Poemas neste tema
Natureza e Elementos
António Ramos Rosa
Árvores
O que tentam dizer as árvores
no seu silêncio lento e nos seus vagos rumores,
o sentido que têm no lugar onde estão,
a reverência, a ressonância, a transparência
e os acentos claros e sombrios de uma frase aérea.
E as sombras e as folhas são a inocência de uma ideia
que entre a água e o espaço se tornou uma leve integridade.
Sob o mágico sopro da luz são barcos transparentes.
Não sei se é o ar se é o sangue que brota dos seus ramos.
Ouço a espuma finíssima das suas gargantas verdes.
Não estou, nunca estarei longe desta água pura
e destas lâmpadas antigas de obscuras ilhas.
Que pura serenidade da memória, que horizontes
em torno do poço silencioso! É um canto num sono
e o vento e a luz são o hálito de uma criança
que sobre um ramo de árvore abraça o mundo.
no seu silêncio lento e nos seus vagos rumores,
o sentido que têm no lugar onde estão,
a reverência, a ressonância, a transparência
e os acentos claros e sombrios de uma frase aérea.
E as sombras e as folhas são a inocência de uma ideia
que entre a água e o espaço se tornou uma leve integridade.
Sob o mágico sopro da luz são barcos transparentes.
Não sei se é o ar se é o sangue que brota dos seus ramos.
Ouço a espuma finíssima das suas gargantas verdes.
Não estou, nunca estarei longe desta água pura
e destas lâmpadas antigas de obscuras ilhas.
Que pura serenidade da memória, que horizontes
em torno do poço silencioso! É um canto num sono
e o vento e a luz são o hálito de uma criança
que sobre um ramo de árvore abraça o mundo.
1 711
1
António Ramos Rosa
Aliança
Na folhagem de um quarto um ovo azul murmura
a aliança da noite com as mãos
nas tuas veias acende-se de uma só vez a seda
és um bosque inerte e vivo no meu abraço
um só perfume de água nos cabelos
Sossego a tua nuca uma haste desliza no tapete
o teu dorso completa-se à volta do teu colo
e eu oiço-te sobre os olhos oiço-te sobre os ombros
a vertente que desce ao silêncio de um lago
a sombra de um barco no último muro da cidade
Nas tuas faces vejo duas linhas
uma de fogo outra de cinza
um verde cimo de música negro e congelado
um nome suave de chama e de sussurro
Ó longa meia-noite em que oscilo nó fluido
equilíbrio tão alto sobre um rosto tão límpido!
a aliança da noite com as mãos
nas tuas veias acende-se de uma só vez a seda
és um bosque inerte e vivo no meu abraço
um só perfume de água nos cabelos
Sossego a tua nuca uma haste desliza no tapete
o teu dorso completa-se à volta do teu colo
e eu oiço-te sobre os olhos oiço-te sobre os ombros
a vertente que desce ao silêncio de um lago
a sombra de um barco no último muro da cidade
Nas tuas faces vejo duas linhas
uma de fogo outra de cinza
um verde cimo de música negro e congelado
um nome suave de chama e de sussurro
Ó longa meia-noite em que oscilo nó fluido
equilíbrio tão alto sobre um rosto tão límpido!
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1
Nuno Júdice
Um pedaço de céu
Tu, que eu amo nesta manhã
que trouxe a tua imagem com os ruídos
da rua, vai até à janela,
levanta as persianas do quarto, e olha
o céu como se ele fosse
um espelho. Diz-me, então,
o que vês? As nuvens que passam
pelos teus olhos? Um azul cuja
sombra te desenha o contorno
das pálpebras? A mancha rosa do nascente
que o horizonte roubou ao
teu rosto? Mas não te demores. Um espelho
não se pode olhar muito tempo; e
o céu da manhã é dos que mudam com
as variações da alma. Pode ser que o céu
roube um sorriso nos teus lábios: e
mo traga, para que eu o ponha neste poema,
onde te vejo, um instante, enquanto
a manhã não acaba.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 34 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
que trouxe a tua imagem com os ruídos
da rua, vai até à janela,
levanta as persianas do quarto, e olha
o céu como se ele fosse
um espelho. Diz-me, então,
o que vês? As nuvens que passam
pelos teus olhos? Um azul cuja
sombra te desenha o contorno
das pálpebras? A mancha rosa do nascente
que o horizonte roubou ao
teu rosto? Mas não te demores. Um espelho
não se pode olhar muito tempo; e
o céu da manhã é dos que mudam com
as variações da alma. Pode ser que o céu
roube um sorriso nos teus lábios: e
mo traga, para que eu o ponha neste poema,
onde te vejo, um instante, enquanto
a manhã não acaba.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 34 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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Nuno Júdice
Um pedaço de céu
Tu, que eu amo nesta manhã
que trouxe a tua imagem com os ruídos
da rua, vai até à janela,
levanta as persianas do quarto, e olha
o céu como se ele fosse
um espelho. Diz-me, então,
o que vês? As nuvens que passam
pelos teus olhos? Um azul cuja
sombra te desenha o contorno
das pálpebras? A mancha rosa do nascente
que o horizonte roubou ao
teu rosto? Mas não te demores. Um espelho
não se pode olhar muito tempo; e
o céu da manhã é dos que mudam com
as variações da alma. Pode ser que o céu
roube um sorriso nos teus lábios: e
mo traga, para que eu o ponha neste poema,
onde te vejo, um instante, enquanto
a manhã não acaba.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 34 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
que trouxe a tua imagem com os ruídos
da rua, vai até à janela,
levanta as persianas do quarto, e olha
o céu como se ele fosse
um espelho. Diz-me, então,
o que vês? As nuvens que passam
pelos teus olhos? Um azul cuja
sombra te desenha o contorno
das pálpebras? A mancha rosa do nascente
que o horizonte roubou ao
teu rosto? Mas não te demores. Um espelho
não se pode olhar muito tempo; e
o céu da manhã é dos que mudam com
as variações da alma. Pode ser que o céu
roube um sorriso nos teus lábios: e
mo traga, para que eu o ponha neste poema,
onde te vejo, um instante, enquanto
a manhã não acaba.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 34 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 988
1
Edmir Domingues
Assim a vida
A suave luz do sol que cedo aporta
nos caminhos do mar, quando chegada,
dispersa sobre o tudo e sobre o nada
esse clarão que acorda a face morta.
A sombra destilada na retorta
do Mago mau, ao mal predestinada,
concebe a grande noite, que é culpada
dos demônios uivando à nossa porta.
Assim a vida. As vezes noite negra,
as vezes dia branco, que se integra
aos aromas da terra, ao cheiro do ar.
nos caminhos do mar, quando chegada,
dispersa sobre o tudo e sobre o nada
esse clarão que acorda a face morta.
A sombra destilada na retorta
do Mago mau, ao mal predestinada,
concebe a grande noite, que é culpada
dos demônios uivando à nossa porta.
Assim a vida. As vezes noite negra,
as vezes dia branco, que se integra
aos aromas da terra, ao cheiro do ar.
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Edmir Domingues
Assim a vida
A suave luz do sol que cedo aporta
nos caminhos do mar, quando chegada,
dispersa sobre o tudo e sobre o nada
esse clarão que acorda a face morta.
A sombra destilada na retorta
do Mago mau, ao mal predestinada,
concebe a grande noite, que é culpada
dos demônios uivando à nossa porta.
Assim a vida. As vezes noite negra,
as vezes dia branco, que se integra
aos aromas da terra, ao cheiro do ar.
nos caminhos do mar, quando chegada,
dispersa sobre o tudo e sobre o nada
esse clarão que acorda a face morta.
A sombra destilada na retorta
do Mago mau, ao mal predestinada,
concebe a grande noite, que é culpada
dos demônios uivando à nossa porta.
Assim a vida. As vezes noite negra,
as vezes dia branco, que se integra
aos aromas da terra, ao cheiro do ar.
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Edmir Domingues
Assim a vida
A suave luz do sol que cedo aporta
nos caminhos do mar, quando chegada,
dispersa sobre o tudo e sobre o nada
esse clarão que acorda a face morta.
A sombra destilada na retorta
do Mago mau, ao mal predestinada,
concebe a grande noite, que é culpada
dos demônios uivando à nossa porta.
Assim a vida. As vezes noite negra,
as vezes dia branco, que se integra
aos aromas da terra, ao cheiro do ar.
nos caminhos do mar, quando chegada,
dispersa sobre o tudo e sobre o nada
esse clarão que acorda a face morta.
A sombra destilada na retorta
do Mago mau, ao mal predestinada,
concebe a grande noite, que é culpada
dos demônios uivando à nossa porta.
Assim a vida. As vezes noite negra,
as vezes dia branco, que se integra
aos aromas da terra, ao cheiro do ar.
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Edmir Domingues
Soneto das estrelas sem conta
E eu galguei o alcantil tendo-a em meus braços,
vestida não de sol, porém de lua,
e havia cavalgadas nos espaços,
seu suave suor, e estava nua.
Houve então cavalgadas sobre a terra,
o espanto do luar que tudo via,
e a grande paz que habita nessa guerra
de corpos enlaçados em porfia.
Veio depois o estranho cataclismo
desse grande vazio de depois.
À margem desse negro mar, o abismo
do mar, ao pé da soma de nós dois.
A Mão do Orvalho então, sabe fazê-lo,
pôs estrelas sem conta em seu cabelo.
vestida não de sol, porém de lua,
e havia cavalgadas nos espaços,
seu suave suor, e estava nua.
Houve então cavalgadas sobre a terra,
o espanto do luar que tudo via,
e a grande paz que habita nessa guerra
de corpos enlaçados em porfia.
Veio depois o estranho cataclismo
desse grande vazio de depois.
À margem desse negro mar, o abismo
do mar, ao pé da soma de nós dois.
A Mão do Orvalho então, sabe fazê-lo,
pôs estrelas sem conta em seu cabelo.
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1
Nuno Júdice
Solidão
Um mar rodeia o mundo de quem está só. É
o mar sem ondas do fim do mundo. A sua água
é negra; o seu horizonte não existe. Desenho
os contornos desse mar com um lápis de
névoa. Apago, sobre a sua superfície, todos
os pássaros. Vejo-os abrigarem-se da borracha
nas grutas do litoral: as aves assustadas da
solidão. «É um mundo impenetrável», diz
quem está só. Senta-se na margem, olhando
o seu caso. Nada mais existe para além dele, até
esse branco amanhecer que o obriga a lembrar-se
que está vivo. Então, espera que a maré suba,
nesse mar sem marés, para tomar uma decisão.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 25 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
o mar sem ondas do fim do mundo. A sua água
é negra; o seu horizonte não existe. Desenho
os contornos desse mar com um lápis de
névoa. Apago, sobre a sua superfície, todos
os pássaros. Vejo-os abrigarem-se da borracha
nas grutas do litoral: as aves assustadas da
solidão. «É um mundo impenetrável», diz
quem está só. Senta-se na margem, olhando
o seu caso. Nada mais existe para além dele, até
esse branco amanhecer que o obriga a lembrar-se
que está vivo. Então, espera que a maré suba,
nesse mar sem marés, para tomar uma decisão.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 25 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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1
Ruy Belo
Orla marítima
O tempo das suaves raparigas
é junto ao mar ao longo das avenidas
ao sol dos solitários dias de dezembro
Tudo ali pára como nas fotografias
É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto
alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar
És tu surges de branco pela rua antigamente
noite iluminada noite de nuvens ó melhor mulher
(E nos alpes o cansado humanista canta alegremente)
«Mudança possui tudo»? Nada muda
nem sequer o cultor dos sistemáticos cuidados
levanta a dobra da tragédia nestas brancas horas
Deus anda à beira de água calça arregaçada
como um homem se deita como um homem se levanta
Somos crianças feitas para grandes férias
pássaros pedradas de calor
atiradas ao frio em redor
pássaros compêndios de vida
e morte resumida agasalhada em asas
Ali fica o retrato destes dias
Gestos e pensamentos tudo fixo
Manhã dos outros não nossa manhã
pagão solar de uma alegria calma
De terra vem a água e da água a alma
o tempo é a maré que leva e traz
o mar às praias onde eternamente somos
Sabemos agora em que medida merecemos a vida
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 168 | Editorial Presença Lda., 1984
é junto ao mar ao longo das avenidas
ao sol dos solitários dias de dezembro
Tudo ali pára como nas fotografias
É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto
alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar
És tu surges de branco pela rua antigamente
noite iluminada noite de nuvens ó melhor mulher
(E nos alpes o cansado humanista canta alegremente)
«Mudança possui tudo»? Nada muda
nem sequer o cultor dos sistemáticos cuidados
levanta a dobra da tragédia nestas brancas horas
Deus anda à beira de água calça arregaçada
como um homem se deita como um homem se levanta
Somos crianças feitas para grandes férias
pássaros pedradas de calor
atiradas ao frio em redor
pássaros compêndios de vida
e morte resumida agasalhada em asas
Ali fica o retrato destes dias
Gestos e pensamentos tudo fixo
Manhã dos outros não nossa manhã
pagão solar de uma alegria calma
De terra vem a água e da água a alma
o tempo é a maré que leva e traz
o mar às praias onde eternamente somos
Sabemos agora em que medida merecemos a vida
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 168 | Editorial Presença Lda., 1984
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1
Nuno Júdice
Natureza viva
Um pintassilgo desce pelas escadas
da canção, empoleira-se nos seus versos,
estende o bico para que o canto
não se perca pelo chão. Ainda bem que é
para o céu que ele está a olhar:assim,
não vê os teus cabelos que se espalham
por entre ervas e ramos, nem os teus
braços que se apoiam ao declive da
encosta. No entanto, a tua respiração
canta com ele; e só quando o vento
o enxuta do ramo é que o silêncio
se faz para que, de dentro dele, nasçam o
bater de asas do seu voo e o teu riso, ao
veres um pássaro saltar de dentro do amor.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 18 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
da canção, empoleira-se nos seus versos,
estende o bico para que o canto
não se perca pelo chão. Ainda bem que é
para o céu que ele está a olhar:assim,
não vê os teus cabelos que se espalham
por entre ervas e ramos, nem os teus
braços que se apoiam ao declive da
encosta. No entanto, a tua respiração
canta com ele; e só quando o vento
o enxuta do ramo é que o silêncio
se faz para que, de dentro dele, nasçam o
bater de asas do seu voo e o teu riso, ao
veres um pássaro saltar de dentro do amor.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 18 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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1
Nuno Júdice
Memória
Lembro uma respiração apressada,
uns olhos que se fecham quando o céu se abre,
penas caídas numa corrente de palavras,
um bater de asas num erguer de braços,
o sol posto num fechar de pálpebras,
e o sol que nasce num abrir de olhos;
os cabelos soltos nos ombros
em ondas de um mar de setembro,
os lábios que suspendem o murmúrio
à passagem de um rio sem margem,
o riso que se espera e sonha
na boca onde a tarde perdura;
lembro o que é tão vivo
que já a vida o levou:
mão pousada e leve
no ramo que a ave deixou
ao ver, tão breve,
o amor que ali ficou.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 102 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
uns olhos que se fecham quando o céu se abre,
penas caídas numa corrente de palavras,
um bater de asas num erguer de braços,
o sol posto num fechar de pálpebras,
e o sol que nasce num abrir de olhos;
os cabelos soltos nos ombros
em ondas de um mar de setembro,
os lábios que suspendem o murmúrio
à passagem de um rio sem margem,
o riso que se espera e sonha
na boca onde a tarde perdura;
lembro o que é tão vivo
que já a vida o levou:
mão pousada e leve
no ramo que a ave deixou
ao ver, tão breve,
o amor que ali ficou.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 102 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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Ruy Belo
A medida de Espanha
Tenho mudado de cidades algumas vezes
e o meu passado é todo esquecimento
A noite chega precedida pela sombra
e é sempre em vão que repudio a noite
Eu morro qualquer dia e pouco sei da vida
a vida a simples vida é violenta
Mas quando a primavera em cabelo chega
sinto-me invulnerável e começo
É formidável março quando se aproxima
a prometer no passo um integral verão
Sou todo deste tempo e são meus estes dias
Eu nada sou mas o verão existe
Canta meu coração
Esta é a medida de espanha
ó vida minha vida estranha
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 174 | Editorial Presença Lda., 1984
e o meu passado é todo esquecimento
A noite chega precedida pela sombra
e é sempre em vão que repudio a noite
Eu morro qualquer dia e pouco sei da vida
a vida a simples vida é violenta
Mas quando a primavera em cabelo chega
sinto-me invulnerável e começo
É formidável março quando se aproxima
a prometer no passo um integral verão
Sou todo deste tempo e são meus estes dias
Eu nada sou mas o verão existe
Canta meu coração
Esta é a medida de espanha
ó vida minha vida estranha
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 174 | Editorial Presença Lda., 1984
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1
Ruy Belo
A laranjeira
De novo a laranjeira - olhai! - traz ante nós os frutos,
quais lágrimas vertidas
nos atormenta do amor
e de vermelho coloridas
Nos ramos de topázio
vede como as rútilas esferas
em ágata moldadas ficam expostas às suaves mãos do zéfiro
que têm martelinhos para uma a uma as percutir
E nós
ora as beijamos
ora nelas os aromas aspiramos
e assim elas parecem faces de donzela ou perfumados pomos
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 100 | Editorial Presença Lda., 1984
quais lágrimas vertidas
nos atormenta do amor
e de vermelho coloridas
Nos ramos de topázio
vede como as rútilas esferas
em ágata moldadas ficam expostas às suaves mãos do zéfiro
que têm martelinhos para uma a uma as percutir
E nós
ora as beijamos
ora nelas os aromas aspiramos
e assim elas parecem faces de donzela ou perfumados pomos
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 100 | Editorial Presença Lda., 1984
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Ruy Belo
A laranjeira
De novo a laranjeira - olhai! - traz ante nós os frutos,
quais lágrimas vertidas
nos atormenta do amor
e de vermelho coloridas
Nos ramos de topázio
vede como as rútilas esferas
em ágata moldadas ficam expostas às suaves mãos do zéfiro
que têm martelinhos para uma a uma as percutir
E nós
ora as beijamos
ora nelas os aromas aspiramos
e assim elas parecem faces de donzela ou perfumados pomos
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 100 | Editorial Presença Lda., 1984
quais lágrimas vertidas
nos atormenta do amor
e de vermelho coloridas
Nos ramos de topázio
vede como as rútilas esferas
em ágata moldadas ficam expostas às suaves mãos do zéfiro
que têm martelinhos para uma a uma as percutir
E nós
ora as beijamos
ora nelas os aromas aspiramos
e assim elas parecem faces de donzela ou perfumados pomos
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 100 | Editorial Presença Lda., 1984
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Ruy Belo
A laranjeira
De novo a laranjeira - olhai! - traz ante nós os frutos,
quais lágrimas vertidas
nos atormenta do amor
e de vermelho coloridas
Nos ramos de topázio
vede como as rútilas esferas
em ágata moldadas ficam expostas às suaves mãos do zéfiro
que têm martelinhos para uma a uma as percutir
E nós
ora as beijamos
ora nelas os aromas aspiramos
e assim elas parecem faces de donzela ou perfumados pomos
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 100 | Editorial Presença Lda., 1984
quais lágrimas vertidas
nos atormenta do amor
e de vermelho coloridas
Nos ramos de topázio
vede como as rútilas esferas
em ágata moldadas ficam expostas às suaves mãos do zéfiro
que têm martelinhos para uma a uma as percutir
E nós
ora as beijamos
ora nelas os aromas aspiramos
e assim elas parecem faces de donzela ou perfumados pomos
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 100 | Editorial Presença Lda., 1984
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Ruy Belo
Variações sobre O Jogador do Pião (VI)
Faz rodar o pião redondo tudo em volta
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos, tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível da maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
coisa coberta pelo chão de alguma igreja
talvez nem mesmo Deus passando a veja
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 120 e 121 | Editorial Presença Lda., 1984
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos, tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível da maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
coisa coberta pelo chão de alguma igreja
talvez nem mesmo Deus passando a veja
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 120 e 121 | Editorial Presença Lda., 1984
1 323
1
Nuno Júdice
Nascimento de Vénus
A página pode estar vazia, como este mar que
tenho pela frente; pode obrigar-me a ficar
em terra, esperando que o céu se volte a abrir;
ou pode fechar-se, com o vento, impedindo-me
de escrever. Mas se aproveitar o intervalo
da maré, o instante único em que uma palavra
se deixa ver no horizonte, como a vela desejada
pelo náufrago, e usar a matéria prima
que emerge da onda empurrada pelo desejo
de um deus cego, o poema seguirá o rumo
dos cabelos que se derramam na espuma
do amor. Descobrirei o teu rosto, ainda
encoberto pela palidez da madrugada; e
atravessarei o átrio dos teus seios, ouvindo
a música de uma respiração de anjos
num eco de abóbada. E se não acordares,
espreitarei o fundo das tuas pálpebras,
onde escondes as imagens da noite; e
colhê-las-ei, uma a uma, como os frutos
do verão que o teu corpo anuncia.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 110 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
tenho pela frente; pode obrigar-me a ficar
em terra, esperando que o céu se volte a abrir;
ou pode fechar-se, com o vento, impedindo-me
de escrever. Mas se aproveitar o intervalo
da maré, o instante único em que uma palavra
se deixa ver no horizonte, como a vela desejada
pelo náufrago, e usar a matéria prima
que emerge da onda empurrada pelo desejo
de um deus cego, o poema seguirá o rumo
dos cabelos que se derramam na espuma
do amor. Descobrirei o teu rosto, ainda
encoberto pela palidez da madrugada; e
atravessarei o átrio dos teus seios, ouvindo
a música de uma respiração de anjos
num eco de abóbada. E se não acordares,
espreitarei o fundo das tuas pálpebras,
onde escondes as imagens da noite; e
colhê-las-ei, uma a uma, como os frutos
do verão que o teu corpo anuncia.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 110 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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Nuno Júdice
Nascimento de Vénus
A página pode estar vazia, como este mar que
tenho pela frente; pode obrigar-me a ficar
em terra, esperando que o céu se volte a abrir;
ou pode fechar-se, com o vento, impedindo-me
de escrever. Mas se aproveitar o intervalo
da maré, o instante único em que uma palavra
se deixa ver no horizonte, como a vela desejada
pelo náufrago, e usar a matéria prima
que emerge da onda empurrada pelo desejo
de um deus cego, o poema seguirá o rumo
dos cabelos que se derramam na espuma
do amor. Descobrirei o teu rosto, ainda
encoberto pela palidez da madrugada; e
atravessarei o átrio dos teus seios, ouvindo
a música de uma respiração de anjos
num eco de abóbada. E se não acordares,
espreitarei o fundo das tuas pálpebras,
onde escondes as imagens da noite; e
colhê-las-ei, uma a uma, como os frutos
do verão que o teu corpo anuncia.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 110 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
tenho pela frente; pode obrigar-me a ficar
em terra, esperando que o céu se volte a abrir;
ou pode fechar-se, com o vento, impedindo-me
de escrever. Mas se aproveitar o intervalo
da maré, o instante único em que uma palavra
se deixa ver no horizonte, como a vela desejada
pelo náufrago, e usar a matéria prima
que emerge da onda empurrada pelo desejo
de um deus cego, o poema seguirá o rumo
dos cabelos que se derramam na espuma
do amor. Descobrirei o teu rosto, ainda
encoberto pela palidez da madrugada; e
atravessarei o átrio dos teus seios, ouvindo
a música de uma respiração de anjos
num eco de abóbada. E se não acordares,
espreitarei o fundo das tuas pálpebras,
onde escondes as imagens da noite; e
colhê-las-ei, uma a uma, como os frutos
do verão que o teu corpo anuncia.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 110 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 969
1
Nuno Júdice
Curso de retórica
Entra pelo portão da sintaxe, e atravessa
o bosque da gramática com as mãos do verbo,
rasgando o caminho que te irá conduzir à última
frase. Depois, recomeça tudo, embora o portão
esteja aberto, e não precises já de o empurrar
para descobrir um chão de pontos e de vírgulas,
fazendo ressoar os teus passos numa abóbada
de sinónimos. Apanha as palavras caídas, e
leva-as para o fundo do dicionário, onde
as irás juntar a um adubo de sílabas. Vê-las-ás
germinar na primavera do verso, e colherás
as suas flores no jardim da retórica, entre
estátuas de deuses e cascatas. Depois, regressa
à página de onde saíste, e fecha o portão.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 65 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
o bosque da gramática com as mãos do verbo,
rasgando o caminho que te irá conduzir à última
frase. Depois, recomeça tudo, embora o portão
esteja aberto, e não precises já de o empurrar
para descobrir um chão de pontos e de vírgulas,
fazendo ressoar os teus passos numa abóbada
de sinónimos. Apanha as palavras caídas, e
leva-as para o fundo do dicionário, onde
as irás juntar a um adubo de sílabas. Vê-las-ás
germinar na primavera do verso, e colherás
as suas flores no jardim da retórica, entre
estátuas de deuses e cascatas. Depois, regressa
à página de onde saíste, e fecha o portão.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 65 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 137
1
Edmir Domingues
Terrar
Mudo e triste, conviva cotidiano
da grande solidão, sinto-me em casa,
o vôo que se voa sem ter-se asa
lançou-me a estas paragens do altiplano.
A esse deserto estranho e anti-humano
de geladas crateras, que se arrasa
e se perde no pó da antiga brasa,
fogo estelar do mais antigo arcano.
Silencioso e só, o Tempo espia
esse mundo que é apenas o esqueleto
do universo futuro de algum dia.
De súbito a surpresa. Eis que se alteia
na linha do horizonte, em fundo preto,
o grande globo azul da Terra cheia.
da grande solidão, sinto-me em casa,
o vôo que se voa sem ter-se asa
lançou-me a estas paragens do altiplano.
A esse deserto estranho e anti-humano
de geladas crateras, que se arrasa
e se perde no pó da antiga brasa,
fogo estelar do mais antigo arcano.
Silencioso e só, o Tempo espia
esse mundo que é apenas o esqueleto
do universo futuro de algum dia.
De súbito a surpresa. Eis que se alteia
na linha do horizonte, em fundo preto,
o grande globo azul da Terra cheia.
701
1
João Cabral de Melo Neto
Poema(s) da Cabra
Nas margens do Mediterrâneo
não se vê um palmo de terra
que a terra tivesse esquecido
de fazer converter em pedra.
Nas margens do Mediterrâneo
Não se vê um palmo de pedra
que a pedra tivesse esquecido
de ocupar com sua fera.
Ali, onde nenhuma linha
pode lembrar, porque mais doce,
o que até chega a parecer
suave serra de uma foice,
não se vê um palmo de terra
por mais pedra ou fera que seja,
que a cabra não tenha ocupado
com sua planta fibrosa e negra.
1
A cabra é negra. Mas seu negro
não é o negro do ébano douto
(que é quase azul) ou o negro rico
do jacarandá (mais bem roxo).
O negro da cabra é o negro
do preto, do pobre, do pouco.
Negro da poeira, que é cinzento.
Negro da ferrugem, que é fosco.
Negro do feio, às vezes branco.
Ou o negro do pardo, que é pardo.
disso que não chega a ter cor
ou perdeu toda cor no gasto.
É o negro da segunda classe.
Do inferior (que é sempre opaco).
Disso que não pode ter cor
porque em negro sai mais barato.
2
Se o negro quer dizer noturno
o negro da cabra é solar.
Não é o da cabra o negro noite.
É o negro de sol. Luminar.
Será o negro do queimado
mais que o negro da escuridão.
Negra é do sol que acumulou.
É o negro mais bem do carvão.
Não é o negro do macabro.
Negro funeral. Nem do luto.
Tampouco é o negro do mistério,
de braços cruzados, eunuco.
É mesmo o negro do carvão.
O negro da hulha. Do coque.
Negro que pode haver na pólvora:
negro de vida, não de morte.
3
O negro da cabra é o negro
da natureza dela cabra.
Mesmo dessa que não é negra,
como a do Moxotó, que é clara.
O negro é o duro que há no fundo
da cabra. De seu natural.
Tal no fundo da terra há pedra,
no fundo da pedra, metal.
O negro é o duro que há no fundo
da natureza sem orvalho
que é a da cabra, esse animal
sem folhas, só raiz e talo,
que é a da cabra, esse animal
de alma-caroço, de alma córnea,
sem moelas, úmidos, lábios,
pão sem miolo, apenas côdea.
4
Quem já encontrou uma cabra
que tivesse ritmos domésticos?
O grosso derrame do porco,
da vaca, do sono e de tédio?
Quem encontrou cabra que fosse
animal de sociedade?
Tal o cão, o gato, o cavalo,
diletos do homem e da arte?
A cabra guarda todo o arisco,
rebelde, do animal selvagem,
viva demais que é para ser
animal dos de luxo ou pajem.
Viva demais para não ser,
quando colaboracionista,
o reduzido irredutível,
o inconformado conformista.
5
A cabra é o melhor instrumento
de verrumar a terra magra.
Por dentro da serra e da seca
não chega onde chega a cabra.
Se a serra é terra, a cabra é pedra.
Se a serra é pedra, é pedernal.
Sua boca é sempre mais dura
que a serra, não importa qual.
A cabra tem o dente frio,
a insolência do que mastiga.
Por isso o homem vive da cabra
mas sempre a vê como inimiga.
Por isso quem vive da cabra
e não é capaz do seu braço
desconfia sempre da cabra:
diz que tem parte com o Diabo.
6
Não é pelo vício da pedra,
por preferir a pedra à folha.
É que a cabra é expulsa do verde,
trancada do lado de fora.
A cabra é trancada por dentro.
Condenada à caatinga seca.
Liberta, no vasto sem nada,
proibida, na verdura estreita.
Leva no pescoço uma canga
que a impede de furar as cercas.
Leva os muros do próprio cárcere:
prisioneira e carcereira.
Liberdade de fome e sede
da ambulante prisioneira.
Não é que ela busque o difícil:
é que a sabem capaz de pedra.
7
A vida da cabra não deixa
lazer para ser fina ou lírica
(tal o urubu, que em doces linhas
voa à procura da carniça).
Vive a cabra contra a pendente,
sem os êxtases das decidas.
Viver para a cabra não é
re-ruminar-se introspectiva.
É, literalmente, cavar
a vida sob a superfície,
que a cabra, proibida de folhas,
tem de desentranhar raízes.
Eis porque é a cabra grosseira,
de mãos ásperas, realista.
Eis porque, mesmo ruminando,
não é jamais contemplativa.
8
O núcleo de cabra é visível
por debaixo de muitas coisas.
Com a natureza da cabra
outras aprendem sua crosta.
Um núcleo de cabra é visível
em certos atributos roucos
que têm as coisas obrigadas
a fazer de seu corpo couro.
A fazer de seu couro sola,
a armar-se em couraças, escamas:
como se dá com certas coisas
e muitas condições humanas.
Os jumentos são animais
que muito aprenderam com a cabra.
O nordestino, convivendo-a,
fez-se de sua mesma casta.
9
O núcleo de cabra é visível
debaixo do homem do Nordeste.
Da cabra lhe vem o escarpado
e o estofo nervudo que o enche.
Se adivinha o núcleo de cabra
no jeito de existir, Cardozo,
que reponta sob seu gesto
como esqueleto sob o corpo.
E é outra ossatura mais forte
que o esqueleto comum, de todos;
debaixo do próprio esqueleto,
no fundo centro de seus ossos.
A cabra deu ao nordestino
esse esqueleto mais de dentro:
o aço do osso, que resiste
quando o osso perde seu cimento.
*
O Mediterrâneo é mar clássico,
com águas de mármore azul.
Em nada me lembra das águas
sem marca do rio Pajeú.
As ondas do Mediterrâneo
estão no mármore traçadas.
Nos rios do Sertão, se existe,
a água corre despenteada.
As margens do Mediterrâneo
parecem deserto balcão.
Deserto, mas de terras nobres
não da piçarra do Sertão.
Mas não minto o Mediterrâneo
nem sua atmosfera maior
descrevendo-lhe as cabras negras
em termos da do Moxotó.
não se vê um palmo de terra
que a terra tivesse esquecido
de fazer converter em pedra.
Nas margens do Mediterrâneo
Não se vê um palmo de pedra
que a pedra tivesse esquecido
de ocupar com sua fera.
Ali, onde nenhuma linha
pode lembrar, porque mais doce,
o que até chega a parecer
suave serra de uma foice,
não se vê um palmo de terra
por mais pedra ou fera que seja,
que a cabra não tenha ocupado
com sua planta fibrosa e negra.
1
A cabra é negra. Mas seu negro
não é o negro do ébano douto
(que é quase azul) ou o negro rico
do jacarandá (mais bem roxo).
O negro da cabra é o negro
do preto, do pobre, do pouco.
Negro da poeira, que é cinzento.
Negro da ferrugem, que é fosco.
Negro do feio, às vezes branco.
Ou o negro do pardo, que é pardo.
disso que não chega a ter cor
ou perdeu toda cor no gasto.
É o negro da segunda classe.
Do inferior (que é sempre opaco).
Disso que não pode ter cor
porque em negro sai mais barato.
2
Se o negro quer dizer noturno
o negro da cabra é solar.
Não é o da cabra o negro noite.
É o negro de sol. Luminar.
Será o negro do queimado
mais que o negro da escuridão.
Negra é do sol que acumulou.
É o negro mais bem do carvão.
Não é o negro do macabro.
Negro funeral. Nem do luto.
Tampouco é o negro do mistério,
de braços cruzados, eunuco.
É mesmo o negro do carvão.
O negro da hulha. Do coque.
Negro que pode haver na pólvora:
negro de vida, não de morte.
3
O negro da cabra é o negro
da natureza dela cabra.
Mesmo dessa que não é negra,
como a do Moxotó, que é clara.
O negro é o duro que há no fundo
da cabra. De seu natural.
Tal no fundo da terra há pedra,
no fundo da pedra, metal.
O negro é o duro que há no fundo
da natureza sem orvalho
que é a da cabra, esse animal
sem folhas, só raiz e talo,
que é a da cabra, esse animal
de alma-caroço, de alma córnea,
sem moelas, úmidos, lábios,
pão sem miolo, apenas côdea.
4
Quem já encontrou uma cabra
que tivesse ritmos domésticos?
O grosso derrame do porco,
da vaca, do sono e de tédio?
Quem encontrou cabra que fosse
animal de sociedade?
Tal o cão, o gato, o cavalo,
diletos do homem e da arte?
A cabra guarda todo o arisco,
rebelde, do animal selvagem,
viva demais que é para ser
animal dos de luxo ou pajem.
Viva demais para não ser,
quando colaboracionista,
o reduzido irredutível,
o inconformado conformista.
5
A cabra é o melhor instrumento
de verrumar a terra magra.
Por dentro da serra e da seca
não chega onde chega a cabra.
Se a serra é terra, a cabra é pedra.
Se a serra é pedra, é pedernal.
Sua boca é sempre mais dura
que a serra, não importa qual.
A cabra tem o dente frio,
a insolência do que mastiga.
Por isso o homem vive da cabra
mas sempre a vê como inimiga.
Por isso quem vive da cabra
e não é capaz do seu braço
desconfia sempre da cabra:
diz que tem parte com o Diabo.
6
Não é pelo vício da pedra,
por preferir a pedra à folha.
É que a cabra é expulsa do verde,
trancada do lado de fora.
A cabra é trancada por dentro.
Condenada à caatinga seca.
Liberta, no vasto sem nada,
proibida, na verdura estreita.
Leva no pescoço uma canga
que a impede de furar as cercas.
Leva os muros do próprio cárcere:
prisioneira e carcereira.
Liberdade de fome e sede
da ambulante prisioneira.
Não é que ela busque o difícil:
é que a sabem capaz de pedra.
7
A vida da cabra não deixa
lazer para ser fina ou lírica
(tal o urubu, que em doces linhas
voa à procura da carniça).
Vive a cabra contra a pendente,
sem os êxtases das decidas.
Viver para a cabra não é
re-ruminar-se introspectiva.
É, literalmente, cavar
a vida sob a superfície,
que a cabra, proibida de folhas,
tem de desentranhar raízes.
Eis porque é a cabra grosseira,
de mãos ásperas, realista.
Eis porque, mesmo ruminando,
não é jamais contemplativa.
8
O núcleo de cabra é visível
por debaixo de muitas coisas.
Com a natureza da cabra
outras aprendem sua crosta.
Um núcleo de cabra é visível
em certos atributos roucos
que têm as coisas obrigadas
a fazer de seu corpo couro.
A fazer de seu couro sola,
a armar-se em couraças, escamas:
como se dá com certas coisas
e muitas condições humanas.
Os jumentos são animais
que muito aprenderam com a cabra.
O nordestino, convivendo-a,
fez-se de sua mesma casta.
9
O núcleo de cabra é visível
debaixo do homem do Nordeste.
Da cabra lhe vem o escarpado
e o estofo nervudo que o enche.
Se adivinha o núcleo de cabra
no jeito de existir, Cardozo,
que reponta sob seu gesto
como esqueleto sob o corpo.
E é outra ossatura mais forte
que o esqueleto comum, de todos;
debaixo do próprio esqueleto,
no fundo centro de seus ossos.
A cabra deu ao nordestino
esse esqueleto mais de dentro:
o aço do osso, que resiste
quando o osso perde seu cimento.
*
O Mediterrâneo é mar clássico,
com águas de mármore azul.
Em nada me lembra das águas
sem marca do rio Pajeú.
As ondas do Mediterrâneo
estão no mármore traçadas.
Nos rios do Sertão, se existe,
a água corre despenteada.
As margens do Mediterrâneo
parecem deserto balcão.
Deserto, mas de terras nobres
não da piçarra do Sertão.
Mas não minto o Mediterrâneo
nem sua atmosfera maior
descrevendo-lhe as cabras negras
em termos da do Moxotó.
2 344
1
Ruy Belo
Mercado dos Santos em Nisa
O tempo é outro nas terras pequenas
e quem de si mesmo afinal foge encontra aqui o coração
em festa
As árvores são novas e no adro em rodas contra a cal e
contra o frio há gente
o sol preenche tudo e é quase tão redondo como Deus
Cada coisa tem nome e reconheço o aroma das estevas
na missa o claro coro das mulheres leva os campos à igreja
e há crianças bibes saco escola sino guizos gado
o frio fecha, o sol semeis, a luz alastra e o silêncio é
/fundamental
- cartaz quase municipal que me recruta e traz
do fundo de umas páginas de pó ao cúmulo das folhas
amarelas
reais e rituais, folhas finas das mãos de Columbano
como tudo o que gira envolto no rodar do ano
E a terra a pedra o ar opõem sempre ao céu a mesma
superfície
sobre os corpos extensos sob a erva, imersos no cansaço
E eu dia após dia dado ao esforço de alongar
a morte prometida a toda a minha cara ou dissipar
a queda num lugar desde o mais alto de mim próprio
Ah! não ter eu uma só solução para tudo, tantos gestos
[transbordantes
em vez de dividir os dedos pelas coisas múltiplas diversas
Uma só cara uma só rua em vez de tantos traços e
[travessas
uma mulher, alguém capaz de partilhar
o peso que nos ombros cada dia nos puser
Mas um homem aqui renasce e repudia a morte
que lhe amarrava os braços ao quadrante do relógio
Amigos para quê? E longe de famílias e tensões,
alheio a elementos de curriculum, esquecido
até de prazos horas carreira promissora ou simples biografia
o homem vai buscar às árvores de pé pedidas pelo sol
a única possível genealogia
Pátria paraíso pétala -- que nome
existe para isto que nem mesmo é alegria
nem nascer outra vez apenas, nem matar aquela fome
que o mais certinho dia sem remédio adia?!
Aqui há coisas homens pedras oliveiras animais
reunidos na vida, recortados nítidos diversos
E apesar da indispensável confusão dos versos
aqui não é possível nunca mais
trocar coisa por coisa. Aqui o dia cai
sobre o a noite que sobe. Uma voz canta,
alguém além mais longe chora
O adro a árvore a casa onde se está, onde se entra e mora
Aqui o homem é... ou era mesmo agora
e quem de si mesmo afinal foge encontra aqui o coração
em festa
As árvores são novas e no adro em rodas contra a cal e
contra o frio há gente
o sol preenche tudo e é quase tão redondo como Deus
Cada coisa tem nome e reconheço o aroma das estevas
na missa o claro coro das mulheres leva os campos à igreja
e há crianças bibes saco escola sino guizos gado
o frio fecha, o sol semeis, a luz alastra e o silêncio é
/fundamental
- cartaz quase municipal que me recruta e traz
do fundo de umas páginas de pó ao cúmulo das folhas
amarelas
reais e rituais, folhas finas das mãos de Columbano
como tudo o que gira envolto no rodar do ano
E a terra a pedra o ar opõem sempre ao céu a mesma
superfície
sobre os corpos extensos sob a erva, imersos no cansaço
E eu dia após dia dado ao esforço de alongar
a morte prometida a toda a minha cara ou dissipar
a queda num lugar desde o mais alto de mim próprio
Ah! não ter eu uma só solução para tudo, tantos gestos
[transbordantes
em vez de dividir os dedos pelas coisas múltiplas diversas
Uma só cara uma só rua em vez de tantos traços e
[travessas
uma mulher, alguém capaz de partilhar
o peso que nos ombros cada dia nos puser
Mas um homem aqui renasce e repudia a morte
que lhe amarrava os braços ao quadrante do relógio
Amigos para quê? E longe de famílias e tensões,
alheio a elementos de curriculum, esquecido
até de prazos horas carreira promissora ou simples biografia
o homem vai buscar às árvores de pé pedidas pelo sol
a única possível genealogia
Pátria paraíso pétala -- que nome
existe para isto que nem mesmo é alegria
nem nascer outra vez apenas, nem matar aquela fome
que o mais certinho dia sem remédio adia?!
Aqui há coisas homens pedras oliveiras animais
reunidos na vida, recortados nítidos diversos
E apesar da indispensável confusão dos versos
aqui não é possível nunca mais
trocar coisa por coisa. Aqui o dia cai
sobre o a noite que sobe. Uma voz canta,
alguém além mais longe chora
O adro a árvore a casa onde se está, onde se entra e mora
Aqui o homem é... ou era mesmo agora
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1
Ruy Belo
Mercado dos Santos em Nisa
O tempo é outro nas terras pequenas
e quem de si mesmo afinal foge encontra aqui o coração
em festa
As árvores são novas e no adro em rodas contra a cal e
contra o frio há gente
o sol preenche tudo e é quase tão redondo como Deus
Cada coisa tem nome e reconheço o aroma das estevas
na missa o claro coro das mulheres leva os campos à igreja
e há crianças bibes saco escola sino guizos gado
o frio fecha, o sol semeis, a luz alastra e o silêncio é
/fundamental
- cartaz quase municipal que me recruta e traz
do fundo de umas páginas de pó ao cúmulo das folhas
amarelas
reais e rituais, folhas finas das mãos de Columbano
como tudo o que gira envolto no rodar do ano
E a terra a pedra o ar opõem sempre ao céu a mesma
superfície
sobre os corpos extensos sob a erva, imersos no cansaço
E eu dia após dia dado ao esforço de alongar
a morte prometida a toda a minha cara ou dissipar
a queda num lugar desde o mais alto de mim próprio
Ah! não ter eu uma só solução para tudo, tantos gestos
[transbordantes
em vez de dividir os dedos pelas coisas múltiplas diversas
Uma só cara uma só rua em vez de tantos traços e
[travessas
uma mulher, alguém capaz de partilhar
o peso que nos ombros cada dia nos puser
Mas um homem aqui renasce e repudia a morte
que lhe amarrava os braços ao quadrante do relógio
Amigos para quê? E longe de famílias e tensões,
alheio a elementos de curriculum, esquecido
até de prazos horas carreira promissora ou simples biografia
o homem vai buscar às árvores de pé pedidas pelo sol
a única possível genealogia
Pátria paraíso pétala -- que nome
existe para isto que nem mesmo é alegria
nem nascer outra vez apenas, nem matar aquela fome
que o mais certinho dia sem remédio adia?!
Aqui há coisas homens pedras oliveiras animais
reunidos na vida, recortados nítidos diversos
E apesar da indispensável confusão dos versos
aqui não é possível nunca mais
trocar coisa por coisa. Aqui o dia cai
sobre o a noite que sobe. Uma voz canta,
alguém além mais longe chora
O adro a árvore a casa onde se está, onde se entra e mora
Aqui o homem é... ou era mesmo agora
e quem de si mesmo afinal foge encontra aqui o coração
em festa
As árvores são novas e no adro em rodas contra a cal e
contra o frio há gente
o sol preenche tudo e é quase tão redondo como Deus
Cada coisa tem nome e reconheço o aroma das estevas
na missa o claro coro das mulheres leva os campos à igreja
e há crianças bibes saco escola sino guizos gado
o frio fecha, o sol semeis, a luz alastra e o silêncio é
/fundamental
- cartaz quase municipal que me recruta e traz
do fundo de umas páginas de pó ao cúmulo das folhas
amarelas
reais e rituais, folhas finas das mãos de Columbano
como tudo o que gira envolto no rodar do ano
E a terra a pedra o ar opõem sempre ao céu a mesma
superfície
sobre os corpos extensos sob a erva, imersos no cansaço
E eu dia após dia dado ao esforço de alongar
a morte prometida a toda a minha cara ou dissipar
a queda num lugar desde o mais alto de mim próprio
Ah! não ter eu uma só solução para tudo, tantos gestos
[transbordantes
em vez de dividir os dedos pelas coisas múltiplas diversas
Uma só cara uma só rua em vez de tantos traços e
[travessas
uma mulher, alguém capaz de partilhar
o peso que nos ombros cada dia nos puser
Mas um homem aqui renasce e repudia a morte
que lhe amarrava os braços ao quadrante do relógio
Amigos para quê? E longe de famílias e tensões,
alheio a elementos de curriculum, esquecido
até de prazos horas carreira promissora ou simples biografia
o homem vai buscar às árvores de pé pedidas pelo sol
a única possível genealogia
Pátria paraíso pétala -- que nome
existe para isto que nem mesmo é alegria
nem nascer outra vez apenas, nem matar aquela fome
que o mais certinho dia sem remédio adia?!
Aqui há coisas homens pedras oliveiras animais
reunidos na vida, recortados nítidos diversos
E apesar da indispensável confusão dos versos
aqui não é possível nunca mais
trocar coisa por coisa. Aqui o dia cai
sobre o a noite que sobe. Uma voz canta,
alguém além mais longe chora
O adro a árvore a casa onde se está, onde se entra e mora
Aqui o homem é... ou era mesmo agora
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