruínas
que braço ainda respira sobre as pedras?
Isto é uma árvore ou a sombra de umas ancas?
Isto é a terra ou o suor dos ossos nus?
Ainda dirias aqui a sombra azul?
Que mulher te acompanha até ao muro?
Isto é um mar ou um nome sem espessura?
Por quase nada, uma sombra apenas,
uma sombra de quê, breve horizonte, altura
ou boca unida ainda à árvore obscura
ou só a mão que sobra entre ruínas.
Por nada eu te diria,
por um espasmo de frescura nas palavras,
ó voz entre formigas,
ó forma de desejo já perdida,
ó junção da terra ao corpo em que respiras!
1 072
António Ramos Rosa
Aqui Se Abre Um Parêntese
Aqui se abre um parêntese
cinza verde
que restou do dia
(foi tudo água e sombra sobre sombra
e água)
esquecidas folhas
Aqui se fecha o punho deste dia
e os limites claros
que a mão não encontrou
Aqui outra sombra entre parênteses
(a mão penetra na folhagem nocturna)
aqui no chão da noite
o corpo espera
atravessar o não de terra negra
cinza verde
que restou do dia
(foi tudo água e sombra sobre sombra
e água)
esquecidas folhas
Aqui se fecha o punho deste dia
e os limites claros
que a mão não encontrou
Aqui outra sombra entre parênteses
(a mão penetra na folhagem nocturna)
aqui no chão da noite
o corpo espera
atravessar o não de terra negra
978
António Ramos Rosa
Na Morte de Celestino Alves
O lugar abandonado
Estes serão os membros de um silêncio
ou de uma súplica
na folha desesperada.
Por alguém, por cujas pálpebras
cerradas
nada eu saberei dizer.
Mas se … tu o dizes,
mesmo esta erva rasa
sem tremor
despertará um ruído abandonado.
Por alguém, por ninguém,
por cujas pálpebras
cerradas,
o olhar aqui liberto
diria a claridade de um lugar
aqui abandonado.
O cavalo vivo
Estes os membros mudos
e no entanto do branco sem paisagem
consistentes já de que desejo
de pedra e de tremor de linhas puras.
Ervas rasas, cavalo caído, sem a sombra
os acordes serão
de cores sóbrias. A mão ligada à linha
da terra, e o cavalo
no seu dorso verde
de terra reunida.
Estes os membros já perdidos
de insectos sobre
o crânio branco.
Mas eis os troncos negros
das raízes
vermelhas,
o vigor vivo do cavalo.
O sulco do rosto
Que sulco traça o teu rosto
na cinza branca
se o vejo vivo ardendo em vida?
Se as palavras corressem como as nuvens
respirando
dir-te-ia as palavras que desejo.
Oiço o silêncio inteiro sobre o teu rosto.
Estes serão os membros de um silêncio
ou de uma súplica
na folha desesperada.
Por alguém, por cujas pálpebras
cerradas
nada eu saberei dizer.
Mas se … tu o dizes,
mesmo esta erva rasa
sem tremor
despertará um ruído abandonado.
Por alguém, por ninguém,
por cujas pálpebras
cerradas,
o olhar aqui liberto
diria a claridade de um lugar
aqui abandonado.
O cavalo vivo
Estes os membros mudos
e no entanto do branco sem paisagem
consistentes já de que desejo
de pedra e de tremor de linhas puras.
Ervas rasas, cavalo caído, sem a sombra
os acordes serão
de cores sóbrias. A mão ligada à linha
da terra, e o cavalo
no seu dorso verde
de terra reunida.
Estes os membros já perdidos
de insectos sobre
o crânio branco.
Mas eis os troncos negros
das raízes
vermelhas,
o vigor vivo do cavalo.
O sulco do rosto
Que sulco traça o teu rosto
na cinza branca
se o vejo vivo ardendo em vida?
Se as palavras corressem como as nuvens
respirando
dir-te-ia as palavras que desejo.
Oiço o silêncio inteiro sobre o teu rosto.
1 136
António Ramos Rosa
Na Morte de Celestino Alves
O lugar abandonado
Estes serão os membros de um silêncio
ou de uma súplica
na folha desesperada.
Por alguém, por cujas pálpebras
cerradas
nada eu saberei dizer.
Mas se … tu o dizes,
mesmo esta erva rasa
sem tremor
despertará um ruído abandonado.
Por alguém, por ninguém,
por cujas pálpebras
cerradas,
o olhar aqui liberto
diria a claridade de um lugar
aqui abandonado.
O cavalo vivo
Estes os membros mudos
e no entanto do branco sem paisagem
consistentes já de que desejo
de pedra e de tremor de linhas puras.
Ervas rasas, cavalo caído, sem a sombra
os acordes serão
de cores sóbrias. A mão ligada à linha
da terra, e o cavalo
no seu dorso verde
de terra reunida.
Estes os membros já perdidos
de insectos sobre
o crânio branco.
Mas eis os troncos negros
das raízes
vermelhas,
o vigor vivo do cavalo.
O sulco do rosto
Que sulco traça o teu rosto
na cinza branca
se o vejo vivo ardendo em vida?
Se as palavras corressem como as nuvens
respirando
dir-te-ia as palavras que desejo.
Oiço o silêncio inteiro sobre o teu rosto.
Estes serão os membros de um silêncio
ou de uma súplica
na folha desesperada.
Por alguém, por cujas pálpebras
cerradas
nada eu saberei dizer.
Mas se … tu o dizes,
mesmo esta erva rasa
sem tremor
despertará um ruído abandonado.
Por alguém, por ninguém,
por cujas pálpebras
cerradas,
o olhar aqui liberto
diria a claridade de um lugar
aqui abandonado.
O cavalo vivo
Estes os membros mudos
e no entanto do branco sem paisagem
consistentes já de que desejo
de pedra e de tremor de linhas puras.
Ervas rasas, cavalo caído, sem a sombra
os acordes serão
de cores sóbrias. A mão ligada à linha
da terra, e o cavalo
no seu dorso verde
de terra reunida.
Estes os membros já perdidos
de insectos sobre
o crânio branco.
Mas eis os troncos negros
das raízes
vermelhas,
o vigor vivo do cavalo.
O sulco do rosto
Que sulco traça o teu rosto
na cinza branca
se o vejo vivo ardendo em vida?
Se as palavras corressem como as nuvens
respirando
dir-te-ia as palavras que desejo.
Oiço o silêncio inteiro sobre o teu rosto.
1 136
António Ramos Rosa
À Memória de Vítor Matos E Sá
Não te encontrarei antes da noite
e este é o dia da pedra o dia único
em que não te conheço e te procuro
Estas palavras são sombras numa pedra
E estes olhos não vêem senão vértebras
de pedra antes da noite antes do dia
As palavras não sabem o caminho
É preciso entrar na noite e ver a luz
Eu só vi a luz quando escrevia
na amizade da terra de outro dia
Era quando não era ou quando era
mas agora é o país das mãos nas ervas
Esta sombra escrita sobre a sombra
não descerra os olhos sob as pálpebras
mas que passo transparente sob a sombra
É preciso entrar na noite desse dia
Há uma pedra na erva sobre a pedra
há um olho através da sombra escrita
há um campo de sombra além da luz
há uma terra em que te posso ver o rosto
Comecei a escrever no meio da sombra
sem o teu espírito de terra sem teus braços
sem a inteligência viva do abraço
sem o rumor do teu peito sob a erva
Escrever é não saber da vida ou morte
avançar na sombra para a luz
não saber de que lado nasce a água
e correr com a água sob a pedra
É pesada a pedra desta vida
que a morte enterra a cada passo
mas quem vive a luz da nova vida
senão a palavra que levanta a pedra
e este é o dia da pedra o dia único
em que não te conheço e te procuro
Estas palavras são sombras numa pedra
E estes olhos não vêem senão vértebras
de pedra antes da noite antes do dia
As palavras não sabem o caminho
É preciso entrar na noite e ver a luz
Eu só vi a luz quando escrevia
na amizade da terra de outro dia
Era quando não era ou quando era
mas agora é o país das mãos nas ervas
Esta sombra escrita sobre a sombra
não descerra os olhos sob as pálpebras
mas que passo transparente sob a sombra
É preciso entrar na noite desse dia
Há uma pedra na erva sobre a pedra
há um olho através da sombra escrita
há um campo de sombra além da luz
há uma terra em que te posso ver o rosto
Comecei a escrever no meio da sombra
sem o teu espírito de terra sem teus braços
sem a inteligência viva do abraço
sem o rumor do teu peito sob a erva
Escrever é não saber da vida ou morte
avançar na sombra para a luz
não saber de que lado nasce a água
e correr com a água sob a pedra
É pesada a pedra desta vida
que a morte enterra a cada passo
mas quem vive a luz da nova vida
senão a palavra que levanta a pedra
980
António Ramos Rosa
O Personagem Viola Uma Viola
O personagem viola uma viola
no vento. O personagem sabe
descobrir um coração de literato.
Não é a carne que se rasga nem a dor,
mas o humor universal de um só momento,
concerto de matizes, mortes, vozes,
desastres entre nuvens, velocidades,
crimes, cópulas, distinções confusas,
icebergs, insónias. Palavras e palavras
que reúnem os factos num só acto,
todas as sombras nas sombras deste sono
e um silêncio final de madrugada.
no vento. O personagem sabe
descobrir um coração de literato.
Não é a carne que se rasga nem a dor,
mas o humor universal de um só momento,
concerto de matizes, mortes, vozes,
desastres entre nuvens, velocidades,
crimes, cópulas, distinções confusas,
icebergs, insónias. Palavras e palavras
que reúnem os factos num só acto,
todas as sombras nas sombras deste sono
e um silêncio final de madrugada.
1 105
António Ramos Rosa
Instante
Som velado. Beijo
calmo. E a chama
de uma árvore. O verde
imóvel. Lâmina
irradiante. Sol, o som,
obscura luz de sílaba
interiormente.
Tréguas com o espaço. Interrupção
contínua.
Não sei porquê a luz
se lê
na folha verde calma.
calmo. E a chama
de uma árvore. O verde
imóvel. Lâmina
irradiante. Sol, o som,
obscura luz de sílaba
interiormente.
Tréguas com o espaço. Interrupção
contínua.
Não sei porquê a luz
se lê
na folha verde calma.
1 054
António Ramos Rosa
Em Abandono Límpido a Brancura
Em abandono límpido a brancura
do invisível ar por sobre a fronte
com as palavras no limite de uma margem
no intervalo assombroso
onde súbito o silêncio é um estrépito branco
avançar no silêncio sobre as pedras
num arranque de água em todo o corpo
sobre um cume de lábios
sobre a terra sempre
no ouvido da montanha uma água verde
um silêncio poderoso de íman negro
do invisível ar por sobre a fronte
com as palavras no limite de uma margem
no intervalo assombroso
onde súbito o silêncio é um estrépito branco
avançar no silêncio sobre as pedras
num arranque de água em todo o corpo
sobre um cume de lábios
sobre a terra sempre
no ouvido da montanha uma água verde
um silêncio poderoso de íman negro
1 033
António Ramos Rosa
Em Abandono Límpido a Brancura
Em abandono límpido a brancura
do invisível ar por sobre a fronte
com as palavras no limite de uma margem
no intervalo assombroso
onde súbito o silêncio é um estrépito branco
avançar no silêncio sobre as pedras
num arranque de água em todo o corpo
sobre um cume de lábios
sobre a terra sempre
no ouvido da montanha uma água verde
um silêncio poderoso de íman negro
do invisível ar por sobre a fronte
com as palavras no limite de uma margem
no intervalo assombroso
onde súbito o silêncio é um estrépito branco
avançar no silêncio sobre as pedras
num arranque de água em todo o corpo
sobre um cume de lábios
sobre a terra sempre
no ouvido da montanha uma água verde
um silêncio poderoso de íman negro
1 033
António Ramos Rosa
Entre o Frio E o Sol
A casa, a luz, o espaço.
Em vão escritas, sem a luz.
O espaço sem o espaço.
O corpo sem a casa.
Um sopro sobre o espaço
desta folha.
Sem a chama.
E sem a mão que ascende sobre
a superfície iluminada.
*
Um débil sopro. Demasiado
débil.
Porquê chamar-lhe pulso
ou lâmpada?
Nenhum ardor possível.
Nenhuma violência viva
na mão nua.
*
Onde dissesse verde, a água,
intenso, azul, as ervas, livres,
ar, selvagem,
o pulso incandescente,
a língua sobre a língua.
*
Quem desenha o dia?
Muro a muro?
E quem respira?
*
Um furor branco
contra a folha branca.
Oh, se o desejo deflagrasse
num incêndio verde.
*
De casa a casa, de rosto
a rosto.
Um espaço.
E a água no braço.
Como um fogo
para ver
a chama da folha.
*
Nomeio a chama verde, a veemência
tranquila,
uma lâmpada nova.
O que toca a mão é a água viva.
*
Apenas uma lâmina. De terra?
E um sopro.
A sombra acesa? A luz?
A parede na água.
A lâmpada flutuando.
A mão na terra.
*
Entre o frio e o sol
a mão ensaia
um só desejo
entre a pedra e a água.
Os dedos hirtos. Luz gelada.
Lâmpada abolida.
Mão aniquilada.
Só vivas as margens brancas.
*
Que reste apenas esta parede branca.
O incompleto ser,
brusco animal,
tem aqui a sua boca de água.
Em vão escritas, sem a luz.
O espaço sem o espaço.
O corpo sem a casa.
Um sopro sobre o espaço
desta folha.
Sem a chama.
E sem a mão que ascende sobre
a superfície iluminada.
*
Um débil sopro. Demasiado
débil.
Porquê chamar-lhe pulso
ou lâmpada?
Nenhum ardor possível.
Nenhuma violência viva
na mão nua.
*
Onde dissesse verde, a água,
intenso, azul, as ervas, livres,
ar, selvagem,
o pulso incandescente,
a língua sobre a língua.
*
Quem desenha o dia?
Muro a muro?
E quem respira?
*
Um furor branco
contra a folha branca.
Oh, se o desejo deflagrasse
num incêndio verde.
*
De casa a casa, de rosto
a rosto.
Um espaço.
E a água no braço.
Como um fogo
para ver
a chama da folha.
*
Nomeio a chama verde, a veemência
tranquila,
uma lâmpada nova.
O que toca a mão é a água viva.
*
Apenas uma lâmina. De terra?
E um sopro.
A sombra acesa? A luz?
A parede na água.
A lâmpada flutuando.
A mão na terra.
*
Entre o frio e o sol
a mão ensaia
um só desejo
entre a pedra e a água.
Os dedos hirtos. Luz gelada.
Lâmpada abolida.
Mão aniquilada.
Só vivas as margens brancas.
*
Que reste apenas esta parede branca.
O incompleto ser,
brusco animal,
tem aqui a sua boca de água.
1 053
António Ramos Rosa
Ferozmente Nulo Humilde Árido
Ferozmente nulo humilde árido
percorro este intervalo de assombro nu
entre ar e ar
no repouso vibrante de um andar na margem
do centro verde da água do silêncio
antes do depois no ainda já
presente em todo o corpo gelado de ar
no chão mais alto e luminoso igual
num percurso indiferente às aranhas de dentro
no hálito inicial de uma boca de mar
percorro este intervalo de assombro nu
entre ar e ar
no repouso vibrante de um andar na margem
do centro verde da água do silêncio
antes do depois no ainda já
presente em todo o corpo gelado de ar
no chão mais alto e luminoso igual
num percurso indiferente às aranhas de dentro
no hálito inicial de uma boca de mar
1 010
António Ramos Rosa
Ferozmente Nulo Humilde Árido
Ferozmente nulo humilde árido
percorro este intervalo de assombro nu
entre ar e ar
no repouso vibrante de um andar na margem
do centro verde da água do silêncio
antes do depois no ainda já
presente em todo o corpo gelado de ar
no chão mais alto e luminoso igual
num percurso indiferente às aranhas de dentro
no hálito inicial de uma boca de mar
percorro este intervalo de assombro nu
entre ar e ar
no repouso vibrante de um andar na margem
do centro verde da água do silêncio
antes do depois no ainda já
presente em todo o corpo gelado de ar
no chão mais alto e luminoso igual
num percurso indiferente às aranhas de dentro
no hálito inicial de uma boca de mar
1 010
António Ramos Rosa
Como Uma Diferença Desconhecida Sem Diferença
Como uma diferença desconhecida sem diferença
a lâmina do silêncio branco dentro
o percurso da sombra fresca sobre o mar
numa varanda aberta ao espaço global
forma do vento figura feita de ar
silêncio que retorna sob o frio
corpo descoberto desde as plantas frígidas
com um rosto renovado pelas rajadas de ar
com a face do silêncio em frente sobre o mar
a lâmina do silêncio branco dentro
o percurso da sombra fresca sobre o mar
numa varanda aberta ao espaço global
forma do vento figura feita de ar
silêncio que retorna sob o frio
corpo descoberto desde as plantas frígidas
com um rosto renovado pelas rajadas de ar
com a face do silêncio em frente sobre o mar
1 088
António Ramos Rosa
Como Uma Diferença Desconhecida Sem Diferença
Como uma diferença desconhecida sem diferença
a lâmina do silêncio branco dentro
o percurso da sombra fresca sobre o mar
numa varanda aberta ao espaço global
forma do vento figura feita de ar
silêncio que retorna sob o frio
corpo descoberto desde as plantas frígidas
com um rosto renovado pelas rajadas de ar
com a face do silêncio em frente sobre o mar
a lâmina do silêncio branco dentro
o percurso da sombra fresca sobre o mar
numa varanda aberta ao espaço global
forma do vento figura feita de ar
silêncio que retorna sob o frio
corpo descoberto desde as plantas frígidas
com um rosto renovado pelas rajadas de ar
com a face do silêncio em frente sobre o mar
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