Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Fernando Pessoa
O sorriso triste do ante-dia que começou
O sorriso triste do ante-dia que começou
Platina fria no engaste de negro azulando-se escuramente.
Platina fria no engaste de negro azulando-se escuramente.
1 014
Al Berto
Senhor da Asma
deitado há muito tempo - o cigarro luzindo
como um olho de tigre vindo da noite e
lá fora
ainda se percebe a húmida incandescência das frésias
o rumor surdo de vozes pelo jardim onde
a florida macieira se recorta no intenso céu de verão.
mais além
o rouxinol a madressilva
a sebe de pilriteiros
a brisa de um mar invisível - aflora-te a boca
arde no coração
a memória álgida dos limos dos casinos das praias
saturadas de sal e de sedução
mas nada é perfeito - nem o magnífico chapéu
de mademoiselle de noailles nem os dias que
aos ziguezagues vão passando iguais e monótonos
falta-me o tempo para procurar o tempo perdido
e não estou deitado na recordação da infância
confesso
que odeio escrever cartas ou enviar recados
ando há uma semana arrumando livros - comovido
acabei agora mesmo de sacudir
o pequeno novelo de poeira acumulada
no interior das páginas do senhor da asma
por hoje é tudo
como um olho de tigre vindo da noite e
lá fora
ainda se percebe a húmida incandescência das frésias
o rumor surdo de vozes pelo jardim onde
a florida macieira se recorta no intenso céu de verão.
mais além
o rouxinol a madressilva
a sebe de pilriteiros
a brisa de um mar invisível - aflora-te a boca
arde no coração
a memória álgida dos limos dos casinos das praias
saturadas de sal e de sedução
mas nada é perfeito - nem o magnífico chapéu
de mademoiselle de noailles nem os dias que
aos ziguezagues vão passando iguais e monótonos
falta-me o tempo para procurar o tempo perdido
e não estou deitado na recordação da infância
confesso
que odeio escrever cartas ou enviar recados
ando há uma semana arrumando livros - comovido
acabei agora mesmo de sacudir
o pequeno novelo de poeira acumulada
no interior das páginas do senhor da asma
por hoje é tudo
2 166
Al Berto
Senhor da Asma
deitado há muito tempo - o cigarro luzindo
como um olho de tigre vindo da noite e
lá fora
ainda se percebe a húmida incandescência das frésias
o rumor surdo de vozes pelo jardim onde
a florida macieira se recorta no intenso céu de verão.
mais além
o rouxinol a madressilva
a sebe de pilriteiros
a brisa de um mar invisível - aflora-te a boca
arde no coração
a memória álgida dos limos dos casinos das praias
saturadas de sal e de sedução
mas nada é perfeito - nem o magnífico chapéu
de mademoiselle de noailles nem os dias que
aos ziguezagues vão passando iguais e monótonos
falta-me o tempo para procurar o tempo perdido
e não estou deitado na recordação da infância
confesso
que odeio escrever cartas ou enviar recados
ando há uma semana arrumando livros - comovido
acabei agora mesmo de sacudir
o pequeno novelo de poeira acumulada
no interior das páginas do senhor da asma
por hoje é tudo
como um olho de tigre vindo da noite e
lá fora
ainda se percebe a húmida incandescência das frésias
o rumor surdo de vozes pelo jardim onde
a florida macieira se recorta no intenso céu de verão.
mais além
o rouxinol a madressilva
a sebe de pilriteiros
a brisa de um mar invisível - aflora-te a boca
arde no coração
a memória álgida dos limos dos casinos das praias
saturadas de sal e de sedução
mas nada é perfeito - nem o magnífico chapéu
de mademoiselle de noailles nem os dias que
aos ziguezagues vão passando iguais e monótonos
falta-me o tempo para procurar o tempo perdido
e não estou deitado na recordação da infância
confesso
que odeio escrever cartas ou enviar recados
ando há uma semana arrumando livros - comovido
acabei agora mesmo de sacudir
o pequeno novelo de poeira acumulada
no interior das páginas do senhor da asma
por hoje é tudo
2 166
Fernando Pessoa
Ó curva do horizonte, quem te passa,
Ó curva do horizonte, quem te passa,
Passa da vista, não de ser ou estar.
Não chameis à alma, que da vida esvoaça,
Morta. Dizei: Sumiu-se além no mar.
Ó mar, sê símbolo da vida toda —
Incerto, o mesmo e mais que o nosso ver!
Finda a viagem da morte e a terra à roda,
Voltou a alma e a nau a aparecer.
Passa da vista, não de ser ou estar.
Não chameis à alma, que da vida esvoaça,
Morta. Dizei: Sumiu-se além no mar.
Ó mar, sê símbolo da vida toda —
Incerto, o mesmo e mais que o nosso ver!
Finda a viagem da morte e a terra à roda,
Voltou a alma e a nau a aparecer.
1 450
Fernando Pessoa
Barcos pesados vindo para as melancólicas sombras
Barcos pesados vindo para as melancólicas sombras
Dos grandes olhos incompletos dos arcos das pontes
Enormes escaladas medievais dos altos muros do castelo
(Luzem como escamas os aços dos elmos e das couraças)
E os escudos deitados [clamam?] como goelas fumegantes dos que assaltam
E o súbito desabrochar aéreo das grandes flores amarelas e violentas das granadas.
(Onde o teu cavalo pôs a pata, Átila, torna a crescer erva
E tudo renasce e a vida da natureza cobre
O que fica das conquistas)
Antenas de ferro — capacetes em bico — de Bismarck
Dos grandes olhos incompletos dos arcos das pontes
Enormes escaladas medievais dos altos muros do castelo
(Luzem como escamas os aços dos elmos e das couraças)
E os escudos deitados [clamam?] como goelas fumegantes dos que assaltam
E o súbito desabrochar aéreo das grandes flores amarelas e violentas das granadas.
(Onde o teu cavalo pôs a pata, Átila, torna a crescer erva
E tudo renasce e a vida da natureza cobre
O que fica das conquistas)
Antenas de ferro — capacetes em bico — de Bismarck
874
Fernando Pessoa
II - Na sombra Cleópatra jaz morta.
II
Na sombra Cleópatra jaz morta.
Chove.
Embandeiraram o barco de maneira errada.
Chove sempre.
Para que olhas tu a cidade longínqua?
Tua alma é a cidade longínqua.
Chove friamente.
E quanto à mãe que embala ao colo um filho morto —
Todos nós embalamos ao colo um filho morto.
Chove, chove.
O sorriso triste que sobra a teus lábios cansados,
Vejo-o no gesto com que os teus dedos não deixam os teus anéis.
Porque é que chove?
Na sombra Cleópatra jaz morta.
Chove.
Embandeiraram o barco de maneira errada.
Chove sempre.
Para que olhas tu a cidade longínqua?
Tua alma é a cidade longínqua.
Chove friamente.
E quanto à mãe que embala ao colo um filho morto —
Todos nós embalamos ao colo um filho morto.
Chove, chove.
O sorriso triste que sobra a teus lábios cansados,
Vejo-o no gesto com que os teus dedos não deixam os teus anéis.
Porque é que chove?
1 547
Fernando Pessoa
VI - O ritmo antigo que há em pés descalços, [1]
O ritmo antigo que há em pés descalços,
Esse ritmo das ninfas repetido,
Quando sob o arvoredo
Batem o som da dança,
Vós na alva praia relembrai, fazendo,
Que escura a espuma deixa; vós, infantes,
Que inda não tendes cura
De ter cura, reponde
Ruidosa a roda, enquanto arqueia Apolo,
Como um ramo alto, a curva azul que doura,
E a perene maré
Flui, enchente ou vazante.
Esse ritmo das ninfas repetido,
Quando sob o arvoredo
Batem o som da dança,
Vós na alva praia relembrai, fazendo,
Que escura a espuma deixa; vós, infantes,
Que inda não tendes cura
De ter cura, reponde
Ruidosa a roda, enquanto arqueia Apolo,
Como um ramo alto, a curva azul que doura,
E a perene maré
Flui, enchente ou vazante.
1 137
Fernando Pessoa
Não! Só quero a liberdade!
Não! Só quero a liberdade!
Amor, glória, dinheiro são prisões.
Bonitas salas? Bons estofos? Tapetes moles?
Ah, mas deixem-me sair para ir ter comigo.
Quero respirar o ar sozinho,
Não tenho pulsações em conjunto,
Não sinto em sociedade por quotas,
Não sou senão eu, não nasci senão quem sou, estou cheio de mim.
Onde quero dormir? No quintal...
Nada de paredes — ser o grande entendimento —
Eu e o universo,
E que sossego, que paz não ver antes de dormir o espectro do guarda-fatos
Mas o grande esplendor, negro e fresco de todos os astros juntos,
O grande abismo infinito para cima
A pôr brisas e bondades do alto na caveira tapada de carne que é a minha cara,
Onde só os olhos — outro céu — revelam o grande ser subjectivo.
Não quero! Dêem-me a liberdade!
Quero ser igual a mim mesmo.
Não me capem com ideais!
Não me vistam as camisas-de-forças das maneiras!
Não me façam elogiável ou inteligível!
Não me matem em vida!
Quero saber atirar com essa bola alta à lua
E ouvi-la cair no quintal do lado!
Quero ir deitar-me na relva, pensando "Amanhã vou buscá-la"...
Amanhã vou buscá-la ao quintal ao lado...
Amanhã vou buscá-la ao quintal ao lado...
" Amanhã vou buscá-la ao quintal"
Buscá-la ao quintal
Ao quintal
ao lado...
Amor, glória, dinheiro são prisões.
Bonitas salas? Bons estofos? Tapetes moles?
Ah, mas deixem-me sair para ir ter comigo.
Quero respirar o ar sozinho,
Não tenho pulsações em conjunto,
Não sinto em sociedade por quotas,
Não sou senão eu, não nasci senão quem sou, estou cheio de mim.
Onde quero dormir? No quintal...
Nada de paredes — ser o grande entendimento —
Eu e o universo,
E que sossego, que paz não ver antes de dormir o espectro do guarda-fatos
Mas o grande esplendor, negro e fresco de todos os astros juntos,
O grande abismo infinito para cima
A pôr brisas e bondades do alto na caveira tapada de carne que é a minha cara,
Onde só os olhos — outro céu — revelam o grande ser subjectivo.
Não quero! Dêem-me a liberdade!
Quero ser igual a mim mesmo.
Não me capem com ideais!
Não me vistam as camisas-de-forças das maneiras!
Não me façam elogiável ou inteligível!
Não me matem em vida!
Quero saber atirar com essa bola alta à lua
E ouvi-la cair no quintal do lado!
Quero ir deitar-me na relva, pensando "Amanhã vou buscá-la"...
Amanhã vou buscá-la ao quintal ao lado...
Amanhã vou buscá-la ao quintal ao lado...
" Amanhã vou buscá-la ao quintal"
Buscá-la ao quintal
Ao quintal
ao lado...
1 780
Fernando Pessoa
Lentidão dos vapores pelo mar...
Lentidão dos vapores pelo mar...
Tanto que ver, tanto que abarcar.
No eterno presente da pupila
Ilhas ao longe, costas a despontar
Na imensidão oceânica e tranquila.
Mais depressa... Sigamos... Hoje é o real...
O momento embriaga... A alma esquece
Que existe no mover-se... Cais, carnal...
Para os botes no cais quem é que desce?
Que importa? Vamos! Tudo é tão real!
Quantas vidas que ignoro que me ignoram!
Passo por casas, fumo em chaminés
Interiores que adivinho! Choram
Em mim desejos lívidos resvés
Do tédio de ser isto aqui, e ali
Outro não-eu... Sigamos... Outras terras!
Quantas paisagens vivi!
Planícies! mares! serras
Ao longe! Pareceis com tanta curva,
Pinheirais! Igualdade das culturas!
Dias monótonos de chuva...
Noites de lua nova — canto de ruelas escuras
Antros... Dias de sol — de agasalho
De que o olhar abrasa e amodorrado
Mal tem espaço para desejar...
Campos cheios de vultos em trabalho
À sombra de um carvalho ali isolado
— Ah e eu passo! — um mendigo a descansar.
O longe! O além! O outro! A rota! Ir!
Ir absolutamente! ir entregadamente
Ir sem mais consciência de sentir
Que tem um suicida na corrente
Que passa a dor da morte na água a rir.
Sonho-desolação!
Ó meu desejo e tédio das viagens,
Cansado anseio do meu coração —
Cidades, brumas, margens
De rios desejadas para olhar...
Costa triste, ermo mar
Barulhando segredos,
Negrume cortiçado dos rochedos
D'onde pulsa chiando a espuma na água —
— Frio pela consciência dos meus nervos —
De não estar eu a ver-vos, ódio-mágoa!
Ó Tédio! só pensar estar a ver-vos...
Gozo gloriosamente estéril e oco
De encher de memórias de cidades,
De campos fugitivos, feitos pouco
Na fuga do comboio — sociedades
Só pensadas de velha bancarrota
Surpresas no olhar sobre colinas,
Rios sob pontes, águas instantâneas
Grandes cidades através neblinas
Fábricas — fumo e fragor — sonhos insónias...
Mares súbitos, através carruagens
Vistos por meu olhar sempre cansado
Tudo isto cansa, só de imaginado
Tenho em minha alma o tédio das viagens
Que quero eu ser? Eu que desejo querer?
Feche eu os olhos, e o comboio seja
Apenas um estremecimento a [encher?]
Meu corpo inerte, meu cérebro que nada deseja
E já não quer saber o que é viver...
Minuto exterior pulsando em mim
Minuciosamente, entreondulando
Numa oscilada indecisão sem fim
Meu corpo inerte... Sigo, recostando
Minha cabeça no vidro que me treme
De encontro à consciência o meu ser todo;
Para quê viajar? O tédio vai ao leme
De cada meu angustiado modo.
Por entre árvores — fumo...
Ó domésticos (...) escondidos!
Ó tédio... Ó dor... O vago é o meu rumo.
Viajo só pelos meus sentidos
Dói-me a monotonia dessa viagem...
Peso-me... Entreolho sem me levantar
Estações (...) ... [Campolides?]... Reagem
Inutilmente em mim desejos de gozar...
Tanto que ver, tanto que abarcar.
No eterno presente da pupila
Ilhas ao longe, costas a despontar
Na imensidão oceânica e tranquila.
Mais depressa... Sigamos... Hoje é o real...
O momento embriaga... A alma esquece
Que existe no mover-se... Cais, carnal...
Para os botes no cais quem é que desce?
Que importa? Vamos! Tudo é tão real!
Quantas vidas que ignoro que me ignoram!
Passo por casas, fumo em chaminés
Interiores que adivinho! Choram
Em mim desejos lívidos resvés
Do tédio de ser isto aqui, e ali
Outro não-eu... Sigamos... Outras terras!
Quantas paisagens vivi!
Planícies! mares! serras
Ao longe! Pareceis com tanta curva,
Pinheirais! Igualdade das culturas!
Dias monótonos de chuva...
Noites de lua nova — canto de ruelas escuras
Antros... Dias de sol — de agasalho
De que o olhar abrasa e amodorrado
Mal tem espaço para desejar...
Campos cheios de vultos em trabalho
À sombra de um carvalho ali isolado
— Ah e eu passo! — um mendigo a descansar.
O longe! O além! O outro! A rota! Ir!
Ir absolutamente! ir entregadamente
Ir sem mais consciência de sentir
Que tem um suicida na corrente
Que passa a dor da morte na água a rir.
Sonho-desolação!
Ó meu desejo e tédio das viagens,
Cansado anseio do meu coração —
Cidades, brumas, margens
De rios desejadas para olhar...
Costa triste, ermo mar
Barulhando segredos,
Negrume cortiçado dos rochedos
D'onde pulsa chiando a espuma na água —
— Frio pela consciência dos meus nervos —
De não estar eu a ver-vos, ódio-mágoa!
Ó Tédio! só pensar estar a ver-vos...
Gozo gloriosamente estéril e oco
De encher de memórias de cidades,
De campos fugitivos, feitos pouco
Na fuga do comboio — sociedades
Só pensadas de velha bancarrota
Surpresas no olhar sobre colinas,
Rios sob pontes, águas instantâneas
Grandes cidades através neblinas
Fábricas — fumo e fragor — sonhos insónias...
Mares súbitos, através carruagens
Vistos por meu olhar sempre cansado
Tudo isto cansa, só de imaginado
Tenho em minha alma o tédio das viagens
Que quero eu ser? Eu que desejo querer?
Feche eu os olhos, e o comboio seja
Apenas um estremecimento a [encher?]
Meu corpo inerte, meu cérebro que nada deseja
E já não quer saber o que é viver...
Minuto exterior pulsando em mim
Minuciosamente, entreondulando
Numa oscilada indecisão sem fim
Meu corpo inerte... Sigo, recostando
Minha cabeça no vidro que me treme
De encontro à consciência o meu ser todo;
Para quê viajar? O tédio vai ao leme
De cada meu angustiado modo.
Por entre árvores — fumo...
Ó domésticos (...) escondidos!
Ó tédio... Ó dor... O vago é o meu rumo.
Viajo só pelos meus sentidos
Dói-me a monotonia dessa viagem...
Peso-me... Entreolho sem me levantar
Estações (...) ... [Campolides?]... Reagem
Inutilmente em mim desejos de gozar...
1 424
Fernando Pessoa
Deixa passar o vento
Deixa passar o vento
Sem lhe perguntar nada.
Seu sentido é apenas
Ser o vento que passa…
Consegui que desta hora
O sacrifical fumo
Subisse até ao Olimpo.
E escrevi estes versos
Pra que os deuses voltassem.
Sem lhe perguntar nada.
Seu sentido é apenas
Ser o vento que passa…
Consegui que desta hora
O sacrifical fumo
Subisse até ao Olimpo.
E escrevi estes versos
Pra que os deuses voltassem.
1 748
Fernando Pessoa
Ó pastora, ó pastorinha,
Ó pastora, ó pastorinha,
Que tens ovelhas e riso,
Teu riso ecoa no vale
E nada mais é preciso.
Que tens ovelhas e riso,
Teu riso ecoa no vale
E nada mais é preciso.
1 939
Fernando Pessoa
Elfos ou gnomos tocam
Elfos ou gnomos tocam?...
Roçam nos pinheirais
Sombras e bafos leves
De ritmos musicais...
Ondulam como em voltas
De estradas não sei onde,
Ou como alguém que entre árvores
Ora se mostra ou esconde...
Forma longínqua e incerta
Do que eu nunca terei...
Mal ouço e quase choro...
Porque choro não sei...
Tão ténue melodia
Que mal sei se ela existe
Ou se é só o crepúsculo,
Os pinhais e eu estar triste...
Mas cessa, como uma brisa,
Esquece a forma aos seus ais,
E agora não há mais música
Do que a dos pinheirais...
Roçam nos pinheirais
Sombras e bafos leves
De ritmos musicais...
Ondulam como em voltas
De estradas não sei onde,
Ou como alguém que entre árvores
Ora se mostra ou esconde...
Forma longínqua e incerta
Do que eu nunca terei...
Mal ouço e quase choro...
Porque choro não sei...
Tão ténue melodia
Que mal sei se ela existe
Ou se é só o crepúsculo,
Os pinhais e eu estar triste...
Mas cessa, como uma brisa,
Esquece a forma aos seus ais,
E agora não há mais música
Do que a dos pinheirais...
1 717
Fernando Pessoa
Sopra de mais o vento
Sopra de mais o vento
Para eu poder descansar...
Há no meu pensamento
Qualquer coisa que vai parar...
Talvez essa coisa da alma
Que acha real a vida...
Talvez esta coisa calma
Que me faz a alma vivida...
Sopra um vento excessivo...
Tenho medo de pensar...
O meu mistério eu avivo
Se me perco a meditar.
Vento que passa e esquece,
Poeira que se ergue e cai...
Ai de mim se eu pudesse
Saber o que em mim vai!
Para eu poder descansar...
Há no meu pensamento
Qualquer coisa que vai parar...
Talvez essa coisa da alma
Que acha real a vida...
Talvez esta coisa calma
Que me faz a alma vivida...
Sopra um vento excessivo...
Tenho medo de pensar...
O meu mistério eu avivo
Se me perco a meditar.
Vento que passa e esquece,
Poeira que se ergue e cai...
Ai de mim se eu pudesse
Saber o que em mim vai!
1 932
Fernando Pessoa
Vai redonda e alta
Vai redonda e alta
A lua. Que dor
É em mim um amor?...
Não sei que me falta...
Não sei o que quero.
Nem posso sonhá-lo...
Como o luar é ralo
No chão vago e austero!...
Ponho-me a sorrir
P'ra a ideia de mim...
E tão triste, assim
Como quem está a ouvir
Uma voz que o chama
Mas não sabe d'onde
(Voz que em si se esconde)
E Só a ela ama...
E tudo isto é o luar
E a minha dor
Tornado exterior
Ao meu meditar...
Que desassossego!
Que inquieta ilusão!
E esta sensação
Oca, de ser cego
No meu pensamento,
Na rainha vontade...
Ah, a suavidade
Do luar sem tormento
Batendo na alma
De quem só sentisse
O luar, e existisse
Só p'ra a sua calma.
A lua. Que dor
É em mim um amor?...
Não sei que me falta...
Não sei o que quero.
Nem posso sonhá-lo...
Como o luar é ralo
No chão vago e austero!...
Ponho-me a sorrir
P'ra a ideia de mim...
E tão triste, assim
Como quem está a ouvir
Uma voz que o chama
Mas não sabe d'onde
(Voz que em si se esconde)
E Só a ela ama...
E tudo isto é o luar
E a minha dor
Tornado exterior
Ao meu meditar...
Que desassossego!
Que inquieta ilusão!
E esta sensação
Oca, de ser cego
No meu pensamento,
Na rainha vontade...
Ah, a suavidade
Do luar sem tormento
Batendo na alma
De quem só sentisse
O luar, e existisse
Só p'ra a sua calma.
1 393
Fernando Pessoa
O Íbis, ave do Egipto,
O Íbis, ave do Egipto,
Pousa sempre sobre um pé
(O que é
Esquisito).
É uma ave sossegada
Porque assim não anda nada.
Uma cegonha parece
Porque é uma cegonha.
Sonha
E esquece —
Propriedade notável
De toda ave aviável.
Quando vejo esta Lisboa,
Digo sempre, Ah quem me dera
(E essa era
Boa)
Ser um íbis esquisito,
Ou pelo menos estar no Egipto.
Pousa sempre sobre um pé
(O que é
Esquisito).
É uma ave sossegada
Porque assim não anda nada.
Uma cegonha parece
Porque é uma cegonha.
Sonha
E esquece —
Propriedade notável
De toda ave aviável.
Quando vejo esta Lisboa,
Digo sempre, Ah quem me dera
(E essa era
Boa)
Ser um íbis esquisito,
Ou pelo menos estar no Egipto.
1 420
Fernando Pessoa
Um verso repete
Um verso repete
Uma brisa fresca,
O verão nas ervas,
E vazio sofre ao sol
O átrio abandonado.
Ou, no inverno, ao longe
Os cimos de neve,
À lareira toadas
Dos contos herdados,
E um verso a dizê-lo.
Os deuses concedem
Poucos mais prazeres
Que estes, que são nada.
Mas também concedem
Não querermos outros.
Uma brisa fresca,
O verão nas ervas,
E vazio sofre ao sol
O átrio abandonado.
Ou, no inverno, ao longe
Os cimos de neve,
À lareira toadas
Dos contos herdados,
E um verso a dizê-lo.
Os deuses concedem
Poucos mais prazeres
Que estes, que são nada.
Mas também concedem
Não querermos outros.
1 572
Fernando Pessoa
Como a noite é longa!
Como a noite é longa!
Toda a noite é assim...
Senta-te, ama, perto
Do leito onde esperto.
Vem pr'ao pé de mim...
Amei tanta coisa...
Hoje nada existe.
Aqui ao pé da cama
Canta-me, minha ama,
Uma canção triste.
Era uma princesa
Que amou... Já não sei...
Como estou esquecido!
Canta-me ao ouvido
E adormecerei...
Que é feito de tudo?
Que fiz eu de mim?
Deixa-me dormir,
Dormir a sorrir
E seja isto o fim.
Toda a noite é assim...
Senta-te, ama, perto
Do leito onde esperto.
Vem pr'ao pé de mim...
Amei tanta coisa...
Hoje nada existe.
Aqui ao pé da cama
Canta-me, minha ama,
Uma canção triste.
Era uma princesa
Que amou... Já não sei...
Como estou esquecido!
Canta-me ao ouvido
E adormecerei...
Que é feito de tudo?
Que fiz eu de mim?
Deixa-me dormir,
Dormir a sorrir
E seja isto o fim.
1 682
Fernando Pessoa
Serena voz imperfeita, eleita
Serena voz imperfeita, eleita
Para falar aos deuses mortos —
A janela que falta ao teu palácio deita
Para o Porto todos os portos.
Faísca da ideia de uma voz soando
Lírios nas mãos das princesas sonhadas
Eu sou a maré de pensar-te, orlando
A Enseada todas as enseadas.
Brumas marinhas esquinas de sonho...
Janelas dando para Tédio os charcos
E eu fito o meu Fim que me olha, tristonho,
Do convés do Barco todos os barcos...
Para falar aos deuses mortos —
A janela que falta ao teu palácio deita
Para o Porto todos os portos.
Faísca da ideia de uma voz soando
Lírios nas mãos das princesas sonhadas
Eu sou a maré de pensar-te, orlando
A Enseada todas as enseadas.
Brumas marinhas esquinas de sonho...
Janelas dando para Tédio os charcos
E eu fito o meu Fim que me olha, tristonho,
Do convés do Barco todos os barcos...
1 359
Fernando Pessoa
Rouxinol que não cantaste,
Rouxinol que não cantaste,
Gaio que não cantarás,
Qual de vós me empresta o canto
Para ver o que ela faz?
Gaio que não cantarás,
Qual de vós me empresta o canto
Para ver o que ela faz?
987
Fernando Pessoa
Ribeirinho, ribeirinho,/Que falas tão devagar,
Ribeirinho, ribeirinho,
Que falas tão devagar,
Ensina-me o teu caminho
De passar sem desejar amar.
Que falas tão devagar,
Ensina-me o teu caminho
De passar sem desejar amar.
1 778
Fernando Pessoa
Nuvem alta, nuvem alta,
Nuvem alta, nuvem alta,
Porque é que tão alta vais?
Se tens o amor que me falta,
Desce um pouco, desce mais.
Porque é que tão alta vais?
Se tens o amor que me falta,
Desce um pouco, desce mais.
1 543
Fernando Pessoa
E quanto sei do Universo é que ele
E quanto sei do Universo é que ele
Está fora de mim.
Está fora de mim.
756
Fernando Pessoa
SONG OF THE DREAM‑SPIRITS TO FANNY
From the beach and from the billow
Rapturously loud,
From the zephyr that doth pillow
All his softness on a cloud;
From the murmur of the river,
From the leaves that rustle ever,
Joyously we come.
We are bright and we are many
As the early drops of dew,
And we come to little Fanny
As the day to you;
From the keenness of the mountain,
From the sparkle of the fountain,
Joyously we come.
From the hill and from the valley,
From the mountain and the vale;
From the evening melancholy
Where all hath a tale;
From the sweetness of the meadow,
From the coolness of the shadow,
Joyously we come.
ln the sadness of the willow,
In the homely nest
We have dwelt and had a pillow
In the poet's breast;
And from all things dimly moving
Human souls to bliss and loving
Joyously we come.
Rapturously loud,
From the zephyr that doth pillow
All his softness on a cloud;
From the murmur of the river,
From the leaves that rustle ever,
Joyously we come.
We are bright and we are many
As the early drops of dew,
And we come to little Fanny
As the day to you;
From the keenness of the mountain,
From the sparkle of the fountain,
Joyously we come.
From the hill and from the valley,
From the mountain and the vale;
From the evening melancholy
Where all hath a tale;
From the sweetness of the meadow,
From the coolness of the shadow,
Joyously we come.
ln the sadness of the willow,
In the homely nest
We have dwelt and had a pillow
In the poet's breast;
And from all things dimly moving
Human souls to bliss and loving
Joyously we come.
1 497