Poemas neste tema
Outros
Isabel Mendes Ferreira
da viagem secreta
da viagem secreta ao fundo do coração trouxe um sono vertiginosamente profundo. a água e o ópio a ausência e o ritual a epígrafe e o punhal a prece e a pressa de partir. amadureço este inverno que é segredo. e o óbvio é uma oração em rodapé.
718
Isabel Mendes Ferreira
emagrecer o movimento
emagrecer o movimento que enche de surpresa as mãos cheias. de fascínios e desígnios. desenhar um caos ao mesmo tempo dócil e desamparado. encostar a porta ao espelho das águas. silenciar a tua mão no meu peito e depois lançar um pássaro de ópio à terra. não querer voltar a ser outro porto. perder todas as chaves. e deixar o riso ladrar como animal. fome de folhas. feroz fulgor dos contrários.
_________________._______________________
(em desfeito pano de sons e poeiras. pontos redondos na anca do sono. onde a natureza é cometa e declive.) e o contrário continua a ser
uma frase de entendimento. aberta à essência dos conflitos.
_________________._______________________
(em desfeito pano de sons e poeiras. pontos redondos na anca do sono. onde a natureza é cometa e declive.) e o contrário continua a ser
uma frase de entendimento. aberta à essência dos conflitos.
547
Daniel Francoy
LATITUDES
Fala-me Conrad de um tempo,
ou melhor, de uma latitude
que ultrapassada impede
qualquer regresso –
como se o destino de um homem
fosse descer por uma luz vacilante
degrau após degrau.
Sujamo-nos, não há outro caminho
que não seja ter as mãos sujas.
Sujamo-nos e são as mãos sujas
o último elo a romper-se.
Por elas passa o ouro conseguido
a um custo indizível,
o perfume de amores enlouquecidos,
as flores que colhemos quando
muito jovens ou muito cansados.
O último elo a romper-se porque
da luz mais gasta permanece o pólen.
ou melhor, de uma latitude
que ultrapassada impede
qualquer regresso –
como se o destino de um homem
fosse descer por uma luz vacilante
degrau após degrau.
Sujamo-nos, não há outro caminho
que não seja ter as mãos sujas.
Sujamo-nos e são as mãos sujas
o último elo a romper-se.
Por elas passa o ouro conseguido
a um custo indizível,
o perfume de amores enlouquecidos,
as flores que colhemos quando
muito jovens ou muito cansados.
O último elo a romper-se porque
da luz mais gasta permanece o pólen.
1 190
Isabel Mendes Ferreira
barco dos milagres
barco dos milagres. explícito nas perguntas. remos que à proa de mim não são farpas antes a hora da sombra. claríssimo brilho do passo certo.
a música é a planície a casa a fonte o mar a chegada.
chego.nos. devota de Joyce.
caligraficamente vazia.
na metade do dia. do amor.
a música é a planície a casa a fonte o mar a chegada.
chego.nos. devota de Joyce.
caligraficamente vazia.
na metade do dia. do amor.
706
Isabel Mendes Ferreira
barco dos milagres
barco dos milagres. explícito nas perguntas. remos que à proa de mim não são farpas antes a hora da sombra. claríssimo brilho do passo certo.
a música é a planície a casa a fonte o mar a chegada.
chego.nos. devota de Joyce.
caligraficamente vazia.
na metade do dia. do amor.
a música é a planície a casa a fonte o mar a chegada.
chego.nos. devota de Joyce.
caligraficamente vazia.
na metade do dia. do amor.
706
Isabel Mendes Ferreira
barco dos milagres
barco dos milagres. explícito nas perguntas. remos que à proa de mim não são farpas antes a hora da sombra. claríssimo brilho do passo certo.
a música é a planície a casa a fonte o mar a chegada.
chego.nos. devota de Joyce.
caligraficamente vazia.
na metade do dia. do amor.
a música é a planície a casa a fonte o mar a chegada.
chego.nos. devota de Joyce.
caligraficamente vazia.
na metade do dia. do amor.
706
Isabel Mendes Ferreira
elegia
elegia _____________________
sempre que regressam as dúvidas são sempre outras. irrepetíveis e moldáveis pela diferente respiração de outro momento e ainda outro. mesmo que no mesmo instante. somos tão pouco no diário da vida fruída.
por isso me aguardo na ilusão do inverno que é prisma e drama estalactite e agonia. dissonância quase amável de todos os contrastes.
__________________"É-me interdito conjugar todos os verbos."________________
sempre que regressam as dúvidas são sempre outras. irrepetíveis e moldáveis pela diferente respiração de outro momento e ainda outro. mesmo que no mesmo instante. somos tão pouco no diário da vida fruída.
por isso me aguardo na ilusão do inverno que é prisma e drama estalactite e agonia. dissonância quase amável de todos os contrastes.
__________________"É-me interdito conjugar todos os verbos."________________
587
Isabel Mendes Ferreira
há em cada pastor
há em cada pastor a influência do deslumbre do pasto . como se o encanto fosse a flor e o rio um afluente a correr ao contrário da sede que é sempre mais seda que o fio que nos estala.
somos de tanta água que te faço fonte para sempre. acolhe-me. escolhe.me. resguardo-te. sem a alquimia dos milagres. com a prata que é o meu sangue..
somos de tanta água que te faço fonte para sempre. acolhe-me. escolhe.me. resguardo-te. sem a alquimia dos milagres. com a prata que é o meu sangue..
673
Ana Marques Gastão
Chá vermelho-ferro
Fosse teu corpo um bule, exuberante
e esguio, de rosto oculto e mãos
como hastes a vermelho-ferro,
e de tua boca se soltasse um vento
sem tecto que de fumo desenhasse
um jardim de úberes silvos,
tornar-me-ia eu num Tu em meu
nada de alto colo e formato fruto,
asa em ansa, moldada em chama
por ti ateada, ferina e triangular.
Fosse teu corpo porcelana brava
como o sinto, leve, branco-vidrado,
aplanado de ausência e composto
em passos de bico amarelo pálido
ou beringela, nele beberia o chá
de tampa inventada num ápice de
botão, minúsculos ambos, um esfriado
de cerâmica e espanto, o outro quente
de púrpura de Cassius – recomeçando os
dois a moldar o pomo em forma de crista.
e esguio, de rosto oculto e mãos
como hastes a vermelho-ferro,
e de tua boca se soltasse um vento
sem tecto que de fumo desenhasse
um jardim de úberes silvos,
tornar-me-ia eu num Tu em meu
nada de alto colo e formato fruto,
asa em ansa, moldada em chama
por ti ateada, ferina e triangular.
Fosse teu corpo porcelana brava
como o sinto, leve, branco-vidrado,
aplanado de ausência e composto
em passos de bico amarelo pálido
ou beringela, nele beberia o chá
de tampa inventada num ápice de
botão, minúsculos ambos, um esfriado
de cerâmica e espanto, o outro quente
de púrpura de Cassius – recomeçando os
dois a moldar o pomo em forma de crista.
669
Herberto Helder
4I
O canteiro cheira à pedra. Da rosa cavada nela cheirará,
por dedos e pensamento,
à obra? Abre uma coroa. A pedra fecha-se
na sua teia de água. Com tantos martelos secos,
com tanta idade louca, com tanta pedra
inteligente, com tanta mão aluada — o canteiro desentranha
outra mão: — A mão do nervo
da pedra, rosa
assustadora:
Que desentranha a prumo forte, em ebriedade
e inclinação de lua. Enxofre, sal, rosa
potente. — O canteiro é a sua
rosa, a sua
obra
desabrochada.
Abre a fonte no mármore, sob a forçados dedos
o vento da luz sacode a árvore.
As veias da pedra,
o cinzel faz isto, são as veias dos cavalos
— e por trás das cabeças estelares respiram rosas.
Crianças, que sinistro enlevo, como percorrem
o círculo puro da guerra, entre escudos
e lanças. E algures,
ao meio da primavera lavrada,
dança a rapariga,
desdobra-se — um sopro move-lhe a cara
imovelmente branca. Mas a noite devagar,
de fora, natural, a noite de longe,
devora joelhos e ferraduras, a espuma que a mão
arranca de dentro
— a pálpebra grande do mundo que se vê defronte
da sua obra. Devora, a noite furiosamente externa
entrando,
não só a água suave e a máquina da guerra
e a soberba ondulação do fogo
nas formas,
mas a doce e dolorosa mão que ergueu a fábula.
por dedos e pensamento,
à obra? Abre uma coroa. A pedra fecha-se
na sua teia de água. Com tantos martelos secos,
com tanta idade louca, com tanta pedra
inteligente, com tanta mão aluada — o canteiro desentranha
outra mão: — A mão do nervo
da pedra, rosa
assustadora:
Que desentranha a prumo forte, em ebriedade
e inclinação de lua. Enxofre, sal, rosa
potente. — O canteiro é a sua
rosa, a sua
obra
desabrochada.
Abre a fonte no mármore, sob a forçados dedos
o vento da luz sacode a árvore.
As veias da pedra,
o cinzel faz isto, são as veias dos cavalos
— e por trás das cabeças estelares respiram rosas.
Crianças, que sinistro enlevo, como percorrem
o círculo puro da guerra, entre escudos
e lanças. E algures,
ao meio da primavera lavrada,
dança a rapariga,
desdobra-se — um sopro move-lhe a cara
imovelmente branca. Mas a noite devagar,
de fora, natural, a noite de longe,
devora joelhos e ferraduras, a espuma que a mão
arranca de dentro
— a pálpebra grande do mundo que se vê defronte
da sua obra. Devora, a noite furiosamente externa
entrando,
não só a água suave e a máquina da guerra
e a soberba ondulação do fogo
nas formas,
mas a doce e dolorosa mão que ergueu a fábula.
1 136
Herberto Helder
4I
O canteiro cheira à pedra. Da rosa cavada nela cheirará,
por dedos e pensamento,
à obra? Abre uma coroa. A pedra fecha-se
na sua teia de água. Com tantos martelos secos,
com tanta idade louca, com tanta pedra
inteligente, com tanta mão aluada — o canteiro desentranha
outra mão: — A mão do nervo
da pedra, rosa
assustadora:
Que desentranha a prumo forte, em ebriedade
e inclinação de lua. Enxofre, sal, rosa
potente. — O canteiro é a sua
rosa, a sua
obra
desabrochada.
Abre a fonte no mármore, sob a forçados dedos
o vento da luz sacode a árvore.
As veias da pedra,
o cinzel faz isto, são as veias dos cavalos
— e por trás das cabeças estelares respiram rosas.
Crianças, que sinistro enlevo, como percorrem
o círculo puro da guerra, entre escudos
e lanças. E algures,
ao meio da primavera lavrada,
dança a rapariga,
desdobra-se — um sopro move-lhe a cara
imovelmente branca. Mas a noite devagar,
de fora, natural, a noite de longe,
devora joelhos e ferraduras, a espuma que a mão
arranca de dentro
— a pálpebra grande do mundo que se vê defronte
da sua obra. Devora, a noite furiosamente externa
entrando,
não só a água suave e a máquina da guerra
e a soberba ondulação do fogo
nas formas,
mas a doce e dolorosa mão que ergueu a fábula.
por dedos e pensamento,
à obra? Abre uma coroa. A pedra fecha-se
na sua teia de água. Com tantos martelos secos,
com tanta idade louca, com tanta pedra
inteligente, com tanta mão aluada — o canteiro desentranha
outra mão: — A mão do nervo
da pedra, rosa
assustadora:
Que desentranha a prumo forte, em ebriedade
e inclinação de lua. Enxofre, sal, rosa
potente. — O canteiro é a sua
rosa, a sua
obra
desabrochada.
Abre a fonte no mármore, sob a forçados dedos
o vento da luz sacode a árvore.
As veias da pedra,
o cinzel faz isto, são as veias dos cavalos
— e por trás das cabeças estelares respiram rosas.
Crianças, que sinistro enlevo, como percorrem
o círculo puro da guerra, entre escudos
e lanças. E algures,
ao meio da primavera lavrada,
dança a rapariga,
desdobra-se — um sopro move-lhe a cara
imovelmente branca. Mas a noite devagar,
de fora, natural, a noite de longe,
devora joelhos e ferraduras, a espuma que a mão
arranca de dentro
— a pálpebra grande do mundo que se vê defronte
da sua obra. Devora, a noite furiosamente externa
entrando,
não só a água suave e a máquina da guerra
e a soberba ondulação do fogo
nas formas,
mas a doce e dolorosa mão que ergueu a fábula.
1 136
Herberto Helder
4I
O canteiro cheira à pedra. Da rosa cavada nela cheirará,
por dedos e pensamento,
à obra? Abre uma coroa. A pedra fecha-se
na sua teia de água. Com tantos martelos secos,
com tanta idade louca, com tanta pedra
inteligente, com tanta mão aluada — o canteiro desentranha
outra mão: — A mão do nervo
da pedra, rosa
assustadora:
Que desentranha a prumo forte, em ebriedade
e inclinação de lua. Enxofre, sal, rosa
potente. — O canteiro é a sua
rosa, a sua
obra
desabrochada.
Abre a fonte no mármore, sob a forçados dedos
o vento da luz sacode a árvore.
As veias da pedra,
o cinzel faz isto, são as veias dos cavalos
— e por trás das cabeças estelares respiram rosas.
Crianças, que sinistro enlevo, como percorrem
o círculo puro da guerra, entre escudos
e lanças. E algures,
ao meio da primavera lavrada,
dança a rapariga,
desdobra-se — um sopro move-lhe a cara
imovelmente branca. Mas a noite devagar,
de fora, natural, a noite de longe,
devora joelhos e ferraduras, a espuma que a mão
arranca de dentro
— a pálpebra grande do mundo que se vê defronte
da sua obra. Devora, a noite furiosamente externa
entrando,
não só a água suave e a máquina da guerra
e a soberba ondulação do fogo
nas formas,
mas a doce e dolorosa mão que ergueu a fábula.
por dedos e pensamento,
à obra? Abre uma coroa. A pedra fecha-se
na sua teia de água. Com tantos martelos secos,
com tanta idade louca, com tanta pedra
inteligente, com tanta mão aluada — o canteiro desentranha
outra mão: — A mão do nervo
da pedra, rosa
assustadora:
Que desentranha a prumo forte, em ebriedade
e inclinação de lua. Enxofre, sal, rosa
potente. — O canteiro é a sua
rosa, a sua
obra
desabrochada.
Abre a fonte no mármore, sob a forçados dedos
o vento da luz sacode a árvore.
As veias da pedra,
o cinzel faz isto, são as veias dos cavalos
— e por trás das cabeças estelares respiram rosas.
Crianças, que sinistro enlevo, como percorrem
o círculo puro da guerra, entre escudos
e lanças. E algures,
ao meio da primavera lavrada,
dança a rapariga,
desdobra-se — um sopro move-lhe a cara
imovelmente branca. Mas a noite devagar,
de fora, natural, a noite de longe,
devora joelhos e ferraduras, a espuma que a mão
arranca de dentro
— a pálpebra grande do mundo que se vê defronte
da sua obra. Devora, a noite furiosamente externa
entrando,
não só a água suave e a máquina da guerra
e a soberba ondulação do fogo
nas formas,
mas a doce e dolorosa mão que ergueu a fábula.
1 136
Herberto Helder
5B
Os tubos de que é feito o corpo,
os tubos violentos,
os turvos tubos de chumbo,
enche-os o ouro lírico, sensível, alquímico:
o luxo o luxo
— e só então o corpo é monstruoso.
os tubos violentos,
os turvos tubos de chumbo,
enche-os o ouro lírico, sensível, alquímico:
o luxo o luxo
— e só então o corpo é monstruoso.
743
Herberto Helder
5A
Gárgula.
Por dentro a chuva que a incha, por fora a pedra misteriosa
que a mantém suspensa.
E a boca demoníaca do prodígio despeja-se
no caos.
Esse animal erguido ao trono de uma estrela,
que se debruça para onde
escureço. Pelos flancos construo
a criatura. Onde corre o arrepio, das espáduas
para o fundo, com força atenta. Construo
aquela massa de tetas
e unhas, pela espinha, rosas abertas das guelras,
umbigo,
mandíbulas. Até ao centro da sua
árdua talha de estrela.
Seu buraco de água na minha boca.
E construindo falo.
Sou lírico, medonho.
Consagro-a no banho baptismal de um poema.
Inauguro.
Fora e dentro inauguro o nome de que morro.
Por dentro a chuva que a incha, por fora a pedra misteriosa
que a mantém suspensa.
E a boca demoníaca do prodígio despeja-se
no caos.
Esse animal erguido ao trono de uma estrela,
que se debruça para onde
escureço. Pelos flancos construo
a criatura. Onde corre o arrepio, das espáduas
para o fundo, com força atenta. Construo
aquela massa de tetas
e unhas, pela espinha, rosas abertas das guelras,
umbigo,
mandíbulas. Até ao centro da sua
árdua talha de estrela.
Seu buraco de água na minha boca.
E construindo falo.
Sou lírico, medonho.
Consagro-a no banho baptismal de um poema.
Inauguro.
Fora e dentro inauguro o nome de que morro.
598
Herberto Helder
5A
Gárgula.
Por dentro a chuva que a incha, por fora a pedra misteriosa
que a mantém suspensa.
E a boca demoníaca do prodígio despeja-se
no caos.
Esse animal erguido ao trono de uma estrela,
que se debruça para onde
escureço. Pelos flancos construo
a criatura. Onde corre o arrepio, das espáduas
para o fundo, com força atenta. Construo
aquela massa de tetas
e unhas, pela espinha, rosas abertas das guelras,
umbigo,
mandíbulas. Até ao centro da sua
árdua talha de estrela.
Seu buraco de água na minha boca.
E construindo falo.
Sou lírico, medonho.
Consagro-a no banho baptismal de um poema.
Inauguro.
Fora e dentro inauguro o nome de que morro.
Por dentro a chuva que a incha, por fora a pedra misteriosa
que a mantém suspensa.
E a boca demoníaca do prodígio despeja-se
no caos.
Esse animal erguido ao trono de uma estrela,
que se debruça para onde
escureço. Pelos flancos construo
a criatura. Onde corre o arrepio, das espáduas
para o fundo, com força atenta. Construo
aquela massa de tetas
e unhas, pela espinha, rosas abertas das guelras,
umbigo,
mandíbulas. Até ao centro da sua
árdua talha de estrela.
Seu buraco de água na minha boca.
E construindo falo.
Sou lírico, medonho.
Consagro-a no banho baptismal de um poema.
Inauguro.
Fora e dentro inauguro o nome de que morro.
598
Herberto Helder
5A
Gárgula.
Por dentro a chuva que a incha, por fora a pedra misteriosa
que a mantém suspensa.
E a boca demoníaca do prodígio despeja-se
no caos.
Esse animal erguido ao trono de uma estrela,
que se debruça para onde
escureço. Pelos flancos construo
a criatura. Onde corre o arrepio, das espáduas
para o fundo, com força atenta. Construo
aquela massa de tetas
e unhas, pela espinha, rosas abertas das guelras,
umbigo,
mandíbulas. Até ao centro da sua
árdua talha de estrela.
Seu buraco de água na minha boca.
E construindo falo.
Sou lírico, medonho.
Consagro-a no banho baptismal de um poema.
Inauguro.
Fora e dentro inauguro o nome de que morro.
Por dentro a chuva que a incha, por fora a pedra misteriosa
que a mantém suspensa.
E a boca demoníaca do prodígio despeja-se
no caos.
Esse animal erguido ao trono de uma estrela,
que se debruça para onde
escureço. Pelos flancos construo
a criatura. Onde corre o arrepio, das espáduas
para o fundo, com força atenta. Construo
aquela massa de tetas
e unhas, pela espinha, rosas abertas das guelras,
umbigo,
mandíbulas. Até ao centro da sua
árdua talha de estrela.
Seu buraco de água na minha boca.
E construindo falo.
Sou lírico, medonho.
Consagro-a no banho baptismal de um poema.
Inauguro.
Fora e dentro inauguro o nome de que morro.
598
Herberto Helder
5A
Gárgula.
Por dentro a chuva que a incha, por fora a pedra misteriosa
que a mantém suspensa.
E a boca demoníaca do prodígio despeja-se
no caos.
Esse animal erguido ao trono de uma estrela,
que se debruça para onde
escureço. Pelos flancos construo
a criatura. Onde corre o arrepio, das espáduas
para o fundo, com força atenta. Construo
aquela massa de tetas
e unhas, pela espinha, rosas abertas das guelras,
umbigo,
mandíbulas. Até ao centro da sua
árdua talha de estrela.
Seu buraco de água na minha boca.
E construindo falo.
Sou lírico, medonho.
Consagro-a no banho baptismal de um poema.
Inauguro.
Fora e dentro inauguro o nome de que morro.
Por dentro a chuva que a incha, por fora a pedra misteriosa
que a mantém suspensa.
E a boca demoníaca do prodígio despeja-se
no caos.
Esse animal erguido ao trono de uma estrela,
que se debruça para onde
escureço. Pelos flancos construo
a criatura. Onde corre o arrepio, das espáduas
para o fundo, com força atenta. Construo
aquela massa de tetas
e unhas, pela espinha, rosas abertas das guelras,
umbigo,
mandíbulas. Até ao centro da sua
árdua talha de estrela.
Seu buraco de água na minha boca.
E construindo falo.
Sou lírico, medonho.
Consagro-a no banho baptismal de um poema.
Inauguro.
Fora e dentro inauguro o nome de que morro.
598
Herberto Helder
2B
Ninguém se aproxima de ninguém se não for num murmúrio,
entre floras altas: camélias de ar
espancado, as labaredas dos aloés erguidas
de uma carne difícil.
A beleza que devora a visão alimenta-se da desordem.
O espaço brilha dela, sussurra quando passa por uma imagem
tão leve que não suporta o peso
brusco
do sangue — as veias da garganta contra a boca.
entre floras altas: camélias de ar
espancado, as labaredas dos aloés erguidas
de uma carne difícil.
A beleza que devora a visão alimenta-se da desordem.
O espaço brilha dela, sussurra quando passa por uma imagem
tão leve que não suporta o peso
brusco
do sangue — as veias da garganta contra a boca.
1 008
Herberto Helder
2B
Ninguém se aproxima de ninguém se não for num murmúrio,
entre floras altas: camélias de ar
espancado, as labaredas dos aloés erguidas
de uma carne difícil.
A beleza que devora a visão alimenta-se da desordem.
O espaço brilha dela, sussurra quando passa por uma imagem
tão leve que não suporta o peso
brusco
do sangue — as veias da garganta contra a boca.
entre floras altas: camélias de ar
espancado, as labaredas dos aloés erguidas
de uma carne difícil.
A beleza que devora a visão alimenta-se da desordem.
O espaço brilha dela, sussurra quando passa por uma imagem
tão leve que não suporta o peso
brusco
do sangue — as veias da garganta contra a boca.
1 008
Herberto Helder
5C
Pratiquei a minha arte de roseira: a fria
inclinação das rosas contra os dedos
iluminava em baixo
as palavras.
Abri-as até dentro onde era negro o coração
nas cápsulas. Das rosas fundas, da fundura nas palavras.
Transfigurei-as.
Na oficina fechada talhei a chaga meridiana
do que ficou aberto.
Escrevi a imagem que era a cicatriz de outra imagem.
A mão experimental transtornava-se ao serviço
escrito
das vozes. O sangue rodeava o segredo. E na sessão das rosas
dedo a dedo, isto: a fresta da carne,
a morte pela boca.
— Uma frase, uma ferida, uma vida selada.
1985, revisto em 1987.
inclinação das rosas contra os dedos
iluminava em baixo
as palavras.
Abri-as até dentro onde era negro o coração
nas cápsulas. Das rosas fundas, da fundura nas palavras.
Transfigurei-as.
Na oficina fechada talhei a chaga meridiana
do que ficou aberto.
Escrevi a imagem que era a cicatriz de outra imagem.
A mão experimental transtornava-se ao serviço
escrito
das vozes. O sangue rodeava o segredo. E na sessão das rosas
dedo a dedo, isto: a fresta da carne,
a morte pela boca.
— Uma frase, uma ferida, uma vida selada.
1985, revisto em 1987.
1 149
Herberto Helder
5C
Pratiquei a minha arte de roseira: a fria
inclinação das rosas contra os dedos
iluminava em baixo
as palavras.
Abri-as até dentro onde era negro o coração
nas cápsulas. Das rosas fundas, da fundura nas palavras.
Transfigurei-as.
Na oficina fechada talhei a chaga meridiana
do que ficou aberto.
Escrevi a imagem que era a cicatriz de outra imagem.
A mão experimental transtornava-se ao serviço
escrito
das vozes. O sangue rodeava o segredo. E na sessão das rosas
dedo a dedo, isto: a fresta da carne,
a morte pela boca.
— Uma frase, uma ferida, uma vida selada.
1985, revisto em 1987.
inclinação das rosas contra os dedos
iluminava em baixo
as palavras.
Abri-as até dentro onde era negro o coração
nas cápsulas. Das rosas fundas, da fundura nas palavras.
Transfigurei-as.
Na oficina fechada talhei a chaga meridiana
do que ficou aberto.
Escrevi a imagem que era a cicatriz de outra imagem.
A mão experimental transtornava-se ao serviço
escrito
das vozes. O sangue rodeava o segredo. E na sessão das rosas
dedo a dedo, isto: a fresta da carne,
a morte pela boca.
— Uma frase, uma ferida, uma vida selada.
1985, revisto em 1987.
1 149
Herberto Helder
5C
Pratiquei a minha arte de roseira: a fria
inclinação das rosas contra os dedos
iluminava em baixo
as palavras.
Abri-as até dentro onde era negro o coração
nas cápsulas. Das rosas fundas, da fundura nas palavras.
Transfigurei-as.
Na oficina fechada talhei a chaga meridiana
do que ficou aberto.
Escrevi a imagem que era a cicatriz de outra imagem.
A mão experimental transtornava-se ao serviço
escrito
das vozes. O sangue rodeava o segredo. E na sessão das rosas
dedo a dedo, isto: a fresta da carne,
a morte pela boca.
— Uma frase, uma ferida, uma vida selada.
1985, revisto em 1987.
inclinação das rosas contra os dedos
iluminava em baixo
as palavras.
Abri-as até dentro onde era negro o coração
nas cápsulas. Das rosas fundas, da fundura nas palavras.
Transfigurei-as.
Na oficina fechada talhei a chaga meridiana
do que ficou aberto.
Escrevi a imagem que era a cicatriz de outra imagem.
A mão experimental transtornava-se ao serviço
escrito
das vozes. O sangue rodeava o segredo. E na sessão das rosas
dedo a dedo, isto: a fresta da carne,
a morte pela boca.
— Uma frase, uma ferida, uma vida selada.
1985, revisto em 1987.
1 149
Herberto Helder
5C
Pratiquei a minha arte de roseira: a fria
inclinação das rosas contra os dedos
iluminava em baixo
as palavras.
Abri-as até dentro onde era negro o coração
nas cápsulas. Das rosas fundas, da fundura nas palavras.
Transfigurei-as.
Na oficina fechada talhei a chaga meridiana
do que ficou aberto.
Escrevi a imagem que era a cicatriz de outra imagem.
A mão experimental transtornava-se ao serviço
escrito
das vozes. O sangue rodeava o segredo. E na sessão das rosas
dedo a dedo, isto: a fresta da carne,
a morte pela boca.
— Uma frase, uma ferida, uma vida selada.
1985, revisto em 1987.
inclinação das rosas contra os dedos
iluminava em baixo
as palavras.
Abri-as até dentro onde era negro o coração
nas cápsulas. Das rosas fundas, da fundura nas palavras.
Transfigurei-as.
Na oficina fechada talhei a chaga meridiana
do que ficou aberto.
Escrevi a imagem que era a cicatriz de outra imagem.
A mão experimental transtornava-se ao serviço
escrito
das vozes. O sangue rodeava o segredo. E na sessão das rosas
dedo a dedo, isto: a fresta da carne,
a morte pela boca.
— Uma frase, uma ferida, uma vida selada.
1985, revisto em 1987.
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Herberto Helder
2C
Ficas toda perfumada de passar por baixo do vento que vem
do lado reluzente das laranjeiras.
E crepitam-me as pontas dos dedos ao supor-te no escuro.
Queimavas-me junto às unhas.
E a queimadura subia por antebraço e braço
ao coração sacudido. Eu — perfumado
e queimado por dentro: um laço feito de odor
transposto, ar fosforescendo, uma árvore
banhada
nocturnamente. Tudo em mim trazido
súbito
para o meio. Quando este saco de sangue rodava
defronte da abertura
prodigiosa.
do lado reluzente das laranjeiras.
E crepitam-me as pontas dos dedos ao supor-te no escuro.
Queimavas-me junto às unhas.
E a queimadura subia por antebraço e braço
ao coração sacudido. Eu — perfumado
e queimado por dentro: um laço feito de odor
transposto, ar fosforescendo, uma árvore
banhada
nocturnamente. Tudo em mim trazido
súbito
para o meio. Quando este saco de sangue rodava
defronte da abertura
prodigiosa.
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