Poemas neste tema
Natureza e Elementos
António Ramos Rosa
Estou Em Minha Casa
Estou em minha casa
ou em casa roubada?
A minha água é de outro,
o meu princípio é já passado,
as palavras apagam-se na parede fria,
quem me distingue ou sopra
um ar já percorrido onde vivi já morto?
Quem me procuro? Viver na nuvem clara
fora dos anos, facilidade lisa,
força da fragilidade nua,
campo de verso aberto sobre o espaço,
onda de bocas múltiplas,
onda a lavrar o ar,
e uma boca interdita,
uma só palavra calada à beira de água.
Quem me rouba ou a casa é de vento?
Onde estou senão onde a parede acaba?
Quem me atravessa os ossos e me acende as letras
que sobre o sangue giram?
O meu nome é rente ao muro que o sinto,
mas o ar que respiro não tem pátria,
sou livre quando o vento me trespassa
sem idade,
e perco o olhar na claridade.
Nenhuma palavra me é dada,
nenhuma casa, nenhum destino.
Tudo eu quero, tudo me falta
e é precisamente por nada ter, por nada ser,
que me lanço e me perco contra o ar,
e por isso não invento nenhuma face
nem qualquer mistério que não seja a sede
de me igualar ao ar.
Minha bebedeira é de ar
numa cidade.
Deslizo entre automóveis que ignoram
a minha ciência de deslizar entre eles.
Mas as árvores mais nuas pertencem à minha fronte livre.
Sou obstinado na minha marcha nesta cidade
em que se repararmos bem ninguém se lembra de respirar.
O ar é ainda livre nas ruas.
É necessário afirmar este acto elementar.
Alguém ainda caminha e respira,
mortos!
ou em casa roubada?
A minha água é de outro,
o meu princípio é já passado,
as palavras apagam-se na parede fria,
quem me distingue ou sopra
um ar já percorrido onde vivi já morto?
Quem me procuro? Viver na nuvem clara
fora dos anos, facilidade lisa,
força da fragilidade nua,
campo de verso aberto sobre o espaço,
onda de bocas múltiplas,
onda a lavrar o ar,
e uma boca interdita,
uma só palavra calada à beira de água.
Quem me rouba ou a casa é de vento?
Onde estou senão onde a parede acaba?
Quem me atravessa os ossos e me acende as letras
que sobre o sangue giram?
O meu nome é rente ao muro que o sinto,
mas o ar que respiro não tem pátria,
sou livre quando o vento me trespassa
sem idade,
e perco o olhar na claridade.
Nenhuma palavra me é dada,
nenhuma casa, nenhum destino.
Tudo eu quero, tudo me falta
e é precisamente por nada ter, por nada ser,
que me lanço e me perco contra o ar,
e por isso não invento nenhuma face
nem qualquer mistério que não seja a sede
de me igualar ao ar.
Minha bebedeira é de ar
numa cidade.
Deslizo entre automóveis que ignoram
a minha ciência de deslizar entre eles.
Mas as árvores mais nuas pertencem à minha fronte livre.
Sou obstinado na minha marcha nesta cidade
em que se repararmos bem ninguém se lembra de respirar.
O ar é ainda livre nas ruas.
É necessário afirmar este acto elementar.
Alguém ainda caminha e respira,
mortos!
1 025
António Ramos Rosa
Configurações
A mão limpa na pedra
levanta-se outra devagar.
Rede do dia,
de madeira e de ar.
O pó do ar.
A sombra branca na palma
como uma lâmina
de ar.
A manhã pela janela.
Outras janelas pelo ar.
A face errante e fresca.
Nervos livres na prata solta
do ar.
Casa erguida com ervas e gritos
na luz da rocha ao vento.
Trespassada e sólida.
O tempo de soltar uma vela
rente à sombra da árvore,
os prédios contra o céu claros.
Agulha, estilhas de ar.
O pente das cores e a água do caminho
Um tempo sob os passos,
caminho inextinguível,
a luz jogando leve,
para respirar sem eco
um tronco
um tempo inalterável.
A luz como uma árvore sem bordos.
levanta-se outra devagar.
Rede do dia,
de madeira e de ar.
O pó do ar.
A sombra branca na palma
como uma lâmina
de ar.
A manhã pela janela.
Outras janelas pelo ar.
A face errante e fresca.
Nervos livres na prata solta
do ar.
Casa erguida com ervas e gritos
na luz da rocha ao vento.
Trespassada e sólida.
O tempo de soltar uma vela
rente à sombra da árvore,
os prédios contra o céu claros.
Agulha, estilhas de ar.
O pente das cores e a água do caminho
Um tempo sob os passos,
caminho inextinguível,
a luz jogando leve,
para respirar sem eco
um tronco
um tempo inalterável.
A luz como uma árvore sem bordos.
1 034
António Ramos Rosa
Configurações
A mão limpa na pedra
levanta-se outra devagar.
Rede do dia,
de madeira e de ar.
O pó do ar.
A sombra branca na palma
como uma lâmina
de ar.
A manhã pela janela.
Outras janelas pelo ar.
A face errante e fresca.
Nervos livres na prata solta
do ar.
Casa erguida com ervas e gritos
na luz da rocha ao vento.
Trespassada e sólida.
O tempo de soltar uma vela
rente à sombra da árvore,
os prédios contra o céu claros.
Agulha, estilhas de ar.
O pente das cores e a água do caminho
Um tempo sob os passos,
caminho inextinguível,
a luz jogando leve,
para respirar sem eco
um tronco
um tempo inalterável.
A luz como uma árvore sem bordos.
levanta-se outra devagar.
Rede do dia,
de madeira e de ar.
O pó do ar.
A sombra branca na palma
como uma lâmina
de ar.
A manhã pela janela.
Outras janelas pelo ar.
A face errante e fresca.
Nervos livres na prata solta
do ar.
Casa erguida com ervas e gritos
na luz da rocha ao vento.
Trespassada e sólida.
O tempo de soltar uma vela
rente à sombra da árvore,
os prédios contra o céu claros.
Agulha, estilhas de ar.
O pente das cores e a água do caminho
Um tempo sob os passos,
caminho inextinguível,
a luz jogando leve,
para respirar sem eco
um tronco
um tempo inalterável.
A luz como uma árvore sem bordos.
1 034
António Ramos Rosa
A Parede Inseparável
A parede inseparável
do dia alto
respirando à altura da folhagem.
A vida não é um sonho, é um caminho
um espaço
Coroa de árvores
Radicadas
tronco do abraço
todo o campo vivo
*
Não trago lâmpada nem armas Estou num quarto, não há frio, alongo o ouvido para o silêncio do horizonte
é um dia baço como um pão,
um braço forte e calmo avança
no espaço necessário
quero abarcar lentamente este campo
quase imóvel
em lenta rotação
a terra quente
*
A cor das ilhas nas árvores
a música dos olhos tocando na praça
silenciosamente vivas
respiram-se frescas no espaço
permanecem
música e vinho nos olhos
não as transporto
uma leve película no ar é a nossa fronteira
e eu não pouso nelas
nessa fronteira viva nos tocamos
silêncio
respiração inaudível
luminosa
*
O dia como uma montanha ainda
estática ao sol
a fome e o seu espaço livre
a planta dos pés na terra árida
os olhos entre as pestanas das árvores
livre espaço
o ar sorve-se com todos os poros
o grande animal leve nasce nas veias
nasce tranquilamente
pelos campos
há almofadas de flores a mais
o rio que percorro
com o braço
a luz
na água feliz
*
Os ombros do muro deixam ver
os campos vermelhos
sulcos de dedos grossos
o ar e a seiva interpenetram-se
há fogo no ar
a estrada lisa e dura
o silêncio sobre a sebe
o cotovelo fresco
do rio
*
Um tronco
no meio da estrada
não cintilante
com a crosta rígida
com a força completa
truncada
palavra no espaço à vista
*
Por uma fenda que abri
como uma janela
deixei entrar o dia
entrei no espaço
estou dentro da janela
no quarto do dia
o dia é dia agora
posso abrir a porta
posso abrir o corpo
e deixar pousar
devagar o corpo
no chão do dia
*
Há um país na terra
que a mão tranquila alcança
Há um país onde o corpo
se veste com o corpo
da terra
Com a minha mão calma
percorro o perfil de pedra e terra
comunico respirando
o ar de um corpo vivo
do dia alto
respirando à altura da folhagem.
A vida não é um sonho, é um caminho
um espaço
Coroa de árvores
Radicadas
tronco do abraço
todo o campo vivo
*
Não trago lâmpada nem armas Estou num quarto, não há frio, alongo o ouvido para o silêncio do horizonte
é um dia baço como um pão,
um braço forte e calmo avança
no espaço necessário
quero abarcar lentamente este campo
quase imóvel
em lenta rotação
a terra quente
*
A cor das ilhas nas árvores
a música dos olhos tocando na praça
silenciosamente vivas
respiram-se frescas no espaço
permanecem
música e vinho nos olhos
não as transporto
uma leve película no ar é a nossa fronteira
e eu não pouso nelas
nessa fronteira viva nos tocamos
silêncio
respiração inaudível
luminosa
*
O dia como uma montanha ainda
estática ao sol
a fome e o seu espaço livre
a planta dos pés na terra árida
os olhos entre as pestanas das árvores
livre espaço
o ar sorve-se com todos os poros
o grande animal leve nasce nas veias
nasce tranquilamente
pelos campos
há almofadas de flores a mais
o rio que percorro
com o braço
a luz
na água feliz
*
Os ombros do muro deixam ver
os campos vermelhos
sulcos de dedos grossos
o ar e a seiva interpenetram-se
há fogo no ar
a estrada lisa e dura
o silêncio sobre a sebe
o cotovelo fresco
do rio
*
Um tronco
no meio da estrada
não cintilante
com a crosta rígida
com a força completa
truncada
palavra no espaço à vista
*
Por uma fenda que abri
como uma janela
deixei entrar o dia
entrei no espaço
estou dentro da janela
no quarto do dia
o dia é dia agora
posso abrir a porta
posso abrir o corpo
e deixar pousar
devagar o corpo
no chão do dia
*
Há um país na terra
que a mão tranquila alcança
Há um país onde o corpo
se veste com o corpo
da terra
Com a minha mão calma
percorro o perfil de pedra e terra
comunico respirando
o ar de um corpo vivo
1 010
António Ramos Rosa
A Parede Inseparável
A parede inseparável
do dia alto
respirando à altura da folhagem.
A vida não é um sonho, é um caminho
um espaço
Coroa de árvores
Radicadas
tronco do abraço
todo o campo vivo
*
Não trago lâmpada nem armas Estou num quarto, não há frio, alongo o ouvido para o silêncio do horizonte
é um dia baço como um pão,
um braço forte e calmo avança
no espaço necessário
quero abarcar lentamente este campo
quase imóvel
em lenta rotação
a terra quente
*
A cor das ilhas nas árvores
a música dos olhos tocando na praça
silenciosamente vivas
respiram-se frescas no espaço
permanecem
música e vinho nos olhos
não as transporto
uma leve película no ar é a nossa fronteira
e eu não pouso nelas
nessa fronteira viva nos tocamos
silêncio
respiração inaudível
luminosa
*
O dia como uma montanha ainda
estática ao sol
a fome e o seu espaço livre
a planta dos pés na terra árida
os olhos entre as pestanas das árvores
livre espaço
o ar sorve-se com todos os poros
o grande animal leve nasce nas veias
nasce tranquilamente
pelos campos
há almofadas de flores a mais
o rio que percorro
com o braço
a luz
na água feliz
*
Os ombros do muro deixam ver
os campos vermelhos
sulcos de dedos grossos
o ar e a seiva interpenetram-se
há fogo no ar
a estrada lisa e dura
o silêncio sobre a sebe
o cotovelo fresco
do rio
*
Um tronco
no meio da estrada
não cintilante
com a crosta rígida
com a força completa
truncada
palavra no espaço à vista
*
Por uma fenda que abri
como uma janela
deixei entrar o dia
entrei no espaço
estou dentro da janela
no quarto do dia
o dia é dia agora
posso abrir a porta
posso abrir o corpo
e deixar pousar
devagar o corpo
no chão do dia
*
Há um país na terra
que a mão tranquila alcança
Há um país onde o corpo
se veste com o corpo
da terra
Com a minha mão calma
percorro o perfil de pedra e terra
comunico respirando
o ar de um corpo vivo
do dia alto
respirando à altura da folhagem.
A vida não é um sonho, é um caminho
um espaço
Coroa de árvores
Radicadas
tronco do abraço
todo o campo vivo
*
Não trago lâmpada nem armas Estou num quarto, não há frio, alongo o ouvido para o silêncio do horizonte
é um dia baço como um pão,
um braço forte e calmo avança
no espaço necessário
quero abarcar lentamente este campo
quase imóvel
em lenta rotação
a terra quente
*
A cor das ilhas nas árvores
a música dos olhos tocando na praça
silenciosamente vivas
respiram-se frescas no espaço
permanecem
música e vinho nos olhos
não as transporto
uma leve película no ar é a nossa fronteira
e eu não pouso nelas
nessa fronteira viva nos tocamos
silêncio
respiração inaudível
luminosa
*
O dia como uma montanha ainda
estática ao sol
a fome e o seu espaço livre
a planta dos pés na terra árida
os olhos entre as pestanas das árvores
livre espaço
o ar sorve-se com todos os poros
o grande animal leve nasce nas veias
nasce tranquilamente
pelos campos
há almofadas de flores a mais
o rio que percorro
com o braço
a luz
na água feliz
*
Os ombros do muro deixam ver
os campos vermelhos
sulcos de dedos grossos
o ar e a seiva interpenetram-se
há fogo no ar
a estrada lisa e dura
o silêncio sobre a sebe
o cotovelo fresco
do rio
*
Um tronco
no meio da estrada
não cintilante
com a crosta rígida
com a força completa
truncada
palavra no espaço à vista
*
Por uma fenda que abri
como uma janela
deixei entrar o dia
entrei no espaço
estou dentro da janela
no quarto do dia
o dia é dia agora
posso abrir a porta
posso abrir o corpo
e deixar pousar
devagar o corpo
no chão do dia
*
Há um país na terra
que a mão tranquila alcança
Há um país onde o corpo
se veste com o corpo
da terra
Com a minha mão calma
percorro o perfil de pedra e terra
comunico respirando
o ar de um corpo vivo
1 010
António Ramos Rosa
A Parede Inseparável
A parede inseparável
do dia alto
respirando à altura da folhagem.
A vida não é um sonho, é um caminho
um espaço
Coroa de árvores
Radicadas
tronco do abraço
todo o campo vivo
*
Não trago lâmpada nem armas Estou num quarto, não há frio, alongo o ouvido para o silêncio do horizonte
é um dia baço como um pão,
um braço forte e calmo avança
no espaço necessário
quero abarcar lentamente este campo
quase imóvel
em lenta rotação
a terra quente
*
A cor das ilhas nas árvores
a música dos olhos tocando na praça
silenciosamente vivas
respiram-se frescas no espaço
permanecem
música e vinho nos olhos
não as transporto
uma leve película no ar é a nossa fronteira
e eu não pouso nelas
nessa fronteira viva nos tocamos
silêncio
respiração inaudível
luminosa
*
O dia como uma montanha ainda
estática ao sol
a fome e o seu espaço livre
a planta dos pés na terra árida
os olhos entre as pestanas das árvores
livre espaço
o ar sorve-se com todos os poros
o grande animal leve nasce nas veias
nasce tranquilamente
pelos campos
há almofadas de flores a mais
o rio que percorro
com o braço
a luz
na água feliz
*
Os ombros do muro deixam ver
os campos vermelhos
sulcos de dedos grossos
o ar e a seiva interpenetram-se
há fogo no ar
a estrada lisa e dura
o silêncio sobre a sebe
o cotovelo fresco
do rio
*
Um tronco
no meio da estrada
não cintilante
com a crosta rígida
com a força completa
truncada
palavra no espaço à vista
*
Por uma fenda que abri
como uma janela
deixei entrar o dia
entrei no espaço
estou dentro da janela
no quarto do dia
o dia é dia agora
posso abrir a porta
posso abrir o corpo
e deixar pousar
devagar o corpo
no chão do dia
*
Há um país na terra
que a mão tranquila alcança
Há um país onde o corpo
se veste com o corpo
da terra
Com a minha mão calma
percorro o perfil de pedra e terra
comunico respirando
o ar de um corpo vivo
do dia alto
respirando à altura da folhagem.
A vida não é um sonho, é um caminho
um espaço
Coroa de árvores
Radicadas
tronco do abraço
todo o campo vivo
*
Não trago lâmpada nem armas Estou num quarto, não há frio, alongo o ouvido para o silêncio do horizonte
é um dia baço como um pão,
um braço forte e calmo avança
no espaço necessário
quero abarcar lentamente este campo
quase imóvel
em lenta rotação
a terra quente
*
A cor das ilhas nas árvores
a música dos olhos tocando na praça
silenciosamente vivas
respiram-se frescas no espaço
permanecem
música e vinho nos olhos
não as transporto
uma leve película no ar é a nossa fronteira
e eu não pouso nelas
nessa fronteira viva nos tocamos
silêncio
respiração inaudível
luminosa
*
O dia como uma montanha ainda
estática ao sol
a fome e o seu espaço livre
a planta dos pés na terra árida
os olhos entre as pestanas das árvores
livre espaço
o ar sorve-se com todos os poros
o grande animal leve nasce nas veias
nasce tranquilamente
pelos campos
há almofadas de flores a mais
o rio que percorro
com o braço
a luz
na água feliz
*
Os ombros do muro deixam ver
os campos vermelhos
sulcos de dedos grossos
o ar e a seiva interpenetram-se
há fogo no ar
a estrada lisa e dura
o silêncio sobre a sebe
o cotovelo fresco
do rio
*
Um tronco
no meio da estrada
não cintilante
com a crosta rígida
com a força completa
truncada
palavra no espaço à vista
*
Por uma fenda que abri
como uma janela
deixei entrar o dia
entrei no espaço
estou dentro da janela
no quarto do dia
o dia é dia agora
posso abrir a porta
posso abrir o corpo
e deixar pousar
devagar o corpo
no chão do dia
*
Há um país na terra
que a mão tranquila alcança
Há um país onde o corpo
se veste com o corpo
da terra
Com a minha mão calma
percorro o perfil de pedra e terra
comunico respirando
o ar de um corpo vivo
1 010
António Ramos Rosa
Goetz
São os troncos troncos e um monte
puxado para o sol obliquamente.
E a terra é de carvão, mar de raízes
e o sol dourado de limão, quase oculto,
estende-se sobre o verde da folhagem.
Uns fogachos brancos rompem sonoros.
Não se tinha contemplado ainda a porta.
Era vermelha sob a fechadura negra.
Pela fresta o espaço era verde acinzentado.
E duas cordas ao lado, atravessadas
por um ponto de interrogação horizontal
caíam musicais.
A praia era de guitarras destruídas,
voos negros rosados sobre azul,
e sobre o branco multiplicado do céu cantava
o azul,
cantava o branco sol e azul
e os fragmentos de guitarra verdes vermelhos
negros
cantavam mar azul, praia vermelha,
voos de andorinha negros.
puxado para o sol obliquamente.
E a terra é de carvão, mar de raízes
e o sol dourado de limão, quase oculto,
estende-se sobre o verde da folhagem.
Uns fogachos brancos rompem sonoros.
Não se tinha contemplado ainda a porta.
Era vermelha sob a fechadura negra.
Pela fresta o espaço era verde acinzentado.
E duas cordas ao lado, atravessadas
por um ponto de interrogação horizontal
caíam musicais.
A praia era de guitarras destruídas,
voos negros rosados sobre azul,
e sobre o branco multiplicado do céu cantava
o azul,
cantava o branco sol e azul
e os fragmentos de guitarra verdes vermelhos
negros
cantavam mar azul, praia vermelha,
voos de andorinha negros.
1 105
António Ramos Rosa
Goetz
São os troncos troncos e um monte
puxado para o sol obliquamente.
E a terra é de carvão, mar de raízes
e o sol dourado de limão, quase oculto,
estende-se sobre o verde da folhagem.
Uns fogachos brancos rompem sonoros.
Não se tinha contemplado ainda a porta.
Era vermelha sob a fechadura negra.
Pela fresta o espaço era verde acinzentado.
E duas cordas ao lado, atravessadas
por um ponto de interrogação horizontal
caíam musicais.
A praia era de guitarras destruídas,
voos negros rosados sobre azul,
e sobre o branco multiplicado do céu cantava
o azul,
cantava o branco sol e azul
e os fragmentos de guitarra verdes vermelhos
negros
cantavam mar azul, praia vermelha,
voos de andorinha negros.
puxado para o sol obliquamente.
E a terra é de carvão, mar de raízes
e o sol dourado de limão, quase oculto,
estende-se sobre o verde da folhagem.
Uns fogachos brancos rompem sonoros.
Não se tinha contemplado ainda a porta.
Era vermelha sob a fechadura negra.
Pela fresta o espaço era verde acinzentado.
E duas cordas ao lado, atravessadas
por um ponto de interrogação horizontal
caíam musicais.
A praia era de guitarras destruídas,
voos negros rosados sobre azul,
e sobre o branco multiplicado do céu cantava
o azul,
cantava o branco sol e azul
e os fragmentos de guitarra verdes vermelhos
negros
cantavam mar azul, praia vermelha,
voos de andorinha negros.
1 105
António Ramos Rosa
Goetz
São os troncos troncos e um monte
puxado para o sol obliquamente.
E a terra é de carvão, mar de raízes
e o sol dourado de limão, quase oculto,
estende-se sobre o verde da folhagem.
Uns fogachos brancos rompem sonoros.
Não se tinha contemplado ainda a porta.
Era vermelha sob a fechadura negra.
Pela fresta o espaço era verde acinzentado.
E duas cordas ao lado, atravessadas
por um ponto de interrogação horizontal
caíam musicais.
A praia era de guitarras destruídas,
voos negros rosados sobre azul,
e sobre o branco multiplicado do céu cantava
o azul,
cantava o branco sol e azul
e os fragmentos de guitarra verdes vermelhos
negros
cantavam mar azul, praia vermelha,
voos de andorinha negros.
puxado para o sol obliquamente.
E a terra é de carvão, mar de raízes
e o sol dourado de limão, quase oculto,
estende-se sobre o verde da folhagem.
Uns fogachos brancos rompem sonoros.
Não se tinha contemplado ainda a porta.
Era vermelha sob a fechadura negra.
Pela fresta o espaço era verde acinzentado.
E duas cordas ao lado, atravessadas
por um ponto de interrogação horizontal
caíam musicais.
A praia era de guitarras destruídas,
voos negros rosados sobre azul,
e sobre o branco multiplicado do céu cantava
o azul,
cantava o branco sol e azul
e os fragmentos de guitarra verdes vermelhos
negros
cantavam mar azul, praia vermelha,
voos de andorinha negros.
1 105
António Ramos Rosa
Goetz
São os troncos troncos e um monte
puxado para o sol obliquamente.
E a terra é de carvão, mar de raízes
e o sol dourado de limão, quase oculto,
estende-se sobre o verde da folhagem.
Uns fogachos brancos rompem sonoros.
Não se tinha contemplado ainda a porta.
Era vermelha sob a fechadura negra.
Pela fresta o espaço era verde acinzentado.
E duas cordas ao lado, atravessadas
por um ponto de interrogação horizontal
caíam musicais.
A praia era de guitarras destruídas,
voos negros rosados sobre azul,
e sobre o branco multiplicado do céu cantava
o azul,
cantava o branco sol e azul
e os fragmentos de guitarra verdes vermelhos
negros
cantavam mar azul, praia vermelha,
voos de andorinha negros.
puxado para o sol obliquamente.
E a terra é de carvão, mar de raízes
e o sol dourado de limão, quase oculto,
estende-se sobre o verde da folhagem.
Uns fogachos brancos rompem sonoros.
Não se tinha contemplado ainda a porta.
Era vermelha sob a fechadura negra.
Pela fresta o espaço era verde acinzentado.
E duas cordas ao lado, atravessadas
por um ponto de interrogação horizontal
caíam musicais.
A praia era de guitarras destruídas,
voos negros rosados sobre azul,
e sobre o branco multiplicado do céu cantava
o azul,
cantava o branco sol e azul
e os fragmentos de guitarra verdes vermelhos
negros
cantavam mar azul, praia vermelha,
voos de andorinha negros.
1 105
António Ramos Rosa
Ver
ao Luís Pignatelli
De um olhar livre
se vive
Olhando a folha
abria-se
Da superfície ao fundo
exactamente assim
É um muro onde se vence
a inércia cega
O pó que pisas
é de um astro
A terra gira
em ti
devagar
É bom por vezes estar
Os olhos vêem dentro da tela
É uma tempestade
(mas não te abrigues)
O olho faz uma pausa
na espiral que te conduz ao silêncio
Lembras-te de um jantar antigo
É a língua da pedra
O olho faz-se víbora
e lambe o fogo
A terra é um planeta
são os teus pés que vêem
A tua mão tem olhos
Abriu-se o muro de dentro
Caminhas com teus olhos
De um olhar livre
se vive
Olhando a folha
abria-se
Da superfície ao fundo
exactamente assim
É um muro onde se vence
a inércia cega
O pó que pisas
é de um astro
A terra gira
em ti
devagar
É bom por vezes estar
Os olhos vêem dentro da tela
É uma tempestade
(mas não te abrigues)
O olho faz uma pausa
na espiral que te conduz ao silêncio
Lembras-te de um jantar antigo
É a língua da pedra
O olho faz-se víbora
e lambe o fogo
A terra é um planeta
são os teus pés que vêem
A tua mão tem olhos
Abriu-se o muro de dentro
Caminhas com teus olhos
805
António Ramos Rosa
Na Margem do Dia
Afirmas no quadrado
a sede do corpo,
caminhas
sobre as ervas levantadas.
Os homens silenciosos
afastam-se: são verdes
os ramos que se espalham,
caminhas e ascendes
na planície inclinada.
A partir da parede,
de um ouvido secreto,
da fome que se expande,
de um olhar bem recto,
de um tacão que rompe
sobre o zinco ondulado,
de um jorro de palavras
ou pombas assustadas.
Para ser mais claro,
para despir um corpo,
para me encontrar,
a surpresa exacta.
Desço até não ser
mais nada que o sono
na luz doutro corpo.
Adormeço alto.
Ó corpo necessário,
branca parede rápida,
em tua roda leve
quero respirar a luz.
Nesta obscura sede,
sem seiva os nomes rentes
propagam só o poço:
eu quero o mar presente.
Ó corpo que apreendo,
se entregue só ao ar,
se caminho sem olhos,
se encontro o meu olhar.
a sede do corpo,
caminhas
sobre as ervas levantadas.
Os homens silenciosos
afastam-se: são verdes
os ramos que se espalham,
caminhas e ascendes
na planície inclinada.
A partir da parede,
de um ouvido secreto,
da fome que se expande,
de um olhar bem recto,
de um tacão que rompe
sobre o zinco ondulado,
de um jorro de palavras
ou pombas assustadas.
Para ser mais claro,
para despir um corpo,
para me encontrar,
a surpresa exacta.
Desço até não ser
mais nada que o sono
na luz doutro corpo.
Adormeço alto.
Ó corpo necessário,
branca parede rápida,
em tua roda leve
quero respirar a luz.
Nesta obscura sede,
sem seiva os nomes rentes
propagam só o poço:
eu quero o mar presente.
Ó corpo que apreendo,
se entregue só ao ar,
se caminho sem olhos,
se encontro o meu olhar.
992
António Ramos Rosa
O Espaço Livre
Desocupado, livre,
sem vestígios, ao sol,
tronco devorado pela luz,
ondulada frescura no dorso,
sem laços, sem raízes, desabitado.
Conheço o tempo
e a demora
lenta,
o vazio da casa na manhã,
a manhã deserta ao sol,
a cegueira da luz tão leve,
o deserto simples,
o nome prolongado e nulo.
Estou
no silêncio,
na habitação do silêncio,
no mar imaginado,
na planura verde sussurrante,
na seara das brisas,
nos adeuses prolongados em ondas desfeitas,
no vazio da terra fresca,
no silêncio sempre novo,
nas vozes sobre o mar,
no sono sobre o mar.
Estou deitado
e alto.
Sou a tranquilidade dos montes,
a lenta curva das baías,
os olhos subterrâneos da água,
a liberdade dispersa do vento,
a claridade de tudo.
Escrevo sobre dunas
silenciosamente.
Oiço o tempo que não passa.
Um século de frescura
inunda-me.
Não esperava habitar esta vasta clareira
límpida.
Não esperava respirar esta brisa de paz,
de liberdade isenta,
de morte desvelada,
de vida renovada.
Abraço todo o espaço na liberdade viva.
sem vestígios, ao sol,
tronco devorado pela luz,
ondulada frescura no dorso,
sem laços, sem raízes, desabitado.
Conheço o tempo
e a demora
lenta,
o vazio da casa na manhã,
a manhã deserta ao sol,
a cegueira da luz tão leve,
o deserto simples,
o nome prolongado e nulo.
Estou
no silêncio,
na habitação do silêncio,
no mar imaginado,
na planura verde sussurrante,
na seara das brisas,
nos adeuses prolongados em ondas desfeitas,
no vazio da terra fresca,
no silêncio sempre novo,
nas vozes sobre o mar,
no sono sobre o mar.
Estou deitado
e alto.
Sou a tranquilidade dos montes,
a lenta curva das baías,
os olhos subterrâneos da água,
a liberdade dispersa do vento,
a claridade de tudo.
Escrevo sobre dunas
silenciosamente.
Oiço o tempo que não passa.
Um século de frescura
inunda-me.
Não esperava habitar esta vasta clareira
límpida.
Não esperava respirar esta brisa de paz,
de liberdade isenta,
de morte desvelada,
de vida renovada.
Abraço todo o espaço na liberdade viva.
1 306
António Ramos Rosa
O Espaço Livre
Desocupado, livre,
sem vestígios, ao sol,
tronco devorado pela luz,
ondulada frescura no dorso,
sem laços, sem raízes, desabitado.
Conheço o tempo
e a demora
lenta,
o vazio da casa na manhã,
a manhã deserta ao sol,
a cegueira da luz tão leve,
o deserto simples,
o nome prolongado e nulo.
Estou
no silêncio,
na habitação do silêncio,
no mar imaginado,
na planura verde sussurrante,
na seara das brisas,
nos adeuses prolongados em ondas desfeitas,
no vazio da terra fresca,
no silêncio sempre novo,
nas vozes sobre o mar,
no sono sobre o mar.
Estou deitado
e alto.
Sou a tranquilidade dos montes,
a lenta curva das baías,
os olhos subterrâneos da água,
a liberdade dispersa do vento,
a claridade de tudo.
Escrevo sobre dunas
silenciosamente.
Oiço o tempo que não passa.
Um século de frescura
inunda-me.
Não esperava habitar esta vasta clareira
límpida.
Não esperava respirar esta brisa de paz,
de liberdade isenta,
de morte desvelada,
de vida renovada.
Abraço todo o espaço na liberdade viva.
sem vestígios, ao sol,
tronco devorado pela luz,
ondulada frescura no dorso,
sem laços, sem raízes, desabitado.
Conheço o tempo
e a demora
lenta,
o vazio da casa na manhã,
a manhã deserta ao sol,
a cegueira da luz tão leve,
o deserto simples,
o nome prolongado e nulo.
Estou
no silêncio,
na habitação do silêncio,
no mar imaginado,
na planura verde sussurrante,
na seara das brisas,
nos adeuses prolongados em ondas desfeitas,
no vazio da terra fresca,
no silêncio sempre novo,
nas vozes sobre o mar,
no sono sobre o mar.
Estou deitado
e alto.
Sou a tranquilidade dos montes,
a lenta curva das baías,
os olhos subterrâneos da água,
a liberdade dispersa do vento,
a claridade de tudo.
Escrevo sobre dunas
silenciosamente.
Oiço o tempo que não passa.
Um século de frescura
inunda-me.
Não esperava habitar esta vasta clareira
límpida.
Não esperava respirar esta brisa de paz,
de liberdade isenta,
de morte desvelada,
de vida renovada.
Abraço todo o espaço na liberdade viva.
1 306
António Ramos Rosa
Árvore
Forço e quero ao fundo delicadamente
como subindo no sentido da seiva
espraiar-me nas folhas verdejantes,
espaçado vento repousando em taças,
mão que se alarga e espalma em verde lava,
tronco em movimento enraizado,
surto da terra, habitante do ar,
flexíveis palmas, movimentos, haustos,
verde unidade quase silenciosa.
como subindo no sentido da seiva
espraiar-me nas folhas verdejantes,
espaçado vento repousando em taças,
mão que se alarga e espalma em verde lava,
tronco em movimento enraizado,
surto da terra, habitante do ar,
flexíveis palmas, movimentos, haustos,
verde unidade quase silenciosa.
1 106
António Ramos Rosa
Um Fruto Verde-Amarelo
Um fruto verde-amarelo,
nítido, redondo, cheio,
seca fascinação suave,
imóvel, presente, alheio
— perfeito no silêncio agora meu.
nítido, redondo, cheio,
seca fascinação suave,
imóvel, presente, alheio
— perfeito no silêncio agora meu.
600
António Ramos Rosa
Ar Unânime
No vento e no fogo, uma única cintilação, o caminho — uma só respiração.
A alguns metros o mar, plano, as árvores concentradas, um silêncio espesso entre dois passos, a ondulação da serra.
A terra, com o calor do sol, pedras de cinza viva, frescor espalhado de ervas, abraço à roda do chão.
Um grilo vivo, o voo dum pássaro, no sono do ar, a pupila brilha.
As nuvens planam, as sombras respiram.
Da margem — ponto silencioso sob a luz morna e arrepios de brisa, no silêncio da água plana sob a luz — e outra face do céu.
Presença imóvel ao ar, ao mar, à montanha, mais fundo na imobilidade, ó retina!
Tosco tronco magro — inflas a uma respiração sem sobressalto e o arrepio de um voo sublinha a ondulação unânime.
A alguns metros o mar, plano, as árvores concentradas, um silêncio espesso entre dois passos, a ondulação da serra.
A terra, com o calor do sol, pedras de cinza viva, frescor espalhado de ervas, abraço à roda do chão.
Um grilo vivo, o voo dum pássaro, no sono do ar, a pupila brilha.
As nuvens planam, as sombras respiram.
Da margem — ponto silencioso sob a luz morna e arrepios de brisa, no silêncio da água plana sob a luz — e outra face do céu.
Presença imóvel ao ar, ao mar, à montanha, mais fundo na imobilidade, ó retina!
Tosco tronco magro — inflas a uma respiração sem sobressalto e o arrepio de um voo sublinha a ondulação unânime.
1 206
António Ramos Rosa
Ar Unânime
No vento e no fogo, uma única cintilação, o caminho — uma só respiração.
A alguns metros o mar, plano, as árvores concentradas, um silêncio espesso entre dois passos, a ondulação da serra.
A terra, com o calor do sol, pedras de cinza viva, frescor espalhado de ervas, abraço à roda do chão.
Um grilo vivo, o voo dum pássaro, no sono do ar, a pupila brilha.
As nuvens planam, as sombras respiram.
Da margem — ponto silencioso sob a luz morna e arrepios de brisa, no silêncio da água plana sob a luz — e outra face do céu.
Presença imóvel ao ar, ao mar, à montanha, mais fundo na imobilidade, ó retina!
Tosco tronco magro — inflas a uma respiração sem sobressalto e o arrepio de um voo sublinha a ondulação unânime.
A alguns metros o mar, plano, as árvores concentradas, um silêncio espesso entre dois passos, a ondulação da serra.
A terra, com o calor do sol, pedras de cinza viva, frescor espalhado de ervas, abraço à roda do chão.
Um grilo vivo, o voo dum pássaro, no sono do ar, a pupila brilha.
As nuvens planam, as sombras respiram.
Da margem — ponto silencioso sob a luz morna e arrepios de brisa, no silêncio da água plana sob a luz — e outra face do céu.
Presença imóvel ao ar, ao mar, à montanha, mais fundo na imobilidade, ó retina!
Tosco tronco magro — inflas a uma respiração sem sobressalto e o arrepio de um voo sublinha a ondulação unânime.
1 206
António Ramos Rosa
Ar Unânime
No vento e no fogo, uma única cintilação, o caminho — uma só respiração.
A alguns metros o mar, plano, as árvores concentradas, um silêncio espesso entre dois passos, a ondulação da serra.
A terra, com o calor do sol, pedras de cinza viva, frescor espalhado de ervas, abraço à roda do chão.
Um grilo vivo, o voo dum pássaro, no sono do ar, a pupila brilha.
As nuvens planam, as sombras respiram.
Da margem — ponto silencioso sob a luz morna e arrepios de brisa, no silêncio da água plana sob a luz — e outra face do céu.
Presença imóvel ao ar, ao mar, à montanha, mais fundo na imobilidade, ó retina!
Tosco tronco magro — inflas a uma respiração sem sobressalto e o arrepio de um voo sublinha a ondulação unânime.
A alguns metros o mar, plano, as árvores concentradas, um silêncio espesso entre dois passos, a ondulação da serra.
A terra, com o calor do sol, pedras de cinza viva, frescor espalhado de ervas, abraço à roda do chão.
Um grilo vivo, o voo dum pássaro, no sono do ar, a pupila brilha.
As nuvens planam, as sombras respiram.
Da margem — ponto silencioso sob a luz morna e arrepios de brisa, no silêncio da água plana sob a luz — e outra face do céu.
Presença imóvel ao ar, ao mar, à montanha, mais fundo na imobilidade, ó retina!
Tosco tronco magro — inflas a uma respiração sem sobressalto e o arrepio de um voo sublinha a ondulação unânime.
1 206
António Ramos Rosa
Zona Intermediária
A página presente, o edifício novo, a madeira leve, um perfume de vento.
Vários pontos. Junturas breves.
Passagem. (Nuvens possíveis.)
Rigorosa tenuidade.
Escrever simplicidade actuante.
Entre possíveis paragens, ofegante barco
e janelas débeis sobre túneis,
confusão clara de perspectivas.
Um dedo acaricia a ranhura.
Entre o vento e a brecha
a vibração da teia,
perpassar de aranha sobre a página do ar.
É preciso passar e fixo
correr.
Cosido o corpo, rapidamente o novo
solto sopro vivo.
Casa de arame. Ao fundo a água.
A terra é próxima. Uma parede
animada.
A boca lenta e sossegada
alarga a transparência.
O solo rodeia-te e desdobra-se.
A pele das árvores é a do teu corpo.
Corpo de página visível.
Entre o fundo e o cimo a superfície
eis o céu a parede percorrida
a textura do papel
as linhas do vento.
Inundada superfície
onde os animais se precipitam
leves
as imagens se agrupam
e subsistem
as marcas vivas.
Vários pontos. Junturas breves.
Passagem. (Nuvens possíveis.)
Rigorosa tenuidade.
Escrever simplicidade actuante.
Entre possíveis paragens, ofegante barco
e janelas débeis sobre túneis,
confusão clara de perspectivas.
Um dedo acaricia a ranhura.
Entre o vento e a brecha
a vibração da teia,
perpassar de aranha sobre a página do ar.
É preciso passar e fixo
correr.
Cosido o corpo, rapidamente o novo
solto sopro vivo.
Casa de arame. Ao fundo a água.
A terra é próxima. Uma parede
animada.
A boca lenta e sossegada
alarga a transparência.
O solo rodeia-te e desdobra-se.
A pele das árvores é a do teu corpo.
Corpo de página visível.
Entre o fundo e o cimo a superfície
eis o céu a parede percorrida
a textura do papel
as linhas do vento.
Inundada superfície
onde os animais se precipitam
leves
as imagens se agrupam
e subsistem
as marcas vivas.
1 135
António Ramos Rosa
Zona Intermediária
A página presente, o edifício novo, a madeira leve, um perfume de vento.
Vários pontos. Junturas breves.
Passagem. (Nuvens possíveis.)
Rigorosa tenuidade.
Escrever simplicidade actuante.
Entre possíveis paragens, ofegante barco
e janelas débeis sobre túneis,
confusão clara de perspectivas.
Um dedo acaricia a ranhura.
Entre o vento e a brecha
a vibração da teia,
perpassar de aranha sobre a página do ar.
É preciso passar e fixo
correr.
Cosido o corpo, rapidamente o novo
solto sopro vivo.
Casa de arame. Ao fundo a água.
A terra é próxima. Uma parede
animada.
A boca lenta e sossegada
alarga a transparência.
O solo rodeia-te e desdobra-se.
A pele das árvores é a do teu corpo.
Corpo de página visível.
Entre o fundo e o cimo a superfície
eis o céu a parede percorrida
a textura do papel
as linhas do vento.
Inundada superfície
onde os animais se precipitam
leves
as imagens se agrupam
e subsistem
as marcas vivas.
Vários pontos. Junturas breves.
Passagem. (Nuvens possíveis.)
Rigorosa tenuidade.
Escrever simplicidade actuante.
Entre possíveis paragens, ofegante barco
e janelas débeis sobre túneis,
confusão clara de perspectivas.
Um dedo acaricia a ranhura.
Entre o vento e a brecha
a vibração da teia,
perpassar de aranha sobre a página do ar.
É preciso passar e fixo
correr.
Cosido o corpo, rapidamente o novo
solto sopro vivo.
Casa de arame. Ao fundo a água.
A terra é próxima. Uma parede
animada.
A boca lenta e sossegada
alarga a transparência.
O solo rodeia-te e desdobra-se.
A pele das árvores é a do teu corpo.
Corpo de página visível.
Entre o fundo e o cimo a superfície
eis o céu a parede percorrida
a textura do papel
as linhas do vento.
Inundada superfície
onde os animais se precipitam
leves
as imagens se agrupam
e subsistem
as marcas vivas.
1 135
António Ramos Rosa
É Breve o Dia
As nossas armas contemplam. propagam-se na difusão do ar. Instantâneas, encontram o diamante irrefrangível — a explosão estática.
*
No fulgor de uma lágrima, à beira... a rosa, uma, única, única — identifica-me.
*
É breve o dia no quarto. Não na montanha nem no atalho. É longo o esforço, inenarrável o cansaço. No cume, no fundo, na planura, a mão que liga quarto e montanha, o sono do cavador, o sonho da palavra.
*
Aproximamo-nos, instáveis — é a viveza do ar, o redemoinho breve e claro dos seixos, a palavra que surge viva na tranquilidade das ramagens.
*
Eis a secura. É um homem que caminha. Da sua oficina, na surpresa de um crepúsculo. O princípio de uma liberdade breve — a noite. As estrelas estranhas.
*
O sossego da lâmpada. Um dia. Uma cabeleira que se espraia até ao círculo da página. O quadrado mágico sob que se respira, trabalha — ondula. Hoje.
*
No pressentimento da inocência, de uma fresca fundura perpassam as vozes, circula-se enquanto o espaço se alarga, se aviva a cada canto.
*
A voz promete sobre as mãos, o canto — para além dos telhados, já sobre um mar nocturno. A mão ergue-se na claridade de um gesto e tudo se anima — ó voz fraterna e ágil— como sob uma bandeira transparente.
*
Contra a parede um corpo. Um corpo vivo na semiobscuridade bafejada por um vento anónimo de portal. A glória de um entendimento de acaso sob todos os ventos, sob todos os ventos. A brasa viva.
*
As casas respiram, o mar respira. A noite suspensa. Um coração respira, comunicando.
*
O poema regressa ao ponto de maior agitação e frescura, à ardência de uma proposta instável a que o desejo absoluto de um encontro responde. A nossa interrogação ofegante encontra a respiração própria, frente ao vazio.
*
No fulgor de uma lágrima, à beira... a rosa, uma, única, única — identifica-me.
*
É breve o dia no quarto. Não na montanha nem no atalho. É longo o esforço, inenarrável o cansaço. No cume, no fundo, na planura, a mão que liga quarto e montanha, o sono do cavador, o sonho da palavra.
*
Aproximamo-nos, instáveis — é a viveza do ar, o redemoinho breve e claro dos seixos, a palavra que surge viva na tranquilidade das ramagens.
*
Eis a secura. É um homem que caminha. Da sua oficina, na surpresa de um crepúsculo. O princípio de uma liberdade breve — a noite. As estrelas estranhas.
*
O sossego da lâmpada. Um dia. Uma cabeleira que se espraia até ao círculo da página. O quadrado mágico sob que se respira, trabalha — ondula. Hoje.
*
No pressentimento da inocência, de uma fresca fundura perpassam as vozes, circula-se enquanto o espaço se alarga, se aviva a cada canto.
*
A voz promete sobre as mãos, o canto — para além dos telhados, já sobre um mar nocturno. A mão ergue-se na claridade de um gesto e tudo se anima — ó voz fraterna e ágil— como sob uma bandeira transparente.
*
Contra a parede um corpo. Um corpo vivo na semiobscuridade bafejada por um vento anónimo de portal. A glória de um entendimento de acaso sob todos os ventos, sob todos os ventos. A brasa viva.
*
As casas respiram, o mar respira. A noite suspensa. Um coração respira, comunicando.
*
O poema regressa ao ponto de maior agitação e frescura, à ardência de uma proposta instável a que o desejo absoluto de um encontro responde. A nossa interrogação ofegante encontra a respiração própria, frente ao vazio.
1 051
António Ramos Rosa
É Breve o Dia
As nossas armas contemplam. propagam-se na difusão do ar. Instantâneas, encontram o diamante irrefrangível — a explosão estática.
*
No fulgor de uma lágrima, à beira... a rosa, uma, única, única — identifica-me.
*
É breve o dia no quarto. Não na montanha nem no atalho. É longo o esforço, inenarrável o cansaço. No cume, no fundo, na planura, a mão que liga quarto e montanha, o sono do cavador, o sonho da palavra.
*
Aproximamo-nos, instáveis — é a viveza do ar, o redemoinho breve e claro dos seixos, a palavra que surge viva na tranquilidade das ramagens.
*
Eis a secura. É um homem que caminha. Da sua oficina, na surpresa de um crepúsculo. O princípio de uma liberdade breve — a noite. As estrelas estranhas.
*
O sossego da lâmpada. Um dia. Uma cabeleira que se espraia até ao círculo da página. O quadrado mágico sob que se respira, trabalha — ondula. Hoje.
*
No pressentimento da inocência, de uma fresca fundura perpassam as vozes, circula-se enquanto o espaço se alarga, se aviva a cada canto.
*
A voz promete sobre as mãos, o canto — para além dos telhados, já sobre um mar nocturno. A mão ergue-se na claridade de um gesto e tudo se anima — ó voz fraterna e ágil— como sob uma bandeira transparente.
*
Contra a parede um corpo. Um corpo vivo na semiobscuridade bafejada por um vento anónimo de portal. A glória de um entendimento de acaso sob todos os ventos, sob todos os ventos. A brasa viva.
*
As casas respiram, o mar respira. A noite suspensa. Um coração respira, comunicando.
*
O poema regressa ao ponto de maior agitação e frescura, à ardência de uma proposta instável a que o desejo absoluto de um encontro responde. A nossa interrogação ofegante encontra a respiração própria, frente ao vazio.
*
No fulgor de uma lágrima, à beira... a rosa, uma, única, única — identifica-me.
*
É breve o dia no quarto. Não na montanha nem no atalho. É longo o esforço, inenarrável o cansaço. No cume, no fundo, na planura, a mão que liga quarto e montanha, o sono do cavador, o sonho da palavra.
*
Aproximamo-nos, instáveis — é a viveza do ar, o redemoinho breve e claro dos seixos, a palavra que surge viva na tranquilidade das ramagens.
*
Eis a secura. É um homem que caminha. Da sua oficina, na surpresa de um crepúsculo. O princípio de uma liberdade breve — a noite. As estrelas estranhas.
*
O sossego da lâmpada. Um dia. Uma cabeleira que se espraia até ao círculo da página. O quadrado mágico sob que se respira, trabalha — ondula. Hoje.
*
No pressentimento da inocência, de uma fresca fundura perpassam as vozes, circula-se enquanto o espaço se alarga, se aviva a cada canto.
*
A voz promete sobre as mãos, o canto — para além dos telhados, já sobre um mar nocturno. A mão ergue-se na claridade de um gesto e tudo se anima — ó voz fraterna e ágil— como sob uma bandeira transparente.
*
Contra a parede um corpo. Um corpo vivo na semiobscuridade bafejada por um vento anónimo de portal. A glória de um entendimento de acaso sob todos os ventos, sob todos os ventos. A brasa viva.
*
As casas respiram, o mar respira. A noite suspensa. Um coração respira, comunicando.
*
O poema regressa ao ponto de maior agitação e frescura, à ardência de uma proposta instável a que o desejo absoluto de um encontro responde. A nossa interrogação ofegante encontra a respiração própria, frente ao vazio.
1 051
António Ramos Rosa
É Breve o Dia
As nossas armas contemplam. propagam-se na difusão do ar. Instantâneas, encontram o diamante irrefrangível — a explosão estática.
*
No fulgor de uma lágrima, à beira... a rosa, uma, única, única — identifica-me.
*
É breve o dia no quarto. Não na montanha nem no atalho. É longo o esforço, inenarrável o cansaço. No cume, no fundo, na planura, a mão que liga quarto e montanha, o sono do cavador, o sonho da palavra.
*
Aproximamo-nos, instáveis — é a viveza do ar, o redemoinho breve e claro dos seixos, a palavra que surge viva na tranquilidade das ramagens.
*
Eis a secura. É um homem que caminha. Da sua oficina, na surpresa de um crepúsculo. O princípio de uma liberdade breve — a noite. As estrelas estranhas.
*
O sossego da lâmpada. Um dia. Uma cabeleira que se espraia até ao círculo da página. O quadrado mágico sob que se respira, trabalha — ondula. Hoje.
*
No pressentimento da inocência, de uma fresca fundura perpassam as vozes, circula-se enquanto o espaço se alarga, se aviva a cada canto.
*
A voz promete sobre as mãos, o canto — para além dos telhados, já sobre um mar nocturno. A mão ergue-se na claridade de um gesto e tudo se anima — ó voz fraterna e ágil— como sob uma bandeira transparente.
*
Contra a parede um corpo. Um corpo vivo na semiobscuridade bafejada por um vento anónimo de portal. A glória de um entendimento de acaso sob todos os ventos, sob todos os ventos. A brasa viva.
*
As casas respiram, o mar respira. A noite suspensa. Um coração respira, comunicando.
*
O poema regressa ao ponto de maior agitação e frescura, à ardência de uma proposta instável a que o desejo absoluto de um encontro responde. A nossa interrogação ofegante encontra a respiração própria, frente ao vazio.
*
No fulgor de uma lágrima, à beira... a rosa, uma, única, única — identifica-me.
*
É breve o dia no quarto. Não na montanha nem no atalho. É longo o esforço, inenarrável o cansaço. No cume, no fundo, na planura, a mão que liga quarto e montanha, o sono do cavador, o sonho da palavra.
*
Aproximamo-nos, instáveis — é a viveza do ar, o redemoinho breve e claro dos seixos, a palavra que surge viva na tranquilidade das ramagens.
*
Eis a secura. É um homem que caminha. Da sua oficina, na surpresa de um crepúsculo. O princípio de uma liberdade breve — a noite. As estrelas estranhas.
*
O sossego da lâmpada. Um dia. Uma cabeleira que se espraia até ao círculo da página. O quadrado mágico sob que se respira, trabalha — ondula. Hoje.
*
No pressentimento da inocência, de uma fresca fundura perpassam as vozes, circula-se enquanto o espaço se alarga, se aviva a cada canto.
*
A voz promete sobre as mãos, o canto — para além dos telhados, já sobre um mar nocturno. A mão ergue-se na claridade de um gesto e tudo se anima — ó voz fraterna e ágil— como sob uma bandeira transparente.
*
Contra a parede um corpo. Um corpo vivo na semiobscuridade bafejada por um vento anónimo de portal. A glória de um entendimento de acaso sob todos os ventos, sob todos os ventos. A brasa viva.
*
As casas respiram, o mar respira. A noite suspensa. Um coração respira, comunicando.
*
O poema regressa ao ponto de maior agitação e frescura, à ardência de uma proposta instável a que o desejo absoluto de um encontro responde. A nossa interrogação ofegante encontra a respiração própria, frente ao vazio.
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