Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Fernando Pessoa
Quando já nada nos resta
Quando já nada nos resta
É que o mudo sol é bom.
O silêncio da floresta
É de muitos sons sem som.
Basta a brisa pra sorriso.
Entardecer é quem esquece.
Dá nas folhas o impreciso,
E mais que o ramo estremece.
Ter tido sperança fala
Como quem conta a cantar.
Quando a floresta se cala
Fica a floresta a falar.
09/08/1932
É que o mudo sol é bom.
O silêncio da floresta
É de muitos sons sem som.
Basta a brisa pra sorriso.
Entardecer é quem esquece.
Dá nas folhas o impreciso,
E mais que o ramo estremece.
Ter tido sperança fala
Como quem conta a cantar.
Quando a floresta se cala
Fica a floresta a falar.
09/08/1932
4 483
Fernando Pessoa
O ponteiro dos segundos
O ponteiro dos segundos
É o exterior de um coração.
Conta a minutos os mundos,
Que os mundos são sensação.
Vejo, como quem não vê
Seu curso em círculo dar
Um sentido aqui ao pé
Do universo todo no ar.
(...)
29/08/1932
É o exterior de um coração.
Conta a minutos os mundos,
Que os mundos são sensação.
Vejo, como quem não vê
Seu curso em círculo dar
Um sentido aqui ao pé
Do universo todo no ar.
(...)
29/08/1932
4 599
Fernando Pessoa
Depois que o som da terra, que é não tê-lo,
Depois que o som da terra, que é não tê-lo,
Passou, nuvem obscura, sobre o vale
E uma brisa afastando meu cabelo
Me diz que fale, ou me diz que cale,
A nova claridade veio, e o sol
Depois, ele mesmo, e tudo era verdade,
Mas quem me deu sentir e a sua prole?
Quem me vendeu nas hastas da vontade?
Nada. Uma nova obliquação da luz,
Interregno factício onde a erva esfria.
E o pensamento inútil se conduz
Até saber que nada vale ou pesa.
E não sei se isto me ensimesma ou alheia,
Nem sei se é alegria ou se é tristeza.
13/09/1932
Passou, nuvem obscura, sobre o vale
E uma brisa afastando meu cabelo
Me diz que fale, ou me diz que cale,
A nova claridade veio, e o sol
Depois, ele mesmo, e tudo era verdade,
Mas quem me deu sentir e a sua prole?
Quem me vendeu nas hastas da vontade?
Nada. Uma nova obliquação da luz,
Interregno factício onde a erva esfria.
E o pensamento inútil se conduz
Até saber que nada vale ou pesa.
E não sei se isto me ensimesma ou alheia,
Nem sei se é alegria ou se é tristeza.
13/09/1932
3 872
Fernando Pessoa
E toda a noite a chuva veio
E toda a noite a chuva veio
E toda a noite não parou,
E toda a noite o meu anseio
No som da chuva triste e cheio
Sem repousar se demorou.
E toda a noite ouvi o vento
Por sobre a chuva irreal soprar
E toda a noite o pensamento
Não me deixou um só momento
Como uma maldição do ar.
E toda a noite não dormida
Ouvi bater meu coração
Na garganta da minha vida.
1932
E toda a noite não parou,
E toda a noite o meu anseio
No som da chuva triste e cheio
Sem repousar se demorou.
E toda a noite ouvi o vento
Por sobre a chuva irreal soprar
E toda a noite o pensamento
Não me deixou um só momento
Como uma maldição do ar.
E toda a noite não dormida
Ouvi bater meu coração
Na garganta da minha vida.
1932
4 495
Fernando Pessoa
E toda a noite a chuva veio
E toda a noite a chuva veio
E toda a noite não parou,
E toda a noite o meu anseio
No som da chuva triste e cheio
Sem repousar se demorou.
E toda a noite ouvi o vento
Por sobre a chuva irreal soprar
E toda a noite o pensamento
Não me deixou um só momento
Como uma maldição do ar.
E toda a noite não dormida
Ouvi bater meu coração
Na garganta da minha vida.
1932
E toda a noite não parou,
E toda a noite o meu anseio
No som da chuva triste e cheio
Sem repousar se demorou.
E toda a noite ouvi o vento
Por sobre a chuva irreal soprar
E toda a noite o pensamento
Não me deixou um só momento
Como uma maldição do ar.
E toda a noite não dormida
Ouvi bater meu coração
Na garganta da minha vida.
1932
4 495
Fernando Pessoa
Há um murmúrio na floresta,
Há um murmúrio na floresta,
Há uma nuvem e não há.
Há uma nuvem e nada resta
Do murmúrio que ainda está
No ar a parecer que há.
É que a saudade faz viver,
E faz ouvir, e ainda ver,
Tudo o que foi e acabará
Antes que tenha de o esquecer
Como a floresta esquece já.
08/03/1931
Há uma nuvem e não há.
Há uma nuvem e nada resta
Do murmúrio que ainda está
No ar a parecer que há.
É que a saudade faz viver,
E faz ouvir, e ainda ver,
Tudo o que foi e acabará
Antes que tenha de o esquecer
Como a floresta esquece já.
08/03/1931
5 017
Fernando Pessoa
Não sei ser triste a valer
Não sei ser triste a valer
Nem ser alegre deveras.
Acreditem: não sei ser.
Serão as almas sinceras
Assim também, sem saber?
Ah, ante a ficção da alma
E a mentira da emoção,
Com que prazer me dá calma
Ver uma flor sem razão
Florir sem ter coração!
Mas enfim não há diferença.
Se a flor flore sem querer,
Sem querer a gente pensa.
O que nela é florescer
Em nós é ter consciência.
Depois, a nós como a ela,
Quando o Fado a faz passar,
Surgem as patas dos deuses
E a ambos nos vêm calcar.
Stá bem, enquanto não vêm
Vamos florir ou pensar.
03/04/1931
Nem ser alegre deveras.
Acreditem: não sei ser.
Serão as almas sinceras
Assim também, sem saber?
Ah, ante a ficção da alma
E a mentira da emoção,
Com que prazer me dá calma
Ver uma flor sem razão
Florir sem ter coração!
Mas enfim não há diferença.
Se a flor flore sem querer,
Sem querer a gente pensa.
O que nela é florescer
Em nós é ter consciência.
Depois, a nós como a ela,
Quando o Fado a faz passar,
Surgem as patas dos deuses
E a ambos nos vêm calcar.
Stá bem, enquanto não vêm
Vamos florir ou pensar.
03/04/1931
4 132
Fernando Pessoa
Desperto sempre antes que raie o dia
Desperto sempre antes que raie o dia
E escrevo com o sono que perdi.
Depois, neste torpor em que a alma é fria,
Aguardo a aurora, que já tantas vi.
Fito-a sem atenção, cinzento verde
Que se azula de galos a cantar.
Que mau é não dormir? A gente perde
O que a morte nos dá pra começar.
Oh, Primavera quietada, aurora,
Ensina ao meu torpor, em que a alma é fria,
O que é que na alma lívida a colora
Com o que vai acontecer no dia.
14/11/1931
E escrevo com o sono que perdi.
Depois, neste torpor em que a alma é fria,
Aguardo a aurora, que já tantas vi.
Fito-a sem atenção, cinzento verde
Que se azula de galos a cantar.
Que mau é não dormir? A gente perde
O que a morte nos dá pra começar.
Oh, Primavera quietada, aurora,
Ensina ao meu torpor, em que a alma é fria,
O que é que na alma lívida a colora
Com o que vai acontecer no dia.
14/11/1931
4 563
Fernando Pessoa
No céu da noite que começa
No céu da noite que começa
Nuvens de um vago negro brando
Numa ramagem pouco espessa
Vão no ocidente tresmalhando.
Aos sonhos que não sei me entrego
Sem nada procurar sentir
E estou em mim como em sossego,
Pra sono falta-me dormir.
Deixei atrás nas horas ralas
Caídas uma outra ilusão,
Não volto atrás a procurá-las,
Já estão formigas onde estão.
27/07/1931
Nuvens de um vago negro brando
Numa ramagem pouco espessa
Vão no ocidente tresmalhando.
Aos sonhos que não sei me entrego
Sem nada procurar sentir
E estou em mim como em sossego,
Pra sono falta-me dormir.
Deixei atrás nas horas ralas
Caídas uma outra ilusão,
Não volto atrás a procurá-las,
Já estão formigas onde estão.
27/07/1931
4 183
Fernando Pessoa
Lá fora onde árvores são
Lá fora onde árvores são
O que se mexe a parar
Não vejo nada senão,
Depois das árvores, o mar.
É azul intensamente
Salpicado de luzir,
E tem na onda indolente
Um suspirar de dormir.
Mas nem durmo eu nem o mar,
Ambos nós, no dia brando,
E ele sossega a avançar
E eu não penso e estou pensando.
14/08/1932
O que se mexe a parar
Não vejo nada senão,
Depois das árvores, o mar.
É azul intensamente
Salpicado de luzir,
E tem na onda indolente
Um suspirar de dormir.
Mas nem durmo eu nem o mar,
Ambos nós, no dia brando,
E ele sossega a avançar
E eu não penso e estou pensando.
14/08/1932
5 452
Fernando Pessoa
Chove. Que fiz eu da vida?
Chove. Que fiz eu da vida?
Fiz o que ela fez de mim...
De pensada, mal vivida...
Triste de quem é assim
Numa angústia sem remédio
Tenho febre na alma, e, ao ser,
Tenho saudade, entre o tédio,
Só do que nunca quis ter...
Quem eu pudera ter sido,
Que é dele? Entre ódios pequenos
De mim, stou de mim partido.
Se ao menos chovesse menos!
23/10/1931
Fiz o que ela fez de mim...
De pensada, mal vivida...
Triste de quem é assim
Numa angústia sem remédio
Tenho febre na alma, e, ao ser,
Tenho saudade, entre o tédio,
Só do que nunca quis ter...
Quem eu pudera ter sido,
Que é dele? Entre ódios pequenos
De mim, stou de mim partido.
Se ao menos chovesse menos!
23/10/1931
5 335
Fernando Pessoa
No fim da chuva e do vento
No fim da chuva e do vento
Voltou ao céu que voltou
A lua; e o luar cinzento
De novo, branco, azulou.
Pela imensa constelação
Do céu dobrado e profundo,
Os meus pensamentos vão
Buscando sentir o mundo.
Mas perdeu-se como uma onda
E o sentimento não sonda
O que o pensamento vale.
Que importa? Tantos pensaram
Como penso e pensarei.
02/10/1928
Voltou ao céu que voltou
A lua; e o luar cinzento
De novo, branco, azulou.
Pela imensa constelação
Do céu dobrado e profundo,
Os meus pensamentos vão
Buscando sentir o mundo.
Mas perdeu-se como uma onda
E o sentimento não sonda
O que o pensamento vale.
Que importa? Tantos pensaram
Como penso e pensarei.
02/10/1928
4 151
Fernando Pessoa
No fim da chuva e do vento
No fim da chuva e do vento
Voltou ao céu que voltou
A lua; e o luar cinzento
De novo, branco, azulou.
Pela imensa constelação
Do céu dobrado e profundo,
Os meus pensamentos vão
Buscando sentir o mundo.
Mas perdeu-se como uma onda
E o sentimento não sonda
O que o pensamento vale.
Que importa? Tantos pensaram
Como penso e pensarei.
02/10/1928
Voltou ao céu que voltou
A lua; e o luar cinzento
De novo, branco, azulou.
Pela imensa constelação
Do céu dobrado e profundo,
Os meus pensamentos vão
Buscando sentir o mundo.
Mas perdeu-se como uma onda
E o sentimento não sonda
O que o pensamento vale.
Que importa? Tantos pensaram
Como penso e pensarei.
02/10/1928
4 151
Fernando Pessoa
No fim da chuva e do vento
No fim da chuva e do vento
Voltou ao céu que voltou
A lua; e o luar cinzento
De novo, branco, azulou.
Pela imensa constelação
Do céu dobrado e profundo,
Os meus pensamentos vão
Buscando sentir o mundo.
Mas perdeu-se como uma onda
E o sentimento não sonda
O que o pensamento vale.
Que importa? Tantos pensaram
Como penso e pensarei.
02/10/1928
Voltou ao céu que voltou
A lua; e o luar cinzento
De novo, branco, azulou.
Pela imensa constelação
Do céu dobrado e profundo,
Os meus pensamentos vão
Buscando sentir o mundo.
Mas perdeu-se como uma onda
E o sentimento não sonda
O que o pensamento vale.
Que importa? Tantos pensaram
Como penso e pensarei.
02/10/1928
4 151
Fernando Pessoa
Entre o luar e o arvoredo,
Entre o luar e o arvoredo,
Entre o desejo e não pensar
Meu ser secreto vai a medo
Entre o arvoredo e o luar.
Tudo é longínquo, tudo é enredo,
Tudo é não ter nem encontrar.
Entre o que a brisa traz e a hora,
Entre o que foi e o que a alma faz,
Meu ser oculto já não chora
Entre a hora e o que a brisa traz.
Tudo não foi, tudo se ignora.
Tudo em silêncio se desfaz.
24/08/1930
Entre o desejo e não pensar
Meu ser secreto vai a medo
Entre o arvoredo e o luar.
Tudo é longínquo, tudo é enredo,
Tudo é não ter nem encontrar.
Entre o que a brisa traz e a hora,
Entre o que foi e o que a alma faz,
Meu ser oculto já não chora
Entre a hora e o que a brisa traz.
Tudo não foi, tudo se ignora.
Tudo em silêncio se desfaz.
24/08/1930
4 416
Fernando Pessoa
Entre o luar e o arvoredo,
Entre o luar e o arvoredo,
Entre o desejo e não pensar
Meu ser secreto vai a medo
Entre o arvoredo e o luar.
Tudo é longínquo, tudo é enredo,
Tudo é não ter nem encontrar.
Entre o que a brisa traz e a hora,
Entre o que foi e o que a alma faz,
Meu ser oculto já não chora
Entre a hora e o que a brisa traz.
Tudo não foi, tudo se ignora.
Tudo em silêncio se desfaz.
24/08/1930
Entre o desejo e não pensar
Meu ser secreto vai a medo
Entre o arvoredo e o luar.
Tudo é longínquo, tudo é enredo,
Tudo é não ter nem encontrar.
Entre o que a brisa traz e a hora,
Entre o que foi e o que a alma faz,
Meu ser oculto já não chora
Entre a hora e o que a brisa traz.
Tudo não foi, tudo se ignora.
Tudo em silêncio se desfaz.
24/08/1930
4 416
Fernando Pessoa
Deixa-me ouvir o que não ouço...
Deixa-me ouvir o que não ouço...
Não é a brisa ou o arvoredo;
É outra coisa intercalada...
É qualquer coisa que não posso
Ouvir senão em segredo,
E que talvez não seja nada...
Deixa-me ouvir... Não fales alto!
Um momento!... Depois o amor,
Se quiseres... Agora cala!
Ténue, longínquo sobressalto
Que substitui a dor,
Que inquieta e embala...
O quê? Só a brisa entre a folhagem?
Talvez... Só um canto pressentido?
Não sei, mas custa amar depois...
Sim, torna a mim, e a paisagem
E a verdadeira brisa, ruído...
Que pena sermos dois!
Meu amor, somos dois.
Vejo-te, somos dois...
12/08/1930
Não é a brisa ou o arvoredo;
É outra coisa intercalada...
É qualquer coisa que não posso
Ouvir senão em segredo,
E que talvez não seja nada...
Deixa-me ouvir... Não fales alto!
Um momento!... Depois o amor,
Se quiseres... Agora cala!
Ténue, longínquo sobressalto
Que substitui a dor,
Que inquieta e embala...
O quê? Só a brisa entre a folhagem?
Talvez... Só um canto pressentido?
Não sei, mas custa amar depois...
Sim, torna a mim, e a paisagem
E a verdadeira brisa, ruído...
Que pena sermos dois!
Meu amor, somos dois.
Vejo-te, somos dois...
12/08/1930
4 717
Fernando Pessoa
Nas grandes horas em que a insónia avulta
Nas grandes horas em que a insónia avulta
Como um novo universo doloroso,
E a mente é clara com um ser que insulta
O uso confuso com que o dia é ocioso,
Cismo, embebido em sombras de repouso
Onde habitam fantasmas e a alma é oculta,
Em quanto errei e quanto ou dor ou gozo
Me farão nada, como frase estulta.
Cismo, cheio de nada, e a noite é tudo.
Meu coração, que fala estando mudo,
Repete seu monótono torpor
Na sombra, no delírio da clareza,
E não há Deus, nem ser, nem Natureza
E a própria mágoa melhor fora dor.
31/08/1929
Como um novo universo doloroso,
E a mente é clara com um ser que insulta
O uso confuso com que o dia é ocioso,
Cismo, embebido em sombras de repouso
Onde habitam fantasmas e a alma é oculta,
Em quanto errei e quanto ou dor ou gozo
Me farão nada, como frase estulta.
Cismo, cheio de nada, e a noite é tudo.
Meu coração, que fala estando mudo,
Repete seu monótono torpor
Na sombra, no delírio da clareza,
E não há Deus, nem ser, nem Natureza
E a própria mágoa melhor fora dor.
31/08/1929
3 723
Fernando Pessoa
Na margem verde da estrada
Na margem verde da estrada
Os malmequeres são meus.
Já trago a alma cansada –
Não é disso... é de Deus.
Se Deus me quisesse dá-la
Havia de achar maneira...
A estrada de cá da vala
Tem malmequeres à beira.
Se os quero, colho-os, e tenho
Cuidado com os partir.
Cada um que vejo e apanho
Dá um estalinho ao sair.
São malmequeres aos molhos,
Iguaizinhos para ver.
E nem põe neles os olhos,
Dá a mão pra os receber.
Não é esmola que envergonhe,
Nem coisa dada sem mais.
É pra que a menina os ponha
Onde o peito faz sinais.
Tirei-os do campo ao lado
Para a menina os trazer...
E nem me mostra o agrado
De um olhar para me ver...
É assim a minha sina.
Tirei-os de onde iam bem,
Só para os dar à menina –
E agradeceu-me a ninguém.
31/08/1930
Os malmequeres são meus.
Já trago a alma cansada –
Não é disso... é de Deus.
Se Deus me quisesse dá-la
Havia de achar maneira...
A estrada de cá da vala
Tem malmequeres à beira.
Se os quero, colho-os, e tenho
Cuidado com os partir.
Cada um que vejo e apanho
Dá um estalinho ao sair.
São malmequeres aos molhos,
Iguaizinhos para ver.
E nem põe neles os olhos,
Dá a mão pra os receber.
Não é esmola que envergonhe,
Nem coisa dada sem mais.
É pra que a menina os ponha
Onde o peito faz sinais.
Tirei-os do campo ao lado
Para a menina os trazer...
E nem me mostra o agrado
De um olhar para me ver...
É assim a minha sina.
Tirei-os de onde iam bem,
Só para os dar à menina –
E agradeceu-me a ninguém.
31/08/1930
4 271
Fernando Pessoa
Leve no cimo das ervas
Leve no cimo das ervas
O dedo do vento roça...
Elas dizem-me que sim...
Mas eu já não sei de mim
Nem do que queira ou que possa.
E o alto frio das ervas
Fica no ar a tremer...
Parece que me enganaram
E que os ventos me levaram
O com que me convencer.
Mas no relvado das ervas
Nem bole agora uma só.
Porque pus eu uma esperança
Naquela inútil mudança
De que nada ali ficou?
Não: o sossego das ervas
Não é o de há pouco já.
Que inda a lembrança do vento
Me as move no pensamento
E eu tenho porque não há.
13/10/1930
O dedo do vento roça...
Elas dizem-me que sim...
Mas eu já não sei de mim
Nem do que queira ou que possa.
E o alto frio das ervas
Fica no ar a tremer...
Parece que me enganaram
E que os ventos me levaram
O com que me convencer.
Mas no relvado das ervas
Nem bole agora uma só.
Porque pus eu uma esperança
Naquela inútil mudança
De que nada ali ficou?
Não: o sossego das ervas
Não é o de há pouco já.
Que inda a lembrança do vento
Me as move no pensamento
E eu tenho porque não há.
13/10/1930
4 229
Fernando Pessoa
Tão vago é o vento que parece
Tão vago é o vento que parece
Que as folhas fremem só por vida.
Dorme um calar em que se esquece
Em que é que o campo nos convida?
Não sei. Anónimo de mim,
Não posso erguer uma intenção
Do saco em que me sinto assim,
Caído nesse verde chão.
Com a alma feita em animal,
A quem o sol é um lombo quente.
Aceito como a brisa real
A sensação de ser quem sente.
E os olhos que me pesam baixo
Olham pela alma o campo e a estrada.
No chão um fósforo é o que acho.
Nas sensações não acho nada.
31/08/1930
Que as folhas fremem só por vida.
Dorme um calar em que se esquece
Em que é que o campo nos convida?
Não sei. Anónimo de mim,
Não posso erguer uma intenção
Do saco em que me sinto assim,
Caído nesse verde chão.
Com a alma feita em animal,
A quem o sol é um lombo quente.
Aceito como a brisa real
A sensação de ser quem sente.
E os olhos que me pesam baixo
Olham pela alma o campo e a estrada.
No chão um fósforo é o que acho.
Nas sensações não acho nada.
31/08/1930
3 888
Fernando Pessoa
Tão vago é o vento que parece
Tão vago é o vento que parece
Que as folhas fremem só por vida.
Dorme um calar em que se esquece
Em que é que o campo nos convida?
Não sei. Anónimo de mim,
Não posso erguer uma intenção
Do saco em que me sinto assim,
Caído nesse verde chão.
Com a alma feita em animal,
A quem o sol é um lombo quente.
Aceito como a brisa real
A sensação de ser quem sente.
E os olhos que me pesam baixo
Olham pela alma o campo e a estrada.
No chão um fósforo é o que acho.
Nas sensações não acho nada.
31/08/1930
Que as folhas fremem só por vida.
Dorme um calar em que se esquece
Em que é que o campo nos convida?
Não sei. Anónimo de mim,
Não posso erguer uma intenção
Do saco em que me sinto assim,
Caído nesse verde chão.
Com a alma feita em animal,
A quem o sol é um lombo quente.
Aceito como a brisa real
A sensação de ser quem sente.
E os olhos que me pesam baixo
Olham pela alma o campo e a estrada.
No chão um fósforo é o que acho.
Nas sensações não acho nada.
31/08/1930
3 888
Fernando Pessoa
Na noite que me desconhece
Na noite que me desconhece
O luar vago, transparece
Da lua ainda por haver.
Sonho. Não sei o que me esquece,
Nem sei o que prefiro ser.
Hora intermédia entre o que passa,
Que névoa incógnita esvoaça
Entre o que sinto e o que sou?
A brisa alheiamente abraça.
Durmo. Não sei quem é que estou.
Dói-me tudo por não ser nada.
Da grande noite embainhada
Ninguém tira a conclusão.
Coração, queres? Tudo enfada
Antes só sintas, coração.
18/05/1930
O luar vago, transparece
Da lua ainda por haver.
Sonho. Não sei o que me esquece,
Nem sei o que prefiro ser.
Hora intermédia entre o que passa,
Que névoa incógnita esvoaça
Entre o que sinto e o que sou?
A brisa alheiamente abraça.
Durmo. Não sei quem é que estou.
Dói-me tudo por não ser nada.
Da grande noite embainhada
Ninguém tira a conclusão.
Coração, queres? Tudo enfada
Antes só sintas, coração.
18/05/1930
4 202
Fernando Pessoa
Gnomos do luar que faz selvas
Gnomos do luar que faz selvas
As florestas sossegadas,
Que sois silêncios nas relvas,
E em almas abandonadas
Fazeis sombras enganadas,
Que sempre se a gente olha
Acabastes de passar
E só um tremor de folha
Que o vento pode explicar
Fala de vós sem falar,
Levai-me no vosso rastro,
Que em minha alma quero ser
Como vosso corpo, um astro
Que só brilha quando houver
Quem o suponha sem ver.
Ah, sentir tudo de todos os feitios!
Não ter alma, não ter
Só diversos modos –
Seja eu leitura variada
Para mim mesmo!
Assim eu que canto ou choro
Quero velar-me e partir.
Lembrando o que não memoro,
Alguém me saiba sentir,
Mas ninguém me definir.
26/08/1930
As florestas sossegadas,
Que sois silêncios nas relvas,
E em almas abandonadas
Fazeis sombras enganadas,
Que sempre se a gente olha
Acabastes de passar
E só um tremor de folha
Que o vento pode explicar
Fala de vós sem falar,
Levai-me no vosso rastro,
Que em minha alma quero ser
Como vosso corpo, um astro
Que só brilha quando houver
Quem o suponha sem ver.
Ah, sentir tudo de todos os feitios!
Não ter alma, não ter
Só diversos modos –
Seja eu leitura variada
Para mim mesmo!
Assim eu que canto ou choro
Quero velar-me e partir.
Lembrando o que não memoro,
Alguém me saiba sentir,
Mas ninguém me definir.
26/08/1930
3 647