Poemas neste tema
Outros
Herberto Helder
61
faúlha e o ar à volta dela,
a sêca violência da jóia,
e a crua boca doendo daquilo que fica dito,
unhas da mão que mediu o mundo,
quando se trabalha a poder de iluminação sabe-se em certos
dias agudos,
roubados ao tema do sopro,
abre-se o ar e a luz avança,
e sabe-se tão pouco do que se vê e escuta muito,
jóia e o seu nome, a córte vivo, ambos crepitam, ou outra coisa
assim que se não sabe nunca,
e fica escrita
a sêca violência da jóia,
e a crua boca doendo daquilo que fica dito,
unhas da mão que mediu o mundo,
quando se trabalha a poder de iluminação sabe-se em certos
dias agudos,
roubados ao tema do sopro,
abre-se o ar e a luz avança,
e sabe-se tão pouco do que se vê e escuta muito,
jóia e o seu nome, a córte vivo, ambos crepitam, ou outra coisa
assim que se não sabe nunca,
e fica escrita
510
Herberto Helder
61
faúlha e o ar à volta dela,
a sêca violência da jóia,
e a crua boca doendo daquilo que fica dito,
unhas da mão que mediu o mundo,
quando se trabalha a poder de iluminação sabe-se em certos
dias agudos,
roubados ao tema do sopro,
abre-se o ar e a luz avança,
e sabe-se tão pouco do que se vê e escuta muito,
jóia e o seu nome, a córte vivo, ambos crepitam, ou outra coisa
assim que se não sabe nunca,
e fica escrita
a sêca violência da jóia,
e a crua boca doendo daquilo que fica dito,
unhas da mão que mediu o mundo,
quando se trabalha a poder de iluminação sabe-se em certos
dias agudos,
roubados ao tema do sopro,
abre-se o ar e a luz avança,
e sabe-se tão pouco do que se vê e escuta muito,
jóia e o seu nome, a córte vivo, ambos crepitam, ou outra coisa
assim que se não sabe nunca,
e fica escrita
510
Herberto Helder
63
resposta a uma carta
gloria in excelsis, a minha língua na tua língua,
também eu queria escrever um poema maior que o mundo,
escrevê-lo com o mais verbal e primeiro de mim mesmo,
o mais irrefutável,
quem do caos ouvisse subir os cantantes capítulos,
quem dessa altura do nome tirasse uma língua para confundir
qualquer poema escrito em bárbaro soberbíssimo,
eu que disse: nas inexpugnáveis retretes da terra casam-se língua
e poesia,
não tenho qualquer memória nupcial:
retretes graves, há sempre;
português, menos;
poesia, faz tempo que não conheço nenhuma,
quero dizer: ílima, íssima, poesia superlativa absoluta simples ou
sintética indizível,
ponta com ponta tocando-se dentro da boca,
é por lá que se apura em leveza e quilate o elemento ouro:
toca-me lábil,
língua,
alerta, silvestre, tão como vais morrer,
com menos favor, menos condição, menos poder que todos os
fenómenos da língua e do mundo,
mas se é mister que te salves,
faz então um mistério e não te salves para ninguém,
porque tu és mais surgida,
mais sucessiva,
mais falada em música,
com mais atenção inspirada, digo,
tudo por começar és com mais respiração:
melhor é saliva língua na língua do que revolvê-la em poemas maiores
ou falá-la,
na vida pessoal de repente uma língua encontrada,
sabe-se como todos morrem pela boca,
espero não encontrá-la nunca,
espero mesmo não encontrar a mão de Deus,
a sua mão esquerda,
o poema galáctico que escreveu era ainda infante,
espero nada encontrar faiscando nas trevas aquando da ressurreição
frente às riquezas dos reinos,
a minha língua na tua língua em todos os sentidos sagrados e profano:
saliva, muita, e temperatura animal
gloria in excelsis, a minha língua na tua língua,
também eu queria escrever um poema maior que o mundo,
escrevê-lo com o mais verbal e primeiro de mim mesmo,
o mais irrefutável,
quem do caos ouvisse subir os cantantes capítulos,
quem dessa altura do nome tirasse uma língua para confundir
qualquer poema escrito em bárbaro soberbíssimo,
eu que disse: nas inexpugnáveis retretes da terra casam-se língua
e poesia,
não tenho qualquer memória nupcial:
retretes graves, há sempre;
português, menos;
poesia, faz tempo que não conheço nenhuma,
quero dizer: ílima, íssima, poesia superlativa absoluta simples ou
sintética indizível,
ponta com ponta tocando-se dentro da boca,
é por lá que se apura em leveza e quilate o elemento ouro:
toca-me lábil,
língua,
alerta, silvestre, tão como vais morrer,
com menos favor, menos condição, menos poder que todos os
fenómenos da língua e do mundo,
mas se é mister que te salves,
faz então um mistério e não te salves para ninguém,
porque tu és mais surgida,
mais sucessiva,
mais falada em música,
com mais atenção inspirada, digo,
tudo por começar és com mais respiração:
melhor é saliva língua na língua do que revolvê-la em poemas maiores
ou falá-la,
na vida pessoal de repente uma língua encontrada,
sabe-se como todos morrem pela boca,
espero não encontrá-la nunca,
espero mesmo não encontrar a mão de Deus,
a sua mão esquerda,
o poema galáctico que escreveu era ainda infante,
espero nada encontrar faiscando nas trevas aquando da ressurreição
frente às riquezas dos reinos,
a minha língua na tua língua em todos os sentidos sagrados e profano:
saliva, muita, e temperatura animal
1 254
Herberto Helder
63
resposta a uma carta
gloria in excelsis, a minha língua na tua língua,
também eu queria escrever um poema maior que o mundo,
escrevê-lo com o mais verbal e primeiro de mim mesmo,
o mais irrefutável,
quem do caos ouvisse subir os cantantes capítulos,
quem dessa altura do nome tirasse uma língua para confundir
qualquer poema escrito em bárbaro soberbíssimo,
eu que disse: nas inexpugnáveis retretes da terra casam-se língua
e poesia,
não tenho qualquer memória nupcial:
retretes graves, há sempre;
português, menos;
poesia, faz tempo que não conheço nenhuma,
quero dizer: ílima, íssima, poesia superlativa absoluta simples ou
sintética indizível,
ponta com ponta tocando-se dentro da boca,
é por lá que se apura em leveza e quilate o elemento ouro:
toca-me lábil,
língua,
alerta, silvestre, tão como vais morrer,
com menos favor, menos condição, menos poder que todos os
fenómenos da língua e do mundo,
mas se é mister que te salves,
faz então um mistério e não te salves para ninguém,
porque tu és mais surgida,
mais sucessiva,
mais falada em música,
com mais atenção inspirada, digo,
tudo por começar és com mais respiração:
melhor é saliva língua na língua do que revolvê-la em poemas maiores
ou falá-la,
na vida pessoal de repente uma língua encontrada,
sabe-se como todos morrem pela boca,
espero não encontrá-la nunca,
espero mesmo não encontrar a mão de Deus,
a sua mão esquerda,
o poema galáctico que escreveu era ainda infante,
espero nada encontrar faiscando nas trevas aquando da ressurreição
frente às riquezas dos reinos,
a minha língua na tua língua em todos os sentidos sagrados e profano:
saliva, muita, e temperatura animal
gloria in excelsis, a minha língua na tua língua,
também eu queria escrever um poema maior que o mundo,
escrevê-lo com o mais verbal e primeiro de mim mesmo,
o mais irrefutável,
quem do caos ouvisse subir os cantantes capítulos,
quem dessa altura do nome tirasse uma língua para confundir
qualquer poema escrito em bárbaro soberbíssimo,
eu que disse: nas inexpugnáveis retretes da terra casam-se língua
e poesia,
não tenho qualquer memória nupcial:
retretes graves, há sempre;
português, menos;
poesia, faz tempo que não conheço nenhuma,
quero dizer: ílima, íssima, poesia superlativa absoluta simples ou
sintética indizível,
ponta com ponta tocando-se dentro da boca,
é por lá que se apura em leveza e quilate o elemento ouro:
toca-me lábil,
língua,
alerta, silvestre, tão como vais morrer,
com menos favor, menos condição, menos poder que todos os
fenómenos da língua e do mundo,
mas se é mister que te salves,
faz então um mistério e não te salves para ninguém,
porque tu és mais surgida,
mais sucessiva,
mais falada em música,
com mais atenção inspirada, digo,
tudo por começar és com mais respiração:
melhor é saliva língua na língua do que revolvê-la em poemas maiores
ou falá-la,
na vida pessoal de repente uma língua encontrada,
sabe-se como todos morrem pela boca,
espero não encontrá-la nunca,
espero mesmo não encontrar a mão de Deus,
a sua mão esquerda,
o poema galáctico que escreveu era ainda infante,
espero nada encontrar faiscando nas trevas aquando da ressurreição
frente às riquezas dos reinos,
a minha língua na tua língua em todos os sentidos sagrados e profano:
saliva, muita, e temperatura animal
1 254
Herberto Helder
63
resposta a uma carta
gloria in excelsis, a minha língua na tua língua,
também eu queria escrever um poema maior que o mundo,
escrevê-lo com o mais verbal e primeiro de mim mesmo,
o mais irrefutável,
quem do caos ouvisse subir os cantantes capítulos,
quem dessa altura do nome tirasse uma língua para confundir
qualquer poema escrito em bárbaro soberbíssimo,
eu que disse: nas inexpugnáveis retretes da terra casam-se língua
e poesia,
não tenho qualquer memória nupcial:
retretes graves, há sempre;
português, menos;
poesia, faz tempo que não conheço nenhuma,
quero dizer: ílima, íssima, poesia superlativa absoluta simples ou
sintética indizível,
ponta com ponta tocando-se dentro da boca,
é por lá que se apura em leveza e quilate o elemento ouro:
toca-me lábil,
língua,
alerta, silvestre, tão como vais morrer,
com menos favor, menos condição, menos poder que todos os
fenómenos da língua e do mundo,
mas se é mister que te salves,
faz então um mistério e não te salves para ninguém,
porque tu és mais surgida,
mais sucessiva,
mais falada em música,
com mais atenção inspirada, digo,
tudo por começar és com mais respiração:
melhor é saliva língua na língua do que revolvê-la em poemas maiores
ou falá-la,
na vida pessoal de repente uma língua encontrada,
sabe-se como todos morrem pela boca,
espero não encontrá-la nunca,
espero mesmo não encontrar a mão de Deus,
a sua mão esquerda,
o poema galáctico que escreveu era ainda infante,
espero nada encontrar faiscando nas trevas aquando da ressurreição
frente às riquezas dos reinos,
a minha língua na tua língua em todos os sentidos sagrados e profano:
saliva, muita, e temperatura animal
gloria in excelsis, a minha língua na tua língua,
também eu queria escrever um poema maior que o mundo,
escrevê-lo com o mais verbal e primeiro de mim mesmo,
o mais irrefutável,
quem do caos ouvisse subir os cantantes capítulos,
quem dessa altura do nome tirasse uma língua para confundir
qualquer poema escrito em bárbaro soberbíssimo,
eu que disse: nas inexpugnáveis retretes da terra casam-se língua
e poesia,
não tenho qualquer memória nupcial:
retretes graves, há sempre;
português, menos;
poesia, faz tempo que não conheço nenhuma,
quero dizer: ílima, íssima, poesia superlativa absoluta simples ou
sintética indizível,
ponta com ponta tocando-se dentro da boca,
é por lá que se apura em leveza e quilate o elemento ouro:
toca-me lábil,
língua,
alerta, silvestre, tão como vais morrer,
com menos favor, menos condição, menos poder que todos os
fenómenos da língua e do mundo,
mas se é mister que te salves,
faz então um mistério e não te salves para ninguém,
porque tu és mais surgida,
mais sucessiva,
mais falada em música,
com mais atenção inspirada, digo,
tudo por começar és com mais respiração:
melhor é saliva língua na língua do que revolvê-la em poemas maiores
ou falá-la,
na vida pessoal de repente uma língua encontrada,
sabe-se como todos morrem pela boca,
espero não encontrá-la nunca,
espero mesmo não encontrar a mão de Deus,
a sua mão esquerda,
o poema galáctico que escreveu era ainda infante,
espero nada encontrar faiscando nas trevas aquando da ressurreição
frente às riquezas dos reinos,
a minha língua na tua língua em todos os sentidos sagrados e profano:
saliva, muita, e temperatura animal
1 254
Herberto Helder
28
mas como: um pequeno poema com um relâmpago íngreme e
instantâneo entre as linhas,
pau puro, ar
balançado, laranja,
a mais limpa chama coada pela árvore,
e a noite devora o mundo,
e eu reluzo,
as varas requeimadas contra as grandes fábricas da água,
até à mesa onde escrevo?
instantâneo entre as linhas,
pau puro, ar
balançado, laranja,
a mais limpa chama coada pela árvore,
e a noite devora o mundo,
e eu reluzo,
as varas requeimadas contra as grandes fábricas da água,
até à mesa onde escrevo?
918
Herberto Helder
28
mas como: um pequeno poema com um relâmpago íngreme e
instantâneo entre as linhas,
pau puro, ar
balançado, laranja,
a mais limpa chama coada pela árvore,
e a noite devora o mundo,
e eu reluzo,
as varas requeimadas contra as grandes fábricas da água,
até à mesa onde escrevo?
instantâneo entre as linhas,
pau puro, ar
balançado, laranja,
a mais limpa chama coada pela árvore,
e a noite devora o mundo,
e eu reluzo,
as varas requeimadas contra as grandes fábricas da água,
até à mesa onde escrevo?
918
Herberto Helder
28
mas como: um pequeno poema com um relâmpago íngreme e
instantâneo entre as linhas,
pau puro, ar
balançado, laranja,
a mais limpa chama coada pela árvore,
e a noite devora o mundo,
e eu reluzo,
as varas requeimadas contra as grandes fábricas da água,
até à mesa onde escrevo?
instantâneo entre as linhas,
pau puro, ar
balançado, laranja,
a mais limpa chama coada pela árvore,
e a noite devora o mundo,
e eu reluzo,
as varas requeimadas contra as grandes fábricas da água,
até à mesa onde escrevo?
918
Herberto Helder
26
rosto de osso, cabelo rude, boca agra,
e tão escuro em baixo até em
cima a linha
de ignição das pupilas
em que te hás-de tornar, em que nome, com que
potência e inclinação de cabeça?
o rosto muito, o ofício turvo, o génio, o jogo,
as mãos inexplicáveis,
a luz nas mãos faz raiar os dedos,
que a luz se desenvolva,
e a madeira se enrole sobre si mesma e teça e esconda a obra
e retorne e abra e mostre então
a abundância intrínseca,
porque se eriça num arrepio e se alvoroça
o espaço, e brilha quando,
no dia global,
espacial, no visível,
o caos alimenta a ordem estilística:
iluminação,
razão de obra de dentro para fora
— mais um estio até que a força da fruta remate a forma
e tão escuro em baixo até em
cima a linha
de ignição das pupilas
em que te hás-de tornar, em que nome, com que
potência e inclinação de cabeça?
o rosto muito, o ofício turvo, o génio, o jogo,
as mãos inexplicáveis,
a luz nas mãos faz raiar os dedos,
que a luz se desenvolva,
e a madeira se enrole sobre si mesma e teça e esconda a obra
e retorne e abra e mostre então
a abundância intrínseca,
porque se eriça num arrepio e se alvoroça
o espaço, e brilha quando,
no dia global,
espacial, no visível,
o caos alimenta a ordem estilística:
iluminação,
razão de obra de dentro para fora
— mais um estio até que a força da fruta remate a forma
595
Herberto Helder
26
rosto de osso, cabelo rude, boca agra,
e tão escuro em baixo até em
cima a linha
de ignição das pupilas
em que te hás-de tornar, em que nome, com que
potência e inclinação de cabeça?
o rosto muito, o ofício turvo, o génio, o jogo,
as mãos inexplicáveis,
a luz nas mãos faz raiar os dedos,
que a luz se desenvolva,
e a madeira se enrole sobre si mesma e teça e esconda a obra
e retorne e abra e mostre então
a abundância intrínseca,
porque se eriça num arrepio e se alvoroça
o espaço, e brilha quando,
no dia global,
espacial, no visível,
o caos alimenta a ordem estilística:
iluminação,
razão de obra de dentro para fora
— mais um estio até que a força da fruta remate a forma
e tão escuro em baixo até em
cima a linha
de ignição das pupilas
em que te hás-de tornar, em que nome, com que
potência e inclinação de cabeça?
o rosto muito, o ofício turvo, o génio, o jogo,
as mãos inexplicáveis,
a luz nas mãos faz raiar os dedos,
que a luz se desenvolva,
e a madeira se enrole sobre si mesma e teça e esconda a obra
e retorne e abra e mostre então
a abundância intrínseca,
porque se eriça num arrepio e se alvoroça
o espaço, e brilha quando,
no dia global,
espacial, no visível,
o caos alimenta a ordem estilística:
iluminação,
razão de obra de dentro para fora
— mais um estio até que a força da fruta remate a forma
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Herberto Helder
34
na mão madura a luz imóvel pára a pêra sucessiva,
pára-a e exara-a e nela sela
a beleza:
era o segredo:
o mundo já estava pronto
pára-a e exara-a e nela sela
a beleza:
era o segredo:
o mundo já estava pronto
1 114
Herberto Helder
60
travesti, brasileiro, dote escandaloso, leio, venha ser minha fêmea,
deslumbrou a terra ávida com suas mamas luminosas
e um coiso grego,
como de mármore, compacto, digo, maciço, intacto, empolgante,
grosso, grande, grego,
e a língua desconversável com a língua então falada,
bruteza,
frescura,
clarão físico,
vivaz nos modos de fazer não uma coisa ou duas
mas todas,
num volteio de mão avêssa e acesa,
poema
da língua concêntrica que me criou até ao júbilo e eu criei contra o
poder do mundo com
presteza mercurial,
instinto,
intuito,
crítica da razão pura,
curtas metragens mais que ofuscantes: luciferinas,
até às iluminações transformadoras,
já tive sim todas as iluminações, todas, consumptivas,
que se lixe a vida,
que se lixe a mente,
vida e mente por uma palavra única,
vem das montagens visuais da infância da língua, coisas
com luz própria a que se não chegava, e a mão queimada, e penso:
vou meter a mão inteira pelo fogo dentro,
e não vou tirá-la nunca,
e nunca mais regressarei dessa palavra,
e pergunto porque estou vivo:
por amor de vinte e três palavras mais ou menos loucas,
glória às uniões inalcançáveis,
eu fodo, se me dão licença,
numa língua que vem com avidez mamífera
dos fundos da
língua portuguesa, só fodo nela,
por paixão,
matricialidade,
monogamia,
por conhecer linha a linha o corpo que se move,
a luz que levanta,
o ar que consome,
o que faz às pessoas quando dele se aproximam,
só isso me interessa naqueles com quem fodo,
ígneo donaire,
dom,
alerta,
décimo sexto sentido,
poucos poderes de salvação e obra mas
estrela muitíssima, tremenda, às labaredas,
a dança dionisíaca já dentro do abismo,
que se foda em alta língua,
é um mistério,
venha ser inadmissível, luminoso, fêmea, empolgante, grego,
quero eu dizer:
fodam comigo no mistério das línguas,
obrigado
deslumbrou a terra ávida com suas mamas luminosas
e um coiso grego,
como de mármore, compacto, digo, maciço, intacto, empolgante,
grosso, grande, grego,
e a língua desconversável com a língua então falada,
bruteza,
frescura,
clarão físico,
vivaz nos modos de fazer não uma coisa ou duas
mas todas,
num volteio de mão avêssa e acesa,
poema
da língua concêntrica que me criou até ao júbilo e eu criei contra o
poder do mundo com
presteza mercurial,
instinto,
intuito,
crítica da razão pura,
curtas metragens mais que ofuscantes: luciferinas,
até às iluminações transformadoras,
já tive sim todas as iluminações, todas, consumptivas,
que se lixe a vida,
que se lixe a mente,
vida e mente por uma palavra única,
vem das montagens visuais da infância da língua, coisas
com luz própria a que se não chegava, e a mão queimada, e penso:
vou meter a mão inteira pelo fogo dentro,
e não vou tirá-la nunca,
e nunca mais regressarei dessa palavra,
e pergunto porque estou vivo:
por amor de vinte e três palavras mais ou menos loucas,
glória às uniões inalcançáveis,
eu fodo, se me dão licença,
numa língua que vem com avidez mamífera
dos fundos da
língua portuguesa, só fodo nela,
por paixão,
matricialidade,
monogamia,
por conhecer linha a linha o corpo que se move,
a luz que levanta,
o ar que consome,
o que faz às pessoas quando dele se aproximam,
só isso me interessa naqueles com quem fodo,
ígneo donaire,
dom,
alerta,
décimo sexto sentido,
poucos poderes de salvação e obra mas
estrela muitíssima, tremenda, às labaredas,
a dança dionisíaca já dentro do abismo,
que se foda em alta língua,
é um mistério,
venha ser inadmissível, luminoso, fêmea, empolgante, grego,
quero eu dizer:
fodam comigo no mistério das línguas,
obrigado
665
Herberto Helder
60
travesti, brasileiro, dote escandaloso, leio, venha ser minha fêmea,
deslumbrou a terra ávida com suas mamas luminosas
e um coiso grego,
como de mármore, compacto, digo, maciço, intacto, empolgante,
grosso, grande, grego,
e a língua desconversável com a língua então falada,
bruteza,
frescura,
clarão físico,
vivaz nos modos de fazer não uma coisa ou duas
mas todas,
num volteio de mão avêssa e acesa,
poema
da língua concêntrica que me criou até ao júbilo e eu criei contra o
poder do mundo com
presteza mercurial,
instinto,
intuito,
crítica da razão pura,
curtas metragens mais que ofuscantes: luciferinas,
até às iluminações transformadoras,
já tive sim todas as iluminações, todas, consumptivas,
que se lixe a vida,
que se lixe a mente,
vida e mente por uma palavra única,
vem das montagens visuais da infância da língua, coisas
com luz própria a que se não chegava, e a mão queimada, e penso:
vou meter a mão inteira pelo fogo dentro,
e não vou tirá-la nunca,
e nunca mais regressarei dessa palavra,
e pergunto porque estou vivo:
por amor de vinte e três palavras mais ou menos loucas,
glória às uniões inalcançáveis,
eu fodo, se me dão licença,
numa língua que vem com avidez mamífera
dos fundos da
língua portuguesa, só fodo nela,
por paixão,
matricialidade,
monogamia,
por conhecer linha a linha o corpo que se move,
a luz que levanta,
o ar que consome,
o que faz às pessoas quando dele se aproximam,
só isso me interessa naqueles com quem fodo,
ígneo donaire,
dom,
alerta,
décimo sexto sentido,
poucos poderes de salvação e obra mas
estrela muitíssima, tremenda, às labaredas,
a dança dionisíaca já dentro do abismo,
que se foda em alta língua,
é um mistério,
venha ser inadmissível, luminoso, fêmea, empolgante, grego,
quero eu dizer:
fodam comigo no mistério das línguas,
obrigado
deslumbrou a terra ávida com suas mamas luminosas
e um coiso grego,
como de mármore, compacto, digo, maciço, intacto, empolgante,
grosso, grande, grego,
e a língua desconversável com a língua então falada,
bruteza,
frescura,
clarão físico,
vivaz nos modos de fazer não uma coisa ou duas
mas todas,
num volteio de mão avêssa e acesa,
poema
da língua concêntrica que me criou até ao júbilo e eu criei contra o
poder do mundo com
presteza mercurial,
instinto,
intuito,
crítica da razão pura,
curtas metragens mais que ofuscantes: luciferinas,
até às iluminações transformadoras,
já tive sim todas as iluminações, todas, consumptivas,
que se lixe a vida,
que se lixe a mente,
vida e mente por uma palavra única,
vem das montagens visuais da infância da língua, coisas
com luz própria a que se não chegava, e a mão queimada, e penso:
vou meter a mão inteira pelo fogo dentro,
e não vou tirá-la nunca,
e nunca mais regressarei dessa palavra,
e pergunto porque estou vivo:
por amor de vinte e três palavras mais ou menos loucas,
glória às uniões inalcançáveis,
eu fodo, se me dão licença,
numa língua que vem com avidez mamífera
dos fundos da
língua portuguesa, só fodo nela,
por paixão,
matricialidade,
monogamia,
por conhecer linha a linha o corpo que se move,
a luz que levanta,
o ar que consome,
o que faz às pessoas quando dele se aproximam,
só isso me interessa naqueles com quem fodo,
ígneo donaire,
dom,
alerta,
décimo sexto sentido,
poucos poderes de salvação e obra mas
estrela muitíssima, tremenda, às labaredas,
a dança dionisíaca já dentro do abismo,
que se foda em alta língua,
é um mistério,
venha ser inadmissível, luminoso, fêmea, empolgante, grego,
quero eu dizer:
fodam comigo no mistério das línguas,
obrigado
665
Herberto Helder
24
noite funcionada a furos de ouro fundido,
combustível, comburente,
inexcedível,
e eu não sei se é de onde me vejo dentro dela,
força da imagem ou fogo ou
desabitação do mundo,
nesta língua onde me encontro e que me funda com mão fluida,
caos,
e como se move tudo, os dedos
pelo sistema decimal contando para trás pessoa
a pessoa, unha
a unha de rapina, diz a canção: a flor inversa,
ar resplan la flors enversa,
desde o hábil desgoverno da matéria à pronúncia tumultuosa,
floral glória colinas ar afora,
com que choque tecnológico a terra pós-moderna,
faúlhas, lâmpadas, quem as maneie e atice,
iluminam-se a si próprias,
houvesse em mim potência e elegância,
e jorrasse a flor inversa,
e para a frente as vezes dos dedos que ainda faltam,
ar movido no cabelo, lápis
maduro sobre o escrito,
idade,
styx,
renascimento,
o júbilo,
trabalhos, etc., desordens, arranquem-mos todos para nunca
terem existido,
nem um só nome é indestrutível,
avança, retrocede, apaga,
ar resplan, e então resplende a flor inversa
combustível, comburente,
inexcedível,
e eu não sei se é de onde me vejo dentro dela,
força da imagem ou fogo ou
desabitação do mundo,
nesta língua onde me encontro e que me funda com mão fluida,
caos,
e como se move tudo, os dedos
pelo sistema decimal contando para trás pessoa
a pessoa, unha
a unha de rapina, diz a canção: a flor inversa,
ar resplan la flors enversa,
desde o hábil desgoverno da matéria à pronúncia tumultuosa,
floral glória colinas ar afora,
com que choque tecnológico a terra pós-moderna,
faúlhas, lâmpadas, quem as maneie e atice,
iluminam-se a si próprias,
houvesse em mim potência e elegância,
e jorrasse a flor inversa,
e para a frente as vezes dos dedos que ainda faltam,
ar movido no cabelo, lápis
maduro sobre o escrito,
idade,
styx,
renascimento,
o júbilo,
trabalhos, etc., desordens, arranquem-mos todos para nunca
terem existido,
nem um só nome é indestrutível,
avança, retrocede, apaga,
ar resplan, e então resplende a flor inversa
1 062
Herberto Helder
24
noite funcionada a furos de ouro fundido,
combustível, comburente,
inexcedível,
e eu não sei se é de onde me vejo dentro dela,
força da imagem ou fogo ou
desabitação do mundo,
nesta língua onde me encontro e que me funda com mão fluida,
caos,
e como se move tudo, os dedos
pelo sistema decimal contando para trás pessoa
a pessoa, unha
a unha de rapina, diz a canção: a flor inversa,
ar resplan la flors enversa,
desde o hábil desgoverno da matéria à pronúncia tumultuosa,
floral glória colinas ar afora,
com que choque tecnológico a terra pós-moderna,
faúlhas, lâmpadas, quem as maneie e atice,
iluminam-se a si próprias,
houvesse em mim potência e elegância,
e jorrasse a flor inversa,
e para a frente as vezes dos dedos que ainda faltam,
ar movido no cabelo, lápis
maduro sobre o escrito,
idade,
styx,
renascimento,
o júbilo,
trabalhos, etc., desordens, arranquem-mos todos para nunca
terem existido,
nem um só nome é indestrutível,
avança, retrocede, apaga,
ar resplan, e então resplende a flor inversa
combustível, comburente,
inexcedível,
e eu não sei se é de onde me vejo dentro dela,
força da imagem ou fogo ou
desabitação do mundo,
nesta língua onde me encontro e que me funda com mão fluida,
caos,
e como se move tudo, os dedos
pelo sistema decimal contando para trás pessoa
a pessoa, unha
a unha de rapina, diz a canção: a flor inversa,
ar resplan la flors enversa,
desde o hábil desgoverno da matéria à pronúncia tumultuosa,
floral glória colinas ar afora,
com que choque tecnológico a terra pós-moderna,
faúlhas, lâmpadas, quem as maneie e atice,
iluminam-se a si próprias,
houvesse em mim potência e elegância,
e jorrasse a flor inversa,
e para a frente as vezes dos dedos que ainda faltam,
ar movido no cabelo, lápis
maduro sobre o escrito,
idade,
styx,
renascimento,
o júbilo,
trabalhos, etc., desordens, arranquem-mos todos para nunca
terem existido,
nem um só nome é indestrutível,
avança, retrocede, apaga,
ar resplan, e então resplende a flor inversa
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Herberto Helder
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a luz de um só tecido a mover-se sob o vestido
rapaza raparigo
trav superdot sôfrego belíssimo
mamas sem leite e sangue mas
terrestres soberanas
pénis intenso
ânus sombrio
rapaza raparigo
trav superdot sôfrego belíssimo
mamas sem leite e sangue mas
terrestres soberanas
pénis intenso
ânus sombrio
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Herberto Helder
56
acima do cabelo radioso,
abaixo do cabelo,
sentado à mesa brilhando ou em pé brilhando muito,
acima de onde as obras,
abaixo de onde as obras se lavraram,
o dito assintáctico do poema, o exercício, o poema físico, o de abrupto
sentido, o poema absoluto,
acima da camisa sobre o sangue,
abaixo da camisa,
poema tão difícil aprendido até ao último erro,
e entre caos e melancolia,
a mão:
pela escrita da memória assoprada na folha:
a actividade prática,
rápida:
mão plenária apanhando o dia de cada sítio em cada sítio transborda
em nome de outra lição, outra
dor, outro júbilo, outro louvor, outra interpretação do mundo, outro amor do mundo,
outro tremor, outro mundo,
e os dedos trabalhados pela bic apanham tudo, o cru e o cozido, o aberto e o fechado, os elementos leves ar e fogo
e a ciência dos fenómenos:
a acerba, funda língua portuguesa,
poema revolvido a quente e resolvido
a frio entre os átomos,
o puro rebrilhar
irredutível, irreversível, imperecível: saber a quantas
translações estamos
entre sujeito e acto, a quanto preto bic do escrito,
auto de autor, a luz inteligente sobre o mundo,
magnificência,
e o mundo, entre visto e emendado e rescrito
abaixo do cabelo,
sentado à mesa brilhando ou em pé brilhando muito,
acima de onde as obras,
abaixo de onde as obras se lavraram,
o dito assintáctico do poema, o exercício, o poema físico, o de abrupto
sentido, o poema absoluto,
acima da camisa sobre o sangue,
abaixo da camisa,
poema tão difícil aprendido até ao último erro,
e entre caos e melancolia,
a mão:
pela escrita da memória assoprada na folha:
a actividade prática,
rápida:
mão plenária apanhando o dia de cada sítio em cada sítio transborda
em nome de outra lição, outra
dor, outro júbilo, outro louvor, outra interpretação do mundo, outro amor do mundo,
outro tremor, outro mundo,
e os dedos trabalhados pela bic apanham tudo, o cru e o cozido, o aberto e o fechado, os elementos leves ar e fogo
e a ciência dos fenómenos:
a acerba, funda língua portuguesa,
poema revolvido a quente e resolvido
a frio entre os átomos,
o puro rebrilhar
irredutível, irreversível, imperecível: saber a quantas
translações estamos
entre sujeito e acto, a quanto preto bic do escrito,
auto de autor, a luz inteligente sobre o mundo,
magnificência,
e o mundo, entre visto e emendado e rescrito
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Herberto Helder
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acima do cabelo radioso,
abaixo do cabelo,
sentado à mesa brilhando ou em pé brilhando muito,
acima de onde as obras,
abaixo de onde as obras se lavraram,
o dito assintáctico do poema, o exercício, o poema físico, o de abrupto
sentido, o poema absoluto,
acima da camisa sobre o sangue,
abaixo da camisa,
poema tão difícil aprendido até ao último erro,
e entre caos e melancolia,
a mão:
pela escrita da memória assoprada na folha:
a actividade prática,
rápida:
mão plenária apanhando o dia de cada sítio em cada sítio transborda
em nome de outra lição, outra
dor, outro júbilo, outro louvor, outra interpretação do mundo, outro amor do mundo,
outro tremor, outro mundo,
e os dedos trabalhados pela bic apanham tudo, o cru e o cozido, o aberto e o fechado, os elementos leves ar e fogo
e a ciência dos fenómenos:
a acerba, funda língua portuguesa,
poema revolvido a quente e resolvido
a frio entre os átomos,
o puro rebrilhar
irredutível, irreversível, imperecível: saber a quantas
translações estamos
entre sujeito e acto, a quanto preto bic do escrito,
auto de autor, a luz inteligente sobre o mundo,
magnificência,
e o mundo, entre visto e emendado e rescrito
abaixo do cabelo,
sentado à mesa brilhando ou em pé brilhando muito,
acima de onde as obras,
abaixo de onde as obras se lavraram,
o dito assintáctico do poema, o exercício, o poema físico, o de abrupto
sentido, o poema absoluto,
acima da camisa sobre o sangue,
abaixo da camisa,
poema tão difícil aprendido até ao último erro,
e entre caos e melancolia,
a mão:
pela escrita da memória assoprada na folha:
a actividade prática,
rápida:
mão plenária apanhando o dia de cada sítio em cada sítio transborda
em nome de outra lição, outra
dor, outro júbilo, outro louvor, outra interpretação do mundo, outro amor do mundo,
outro tremor, outro mundo,
e os dedos trabalhados pela bic apanham tudo, o cru e o cozido, o aberto e o fechado, os elementos leves ar e fogo
e a ciência dos fenómenos:
a acerba, funda língua portuguesa,
poema revolvido a quente e resolvido
a frio entre os átomos,
o puro rebrilhar
irredutível, irreversível, imperecível: saber a quantas
translações estamos
entre sujeito e acto, a quanto preto bic do escrito,
auto de autor, a luz inteligente sobre o mundo,
magnificência,
e o mundo, entre visto e emendado e rescrito
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acima do cabelo radioso,
abaixo do cabelo,
sentado à mesa brilhando ou em pé brilhando muito,
acima de onde as obras,
abaixo de onde as obras se lavraram,
o dito assintáctico do poema, o exercício, o poema físico, o de abrupto
sentido, o poema absoluto,
acima da camisa sobre o sangue,
abaixo da camisa,
poema tão difícil aprendido até ao último erro,
e entre caos e melancolia,
a mão:
pela escrita da memória assoprada na folha:
a actividade prática,
rápida:
mão plenária apanhando o dia de cada sítio em cada sítio transborda
em nome de outra lição, outra
dor, outro júbilo, outro louvor, outra interpretação do mundo, outro amor do mundo,
outro tremor, outro mundo,
e os dedos trabalhados pela bic apanham tudo, o cru e o cozido, o aberto e o fechado, os elementos leves ar e fogo
e a ciência dos fenómenos:
a acerba, funda língua portuguesa,
poema revolvido a quente e resolvido
a frio entre os átomos,
o puro rebrilhar
irredutível, irreversível, imperecível: saber a quantas
translações estamos
entre sujeito e acto, a quanto preto bic do escrito,
auto de autor, a luz inteligente sobre o mundo,
magnificência,
e o mundo, entre visto e emendado e rescrito
abaixo do cabelo,
sentado à mesa brilhando ou em pé brilhando muito,
acima de onde as obras,
abaixo de onde as obras se lavraram,
o dito assintáctico do poema, o exercício, o poema físico, o de abrupto
sentido, o poema absoluto,
acima da camisa sobre o sangue,
abaixo da camisa,
poema tão difícil aprendido até ao último erro,
e entre caos e melancolia,
a mão:
pela escrita da memória assoprada na folha:
a actividade prática,
rápida:
mão plenária apanhando o dia de cada sítio em cada sítio transborda
em nome de outra lição, outra
dor, outro júbilo, outro louvor, outra interpretação do mundo, outro amor do mundo,
outro tremor, outro mundo,
e os dedos trabalhados pela bic apanham tudo, o cru e o cozido, o aberto e o fechado, os elementos leves ar e fogo
e a ciência dos fenómenos:
a acerba, funda língua portuguesa,
poema revolvido a quente e resolvido
a frio entre os átomos,
o puro rebrilhar
irredutível, irreversível, imperecível: saber a quantas
translações estamos
entre sujeito e acto, a quanto preto bic do escrito,
auto de autor, a luz inteligente sobre o mundo,
magnificência,
e o mundo, entre visto e emendado e rescrito
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Herberto Helder
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sou eu que te abro pela boca,
boca com boca,
metido em ti o sôpro até raiar-te a cara,
até que o meu soluço obscuro te cruze toda,
amo-te como se aprendesse desde não sei que morte,
ainda que doa o mundo,
a alegria
boca com boca,
metido em ti o sôpro até raiar-te a cara,
até que o meu soluço obscuro te cruze toda,
amo-te como se aprendesse desde não sei que morte,
ainda que doa o mundo,
a alegria
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Herberto Helder
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que eu aprenda tudo desde a morte,
mas não me chamem por um nome nem pelo uso das coisas,
colher, roupa, caneta,
roupa intensa com a respiração dentro dela,
e a tua mão sangra na minha,
brilha inteira se um pouco da minha mão sangra e brilha,
no toque entre os olhos,
na boca,
na rescrita de cada coisa já escrita nas entrelinhas das coisas,
fiat cantus! e faça-se o canto esdrúxulo que regula a terra,
o canto comum-de-dois,
o inexaurível,
o quanto se trabalha para que a noite apareça,
e à noite se vê a luz que desaparece na mesa,
chama-me pelo teu nome, troca-me,
toca-me
na boca sem idioma,
já te não chamaste nunca,
já estás pronta,
já és toda
mas não me chamem por um nome nem pelo uso das coisas,
colher, roupa, caneta,
roupa intensa com a respiração dentro dela,
e a tua mão sangra na minha,
brilha inteira se um pouco da minha mão sangra e brilha,
no toque entre os olhos,
na boca,
na rescrita de cada coisa já escrita nas entrelinhas das coisas,
fiat cantus! e faça-se o canto esdrúxulo que regula a terra,
o canto comum-de-dois,
o inexaurível,
o quanto se trabalha para que a noite apareça,
e à noite se vê a luz que desaparece na mesa,
chama-me pelo teu nome, troca-me,
toca-me
na boca sem idioma,
já te não chamaste nunca,
já estás pronta,
já és toda
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Herberto Helder
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se do fundo da garganta aos dentes a areia do teu nome,
se riscasse com a abrasadura, se
em cima e em baixo mexido às escuras,
o forno com a mão a ver se ela podia
que uma púrpura em flor fosse até ao coração,
unhas e tudo,
que estremecesse, não por dito mas sabido
contra ti, e por artes
antigas trazer o ar, fazer uma
iluminação:
mudar o mundo para que o nome coubesse,
vivaz, tocado, fértil,
houvesse um dom inseparável, música, verbo:
se eu pudesse, se a terra
se atrasasse,
se pudesse em amarga língua portuguesa com o teu nome em
qualquer parte,
para eu mesmo riscar contra ti,
raiar contra ti,
sob
serapilheiras de sangue
se riscasse com a abrasadura, se
em cima e em baixo mexido às escuras,
o forno com a mão a ver se ela podia
que uma púrpura em flor fosse até ao coração,
unhas e tudo,
que estremecesse, não por dito mas sabido
contra ti, e por artes
antigas trazer o ar, fazer uma
iluminação:
mudar o mundo para que o nome coubesse,
vivaz, tocado, fértil,
houvesse um dom inseparável, música, verbo:
se eu pudesse, se a terra
se atrasasse,
se pudesse em amarga língua portuguesa com o teu nome em
qualquer parte,
para eu mesmo riscar contra ti,
raiar contra ti,
sob
serapilheiras de sangue
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Herberto Helder
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mas se basta uma braçada de luz com água,
e ao sono basta o rasgão por onde se escoa,
e ao teu corpo, o que basta a esse ofício do brilho:
o organismo diamante, o sistema da rosa,
o banho plenário,
e à exasperada alegria basta cada dia roaz,
se basta a água anárquica?
frutas, púcaros, ondas, folhas, dedos, tudo
o que a luz encurva,
se era para trás do rosto ou das espáduas,
dos membros,
dos riscos
escarpados do corpo,
porque eu tremo com o punhado de ouro grosso que te queimava
como quem faz um nó com a sua estrela
ou morre noutra pessoa —
tudo o que me devora se apaga, e eu brilho
daquilo que me devora,
quando se amarra e desamarra
da força entre as mãos batidas altas,
do ar que salta:
o segredo é a coisa mais brilhada
e ao sono basta o rasgão por onde se escoa,
e ao teu corpo, o que basta a esse ofício do brilho:
o organismo diamante, o sistema da rosa,
o banho plenário,
e à exasperada alegria basta cada dia roaz,
se basta a água anárquica?
frutas, púcaros, ondas, folhas, dedos, tudo
o que a luz encurva,
se era para trás do rosto ou das espáduas,
dos membros,
dos riscos
escarpados do corpo,
porque eu tremo com o punhado de ouro grosso que te queimava
como quem faz um nó com a sua estrela
ou morre noutra pessoa —
tudo o que me devora se apaga, e eu brilho
daquilo que me devora,
quando se amarra e desamarra
da força entre as mãos batidas altas,
do ar que salta:
o segredo é a coisa mais brilhada
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Herberto Helder
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(...) e escrever poemas cheios de honestidades várias e pequenas digitações gramaticais
com piscadelas de olho ao “real quotidiano’’,
aqui o autor diz: desculpe, sr. dr., mas:
merda!, 1971 — e agora,
mais de trinta anos na cabeça e no mundo,
e não,
não um dr. mas mil drs. de um só reino,
e não se tem paciência para mandar tantas vezes à merda,
oh afastem de mim O reino,
afastem-nos a eles todos,
atirem-lhes aos focinhos o que puderem dela,
sim até se acabar a mirífica montanha,
ó stôr não me foda com essa de história literária,
O stôr passou-se da puta da mona,
a terra extravasa do real feito à imagem da merda,
e então vou-me embora,
quer dizer que falo para outras pessoas,
falo em nome de outra ferida, outra
dor, outra interpretação do mundo, outro amor do mundo,
outro tremor,
se alguém puder tocar em alguém oh sim há-de encontrar alguém
em quem toque,
dedos atentos atados à cabeça,
luz,
um punhado de luz,
cada lenço que se ata a própria seda do lenço O desata,
a luz que se desata,
aí é que se ouve a gramática cantada, imagine-se, cantada para sempre
sem se ver a quem,
baixo ressoando,
alto ressoando,
mexendo os dedos nas costuras de sangue entre as placas do cabelo rude,
rútilo cabelo e o sangue que suporta tanta rutilação, tanta
beltà, beauty, que beleza! diz-se, fique
aí onde está dr. porque para si já se reservou
um quilo, uma tonelada, desculpe,
estou com pressa,
alguém lá fora dança na floresta devorada,
alguém primeiro escuta depois canta através da floresta devorada,
desculpe dr. mas já desapareci como quem se abisma
num espaço de hélio e labaredas,
eu próprio atravesso o incêndio imitando uma floresta,
fui-me embora pela floresta infravermelha fora,
não estou para essas merdas floresta infravermelha fora
com piscadelas de olho ao “real quotidiano’’,
aqui o autor diz: desculpe, sr. dr., mas:
merda!, 1971 — e agora,
mais de trinta anos na cabeça e no mundo,
e não,
não um dr. mas mil drs. de um só reino,
e não se tem paciência para mandar tantas vezes à merda,
oh afastem de mim O reino,
afastem-nos a eles todos,
atirem-lhes aos focinhos o que puderem dela,
sim até se acabar a mirífica montanha,
ó stôr não me foda com essa de história literária,
O stôr passou-se da puta da mona,
a terra extravasa do real feito à imagem da merda,
e então vou-me embora,
quer dizer que falo para outras pessoas,
falo em nome de outra ferida, outra
dor, outra interpretação do mundo, outro amor do mundo,
outro tremor,
se alguém puder tocar em alguém oh sim há-de encontrar alguém
em quem toque,
dedos atentos atados à cabeça,
luz,
um punhado de luz,
cada lenço que se ata a própria seda do lenço O desata,
a luz que se desata,
aí é que se ouve a gramática cantada, imagine-se, cantada para sempre
sem se ver a quem,
baixo ressoando,
alto ressoando,
mexendo os dedos nas costuras de sangue entre as placas do cabelo rude,
rútilo cabelo e o sangue que suporta tanta rutilação, tanta
beltà, beauty, que beleza! diz-se, fique
aí onde está dr. porque para si já se reservou
um quilo, uma tonelada, desculpe,
estou com pressa,
alguém lá fora dança na floresta devorada,
alguém primeiro escuta depois canta através da floresta devorada,
desculpe dr. mas já desapareci como quem se abisma
num espaço de hélio e labaredas,
eu próprio atravesso o incêndio imitando uma floresta,
fui-me embora pela floresta infravermelha fora,
não estou para essas merdas floresta infravermelha fora
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