Poemas neste tema
Natureza e Elementos
António Ramos Rosa
Lanço Uma Linha Ao Vento Lanço Um Lado
Lanço uma linha ao vento lanço um lado
de hesitação e de não vontade
como se o desejo me abandonasse abandono-me
até ao desamparo de não saber soltar-me
Mais do que solto aberto e fracturado
no nulo e raso vão em que estremece o branco
vazio de nada ser desejo e mão e corpo
ó fuga de memória sem o ardor da seiva
Não sei qual é o lado onde é só oco e oco
e todo o material se dilui no branco
e todo o horror no não-grito e no espanto
de avançar como cego no desejo de uma árvore
que repentina e fresca abrisse o horizonte
e fosse todo o espaço e todo o mar
de hesitação e de não vontade
como se o desejo me abandonasse abandono-me
até ao desamparo de não saber soltar-me
Mais do que solto aberto e fracturado
no nulo e raso vão em que estremece o branco
vazio de nada ser desejo e mão e corpo
ó fuga de memória sem o ardor da seiva
Não sei qual é o lado onde é só oco e oco
e todo o material se dilui no branco
e todo o horror no não-grito e no espanto
de avançar como cego no desejo de uma árvore
que repentina e fresca abrisse o horizonte
e fosse todo o espaço e todo o mar
1 104
António Ramos Rosa
Lanço Uma Linha Ao Vento Lanço Um Lado
Lanço uma linha ao vento lanço um lado
de hesitação e de não vontade
como se o desejo me abandonasse abandono-me
até ao desamparo de não saber soltar-me
Mais do que solto aberto e fracturado
no nulo e raso vão em que estremece o branco
vazio de nada ser desejo e mão e corpo
ó fuga de memória sem o ardor da seiva
Não sei qual é o lado onde é só oco e oco
e todo o material se dilui no branco
e todo o horror no não-grito e no espanto
de avançar como cego no desejo de uma árvore
que repentina e fresca abrisse o horizonte
e fosse todo o espaço e todo o mar
de hesitação e de não vontade
como se o desejo me abandonasse abandono-me
até ao desamparo de não saber soltar-me
Mais do que solto aberto e fracturado
no nulo e raso vão em que estremece o branco
vazio de nada ser desejo e mão e corpo
ó fuga de memória sem o ardor da seiva
Não sei qual é o lado onde é só oco e oco
e todo o material se dilui no branco
e todo o horror no não-grito e no espanto
de avançar como cego no desejo de uma árvore
que repentina e fresca abrisse o horizonte
e fosse todo o espaço e todo o mar
1 104
António Ramos Rosa
Aqui Seria a Mancha Mais Clara
Aqui seria a mancha mais clara
para um cavalo rosado ou cinza suave.
Aqui seria linear e ténue,
a vocação feliz de uma pequena nódoa.
As patas do cavalo vencem a inércia
de um princípio sem fim.
A fúria que eu invento é uma vontade
de dar à terra o seu cavalo fortíssimo.
E eu com ele soçobro ou me levanto.
Aqui seria… e é destino e força
o peso do animal que amo sobre mim.
para um cavalo rosado ou cinza suave.
Aqui seria linear e ténue,
a vocação feliz de uma pequena nódoa.
As patas do cavalo vencem a inércia
de um princípio sem fim.
A fúria que eu invento é uma vontade
de dar à terra o seu cavalo fortíssimo.
E eu com ele soçobro ou me levanto.
Aqui seria… e é destino e força
o peso do animal que amo sobre mim.
1 121
António Ramos Rosa
A Força Unida, o Centro da Pedra, Raiz
esa piedra ya es pan
OCTAVIO PAZ
A força unida, o centro da pedra, raiz
à vista, pedra de pão, fábrica
de vida, razão de progredir, um passo
e outro passo, a pedra já é pão, a terra
já é nossa. Os animais e as árvores
formam um todo claro e uma fractura abre-se,
abrindo o mundo neste momento agudo,
uma agulha assinala o meio-dia de pedra.
Uma cabeça avança, uma sombra, um sinal?
Ataca essa cabeça, ó meu cavalo solto,
derruba este muro, solta o prisioneiro.
A água descoberta dessedenta o barro
desse homem mineral, e uma linha verde
rasga o espaço do branco e acende a nova estrela.
OCTAVIO PAZ
A força unida, o centro da pedra, raiz
à vista, pedra de pão, fábrica
de vida, razão de progredir, um passo
e outro passo, a pedra já é pão, a terra
já é nossa. Os animais e as árvores
formam um todo claro e uma fractura abre-se,
abrindo o mundo neste momento agudo,
uma agulha assinala o meio-dia de pedra.
Uma cabeça avança, uma sombra, um sinal?
Ataca essa cabeça, ó meu cavalo solto,
derruba este muro, solta o prisioneiro.
A água descoberta dessedenta o barro
desse homem mineral, e uma linha verde
rasga o espaço do branco e acende a nova estrela.
1 000
António Ramos Rosa
Animal Te Chamei, Te Chamo E Chamo
Animal te chamei, te chamo e chamo
no sabor vertical da água agudamente.
O centro de água e a garupa impante
do cavalo perseguido pela seta.
O cavalo que escrevo — força do espaço,
pureza do ímpeto e do sangue, é a sede,
é a raiva nova do começo, e a erva
de todo o prado humedecido em sua boca.
Bebe-lhe o orvalho nas narinas puras,
cobre a pele do corpo de seus cascos, vive
da dureza incriada, da rapidez sem vento,
da aspereza do lume, da doçura começada.
Cobrir a folha larga do alento
do animal, cavalo ferido e alto,
parir o vigor do princípio dessa frase
em que o caminho disparou da seta.
no sabor vertical da água agudamente.
O centro de água e a garupa impante
do cavalo perseguido pela seta.
O cavalo que escrevo — força do espaço,
pureza do ímpeto e do sangue, é a sede,
é a raiva nova do começo, e a erva
de todo o prado humedecido em sua boca.
Bebe-lhe o orvalho nas narinas puras,
cobre a pele do corpo de seus cascos, vive
da dureza incriada, da rapidez sem vento,
da aspereza do lume, da doçura começada.
Cobrir a folha larga do alento
do animal, cavalo ferido e alto,
parir o vigor do princípio dessa frase
em que o caminho disparou da seta.
1 164
António Ramos Rosa
Como Se
Tocar as margens desta página
deste corpo
como se existisse já o corpo
sem caminho
acender palavras trémulas
como se houvesse uma lâmpada
atravessar-te o corpo unânime
como se o visse já sob o relâmpago
dizer-te um a um
os dedos das carícias
num enxame de palavras quase vermelhas
quase
como se a língua falasse sob o trovão tremendo
dizer-te
esta laranja incandescente
este músculo que desce
em água doce
como se te visse já e te tocasse a pele
sob esta chuva escura
atravessar a espessura deste papel com letras
como se as letras fossem
feridas
no teu corpo
desenhar esse gesto
despenteado
como se o corpo
rolasse sob
as palavras mesmas
como se o caminho
se abrisse
tão perto
da tua boca
É como se te respirasse
se eu falasse
como se
respirasse
no caminho
como se estas palavras fossem já
esse caminho
para o teu corpo
como se houvesse um caminho
se eu falasse
se eu falar
Vejo-te imagem só
mas não o corpo
ou nem a imagem vejo mal respiro
E no entanto uma palavra ascende
o caminho é este
através
das palavras do teu corpo
são estas
as pedras
vermelhas
negras
sob a chuva
estas as mãos que buscam
o caminho na espessura
são o caminho já
tão perto já
da tua boca
da tua língua acesa
Se eu falar
é este o caminho dos teus cabelos
da tua boca
cada palavra treme
com o tremor dos teus pulsos
com a loucura feliz
desta mão que ascende
sobre o teu corpo
e desce
ao fundo
à água
do teu sexo
e beijo o teu nome
entre os teus dentes
deste corpo
como se existisse já o corpo
sem caminho
acender palavras trémulas
como se houvesse uma lâmpada
atravessar-te o corpo unânime
como se o visse já sob o relâmpago
dizer-te um a um
os dedos das carícias
num enxame de palavras quase vermelhas
quase
como se a língua falasse sob o trovão tremendo
dizer-te
esta laranja incandescente
este músculo que desce
em água doce
como se te visse já e te tocasse a pele
sob esta chuva escura
atravessar a espessura deste papel com letras
como se as letras fossem
feridas
no teu corpo
desenhar esse gesto
despenteado
como se o corpo
rolasse sob
as palavras mesmas
como se o caminho
se abrisse
tão perto
da tua boca
É como se te respirasse
se eu falasse
como se
respirasse
no caminho
como se estas palavras fossem já
esse caminho
para o teu corpo
como se houvesse um caminho
se eu falasse
se eu falar
Vejo-te imagem só
mas não o corpo
ou nem a imagem vejo mal respiro
E no entanto uma palavra ascende
o caminho é este
através
das palavras do teu corpo
são estas
as pedras
vermelhas
negras
sob a chuva
estas as mãos que buscam
o caminho na espessura
são o caminho já
tão perto já
da tua boca
da tua língua acesa
Se eu falar
é este o caminho dos teus cabelos
da tua boca
cada palavra treme
com o tremor dos teus pulsos
com a loucura feliz
desta mão que ascende
sobre o teu corpo
e desce
ao fundo
à água
do teu sexo
e beijo o teu nome
entre os teus dentes
574
António Ramos Rosa
Com Seus Campos, Seus Arbustos, Ele Caminha,
Com seus campos, seus arbustos, ele caminha,
a folhagem solar dentro do corpo.
É um animal cordial e iluminado,
pela sede, pelo odor, pela firmeza.
Cada pálpebra que se fecha
é folha cheia, cada olhar
a mão no dorso quente:
estilhaços de luz, concentração mortal.
Aqui não há venenos mas um cavalo que nasce
da brancura plena e anseia ser a busca
de um animal mais alto, mais puro e mais perfeito.
a folhagem solar dentro do corpo.
É um animal cordial e iluminado,
pela sede, pelo odor, pela firmeza.
Cada pálpebra que se fecha
é folha cheia, cada olhar
a mão no dorso quente:
estilhaços de luz, concentração mortal.
Aqui não há venenos mas um cavalo que nasce
da brancura plena e anseia ser a busca
de um animal mais alto, mais puro e mais perfeito.
1 061
António Ramos Rosa
Com Seus Campos, Seus Arbustos, Ele Caminha,
Com seus campos, seus arbustos, ele caminha,
a folhagem solar dentro do corpo.
É um animal cordial e iluminado,
pela sede, pelo odor, pela firmeza.
Cada pálpebra que se fecha
é folha cheia, cada olhar
a mão no dorso quente:
estilhaços de luz, concentração mortal.
Aqui não há venenos mas um cavalo que nasce
da brancura plena e anseia ser a busca
de um animal mais alto, mais puro e mais perfeito.
a folhagem solar dentro do corpo.
É um animal cordial e iluminado,
pela sede, pelo odor, pela firmeza.
Cada pálpebra que se fecha
é folha cheia, cada olhar
a mão no dorso quente:
estilhaços de luz, concentração mortal.
Aqui não há venenos mas um cavalo que nasce
da brancura plena e anseia ser a busca
de um animal mais alto, mais puro e mais perfeito.
1 061
António Ramos Rosa
Rios E Rios, Palpitação Extrema.
Rios e rios, palpitação extrema
de uma linha sem ruptura. De que matéria
escrita? Todas as linhas se articulam
para o cavalo e o salto.
Com os ossos da testa enfrenta os muros da noite,
a corrida ofegante sabe o fim vermelho,
uma única estria ilumina-lhe o dorso.
Longa linha delida e dolorosa, mas una.
Atravessas as brancas
muralhas. Sobre a palpitação.
Há insectos na erva, nas margens
dilaceradas.
A tua marcha atinge o ponto de ruptura.
Todo o céu rebenta na mais viva ferida,
ó noite mais nocturna, fixação explosiva.
de uma linha sem ruptura. De que matéria
escrita? Todas as linhas se articulam
para o cavalo e o salto.
Com os ossos da testa enfrenta os muros da noite,
a corrida ofegante sabe o fim vermelho,
uma única estria ilumina-lhe o dorso.
Longa linha delida e dolorosa, mas una.
Atravessas as brancas
muralhas. Sobre a palpitação.
Há insectos na erva, nas margens
dilaceradas.
A tua marcha atinge o ponto de ruptura.
Todo o céu rebenta na mais viva ferida,
ó noite mais nocturna, fixação explosiva.
587
António Ramos Rosa
Rios E Rios, Palpitação Extrema.
Rios e rios, palpitação extrema
de uma linha sem ruptura. De que matéria
escrita? Todas as linhas se articulam
para o cavalo e o salto.
Com os ossos da testa enfrenta os muros da noite,
a corrida ofegante sabe o fim vermelho,
uma única estria ilumina-lhe o dorso.
Longa linha delida e dolorosa, mas una.
Atravessas as brancas
muralhas. Sobre a palpitação.
Há insectos na erva, nas margens
dilaceradas.
A tua marcha atinge o ponto de ruptura.
Todo o céu rebenta na mais viva ferida,
ó noite mais nocturna, fixação explosiva.
de uma linha sem ruptura. De que matéria
escrita? Todas as linhas se articulam
para o cavalo e o salto.
Com os ossos da testa enfrenta os muros da noite,
a corrida ofegante sabe o fim vermelho,
uma única estria ilumina-lhe o dorso.
Longa linha delida e dolorosa, mas una.
Atravessas as brancas
muralhas. Sobre a palpitação.
Há insectos na erva, nas margens
dilaceradas.
A tua marcha atinge o ponto de ruptura.
Todo o céu rebenta na mais viva ferida,
ó noite mais nocturna, fixação explosiva.
587
António Ramos Rosa
Rios E Rios, Palpitação Extrema.
Rios e rios, palpitação extrema
de uma linha sem ruptura. De que matéria
escrita? Todas as linhas se articulam
para o cavalo e o salto.
Com os ossos da testa enfrenta os muros da noite,
a corrida ofegante sabe o fim vermelho,
uma única estria ilumina-lhe o dorso.
Longa linha delida e dolorosa, mas una.
Atravessas as brancas
muralhas. Sobre a palpitação.
Há insectos na erva, nas margens
dilaceradas.
A tua marcha atinge o ponto de ruptura.
Todo o céu rebenta na mais viva ferida,
ó noite mais nocturna, fixação explosiva.
de uma linha sem ruptura. De que matéria
escrita? Todas as linhas se articulam
para o cavalo e o salto.
Com os ossos da testa enfrenta os muros da noite,
a corrida ofegante sabe o fim vermelho,
uma única estria ilumina-lhe o dorso.
Longa linha delida e dolorosa, mas una.
Atravessas as brancas
muralhas. Sobre a palpitação.
Há insectos na erva, nas margens
dilaceradas.
A tua marcha atinge o ponto de ruptura.
Todo o céu rebenta na mais viva ferida,
ó noite mais nocturna, fixação explosiva.
587
António Ramos Rosa
Que As Palavras Sejam o Fogo Escrito
Que as palavras sejam o fogo escrito
nas paredes verdes dos escarros
que venham sobre o sono e a fadiga do poeta
altas leves ardentes humildes nuas
Que elas digam a sombra e o azul sob a sombra
e a impossível vida sem árvores sem mulheres
sem horizonte sem mar
Que digam o supremo desejo renascido
na boca atroz
que sejam a frescura na ferida atroz
nas paredes verdes dos escarros
que venham sobre o sono e a fadiga do poeta
altas leves ardentes humildes nuas
Que elas digam a sombra e o azul sob a sombra
e a impossível vida sem árvores sem mulheres
sem horizonte sem mar
Que digam o supremo desejo renascido
na boca atroz
que sejam a frescura na ferida atroz
1 168
António Ramos Rosa
Que As Palavras Sejam o Fogo Escrito
Que as palavras sejam o fogo escrito
nas paredes verdes dos escarros
que venham sobre o sono e a fadiga do poeta
altas leves ardentes humildes nuas
Que elas digam a sombra e o azul sob a sombra
e a impossível vida sem árvores sem mulheres
sem horizonte sem mar
Que digam o supremo desejo renascido
na boca atroz
que sejam a frescura na ferida atroz
nas paredes verdes dos escarros
que venham sobre o sono e a fadiga do poeta
altas leves ardentes humildes nuas
Que elas digam a sombra e o azul sob a sombra
e a impossível vida sem árvores sem mulheres
sem horizonte sem mar
Que digam o supremo desejo renascido
na boca atroz
que sejam a frescura na ferida atroz
1 168
António Ramos Rosa
Olhos de Terra Ou de Água Ou Mesmo de Árvore
Olhos de terra ou de água ou mesmo de árvore
podem vencer a inércia e os próprios olhos nascem
para verem outros olhos (diferença-identidade),
a luta que se trava de olho a olho na água.
Raso, deixo-me erguer por esta imagem só.
Antes dos olhos terra (não imagem), antes da árvore
a água
e assim antes do poema a terra do poema.
Porque há um chão de terra no poema
e um cavalo que pasta a solidão real
e só real é o fim ou o princípio da água.
podem vencer a inércia e os próprios olhos nascem
para verem outros olhos (diferença-identidade),
a luta que se trava de olho a olho na água.
Raso, deixo-me erguer por esta imagem só.
Antes dos olhos terra (não imagem), antes da árvore
a água
e assim antes do poema a terra do poema.
Porque há um chão de terra no poema
e um cavalo que pasta a solidão real
e só real é o fim ou o princípio da água.
581
António Ramos Rosa
Olhos de Terra Ou de Água Ou Mesmo de Árvore
Olhos de terra ou de água ou mesmo de árvore
podem vencer a inércia e os próprios olhos nascem
para verem outros olhos (diferença-identidade),
a luta que se trava de olho a olho na água.
Raso, deixo-me erguer por esta imagem só.
Antes dos olhos terra (não imagem), antes da árvore
a água
e assim antes do poema a terra do poema.
Porque há um chão de terra no poema
e um cavalo que pasta a solidão real
e só real é o fim ou o princípio da água.
podem vencer a inércia e os próprios olhos nascem
para verem outros olhos (diferença-identidade),
a luta que se trava de olho a olho na água.
Raso, deixo-me erguer por esta imagem só.
Antes dos olhos terra (não imagem), antes da árvore
a água
e assim antes do poema a terra do poema.
Porque há um chão de terra no poema
e um cavalo que pasta a solidão real
e só real é o fim ou o princípio da água.
581
António Ramos Rosa
Olhos de Terra Ou de Água Ou Mesmo de Árvore
Olhos de terra ou de água ou mesmo de árvore
podem vencer a inércia e os próprios olhos nascem
para verem outros olhos (diferença-identidade),
a luta que se trava de olho a olho na água.
Raso, deixo-me erguer por esta imagem só.
Antes dos olhos terra (não imagem), antes da árvore
a água
e assim antes do poema a terra do poema.
Porque há um chão de terra no poema
e um cavalo que pasta a solidão real
e só real é o fim ou o princípio da água.
podem vencer a inércia e os próprios olhos nascem
para verem outros olhos (diferença-identidade),
a luta que se trava de olho a olho na água.
Raso, deixo-me erguer por esta imagem só.
Antes dos olhos terra (não imagem), antes da árvore
a água
e assim antes do poema a terra do poema.
Porque há um chão de terra no poema
e um cavalo que pasta a solidão real
e só real é o fim ou o princípio da água.
581
António Ramos Rosa
Em Paredes Esverdeadas, À Luz do Nevoeiro,
Em paredes esverdeadas, à luz do nevoeiro,
atravessas as casas e as cabeças dos homens.
Tuas pastagens são a relva e a raiva
viril da perfeição no pavor negro da força,
com que saltas os muros e rebentas os quartos,
onde já foram casas, famílias ou palácios
e corres pelo papel sem fome e no desejo
de um touro ou unicórnio que furasse o pasmo
de tudo ser um além inapreensível, ferro-velho
da vida, cronologias, notícias, tudo alheio,
perícia para atravessares os vales negativos,
as opacas montanhas, os mais pobres mistérios.
atravessas as casas e as cabeças dos homens.
Tuas pastagens são a relva e a raiva
viril da perfeição no pavor negro da força,
com que saltas os muros e rebentas os quartos,
onde já foram casas, famílias ou palácios
e corres pelo papel sem fome e no desejo
de um touro ou unicórnio que furasse o pasmo
de tudo ser um além inapreensível, ferro-velho
da vida, cronologias, notícias, tudo alheio,
perícia para atravessares os vales negativos,
as opacas montanhas, os mais pobres mistérios.
1 046
António Ramos Rosa
Em Paredes Esverdeadas, À Luz do Nevoeiro,
Em paredes esverdeadas, à luz do nevoeiro,
atravessas as casas e as cabeças dos homens.
Tuas pastagens são a relva e a raiva
viril da perfeição no pavor negro da força,
com que saltas os muros e rebentas os quartos,
onde já foram casas, famílias ou palácios
e corres pelo papel sem fome e no desejo
de um touro ou unicórnio que furasse o pasmo
de tudo ser um além inapreensível, ferro-velho
da vida, cronologias, notícias, tudo alheio,
perícia para atravessares os vales negativos,
as opacas montanhas, os mais pobres mistérios.
atravessas as casas e as cabeças dos homens.
Tuas pastagens são a relva e a raiva
viril da perfeição no pavor negro da força,
com que saltas os muros e rebentas os quartos,
onde já foram casas, famílias ou palácios
e corres pelo papel sem fome e no desejo
de um touro ou unicórnio que furasse o pasmo
de tudo ser um além inapreensível, ferro-velho
da vida, cronologias, notícias, tudo alheio,
perícia para atravessares os vales negativos,
as opacas montanhas, os mais pobres mistérios.
1 046
António Ramos Rosa
Por Um Pouco de Sombra Após a Luz do Muro,
Por um pouco de sombra após a luz do muro,
por um pouco de luz quando a sombra se adensa,
duas faces se formam, alguém caminha cego,
alguém quer ver a terra na limpidez do olhar.
Alguém a viu sair, essa mulher descalça
que marcha ao longo do muro impaciente e cega?
Apenas um murmúrio sobre as ondas visíveis,
apenas o perfil do cavalo sem a força.
É preciso dormir sobre escadas marinhas,
é preciso voltar à luz do muro, à sombra,
é preciso que a onda nasça de outra onda.
E cavalo e mulher na nudez mais perfeita
são as figuras vivas do sentir mais completo,
a perfeição do ser na frescura da forma.
por um pouco de luz quando a sombra se adensa,
duas faces se formam, alguém caminha cego,
alguém quer ver a terra na limpidez do olhar.
Alguém a viu sair, essa mulher descalça
que marcha ao longo do muro impaciente e cega?
Apenas um murmúrio sobre as ondas visíveis,
apenas o perfil do cavalo sem a força.
É preciso dormir sobre escadas marinhas,
é preciso voltar à luz do muro, à sombra,
é preciso que a onda nasça de outra onda.
E cavalo e mulher na nudez mais perfeita
são as figuras vivas do sentir mais completo,
a perfeição do ser na frescura da forma.
1 117
António Ramos Rosa
Por Um Pouco de Sombra Após a Luz do Muro,
Por um pouco de sombra após a luz do muro,
por um pouco de luz quando a sombra se adensa,
duas faces se formam, alguém caminha cego,
alguém quer ver a terra na limpidez do olhar.
Alguém a viu sair, essa mulher descalça
que marcha ao longo do muro impaciente e cega?
Apenas um murmúrio sobre as ondas visíveis,
apenas o perfil do cavalo sem a força.
É preciso dormir sobre escadas marinhas,
é preciso voltar à luz do muro, à sombra,
é preciso que a onda nasça de outra onda.
E cavalo e mulher na nudez mais perfeita
são as figuras vivas do sentir mais completo,
a perfeição do ser na frescura da forma.
por um pouco de luz quando a sombra se adensa,
duas faces se formam, alguém caminha cego,
alguém quer ver a terra na limpidez do olhar.
Alguém a viu sair, essa mulher descalça
que marcha ao longo do muro impaciente e cega?
Apenas um murmúrio sobre as ondas visíveis,
apenas o perfil do cavalo sem a força.
É preciso dormir sobre escadas marinhas,
é preciso voltar à luz do muro, à sombra,
é preciso que a onda nasça de outra onda.
E cavalo e mulher na nudez mais perfeita
são as figuras vivas do sentir mais completo,
a perfeição do ser na frescura da forma.
1 117
António Ramos Rosa
O Cavalo Que Respira a Manhã E Bebe o Sol.
El muro al sol respira, vibra, ondula
…………………………………
el hombre bebe sol, es agua, es tierra.
OCTAVIO PAZ
O cavalo que respira a manhã e bebe o sol
é água e terra como o homem que o lê
nas letras desta página ou deste muro
onde o sol respira, vibra, ondula.
A leitura é de sangue por um cimo límpido,
por um planeta verde e por um céu vermelho,
por um amor transparente, pela liberdade ardente
de um voo sobre a terra, rente aos muros.
Quem compreende a aliança entre cavalo e homem
compreende a mulher e a solidão da montanha.
Eu adormeço aqui entre céu e amizade
com a cabeça reclinada na visão da margem
em que as longas mãos se dão nuas e quentes
na aliança do cavalo, do homem e a mulher.
…………………………………
el hombre bebe sol, es agua, es tierra.
OCTAVIO PAZ
O cavalo que respira a manhã e bebe o sol
é água e terra como o homem que o lê
nas letras desta página ou deste muro
onde o sol respira, vibra, ondula.
A leitura é de sangue por um cimo límpido,
por um planeta verde e por um céu vermelho,
por um amor transparente, pela liberdade ardente
de um voo sobre a terra, rente aos muros.
Quem compreende a aliança entre cavalo e homem
compreende a mulher e a solidão da montanha.
Eu adormeço aqui entre céu e amizade
com a cabeça reclinada na visão da margem
em que as longas mãos se dão nuas e quentes
na aliança do cavalo, do homem e a mulher.
1 198
António Ramos Rosa
O Cavalo Que Respira a Manhã E Bebe o Sol.
El muro al sol respira, vibra, ondula
…………………………………
el hombre bebe sol, es agua, es tierra.
OCTAVIO PAZ
O cavalo que respira a manhã e bebe o sol
é água e terra como o homem que o lê
nas letras desta página ou deste muro
onde o sol respira, vibra, ondula.
A leitura é de sangue por um cimo límpido,
por um planeta verde e por um céu vermelho,
por um amor transparente, pela liberdade ardente
de um voo sobre a terra, rente aos muros.
Quem compreende a aliança entre cavalo e homem
compreende a mulher e a solidão da montanha.
Eu adormeço aqui entre céu e amizade
com a cabeça reclinada na visão da margem
em que as longas mãos se dão nuas e quentes
na aliança do cavalo, do homem e a mulher.
…………………………………
el hombre bebe sol, es agua, es tierra.
OCTAVIO PAZ
O cavalo que respira a manhã e bebe o sol
é água e terra como o homem que o lê
nas letras desta página ou deste muro
onde o sol respira, vibra, ondula.
A leitura é de sangue por um cimo límpido,
por um planeta verde e por um céu vermelho,
por um amor transparente, pela liberdade ardente
de um voo sobre a terra, rente aos muros.
Quem compreende a aliança entre cavalo e homem
compreende a mulher e a solidão da montanha.
Eu adormeço aqui entre céu e amizade
com a cabeça reclinada na visão da margem
em que as longas mãos se dão nuas e quentes
na aliança do cavalo, do homem e a mulher.
1 198
António Ramos Rosa
Com Um Odor Brilhante Como Diz
Com um odor brilhante como diz
Monique Rosenberg
com as suas pernas pálidas e sombrias
ela é a fêmea frágil no meu dia
Com o seu fogo suave sob as pernas
com um cheiro a incêndio sob a sombra
ela é a mulher que eu nunca vi de dia
ela dilacera-me a esperança da bondade
Com o seu rosto que eu vi e que não vejo
na esperança perpétua do desejo
escrevo aqui a negação do meu desejo
Monique Rosenberg
com as suas pernas pálidas e sombrias
ela é a fêmea frágil no meu dia
Com o seu fogo suave sob as pernas
com um cheiro a incêndio sob a sombra
ela é a mulher que eu nunca vi de dia
ela dilacera-me a esperança da bondade
Com o seu rosto que eu vi e que não vejo
na esperança perpétua do desejo
escrevo aqui a negação do meu desejo
1 078
António Ramos Rosa
Ataca a Longa Frase Que Prolonga o Sol
Les naseaux du cheval forment un lac
L’insecte écrit une longue phrase longue
SALAH STÉTIÉ
Ataca a longa frase que prolonga o sol
e o bafo do cavalo forma um lago no sol.
Os insectos escrevem as longas frases vivas.
Tudo se cresta no meio-dia voraz.
Vens tu sem vestes arrebatada e sempre
fortalecer o instante mais animal do sol.
Ataca a terra, o sol, o mar, o céu
com a dilatação dos teus pulmões sedentos.
Aqui é o coração, o núcleo do carvão.
Apressa-te a atacar os flancos deste dia.
Chega antes da noite ao templo sibilante.
L’insecte écrit une longue phrase longue
SALAH STÉTIÉ
Ataca a longa frase que prolonga o sol
e o bafo do cavalo forma um lago no sol.
Os insectos escrevem as longas frases vivas.
Tudo se cresta no meio-dia voraz.
Vens tu sem vestes arrebatada e sempre
fortalecer o instante mais animal do sol.
Ataca a terra, o sol, o mar, o céu
com a dilatação dos teus pulmões sedentos.
Aqui é o coração, o núcleo do carvão.
Apressa-te a atacar os flancos deste dia.
Chega antes da noite ao templo sibilante.
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