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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Resposta a Um Bilhete Encontrado Na Caixa de Correio

“o amor é como um sino
me diga, você já
o escutou na voz dela?”
o amor não é como um sino
isso é poético, verdade,
mas escutei algo na voz dela
que no vômito do meu tormento
que na caveira pousada na janela
arreganhando os dentes amarelos quebrados
me alçou a um clima que raras vezes
conheci –
“aqui, uma flor. eu trago flor.”
escuto algo na voz dela
que nada tem a ver com suados e traiçoeiros
e sangrantes exércitos
que nada tem a ver com o chefe da fábrica com olhos
quebrados
não estou implicando com as suas palavras:
você tem o seu sino
eu tenho isso e talvez você tenha isso também:
“eu trago sapatos. sapato. sapato. aqui um
sapato!”
é mais do que aprender o que é um sapato
é mais do que aprender o que sou ou o que ela
é
é outra coisa
que talvez nós que vivemos há muito tempo já quase
esquecemos
que uma criança venha dos pântanos da minha dor
carregando flores, efetivamente carregando flores,
jesus, isso é quase demais
que me seja permitido ver com olhos e tocar e
rir,
essa besta informada em mim
faz careta no íntimo
mas logo constata que o esforço é grande demais para se esconder
atrás
e essa pequena criatura que me conhece tão bem
rasteja por tudo através e em cima de mim
Lázaro Lázaro
e não sinto vergonha
guerreiro espancado por horas e anos de
desperdício
o amor é como um sino
o amor é como uma montanha púrpura
o amor é como um copo de vinagre
o amor são todas as sepulturas
o amor é uma janela de trem
ela sabe o meu nome.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Encontro Trágico

eu era mais visível e disponível naquele tempo
e eu tinha uma grande fraqueza:
eu achava que ir pra cama com várias mulheres
significava que um homem era esperto e bom e
superior
sobretudo se aos 55 anos de
idade
conseguisse traçar inúmeras gatinhas
e eu levantava pesos
bebia feito um louco
e fazia
isso.

as mulheres eram na maioria legais
e na maioria eram bonitas
e só uma ou outra era realmente burra e
sem graça
mas JoJo
eu não consigo nem mesmo categorizar.
suas cartas eram sucintas, repetiam
as mesmas coisas:
“eu gosto dos seus livros, gostaria de
conhecê-lo...”
eu escrevi de volta e lhe disse
que
tudo bem.

então vieram as instruções
sobre onde eu deveria
encontrá-la: em tal faculdade
em tal data
a tal hora
logo depois de suas
aulas.
a faculdade ficava no alto das
colinas e
o dia e a hora
chegaram
e com seus desenhos
de ruas serpenteantes
mais um mapa rodoviário
eu parti.

era em algum lugar entre o Rose Bowl
e um dos maiores cemitérios do
sul da Califórnia
e eu cheguei cedo e fiquei sentado no meu
carro
bebericando meu Cutty Sark
e olhando as
aluninhas – havia tantas
delas, simplesmente não dava para
pegar todas.

então soou a campainha e eu saí do meu
carro e andei até a frente do
prédio, havia uma longa sequência de
degraus e os estudantes saíram do
prédio e desceram os degraus
e eu fiquei parado
esperando, e como numa chegada
em aeroporto
eu não fazia ideia
de quem
seria.

“Chinaski”, alguém disse
e lá estava ela: 18, 19 anos,
nem feia nem linda, com
corpo e feições medianos,
parecendo não ser feroz,
inteligente, burra e tampouco
louca.

demos um leve beijo e aí
perguntei se ela
estava de carro
e ela disse
que estava de carro
e eu disse “tá bom, te levo no meu
até ele, depois você me
segue...”

JoJo era uma boa seguidora, ela me seguiu o
caminho todo até a minha ruazinha decaída no leste
de Hollywood.

eu lhe servi uma bebida e nós conversamos um
papo muito insípido e nos beijamos um
pouco.
os beijos não eram nem bons nem ruins
tampouco interessantes ou
desinteressantes.

bastante tempo se passou e ela bebeu bem
pouco
e nós nos beijamos um pouco mais e ela disse
“eu gosto dos seus livros, eles realmente me
afetam”.
“Meus livros que se fodam!”, eu falei.
eu já estava de cueca e tinha puxado sua
saia bunda acima
e eu estava me esforçando muito
mas ela só beijava e
falava.
ela correspondia e ela não
correspondia.

então
desisti e comecei a beber
pra valer.
ela mencionou alguns dos outros
escritores
dos quais gostava
mas ela não gostava de nenhum deles
do jeito como gostava
de mim.

“ah”, eu enchi meu copo, “é
mesmo?”

“preciso ir”, JoJo disse,
“tenho uma aula de
manhã.”

“você pode dormir aqui”, eu sugeri, “e
acordar cedo, sou ótimo nos ovos
mexidos.”

“não, obrigada, eu preciso
ir...”

e ela foi embora com
vários exemplares de livros meus
que ela nunca tinha visto
antes,
exemplares que eu lhe dera
bem mais cedo naquela
noite.

bebi mais uma dose e decidi
dormir para esquecer
aquela inexplicável
perda.
desliguei as luzes
e me joguei na
cama sem
me lavar ou
escovar os
dentes.

olhei para o alto no escuro
e pensei, eis aqui uma mulher
sobre a qual nunca serei capaz
de escrever:
ela não era nem boa nem ruim,
real ou irreal, amável ou
desamável, ela era só uma garota
de uma faculdade
em algum lugar entre o Rose Bowl e
o lixão.

então me veio uma coceira, eu me
cocei, eu parecia sentir coisas
no meu rosto, na minha barriga, eu respirei fundo,
soltei o ar, tentei dormir mas
a coceira piorou, então
senti uma mordida, então diversas mordidas,
coisas pareciam estar
rastejando na minha pele...

corri até o banheiro
e acendi a luz

meu Deus, JoJo tinha pulgas.
entrei no chuveiro
fiquei ali
ajustando a água,
pensando,
aquela
pobre
querida.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Dama do Castelo

ela morava numa casa
que parecia um
castelo
e quando você entrava
os tetos eram tão absolutamente
altos
e eu era pobre
e aquilo tudo
me fascinava
bastante.

ela
já não era
jovem
mas tinha
volumosos
cabelos
que praticamente
desciam até os
tornozelos
e
eu pensava em
como seria
estranho
transar
em meio a todo aquele
cabelo.

fui até lá
diversas vezes
no meu velho
carro
e ela tinha refinadas
bebidas para
servir
e ficávamos sentados
mas eu nunca
conseguia chegar efetivamente
perto dela
e embora eu não
forçasse
nada
algo na ideia de
não
nos conectarmos
de fato machucava o meu
ego
pois por mais feio que eu fosse
eu sempre havia
tido sorte com as
mulheres.

isso me confundia
e creio que
eu precisava
daquilo.

ela gostava de
falar sobre
as artes e
sobre
criação cinematográfica
e ouvir
tudo aquilo
só me fazia
beber
mais.

por fim
eu
simplesmente
desisti
dela
e um bom ano
ou algo assim
havia passado
quando
certa noite
o telefone
tocou: era a
dama.

“eu quero ir aí ver
você”, ela disse.

“estou escrevendo agora, pegando
fogo... não posso receber
ninguém...”

“eu só quero fazer uma
visita, não vou incomodar você,
vou só ficar no sofá,
vou dormir no sofá,
não vou incomodar você...”

“NÃO! MEU DEUS DO CÉU,
NÃO POSSO RECEBER NINGUÉM!”

eu desliguei.

a dama que estava efetivamente
no sofá
disse “ah, você está todo
MOLE agora!”

“é.”

“vem aqui...”

ela envolveu meu pênis
com a mão
botou a língua
para fora
e aí
parou.

“o que você está escrevendo?”

“nada... estou com bloqueio de
escritor...”

“só podia... seus canos estão
entupidos... você precisa de uma
esvaziada...”

então ela botou meu pau na
boca

e aí o telefone tocou
de novo...

furioso
eu corri até o
telefone
e
atendi.

era a dama do
castelo:

“escuta, não vou incomodar você,
você nem vai notar a minha
presença...”

“SUA PUTA, EU TÔ GANHANDO UM
BOQUETE!”

eu desliguei e
voltei.

a outra dama estava indo
em direção à
porta.

“qual é o problema?”, eu
perguntei.

“eu DETESTO essa
palavra!”

“que palavra?”

“BOQUETE!”, ela
gritou.

ela bateu a porta e
foi embora...

eu fui até onde estava
a máquina de escrever
coloquei uma folha nova
no rolo.
era uma
da manhã.

fiquei ali sentado e
bebi scotch e
cerveja pra tirar o gosto
fumei charutos
baratos.
3:15 da manhã
ainda estava sentado
ali
reacendendo velhos
tocos de charuto e
bebendo ale.

a folha
nova continuava
em branco.

eu desliguei as
luzes
me arrastei na direção
do quarto
tratei de me atirar na
cama
roupas ainda
no corpo

dava para ouvir a água da privada
correndo
mas eu não conseguia me levantar
para fechar a alavanca
e dar fim àquele
som

meus malditos canos estavam
entupidos.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Dama do Castelo

ela morava numa casa
que parecia um
castelo
e quando você entrava
os tetos eram tão absolutamente
altos
e eu era pobre
e aquilo tudo
me fascinava
bastante.

ela
já não era
jovem
mas tinha
volumosos
cabelos
que praticamente
desciam até os
tornozelos
e
eu pensava em
como seria
estranho
transar
em meio a todo aquele
cabelo.

fui até lá
diversas vezes
no meu velho
carro
e ela tinha refinadas
bebidas para
servir
e ficávamos sentados
mas eu nunca
conseguia chegar efetivamente
perto dela
e embora eu não
forçasse
nada
algo na ideia de
não
nos conectarmos
de fato machucava o meu
ego
pois por mais feio que eu fosse
eu sempre havia
tido sorte com as
mulheres.

isso me confundia
e creio que
eu precisava
daquilo.

ela gostava de
falar sobre
as artes e
sobre
criação cinematográfica
e ouvir
tudo aquilo
só me fazia
beber
mais.

por fim
eu
simplesmente
desisti
dela
e um bom ano
ou algo assim
havia passado
quando
certa noite
o telefone
tocou: era a
dama.

“eu quero ir aí ver
você”, ela disse.

“estou escrevendo agora, pegando
fogo... não posso receber
ninguém...”

“eu só quero fazer uma
visita, não vou incomodar você,
vou só ficar no sofá,
vou dormir no sofá,
não vou incomodar você...”

“NÃO! MEU DEUS DO CÉU,
NÃO POSSO RECEBER NINGUÉM!”

eu desliguei.

a dama que estava efetivamente
no sofá
disse “ah, você está todo
MOLE agora!”

“é.”

“vem aqui...”

ela envolveu meu pênis
com a mão
botou a língua
para fora
e aí
parou.

“o que você está escrevendo?”

“nada... estou com bloqueio de
escritor...”

“só podia... seus canos estão
entupidos... você precisa de uma
esvaziada...”

então ela botou meu pau na
boca

e aí o telefone tocou
de novo...

furioso
eu corri até o
telefone
e
atendi.

era a dama do
castelo:

“escuta, não vou incomodar você,
você nem vai notar a minha
presença...”

“SUA PUTA, EU TÔ GANHANDO UM
BOQUETE!”

eu desliguei e
voltei.

a outra dama estava indo
em direção à
porta.

“qual é o problema?”, eu
perguntei.

“eu DETESTO essa
palavra!”

“que palavra?”

“BOQUETE!”, ela
gritou.

ela bateu a porta e
foi embora...

eu fui até onde estava
a máquina de escrever
coloquei uma folha nova
no rolo.
era uma
da manhã.

fiquei ali sentado e
bebi scotch e
cerveja pra tirar o gosto
fumei charutos
baratos.
3:15 da manhã
ainda estava sentado
ali
reacendendo velhos
tocos de charuto e
bebendo ale.

a folha
nova continuava
em branco.

eu desliguei as
luzes
me arrastei na direção
do quarto
tratei de me atirar na
cama
roupas ainda
no corpo

dava para ouvir a água da privada
correndo
mas eu não conseguia me levantar
para fechar a alavanca
e dar fim àquele
som

meus malditos canos estavam
entupidos.
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