Temas
Poemas neste tema

Outros

Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Porco na Cerca

você sabe, dirigindo através desta cidade ou de qualquer cidade
caminhando através desta cidade ou de qualquer cidade vejo
gente com narinas, dedos, pés,
olhos, boca, ouvido, queixo, sobrancelhas e assim por diante.
entro em uma lanchonete e peço o desjejum,
olho ao redor e estou consciente de crânios e esquele-
tos enquanto observo um homem enfiar
um pedaço de bacon em sua boca e morrer um pouco
e não gosto de contemplar a morte porque
pode haver algum outro lugar aonde tenhamos que ir depois
e já encarei confusões o bastante só por estar bem aqui
mas
talvez seja a culpa de todas as cobras em viveiros de vidro,
elas não podem mover-se, respirar ou matar e eles
deveriam soltá-las e eles deveriam esvaziar as
prisões também assim que eu arrumar minha Luger[1] e
soltar meus cachorros.
os prédios são todos pobremente construídos e o corpo
humano também; às vezes assisto a dançarinas dando pulos
por aí e penso, isso é feio e desajeitado,
o corpo humano foi construído de modo errado, é desengonçado e
estúpido... comparado a quê? comparado ao cacto
e ao leopardo. bem,
minhas mulheres sempre me disseram, "você é tão negativo!"
e eu olhava para elas e respondia, "eu acho que a reali-
dade é negativa". comparada a quê? irrealidade.
no entanto mesmo assim tive mais alegrias que qualquer um
deles, eles foram positivos e deprimidos, e eu sou negativo
e feliz. bem,
tudo isso pode ser culpa de bombeiros parados esperando
por um incêndio. pode ser culpa de algum cara em Moscou
estuprando uma menina de
6 anos, ou pode ser porque a neblina não é
mais a neblina do jeito como costumava ser - fresca, molhada,
refrescante,
mas tudo está machucando agora. eles acharam algum cara jogando
futebol na U.C.L.A. que nem sabia ler ou escrever
mas por Cristo como ele tinha força, que corpo, ele podia ter se dado
bem mas ele se aborreceu e matou seu fornecedor
de drogas e depois descobriram que ao final das contas ele nem era
muito um universitário, só uma espécie de peixinho dourado criado
o que me lembra
dificilmente mais alguém cria peixes dourados: você sabe quando eu
era criança, um domicílio em cada 3 tinha peixes dourados.
o que aconteceu com eles? alguns tinham até
laguinhos de peixes dourados no quintal com um fino musgo e
dúzias de peixes dourados, pequenos, médios, grandes,
viviam de migalhas de pão e alguns desses fodões se tornaram
tão gordos e estúpidos que simplesmente subiram até a superfície e se
deitaram
de lado, um olho para o sol, largados, como uma má mensagem
de Deus, mas as pessoas também desistem quando não deviam.
certa vez
houve um campeão, recebeu 5 milhões por uma disputa de campeonato,
o Macho Man, nunca havia sido derrotado mas deu de cara com
um sujeito que podia enfrentá-lo e depois de uns rounds ele
deu as costas e disse,
"no más".
imagine só, por 5 milhões um homem poderia aguentar alguma
dor, eu vi homens com suas vidas inteiras destruídas por
55 centavos a hora ou menos.
bem,
talvez seja a alvenaria ou talvez seja a bomba d'água, ou talvez seja o
porco na cerca, ou talvez seja o fim da sorte. anjos estão voando
baixo hoje com asas em chamas, sua mãe é a vítima de
seus pesadelos ordinários enquanto 40 torneiras gotejam, o gato está com
leucemia, faltam só 245 dias até o Natal e meu
protético me odeia.
assim agora
eu acordo com o pescoço duro em vez do pau
duro e
você
sempre poderá me achar aqui
em East Hollywood mas
por favor por favor por favor
não
tente.
681
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Olhando Para Os Colhões Do Gato

sentado aqui junto à janela
suando suor de cerveja
atormentado pelo verão
estou olhando para os colhões do meu gato.
não é por minha escolha.
ele dorme em uma velha cadeira de balanço
na varanda
e dali ele me olha
dependurado em seus colhões de gato.
aí está seu rabo, coisa danada,
dependurada de lado
de modo que eu possa
ver seus felpudos reservatórios mas
em que pode um homem pensar
enquanto olha para as bolas de um gato?
certamente não sobre a nave naufragada após uma
grande batalha naval.
certamente não sobre um programa para salvar os
pobres.
certamente não sobre um mercado de flores ou uma dúzia de
OVOS.
certamente não sobre um interruptor de luz quebrado.
colhões são colhões, é isso aí,
e com muita certeza isso é verdade a respeito
dos colhões de um gato.
os meus são bem moles e macios e
diz-me minha atual mulher
bem grandes:
"você tem colhões enormes, Chinaski!"
mas os colhões do gato:
eu não consigo entender se ele está dependurado neles
ou se eles estão dependurados nele.
você vê, há essa batalha de atravessar quase toda a noite
pela fêmea
e isso não é nada fácil para nenhum de nós.
veja:
falta um pedaço da sua orelha esquerda.
certa vez pensei que um de seus olhos tinha sido
arrancado
mas quando o sangue seco
descascou
uma semana depois
aí estava seu puro
olho verde-dourado
me encarando.
todo o seu corpo está coberto de escaras de mordidas
e no outro dia,
tentando acariciar sua cabeça
ele gemeu e quase me mordeu -
a pele do seu crânio
havia sido rasgada até o osso.
com certeza não é fácil para nenhum de nós,
pobre coitado.
ele dorme
e agora sonha
o quê?
um gordo pardal em sua boca?
ou rodeado por gatas com tesão?
ele sonha seus sonhos diurnos
e nós saberemos o que é
esta noite.
boa sorte, velho camarada,
a vida não é fácil,
estamos dependurados em nossos colhões, é assim que estamos, ou seja,
estamos no cativeiro de nossos colhões,
e eu deveria me conter um pouco
quando se trata de mulheres.
enquanto isso
olharei seus olhos e me defenderei com jabs de esquerda
e correrei como do diabo
quando nada mais
adiantar.
1 235
Charles Bukowski

Charles Bukowski

2 Vistas

meu amigo diz, como é que você pode escrever tantos poemas
daí desta janela? eu escrevo, do útero,
ele me diz. a coisa escura da dor,
a ponta da pena da dor.
bom, isso impressiona muito
mas acontece que eu sei que nós dois recebemos uma boa quantidade de
cartas de recusa, fumamos uma boa quantidade de cigarros,
bebemos demais e tentamos roubar as mulheres
um do outro, o que não é poesia de jeito nenhum.
e ele me lê seus poemas
ele sempre me lê seus poemas
e eu ouço e não digo muita coisa,
olho pela janela,
e lá está a mesma rua
minha rua,
minha rua bêbada, ensolarada, enchuvarada, da
criançada,
e à noite olho para esta rua
às vezes
quando ela pensa que não a estou olhando,
os 1 ou 2 carros movendo-se silenciosamente,
o mesmo velho, ainda vivo, em sua
caminhada noturna,
as cortinas das casas cerradas,
o amor falhou mas
se aguenta
então vamos em frente.
mas agora é dia claro e as crianças
que algum dia serão homens velhos e mulheres velhas
caminhando através de seus últimos momentos,
essas crianças correm ao redor de um carro vermelho
gritando qualquer bobagem,
então meu amigo pousa seu poema.
bem, o que você acha?, ele pergunta.
tente assim e assim, eu cito uma revista
e então estranhamente
penso em guitarras sob o mar
tentando tocar música;
isso é triste e bom e quieto.
ele me vê parado à janela.
o que há lá fora?
olhe, eu digo,
e veja...
ele é 11 anos mais novo que eu.
ele se afasta da janela. eu preciso de uma cerveja,
não tenho mais cerveja.
caminho até a geladeira
e o assunto está encerrado.
1 162
Charles Bukowski

Charles Bukowski

2 Vistas

meu amigo diz, como é que você pode escrever tantos poemas
daí desta janela? eu escrevo, do útero,
ele me diz. a coisa escura da dor,
a ponta da pena da dor.
bom, isso impressiona muito
mas acontece que eu sei que nós dois recebemos uma boa quantidade de
cartas de recusa, fumamos uma boa quantidade de cigarros,
bebemos demais e tentamos roubar as mulheres
um do outro, o que não é poesia de jeito nenhum.
e ele me lê seus poemas
ele sempre me lê seus poemas
e eu ouço e não digo muita coisa,
olho pela janela,
e lá está a mesma rua
minha rua,
minha rua bêbada, ensolarada, enchuvarada, da
criançada,
e à noite olho para esta rua
às vezes
quando ela pensa que não a estou olhando,
os 1 ou 2 carros movendo-se silenciosamente,
o mesmo velho, ainda vivo, em sua
caminhada noturna,
as cortinas das casas cerradas,
o amor falhou mas
se aguenta
então vamos em frente.
mas agora é dia claro e as crianças
que algum dia serão homens velhos e mulheres velhas
caminhando através de seus últimos momentos,
essas crianças correm ao redor de um carro vermelho
gritando qualquer bobagem,
então meu amigo pousa seu poema.
bem, o que você acha?, ele pergunta.
tente assim e assim, eu cito uma revista
e então estranhamente
penso em guitarras sob o mar
tentando tocar música;
isso é triste e bom e quieto.
ele me vê parado à janela.
o que há lá fora?
olhe, eu digo,
e veja...
ele é 11 anos mais novo que eu.
ele se afasta da janela. eu preciso de uma cerveja,
não tenho mais cerveja.
caminho até a geladeira
e o assunto está encerrado.
1 162
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Depois De Receber Um Exemplar De Um Editor Contribuinte

cavilosos peixinhos
mordiscando suas feridas
achadas nessas páginas mal impressas
e ainda à procura de patrocinadores
amantes
mães
fama fácil:
qual de vocês
eu vi através de uma
janela de restaurante em uma Denver gelada
comendo torta de maçãs?
dirigindo para East Hollywood com um mastim
à caça de sua ama de leite?
qual de vocês então bateu
à minha porta
querendo falar sobre POESIA?
qual de vocês é vaidoso o bastante
e miserável o bastante
e doente o bastante
para chupar o rabo de um editor?
qual de vocês vai
a todas as festinhas bacanas
e lê suas coisas para os
vermes?
qual de vocês acha
que é Pound, ou Shelley
em uma borboleta azul?
qual de vocês
modificou meu poema para lê-lo
da maneira que você PENSA
que um poema deve ser lido?
qual de vocês esgoelou
sentimentos doentios e amigáveis
como larvas rastejando no
corpo da minha mente?
e isso pode parecer forte
e injusto,
pois eu digo, deixem que todos vivam
e escrevam
se quiserem viver e escrever
mas qual de vocês
vive com sua mãe ou sua tia,
qual de vocês aplica
primeiro talco em sua bunda
e depois sobe
na cruz?
qual de vocês
(um deles um professor universitário
a quem certa vez eu castiguei
por causa de abstração sem sentido)
qual de vocês agora
escreve sobre putas e bebida
e nunca foi para a cama com uma mulher,
e nunca bebeu
mais que um copo de cerveja escura?
e qual de vocês
escreve com um dicionário sobre a barriga
como se sodomizasse uma vaca inteira?
qual de vocês faz sua alma rebolar
ao som de Bach para órgão
como um macaco em uma corda?
qual de vocês
odeia a mulher que o alimenta?
não por ela ser humana
mas porque
ela não gosta do que você faz.
qual de vocês
não conseguiria rebater uma bola de beisebol?
qual de vocês
nunca esteve na cadeia?
qual de vocês?
qual de vocês?
qual de
vocês?
1 142
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Depois De Receber Um Exemplar De Um Editor Contribuinte

cavilosos peixinhos
mordiscando suas feridas
achadas nessas páginas mal impressas
e ainda à procura de patrocinadores
amantes
mães
fama fácil:
qual de vocês
eu vi através de uma
janela de restaurante em uma Denver gelada
comendo torta de maçãs?
dirigindo para East Hollywood com um mastim
à caça de sua ama de leite?
qual de vocês então bateu
à minha porta
querendo falar sobre POESIA?
qual de vocês é vaidoso o bastante
e miserável o bastante
e doente o bastante
para chupar o rabo de um editor?
qual de vocês vai
a todas as festinhas bacanas
e lê suas coisas para os
vermes?
qual de vocês acha
que é Pound, ou Shelley
em uma borboleta azul?
qual de vocês
modificou meu poema para lê-lo
da maneira que você PENSA
que um poema deve ser lido?
qual de vocês esgoelou
sentimentos doentios e amigáveis
como larvas rastejando no
corpo da minha mente?
e isso pode parecer forte
e injusto,
pois eu digo, deixem que todos vivam
e escrevam
se quiserem viver e escrever
mas qual de vocês
vive com sua mãe ou sua tia,
qual de vocês aplica
primeiro talco em sua bunda
e depois sobe
na cruz?
qual de vocês
(um deles um professor universitário
a quem certa vez eu castiguei
por causa de abstração sem sentido)
qual de vocês agora
escreve sobre putas e bebida
e nunca foi para a cama com uma mulher,
e nunca bebeu
mais que um copo de cerveja escura?
e qual de vocês
escreve com um dicionário sobre a barriga
como se sodomizasse uma vaca inteira?
qual de vocês faz sua alma rebolar
ao som de Bach para órgão
como um macaco em uma corda?
qual de vocês
odeia a mulher que o alimenta?
não por ela ser humana
mas porque
ela não gosta do que você faz.
qual de vocês
não conseguiria rebater uma bola de beisebol?
qual de vocês
nunca esteve na cadeia?
qual de vocês?
qual de vocês?
qual de
vocês?
1 142
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Ódio a Hemingway

dei ao último livro de Hemingway
As ilhas da corrente
uma resenha ruim
enquanto a maioria dos outros lhe dava
boas resenhas.
mas o ódio a Hemingway
pelo escritor malsucedido
especialmente a mulher escritora
é incompreensível para mim.
essa mulher escritora malsucedida estava enfurecida.
tentei explicar porque achava que
Hemingway escrevia
desse modo.
essa coisa de vida-através-da-morte, ela disse,
absolutamente não é exclusiva de
Hemingway. do que mais toda
a nossa cultura ocidental trata? é a mesma história
mais uma vez e mais
uma vez. nada de novo
aqui!
é verdade, pensei, mas...
atirar em leões significava apenas atirar
em si mesmo? ela perguntou. é isso? é
isso? não quando esses leões estavam desarmados e
ele chegava neles com um rifle e
nem mesmo precisava
chegar perto. realmente! pobrezinho do Heming-
way.
é verdade, pensei, os leões não levam
rifles.
a tradição espanhola. entendo Goya porque ele consegue
ser tão real e completo, ela disse. não entendo
Hemingway como outra coisa a não ser um velho filme de Hollywood
protagonizado por... qual é o nome dele? aquele Cooper que era amigo
dele - aquele cara do Matar ou morrer. uau!
ela não gosta nem mesmo dos amigos dele,
pensei.
você aprende sobre a morte por morrer
não por olhá-la,
ela disse.
isso é verdade, pensei, mas então
como você escreve sobre isso?
você diz que Shakespeare o aborrece, ela disse -
o fato é
que ele sabia muito mais que Hemingway -
Hemingway nunca foi além de ser um
jornalista.
que aprendeu a escrever com Gertrude Stein, pensei.
ele lhe contava o que via, ela disse, mas ele não sabia
o que significava - como as coisas realmente
se relacionam... ele nunca
explicou.
estranho, pensei, era exatamente isso que eu
gostava
nele.
você fala um monte de típica
besteira, ela disse.
que pena, pensei,
ela tem pernas tão lindas
e longas. bem, Goya também tinha razão,
mas você não pode ir para a cama com
Goya.
bem, tudo certo, eu pensei, Hemingway puxou aqueles peixes grandes
para fora do mar e encarou algumas guerras
e assistiu a touros morrerem e atirou em alguns
leões;
escreveu alguns grandes contos
e nos deu 2 ou 3
bons romances
iniciais;
em seu derradeiro dia
Hemingway acenou para
alguns garotos indo para a escola,
eles acenaram de volta, e ele nunca tocou o suco de laranja
à sua frente;
então ele enfiou aquela arma em sua boca como um canudinho
e apertou o gatilho
e um dos poucos imortais da América
era sangue e miolos pelas paredes e pelo
forro da sala, e então todos eles sorriram,
eles sorriram e disseram,
ah, um fresco! ah, um covarde!
sim, ele se aproveitou de McAlmon,
ele se aproveitou de todo mundo
e não tratou Fitzgerald corretamente
e ele datilografava em pé
e uma vez ele esteve em um
hospício,
e Gertie Stein, aquele
canhão,
talvez ela o tivesse
ensinado a
escrever.
mas quem o convenceu de que era hora de morrer?
vocês fizeram isso, vocês
seus bundões
sujos.
675
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Ódio a Hemingway

dei ao último livro de Hemingway
As ilhas da corrente
uma resenha ruim
enquanto a maioria dos outros lhe dava
boas resenhas.
mas o ódio a Hemingway
pelo escritor malsucedido
especialmente a mulher escritora
é incompreensível para mim.
essa mulher escritora malsucedida estava enfurecida.
tentei explicar porque achava que
Hemingway escrevia
desse modo.
essa coisa de vida-através-da-morte, ela disse,
absolutamente não é exclusiva de
Hemingway. do que mais toda
a nossa cultura ocidental trata? é a mesma história
mais uma vez e mais
uma vez. nada de novo
aqui!
é verdade, pensei, mas...
atirar em leões significava apenas atirar
em si mesmo? ela perguntou. é isso? é
isso? não quando esses leões estavam desarmados e
ele chegava neles com um rifle e
nem mesmo precisava
chegar perto. realmente! pobrezinho do Heming-
way.
é verdade, pensei, os leões não levam
rifles.
a tradição espanhola. entendo Goya porque ele consegue
ser tão real e completo, ela disse. não entendo
Hemingway como outra coisa a não ser um velho filme de Hollywood
protagonizado por... qual é o nome dele? aquele Cooper que era amigo
dele - aquele cara do Matar ou morrer. uau!
ela não gosta nem mesmo dos amigos dele,
pensei.
você aprende sobre a morte por morrer
não por olhá-la,
ela disse.
isso é verdade, pensei, mas então
como você escreve sobre isso?
você diz que Shakespeare o aborrece, ela disse -
o fato é
que ele sabia muito mais que Hemingway -
Hemingway nunca foi além de ser um
jornalista.
que aprendeu a escrever com Gertrude Stein, pensei.
ele lhe contava o que via, ela disse, mas ele não sabia
o que significava - como as coisas realmente
se relacionam... ele nunca
explicou.
estranho, pensei, era exatamente isso que eu
gostava
nele.
você fala um monte de típica
besteira, ela disse.
que pena, pensei,
ela tem pernas tão lindas
e longas. bem, Goya também tinha razão,
mas você não pode ir para a cama com
Goya.
bem, tudo certo, eu pensei, Hemingway puxou aqueles peixes grandes
para fora do mar e encarou algumas guerras
e assistiu a touros morrerem e atirou em alguns
leões;
escreveu alguns grandes contos
e nos deu 2 ou 3
bons romances
iniciais;
em seu derradeiro dia
Hemingway acenou para
alguns garotos indo para a escola,
eles acenaram de volta, e ele nunca tocou o suco de laranja
à sua frente;
então ele enfiou aquela arma em sua boca como um canudinho
e apertou o gatilho
e um dos poucos imortais da América
era sangue e miolos pelas paredes e pelo
forro da sala, e então todos eles sorriram,
eles sorriram e disseram,
ah, um fresco! ah, um covarde!
sim, ele se aproveitou de McAlmon,
ele se aproveitou de todo mundo
e não tratou Fitzgerald corretamente
e ele datilografava em pé
e uma vez ele esteve em um
hospício,
e Gertie Stein, aquele
canhão,
talvez ela o tivesse
ensinado a
escrever.
mas quem o convenceu de que era hora de morrer?
vocês fizeram isso, vocês
seus bundões
sujos.
675
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Ódio a Hemingway

dei ao último livro de Hemingway
As ilhas da corrente
uma resenha ruim
enquanto a maioria dos outros lhe dava
boas resenhas.
mas o ódio a Hemingway
pelo escritor malsucedido
especialmente a mulher escritora
é incompreensível para mim.
essa mulher escritora malsucedida estava enfurecida.
tentei explicar porque achava que
Hemingway escrevia
desse modo.
essa coisa de vida-através-da-morte, ela disse,
absolutamente não é exclusiva de
Hemingway. do que mais toda
a nossa cultura ocidental trata? é a mesma história
mais uma vez e mais
uma vez. nada de novo
aqui!
é verdade, pensei, mas...
atirar em leões significava apenas atirar
em si mesmo? ela perguntou. é isso? é
isso? não quando esses leões estavam desarmados e
ele chegava neles com um rifle e
nem mesmo precisava
chegar perto. realmente! pobrezinho do Heming-
way.
é verdade, pensei, os leões não levam
rifles.
a tradição espanhola. entendo Goya porque ele consegue
ser tão real e completo, ela disse. não entendo
Hemingway como outra coisa a não ser um velho filme de Hollywood
protagonizado por... qual é o nome dele? aquele Cooper que era amigo
dele - aquele cara do Matar ou morrer. uau!
ela não gosta nem mesmo dos amigos dele,
pensei.
você aprende sobre a morte por morrer
não por olhá-la,
ela disse.
isso é verdade, pensei, mas então
como você escreve sobre isso?
você diz que Shakespeare o aborrece, ela disse -
o fato é
que ele sabia muito mais que Hemingway -
Hemingway nunca foi além de ser um
jornalista.
que aprendeu a escrever com Gertrude Stein, pensei.
ele lhe contava o que via, ela disse, mas ele não sabia
o que significava - como as coisas realmente
se relacionam... ele nunca
explicou.
estranho, pensei, era exatamente isso que eu
gostava
nele.
você fala um monte de típica
besteira, ela disse.
que pena, pensei,
ela tem pernas tão lindas
e longas. bem, Goya também tinha razão,
mas você não pode ir para a cama com
Goya.
bem, tudo certo, eu pensei, Hemingway puxou aqueles peixes grandes
para fora do mar e encarou algumas guerras
e assistiu a touros morrerem e atirou em alguns
leões;
escreveu alguns grandes contos
e nos deu 2 ou 3
bons romances
iniciais;
em seu derradeiro dia
Hemingway acenou para
alguns garotos indo para a escola,
eles acenaram de volta, e ele nunca tocou o suco de laranja
à sua frente;
então ele enfiou aquela arma em sua boca como um canudinho
e apertou o gatilho
e um dos poucos imortais da América
era sangue e miolos pelas paredes e pelo
forro da sala, e então todos eles sorriram,
eles sorriram e disseram,
ah, um fresco! ah, um covarde!
sim, ele se aproveitou de McAlmon,
ele se aproveitou de todo mundo
e não tratou Fitzgerald corretamente
e ele datilografava em pé
e uma vez ele esteve em um
hospício,
e Gertie Stein, aquele
canhão,
talvez ela o tivesse
ensinado a
escrever.
mas quem o convenceu de que era hora de morrer?
vocês fizeram isso, vocês
seus bundões
sujos.
675