Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Edmir Domingues
soneto X - Olhar de Dom Quixote
Não lembre o doce olhar sobre o segredo
que se esconde na luz dos céus de sono,
esqueça sobre o cinza do abandono
que a esperanças inúteis já concedo.
Não saiba que a fumaça de bruxedo
chora porque perdemos nosso trono.
Mas na hora nona então, à luz sem dono,
brincaremos em paz nosso brinquedo.
E até das catedrais virão sorrisos!
0 alegro de compassos imprecisos
virá, de contrabaixo e de fagote.
E os pobres anjos vão morrer de susto
quando virem, contendo a inveja a custo,
em nosso olhar o olhar de Dom Quixote.
que se esconde na luz dos céus de sono,
esqueça sobre o cinza do abandono
que a esperanças inúteis já concedo.
Não saiba que a fumaça de bruxedo
chora porque perdemos nosso trono.
Mas na hora nona então, à luz sem dono,
brincaremos em paz nosso brinquedo.
E até das catedrais virão sorrisos!
0 alegro de compassos imprecisos
virá, de contrabaixo e de fagote.
E os pobres anjos vão morrer de susto
quando virem, contendo a inveja a custo,
em nosso olhar o olhar de Dom Quixote.
680
Edmir Domingues
Soneto à mulher do próximo
Fendida seja um dia, pólo a pólo,
no remo que há fendido as águas densas
de outros corpos de formas quase imensas,
cavalgue a flor de sangue a flor do solo.
Outro não seja então que um novo Apolo
no amor de outra intenção que não de ofensas.
Sejam sinal das transitórias crenças
andorinhas de fogo no teu colo.
Haja um leito de espuma e de sargaços
nos caminhos do mar, e quanto aos passos
a chuva apaga-os sempre, quando chove.
Sob os ventos do céu de lua cheia
desfaçam-se os desejos sobre a areia,
sobre as letras limite, sobre o nove.
no remo que há fendido as águas densas
de outros corpos de formas quase imensas,
cavalgue a flor de sangue a flor do solo.
Outro não seja então que um novo Apolo
no amor de outra intenção que não de ofensas.
Sejam sinal das transitórias crenças
andorinhas de fogo no teu colo.
Haja um leito de espuma e de sargaços
nos caminhos do mar, e quanto aos passos
a chuva apaga-os sempre, quando chove.
Sob os ventos do céu de lua cheia
desfaçam-se os desejos sobre a areia,
sobre as letras limite, sobre o nove.
769
Edmir Domingues
Soneto à mulher do próximo
Fendida seja um dia, pólo a pólo,
no remo que há fendido as águas densas
de outros corpos de formas quase imensas,
cavalgue a flor de sangue a flor do solo.
Outro não seja então que um novo Apolo
no amor de outra intenção que não de ofensas.
Sejam sinal das transitórias crenças
andorinhas de fogo no teu colo.
Haja um leito de espuma e de sargaços
nos caminhos do mar, e quanto aos passos
a chuva apaga-os sempre, quando chove.
Sob os ventos do céu de lua cheia
desfaçam-se os desejos sobre a areia,
sobre as letras limite, sobre o nove.
no remo que há fendido as águas densas
de outros corpos de formas quase imensas,
cavalgue a flor de sangue a flor do solo.
Outro não seja então que um novo Apolo
no amor de outra intenção que não de ofensas.
Sejam sinal das transitórias crenças
andorinhas de fogo no teu colo.
Haja um leito de espuma e de sargaços
nos caminhos do mar, e quanto aos passos
a chuva apaga-os sempre, quando chove.
Sob os ventos do céu de lua cheia
desfaçam-se os desejos sobre a areia,
sobre as letras limite, sobre o nove.
769
Edmir Domingues
Do sal aos tabuleiros de xadrez
Percamo-nos no sal que o sal nos vest
e há nos levar ao reino das janelas
onde os brinquedos pendem do cipreste
nascido sobre as manchas amarelas.
E onde os ventos que sopram de nordeste
fazem-se mãos e ritmos como aquelas
mãos que teceram fio azul-celeste
levando ao mar as mais que nossas velas.
Mas não houve, e houve volta a essas vulgares
coisas, que não de vento e não de mares,
de quartos e silêncios prolongados.
Quando as damas e os bispos preto e branco
seguiam mais o rei que esse era manco
peões que eram de chumbo e eram soldados
e há nos levar ao reino das janelas
onde os brinquedos pendem do cipreste
nascido sobre as manchas amarelas.
E onde os ventos que sopram de nordeste
fazem-se mãos e ritmos como aquelas
mãos que teceram fio azul-celeste
levando ao mar as mais que nossas velas.
Mas não houve, e houve volta a essas vulgares
coisas, que não de vento e não de mares,
de quartos e silêncios prolongados.
Quando as damas e os bispos preto e branco
seguiam mais o rei que esse era manco
peões que eram de chumbo e eram soldados
688
Edmir Domingues
Do sal aos tabuleiros de xadrez
Percamo-nos no sal que o sal nos vest
e há nos levar ao reino das janelas
onde os brinquedos pendem do cipreste
nascido sobre as manchas amarelas.
E onde os ventos que sopram de nordeste
fazem-se mãos e ritmos como aquelas
mãos que teceram fio azul-celeste
levando ao mar as mais que nossas velas.
Mas não houve, e houve volta a essas vulgares
coisas, que não de vento e não de mares,
de quartos e silêncios prolongados.
Quando as damas e os bispos preto e branco
seguiam mais o rei que esse era manco
peões que eram de chumbo e eram soldados
e há nos levar ao reino das janelas
onde os brinquedos pendem do cipreste
nascido sobre as manchas amarelas.
E onde os ventos que sopram de nordeste
fazem-se mãos e ritmos como aquelas
mãos que teceram fio azul-celeste
levando ao mar as mais que nossas velas.
Mas não houve, e houve volta a essas vulgares
coisas, que não de vento e não de mares,
de quartos e silêncios prolongados.
Quando as damas e os bispos preto e branco
seguiam mais o rei que esse era manco
peões que eram de chumbo e eram soldados
688
Edmir Domingues
Corcel de espuma
Tordilhos, alazãos, cavalos baios
neste campo de mar nos são de espanto,
que é rosa a rosa, canto apenas canto,
e os cavalos são rendas, contemplai-os.
Jazem despertos, lúcidos lacaios
de vestes vagas cuidam no entretanto
do seu possível sono a bem de manto
para que os não de ventos e de raios.
Há cavalos vermelhos, mas não esses
porquanto quase azuis. Se os conhecesses –
não teria o meu reino e os meus cavalos.
Que ao fim seriam teus, que és feita em bruma,
esses que são de mim corcéis de espuma
de quem só sabe azul no contemplá-los.
neste campo de mar nos são de espanto,
que é rosa a rosa, canto apenas canto,
e os cavalos são rendas, contemplai-os.
Jazem despertos, lúcidos lacaios
de vestes vagas cuidam no entretanto
do seu possível sono a bem de manto
para que os não de ventos e de raios.
Há cavalos vermelhos, mas não esses
porquanto quase azuis. Se os conhecesses –
não teria o meu reino e os meus cavalos.
Que ao fim seriam teus, que és feita em bruma,
esses que são de mim corcéis de espuma
de quem só sabe azul no contemplá-los.
791
Edmir Domingues
Corcel de espuma
Tordilhos, alazãos, cavalos baios
neste campo de mar nos são de espanto,
que é rosa a rosa, canto apenas canto,
e os cavalos são rendas, contemplai-os.
Jazem despertos, lúcidos lacaios
de vestes vagas cuidam no entretanto
do seu possível sono a bem de manto
para que os não de ventos e de raios.
Há cavalos vermelhos, mas não esses
porquanto quase azuis. Se os conhecesses –
não teria o meu reino e os meus cavalos.
Que ao fim seriam teus, que és feita em bruma,
esses que são de mim corcéis de espuma
de quem só sabe azul no contemplá-los.
neste campo de mar nos são de espanto,
que é rosa a rosa, canto apenas canto,
e os cavalos são rendas, contemplai-os.
Jazem despertos, lúcidos lacaios
de vestes vagas cuidam no entretanto
do seu possível sono a bem de manto
para que os não de ventos e de raios.
Há cavalos vermelhos, mas não esses
porquanto quase azuis. Se os conhecesses –
não teria o meu reino e os meus cavalos.
Que ao fim seriam teus, que és feita em bruma,
esses que são de mim corcéis de espuma
de quem só sabe azul no contemplá-los.
791
Edmir Domingues
soneto XIV - Um mundo como o nosso
A caravana estranha, grave e estranha,
dos limpa-chaminés, dos desgraçados,
aves já quase não de tão cansados,
as sombras deste bairro morto assanha.
Seguem. E a angústia mórbida acompanha
aqueles a seus olhos bem-amados,
que sonham meigos risos sufocados
que a lua faz de antigos quando banha.
Os limpa-chaminés só têm a rua
onde tombam de sono, a luz da lua
e essas canções que são de um mundo louco,
leves, vazias, feitas de tão pouco.
Canções que repetir tento e não posso
porque não são de um mundo como o nosso.
dos limpa-chaminés, dos desgraçados,
aves já quase não de tão cansados,
as sombras deste bairro morto assanha.
Seguem. E a angústia mórbida acompanha
aqueles a seus olhos bem-amados,
que sonham meigos risos sufocados
que a lua faz de antigos quando banha.
Os limpa-chaminés só têm a rua
onde tombam de sono, a luz da lua
e essas canções que são de um mundo louco,
leves, vazias, feitas de tão pouco.
Canções que repetir tento e não posso
porque não são de um mundo como o nosso.
684
Edmir Domingues
Atmosfera de aventura
E tínhamos os olhos dissolvidos
nos mares de procura e desconforto,
doze velas velavam por um morto, o
amigo que não vira o céu do porto
de ter olhos de bálsamos ungidos
e estar o cais dos ventos abatidos
além dos nossos tímidos sentidos
longe das formas deste mundo torto.
Então para o recôncavo, onde as ilha
felizes são banhadas de andarilhas
vagas que são de amor nunca abandono.
E medo, se a tormenta é sempre amarga
e há sete corvos negros entre a carga,
de lá chegar a luz dizendo outono
nos mares de procura e desconforto,
doze velas velavam por um morto, o
amigo que não vira o céu do porto
de ter olhos de bálsamos ungidos
e estar o cais dos ventos abatidos
além dos nossos tímidos sentidos
longe das formas deste mundo torto.
Então para o recôncavo, onde as ilha
felizes são banhadas de andarilhas
vagas que são de amor nunca abandono.
E medo, se a tormenta é sempre amarga
e há sete corvos negros entre a carga,
de lá chegar a luz dizendo outono
715
Edmir Domingues
Atmosfera de aventura
E tínhamos os olhos dissolvidos
nos mares de procura e desconforto,
doze velas velavam por um morto, o
amigo que não vira o céu do porto
de ter olhos de bálsamos ungidos
e estar o cais dos ventos abatidos
além dos nossos tímidos sentidos
longe das formas deste mundo torto.
Então para o recôncavo, onde as ilha
felizes são banhadas de andarilhas
vagas que são de amor nunca abandono.
E medo, se a tormenta é sempre amarga
e há sete corvos negros entre a carga,
de lá chegar a luz dizendo outono
nos mares de procura e desconforto,
doze velas velavam por um morto, o
amigo que não vira o céu do porto
de ter olhos de bálsamos ungidos
e estar o cais dos ventos abatidos
além dos nossos tímidos sentidos
longe das formas deste mundo torto.
Então para o recôncavo, onde as ilha
felizes são banhadas de andarilhas
vagas que são de amor nunca abandono.
E medo, se a tormenta é sempre amarga
e há sete corvos negros entre a carga,
de lá chegar a luz dizendo outono
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Edmir Domingues
Ao infante navegador
Na noite negra o promontório
penetra o Mar do Fim do Mundo.
E as nossas faces, nossas frontes,
as nossas cãs da insônia tanta,
jazem despertas, debruçadas
neste outro mar dos instrumentos.
Onde andarão as nossas naves
no mar da bruma e da incerteza?
Onde andarão irmãos, amigos,
no mar de breu, de sorvedouros?
O Infante espia e cisma e sonha.
Eu, sacerdote do mistério,
sempre a seu lado, apuro os filtros,
espanto os gatos e os morcegos
avivo os fogos do braseiro.
(Viva bem vivo o sortilégio
para espantar os monstros feros
que habitam sempre o Tenebroso).
Zarco, Tris tão, Eanes, Velho,
Bartolomeu, Diogo Cão,
onde estarão na noite imensa?
(Dizem que quem no mar de trevas
haja por hem se aventurar
em pouco instante será velho
já não terá noção do tempo).
Na noite negra o promontório
penetra o Mar do Fim do Mundo.
O Infante espia o espaço e cisma.
Onde andarão as nossas naves
em meio aos vórtices do espaço?
Será que acaso já dobraram
O Cabo Não e Marte, e Vênus
e o Bojador, e acaso acharam
Catay, Saturno, Taprohana,
Cipango e o Décimo Planeta,
Lua e o País do Preste João?
Caminho líquido das índias
aérea rota para Andrômeda.
Sagres então, Canaveral
agora, e sempre, e em toda a vida.
No promontório o Infante cisma
e a guerra santa nos promete.
Aos habitantes das esferas
em breve luta sujeitados -
temos de impor a fé de Cristo
e difundir nosso Evangelho.
penetra o Mar do Fim do Mundo.
E as nossas faces, nossas frontes,
as nossas cãs da insônia tanta,
jazem despertas, debruçadas
neste outro mar dos instrumentos.
Onde andarão as nossas naves
no mar da bruma e da incerteza?
Onde andarão irmãos, amigos,
no mar de breu, de sorvedouros?
O Infante espia e cisma e sonha.
Eu, sacerdote do mistério,
sempre a seu lado, apuro os filtros,
espanto os gatos e os morcegos
avivo os fogos do braseiro.
(Viva bem vivo o sortilégio
para espantar os monstros feros
que habitam sempre o Tenebroso).
Zarco, Tris tão, Eanes, Velho,
Bartolomeu, Diogo Cão,
onde estarão na noite imensa?
(Dizem que quem no mar de trevas
haja por hem se aventurar
em pouco instante será velho
já não terá noção do tempo).
Na noite negra o promontório
penetra o Mar do Fim do Mundo.
O Infante espia o espaço e cisma.
Onde andarão as nossas naves
em meio aos vórtices do espaço?
Será que acaso já dobraram
O Cabo Não e Marte, e Vênus
e o Bojador, e acaso acharam
Catay, Saturno, Taprohana,
Cipango e o Décimo Planeta,
Lua e o País do Preste João?
Caminho líquido das índias
aérea rota para Andrômeda.
Sagres então, Canaveral
agora, e sempre, e em toda a vida.
No promontório o Infante cisma
e a guerra santa nos promete.
Aos habitantes das esferas
em breve luta sujeitados -
temos de impor a fé de Cristo
e difundir nosso Evangelho.
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Edmir Domingues
Ao infante navegador
Na noite negra o promontório
penetra o Mar do Fim do Mundo.
E as nossas faces, nossas frontes,
as nossas cãs da insônia tanta,
jazem despertas, debruçadas
neste outro mar dos instrumentos.
Onde andarão as nossas naves
no mar da bruma e da incerteza?
Onde andarão irmãos, amigos,
no mar de breu, de sorvedouros?
O Infante espia e cisma e sonha.
Eu, sacerdote do mistério,
sempre a seu lado, apuro os filtros,
espanto os gatos e os morcegos
avivo os fogos do braseiro.
(Viva bem vivo o sortilégio
para espantar os monstros feros
que habitam sempre o Tenebroso).
Zarco, Tris tão, Eanes, Velho,
Bartolomeu, Diogo Cão,
onde estarão na noite imensa?
(Dizem que quem no mar de trevas
haja por hem se aventurar
em pouco instante será velho
já não terá noção do tempo).
Na noite negra o promontório
penetra o Mar do Fim do Mundo.
O Infante espia o espaço e cisma.
Onde andarão as nossas naves
em meio aos vórtices do espaço?
Será que acaso já dobraram
O Cabo Não e Marte, e Vênus
e o Bojador, e acaso acharam
Catay, Saturno, Taprohana,
Cipango e o Décimo Planeta,
Lua e o País do Preste João?
Caminho líquido das índias
aérea rota para Andrômeda.
Sagres então, Canaveral
agora, e sempre, e em toda a vida.
No promontório o Infante cisma
e a guerra santa nos promete.
Aos habitantes das esferas
em breve luta sujeitados -
temos de impor a fé de Cristo
e difundir nosso Evangelho.
penetra o Mar do Fim do Mundo.
E as nossas faces, nossas frontes,
as nossas cãs da insônia tanta,
jazem despertas, debruçadas
neste outro mar dos instrumentos.
Onde andarão as nossas naves
no mar da bruma e da incerteza?
Onde andarão irmãos, amigos,
no mar de breu, de sorvedouros?
O Infante espia e cisma e sonha.
Eu, sacerdote do mistério,
sempre a seu lado, apuro os filtros,
espanto os gatos e os morcegos
avivo os fogos do braseiro.
(Viva bem vivo o sortilégio
para espantar os monstros feros
que habitam sempre o Tenebroso).
Zarco, Tris tão, Eanes, Velho,
Bartolomeu, Diogo Cão,
onde estarão na noite imensa?
(Dizem que quem no mar de trevas
haja por hem se aventurar
em pouco instante será velho
já não terá noção do tempo).
Na noite negra o promontório
penetra o Mar do Fim do Mundo.
O Infante espia o espaço e cisma.
Onde andarão as nossas naves
em meio aos vórtices do espaço?
Será que acaso já dobraram
O Cabo Não e Marte, e Vênus
e o Bojador, e acaso acharam
Catay, Saturno, Taprohana,
Cipango e o Décimo Planeta,
Lua e o País do Preste João?
Caminho líquido das índias
aérea rota para Andrômeda.
Sagres então, Canaveral
agora, e sempre, e em toda a vida.
No promontório o Infante cisma
e a guerra santa nos promete.
Aos habitantes das esferas
em breve luta sujeitados -
temos de impor a fé de Cristo
e difundir nosso Evangelho.
775
Edmir Domingues
À cadelinha navegante do espaço
Acontece que a terra é fria, escura,
habitação de angústia e de incerteza.
É preciso vencer o espaço
acima.
Deixando a relação na esfera
abaixo
nas estruturas do metal polido
subir
aos planos nunca maculados
pelo voo das aves.
Subir, de vez que o ar da superfície
das terras e das águas, o sentimos
um ar irrespirável, saturado
do aroma das guerras frias.
Há que a audácia dos homens quase sempre
repousa na degola de inocentes.
Eis porque foste tu sacrificada
ao sonho que toma corpo.
Deram-te glória então, teu nome logo
entrou nos linotipos, microfones
disseram do teu nome. Nenhum disse
da provável ternura dos teus olhos.
Pois aos homens valias quanto carne
e reações, nada entanto como vida
nem como os sentimentos que por certo
habitam toda carne
como um sopro.
Que eras dócil disseram, resistente
como os gelos da pátria, como a pátria,
e a morte é sempre o preço da doçura
cobrado pelas mãos da crueldade.
Mas nunca foste só no teu caminho.
Os que sabem bondade neste Vale
padeceram contigo a tua angústia,
eras um coração que palpitava
no silêncio sem fim da espaçonave.
Destino deste mundo, a glória nunca
vale aquilo que custa em sacrifício.
Antes tivesses sido (em vez de tanto)
apenas a alegria de um menino.
Fonte de risos, poço de ternuras,
apenas a alegria de um menino.
Em vez do quanto foste, quando falta
a ciência maior que as leis da física,
essa que diz da paz, da temperança,
e ensina o que nos salta aos olhos mortos.
Mais vale o sofrimento de um ser vivo
que as conquistas da espécie, que não valem
planetas, nebulosas, o universo,
se padece de fome o semelhante.
Não vale dominar a terra, o espaço,
ouvir a melodia das esferas,
quando não haja amor (e paz) cantando
no amargo coração da humanidade.
habitação de angústia e de incerteza.
É preciso vencer o espaço
acima.
Deixando a relação na esfera
abaixo
nas estruturas do metal polido
subir
aos planos nunca maculados
pelo voo das aves.
Subir, de vez que o ar da superfície
das terras e das águas, o sentimos
um ar irrespirável, saturado
do aroma das guerras frias.
Há que a audácia dos homens quase sempre
repousa na degola de inocentes.
Eis porque foste tu sacrificada
ao sonho que toma corpo.
Deram-te glória então, teu nome logo
entrou nos linotipos, microfones
disseram do teu nome. Nenhum disse
da provável ternura dos teus olhos.
Pois aos homens valias quanto carne
e reações, nada entanto como vida
nem como os sentimentos que por certo
habitam toda carne
como um sopro.
Que eras dócil disseram, resistente
como os gelos da pátria, como a pátria,
e a morte é sempre o preço da doçura
cobrado pelas mãos da crueldade.
Mas nunca foste só no teu caminho.
Os que sabem bondade neste Vale
padeceram contigo a tua angústia,
eras um coração que palpitava
no silêncio sem fim da espaçonave.
Destino deste mundo, a glória nunca
vale aquilo que custa em sacrifício.
Antes tivesses sido (em vez de tanto)
apenas a alegria de um menino.
Fonte de risos, poço de ternuras,
apenas a alegria de um menino.
Em vez do quanto foste, quando falta
a ciência maior que as leis da física,
essa que diz da paz, da temperança,
e ensina o que nos salta aos olhos mortos.
Mais vale o sofrimento de um ser vivo
que as conquistas da espécie, que não valem
planetas, nebulosas, o universo,
se padece de fome o semelhante.
Não vale dominar a terra, o espaço,
ouvir a melodia das esferas,
quando não haja amor (e paz) cantando
no amargo coração da humanidade.
727
Edmir Domingues
À cadelinha navegante do espaço
Acontece que a terra é fria, escura,
habitação de angústia e de incerteza.
É preciso vencer o espaço
acima.
Deixando a relação na esfera
abaixo
nas estruturas do metal polido
subir
aos planos nunca maculados
pelo voo das aves.
Subir, de vez que o ar da superfície
das terras e das águas, o sentimos
um ar irrespirável, saturado
do aroma das guerras frias.
Há que a audácia dos homens quase sempre
repousa na degola de inocentes.
Eis porque foste tu sacrificada
ao sonho que toma corpo.
Deram-te glória então, teu nome logo
entrou nos linotipos, microfones
disseram do teu nome. Nenhum disse
da provável ternura dos teus olhos.
Pois aos homens valias quanto carne
e reações, nada entanto como vida
nem como os sentimentos que por certo
habitam toda carne
como um sopro.
Que eras dócil disseram, resistente
como os gelos da pátria, como a pátria,
e a morte é sempre o preço da doçura
cobrado pelas mãos da crueldade.
Mas nunca foste só no teu caminho.
Os que sabem bondade neste Vale
padeceram contigo a tua angústia,
eras um coração que palpitava
no silêncio sem fim da espaçonave.
Destino deste mundo, a glória nunca
vale aquilo que custa em sacrifício.
Antes tivesses sido (em vez de tanto)
apenas a alegria de um menino.
Fonte de risos, poço de ternuras,
apenas a alegria de um menino.
Em vez do quanto foste, quando falta
a ciência maior que as leis da física,
essa que diz da paz, da temperança,
e ensina o que nos salta aos olhos mortos.
Mais vale o sofrimento de um ser vivo
que as conquistas da espécie, que não valem
planetas, nebulosas, o universo,
se padece de fome o semelhante.
Não vale dominar a terra, o espaço,
ouvir a melodia das esferas,
quando não haja amor (e paz) cantando
no amargo coração da humanidade.
habitação de angústia e de incerteza.
É preciso vencer o espaço
acima.
Deixando a relação na esfera
abaixo
nas estruturas do metal polido
subir
aos planos nunca maculados
pelo voo das aves.
Subir, de vez que o ar da superfície
das terras e das águas, o sentimos
um ar irrespirável, saturado
do aroma das guerras frias.
Há que a audácia dos homens quase sempre
repousa na degola de inocentes.
Eis porque foste tu sacrificada
ao sonho que toma corpo.
Deram-te glória então, teu nome logo
entrou nos linotipos, microfones
disseram do teu nome. Nenhum disse
da provável ternura dos teus olhos.
Pois aos homens valias quanto carne
e reações, nada entanto como vida
nem como os sentimentos que por certo
habitam toda carne
como um sopro.
Que eras dócil disseram, resistente
como os gelos da pátria, como a pátria,
e a morte é sempre o preço da doçura
cobrado pelas mãos da crueldade.
Mas nunca foste só no teu caminho.
Os que sabem bondade neste Vale
padeceram contigo a tua angústia,
eras um coração que palpitava
no silêncio sem fim da espaçonave.
Destino deste mundo, a glória nunca
vale aquilo que custa em sacrifício.
Antes tivesses sido (em vez de tanto)
apenas a alegria de um menino.
Fonte de risos, poço de ternuras,
apenas a alegria de um menino.
Em vez do quanto foste, quando falta
a ciência maior que as leis da física,
essa que diz da paz, da temperança,
e ensina o que nos salta aos olhos mortos.
Mais vale o sofrimento de um ser vivo
que as conquistas da espécie, que não valem
planetas, nebulosas, o universo,
se padece de fome o semelhante.
Não vale dominar a terra, o espaço,
ouvir a melodia das esferas,
quando não haja amor (e paz) cantando
no amargo coração da humanidade.
727
Edmir Domingues
Flautas e mar
Que noite pode ser, conquanto dia
se veja de aparência e circunstância
e se faça um perfume de distância
quando o perto que está se não queria.
Que em fumo se transforme rosa fria
fulminada nos gelos a fragrância,
e em países distantes como a Infância
à sombra saiba a luz, de fugidia.
Mas ainda há ternura em nossos dedos,
há pedaços de infância nos brinquedos
a par de ouvida música de mágoas.
Sempre há flautas e mar, diante do muro,
e ê possível se grite contra o escuro
que os poetas se nutrem dessas águas.
se veja de aparência e circunstância
e se faça um perfume de distância
quando o perto que está se não queria.
Que em fumo se transforme rosa fria
fulminada nos gelos a fragrância,
e em países distantes como a Infância
à sombra saiba a luz, de fugidia.
Mas ainda há ternura em nossos dedos,
há pedaços de infância nos brinquedos
a par de ouvida música de mágoas.
Sempre há flautas e mar, diante do muro,
e ê possível se grite contra o escuro
que os poetas se nutrem dessas águas.
544
Edmir Domingues
Flautas e mar
Que noite pode ser, conquanto dia
se veja de aparência e circunstância
e se faça um perfume de distância
quando o perto que está se não queria.
Que em fumo se transforme rosa fria
fulminada nos gelos a fragrância,
e em países distantes como a Infância
à sombra saiba a luz, de fugidia.
Mas ainda há ternura em nossos dedos,
há pedaços de infância nos brinquedos
a par de ouvida música de mágoas.
Sempre há flautas e mar, diante do muro,
e ê possível se grite contra o escuro
que os poetas se nutrem dessas águas.
se veja de aparência e circunstância
e se faça um perfume de distância
quando o perto que está se não queria.
Que em fumo se transforme rosa fria
fulminada nos gelos a fragrância,
e em países distantes como a Infância
à sombra saiba a luz, de fugidia.
Mas ainda há ternura em nossos dedos,
há pedaços de infância nos brinquedos
a par de ouvida música de mágoas.
Sempre há flautas e mar, diante do muro,
e ê possível se grite contra o escuro
que os poetas se nutrem dessas águas.
544
Edmir Domingues
Os Pássaros
Sempre houvesse, no dia, a flecha da ave
cruzando, como um bólido, esses ares
que há nos olhares brandos de quem ama.
Mais suave que a mágica de um canto
o risco azul, no azul, da ponta da asa
torna muito mais claro o claro dia.
Pássaro angustipene, a ousadia
como fixa tatuagem, como encrave
marca, estigma, sinal que não atrasa
os instintos, heranças seculares.
Das figuras presentes sonho, encanto,
no azul-cobalto, azul de ciclorama.
Flecha fina e sutil, esse programa
da natureza - à calma e a rebeldia -
ninho no mais recôndito recanto.
Para a figura sempre e sempre a chave
do mistério do vôo e dos cantares
que são volúpia viva como brasa.
O resto o azul. Sentido como em casa,
quando, de estar-se bem, não se reclama.
Das solidões privadas sempre pares
no contínuo fluir do dia-a-dia
(como se houvera sempre esse conclave)
as figuras, nos chãos do desencanto.
Os pássaros no chão. O contracanto
do vôo ousado que esta vida embasa
é solidão mais negra do que a cave
do desejo. Mais forte do que a chama
da serpente de plumas que irradia
a força dos quereres e tentares.
Na solidão da noite, à luz dos bares,
jogando ao solo o espinho desse acanto
da coroa da glória mais vadia,
uma ave de outras penas, tábua rasa,
do fundo do seu poço enfim proclama
o seu próprio naufrágio, velha nave.
Ave implume, que não conhece os ares,
asa quebrada, desmanchado canto,
ama a vida, e a morte espera, um dia.
cruzando, como um bólido, esses ares
que há nos olhares brandos de quem ama.
Mais suave que a mágica de um canto
o risco azul, no azul, da ponta da asa
torna muito mais claro o claro dia.
Pássaro angustipene, a ousadia
como fixa tatuagem, como encrave
marca, estigma, sinal que não atrasa
os instintos, heranças seculares.
Das figuras presentes sonho, encanto,
no azul-cobalto, azul de ciclorama.
Flecha fina e sutil, esse programa
da natureza - à calma e a rebeldia -
ninho no mais recôndito recanto.
Para a figura sempre e sempre a chave
do mistério do vôo e dos cantares
que são volúpia viva como brasa.
O resto o azul. Sentido como em casa,
quando, de estar-se bem, não se reclama.
Das solidões privadas sempre pares
no contínuo fluir do dia-a-dia
(como se houvera sempre esse conclave)
as figuras, nos chãos do desencanto.
Os pássaros no chão. O contracanto
do vôo ousado que esta vida embasa
é solidão mais negra do que a cave
do desejo. Mais forte do que a chama
da serpente de plumas que irradia
a força dos quereres e tentares.
Na solidão da noite, à luz dos bares,
jogando ao solo o espinho desse acanto
da coroa da glória mais vadia,
uma ave de outras penas, tábua rasa,
do fundo do seu poço enfim proclama
o seu próprio naufrágio, velha nave.
Ave implume, que não conhece os ares,
asa quebrada, desmanchado canto,
ama a vida, e a morte espera, um dia.
678
Edmir Domingues
A brisa terral
Baseado em crônica de Rubem Braga
Congelemos sentimentos.
Joaquina me atormenta,
e eu que não posso guardá-la!
e eu que não quero perdê-la!
A solução: congelemos.
Congelemos promissórias
(também a literatura)
a voz mansa da cantora
e o vento manso do mar .
Quando, insensato, esse vento
percorre-me a casa toda
onde estou posto em sossego;
vem falar-me de viagens,
fabulosas aventuras,
me conta o mito distante
da virgem nua do Báltico,
me conta no meu ouvido
o murmúrio da sereia
que está lânguida de amor
numa pequena ilha grega,
ai de mim, que ela me espera,
que me espera e eu lá não vou.
Feito o que, pela janela
sai levando-me a fumaça
do cigarro que eu fumava
e a paz que a minh alma tinha.
Fico imóvel, cai a noite,
chega-me o vento da terra,
me diz que em alguma curva
de qualquer obscuro rio
dos confins deste país,
um galho de ingá repousa
pendurado no remanso;
junto o mugido de um boi
o ranger de uma porteira
o pio triste das aves
mulheres fazendo esteiras
de quem as faces não vejo;
são escuras, vejo apenas
cabelos negros e lisos
elas falam muito baixo
das suas vozes me chega
apenas leve murmúrio.
Homens há, consertam redes,
tiram água da cacimba.
Então toca o telefone
e eis que estou no apartamento
presa de tempo e de espaço;
preciso por a gravata
e o paletó e sair.
Urge tomar providências
enquanto pessoas outras
preferem tomar maconha.
De eficiência me visto
envio flores às damas
parabéns aos cavalheiros
para sentir-me distinto.
Mas quando o garçon pergunta
o que desejo beber
eu minto, pedindo uísque
quando uisque não queria.
Queria aquela caneca
azul, de flores vermelhas,
apanhar na talha escura
a água que há na cacimba.
Não congelemos mais nada
e nada reestruturemos.
Pois há uma leve brisa
com cheiro quente de mato.
Há grilos na noite. E a vida
é uma coisa natural.
627
Edmir Domingues
A brisa terral
Baseado em crônica de Rubem Braga
Congelemos sentimentos.
Joaquina me atormenta,
e eu que não posso guardá-la!
e eu que não quero perdê-la!
A solução: congelemos.
Congelemos promissórias
(também a literatura)
a voz mansa da cantora
e o vento manso do mar .
Quando, insensato, esse vento
percorre-me a casa toda
onde estou posto em sossego;
vem falar-me de viagens,
fabulosas aventuras,
me conta o mito distante
da virgem nua do Báltico,
me conta no meu ouvido
o murmúrio da sereia
que está lânguida de amor
numa pequena ilha grega,
ai de mim, que ela me espera,
que me espera e eu lá não vou.
Feito o que, pela janela
sai levando-me a fumaça
do cigarro que eu fumava
e a paz que a minh alma tinha.
Fico imóvel, cai a noite,
chega-me o vento da terra,
me diz que em alguma curva
de qualquer obscuro rio
dos confins deste país,
um galho de ingá repousa
pendurado no remanso;
junto o mugido de um boi
o ranger de uma porteira
o pio triste das aves
mulheres fazendo esteiras
de quem as faces não vejo;
são escuras, vejo apenas
cabelos negros e lisos
elas falam muito baixo
das suas vozes me chega
apenas leve murmúrio.
Homens há, consertam redes,
tiram água da cacimba.
Então toca o telefone
e eis que estou no apartamento
presa de tempo e de espaço;
preciso por a gravata
e o paletó e sair.
Urge tomar providências
enquanto pessoas outras
preferem tomar maconha.
De eficiência me visto
envio flores às damas
parabéns aos cavalheiros
para sentir-me distinto.
Mas quando o garçon pergunta
o que desejo beber
eu minto, pedindo uísque
quando uisque não queria.
Queria aquela caneca
azul, de flores vermelhas,
apanhar na talha escura
a água que há na cacimba.
Não congelemos mais nada
e nada reestruturemos.
Pois há uma leve brisa
com cheiro quente de mato.
Há grilos na noite. E a vida
é uma coisa natural.
627
Edmir Domingues
É fortuna do mar o que nós somos
É fortuna do mar o que nós somos
em seguida ao naufrágio. Nada resta
senão a solidão do abismo. Nesta
noite feita de esperas e de assomos.
Noite global. A angústia nos empresta
uma luz que recorda antigos cromos.
Onde o aroma provém de cinamomos
e sugere outro clima. De floresta.
O naufrágio sem mar. A queda enorme
sobre o abismo interior. Enquanto dorme
qualquer som de esperança e de conforto.
Barco à deriva. Após quebrado o leme,
que se parte e estraçalha, e chora e geme,
perdido para sempre o antigo porto.
em seguida ao naufrágio. Nada resta
senão a solidão do abismo. Nesta
noite feita de esperas e de assomos.
Noite global. A angústia nos empresta
uma luz que recorda antigos cromos.
Onde o aroma provém de cinamomos
e sugere outro clima. De floresta.
O naufrágio sem mar. A queda enorme
sobre o abismo interior. Enquanto dorme
qualquer som de esperança e de conforto.
Barco à deriva. Após quebrado o leme,
que se parte e estraçalha, e chora e geme,
perdido para sempre o antigo porto.
701
Edmir Domingues
Galope das bruxas
Na noite mais negra do mês de novembro,
do fundo mais fundo da noite sem fim,
soprados por ventos de um hálito ruim
nasceram fantasmas, sem cor, bem me lembro.
As formas formando-se no ar, membro a membro,
de um branco ectoplasma, no chão sublunar,
morcegos-vampiros passando o voar,
que é isto, meu Deus dos desígnios supremos?
O horrível simpósio dos vultos blasfemos
brotando das sombras, à beira do mar.
Por certo é chegado o reinado de espantos
de há muito esperado, o advir de algum dia,
melhor, de uma Noite do Mal, bruxaria.
Cavalos de pó, cavalgados por santos,
dos santos quibandas de cujos quebrantos
um santo dos santos há-de me livrar
das mortes-vermelhas cumprindo o avatar,
de vozes chorando chorados lamentos
em viva diáspora em asas de ventos,
dos ventos que sopram na beira do mar.
Os sinos, dobrando o finados, se escutam,
na noite da festa, da festa vodu,
de obás e de eguns, dos demônios de Exu,
que montam coriscos e raios, que lutam,
provindos dos Ventos da Morte, labutam
no que é seu trabalho, o de o Mal espalhar.
- Relato estas coisas, que são de lembrar;
na voz do Galope compondo os relatos,
só para perpétua memória dos fatos
cantando o galope na beira do mar.
A Cobra, (essa cobra que tem os dois sexos),
também serpenteia, envolvida nos fumos,
em transe e estupor, sem roteiros nem rumos.
Duendes escuros permutam-se amplexos,
diante dos olhos, meus olhos perplexos,
com garras aduncas a me ameaçar.
Tal qual Missa Negra de Mundos de Azar
prossegue a Tragédia, ao grasnido dos corvos
das bruxas presentes, que bebem, aos sorvos,
os roncos nervosos das ondas do mar.
No entanto, desfaço os mistérios do absurdo,
sem cunhas de lenha, sem balas de prata,
e em breve inauguro uma paz de sonata
que, em manso lavor, silenciosamente urdo.
Desmancho esses ogros do imenso chafurdo
chamando a Senhora, a Quem cabe invocar.
Senhora de Tudo, de auréola estelar
da Boa Viagem, e dos Navegantes,
e da Piedade, (e dos oras, dos antes,)
também das Candeias da beira do mar.
E as horas da calma já vêm, vão chegando,
desfazem-se os monstros danados, por fim.
O ar se perfuma, o hálito ruim
soprado por fadas já vai-se evolando.
Às asas dos anjos, que chegam, em bando,
são suaves murmúrios, novo sussurrar.
Os sinos serenam, batendo a louvar
a Paz que conduz para a paz o meu músculo
de Fé, que se eleva ante o novo crepúsculo
da nova alvorada que nasce do Mar.
do fundo mais fundo da noite sem fim,
soprados por ventos de um hálito ruim
nasceram fantasmas, sem cor, bem me lembro.
As formas formando-se no ar, membro a membro,
de um branco ectoplasma, no chão sublunar,
morcegos-vampiros passando o voar,
que é isto, meu Deus dos desígnios supremos?
O horrível simpósio dos vultos blasfemos
brotando das sombras, à beira do mar.
Por certo é chegado o reinado de espantos
de há muito esperado, o advir de algum dia,
melhor, de uma Noite do Mal, bruxaria.
Cavalos de pó, cavalgados por santos,
dos santos quibandas de cujos quebrantos
um santo dos santos há-de me livrar
das mortes-vermelhas cumprindo o avatar,
de vozes chorando chorados lamentos
em viva diáspora em asas de ventos,
dos ventos que sopram na beira do mar.
Os sinos, dobrando o finados, se escutam,
na noite da festa, da festa vodu,
de obás e de eguns, dos demônios de Exu,
que montam coriscos e raios, que lutam,
provindos dos Ventos da Morte, labutam
no que é seu trabalho, o de o Mal espalhar.
- Relato estas coisas, que são de lembrar;
na voz do Galope compondo os relatos,
só para perpétua memória dos fatos
cantando o galope na beira do mar.
A Cobra, (essa cobra que tem os dois sexos),
também serpenteia, envolvida nos fumos,
em transe e estupor, sem roteiros nem rumos.
Duendes escuros permutam-se amplexos,
diante dos olhos, meus olhos perplexos,
com garras aduncas a me ameaçar.
Tal qual Missa Negra de Mundos de Azar
prossegue a Tragédia, ao grasnido dos corvos
das bruxas presentes, que bebem, aos sorvos,
os roncos nervosos das ondas do mar.
No entanto, desfaço os mistérios do absurdo,
sem cunhas de lenha, sem balas de prata,
e em breve inauguro uma paz de sonata
que, em manso lavor, silenciosamente urdo.
Desmancho esses ogros do imenso chafurdo
chamando a Senhora, a Quem cabe invocar.
Senhora de Tudo, de auréola estelar
da Boa Viagem, e dos Navegantes,
e da Piedade, (e dos oras, dos antes,)
também das Candeias da beira do mar.
E as horas da calma já vêm, vão chegando,
desfazem-se os monstros danados, por fim.
O ar se perfuma, o hálito ruim
soprado por fadas já vai-se evolando.
Às asas dos anjos, que chegam, em bando,
são suaves murmúrios, novo sussurrar.
Os sinos serenam, batendo a louvar
a Paz que conduz para a paz o meu músculo
de Fé, que se eleva ante o novo crepúsculo
da nova alvorada que nasce do Mar.
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Edmir Domingues
Galope das bruxas
Na noite mais negra do mês de novembro,
do fundo mais fundo da noite sem fim,
soprados por ventos de um hálito ruim
nasceram fantasmas, sem cor, bem me lembro.
As formas formando-se no ar, membro a membro,
de um branco ectoplasma, no chão sublunar,
morcegos-vampiros passando o voar,
que é isto, meu Deus dos desígnios supremos?
O horrível simpósio dos vultos blasfemos
brotando das sombras, à beira do mar.
Por certo é chegado o reinado de espantos
de há muito esperado, o advir de algum dia,
melhor, de uma Noite do Mal, bruxaria.
Cavalos de pó, cavalgados por santos,
dos santos quibandas de cujos quebrantos
um santo dos santos há-de me livrar
das mortes-vermelhas cumprindo o avatar,
de vozes chorando chorados lamentos
em viva diáspora em asas de ventos,
dos ventos que sopram na beira do mar.
Os sinos, dobrando o finados, se escutam,
na noite da festa, da festa vodu,
de obás e de eguns, dos demônios de Exu,
que montam coriscos e raios, que lutam,
provindos dos Ventos da Morte, labutam
no que é seu trabalho, o de o Mal espalhar.
- Relato estas coisas, que são de lembrar;
na voz do Galope compondo os relatos,
só para perpétua memória dos fatos
cantando o galope na beira do mar.
A Cobra, (essa cobra que tem os dois sexos),
também serpenteia, envolvida nos fumos,
em transe e estupor, sem roteiros nem rumos.
Duendes escuros permutam-se amplexos,
diante dos olhos, meus olhos perplexos,
com garras aduncas a me ameaçar.
Tal qual Missa Negra de Mundos de Azar
prossegue a Tragédia, ao grasnido dos corvos
das bruxas presentes, que bebem, aos sorvos,
os roncos nervosos das ondas do mar.
No entanto, desfaço os mistérios do absurdo,
sem cunhas de lenha, sem balas de prata,
e em breve inauguro uma paz de sonata
que, em manso lavor, silenciosamente urdo.
Desmancho esses ogros do imenso chafurdo
chamando a Senhora, a Quem cabe invocar.
Senhora de Tudo, de auréola estelar
da Boa Viagem, e dos Navegantes,
e da Piedade, (e dos oras, dos antes,)
também das Candeias da beira do mar.
E as horas da calma já vêm, vão chegando,
desfazem-se os monstros danados, por fim.
O ar se perfuma, o hálito ruim
soprado por fadas já vai-se evolando.
Às asas dos anjos, que chegam, em bando,
são suaves murmúrios, novo sussurrar.
Os sinos serenam, batendo a louvar
a Paz que conduz para a paz o meu músculo
de Fé, que se eleva ante o novo crepúsculo
da nova alvorada que nasce do Mar.
do fundo mais fundo da noite sem fim,
soprados por ventos de um hálito ruim
nasceram fantasmas, sem cor, bem me lembro.
As formas formando-se no ar, membro a membro,
de um branco ectoplasma, no chão sublunar,
morcegos-vampiros passando o voar,
que é isto, meu Deus dos desígnios supremos?
O horrível simpósio dos vultos blasfemos
brotando das sombras, à beira do mar.
Por certo é chegado o reinado de espantos
de há muito esperado, o advir de algum dia,
melhor, de uma Noite do Mal, bruxaria.
Cavalos de pó, cavalgados por santos,
dos santos quibandas de cujos quebrantos
um santo dos santos há-de me livrar
das mortes-vermelhas cumprindo o avatar,
de vozes chorando chorados lamentos
em viva diáspora em asas de ventos,
dos ventos que sopram na beira do mar.
Os sinos, dobrando o finados, se escutam,
na noite da festa, da festa vodu,
de obás e de eguns, dos demônios de Exu,
que montam coriscos e raios, que lutam,
provindos dos Ventos da Morte, labutam
no que é seu trabalho, o de o Mal espalhar.
- Relato estas coisas, que são de lembrar;
na voz do Galope compondo os relatos,
só para perpétua memória dos fatos
cantando o galope na beira do mar.
A Cobra, (essa cobra que tem os dois sexos),
também serpenteia, envolvida nos fumos,
em transe e estupor, sem roteiros nem rumos.
Duendes escuros permutam-se amplexos,
diante dos olhos, meus olhos perplexos,
com garras aduncas a me ameaçar.
Tal qual Missa Negra de Mundos de Azar
prossegue a Tragédia, ao grasnido dos corvos
das bruxas presentes, que bebem, aos sorvos,
os roncos nervosos das ondas do mar.
No entanto, desfaço os mistérios do absurdo,
sem cunhas de lenha, sem balas de prata,
e em breve inauguro uma paz de sonata
que, em manso lavor, silenciosamente urdo.
Desmancho esses ogros do imenso chafurdo
chamando a Senhora, a Quem cabe invocar.
Senhora de Tudo, de auréola estelar
da Boa Viagem, e dos Navegantes,
e da Piedade, (e dos oras, dos antes,)
também das Candeias da beira do mar.
E as horas da calma já vêm, vão chegando,
desfazem-se os monstros danados, por fim.
O ar se perfuma, o hálito ruim
soprado por fadas já vai-se evolando.
Às asas dos anjos, que chegam, em bando,
são suaves murmúrios, novo sussurrar.
Os sinos serenam, batendo a louvar
a Paz que conduz para a paz o meu músculo
de Fé, que se eleva ante o novo crepúsculo
da nova alvorada que nasce do Mar.
668
Edmir Domingues
Elegia aos céus de Maralinga
Outrora em Maralinga as águas mansas
e o manso azul dos tempos de alegria.
Animais. Cada qual com sua cria
pastando um verde pasto de esperanças.
Outrora. Eis quando o aroma das matanças
rompeu a face intemporal do dia.
Fez-se unânime o escuro que existia
pousado sobre a fronte das crianças.
Ah, Maralinga (e o nome se prestara
a uma terra de amor) distante, rara,
que o passo das cidades nunca asfalte,
bem haja um dia aquela desejada
onde habite o rumor da madrugada.
Não tendo o nome teu lhe amor não falte.
e o manso azul dos tempos de alegria.
Animais. Cada qual com sua cria
pastando um verde pasto de esperanças.
Outrora. Eis quando o aroma das matanças
rompeu a face intemporal do dia.
Fez-se unânime o escuro que existia
pousado sobre a fronte das crianças.
Ah, Maralinga (e o nome se prestara
a uma terra de amor) distante, rara,
que o passo das cidades nunca asfalte,
bem haja um dia aquela desejada
onde habite o rumor da madrugada.
Não tendo o nome teu lhe amor não falte.
688
Edmir Domingues
Rota de colisão
É fortuna do mar o que nós somos
em seguida ao naufrágio. Nada resta
senão a solidão do abismo. Nesta
noite feita de esperas e de assomos.
Noite global. A angústia nos empresta
uma luz que recorda antigos cromos.
Onde o aroma provém de cinamomos
e sugere outro clima. De floresta.
O naufrágio sem mar. A queda enorme
sobre o abismo interior. Enquanto dorme
qualquer som de esperança e de conforto.
Barco à deriva. Após quebrado o leme,
que se parte e estraçalha, e chora e geme,
perdido para sempre o antigo porto.
em seguida ao naufrágio. Nada resta
senão a solidão do abismo. Nesta
noite feita de esperas e de assomos.
Noite global. A angústia nos empresta
uma luz que recorda antigos cromos.
Onde o aroma provém de cinamomos
e sugere outro clima. De floresta.
O naufrágio sem mar. A queda enorme
sobre o abismo interior. Enquanto dorme
qualquer som de esperança e de conforto.
Barco à deriva. Após quebrado o leme,
que se parte e estraçalha, e chora e geme,
perdido para sempre o antigo porto.
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