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Herberto Helder

Herberto Helder

Texto 7

Tenho uma pequena coisa africana para dizer aos senhores
“um velho negro num mercado indígena
a entrançar tabaco” o odor húmido e palpitante sobe dos dedos
a subtileza “rítmica” dos dedos chega a ser uma dor
fere na cabeça o pensamento da sua devotação
extrema quase “intáctil” sobre algo
“algo tabaco”
o que começa a tornar-se como uma “loucura comovida”
por cima dessa massa viva de tabaco
“como ele aflora Deus digitalmente debruçado!”
de repente “vê-se” a inocente diligência
o “sim” sem nada mais
o medo como se fosse mel a escorrer do crânio
por tudo ser de novo tão concentrado e leve
a dor em nós de uma tão forte “ignorância activa”
“a fazer-se” uma prova
de elegância na “razão” do tempo
nenhuma dúvida apenas a lisura branda de um “estilo”
transcorrendo
apetece não ter mais do que a interminável “escrita”
prestes a sufocar e dedo a dedo salva
nas suas pautas gravada a direito como uma implacável
“pormenorização oracular”
como se pode tornar tão veemente uma doçura humana
tão pertinaz a graça e terrífica
a digitalidade do “silêncio”
e a candura quase a corromper-se à força de candura
e então o puro toque no tabaco cria
uma “fria ocorrência de pavor” pois tudo é “ambíguo”
nesta “rima obsessiva” a pertinácia ganha “formas” insuportáveis
dedos na nuca ligamentos invisíveis de tendões
centros nervosos irradiando impulsos cruéis
imóveis animalidades fremindo ocultamente debaixo da “luz”
e percebe-se então o “sangue” a ir e vir
sempre “entrançando” o movimento dos dias e das noites
sobre a tranquila “germinação”
e a terra como um monstro “maternal” que parece dormir
planetas a gravitar em redor dos dedos
uma dolorosa absorção do tabaco pelo ritmo
e assim “é isto o estilo?” até que a cabeça
é como “a vista” e a ideia desta coisa se transforma
“nesta coisa”
e quando enfim alguém “realmente” adormece
nada pára e o tabaco continua a ser entrançado
por dedos “negros” em todos os “sentidos”
e nunca mais será possível esquecer
tudo se repercute um toque passa um toque
a matéria passa de matéria em matéria
o ritmo ligeiro como uma alucinação
falanges falanginhas e falangetas no “tabaco terreno”
a pulsar
“linguagem” extenuante pela sua própria “verdade”
1 139
Herberto Helder

Herberto Helder

Texto 7

Tenho uma pequena coisa africana para dizer aos senhores
“um velho negro num mercado indígena
a entrançar tabaco” o odor húmido e palpitante sobe dos dedos
a subtileza “rítmica” dos dedos chega a ser uma dor
fere na cabeça o pensamento da sua devotação
extrema quase “intáctil” sobre algo
“algo tabaco”
o que começa a tornar-se como uma “loucura comovida”
por cima dessa massa viva de tabaco
“como ele aflora Deus digitalmente debruçado!”
de repente “vê-se” a inocente diligência
o “sim” sem nada mais
o medo como se fosse mel a escorrer do crânio
por tudo ser de novo tão concentrado e leve
a dor em nós de uma tão forte “ignorância activa”
“a fazer-se” uma prova
de elegância na “razão” do tempo
nenhuma dúvida apenas a lisura branda de um “estilo”
transcorrendo
apetece não ter mais do que a interminável “escrita”
prestes a sufocar e dedo a dedo salva
nas suas pautas gravada a direito como uma implacável
“pormenorização oracular”
como se pode tornar tão veemente uma doçura humana
tão pertinaz a graça e terrífica
a digitalidade do “silêncio”
e a candura quase a corromper-se à força de candura
e então o puro toque no tabaco cria
uma “fria ocorrência de pavor” pois tudo é “ambíguo”
nesta “rima obsessiva” a pertinácia ganha “formas” insuportáveis
dedos na nuca ligamentos invisíveis de tendões
centros nervosos irradiando impulsos cruéis
imóveis animalidades fremindo ocultamente debaixo da “luz”
e percebe-se então o “sangue” a ir e vir
sempre “entrançando” o movimento dos dias e das noites
sobre a tranquila “germinação”
e a terra como um monstro “maternal” que parece dormir
planetas a gravitar em redor dos dedos
uma dolorosa absorção do tabaco pelo ritmo
e assim “é isto o estilo?” até que a cabeça
é como “a vista” e a ideia desta coisa se transforma
“nesta coisa”
e quando enfim alguém “realmente” adormece
nada pára e o tabaco continua a ser entrançado
por dedos “negros” em todos os “sentidos”
e nunca mais será possível esquecer
tudo se repercute um toque passa um toque
a matéria passa de matéria em matéria
o ritmo ligeiro como uma alucinação
falanges falanginhas e falangetas no “tabaco terreno”
a pulsar
“linguagem” extenuante pela sua própria “verdade”
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Herberto Helder

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12

mal com as — soberbas! — pequenas putas que me ensinaram tudo
por amor d’el-rei, mal com el-rei por amor das putas?
bom é acabar —
mal com as academias por amor da língua portuguesa,
mal com tudo por amor do inferno,
mal com o fulgor dos dias perdidos,
uma a uma com as pessoas gerais que não conheço,
mal com tudo por amor de um pequeno e ínvio poema,
e mal ainda com o orvalho que aprisiona a borboleta
raríssima como um poema sumério,
bom é acabar mal com este petit monde à volta,
por amor do mundo que também me cerca incertamente,
o modo como te aproximas deste poema e se vê
que o teu nome é constelação,
tu tão fixa,
mal com tudo o mais por amor de ti, quente de tão impura,
tão móvel onde se aproxima o mundo que tanto tarda —
nos dicionários que abro ao acaso das línguas:
stella, queima-me tu as palmas das mãos,
depressa manto real depressa lençol de cima para baixo,
embrulha-me desembrulha porque ressuscito agora mesmo,
que afinal me envolves porque sim,
desata-me, nó de luz,
e ata-me depressa enquanto eles não sabem,
abraça-me,
abarca-me,
abrasa-me,
mal com a terra por amor dos caminhos marítimos,
a estas horas do sal espalhado fundo na noite,
quando se olhava da pedra preta a pique
e se dizia:
mergulha lá de cima a mão esquerda dá-que-dá
completamente bêbeda;
depois mão de basalto dormindo por baixo de algumas linhas
de espuma,
sim sim afinal escrevera um poema durante um reinado
de muitas guerras,
uma pouca de areia afogada quase imperceptível,
quando vinha o estio os banhistas batiam com os pés no fundo,
ou alguém mergulhava para apanhar moedas
redondas, triangulares, quadradas, esféricas,
de ouro, de prata, de bronze,
moedas cunhadas ao mesmo tempo que se passava o sal
grosso de mão em mão,
não nunca jamais ninguém deu por nada
— a essa pouca mão, a esse pouco de escrita
insensata, sensível, canhota,
se calhar, que sei eu?, devo a vida,
e se a vida, a minha, me vale de alguma coisa,
não para fortuna do mundo,
mas para mim mesmo que respiro enquanto escrevo,
embora possa haver quem o não creia ou não queira,
então, para acabar, agradeço como acabo:
estupor velho e relho,
um bom sacana
689
Herberto Helder

Herberto Helder

Texto 8

Nenhuma atenção se esqueceu de me cravar os dedos
na massa malévola e fervente e levemente doce
de um grande “vocabulário”
até que apenas quis ter as mãos expostas ao ar
e à minha frente o deserto pétreo das cacofonias
uma pobre selvática e eriçada “linguagem”
uma crua “exposição de designações”
brutais sem vícios de beleza ou graça
ou ambiguidade
chegar à “leitura explícita” de mim mesmo “texto”
sem marés “colocado” definitivamente
sempre em mim se avizinhou o “excesso vocal”
da “vocação silenciosa”
sempre a “movimentação errática” se aproximou
de um “sono extenso” e logo entendi
mal se fez para os meus olhos a “dança imóvel”
o acesso à “paragem fremente” foi-me dado
como ciência infusa
o palco apenas sem cenários a personagem sem gestos
a fala “não aposta nem suposta”
isto só bastaria como “acto”
de cima e de baixo uma luz “indiscutível”
bloco visão fulminante do “sentido” de tudo
a impossibilidade de “rotações e translações”
precipitação mortal e ainda voluta faiscante
para o corpo chegar-se o arco de si próprio
tangível apertado completo
contudo estão sempre a virar-me para a “paisagem”
dizem “vê as colinas a andarem em todos os espaços
ao mesmo tempo”
levam-me assim à audácia dos “espectáculos”
desviam de mim “o centro” essa paixão da unidade
“o compacto discurso” das trevas ou da luz
“gradações” sibilam eles contentes da subtileza
mas eu estou para além disso unido às vísceras
pelo seu próprio fogo
não me enxameiem a cabeça com as aspas coruscantes
uma nostalgia dourada do “dicionário” que eu podia
trava-se um pouco “a marcha”
mas vou para um “silêncio que treme”
“o violino sobre a mesa” a poeira que vem
“produzir a eternidade”
depois a alegria total de uma tentação dos dedos
parados
franquear a violência luminosa
suspensa
qualquer maneira de intervir na “música”
subindo por dentro a “temperatura” até os termómetros
caírem por eles abaixo
e a “explosão” preparada sorver-se implosivamente
e para sempre se restabelecer a “linha viva”
que une ao ar a labareda
um discurso sem palavras atravessado pela febre
fria
de um saber extremo “irredutível”
603
Herberto Helder

Herberto Helder

Texto 8

Nenhuma atenção se esqueceu de me cravar os dedos
na massa malévola e fervente e levemente doce
de um grande “vocabulário”
até que apenas quis ter as mãos expostas ao ar
e à minha frente o deserto pétreo das cacofonias
uma pobre selvática e eriçada “linguagem”
uma crua “exposição de designações”
brutais sem vícios de beleza ou graça
ou ambiguidade
chegar à “leitura explícita” de mim mesmo “texto”
sem marés “colocado” definitivamente
sempre em mim se avizinhou o “excesso vocal”
da “vocação silenciosa”
sempre a “movimentação errática” se aproximou
de um “sono extenso” e logo entendi
mal se fez para os meus olhos a “dança imóvel”
o acesso à “paragem fremente” foi-me dado
como ciência infusa
o palco apenas sem cenários a personagem sem gestos
a fala “não aposta nem suposta”
isto só bastaria como “acto”
de cima e de baixo uma luz “indiscutível”
bloco visão fulminante do “sentido” de tudo
a impossibilidade de “rotações e translações”
precipitação mortal e ainda voluta faiscante
para o corpo chegar-se o arco de si próprio
tangível apertado completo
contudo estão sempre a virar-me para a “paisagem”
dizem “vê as colinas a andarem em todos os espaços
ao mesmo tempo”
levam-me assim à audácia dos “espectáculos”
desviam de mim “o centro” essa paixão da unidade
“o compacto discurso” das trevas ou da luz
“gradações” sibilam eles contentes da subtileza
mas eu estou para além disso unido às vísceras
pelo seu próprio fogo
não me enxameiem a cabeça com as aspas coruscantes
uma nostalgia dourada do “dicionário” que eu podia
trava-se um pouco “a marcha”
mas vou para um “silêncio que treme”
“o violino sobre a mesa” a poeira que vem
“produzir a eternidade”
depois a alegria total de uma tentação dos dedos
parados
franquear a violência luminosa
suspensa
qualquer maneira de intervir na “música”
subindo por dentro a “temperatura” até os termómetros
caírem por eles abaixo
e a “explosão” preparada sorver-se implosivamente
e para sempre se restabelecer a “linha viva”
que une ao ar a labareda
um discurso sem palavras atravessado pela febre
fria
de um saber extremo “irredutível”
603
Herberto Helder

Herberto Helder

Texto 8

Nenhuma atenção se esqueceu de me cravar os dedos
na massa malévola e fervente e levemente doce
de um grande “vocabulário”
até que apenas quis ter as mãos expostas ao ar
e à minha frente o deserto pétreo das cacofonias
uma pobre selvática e eriçada “linguagem”
uma crua “exposição de designações”
brutais sem vícios de beleza ou graça
ou ambiguidade
chegar à “leitura explícita” de mim mesmo “texto”
sem marés “colocado” definitivamente
sempre em mim se avizinhou o “excesso vocal”
da “vocação silenciosa”
sempre a “movimentação errática” se aproximou
de um “sono extenso” e logo entendi
mal se fez para os meus olhos a “dança imóvel”
o acesso à “paragem fremente” foi-me dado
como ciência infusa
o palco apenas sem cenários a personagem sem gestos
a fala “não aposta nem suposta”
isto só bastaria como “acto”
de cima e de baixo uma luz “indiscutível”
bloco visão fulminante do “sentido” de tudo
a impossibilidade de “rotações e translações”
precipitação mortal e ainda voluta faiscante
para o corpo chegar-se o arco de si próprio
tangível apertado completo
contudo estão sempre a virar-me para a “paisagem”
dizem “vê as colinas a andarem em todos os espaços
ao mesmo tempo”
levam-me assim à audácia dos “espectáculos”
desviam de mim “o centro” essa paixão da unidade
“o compacto discurso” das trevas ou da luz
“gradações” sibilam eles contentes da subtileza
mas eu estou para além disso unido às vísceras
pelo seu próprio fogo
não me enxameiem a cabeça com as aspas coruscantes
uma nostalgia dourada do “dicionário” que eu podia
trava-se um pouco “a marcha”
mas vou para um “silêncio que treme”
“o violino sobre a mesa” a poeira que vem
“produzir a eternidade”
depois a alegria total de uma tentação dos dedos
parados
franquear a violência luminosa
suspensa
qualquer maneira de intervir na “música”
subindo por dentro a “temperatura” até os termómetros
caírem por eles abaixo
e a “explosão” preparada sorver-se implosivamente
e para sempre se restabelecer a “linha viva”
que une ao ar a labareda
um discurso sem palavras atravessado pela febre
fria
de um saber extremo “irredutível”
603
Herberto Helder

Herberto Helder

17

como de facto dia a dia sinto que morro muito,
melhor é pôr-me de lado quando alguém puxa dos números,
agora parece que já ninguém nasce,
as pessoas agora querem é morrer,
e como não morrem bem porque no esplendor das obras as
compensações são baixas,
procuram a morte módica,
vão todos juntos para as praias onde não há socorristas,
praias do inferno sem nenhuma salvação,
às vezes marcam-se encontros nos apogeus dessas tardes
desmedidas,
e quando lá chegam já vomitam os bofes,
nestes lugares não há sombras que nos valham,
estes lugares, diz alguém, nem precisam ser simbólicos,
o poema agora por exemplo não tem simbolismo nenhum,
morro dentro dele sem força para respirar,
toda a gente a caminho das praias culminantes,
toda a gente calada com medo que a praia se tenha ido embora,
coisa única do paraíso, pensa ele,
é saber que nem o inferno nem o paraíso podem mudar de
condição e sítio,
estátuas gregas nuas sem ponta de excitação, apenas
solenes anúncios de churrascos,
a morte não salva nada: começamos pelo menos a entender
a cultura que nos sufoca,
eu pelo menos deito os pulmões boca fora,
mas de repente alguém diz: contudo,
diz: contudo já se inventou o ar condicionado
(o ar condicionado na praia?)
e a maravilha demoníaca desmorona-se,
e outra vez: pai pai porque me abandonas?
nenhum mito se cumpre,
ninguém ainda acredita nos poderes sequer de erudição menos
inexpugnável,
nem o capítulo do amor quando ela vem vindo diuturna com fruta
à escolha nas duas mãos.
anda como quem dança, o cabelo apartado ao meio,
vista de todos os ângulos como no cinema,
magnificamente manobrada por esta luz não assim tão lenta que
nos há-de a todos devorar,
não, não me abandonaste,
as tuas mãos abundantes congeminam milagres atrás de milagres
ah enfim alguma coisa muito límpida,
introduz aqui o capítulo infernal por todos os lados,
o meu fato de banho não tem bolsos,
pai, pai, porque me abandonas com a ironia em fato de banho,
e a areia, e a luz, e o iodo, e essa água toda,
como se o inferno fosse alegria apenas,
em setembro,
corpos mais nus do que se não tivessem fato de banho
589