Poemas neste tema
Outros
Herberto Helder
49
do mundo que malmolha ou desolha não me defendo,
nem de mim mesmo, à força
de morrer de mim na minha própria língua,
porque eu, o mundo e a língua
somos um só
desentendimento
nem de mim mesmo, à força
de morrer de mim na minha própria língua,
porque eu, o mundo e a língua
somos um só
desentendimento
1 073
Herberto Helder
49
do mundo que malmolha ou desolha não me defendo,
nem de mim mesmo, à força
de morrer de mim na minha própria língua,
porque eu, o mundo e a língua
somos um só
desentendimento
nem de mim mesmo, à força
de morrer de mim na minha própria língua,
porque eu, o mundo e a língua
somos um só
desentendimento
1 073
Herberto Helder
47
exultação, fervor,
se doesse nas práticas da graça,
uma língua analfabeta, plena,
fazia-se um inferno para obrigá-los a falar nessa língua?
se fosse,
tanta gente estilística mas ninguém queria falar
com tanto poder,
tanta desordem na música,
que falassem numa língua incrível, dizia-se,
de quando os atropelos,
de quando quebrados os sete selos,
se doesse num pouco de gramática
se doesse nas práticas da graça,
uma língua analfabeta, plena,
fazia-se um inferno para obrigá-los a falar nessa língua?
se fosse,
tanta gente estilística mas ninguém queria falar
com tanto poder,
tanta desordem na música,
que falassem numa língua incrível, dizia-se,
de quando os atropelos,
de quando quebrados os sete selos,
se doesse num pouco de gramática
969
Herberto Helder
47
exultação, fervor,
se doesse nas práticas da graça,
uma língua analfabeta, plena,
fazia-se um inferno para obrigá-los a falar nessa língua?
se fosse,
tanta gente estilística mas ninguém queria falar
com tanto poder,
tanta desordem na música,
que falassem numa língua incrível, dizia-se,
de quando os atropelos,
de quando quebrados os sete selos,
se doesse num pouco de gramática
se doesse nas práticas da graça,
uma língua analfabeta, plena,
fazia-se um inferno para obrigá-los a falar nessa língua?
se fosse,
tanta gente estilística mas ninguém queria falar
com tanto poder,
tanta desordem na música,
que falassem numa língua incrível, dizia-se,
de quando os atropelos,
de quando quebrados os sete selos,
se doesse num pouco de gramática
969
Herberto Helder
39
aparas gregas de mármore em redor da cabeça,
torso, ilhargas, membros e nos membros,
rótulas, unhas,
irrompem da água escarpada,
o vídeo funciona,
água para trás, crua, das minas,
tu próprio crias pêso e leveza,
luz própria,
levanta-os com o corpo,
cria com o corpo a tua própria gramática,
o mundo nasce do vídeo, o caos do mundo, beltà, jubilaçâo, abalo,
que Deus funciona na sua glória electrónica
torso, ilhargas, membros e nos membros,
rótulas, unhas,
irrompem da água escarpada,
o vídeo funciona,
água para trás, crua, das minas,
tu próprio crias pêso e leveza,
luz própria,
levanta-os com o corpo,
cria com o corpo a tua própria gramática,
o mundo nasce do vídeo, o caos do mundo, beltà, jubilaçâo, abalo,
que Deus funciona na sua glória electrónica
1 018
Herberto Helder
39
aparas gregas de mármore em redor da cabeça,
torso, ilhargas, membros e nos membros,
rótulas, unhas,
irrompem da água escarpada,
o vídeo funciona,
água para trás, crua, das minas,
tu próprio crias pêso e leveza,
luz própria,
levanta-os com o corpo,
cria com o corpo a tua própria gramática,
o mundo nasce do vídeo, o caos do mundo, beltà, jubilaçâo, abalo,
que Deus funciona na sua glória electrónica
torso, ilhargas, membros e nos membros,
rótulas, unhas,
irrompem da água escarpada,
o vídeo funciona,
água para trás, crua, das minas,
tu próprio crias pêso e leveza,
luz própria,
levanta-os com o corpo,
cria com o corpo a tua própria gramática,
o mundo nasce do vídeo, o caos do mundo, beltà, jubilaçâo, abalo,
que Deus funciona na sua glória electrónica
1 018
Herberto Helder
15
roupa agitada pela força da luz que irrompe dela,
veste-a, despe-a,
torna-te unânime com o ar e o fogo,
seda e carne, trabalha-as que luminotécnica,
roupa orgânica,
porque já no clarão de um strip-tease se fundira a terra toda
o fundo do cabelo quando o agarras todo para quebrá-la,
tu que perdeste o fôlego,
e sim respiras agora do sôfrego que foste nela,
perdes a fala quotidiana,
ganhas em tudo mas não sabes quanto ganhas
veste-a, despe-a,
torna-te unânime com o ar e o fogo,
seda e carne, trabalha-as que luminotécnica,
roupa orgânica,
porque já no clarão de um strip-tease se fundira a terra toda
o fundo do cabelo quando o agarras todo para quebrá-la,
tu que perdeste o fôlego,
e sim respiras agora do sôfrego que foste nela,
perdes a fala quotidiana,
ganhas em tudo mas não sabes quanto ganhas
1 132
Herberto Helder
15
roupa agitada pela força da luz que irrompe dela,
veste-a, despe-a,
torna-te unânime com o ar e o fogo,
seda e carne, trabalha-as que luminotécnica,
roupa orgânica,
porque já no clarão de um strip-tease se fundira a terra toda
o fundo do cabelo quando o agarras todo para quebrá-la,
tu que perdeste o fôlego,
e sim respiras agora do sôfrego que foste nela,
perdes a fala quotidiana,
ganhas em tudo mas não sabes quanto ganhas
veste-a, despe-a,
torna-te unânime com o ar e o fogo,
seda e carne, trabalha-as que luminotécnica,
roupa orgânica,
porque já no clarão de um strip-tease se fundira a terra toda
o fundo do cabelo quando o agarras todo para quebrá-la,
tu que perdeste o fôlego,
e sim respiras agora do sôfrego que foste nela,
perdes a fala quotidiana,
ganhas em tudo mas não sabes quanto ganhas
1 132
Herberto Helder
25
perder o dom, mas quem o perde?
com o peso do sangue nos dedos, os dedos no interruptor:
que a luz se faça,
que apareça imediata e toda,
abruptíssima,
a flor com o seu feixe de artérias,
a rosa irrefutável
com o peso do sangue nos dedos, os dedos no interruptor:
que a luz se faça,
que apareça imediata e toda,
abruptíssima,
a flor com o seu feixe de artérias,
a rosa irrefutável
1 172
Herberto Helder
25
perder o dom, mas quem o perde?
com o peso do sangue nos dedos, os dedos no interruptor:
que a luz se faça,
que apareça imediata e toda,
abruptíssima,
a flor com o seu feixe de artérias,
a rosa irrefutável
com o peso do sangue nos dedos, os dedos no interruptor:
que a luz se faça,
que apareça imediata e toda,
abruptíssima,
a flor com o seu feixe de artérias,
a rosa irrefutável
1 172
Herberto Helder
Vida Aguda Atenta a Tudo
vida aguda atenta a tudo
e contudo para acabar mais depressa no escuro
escrevo rescrevo
e enfim reluzo e desmorro
(finjo pensá-lo)
um pouco um pouco
acautela a tua dor que se não torne académica
e contudo para acabar mais depressa no escuro
escrevo rescrevo
e enfim reluzo e desmorro
(finjo pensá-lo)
um pouco um pouco
acautela a tua dor que se não torne académica
1 188
Herberto Helder
Vida Aguda Atenta a Tudo
vida aguda atenta a tudo
e contudo para acabar mais depressa no escuro
escrevo rescrevo
e enfim reluzo e desmorro
(finjo pensá-lo)
um pouco um pouco
acautela a tua dor que se não torne académica
e contudo para acabar mais depressa no escuro
escrevo rescrevo
e enfim reluzo e desmorro
(finjo pensá-lo)
um pouco um pouco
acautela a tua dor que se não torne académica
1 188
Herberto Helder
Alto Dia Que Me É Dedicado
alto dia que me é dedicado,
mais altas são as frutas se me atrevo a olhá-lo,
no tumulto da alfazema onde aos poucos enquanto morro,
do açafrão enquanto morro aos poucos,
e o oxigénio explode
mais altas são as frutas se me atrevo a olhá-lo,
no tumulto da alfazema onde aos poucos enquanto morro,
do açafrão enquanto morro aos poucos,
e o oxigénio explode
1 121
Herberto Helder
O Poema - Vi
Fecundo mês da oferta onde a invenção ilumina
a harpa e a loucura desperta a pura espada
em pleno sangue. O vasto,
amargo e límpido mês interior onde a graça
se toca do fogo e o corpo se torna o cândido
e longo varão de música. Escada de seiva
entre arbustos de estrelas
e cubos de sal perpetuamente ardendo.
— Por ti, mês feliz de confusão e génio,
eu levanto minha húmida boca
até ao ar e ao vinho, levanto
minha obscura pedra por vias de tormento
e instinto até
ao barro vermelho do céu, ao espasmo
violento e sagrado das palavras.
Mês por onde subo fundamente agitado
em meu coração de argila, em minhas veias
de pequena infância espantada e grata.
E subindo me incendeio e consumo.
Mês das mãos purificadas.
Delicado mês para uma corola
de nuvem, um vivo transporte
entre coxas e mamas.
Em lama e areia se descobre
o pensamento, se perde a memória, se possui
uma estreita palavra virgem
e extrema.
Arde, mesa. Arde, instrumento de profunda
música. Arde, vinho. Carne,
ave, grande mar, grande estátua fria,
grande sorriso desfeito na face da solidão.
Mês de onde nascem os bichos ébrios e a voz
das catedrais de resina e o flanco
terrível e doce das montanhas
e o amor irmão da morte e da alegria.
Mês do poema, substância de Deus servida
como ceia e primeira pedra no espaço
da minha angústia,
do meu encanto.
Mês da aliança, tempo
tremendo da inocência onde a lua desce
suas raízes ferozes
e a morte anuncia seus primeiros sinais
de glória.
— E eu dormia. O sangue atravessava a noite
como cantando baixo.
Tecedeiras deixavam mãos sobre a atenção, flores começavam
no linho com o tremor comprido das veias.
Mês, mês. Um beijo pensava-se em palavra, recolhia-se, renascia,
vibrava na testa como o beijo da loucura.
— Pela terra adiante aumentava o trigo insensato do canto,
o perdão nascia das formas,
e por todas as coisas corria o sopro alucinado
e redentor
de um primeiro minuto de entre as mãos e a obra.
a harpa e a loucura desperta a pura espada
em pleno sangue. O vasto,
amargo e límpido mês interior onde a graça
se toca do fogo e o corpo se torna o cândido
e longo varão de música. Escada de seiva
entre arbustos de estrelas
e cubos de sal perpetuamente ardendo.
— Por ti, mês feliz de confusão e génio,
eu levanto minha húmida boca
até ao ar e ao vinho, levanto
minha obscura pedra por vias de tormento
e instinto até
ao barro vermelho do céu, ao espasmo
violento e sagrado das palavras.
Mês por onde subo fundamente agitado
em meu coração de argila, em minhas veias
de pequena infância espantada e grata.
E subindo me incendeio e consumo.
Mês das mãos purificadas.
Delicado mês para uma corola
de nuvem, um vivo transporte
entre coxas e mamas.
Em lama e areia se descobre
o pensamento, se perde a memória, se possui
uma estreita palavra virgem
e extrema.
Arde, mesa. Arde, instrumento de profunda
música. Arde, vinho. Carne,
ave, grande mar, grande estátua fria,
grande sorriso desfeito na face da solidão.
Mês de onde nascem os bichos ébrios e a voz
das catedrais de resina e o flanco
terrível e doce das montanhas
e o amor irmão da morte e da alegria.
Mês do poema, substância de Deus servida
como ceia e primeira pedra no espaço
da minha angústia,
do meu encanto.
Mês da aliança, tempo
tremendo da inocência onde a lua desce
suas raízes ferozes
e a morte anuncia seus primeiros sinais
de glória.
— E eu dormia. O sangue atravessava a noite
como cantando baixo.
Tecedeiras deixavam mãos sobre a atenção, flores começavam
no linho com o tremor comprido das veias.
Mês, mês. Um beijo pensava-se em palavra, recolhia-se, renascia,
vibrava na testa como o beijo da loucura.
— Pela terra adiante aumentava o trigo insensato do canto,
o perdão nascia das formas,
e por todas as coisas corria o sopro alucinado
e redentor
de um primeiro minuto de entre as mãos e a obra.
1 343
Herberto Helder
O Poema - Vi
Fecundo mês da oferta onde a invenção ilumina
a harpa e a loucura desperta a pura espada
em pleno sangue. O vasto,
amargo e límpido mês interior onde a graça
se toca do fogo e o corpo se torna o cândido
e longo varão de música. Escada de seiva
entre arbustos de estrelas
e cubos de sal perpetuamente ardendo.
— Por ti, mês feliz de confusão e génio,
eu levanto minha húmida boca
até ao ar e ao vinho, levanto
minha obscura pedra por vias de tormento
e instinto até
ao barro vermelho do céu, ao espasmo
violento e sagrado das palavras.
Mês por onde subo fundamente agitado
em meu coração de argila, em minhas veias
de pequena infância espantada e grata.
E subindo me incendeio e consumo.
Mês das mãos purificadas.
Delicado mês para uma corola
de nuvem, um vivo transporte
entre coxas e mamas.
Em lama e areia se descobre
o pensamento, se perde a memória, se possui
uma estreita palavra virgem
e extrema.
Arde, mesa. Arde, instrumento de profunda
música. Arde, vinho. Carne,
ave, grande mar, grande estátua fria,
grande sorriso desfeito na face da solidão.
Mês de onde nascem os bichos ébrios e a voz
das catedrais de resina e o flanco
terrível e doce das montanhas
e o amor irmão da morte e da alegria.
Mês do poema, substância de Deus servida
como ceia e primeira pedra no espaço
da minha angústia,
do meu encanto.
Mês da aliança, tempo
tremendo da inocência onde a lua desce
suas raízes ferozes
e a morte anuncia seus primeiros sinais
de glória.
— E eu dormia. O sangue atravessava a noite
como cantando baixo.
Tecedeiras deixavam mãos sobre a atenção, flores começavam
no linho com o tremor comprido das veias.
Mês, mês. Um beijo pensava-se em palavra, recolhia-se, renascia,
vibrava na testa como o beijo da loucura.
— Pela terra adiante aumentava o trigo insensato do canto,
o perdão nascia das formas,
e por todas as coisas corria o sopro alucinado
e redentor
de um primeiro minuto de entre as mãos e a obra.
a harpa e a loucura desperta a pura espada
em pleno sangue. O vasto,
amargo e límpido mês interior onde a graça
se toca do fogo e o corpo se torna o cândido
e longo varão de música. Escada de seiva
entre arbustos de estrelas
e cubos de sal perpetuamente ardendo.
— Por ti, mês feliz de confusão e génio,
eu levanto minha húmida boca
até ao ar e ao vinho, levanto
minha obscura pedra por vias de tormento
e instinto até
ao barro vermelho do céu, ao espasmo
violento e sagrado das palavras.
Mês por onde subo fundamente agitado
em meu coração de argila, em minhas veias
de pequena infância espantada e grata.
E subindo me incendeio e consumo.
Mês das mãos purificadas.
Delicado mês para uma corola
de nuvem, um vivo transporte
entre coxas e mamas.
Em lama e areia se descobre
o pensamento, se perde a memória, se possui
uma estreita palavra virgem
e extrema.
Arde, mesa. Arde, instrumento de profunda
música. Arde, vinho. Carne,
ave, grande mar, grande estátua fria,
grande sorriso desfeito na face da solidão.
Mês de onde nascem os bichos ébrios e a voz
das catedrais de resina e o flanco
terrível e doce das montanhas
e o amor irmão da morte e da alegria.
Mês do poema, substância de Deus servida
como ceia e primeira pedra no espaço
da minha angústia,
do meu encanto.
Mês da aliança, tempo
tremendo da inocência onde a lua desce
suas raízes ferozes
e a morte anuncia seus primeiros sinais
de glória.
— E eu dormia. O sangue atravessava a noite
como cantando baixo.
Tecedeiras deixavam mãos sobre a atenção, flores começavam
no linho com o tremor comprido das veias.
Mês, mês. Um beijo pensava-se em palavra, recolhia-se, renascia,
vibrava na testa como o beijo da loucura.
— Pela terra adiante aumentava o trigo insensato do canto,
o perdão nascia das formas,
e por todas as coisas corria o sopro alucinado
e redentor
de um primeiro minuto de entre as mãos e a obra.
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Herberto Helder
O Poema - Vi
Fecundo mês da oferta onde a invenção ilumina
a harpa e a loucura desperta a pura espada
em pleno sangue. O vasto,
amargo e límpido mês interior onde a graça
se toca do fogo e o corpo se torna o cândido
e longo varão de música. Escada de seiva
entre arbustos de estrelas
e cubos de sal perpetuamente ardendo.
— Por ti, mês feliz de confusão e génio,
eu levanto minha húmida boca
até ao ar e ao vinho, levanto
minha obscura pedra por vias de tormento
e instinto até
ao barro vermelho do céu, ao espasmo
violento e sagrado das palavras.
Mês por onde subo fundamente agitado
em meu coração de argila, em minhas veias
de pequena infância espantada e grata.
E subindo me incendeio e consumo.
Mês das mãos purificadas.
Delicado mês para uma corola
de nuvem, um vivo transporte
entre coxas e mamas.
Em lama e areia se descobre
o pensamento, se perde a memória, se possui
uma estreita palavra virgem
e extrema.
Arde, mesa. Arde, instrumento de profunda
música. Arde, vinho. Carne,
ave, grande mar, grande estátua fria,
grande sorriso desfeito na face da solidão.
Mês de onde nascem os bichos ébrios e a voz
das catedrais de resina e o flanco
terrível e doce das montanhas
e o amor irmão da morte e da alegria.
Mês do poema, substância de Deus servida
como ceia e primeira pedra no espaço
da minha angústia,
do meu encanto.
Mês da aliança, tempo
tremendo da inocência onde a lua desce
suas raízes ferozes
e a morte anuncia seus primeiros sinais
de glória.
— E eu dormia. O sangue atravessava a noite
como cantando baixo.
Tecedeiras deixavam mãos sobre a atenção, flores começavam
no linho com o tremor comprido das veias.
Mês, mês. Um beijo pensava-se em palavra, recolhia-se, renascia,
vibrava na testa como o beijo da loucura.
— Pela terra adiante aumentava o trigo insensato do canto,
o perdão nascia das formas,
e por todas as coisas corria o sopro alucinado
e redentor
de um primeiro minuto de entre as mãos e a obra.
a harpa e a loucura desperta a pura espada
em pleno sangue. O vasto,
amargo e límpido mês interior onde a graça
se toca do fogo e o corpo se torna o cândido
e longo varão de música. Escada de seiva
entre arbustos de estrelas
e cubos de sal perpetuamente ardendo.
— Por ti, mês feliz de confusão e génio,
eu levanto minha húmida boca
até ao ar e ao vinho, levanto
minha obscura pedra por vias de tormento
e instinto até
ao barro vermelho do céu, ao espasmo
violento e sagrado das palavras.
Mês por onde subo fundamente agitado
em meu coração de argila, em minhas veias
de pequena infância espantada e grata.
E subindo me incendeio e consumo.
Mês das mãos purificadas.
Delicado mês para uma corola
de nuvem, um vivo transporte
entre coxas e mamas.
Em lama e areia se descobre
o pensamento, se perde a memória, se possui
uma estreita palavra virgem
e extrema.
Arde, mesa. Arde, instrumento de profunda
música. Arde, vinho. Carne,
ave, grande mar, grande estátua fria,
grande sorriso desfeito na face da solidão.
Mês de onde nascem os bichos ébrios e a voz
das catedrais de resina e o flanco
terrível e doce das montanhas
e o amor irmão da morte e da alegria.
Mês do poema, substância de Deus servida
como ceia e primeira pedra no espaço
da minha angústia,
do meu encanto.
Mês da aliança, tempo
tremendo da inocência onde a lua desce
suas raízes ferozes
e a morte anuncia seus primeiros sinais
de glória.
— E eu dormia. O sangue atravessava a noite
como cantando baixo.
Tecedeiras deixavam mãos sobre a atenção, flores começavam
no linho com o tremor comprido das veias.
Mês, mês. Um beijo pensava-se em palavra, recolhia-se, renascia,
vibrava na testa como o beijo da loucura.
— Pela terra adiante aumentava o trigo insensato do canto,
o perdão nascia das formas,
e por todas as coisas corria o sopro alucinado
e redentor
de um primeiro minuto de entre as mãos e a obra.
1 343
Herberto Helder
4
entre os anzadi, quando um homem sofre de impotência sexual episódica,
pede à mãe que o masturbe e assim lhe devolva o poder
argutos, um a um, dedos
iluminados, nós e unhas! — masturba-me,
interpreta com intuição e intuito no mesmo comprimento de onda,
faz umbigos,
escoa mijo, leite, mênstruo, porque se exalta tudo nos broncos
recônditos,
lavra a fio exímio, salga, limpa, muda, move, inventa,
mãe,
que a tua mão inseparavelmente amadureça
segundo as redacções de Deus,
o autor improvável mais próximo que temos,
e em eu me vindo seja superlativo absoluto simples de lisérgico:
extasiadíssimo!
reinvertido nos senhorios
da floração,
astronomia,
minas de ouro,
os tronos
pede à mãe que o masturbe e assim lhe devolva o poder
argutos, um a um, dedos
iluminados, nós e unhas! — masturba-me,
interpreta com intuição e intuito no mesmo comprimento de onda,
faz umbigos,
escoa mijo, leite, mênstruo, porque se exalta tudo nos broncos
recônditos,
lavra a fio exímio, salga, limpa, muda, move, inventa,
mãe,
que a tua mão inseparavelmente amadureça
segundo as redacções de Deus,
o autor improvável mais próximo que temos,
e em eu me vindo seja superlativo absoluto simples de lisérgico:
extasiadíssimo!
reinvertido nos senhorios
da floração,
astronomia,
minas de ouro,
os tronos
578
Herberto Helder
Cada Vez Que Adormece É Para Que a Noite
cada vez que adormece é para que a noite tome conta dele desde os pés até à cabeça,
já a noite se encheu de iodo e espuma,
se for um barco já uma estrela o queimou proa e pôpa
cada vez que de si vai acordar fecha-o uma estrela,
a água canta, jubila,
cada vez que puxa o sono lençol sobre lençol mais acima do mundo até ao pescoço,
quando vê a maravilha que lhe acode,
a primeira,
o dia desarrumado, a noite já muito varrida,
a água para andar em cima dela,
quem vai pelo sono abaixo sem nunca encontrar pé,
de pé — queria ele,
e, passada a água,
só os outros, de manhã, quando estranham a manhã tão comprida,
e vão ver, e ele já virou a cara,
já virou o corpo,
boca aberta,
interrompida a canção ininterrupta
já a noite se encheu de iodo e espuma,
se for um barco já uma estrela o queimou proa e pôpa
cada vez que de si vai acordar fecha-o uma estrela,
a água canta, jubila,
cada vez que puxa o sono lençol sobre lençol mais acima do mundo até ao pescoço,
quando vê a maravilha que lhe acode,
a primeira,
o dia desarrumado, a noite já muito varrida,
a água para andar em cima dela,
quem vai pelo sono abaixo sem nunca encontrar pé,
de pé — queria ele,
e, passada a água,
só os outros, de manhã, quando estranham a manhã tão comprida,
e vão ver, e ele já virou a cara,
já virou o corpo,
boca aberta,
interrompida a canção ininterrupta
554
Herberto Helder
Já Me Custa No Chão do Inferno
já me custa no chão do inferno,
num volteio,
o lenço de Beatriz,
não é fácil que se despenhe da prateleira o apocalipse encadernado a púrpura,
aos oitenta é trabalhoso lidar com a revelação
e o pensamento puro,
também não posso por razões tipográficas conhecer a lei nos livros de bolso,
os dentes-de-leão quando bate a primavera,
estrelas enxameando o vento,
não posso,
vejo-as fugindo para trás sobre o meu ombro esquerdo,
e logo abaixo uma pancada de sangue,
não apanho lenços,
não apanho livros,
não apanho o ritmo fechado sobre si mesmo como a unha fecha o dedo,
já não tenho engenho para reaver aquela rosa esquerda que um dia me
roubaram,
já não apanho o ritmo,
eu que me interessei pelas origens trágicas da erudição,
com os pés sobre a terra sentia a água de cima até ao fundo,
sentia-lhe o leve e frio
movimento, tecia nos redutos do sono
os fios da seda, e agora mal adormeço o mel mortal vibra nos alvéolos,
sempre sempre sempre,
nunca sonhei com o sangue que se escrevia a si mesmo
como um poema trémulo,
porque só à primeira metade do poema assistia o mistério da respiração,
e o júbilo, esse mistério insoluto
oh porque me arrebatou tudo isso,
e me não sopra agora no escuro dos quartos,
quando já não há ninguém,
de uma só vez, nas pálpebras, nos ouvidos, na boca,
quando sou mudo e cego e surdo,
e porque não sinto estremecer-me a garganta,
e se não torna límpida nunca a erudição,
nas trevas nas trevas,
porque Alexandria não será jamais a minha pátria,
se já tudo se depurou enfim nos confins da leitura?
substantivos ar e fogo, agarrei-os
num arrebatamento,
unhas sangrando entre os buracos do papel salgado,
e uma palavra apenas, neologismo, arcaísmo há muito muito fora de uso,
nunca me abandonou em nenhuma cidade do mundo,
porque todos os poemas são trémulos,
oh nos curtumes dos dedos,
e por uma irónica razão nos curtumes crus da alma
Bibliografia dispensável:
Les origines tragiques de l’érudition. Une histoire de la note
en bas de page. Anthony Grafton (trad. Antoine Fabre).
num volteio,
o lenço de Beatriz,
não é fácil que se despenhe da prateleira o apocalipse encadernado a púrpura,
aos oitenta é trabalhoso lidar com a revelação
e o pensamento puro,
também não posso por razões tipográficas conhecer a lei nos livros de bolso,
os dentes-de-leão quando bate a primavera,
estrelas enxameando o vento,
não posso,
vejo-as fugindo para trás sobre o meu ombro esquerdo,
e logo abaixo uma pancada de sangue,
não apanho lenços,
não apanho livros,
não apanho o ritmo fechado sobre si mesmo como a unha fecha o dedo,
já não tenho engenho para reaver aquela rosa esquerda que um dia me
roubaram,
já não apanho o ritmo,
eu que me interessei pelas origens trágicas da erudição,
com os pés sobre a terra sentia a água de cima até ao fundo,
sentia-lhe o leve e frio
movimento, tecia nos redutos do sono
os fios da seda, e agora mal adormeço o mel mortal vibra nos alvéolos,
sempre sempre sempre,
nunca sonhei com o sangue que se escrevia a si mesmo
como um poema trémulo,
porque só à primeira metade do poema assistia o mistério da respiração,
e o júbilo, esse mistério insoluto
oh porque me arrebatou tudo isso,
e me não sopra agora no escuro dos quartos,
quando já não há ninguém,
de uma só vez, nas pálpebras, nos ouvidos, na boca,
quando sou mudo e cego e surdo,
e porque não sinto estremecer-me a garganta,
e se não torna límpida nunca a erudição,
nas trevas nas trevas,
porque Alexandria não será jamais a minha pátria,
se já tudo se depurou enfim nos confins da leitura?
substantivos ar e fogo, agarrei-os
num arrebatamento,
unhas sangrando entre os buracos do papel salgado,
e uma palavra apenas, neologismo, arcaísmo há muito muito fora de uso,
nunca me abandonou em nenhuma cidade do mundo,
porque todos os poemas são trémulos,
oh nos curtumes dos dedos,
e por uma irónica razão nos curtumes crus da alma
Bibliografia dispensável:
Les origines tragiques de l’érudition. Une histoire de la note
en bas de page. Anthony Grafton (trad. Antoine Fabre).
556
Herberto Helder
Já Me Custa No Chão do Inferno
já me custa no chão do inferno,
num volteio,
o lenço de Beatriz,
não é fácil que se despenhe da prateleira o apocalipse encadernado a púrpura,
aos oitenta é trabalhoso lidar com a revelação
e o pensamento puro,
também não posso por razões tipográficas conhecer a lei nos livros de bolso,
os dentes-de-leão quando bate a primavera,
estrelas enxameando o vento,
não posso,
vejo-as fugindo para trás sobre o meu ombro esquerdo,
e logo abaixo uma pancada de sangue,
não apanho lenços,
não apanho livros,
não apanho o ritmo fechado sobre si mesmo como a unha fecha o dedo,
já não tenho engenho para reaver aquela rosa esquerda que um dia me
roubaram,
já não apanho o ritmo,
eu que me interessei pelas origens trágicas da erudição,
com os pés sobre a terra sentia a água de cima até ao fundo,
sentia-lhe o leve e frio
movimento, tecia nos redutos do sono
os fios da seda, e agora mal adormeço o mel mortal vibra nos alvéolos,
sempre sempre sempre,
nunca sonhei com o sangue que se escrevia a si mesmo
como um poema trémulo,
porque só à primeira metade do poema assistia o mistério da respiração,
e o júbilo, esse mistério insoluto
oh porque me arrebatou tudo isso,
e me não sopra agora no escuro dos quartos,
quando já não há ninguém,
de uma só vez, nas pálpebras, nos ouvidos, na boca,
quando sou mudo e cego e surdo,
e porque não sinto estremecer-me a garganta,
e se não torna límpida nunca a erudição,
nas trevas nas trevas,
porque Alexandria não será jamais a minha pátria,
se já tudo se depurou enfim nos confins da leitura?
substantivos ar e fogo, agarrei-os
num arrebatamento,
unhas sangrando entre os buracos do papel salgado,
e uma palavra apenas, neologismo, arcaísmo há muito muito fora de uso,
nunca me abandonou em nenhuma cidade do mundo,
porque todos os poemas são trémulos,
oh nos curtumes dos dedos,
e por uma irónica razão nos curtumes crus da alma
Bibliografia dispensável:
Les origines tragiques de l’érudition. Une histoire de la note
en bas de page. Anthony Grafton (trad. Antoine Fabre).
num volteio,
o lenço de Beatriz,
não é fácil que se despenhe da prateleira o apocalipse encadernado a púrpura,
aos oitenta é trabalhoso lidar com a revelação
e o pensamento puro,
também não posso por razões tipográficas conhecer a lei nos livros de bolso,
os dentes-de-leão quando bate a primavera,
estrelas enxameando o vento,
não posso,
vejo-as fugindo para trás sobre o meu ombro esquerdo,
e logo abaixo uma pancada de sangue,
não apanho lenços,
não apanho livros,
não apanho o ritmo fechado sobre si mesmo como a unha fecha o dedo,
já não tenho engenho para reaver aquela rosa esquerda que um dia me
roubaram,
já não apanho o ritmo,
eu que me interessei pelas origens trágicas da erudição,
com os pés sobre a terra sentia a água de cima até ao fundo,
sentia-lhe o leve e frio
movimento, tecia nos redutos do sono
os fios da seda, e agora mal adormeço o mel mortal vibra nos alvéolos,
sempre sempre sempre,
nunca sonhei com o sangue que se escrevia a si mesmo
como um poema trémulo,
porque só à primeira metade do poema assistia o mistério da respiração,
e o júbilo, esse mistério insoluto
oh porque me arrebatou tudo isso,
e me não sopra agora no escuro dos quartos,
quando já não há ninguém,
de uma só vez, nas pálpebras, nos ouvidos, na boca,
quando sou mudo e cego e surdo,
e porque não sinto estremecer-me a garganta,
e se não torna límpida nunca a erudição,
nas trevas nas trevas,
porque Alexandria não será jamais a minha pátria,
se já tudo se depurou enfim nos confins da leitura?
substantivos ar e fogo, agarrei-os
num arrebatamento,
unhas sangrando entre os buracos do papel salgado,
e uma palavra apenas, neologismo, arcaísmo há muito muito fora de uso,
nunca me abandonou em nenhuma cidade do mundo,
porque todos os poemas são trémulos,
oh nos curtumes dos dedos,
e por uma irónica razão nos curtumes crus da alma
Bibliografia dispensável:
Les origines tragiques de l’érudition. Une histoire de la note
en bas de page. Anthony Grafton (trad. Antoine Fabre).
556
Herberto Helder
Os Capítulos Maiores da Minha Vida
os capítulos maiores da minha vida, suas músicas e palavras,
esqueci-os todos:
octagenário apenas, e a morte só de pensá-la calo,
é claro que a olhei de frente no capítulo vigésimo,
mas não nunca nem jamais agora:
agora sou olhado, e estremeço
do incrível natural de ser olhado assim por ela
esqueci-os todos:
octagenário apenas, e a morte só de pensá-la calo,
é claro que a olhei de frente no capítulo vigésimo,
mas não nunca nem jamais agora:
agora sou olhado, e estremeço
do incrível natural de ser olhado assim por ela
1 243
Herberto Helder
11
cabelos amarrados quentes que se desamarram,
oh quero-te em volta de luz batida,
em língua máxima,
a floração devora as varas,
o ar que se empolga devora-te a obra mulheril,
uns palmos de sangue até à boca sôfrega,
e depois desmanchas-te
oh quero-te em volta de luz batida,
em língua máxima,
a floração devora as varas,
o ar que se empolga devora-te a obra mulheril,
uns palmos de sangue até à boca sôfrega,
e depois desmanchas-te
634
Herberto Helder
Tríptico - I
Transforma-se o amador na coisa amada com seu
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.
Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
E o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.
Transforma-se em noite extintora.
Porque o amador é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta. O amador entra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.
Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquele grito para sempre na cabeça
a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador,
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.
E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimentam
o imprevisto silêncio do mundo
e do amor.
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.
Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
E o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.
Transforma-se em noite extintora.
Porque o amador é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta. O amador entra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.
Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquele grito para sempre na cabeça
a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador,
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.
E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimentam
o imprevisto silêncio do mundo
e do amor.
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Herberto Helder
A Água Desceu As Escadas
a água desceu as escadas,
a noite pode subi-las,
e a lua violenta a trabalhar lá em cima
¿ah de que matéria se faria o sono que me não visita sequer duas horas, ou uma, ou sequer metade de uma,
de que maneira poderia eu trabalhar a morte sempre tão difícil,
dedos, ritmos, respiração e o silêncio audível,
de que maneira a infusa fria,
a urna,
a água que desce e a noite que sobe
e o clarão que me envolve,
poderia eu trabalhar as cinzas,
para sempre o fogo no fundo das mãos sensíveis,
poderia eu de que maneira estremece este poema apenas,
o poema fremente?
a noite pode subi-las,
e a lua violenta a trabalhar lá em cima
¿ah de que matéria se faria o sono que me não visita sequer duas horas, ou uma, ou sequer metade de uma,
de que maneira poderia eu trabalhar a morte sempre tão difícil,
dedos, ritmos, respiração e o silêncio audível,
de que maneira a infusa fria,
a urna,
a água que desce e a noite que sobe
e o clarão que me envolve,
poderia eu trabalhar as cinzas,
para sempre o fogo no fundo das mãos sensíveis,
poderia eu de que maneira estremece este poema apenas,
o poema fremente?
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