Poemas neste tema
Natureza e Elementos
António Ramos Rosa
Antes do Sol
Mão, não te apresses para os desenhos da luz.
O sol ainda não chegou.
Desta doçura matinal e indecisa
colho uma haste débil, quero moldá-la
no espaço: a clara espiga do dia.
Aí vem o sol: aquece o dorso e o quarto,
mas não encontrei ainda a linha viva
das palavras no branco,
alento puro.
Manchas de luz na página e na mão;
vou descer as persianas, desço-as; ondulam listas
de luz e sombra no papel.
Um galo canta, e o chilrear dos pássaros.
Mas não basta este silêncio de casulo cálido.
Uma pressa obscura e ansiosa
— para quê? Abrir na folha
o caminho em que respiro o ar do dia.
Atento em vão (de novo canta o galo)
— quem acorda a terra onde as palavras vibram?
Um frémito de inatenção, uma falha
que se abre — e eu vou dizer a clara
árvore ou espiga luminosa, ainda indecisa
e já aguda na água a luz incide.
Como igualar esta igualdade pura?
Eis a distância fatal que nos separa e onde caio.
Recomeço, recomeçar... Oh a urgência viva
do sopro no espaço verdadeiro, na folha alta!
Mas não te precipites... Pondera a própria água
que em ti pulsa... lança-te só quando se ergue a onda
— mas não és tu mesmo que a levantas, se te ergues?
Assim, tentas e pesas. Caminhas para uma praia,
caminhas numa praia onde a água aviva as pedras,
onde o esplendor igual te aniquila e te salva.
És um corpo aberto, móveis hastes respiram
e no espaço se unem, num obscuro tremor.
Uma espiga de luz condensa grão a grão
as palavras do dia, quando o sol já vai alto.
O sol ainda não chegou.
Desta doçura matinal e indecisa
colho uma haste débil, quero moldá-la
no espaço: a clara espiga do dia.
Aí vem o sol: aquece o dorso e o quarto,
mas não encontrei ainda a linha viva
das palavras no branco,
alento puro.
Manchas de luz na página e na mão;
vou descer as persianas, desço-as; ondulam listas
de luz e sombra no papel.
Um galo canta, e o chilrear dos pássaros.
Mas não basta este silêncio de casulo cálido.
Uma pressa obscura e ansiosa
— para quê? Abrir na folha
o caminho em que respiro o ar do dia.
Atento em vão (de novo canta o galo)
— quem acorda a terra onde as palavras vibram?
Um frémito de inatenção, uma falha
que se abre — e eu vou dizer a clara
árvore ou espiga luminosa, ainda indecisa
e já aguda na água a luz incide.
Como igualar esta igualdade pura?
Eis a distância fatal que nos separa e onde caio.
Recomeço, recomeçar... Oh a urgência viva
do sopro no espaço verdadeiro, na folha alta!
Mas não te precipites... Pondera a própria água
que em ti pulsa... lança-te só quando se ergue a onda
— mas não és tu mesmo que a levantas, se te ergues?
Assim, tentas e pesas. Caminhas para uma praia,
caminhas numa praia onde a água aviva as pedras,
onde o esplendor igual te aniquila e te salva.
És um corpo aberto, móveis hastes respiram
e no espaço se unem, num obscuro tremor.
Uma espiga de luz condensa grão a grão
as palavras do dia, quando o sol já vai alto.
966
António Ramos Rosa
Até Onde Ou de Onde o Olhar Se Perde
Inesperada e lenta
como sem esforço, lenta
a folha no seu espaço
sem mais que a luz, e verde,
se limita, própria, e se repete
em ramos negros.
No meio o tronco, mas
a seiva não se verte (nem se sente).
Um pouco mais distante é a onda da folhagem,
mais do que as folhas e não um verde espaço,
mas um volume denso e leve,
que nada diz ainda
e vem e vai,
alheio e próximo, e mais alheio
que próximo.
Ou são palavras que tremulam,
ou o visível silêncio
no extremo olhar que não se diz.
Mas se nem próximas nem alheias são
nesse vai-vem tão lento
mais do que a solidão do seu silêncio
algo serão. Quase. Iminentes
na lentidão.
Uma folha? Não.
Nem o seu espaço, nem
o seu contorno nítido.
Só o volume verde escuro,
sem forma quase
e sem distância ou horizonte.
Demasiado perto ou longe.
Um murmúrio de ameaça?
O que dizer? Como
mudar o espaço do olhar?
Digo: a sombra verde.
Será silêncio ou puro ruído?
Não há espaço nem olhar.
Uma folhagem alheia, escura
e sua sombra de ameaça.
Um fogo verde — um tigre?
Que animal me chama?
É desta sombra próxima, longínqua,
que a linguagem surge. E o meu olhar.
O corpo se abre sobre a boca escura.
Eu não sei onde. Mas
se a linguagem surge, é esta
casa, este dia, este corpo
que vos fala? Este o lugar?
Contra o silêncio e o rumor,
nos seus limites a folhagem
tornou-se a árvore, não vista mas a ver-se.
Ou talvez apenas um tremor estremece?
Se a linguagem surge, a árvore vive,
olhar e espaço se reúnem,
se eu vejo a árvore viva
a linguagem surge,
ou só vive a linguagem,
só vive o tremor destas palavras,
só este espaço treme?
Ou o espaço se abre e sou eu que tremo
de um esplendor entrevisto?
Ou o vácuo audível?
Onde estou? Só o tremor
do desejo e eu?
como sem esforço, lenta
a folha no seu espaço
sem mais que a luz, e verde,
se limita, própria, e se repete
em ramos negros.
No meio o tronco, mas
a seiva não se verte (nem se sente).
Um pouco mais distante é a onda da folhagem,
mais do que as folhas e não um verde espaço,
mas um volume denso e leve,
que nada diz ainda
e vem e vai,
alheio e próximo, e mais alheio
que próximo.
Ou são palavras que tremulam,
ou o visível silêncio
no extremo olhar que não se diz.
Mas se nem próximas nem alheias são
nesse vai-vem tão lento
mais do que a solidão do seu silêncio
algo serão. Quase. Iminentes
na lentidão.
Uma folha? Não.
Nem o seu espaço, nem
o seu contorno nítido.
Só o volume verde escuro,
sem forma quase
e sem distância ou horizonte.
Demasiado perto ou longe.
Um murmúrio de ameaça?
O que dizer? Como
mudar o espaço do olhar?
Digo: a sombra verde.
Será silêncio ou puro ruído?
Não há espaço nem olhar.
Uma folhagem alheia, escura
e sua sombra de ameaça.
Um fogo verde — um tigre?
Que animal me chama?
É desta sombra próxima, longínqua,
que a linguagem surge. E o meu olhar.
O corpo se abre sobre a boca escura.
Eu não sei onde. Mas
se a linguagem surge, é esta
casa, este dia, este corpo
que vos fala? Este o lugar?
Contra o silêncio e o rumor,
nos seus limites a folhagem
tornou-se a árvore, não vista mas a ver-se.
Ou talvez apenas um tremor estremece?
Se a linguagem surge, a árvore vive,
olhar e espaço se reúnem,
se eu vejo a árvore viva
a linguagem surge,
ou só vive a linguagem,
só vive o tremor destas palavras,
só este espaço treme?
Ou o espaço se abre e sou eu que tremo
de um esplendor entrevisto?
Ou o vácuo audível?
Onde estou? Só o tremor
do desejo e eu?
1 159
António Ramos Rosa
Na Solidão Renovada
Com os dentes.
Sem música,
sem água.
Reptilmente.
*
Na folha do instante
nenhum galo
ainda
canta.
*
Caminho no país do sono lúcido.
A pedra nos olhos. Um olho de pedra.
Minha cabeça de encontro ao sol do chão.
*
Junto do tronco o texto organizava-se. Todas as palavras eram brancas. Era o silêncio para sempre aqui — a primeira folha aberta. O dia, a terra, o meu corpo — um só corpo.
*
Sentados sobre um tronco, sob as silenciosas copas. A energia do verde em torno acende-nos. É um fogo verde que estala nos corpos. Uma chama verde com duas bocas.
*
Este grande bloco sem lábios. Um dia múltiplo, um só dia vazio, e esta mão que vai talvez desenhar a manhã, sulcar o deserto infatigável, abrir o subterrâneo mortal.
*
Regressas aos teus primeiros lábios. É necessária essa palavra de terra ainda molhada, para que acordes. Atravessaste a sombra desse dia opaco e baixo, até ao extremo delírio do deserto. Não temos casa ainda e alguns de nós se apagarão sem a esperança da manhã. Mas a frente é comum na solidão renovada.
Sem música,
sem água.
Reptilmente.
*
Na folha do instante
nenhum galo
ainda
canta.
*
Caminho no país do sono lúcido.
A pedra nos olhos. Um olho de pedra.
Minha cabeça de encontro ao sol do chão.
*
Junto do tronco o texto organizava-se. Todas as palavras eram brancas. Era o silêncio para sempre aqui — a primeira folha aberta. O dia, a terra, o meu corpo — um só corpo.
*
Sentados sobre um tronco, sob as silenciosas copas. A energia do verde em torno acende-nos. É um fogo verde que estala nos corpos. Uma chama verde com duas bocas.
*
Este grande bloco sem lábios. Um dia múltiplo, um só dia vazio, e esta mão que vai talvez desenhar a manhã, sulcar o deserto infatigável, abrir o subterrâneo mortal.
*
Regressas aos teus primeiros lábios. É necessária essa palavra de terra ainda molhada, para que acordes. Atravessaste a sombra desse dia opaco e baixo, até ao extremo delírio do deserto. Não temos casa ainda e alguns de nós se apagarão sem a esperança da manhã. Mas a frente é comum na solidão renovada.
1 151
António Ramos Rosa
Caminho do Alento
ao Luís Amaro
As que dançam no caminho, ervas dos lábios,
as sinuosas e leves,
sabem ao vento em que navegam,
caem na maciez das pálpebras.
Ó amêndoas do ar
nos ébrios dedos,
e na boca um forno de flor.
Quando se caminha assim, quase volante,
a terra amiga e lenta,
no calor forte,
com a fronte do alento perfumada
ardente entre as searas?
As que dançam no caminho, ervas dos lábios,
as sinuosas e leves,
sabem ao vento em que navegam,
caem na maciez das pálpebras.
Ó amêndoas do ar
nos ébrios dedos,
e na boca um forno de flor.
Quando se caminha assim, quase volante,
a terra amiga e lenta,
no calor forte,
com a fronte do alento perfumada
ardente entre as searas?
572
António Ramos Rosa
Oh, Porque Sim
E fa di clarità l’aer tremare.
GUIDO CAVALCANTI
Oh, porque sim,
mas não sombra de rosa,
ela mesma,
branca de lama, lama branca,
em vertical vertigem.
Oh, sim, porque o espaço treme
à sua marcha de flancos e de folhas.
Um botão negro e alvo.
A espuma de aranha do cabelo.
As pernas que alternam, fusos de água.
O odor do corpo em côncavo de onda.
Árvores ligeiras,
Oh, sim,
por sobre o verde chão nos desfaremos
em verde sangue
até aos lábios do ar, sob as cúpulas verdes,
a grande força aérea e calma em torno
numa só boca volante sobre o chão,
caída, desfeita, respirada.
GUIDO CAVALCANTI
Oh, porque sim,
mas não sombra de rosa,
ela mesma,
branca de lama, lama branca,
em vertical vertigem.
Oh, sim, porque o espaço treme
à sua marcha de flancos e de folhas.
Um botão negro e alvo.
A espuma de aranha do cabelo.
As pernas que alternam, fusos de água.
O odor do corpo em côncavo de onda.
Árvores ligeiras,
Oh, sim,
por sobre o verde chão nos desfaremos
em verde sangue
até aos lábios do ar, sob as cúpulas verdes,
a grande força aérea e calma em torno
numa só boca volante sobre o chão,
caída, desfeita, respirada.
1 091
António Ramos Rosa
Oh, Porque Sim
E fa di clarità l’aer tremare.
GUIDO CAVALCANTI
Oh, porque sim,
mas não sombra de rosa,
ela mesma,
branca de lama, lama branca,
em vertical vertigem.
Oh, sim, porque o espaço treme
à sua marcha de flancos e de folhas.
Um botão negro e alvo.
A espuma de aranha do cabelo.
As pernas que alternam, fusos de água.
O odor do corpo em côncavo de onda.
Árvores ligeiras,
Oh, sim,
por sobre o verde chão nos desfaremos
em verde sangue
até aos lábios do ar, sob as cúpulas verdes,
a grande força aérea e calma em torno
numa só boca volante sobre o chão,
caída, desfeita, respirada.
GUIDO CAVALCANTI
Oh, porque sim,
mas não sombra de rosa,
ela mesma,
branca de lama, lama branca,
em vertical vertigem.
Oh, sim, porque o espaço treme
à sua marcha de flancos e de folhas.
Um botão negro e alvo.
A espuma de aranha do cabelo.
As pernas que alternam, fusos de água.
O odor do corpo em côncavo de onda.
Árvores ligeiras,
Oh, sim,
por sobre o verde chão nos desfaremos
em verde sangue
até aos lábios do ar, sob as cúpulas verdes,
a grande força aérea e calma em torno
numa só boca volante sobre o chão,
caída, desfeita, respirada.
1 091
António Ramos Rosa
Órbita de Verão — 2
Oiço a pedra vasta
do calor.
Aceso, à sombra,
ao tronco
igualo
o silêncio
do meu peito.
Insectos surdos
do olhar
fortificam
o instante.
do calor.
Aceso, à sombra,
ao tronco
igualo
o silêncio
do meu peito.
Insectos surdos
do olhar
fortificam
o instante.
1 035
António Ramos Rosa
Nenhum Obstáculo Ao Dia
Nenhum obstáculo ao dia.
As crianças jogam o jogo ilimitado
do Presente.
É quase ausente a terra no silêncio.
Eu jogo esta mão alta devagar
numa varanda ou num átrio.
O luxo simples, uma folha de ar
treme e se desfaz. Nenhuma sombra
me ocupa.
O olhar se anula em luz e vácuo.
Eu nada sei. Um animal respira
talvez aqui. Quero desenhar-lhe o gesto
na distância do ombro.
E o bafo escuro se desvanece
sem a linha tépida. Ou talvez não.
Devo inventá-lo por completo. Ou pegá-lo firme.
Móvel animal. Agora surge. E apenas é o ar
que pulsa, ou minha perda.
E se eu experimentar este limite — qual? —
para não me anular no espaço todo?
Eu sou o silêncio. Eu provoco-o. Eu jogo
no ilimite. Sem semelhante algum,
não levo lâmpada. Esposo o instante
de uma terra luminosa em que me apago.
Que folha jorra aqui que não tremule
de não ser nada, nada?
Que resposta que não seja a pergunta
e a sombra dela?
Eu jogo a luz e a sombra deste dia,
e se me apago eu sei que elas não brilham.
Ou brilham e sou eu que me perdi.
As crianças jogam o jogo ilimitado
do Presente.
É quase ausente a terra no silêncio.
Eu jogo esta mão alta devagar
numa varanda ou num átrio.
O luxo simples, uma folha de ar
treme e se desfaz. Nenhuma sombra
me ocupa.
O olhar se anula em luz e vácuo.
Eu nada sei. Um animal respira
talvez aqui. Quero desenhar-lhe o gesto
na distância do ombro.
E o bafo escuro se desvanece
sem a linha tépida. Ou talvez não.
Devo inventá-lo por completo. Ou pegá-lo firme.
Móvel animal. Agora surge. E apenas é o ar
que pulsa, ou minha perda.
E se eu experimentar este limite — qual? —
para não me anular no espaço todo?
Eu sou o silêncio. Eu provoco-o. Eu jogo
no ilimite. Sem semelhante algum,
não levo lâmpada. Esposo o instante
de uma terra luminosa em que me apago.
Que folha jorra aqui que não tremule
de não ser nada, nada?
Que resposta que não seja a pergunta
e a sombra dela?
Eu jogo a luz e a sombra deste dia,
e se me apago eu sei que elas não brilham.
Ou brilham e sou eu que me perdi.
1 044
António Ramos Rosa
Bloco Intacto
Abrindo a álea
vertical sobre o vértice do instante
sem frenesim mas denso de
todo o sangue que me enche no silêncio desta álea
caminho para ti
lenta lentamente a densa bola sobre o jacto de água dança
e eu sou o jorro de água eu sou a bola em equilíbrio
a permanente coroa branca efervescente branca
na tranquila anónima macia dourada suburbana álea
a seda deste instante não se rasga
é um grande bloco intacto que se desloca
para a minha eternidade
a iminência de ti é a boca já feliz a árvore que estala em cada poro a seiva
a parede de água que contenho a porta doce e clandestina
a porta que desliza
e é então que
no espaço da vertigem
em ti me uno à sede e das raízes subo
e pelas raízes sou
vertical sobre o vértice do instante
sem frenesim mas denso de
todo o sangue que me enche no silêncio desta álea
caminho para ti
lenta lentamente a densa bola sobre o jacto de água dança
e eu sou o jorro de água eu sou a bola em equilíbrio
a permanente coroa branca efervescente branca
na tranquila anónima macia dourada suburbana álea
a seda deste instante não se rasga
é um grande bloco intacto que se desloca
para a minha eternidade
a iminência de ti é a boca já feliz a árvore que estala em cada poro a seiva
a parede de água que contenho a porta doce e clandestina
a porta que desliza
e é então que
no espaço da vertigem
em ti me uno à sede e das raízes subo
e pelas raízes sou
1 130
António Ramos Rosa
Campo E Corpo
Não houve antes nem haverá depois.
Quando inicia, se sopra a sombra, é uma
absoluta rosa que principia sempre.
À mesa de trabalho, a página é vazia.
A luz banha a brancura e um campo emerge ténue.
O sangue tumultua, respira o mar suave.
Um corpo, quem o sabe, onde começa o sangue?
Um corpo está no campo, corpo e campo se envolvem
na paz mútua que nasce, de dentro e fora, una.
Troncos, membros, olhar circundam campo e corpo.
O campo que se alarga e que respira é corpo.
O corpo que ondula e se prolonga é campo.
O olhar alarga o campo, o campo estende o corpo.
Pernas, braços, tronco estendem-se à extensa terra.
Um corpo intenso cresce em campo vivo ao sol.
Nudez de campo e corpo. Um ar só comunica
sem dentro e fora. Uma cadência solta
percorre uma área una. O sangue está no campo.
As árvores banham-se na limpidez do corpo.
Os animais saltam lúcidos e delicados
entre as ervas do sangue. Pastam os sonhos
entre pedras. Nudez de corpo e campo.
A língua pousa no prado. O sexo penetra a terra.
Campo e corpo uno. A mão pousa no monte.
Respiro e danço com todo o corpo e campo.
Lanço-me com todo o corpo em pleno campo
e danço tranquilamente a absoluta rosa única
que formo pétala a pétala, rodando no seu centro.
O campo que desdobro e rodopio é um corpo
que do meu corpo nasce, que do meu campo solto.
Quando inicia, se sopra a sombra, é uma
absoluta rosa que principia sempre.
À mesa de trabalho, a página é vazia.
A luz banha a brancura e um campo emerge ténue.
O sangue tumultua, respira o mar suave.
Um corpo, quem o sabe, onde começa o sangue?
Um corpo está no campo, corpo e campo se envolvem
na paz mútua que nasce, de dentro e fora, una.
Troncos, membros, olhar circundam campo e corpo.
O campo que se alarga e que respira é corpo.
O corpo que ondula e se prolonga é campo.
O olhar alarga o campo, o campo estende o corpo.
Pernas, braços, tronco estendem-se à extensa terra.
Um corpo intenso cresce em campo vivo ao sol.
Nudez de campo e corpo. Um ar só comunica
sem dentro e fora. Uma cadência solta
percorre uma área una. O sangue está no campo.
As árvores banham-se na limpidez do corpo.
Os animais saltam lúcidos e delicados
entre as ervas do sangue. Pastam os sonhos
entre pedras. Nudez de corpo e campo.
A língua pousa no prado. O sexo penetra a terra.
Campo e corpo uno. A mão pousa no monte.
Respiro e danço com todo o corpo e campo.
Lanço-me com todo o corpo em pleno campo
e danço tranquilamente a absoluta rosa única
que formo pétala a pétala, rodando no seu centro.
O campo que desdobro e rodopio é um corpo
que do meu corpo nasce, que do meu campo solto.
1 150
António Ramos Rosa
Lâmpada Oscilante
O que eu diria, caminho pobre,
caminho de pó. Com dedos de sol,
a mão rasando a parede, minha única asa
— pó de asa no muro.
O que perdi, perco, tudo o que vi,
lâmpada de folhas, reúno o pó disperso,
pente de pedra em cabelos de terra,
o chão do dia some-se sob os passos nocturnos,
o sol ilumina o muro que não vejo.
O que te digo acende-se na boca que não ouço,
o que te dou é um sinal de que não vejo a luz.
Corro ao longo do muro raso
antes que o sol se apague.
Os dedos do sol pela terra rasa,
o fogo breve
extingue-se nas árvores.
Caminho contra o vento com um resto de calor.
caminho de pó. Com dedos de sol,
a mão rasando a parede, minha única asa
— pó de asa no muro.
O que perdi, perco, tudo o que vi,
lâmpada de folhas, reúno o pó disperso,
pente de pedra em cabelos de terra,
o chão do dia some-se sob os passos nocturnos,
o sol ilumina o muro que não vejo.
O que te digo acende-se na boca que não ouço,
o que te dou é um sinal de que não vejo a luz.
Corro ao longo do muro raso
antes que o sol se apague.
Os dedos do sol pela terra rasa,
o fogo breve
extingue-se nas árvores.
Caminho contra o vento com um resto de calor.
1 130
António Ramos Rosa
Sol de Inverno
Os joelhos gelam ao vento alto das ervas.
Caminho soprado, sôfrego, a boca rasa.
Nós agudos, montanha viva, acesa face.
Estrito o sol se apura a fio.
Pedras com sabor de terra nua.
O caminho arrefece já sob as sombras.
Sede de vento alto que se desfaz.
Límpido e frio, a nula fronte do ar me investe.
Caminho soprado, sôfrego, a boca rasa.
Nós agudos, montanha viva, acesa face.
Estrito o sol se apura a fio.
Pedras com sabor de terra nua.
O caminho arrefece já sob as sombras.
Sede de vento alto que se desfaz.
Límpido e frio, a nula fronte do ar me investe.
1 074
António Ramos Rosa
Sol de Inverno
Os joelhos gelam ao vento alto das ervas.
Caminho soprado, sôfrego, a boca rasa.
Nós agudos, montanha viva, acesa face.
Estrito o sol se apura a fio.
Pedras com sabor de terra nua.
O caminho arrefece já sob as sombras.
Sede de vento alto que se desfaz.
Límpido e frio, a nula fronte do ar me investe.
Caminho soprado, sôfrego, a boca rasa.
Nós agudos, montanha viva, acesa face.
Estrito o sol se apura a fio.
Pedras com sabor de terra nua.
O caminho arrefece já sob as sombras.
Sede de vento alto que se desfaz.
Límpido e frio, a nula fronte do ar me investe.
1 074
António Ramos Rosa
Momento 2
Lentamente inalterada
a curva radiosa e justa
(comunhão de olhar e de mulher
os corpos salvos
na larga clareira em frente ao mar)
Momento imenso de espaço
a terra silenciosa e escura
atrás da casa
uma palavra nova apaga o sol
a curva radiosa e justa
(comunhão de olhar e de mulher
os corpos salvos
na larga clareira em frente ao mar)
Momento imenso de espaço
a terra silenciosa e escura
atrás da casa
uma palavra nova apaga o sol
1 035
António Ramos Rosa
Aqui Mereço-Te
O sabor do pão e da terra
e uma luva de orvalho na mão ligeira.
A flor fresca que respiro é branca.
E corto o ar como um pão enquanto caminho entre searas.
Pertenço em cada movimento a esta terra.
O meu suor tem o gosto das ervas e das pedras.
Sorvo o silêncio visível entre as árvores.
É aqui e agora o dilatado abraço das raízes claras do sono.
Sob as pálpebras transparentes deste dia
o ar é o suspiro dos próprios lábios.
Amar aqui é amar no mar,
mas com a resistência das paredes da terra.
A mão flui liberta tão livre como o olhar.
Aqui posso estar seguro e leve no silêncio
entre calmas formas, matérias densas, raízes lentas,
ao fogo esparso que alastra ao horizonte.
No meu corpo acende-se uma pequena lâmpada.
Tudo o que eu disser são os lábios da terra,
o leve martelar das línguas de água,
as feridas da seiva, o estalar das crostas,
o murmúrio do ar e do fogo sobre a terra,
o incessante alimento que percorre o meu corpo.
Aqui no grande olhar eu vejo e anuncio
as claras ervas, as pedras vivas, os pequenos animais,
os alimentos puros,
as espessas e nutritivas paredes do sono,
o teu corpo com todo o vagar da sua massa,
todo o peso das coisas e a ligeireza do ar.
Ao flexível volante trabalhado pelas seivas
a minha mão alia-se: bom dia, horizonte.
Uma saúde nova vai nascer destes ombros.
A lâmpada respira ao ritmo da terra.
Sei os caminhos da água pelas veredas,
as mãos das ervas finas embriagadas de ar,
o silêncio donde se ergue a torre do canto.
Abrem-se os novos lábios e eu mereço-te.
É este o reino de insectos e de jogos,
das carícias que sabem a uma sede feliz.
Aqui entre o poço e o muro,
neste pequeno espaço de pedra cai um silêncio antigo:
uma infância inextinguível se alimenta
de uma fábula que renasce em todas as idades.
É aqui, minha filha, que dança a fada do ar
com seu brilho sedoso de erva fina
e a sua abelha silenciosa sobre a fronte.
É aqui o eterno recanto onde a água diz
a pura praia da infância.
Aqui bebe e bebe longamente
o hálito da tristeza no silêncio da vida,
aqui, ó pátria de água calada e de pão doce,
da fundura do tempo, da lonjura permanente,
aqui, bom dia, minha filha.
e uma luva de orvalho na mão ligeira.
A flor fresca que respiro é branca.
E corto o ar como um pão enquanto caminho entre searas.
Pertenço em cada movimento a esta terra.
O meu suor tem o gosto das ervas e das pedras.
Sorvo o silêncio visível entre as árvores.
É aqui e agora o dilatado abraço das raízes claras do sono.
Sob as pálpebras transparentes deste dia
o ar é o suspiro dos próprios lábios.
Amar aqui é amar no mar,
mas com a resistência das paredes da terra.
A mão flui liberta tão livre como o olhar.
Aqui posso estar seguro e leve no silêncio
entre calmas formas, matérias densas, raízes lentas,
ao fogo esparso que alastra ao horizonte.
No meu corpo acende-se uma pequena lâmpada.
Tudo o que eu disser são os lábios da terra,
o leve martelar das línguas de água,
as feridas da seiva, o estalar das crostas,
o murmúrio do ar e do fogo sobre a terra,
o incessante alimento que percorre o meu corpo.
Aqui no grande olhar eu vejo e anuncio
as claras ervas, as pedras vivas, os pequenos animais,
os alimentos puros,
as espessas e nutritivas paredes do sono,
o teu corpo com todo o vagar da sua massa,
todo o peso das coisas e a ligeireza do ar.
Ao flexível volante trabalhado pelas seivas
a minha mão alia-se: bom dia, horizonte.
Uma saúde nova vai nascer destes ombros.
A lâmpada respira ao ritmo da terra.
Sei os caminhos da água pelas veredas,
as mãos das ervas finas embriagadas de ar,
o silêncio donde se ergue a torre do canto.
Abrem-se os novos lábios e eu mereço-te.
É este o reino de insectos e de jogos,
das carícias que sabem a uma sede feliz.
Aqui entre o poço e o muro,
neste pequeno espaço de pedra cai um silêncio antigo:
uma infância inextinguível se alimenta
de uma fábula que renasce em todas as idades.
É aqui, minha filha, que dança a fada do ar
com seu brilho sedoso de erva fina
e a sua abelha silenciosa sobre a fronte.
É aqui o eterno recanto onde a água diz
a pura praia da infância.
Aqui bebe e bebe longamente
o hálito da tristeza no silêncio da vida,
aqui, ó pátria de água calada e de pão doce,
da fundura do tempo, da lonjura permanente,
aqui, bom dia, minha filha.
1 027
António Ramos Rosa
Aqui Mereço-Te
O sabor do pão e da terra
e uma luva de orvalho na mão ligeira.
A flor fresca que respiro é branca.
E corto o ar como um pão enquanto caminho entre searas.
Pertenço em cada movimento a esta terra.
O meu suor tem o gosto das ervas e das pedras.
Sorvo o silêncio visível entre as árvores.
É aqui e agora o dilatado abraço das raízes claras do sono.
Sob as pálpebras transparentes deste dia
o ar é o suspiro dos próprios lábios.
Amar aqui é amar no mar,
mas com a resistência das paredes da terra.
A mão flui liberta tão livre como o olhar.
Aqui posso estar seguro e leve no silêncio
entre calmas formas, matérias densas, raízes lentas,
ao fogo esparso que alastra ao horizonte.
No meu corpo acende-se uma pequena lâmpada.
Tudo o que eu disser são os lábios da terra,
o leve martelar das línguas de água,
as feridas da seiva, o estalar das crostas,
o murmúrio do ar e do fogo sobre a terra,
o incessante alimento que percorre o meu corpo.
Aqui no grande olhar eu vejo e anuncio
as claras ervas, as pedras vivas, os pequenos animais,
os alimentos puros,
as espessas e nutritivas paredes do sono,
o teu corpo com todo o vagar da sua massa,
todo o peso das coisas e a ligeireza do ar.
Ao flexível volante trabalhado pelas seivas
a minha mão alia-se: bom dia, horizonte.
Uma saúde nova vai nascer destes ombros.
A lâmpada respira ao ritmo da terra.
Sei os caminhos da água pelas veredas,
as mãos das ervas finas embriagadas de ar,
o silêncio donde se ergue a torre do canto.
Abrem-se os novos lábios e eu mereço-te.
É este o reino de insectos e de jogos,
das carícias que sabem a uma sede feliz.
Aqui entre o poço e o muro,
neste pequeno espaço de pedra cai um silêncio antigo:
uma infância inextinguível se alimenta
de uma fábula que renasce em todas as idades.
É aqui, minha filha, que dança a fada do ar
com seu brilho sedoso de erva fina
e a sua abelha silenciosa sobre a fronte.
É aqui o eterno recanto onde a água diz
a pura praia da infância.
Aqui bebe e bebe longamente
o hálito da tristeza no silêncio da vida,
aqui, ó pátria de água calada e de pão doce,
da fundura do tempo, da lonjura permanente,
aqui, bom dia, minha filha.
e uma luva de orvalho na mão ligeira.
A flor fresca que respiro é branca.
E corto o ar como um pão enquanto caminho entre searas.
Pertenço em cada movimento a esta terra.
O meu suor tem o gosto das ervas e das pedras.
Sorvo o silêncio visível entre as árvores.
É aqui e agora o dilatado abraço das raízes claras do sono.
Sob as pálpebras transparentes deste dia
o ar é o suspiro dos próprios lábios.
Amar aqui é amar no mar,
mas com a resistência das paredes da terra.
A mão flui liberta tão livre como o olhar.
Aqui posso estar seguro e leve no silêncio
entre calmas formas, matérias densas, raízes lentas,
ao fogo esparso que alastra ao horizonte.
No meu corpo acende-se uma pequena lâmpada.
Tudo o que eu disser são os lábios da terra,
o leve martelar das línguas de água,
as feridas da seiva, o estalar das crostas,
o murmúrio do ar e do fogo sobre a terra,
o incessante alimento que percorre o meu corpo.
Aqui no grande olhar eu vejo e anuncio
as claras ervas, as pedras vivas, os pequenos animais,
os alimentos puros,
as espessas e nutritivas paredes do sono,
o teu corpo com todo o vagar da sua massa,
todo o peso das coisas e a ligeireza do ar.
Ao flexível volante trabalhado pelas seivas
a minha mão alia-se: bom dia, horizonte.
Uma saúde nova vai nascer destes ombros.
A lâmpada respira ao ritmo da terra.
Sei os caminhos da água pelas veredas,
as mãos das ervas finas embriagadas de ar,
o silêncio donde se ergue a torre do canto.
Abrem-se os novos lábios e eu mereço-te.
É este o reino de insectos e de jogos,
das carícias que sabem a uma sede feliz.
Aqui entre o poço e o muro,
neste pequeno espaço de pedra cai um silêncio antigo:
uma infância inextinguível se alimenta
de uma fábula que renasce em todas as idades.
É aqui, minha filha, que dança a fada do ar
com seu brilho sedoso de erva fina
e a sua abelha silenciosa sobre a fronte.
É aqui o eterno recanto onde a água diz
a pura praia da infância.
Aqui bebe e bebe longamente
o hálito da tristeza no silêncio da vida,
aqui, ó pátria de água calada e de pão doce,
da fundura do tempo, da lonjura permanente,
aqui, bom dia, minha filha.
1 027
António Ramos Rosa
Aqui Mereço-Te
O sabor do pão e da terra
e uma luva de orvalho na mão ligeira.
A flor fresca que respiro é branca.
E corto o ar como um pão enquanto caminho entre searas.
Pertenço em cada movimento a esta terra.
O meu suor tem o gosto das ervas e das pedras.
Sorvo o silêncio visível entre as árvores.
É aqui e agora o dilatado abraço das raízes claras do sono.
Sob as pálpebras transparentes deste dia
o ar é o suspiro dos próprios lábios.
Amar aqui é amar no mar,
mas com a resistência das paredes da terra.
A mão flui liberta tão livre como o olhar.
Aqui posso estar seguro e leve no silêncio
entre calmas formas, matérias densas, raízes lentas,
ao fogo esparso que alastra ao horizonte.
No meu corpo acende-se uma pequena lâmpada.
Tudo o que eu disser são os lábios da terra,
o leve martelar das línguas de água,
as feridas da seiva, o estalar das crostas,
o murmúrio do ar e do fogo sobre a terra,
o incessante alimento que percorre o meu corpo.
Aqui no grande olhar eu vejo e anuncio
as claras ervas, as pedras vivas, os pequenos animais,
os alimentos puros,
as espessas e nutritivas paredes do sono,
o teu corpo com todo o vagar da sua massa,
todo o peso das coisas e a ligeireza do ar.
Ao flexível volante trabalhado pelas seivas
a minha mão alia-se: bom dia, horizonte.
Uma saúde nova vai nascer destes ombros.
A lâmpada respira ao ritmo da terra.
Sei os caminhos da água pelas veredas,
as mãos das ervas finas embriagadas de ar,
o silêncio donde se ergue a torre do canto.
Abrem-se os novos lábios e eu mereço-te.
É este o reino de insectos e de jogos,
das carícias que sabem a uma sede feliz.
Aqui entre o poço e o muro,
neste pequeno espaço de pedra cai um silêncio antigo:
uma infância inextinguível se alimenta
de uma fábula que renasce em todas as idades.
É aqui, minha filha, que dança a fada do ar
com seu brilho sedoso de erva fina
e a sua abelha silenciosa sobre a fronte.
É aqui o eterno recanto onde a água diz
a pura praia da infância.
Aqui bebe e bebe longamente
o hálito da tristeza no silêncio da vida,
aqui, ó pátria de água calada e de pão doce,
da fundura do tempo, da lonjura permanente,
aqui, bom dia, minha filha.
e uma luva de orvalho na mão ligeira.
A flor fresca que respiro é branca.
E corto o ar como um pão enquanto caminho entre searas.
Pertenço em cada movimento a esta terra.
O meu suor tem o gosto das ervas e das pedras.
Sorvo o silêncio visível entre as árvores.
É aqui e agora o dilatado abraço das raízes claras do sono.
Sob as pálpebras transparentes deste dia
o ar é o suspiro dos próprios lábios.
Amar aqui é amar no mar,
mas com a resistência das paredes da terra.
A mão flui liberta tão livre como o olhar.
Aqui posso estar seguro e leve no silêncio
entre calmas formas, matérias densas, raízes lentas,
ao fogo esparso que alastra ao horizonte.
No meu corpo acende-se uma pequena lâmpada.
Tudo o que eu disser são os lábios da terra,
o leve martelar das línguas de água,
as feridas da seiva, o estalar das crostas,
o murmúrio do ar e do fogo sobre a terra,
o incessante alimento que percorre o meu corpo.
Aqui no grande olhar eu vejo e anuncio
as claras ervas, as pedras vivas, os pequenos animais,
os alimentos puros,
as espessas e nutritivas paredes do sono,
o teu corpo com todo o vagar da sua massa,
todo o peso das coisas e a ligeireza do ar.
Ao flexível volante trabalhado pelas seivas
a minha mão alia-se: bom dia, horizonte.
Uma saúde nova vai nascer destes ombros.
A lâmpada respira ao ritmo da terra.
Sei os caminhos da água pelas veredas,
as mãos das ervas finas embriagadas de ar,
o silêncio donde se ergue a torre do canto.
Abrem-se os novos lábios e eu mereço-te.
É este o reino de insectos e de jogos,
das carícias que sabem a uma sede feliz.
Aqui entre o poço e o muro,
neste pequeno espaço de pedra cai um silêncio antigo:
uma infância inextinguível se alimenta
de uma fábula que renasce em todas as idades.
É aqui, minha filha, que dança a fada do ar
com seu brilho sedoso de erva fina
e a sua abelha silenciosa sobre a fronte.
É aqui o eterno recanto onde a água diz
a pura praia da infância.
Aqui bebe e bebe longamente
o hálito da tristeza no silêncio da vida,
aqui, ó pátria de água calada e de pão doce,
da fundura do tempo, da lonjura permanente,
aqui, bom dia, minha filha.
1 027
António Ramos Rosa
Antes da Noite
Eu não fabrico a água.
Estas árvores existem. Estas mãos
estendem-se. Os meus passos
conjugam-se entre árvores, ruas, muita gente.
Mas eis a distância (a do deserto)
e aqui aproximo-me, é um desvio
verde, não a terra encantada,
à beira de ser eu, antecipo a vaga
que a língua move,
parede que foge e que se eleva
sobre a água, sombra e relvas.
O percurso é incerto. A cidade
é longe. E aqui a ausência
de uma árvore.
Interminável suspensão.
Mas a transparência existe.
Os músculos da boca são redondos.
No pulso bate a seiva. Sinto-me vivo.
Ó móvel vagar que eu pronuncio.
E a luz sempre, a luz e a sombra.
Entre uma e outra estendo a rede.
Eu quero beber a água deste dia
antes da noite.
Estas árvores existem. Estas mãos
estendem-se. Os meus passos
conjugam-se entre árvores, ruas, muita gente.
Mas eis a distância (a do deserto)
e aqui aproximo-me, é um desvio
verde, não a terra encantada,
à beira de ser eu, antecipo a vaga
que a língua move,
parede que foge e que se eleva
sobre a água, sombra e relvas.
O percurso é incerto. A cidade
é longe. E aqui a ausência
de uma árvore.
Interminável suspensão.
Mas a transparência existe.
Os músculos da boca são redondos.
No pulso bate a seiva. Sinto-me vivo.
Ó móvel vagar que eu pronuncio.
E a luz sempre, a luz e a sombra.
Entre uma e outra estendo a rede.
Eu quero beber a água deste dia
antes da noite.
973
António Ramos Rosa
O Papel, a Mesa, o Sol, a Pena…
O papel, a mesa, o sol, a pena…
Ao lado, a janela. E nada tenho
e nada sou que escrevo. E nada espero
de quanto espero.
Enquanto escrevo não sou nem mesmo quero
não escuto nem palavras nem silêncio.
Alinho palavras mas ainda não caminho.
Estou a uma mesa pobre sem movimento.
O papel, a mesa, o sol, a pena…
Nada começa, nem à sombra respiro.
Tudo é distinto e claro.
Tudo é certo ou obscuro. Em vão caminho.
Não quero esperar,
não quero navegar num mar fácil de palavras.
Quero caminhar somente com o corpo que sou,
quero, sem querer, ser o próprio sangue,
músculos, língua, braços, pernas, sexo,
a mesma certeza oculta e única, tantas vezes clara,
a mesma força que nos pulsos aflora, tensa,
a mesma noite aberta que a todo o dia estendo,
a mesma alta, elástica dança de um corpo vivo!
Mas agora estou no intervalo em que
toda a sombra é fria e todo o sangue é pobre.
Escrevo para não viver sem espaço,
para que o corpo não morra na sombra fria.
Sou a pobreza ilimitada de uma página.
Sou um campo abandonado. A margem
sem respiração.
Mas o corpo jamais cessa, o corpo sabe
a ciência certa da navegação no espaço,
o corpo abre-se ao dia, circula no próprio dia,
o corpo pode vencer a fria sombra do dia.
Todas as palavras se iluminam
ao lume certo do corpo que se despe,
todas as palavras ficam nuas
na tua sombra ardente.
Ao lado, a janela. E nada tenho
e nada sou que escrevo. E nada espero
de quanto espero.
Enquanto escrevo não sou nem mesmo quero
não escuto nem palavras nem silêncio.
Alinho palavras mas ainda não caminho.
Estou a uma mesa pobre sem movimento.
O papel, a mesa, o sol, a pena…
Nada começa, nem à sombra respiro.
Tudo é distinto e claro.
Tudo é certo ou obscuro. Em vão caminho.
Não quero esperar,
não quero navegar num mar fácil de palavras.
Quero caminhar somente com o corpo que sou,
quero, sem querer, ser o próprio sangue,
músculos, língua, braços, pernas, sexo,
a mesma certeza oculta e única, tantas vezes clara,
a mesma força que nos pulsos aflora, tensa,
a mesma noite aberta que a todo o dia estendo,
a mesma alta, elástica dança de um corpo vivo!
Mas agora estou no intervalo em que
toda a sombra é fria e todo o sangue é pobre.
Escrevo para não viver sem espaço,
para que o corpo não morra na sombra fria.
Sou a pobreza ilimitada de uma página.
Sou um campo abandonado. A margem
sem respiração.
Mas o corpo jamais cessa, o corpo sabe
a ciência certa da navegação no espaço,
o corpo abre-se ao dia, circula no próprio dia,
o corpo pode vencer a fria sombra do dia.
Todas as palavras se iluminam
ao lume certo do corpo que se despe,
todas as palavras ficam nuas
na tua sombra ardente.
1 066
António Ramos Rosa
Alto Campo o Dia
Alto campo o dia, para as mãos do rosto.
Sala aberta ao céu.
No extremo da linha o sol
para o cimo declina.
Um sóbrio caminho que trepida.
Motor suave, o sol, à beira de água.
Sala aberta ao céu.
No extremo da linha o sol
para o cimo declina.
Um sóbrio caminho que trepida.
Motor suave, o sol, à beira de água.
1 063
António Ramos Rosa
Alto Campo o Dia
Alto campo o dia, para as mãos do rosto.
Sala aberta ao céu.
No extremo da linha o sol
para o cimo declina.
Um sóbrio caminho que trepida.
Motor suave, o sol, à beira de água.
Sala aberta ao céu.
No extremo da linha o sol
para o cimo declina.
Um sóbrio caminho que trepida.
Motor suave, o sol, à beira de água.
1 063
António Ramos Rosa
Goetz
São os troncos troncos e um monte
puxado para o sol obliquamente.
E a terra é de carvão, mar de raízes
e o sol dourado de limão, quase oculto,
estende-se sobre o verde da folhagem.
Uns fogachos brancos rompem sonoros.
Não se tinha contemplado ainda a porta.
Era vermelha sob a fechadura negra.
Pela fresta o espaço era verde acinzentado.
E duas cordas ao lado, atravessadas
por um ponto de interrogação horizontal
caíam musicais.
A praia era de guitarras destruídas,
voos negros rosados sobre azul,
e sobre o branco multiplicado do céu cantava
o azul,
cantava o branco sol e azul
e os fragmentos de guitarra verdes vermelhos
negros
cantavam mar azul, praia vermelha,
voos de andorinha negros.
puxado para o sol obliquamente.
E a terra é de carvão, mar de raízes
e o sol dourado de limão, quase oculto,
estende-se sobre o verde da folhagem.
Uns fogachos brancos rompem sonoros.
Não se tinha contemplado ainda a porta.
Era vermelha sob a fechadura negra.
Pela fresta o espaço era verde acinzentado.
E duas cordas ao lado, atravessadas
por um ponto de interrogação horizontal
caíam musicais.
A praia era de guitarras destruídas,
voos negros rosados sobre azul,
e sobre o branco multiplicado do céu cantava
o azul,
cantava o branco sol e azul
e os fragmentos de guitarra verdes vermelhos
negros
cantavam mar azul, praia vermelha,
voos de andorinha negros.
1 096
António Ramos Rosa
Goetz
São os troncos troncos e um monte
puxado para o sol obliquamente.
E a terra é de carvão, mar de raízes
e o sol dourado de limão, quase oculto,
estende-se sobre o verde da folhagem.
Uns fogachos brancos rompem sonoros.
Não se tinha contemplado ainda a porta.
Era vermelha sob a fechadura negra.
Pela fresta o espaço era verde acinzentado.
E duas cordas ao lado, atravessadas
por um ponto de interrogação horizontal
caíam musicais.
A praia era de guitarras destruídas,
voos negros rosados sobre azul,
e sobre o branco multiplicado do céu cantava
o azul,
cantava o branco sol e azul
e os fragmentos de guitarra verdes vermelhos
negros
cantavam mar azul, praia vermelha,
voos de andorinha negros.
puxado para o sol obliquamente.
E a terra é de carvão, mar de raízes
e o sol dourado de limão, quase oculto,
estende-se sobre o verde da folhagem.
Uns fogachos brancos rompem sonoros.
Não se tinha contemplado ainda a porta.
Era vermelha sob a fechadura negra.
Pela fresta o espaço era verde acinzentado.
E duas cordas ao lado, atravessadas
por um ponto de interrogação horizontal
caíam musicais.
A praia era de guitarras destruídas,
voos negros rosados sobre azul,
e sobre o branco multiplicado do céu cantava
o azul,
cantava o branco sol e azul
e os fragmentos de guitarra verdes vermelhos
negros
cantavam mar azul, praia vermelha,
voos de andorinha negros.
1 096
António Ramos Rosa
Goetz
São os troncos troncos e um monte
puxado para o sol obliquamente.
E a terra é de carvão, mar de raízes
e o sol dourado de limão, quase oculto,
estende-se sobre o verde da folhagem.
Uns fogachos brancos rompem sonoros.
Não se tinha contemplado ainda a porta.
Era vermelha sob a fechadura negra.
Pela fresta o espaço era verde acinzentado.
E duas cordas ao lado, atravessadas
por um ponto de interrogação horizontal
caíam musicais.
A praia era de guitarras destruídas,
voos negros rosados sobre azul,
e sobre o branco multiplicado do céu cantava
o azul,
cantava o branco sol e azul
e os fragmentos de guitarra verdes vermelhos
negros
cantavam mar azul, praia vermelha,
voos de andorinha negros.
puxado para o sol obliquamente.
E a terra é de carvão, mar de raízes
e o sol dourado de limão, quase oculto,
estende-se sobre o verde da folhagem.
Uns fogachos brancos rompem sonoros.
Não se tinha contemplado ainda a porta.
Era vermelha sob a fechadura negra.
Pela fresta o espaço era verde acinzentado.
E duas cordas ao lado, atravessadas
por um ponto de interrogação horizontal
caíam musicais.
A praia era de guitarras destruídas,
voos negros rosados sobre azul,
e sobre o branco multiplicado do céu cantava
o azul,
cantava o branco sol e azul
e os fragmentos de guitarra verdes vermelhos
negros
cantavam mar azul, praia vermelha,
voos de andorinha negros.
1 096