Poemas neste tema
Outros
Herberto Helder
4
põem-se as salas ordenadas no compasso
das figuras, também se estabelece a noite idiomática,
com poros, furos, tubos, supuração
das tintas, pespontos rutilantes,
a lentidão tremenda dos aromas,
nem era luz primeiro, mas bateram
por entre as temperaturas,
vim quem ver, quem vir assim,
por climas climas climas, ora faiscando,
ora o frio se vestia,
os mapas a dizer todo o arco-voltaico,
um leque que o ouro penteava,
ramagens de álcool, nessa rede de sono onde o crânio,
escorre uma gota viva
de veneno, crepitam fungos, fogo alvo,
o espírito tem a lavoura da luz,
urdiduras nos cimos, minas, graus centígrados,
e em baixo as massas tensas da sonolência,
com suas úlceras, centopeias bruscas,
saber o que se esquece em som,
então sobem as salas, ferventes, brancas,
e o clima de Deus espancado de luz rara
das figuras, também se estabelece a noite idiomática,
com poros, furos, tubos, supuração
das tintas, pespontos rutilantes,
a lentidão tremenda dos aromas,
nem era luz primeiro, mas bateram
por entre as temperaturas,
vim quem ver, quem vir assim,
por climas climas climas, ora faiscando,
ora o frio se vestia,
os mapas a dizer todo o arco-voltaico,
um leque que o ouro penteava,
ramagens de álcool, nessa rede de sono onde o crânio,
escorre uma gota viva
de veneno, crepitam fungos, fogo alvo,
o espírito tem a lavoura da luz,
urdiduras nos cimos, minas, graus centígrados,
e em baixo as massas tensas da sonolência,
com suas úlceras, centopeias bruscas,
saber o que se esquece em som,
então sobem as salas, ferventes, brancas,
e o clima de Deus espancado de luz rara
599
Herberto Helder
4
põem-se as salas ordenadas no compasso
das figuras, também se estabelece a noite idiomática,
com poros, furos, tubos, supuração
das tintas, pespontos rutilantes,
a lentidão tremenda dos aromas,
nem era luz primeiro, mas bateram
por entre as temperaturas,
vim quem ver, quem vir assim,
por climas climas climas, ora faiscando,
ora o frio se vestia,
os mapas a dizer todo o arco-voltaico,
um leque que o ouro penteava,
ramagens de álcool, nessa rede de sono onde o crânio,
escorre uma gota viva
de veneno, crepitam fungos, fogo alvo,
o espírito tem a lavoura da luz,
urdiduras nos cimos, minas, graus centígrados,
e em baixo as massas tensas da sonolência,
com suas úlceras, centopeias bruscas,
saber o que se esquece em som,
então sobem as salas, ferventes, brancas,
e o clima de Deus espancado de luz rara
das figuras, também se estabelece a noite idiomática,
com poros, furos, tubos, supuração
das tintas, pespontos rutilantes,
a lentidão tremenda dos aromas,
nem era luz primeiro, mas bateram
por entre as temperaturas,
vim quem ver, quem vir assim,
por climas climas climas, ora faiscando,
ora o frio se vestia,
os mapas a dizer todo o arco-voltaico,
um leque que o ouro penteava,
ramagens de álcool, nessa rede de sono onde o crânio,
escorre uma gota viva
de veneno, crepitam fungos, fogo alvo,
o espírito tem a lavoura da luz,
urdiduras nos cimos, minas, graus centígrados,
e em baixo as massas tensas da sonolência,
com suas úlceras, centopeias bruscas,
saber o que se esquece em som,
então sobem as salas, ferventes, brancas,
e o clima de Deus espancado de luz rara
599
Herberto Helder
4
põem-se as salas ordenadas no compasso
das figuras, também se estabelece a noite idiomática,
com poros, furos, tubos, supuração
das tintas, pespontos rutilantes,
a lentidão tremenda dos aromas,
nem era luz primeiro, mas bateram
por entre as temperaturas,
vim quem ver, quem vir assim,
por climas climas climas, ora faiscando,
ora o frio se vestia,
os mapas a dizer todo o arco-voltaico,
um leque que o ouro penteava,
ramagens de álcool, nessa rede de sono onde o crânio,
escorre uma gota viva
de veneno, crepitam fungos, fogo alvo,
o espírito tem a lavoura da luz,
urdiduras nos cimos, minas, graus centígrados,
e em baixo as massas tensas da sonolência,
com suas úlceras, centopeias bruscas,
saber o que se esquece em som,
então sobem as salas, ferventes, brancas,
e o clima de Deus espancado de luz rara
das figuras, também se estabelece a noite idiomática,
com poros, furos, tubos, supuração
das tintas, pespontos rutilantes,
a lentidão tremenda dos aromas,
nem era luz primeiro, mas bateram
por entre as temperaturas,
vim quem ver, quem vir assim,
por climas climas climas, ora faiscando,
ora o frio se vestia,
os mapas a dizer todo o arco-voltaico,
um leque que o ouro penteava,
ramagens de álcool, nessa rede de sono onde o crânio,
escorre uma gota viva
de veneno, crepitam fungos, fogo alvo,
o espírito tem a lavoura da luz,
urdiduras nos cimos, minas, graus centígrados,
e em baixo as massas tensas da sonolência,
com suas úlceras, centopeias bruscas,
saber o que se esquece em som,
então sobem as salas, ferventes, brancas,
e o clima de Deus espancado de luz rara
599
Herberto Helder
Poemas Arabico-Andaluzes - a Lua
A lua é um espelho empanado pelo hálito das raparigas.
E a noite veste-se com o seu brilho como a negra tinta se veste com o
papel branco.
E a noite veste-se com o seu brilho como a negra tinta se veste com o
papel branco.
1 290
Herberto Helder
Canções de Camponeses do Japão - Lírio
O corpo deitado do meu amante,
vi-o eu esta manhã:
na planície do quinto mês,
um lírio aberto!
vi-o eu esta manhã:
na planície do quinto mês,
um lírio aberto!
1 072
Herberto Helder
Canções de Camponeses do Japão - Lírio
O corpo deitado do meu amante,
vi-o eu esta manhã:
na planície do quinto mês,
um lírio aberto!
vi-o eu esta manhã:
na planície do quinto mês,
um lírio aberto!
1 072
Herberto Helder
Poemas Dos Peles-Vermelhas - a Obscuridade
Esperamos na obscuridade.
Vinde, vós que escutais, vinde
saudar-nos na viagem nocturna:
nenhum sol agora brilha,
nem luz agora nenhuma estrela.
Vinde, ó vós, mostrar-nos o caminho:
que a noite secreta é inimiga,
a noite que fecha as próprias pálpebras.
E eis como a noite inteiramente nos esqueceu.
E esperamos, esperamos, na obscuridade.
Vinde, vós que escutais, vinde
saudar-nos na viagem nocturna:
nenhum sol agora brilha,
nem luz agora nenhuma estrela.
Vinde, ó vós, mostrar-nos o caminho:
que a noite secreta é inimiga,
a noite que fecha as próprias pálpebras.
E eis como a noite inteiramente nos esqueceu.
E esperamos, esperamos, na obscuridade.
1 039
Herberto Helder
10
tudo se espalha num impulso curvamente
branco, a crista aberta com silêncio
fulgurante, a imagem que agoniza,
e logo o tempo caído
num espaço sem tempo, freme
a fonte algures simultânea, e a voz
num sulco de sangue criminal,
sobre os pulmões o rítmico decalque carbonizado,
nervos queimando
a lentidão da cabeça pululante
em toda a parte, animal,
sonolência vibrante, uma auréola selvagem
sobre a febre, e pinhas
de ouro incrustadas,
inocentes, o perpassar atroz
de antigas noites saindo para as luzes
frias, de alto a baixo os órgãos doces
fendidos pela faca milagrosa, a loucura,
gota a gota se destila a droga nesta coisa viva,
a dor de ter um rosto a tremer
no mundo, entre planos de noite e planos
de luz parados sobre a agonia,
águas de Deus correm numa paisagem
geral e obsessiva, e no terror de uma brancura explosiva,
a morte ao alto, fixa
1970
branco, a crista aberta com silêncio
fulgurante, a imagem que agoniza,
e logo o tempo caído
num espaço sem tempo, freme
a fonte algures simultânea, e a voz
num sulco de sangue criminal,
sobre os pulmões o rítmico decalque carbonizado,
nervos queimando
a lentidão da cabeça pululante
em toda a parte, animal,
sonolência vibrante, uma auréola selvagem
sobre a febre, e pinhas
de ouro incrustadas,
inocentes, o perpassar atroz
de antigas noites saindo para as luzes
frias, de alto a baixo os órgãos doces
fendidos pela faca milagrosa, a loucura,
gota a gota se destila a droga nesta coisa viva,
a dor de ter um rosto a tremer
no mundo, entre planos de noite e planos
de luz parados sobre a agonia,
águas de Deus correm numa paisagem
geral e obsessiva, e no terror de uma brancura explosiva,
a morte ao alto, fixa
1970
523
Herberto Helder
Canções Indonésias
Perdi uma pérola na erva.
Pérola perdida que guarda o seu oculto oriente.
— O amor àquela que amo um dia se perderá:
pérola de orvalho que morre e que fulgura.
Formigas vermelhas no bambu vazio, vaso
repleto de essência de rosas —
se a luxúria enche o meu corpo fundo,
apenas minha amada o pode esvaziar.
Ouve-se a água bater no coração do coco verde,
e enquanto amadurece, o dúrio guarda os seus segredos.
Eu sei porque te quero nas minhas mãos,
mas tu ignoras porque te queres na minha boca.
Abre o fruto de odor inquietante,
e nunca, nunca mais te poderás saciar.
Os caroços escorregam como ovos debaixo dos teus dedos.
O sumo é forte e doce como o alho e o leite.
Aos milhares voam os pombos
um apenas vem pousar na minha cerca.
— Eu queria morrer na ponta da tua unha,
queria ser enterrado na palma da tua mão.
Se até vós subir o movimento das águas,
querereis um com o outro vos banhar? —
E se até vós subir o movimento da morte,
querereis um com o outro vos banhar?
Pérola perdida que guarda o seu oculto oriente.
— O amor àquela que amo um dia se perderá:
pérola de orvalho que morre e que fulgura.
Formigas vermelhas no bambu vazio, vaso
repleto de essência de rosas —
se a luxúria enche o meu corpo fundo,
apenas minha amada o pode esvaziar.
Ouve-se a água bater no coração do coco verde,
e enquanto amadurece, o dúrio guarda os seus segredos.
Eu sei porque te quero nas minhas mãos,
mas tu ignoras porque te queres na minha boca.
Abre o fruto de odor inquietante,
e nunca, nunca mais te poderás saciar.
Os caroços escorregam como ovos debaixo dos teus dedos.
O sumo é forte e doce como o alho e o leite.
Aos milhares voam os pombos
um apenas vem pousar na minha cerca.
— Eu queria morrer na ponta da tua unha,
queria ser enterrado na palma da tua mão.
Se até vós subir o movimento das águas,
querereis um com o outro vos banhar? —
E se até vós subir o movimento da morte,
querereis um com o outro vos banhar?
1 048
Herberto Helder
Poemas Arabico-Andaluzes - a Cegonha
Emigrante de outras terras, que anuncia o tempo,
que desdobra as asas de ébano, e despe o corpo de marfim, e ri claro com
bico de sândalo.
que desdobra as asas de ébano, e despe o corpo de marfim, e ri claro com
bico de sândalo.
1 344
Herberto Helder
Poemas Arabico-Andaluzes - a Cegonha
Emigrante de outras terras, que anuncia o tempo,
que desdobra as asas de ébano, e despe o corpo de marfim, e ri claro com
bico de sândalo.
que desdobra as asas de ébano, e despe o corpo de marfim, e ri claro com
bico de sândalo.
1 344
Herberto Helder
Poemas Dos Peles-Vermelhas - Canção de Amor
Esta mulher é formosa
como uma flor da montanha,
mas é fria, fria, e é fria
como a margem de neve
onde fria floresce.
como uma flor da montanha,
mas é fria, fria, e é fria
como a margem de neve
onde fria floresce.
1 164
Herberto Helder
Poemas Dos Peles-Vermelhas - Canção de Amor
Esta mulher é formosa
como uma flor da montanha,
mas é fria, fria, e é fria
como a margem de neve
onde fria floresce.
como uma flor da montanha,
mas é fria, fria, e é fria
como a margem de neve
onde fria floresce.
1 164
Herberto Helder
Poemas Arabico-Andaluzes - o Rio
Belo deslizava o rio no seu leito, e melhor seria nele mergulhar a boca
do que mergulhá-la numa boca de mulher.
curvado como uma pulseira, rodeado pelas flores como uma Via-Láctea.
Estreitava-se às vezes até parecer um pesponto de prata numa túnica
verde.
Cercavam-no os ramos como pestanas em volta de uma pupila garça.
O vento batia nos ramos, ondulava o ouro do crepúsculo sobre a prata da
água.
Enquanto na margem eu distribuía vinho dourado cujo reflexo mordia as
mãos dos convivas.
do que mergulhá-la numa boca de mulher.
curvado como uma pulseira, rodeado pelas flores como uma Via-Láctea.
Estreitava-se às vezes até parecer um pesponto de prata numa túnica
verde.
Cercavam-no os ramos como pestanas em volta de uma pupila garça.
O vento batia nos ramos, ondulava o ouro do crepúsculo sobre a prata da
água.
Enquanto na margem eu distribuía vinho dourado cujo reflexo mordia as
mãos dos convivas.
1 062
Herberto Helder
Poemas Arabico-Andaluzes - Bolhas
Quando o encheram de vinho, inflamou-se o jarro, vestindo-se com uma
túnica de chamas.
E maravilharam-se os olhos, quando ao de cima vieram as bolhas:
Granizo sobre vivas chamas, granizo que nascia do próprio coração das
brasas.
túnica de chamas.
E maravilharam-se os olhos, quando ao de cima vieram as bolhas:
Granizo sobre vivas chamas, granizo que nascia do próprio coração das
brasas.
1 136
Herberto Helder
Poemas Arabico-Andaluzes - Bolhas
Quando o encheram de vinho, inflamou-se o jarro, vestindo-se com uma
túnica de chamas.
E maravilharam-se os olhos, quando ao de cima vieram as bolhas:
Granizo sobre vivas chamas, granizo que nascia do próprio coração das
brasas.
túnica de chamas.
E maravilharam-se os olhos, quando ao de cima vieram as bolhas:
Granizo sobre vivas chamas, granizo que nascia do próprio coração das
brasas.
1 136
Herberto Helder
Canção da Cabília
Leve, aparece na dança —
e ninguém lhe sabe o nome.
Vai e vem entre os seus peitos
um amuleto de prata.
Mergulha fundo na dança.
Tilintam em seus artelhos
muitas argolas de prata.
— Foi por ela que vendi
um pomar de macieiras.
Ela cai dentro da dança,
e abrem-se ao meio os cabelos.
— Foi por ela que vendi
o meu olival antigo.
Vai até ao centro da dança.
Cintila, vivo, um colar.
— Foi por ela que vendi
o meu campo de figueiras.
E no coração da dança
todo um sorriso a enflora.
Foi por ela que vendi
um milhão de laranjeiras
e ninguém lhe sabe o nome.
Vai e vem entre os seus peitos
um amuleto de prata.
Mergulha fundo na dança.
Tilintam em seus artelhos
muitas argolas de prata.
— Foi por ela que vendi
um pomar de macieiras.
Ela cai dentro da dança,
e abrem-se ao meio os cabelos.
— Foi por ela que vendi
o meu olival antigo.
Vai até ao centro da dança.
Cintila, vivo, um colar.
— Foi por ela que vendi
o meu campo de figueiras.
E no coração da dança
todo um sorriso a enflora.
Foi por ela que vendi
um milhão de laranjeiras
1 023
Herberto Helder
Poemas Dos Peles-Vermelhas - Dons do Amante
Sobre a tua cabeleira hei-de pôr, para as núpcias,
uma coroa de borboletas com suas
asas pintadas.
Terás de volta ao pescoço flores de abóbora,
em prata,
e a lua que para ti noites e noites forjei.
Andarás pelo povo sobre um cavalo em turquesa.
Um cavalo ardente e leve, animado
pelo meu fogo de amor.
E a teus pés eu lançarei uma pedra quente quente:
o coração onde correm
milhões de gotas de sangue.
uma coroa de borboletas com suas
asas pintadas.
Terás de volta ao pescoço flores de abóbora,
em prata,
e a lua que para ti noites e noites forjei.
Andarás pelo povo sobre um cavalo em turquesa.
Um cavalo ardente e leve, animado
pelo meu fogo de amor.
E a teus pés eu lançarei uma pedra quente quente:
o coração onde correm
milhões de gotas de sangue.
1 254
Herberto Helder
Canções de Camponeses do Japão - As Três Claridades
A Lua a leste,
a oeste as Pléiades,
o meu amado
ao meio.
a oeste as Pléiades,
o meu amado
ao meio.
1 076
Herberto Helder
Poemas Arabico-Andaluzes - o Nadador Negro
Nadava um negro num lago, através de cujas límpidas águas se viam as
pedras do fundo.
Tinha o lago a forma de uma íris azul de que o negro era a pupila.
pedras do fundo.
Tinha o lago a forma de uma íris azul de que o negro era a pupila.
1 132
Herberto Helder
Poemas Arabico-Andaluzes - Os Jarros
Pesados eram os jarros, mas quando os encheram de vinho puro,
tornaram-se leves, e quase levantaram voo com sua carga preciosa, do
mesmo modo que os corpos se aligeiram com os espíritos.
tornaram-se leves, e quase levantaram voo com sua carga preciosa, do
mesmo modo que os corpos se aligeiram com os espíritos.
1 085
Herberto Helder
6
animais rompendo as barreiras do sono,
os espigões no ar, carregado o sangue
em baixo,
orquídeas a caminhar com as cabeças cruéis,
por trás dos ossos escorregava o mel negro,
a fulva devassidão mamífera,
imprimiam nas áreas actuais suas passagens
leves, delirantes, quadrúpedes, obscuras,
franjas tremiam,
uma aura amarela equilibrava o espaço animal,
um buraco de respiração, braçada de odor
rápido,
rompiam o sono, as espadanas transparentes na pele,
uma luz transpirada,
mexiam-se pela alvura varrida,
cravados quando aplainado o ar na película,
cerimónia fervilhando de ouro
na sombra, balanço ritual dos êmbolos,
a combustão dos pêlos perfurando as cabeças,
coar do tempo gota
a gota, café cerrado, e depois
tubos de pedra onde o som ferve
e a qualidade ligeira e forte da matéria se transvia
os espigões no ar, carregado o sangue
em baixo,
orquídeas a caminhar com as cabeças cruéis,
por trás dos ossos escorregava o mel negro,
a fulva devassidão mamífera,
imprimiam nas áreas actuais suas passagens
leves, delirantes, quadrúpedes, obscuras,
franjas tremiam,
uma aura amarela equilibrava o espaço animal,
um buraco de respiração, braçada de odor
rápido,
rompiam o sono, as espadanas transparentes na pele,
uma luz transpirada,
mexiam-se pela alvura varrida,
cravados quando aplainado o ar na película,
cerimónia fervilhando de ouro
na sombra, balanço ritual dos êmbolos,
a combustão dos pêlos perfurando as cabeças,
coar do tempo gota
a gota, café cerrado, e depois
tubos de pedra onde o som ferve
e a qualidade ligeira e forte da matéria se transvia
904
Herberto Helder
Poemas Dos Peles-Vermelhas - a Puberdade
Sai depressa, depressa.
Já quase morrem esta noite os ecos.
Mulher virgem, mulher virgem não tem sono.
Vela, veia, através da noite.
Áspero e gigante, o cacto despedaçado:
e minhas penas caídas elevam-se no ar,
mais alto que o cume do monte da Mesa.
E eis que o jovem moveu as pedras sonoras,
e a mulher ouviu, e não pôde dormir.
E partiram-se as unhas de meus pés.
Quando eu passava, tombaram os ramos da noite,
e quebraram-me as penas.
Já quase morrem esta noite os ecos.
Mulher virgem, mulher virgem não tem sono.
Vela, veia, através da noite.
Áspero e gigante, o cacto despedaçado:
e minhas penas caídas elevam-se no ar,
mais alto que o cume do monte da Mesa.
E eis que o jovem moveu as pedras sonoras,
e a mulher ouviu, e não pôde dormir.
E partiram-se as unhas de meus pés.
Quando eu passava, tombaram os ramos da noite,
e quebraram-me as penas.
1 131
Herberto Helder
1
o texto assim coagulado, alusivas braçadas
de luz no ar fotografadas respirando,
a escrita, pavorosa delicadeza a progredir,
enxuta, imóvel gravidade,
o território todo devastado pelos brancos
tumultos do estio,
nem o discurso mortal trespassado de láudano,
nem a vertigem de um odor de permanganato,
caligrafia a escaldar, cassiopeia fina,
largura afogada por uma velocidade,
enquanto a acentuar-se em vóltios de magnésio,
e essa crispada lentidão, acetilene que subia,
apurando o pesponto feroz,
a sintaxe como idade,
chegava em frio meandro o álcool à memória,
esponja a fulgurar lá dentro, num buraco,
a congestão da crista sobre o pensamento,
cabeça encharcada,
os regatos da droga rutilando, óleo cândido,
espécie de fotografia perfurada, escorre o veneno,
e então exalta-se o mel algures quieto,
linhas arquejam, costura-se o ar, atormentado
de luz no ar fotografadas respirando,
a escrita, pavorosa delicadeza a progredir,
enxuta, imóvel gravidade,
o território todo devastado pelos brancos
tumultos do estio,
nem o discurso mortal trespassado de láudano,
nem a vertigem de um odor de permanganato,
caligrafia a escaldar, cassiopeia fina,
largura afogada por uma velocidade,
enquanto a acentuar-se em vóltios de magnésio,
e essa crispada lentidão, acetilene que subia,
apurando o pesponto feroz,
a sintaxe como idade,
chegava em frio meandro o álcool à memória,
esponja a fulgurar lá dentro, num buraco,
a congestão da crista sobre o pensamento,
cabeça encharcada,
os regatos da droga rutilando, óleo cândido,
espécie de fotografia perfurada, escorre o veneno,
e então exalta-se o mel algures quieto,
linhas arquejam, costura-se o ar, atormentado
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