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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Ajudando o Velho

hoje eu estava na fila do banco
quando um cara velho à minha frente
deixou seus óculos caírem (por sorte, dentro do
estojo)
e ao se abaixar para pegá-los
pude ver como aquilo era difícil para
ele
e eu disse, “espere, deixa que eu
pego...”
mas assim que apanhei
ele deixou cair sua bengala
uma bengala linda, negra e
encerada
e eu lhe devolvi os óculos
e então fui apanhar a bengala
amparando o velho
enquanto lhe devolvia sua bengala.
ele não dizia nada,
apenas sorriu pra mim.
então se virou para
frente
fiquei atrás dele esperando
minha vez.

A casa onde eu morava nessa época tinha algumas qualidades. Uma das mais bacanas era o quarto, pintado de um azul muito escuro. Esse azul muito escuro oferecia um abrigo para muitas ressacas, algumas delas suficientemente brutais para matar um homem, sobretudo numa época em que eu engolia as pílulas que as pessoas me davam sem me preocupar em perguntar o que eram. Algumas noites eu sabia que, se adormecesse, morreria. Ficava dando voltas sozinho a noite toda, do quarto ao banheiro e do banheiro à cozinha, passando pela sala da frente. Abria e fechava a geladeira, repetidas vezes. Abria e fechava as torneiras. Ia ao banheiro e abria e fechava as torneiras. Dava descargas na privada. Puxava as orelhas. Inspirava e expirava. Depois, quando o sol saía, eu sabia que estava salvo. Aí dormia com as paredes azuis azuis azuis, curando-me.
Outra característica da casa eram as batidas à porta, de mulheres desagradáveis, às três ou quatro horas da manhã. Certamente não eram damas de grande encanto, mas tendo uma mente meio idiota eu achava que de algum modo elas me traziam aventura. A verdade mesmo é que a maioria delas não tinha outro lugar para ir. E gostavam do fato de que havia bebida e de que eu não fazia muita força pra ir pra cama com elas.
Evidentemente, depois que conheci Sarah, essa parte do meu estilo de vida mudou bastante.
Aquele bairro, nos arredores da Carlton Way, perto da Avenida Western, também mudava. Antes era quase todo de classe média branca, mas os problemas políticos na América Central e em outras partes do mundo haviam trazido um outro tipo de indivíduo para a área. Os homens eram geralmente baixos, escuros ou morenos claros, geralmente jovens. Havia esposas, filhos, irmãos, primos, amigos. Começaram a inundar os apartamentos e pátios. Viviam muitos num mesmo apartamento, e eu era um dos poucos brancos que restavam no complexo em torno do pátio.
As crianças corriam de um lado para outro, subiam e desciam a ajardinada alamedazinha do pátio. Pareciam todas entre os dois e os sete anos. Não tinham bicicletas nem brinquedos. Raramente se viam as esposas. Ficavam dentro de casa, escondidas. Muitos dos homens também permaneciam trancados. Não era bom deixar o senhorio saber quantas pessoas moravam numa única unidade. Os únicos homens que se viam eram os inquilinos legais. Pelo menos eles pagavam os aluguéis. Como sobreviviam, não se sabia. Os homens eram pequenos, magros, calados, sérios. A maioria sentava-se de camiseta nos degraus das varandas, um pouco caídos para a frente, uma vez ou outra fumando cigarros. Sentavam-se nos degraus das varandas durante horas, imóveis. Às vezes compravam carros muito velhos em sucatas e os dirigiam devagar pelo bairro. Não tinham seguro para o carro nem carteira de motorista, e rodavam com placas vencidas. A maioria dos carros tinha freios ruins. Os homens quase nunca paravam no sinal da esquina, e muitas vezes não respeitavam o sinal vermelho, mas havia poucos acidentes. Alguma coisa cuidava deles.
Após um tempo, os carros quebravam mas meus novos vizinhos não os abandonavam na rua. Faziam-nos subir as alamedas e os estacionavam diante de suas portas. Primeiro trabalhavam no motor. Tiravam o capô, e o motor enferrujava-se na chuva. Depois punham o carro sobre cepos e tiravam as rodas. Levavam-nas para dentro de casa e as mantinham lá, para que não as roubassem durante a noite.
Quando eu vivia lá, havia duas filas de carros no pátio, assentados em cepos. Os homens sentavam-se imóveis em suas varandas, de camiseta. Às vezes eu balançava a cabeça ou acenava para eles. Jamais retribuíam. Aparentemente, não compreendiam nem liam os avisos de despejo que arrancavam, mas eu os via examinando os jornais de L.A. Eram estoicos e resistentes porque, comparadas com o lugar de onde vinham, as coisas agora eram fáceis.
Bem, deixa pra lá. Meu consultor de impostos sugerira que eu comprasse uma casa, e assim, para mim, não se tratava na verdade de uma “fuga branca” diante dos invasores. Embora, quem sabe? Eu notara que, toda vez que me mudara em Los Angeles, no correr dos anos, toda mudança fora sempre para o Norte ou o Oeste.
Finalmente, após algumas semanas de busca da casa, encontramos a certa. Após a entrada, as prestações mensais chegavam a 789,81 dólares. Tinha uma enorme sebe na frente, na rua, e o pátio também ficava na frente, de modo que a casa ficava recuada no terreno. Parecia um lugar danado de bom pra gente se esconder. Tinha até uma escada, um andar de cima com um quarto, banheiro e o que iria se tornar minha sala de trabalho. E haviam deixado lá uma mesa velha, uma coisa enorme, feia e velha. Agora, décadas depois, eu era um escritor que tinha uma mesa. Sim, senti o temor, o temor de me tornar igual a eles. Pior, eu tinha uma encomenda para escrever um argumento. Estaria condenado e amaldiçoado, estaria para ser sugado até o fim? Não achava que seria assim. Mas será que alguém acha, algum dia?
Sarah e eu transferimos nossos poucos bens para lá.
O grande momento chegou. Pus a máquina de escrever em cima da mesa, encaixei uma folha de papel e bati nas teclas. A máquina ainda funcionava. E havia bastante espaço para um cinzeiro, o rádio e a garrafa. Não deixem ninguém convencê-los de outra coisa. A vida começa aos 65.
– Hollywood
1 295
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Globulárias e Latadas

claro, posso morrer nos próximos dez minutos
e estou pronto para isso
mas o que realmente me preocupa é
que meu editor venha a se aposentar
ainda que ele seja dez anos mais jovem do que
eu.
tudo começou 25 anos atrás (eu estava na madura
faixa dos 45)
quando começamos nossa profana aliança para
testar as águas literárias,
nenhum de nós sendo muito
conhecido.
acho que tivemos um pouco de sorte e que ainda nos
resta um pouco da
mesma
as possibilidades são bem favoráveis
para que ele opte por tardes quentes e
prazenteiras
no jardim
muito antes de mim.
a escrita é sua própria bebedeira
enquanto que publicar e editar,
esforçar-se por pagar as contas
carrega consigo seu próprio
atrito
que ainda inclui lidar com
os faniquitos tolos e as exigências
de tantos
assim chamados gênios extravagantes que nada
são.
não vou culpá-lo por dar o
fora
e espero que me mande fotos de sua
Alameda Rosa, de sua
Avenida Gardênia.
terei que procurar outros
promulgadores?
aquele camarada com o chapéu de pelúcia
russo?
ou aquela besta no leste
com todos aqueles pelos
saindo dos ouvidos, com aqueles lábios
úmidos e gordurosos?
ou será que meu editor
ao sair do mundo de Globulárias e
latadas
passará a
maquinaria
de seu antigo negócio a um
primo, uma
filha ou a
algum poundiano do Grande
Sul?
ou simplesmente transmitirá seu legado
a um
funcionário do despacho
que ressurgirá como
Lázaro,
manuseando uma importância
recém-encontrada?
alguém pode imaginar coisas
terríveis:
“Sr. Chinaski, seus textos
devem agora ser submetidos em
forma de Rondó
e
digitados
em espaço três em papel de
arroz”.
o poder corrompe,
a vida aborta
e tudo o que
lhe resta
é um
bocado de
verrugas.
“não, não, sr. Chinaski:
tem que ser em Rondó!”
“ei, cara”, perguntarei,
“você já ouviu falar
dos anos 30?”
“os anos 30? o que é
isso?”
meu atual editor
e eu
às vezes
discutíamos os anos 30,
a Depressão
e
alguns dos truques que
nos ensinaram –
como perseverar apoiado em quase
nada
e como seguir em
frente.
bem, John, se isso acontecer aproveite seu
ócio para
se dedicar à agricultura
cultivar e viver ao ar livre
no meio do
mato, água apenas
cedo pela manhã, plante
com folga para desencorajar
as ervas daninhas
e
como faço com minha escrita:
use muito
adubo.
e obrigado
por ter me ajeitado aqui no
5124 da DeLongpre Avenue
em algum lugar entre o
alcoolismo e a
loucura.
juntos nós
lançamos o desafio
e até os dias de hoje
há aceitadores
para serem
encontrados
enquanto o fogo canta
por entre as
árvores.
934
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Concurso de Poesia

mande quantos poemas você quiser, mantenha
apenas cada um deles a dez linhas no máximo.
nenhum limite quanto ao estilo ou conteúdo
embora prefiramos poemas de
afirmação.
espaço duplo
com seu nome e endereço na
parte superior do cabeçalho
esquerdo.
os editores não se responsabilizam pelos
manuscritos
sem envelope de retorno
todos os esforços
serão feitos para
julgar os trabalhos num prazo de 90
dias.
após uma cuidadosa seleção
a escolha final será feita por
Elly May Moody,
editora-geral responsável.
por favor envie dez dólares
para cada poema
apresentado.
um prêmio final de
75 dólares será
entregue ao vencedor
do
Prêmio de ouro Elly May Moody de
poesia,
junto com um certificado
assinado por
Elly May Moody.
também serão premiados com certificados os 2º, 3º e
4º lugares
todos com a assinatura de
Elly May Moody.
as decisões são
irrevogáveis.
os vencedores do prêmio serão
publicados no número de primavera de
O coração do paraíso.
os vencedores do prêmio também receberão
uma cópia da revista
junto com
a última coletânea de
poesia de
Elly May Moody,
O lugar onde morreu
o inverno.

A cena da banheira era simples. Francine sentava-se dentro e Jack Bledsoe no chão, do lado de fora, recostado na banheira, enquanto Francine falava de várias coisas, principalmente sobre um assassino que vivia no prédio e se achava em liberdade condicional. O homem, que morava com uma velha, espancava-a continuamente. Ouviam-se o assassino e sua dona discutindo e se xingando através das paredes.
Pinchot me pedira para escrever diálogos de pessoas brigando do outro lado das paredes, e eu lhe dera várias páginas. Basicamente, essa fora a parte mais gostosa da criação do argumento.
Muitas vezes, nessas pensões e apartamentos baratos, não se tinha nada a fazer quando se estava duro, morrendo de fome e reduzido à última garrafa. Não se tinha nada a fazer senão escutar aquelas discussões cabeludas. Elas faziam a gente compreender que não era o único desiludido do mundo, não era o único à beira da loucura.
Não podíamos ver a cena da banheira, porque não havia espaço suficiente lá dentro, por isso Sarah e eu ficamos esperando na porta da frente do apartamento, com a cozinha para um lado. Na verdade, trinta anos atrás eu tinha morado por pouco tempo naquele mesmo prédio da Rua Alvarado, com a dona sobre a qual escrevera o argumento. Era de fato estranho e arrepiante. “Tudo que passa, volta.” De uma maneira ou de outra. E trinta anos depois, o lugar parecia mais ou menos o mesmo. Só que as pessoas que eu conhecera tinham todas morrido. A dona morrera três décadas atrás, e ali estava eu sentado, tomando uma bebida naquele mesmo prédio cheio de câmeras e som e técnicos. Bem, eu ia morrer também, muito breve. Sirva um por mim.
Preparavam comida na pequena cozinha, e a geladeira regurgitava de cervejas. Fiz algumas incursões por lá. Sarah encontrou pessoas com quem conversar. Tinha sorte. Toda vez que alguém falava comigo, eu sentia vontade de saltar pela janela ou descer no elevador. As pessoas simplesmente não tinham interesse algum. Talvez não devessem ter. Mas os animais, pássaros, até mesmo os insetos tinham. Eu não entendia.
Jon Pinchot continuava adiantado um dia em relação ao cronograma de filmagens, e eu estava satisfeito pra burro com isso. Tirava a Firepower do nosso pé. Os grandolas não apareciam. Tinham seus espias, é claro. Eu os via.
Alguns membros da equipe tinham livros meus. Pediam autógrafos. Os livros que traziam eram curiosos. Quer dizer, eu não os considerava os melhores. (Meu melhor livro é sempre o último que escrevi.) Alguns deles tinham um livro de minhas primeiras histórias pornográficas, Batendo punheta no demônio. Alguns livros de poemas, Mozart na figueira e Você deixaria esse homem tomar conta de sua filhinha de auatro anos? Também A latrina do bar é minha capela.
O dia passava, em paz mas sem alegria.
Bela cena de banheira, eu pensava. Francine deve estar bem lavada a essa altura.
Jon Pinchot entrou correndo no quarto. Parecia descomposto. Até o zíper estava meio aberto. Despenteado. Os olhos pareciam ao mesmo tempo ensandecidos e vazios.
– Meu Deus! – disse. – Aqui está você!
– Como vai indo?
Ele se curvou sobre mim e me sussurrou no ouvido:
– É terrível, é de enlouquecer! Francine está preocupada com a possibilidade do bico do peito dela aparecer acima d’água! Fica perguntando: “Meus peitos estão aparecendo?”
– Que mal faz um peitinho?
Jon se curvou mais ainda.
– Ela não é mais tão jovem quanto gostaria... E Hyans odeia aquela iluminação... Não suporta a iluminação e está bebendo cada vez mais...
Hyans era o câmera. Ganhara quase todos os prêmios do ramo, um dos melhores câmeras vivos, mas, como a maioria das almas grandes, gostava de seu traguinho de vez em quando.
Jon prosseguiu, sussurrando freneticamente:
– E Jack não diz uma fala certa. Temos de cortar o tempo todo. Tem alguma coisa nas falas que incomoda ele, e ele fica com aquele sorriso idiota no rosto quando as diz.
– Qual é a fala?
– É: “Ele tem de masturbar o agente da condicional quando o cara aparece”.
– Tudo bem, experimente: “Ele tem de tocar punheta no agente da condicional quando o cara aparece”.
– Nossa, obrigado! ESTA VAI SER A décima nona TOMADA!
– Meu Deus – eu disse.
– Me deseje sorte...
– Sorte...
Jon deixou o quarto. Sarah se aproximou.
– Que é que há?
– A décima nona tomada. Francine está com medo de mostrar os peitos, Jack não consegue dizer sua fala, e Hyans não gosta da iluminação.
– Francine precisa de um trago – ela disse. – Vai fazer ela se soltar.
– Hyans não precisa de um trago.
– Eu sei. E Jack vai conseguir dizer a fala quando Francine se soltar.
– Talvez.
Nesse momento Francine entrou no quarto. Parecia inteiramente perdida, completamente por fora. Usava um roupão, uma toalha amarrada na cabeça.
– Vou dizer a ela – disse Sarah.
Aproximou-se de Francine e falou-lhe baixinho. A outra escutou. Assentiu levemente com a cabeça, saiu do quarto por uma porta à esquerda. Num instante, Sarah emergiu da cozinha com uma xícara de café. Bem, tinha scotch, vodca, uísque e gim naquela cozinha. Sarah preparara alguma coisa. A porta abriu-se, fechou-se e a xícara de café desapareceu.
Sarah aproximou-se.
– Ela vai ficar bem agora...
Passaram-se dois ou três minutos, e a porta do quarto abriu-se de repente. Francine saiu e dirigiu-se para o banheiro e a câmera. Quando passava, seus olhos encontraram os de Sarah:
– Obrigada!
Bem, não havia nada a fazer senão ficar sentado e bater mais papo.
Eu não podia deixar de lançar uma olhada ao passado. Aquele era o mesmo prédio do qual eu fora despejado por levar três mulheres para meu quarto certa noite. Naquele tempo não tinha essa de Direitos do Inquilino.
– Sr. Chinaski – dissera a senhoria –, aqui moram pessoas religiosas, pessoas trabalhadoras, pessoas com filhos. Eu nunca recebi uma queixa dessas sobre outros inquilinos. E soube também que o senhor... aquelas cantorias, aqueles xingamentos... quebra-quebra... palavrões e risadas... Em toda a minha vida, eu jamais soube de nada parecido com o que aconteceu em seu quarto ontem à noite!
– Tudo bem, eu saio...
– Obrigada.
Eu devia estar louco. Sem me barbear. A camiseta cheia de buracos de cigarro. Meu único desejo era ter mais de uma garrafa na cômoda. Não era feito para o mundo nem o mundo pra mim, e encontrara outros como eu, e em sua maioria esses outros eram mulheres, mulheres com as quais a maioria dos homens jamais iria querer ficar num mesmo quarto, mas que eu adorava, elas me inspiravam, eu fazia teatro, xingava, saltava pelo quarto de cueca dizendo-lhes que era grande, mas só eu acreditava nisso. Elas apenas berravam: “Foda-se! Sirva mais um pouco de álcool!” Aquelas donas do inferno, aquelas donas no inferno comigo.
Jon Pinchot entrou rápido no quarto:
– Deu tudo certo! Que dia! Agora, amanhã recomeçamos tudo!
– Agradeça a Sarah! – eu disse. – Ela sabe preparar uma bebida mágica.
– Quê?
– Ela soltou Francine com uma coisa numa xícara de café.
Jon voltou-se para Sarah.
– Muito obrigado...
– Disponha – respondeu Sarah.
– Nossa – disse Jon –, estou neste ramo há muito tempo e nunca fiz dezenove tomadas!
– Eu soube – eu disse – que Chaplin às vezes fazia cem tomadas até conseguir o que queria.
– Isso era Chaplin – disse Jon. – Cem tomadas, e nosso orçamento vai embora.
E foi isso aí por esse dia. A não ser por Sarah, que disse:
– Diabos, vamos ao Musso’s.
O que fizemos. E conseguimos uma mesa na Sala Velha e pedimos umas bebidas enquanto olhávamos o menu.
– Lembram? – perguntei. – Lembram dos velhos tempos quando a gente vinha aqui ver as pessoas nas mesas e tentar localizar os tipos, os atores, os diretores ou produtores, os tipos do pornô, os agentes, os aspirantes? E a gente pensava: “Veja só eles, discutindo suas negociatas de filmes, ou os contratos sobre seus últimos filmes”. Que toupeiras, que desajustados. Melhor desviar o olhar quando chegarem o peixe-espada e o linguado.
– A gente achava eles uns merdas – disse Sarah – e agora nós é que somos.
– Tudo que passa, volta...
– Certo! Acho que vou querer o linguado...
O garçom pairava acima de nós, arrastando os pés, franzindo o cenho, os pelos das sobrancelhas caindo sobre os olhos. Musso estava ali desde 1919, e tudo era um pé no saco para ele: nós, e todos os demais na casa. Eu concordava. Decidi pelo peixe-espada. Com batatas fritas.
– Hollywood
1 167
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Pessoas Como Flores

que cantoria prossegue nas
ruas -
as pessoas parecem flores
finalmente
a polícia guardou suas
insígnias
o exército rasgou seus uniformes e
destroçou suas armas. não há mais necessidade de
cadeias ou jornais ou hospícios ou
trancas nas portas.
uma mulher vem correndo até minha porta
ME COMA! ME AME!
ela grita.
ela é bela como um charuto
depois de jantar um bom filé. eu
a possuo.
mas depois de sua partida
eu me sinto esquisito
tranco a porta
vou à escrivaninha e pego a pistola
da gaveta. ela tem seu próprio senso de
amor.
AMOR! AMOR! AMOR! a multidão canta nas
ruas.
eu atiro pela janela
o vidro corta meu rosto e
braços. acerto um garoto de 12 anos
um velho de barba
e uma adorável moça algo parecida a uma
violeta.
a multidão para de cantar para
me olhar.
estou parado na janela quebrada
o sangue em meu
rosto.
"isso", eu grito para eles, "é em defesa da
pobreza de si mesmo e em defesa da liberdade
de não amar!"
"deixe-o em paz", alguém diz,
"ele está louco, viveu uma vida ruim por
tempo demais."
entro na cozinha
sento-me e encho um
copo de uísque.
resolvo que a única definição da
Verdade (que muda)
é ela ser a única coisa ou ato ou
crença que a multidão
rejeita.
estão socando minha
porta. é a mesma mulher de novo.
ela é tão bela como encontrar um
sapo verde e gordo no
jardim.
eu tenho 2 balas restantes e
uso
ambas.
nada no ar a não ser
nuvens. nada no ar a não ser
chuva. a vida de cada homem é curta demais para
encontrar sentido e
todos os livros quase um
desperdício.
sento e os ouço
a cantar.
sento e os
ouço.
636
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Pessoas Como Flores

que cantoria prossegue nas
ruas -
as pessoas parecem flores
finalmente
a polícia guardou suas
insígnias
o exército rasgou seus uniformes e
destroçou suas armas. não há mais necessidade de
cadeias ou jornais ou hospícios ou
trancas nas portas.
uma mulher vem correndo até minha porta
ME COMA! ME AME!
ela grita.
ela é bela como um charuto
depois de jantar um bom filé. eu
a possuo.
mas depois de sua partida
eu me sinto esquisito
tranco a porta
vou à escrivaninha e pego a pistola
da gaveta. ela tem seu próprio senso de
amor.
AMOR! AMOR! AMOR! a multidão canta nas
ruas.
eu atiro pela janela
o vidro corta meu rosto e
braços. acerto um garoto de 12 anos
um velho de barba
e uma adorável moça algo parecida a uma
violeta.
a multidão para de cantar para
me olhar.
estou parado na janela quebrada
o sangue em meu
rosto.
"isso", eu grito para eles, "é em defesa da
pobreza de si mesmo e em defesa da liberdade
de não amar!"
"deixe-o em paz", alguém diz,
"ele está louco, viveu uma vida ruim por
tempo demais."
entro na cozinha
sento-me e encho um
copo de uísque.
resolvo que a única definição da
Verdade (que muda)
é ela ser a única coisa ou ato ou
crença que a multidão
rejeita.
estão socando minha
porta. é a mesma mulher de novo.
ela é tão bela como encontrar um
sapo verde e gordo no
jardim.
eu tenho 2 balas restantes e
uso
ambas.
nada no ar a não ser
nuvens. nada no ar a não ser
chuva. a vida de cada homem é curta demais para
encontrar sentido e
todos os livros quase um
desperdício.
sento e os ouço
a cantar.
sento e os
ouço.
636
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Minha Tiete

fiz uma leitura no último sábado no
bosque para além de Santa Cruz
e estava a 3/4 do final
quando escutei um grito longo e desesperado
e uma jovem bastante
atraente veio correndo em minha direção
vestido longo & fogo divino nos olhos
e invadiu o palco
e gritou: “EU QUERO VOCÊ!
EU QUERO VOCÊ! ME LEVE! ME
LEVE!”
eu disse a ela: “olhe, fique longe
de mim”.
mas ela continuava agarrada às minhas
roupas e se esfregando em
mim.
“onde você estava”, eu lhe perguntei, “quando eu
vivia com apenas uma barra de doce por dia e
mandava meus contos para a
Atlantic Monthly?”
ela agarrou minhas bolas e quase
as arrancou. seus beijos
tinham gosto de sopa de merda.
2 mulheres subiram no palco
e
a carregaram para dentro do
bosque.
eu ainda podia ouvir seus gritos
quando comecei o poema seguinte.
talvez, pensei, eu devesse
tê-la possuído naquele palco na frente
de todos aqueles olhos.
mas alguém nunca pode ter certeza
se isso é boa poesia ou
ácido de má qualidade.

Fiquei dois dias sem ver Lydia, embora tenha dado um jeito de telefonar para ela umas sete ou oito vezes nesse período. Então o fim de semana chegou. Seu ex-marido, Gerald, costumava ficar com as crianças nos fins de semana.
Peguei o carro e fui até onde ela morava naquele sábado, às onze da manhã, e bati na porta. Ela estava com um jeans apertado, botas, blusa laranja. Seus olhos castanhos pareciam mais escuros do que nunca e, à luz do sol, ela abriu a porta, fazendo com que eu notasse um tom natural em seus cabelos escuros. Aquilo foi surpreendente. Me deixou beijá-la; então fechou a porta atrás de nós e fomos até o meu carro. A gente tinha decidido ir à praia – não para tomar banho –, pois era pleno inverno, mas só para fazer alguma coisa.
Seguimos. Era bom ter Lydia no carro comigo.
– Que festa aquela – ela disse. – Você chama aquilo de festa de colação? Aquilo era uma festa da copulação, isso sim. Uma festa da copulação!
Eu dirigia com uma das mãos, enquanto a outra descansava na parte interna da coxa de Lydia. Não conseguia evitar. Ela não parecia se importar. Eu ia dirigindo, e a mão escorregou por entre suas pernas. Ela continuou a conversar. De repente, ela disse:
– Tire a mão. Aí é a minha buceta!
– Desculpe – eu disse.
Nenhum de nós disse nada até chegarmos ao estacionamento em Venice Beach.
– Você quer um sanduíche e uma coca, algo assim? – perguntei.
– Beleza – ela disse.
Entramos num mercadinho judeu pra comprar as coisas e as levamos para um montinho gramado que dava para o mar. Tínhamos sanduíches, picles, batatas fritas e refrigerantes. A praia estava quase deserta e a comida estava com um gosto bom. Lydia não dizia nada. Fiquei espantado com a rapidez com que ela comia. Estraçalhava o sanduíche com selvageria, tomava grandes goles de coca, comia metade de um picles com uma só mordida e pegava enormes punhados de batata frita. Eu, ao contrário, como muito devagar.
Paixão, pensei, ela exalava paixão.
– Que tal esse sanduíche? – perguntei.
– Uma beleza. Eu estava com fome.
– Eles fazem sanduíches legais. Quer mais alguma coisa?
– Sim, queria um doce.
– De que tipo?
– Ah, qualquer um. Um que fosse gostoso.
Dei uma mordida no meu sanduíche, tomei um gole de Coca, larguei tudo e fui até o mercadinho. Comprei dois doces, assim ela poderia escolher. Na volta, vi que um negro alto se dirigia ate o montinho. Era um dia frio, mas o cara estava sem camisa e tinha um corpo bem musculoso. Parecia ter vinte e poucos anos. Andava devagar e ereto. Tinha um pescoço longo, magro, e um brinco de ouro pendurado na orelha esquerda. Passou na frente de Lydia, pela areia, entre ela e o mar. Subi no montinho e sentei ao lado de Lydia.
– Você viu aquele cara? – ela perguntou.
– Sim.
– Jesus, e eu estou com você, vinte anos mais velho do que eu. Podia pegar alguém como ele... O que há de errado comigo, afinal?
– Olhe. Trouxe dois doces. Pegue um.
Pegou um, rasgou o invólucro, deu uma mordida e ficou olhando o rapaz negro que se afastava ao longo da praia.
– Cansei da praia – ela disse –, vamos voltar para minha casa.
Ficamos uma semana sem nos ver. Então, certa tarde, lá estava eu na casa de Lydia, os dois na cama, nos beijando. Lydia se afastou.
– Você não entende nada de mulher, não é mesmo?
– Do que você está falando?
– Quero dizer, ao ler seus poemas e seus contos dá pra ver que você não entende nada de mulher.
– Me fale mais.
– Bem, é que para eu me interessar por um homem ele tem que chupar minha buceta. Você já chupou uma buceta?
– Não.
– Você tem mais de cinquenta anos e nunca chupou uma buceta?
– Não.
– Tarde demais.
– Por quê?
– Não dá pra ensinar truque novo pra cachorro velho.
– Claro que dá.
– Não, é tarde demais pra você.
– Sempre demorei pra arrancar na largada.
Lydia se levantou e foi até a sala. Voltou com um lápis e um pedaço de papel.
– Agora, veja bem, vou mostrar uma coisa pra você. – Começou a desenhar no papel. – Bem, isso é uma buceta, e aqui fica um negócio de que você provavelmente nunca ouviu falar: o clitóris. Aqui é o lugar onde estão as sensações. O clitóris se esconde, consegue ver, ele sai pra fora de vez em quando, é cor-de-rosa e muito sensível. Às vezes ele se esconde de você e é preciso achá-lo. Basta tocar nele com a ponta da língua...
– Ok – eu disse –, entendi tudo.
– Acho que você não vai conseguir. Já disse, não dá pra ensinar truque novo pra um cachorro velho.
– Vamos tirar a roupa e nos deitar.
A gente se despiu e se esticou na cama. Comecei a beijar Lydia. Desci dos lábios para o pescoço, e daí para os peitos. Depois, deslizei até o umbigo. Desci mais.
– Você não conseguirá – ela disse. – Sai sangue e urina daí; pense nisso, sangue e urina...
Fui lá embaixo e comecei a lamber. Ela fizera um desenho acurado para mim. Tudo estava onde devia estar. Ouvi sua respiração ficar pesada; depois gemidos. Aquilo me excitou. Fiquei de pau duro. O clitóris se revelou, mas não era exatamente rosado, era de um rosa-púrpura. Aticei o clitóris. Brotaram uns sucos que se misturaram com os pentelhos. Lydia gemia sem parar. Então escutei a porta da frente abrir e fechar. Ouvi passos. Ergui os olhos. Um negrinho de uns cinco anos estava ali parado, ao lado da cama.
– Mas que diabos você quer aqui? – perguntei.
– Tem alguma garrafa vazia? – perguntou.
– Não, não tenho nenhuma garrafa vazia – respondi.
Ele saiu do quarto para a sala, saiu pela porta da frente e se foi.
– Deus – disse Lydia –, achei que a porta da frente estava trancada. Era o garotinho da Bonnie.
Lydia se levantou e trancou a porta da frente. Voltou e se estendeu na cama. Eram umas quatro horas da tarde de sábado.
Voltei a mergulhar ali.
– Mulheres
1 350
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Dia Em Que Mandei Meu Pé-De-Meia Pro Espaço

e, eu disse, você pode pegar seus tios e tias ricos
e avós e pais
e todo o petróleo fétido deles
e seus sete lagos
e todos os seus perus
e búfalos
e o estado inteiro do Texas,
quer dizer, seus espantalhos
e suas caminhadas de sábado à noite no calçadão,
e sua biblioteca de 50 centavos
e seus vereadores corruptos
e seus artistas aveadados –
pode pegar tudo isso
e seu jornal semanal
e seus famosos tornados,
e suas nojentas enchentes
e todos os seus gatos miantes
e sua assinatura da Time,
e enfiar no rabo, baby,
bem no meio do rabo.
posso voltar a manusear uma picareta e um machado (acho)
e posso arranjar
25 pratas por uma luta de 4 assaltos (talvez);
claro, estou com 38
mas um pouco de tintura pode esconder os fios
grisalhos do meu cabelo;
e ainda posso escrever um poema (às vezes),
não se esqueça disso, e mesmo que
não rendam nada,
é melhor do que esperar por mortes e petróleo,
e dar tiros em perus selvagens,
e esperar que o mundo
comece a girar.
tudo bem, vagabundo, ela disse,
dê o fora.
o quê? eu disse
dê o fora. você teve seu
último acesso de fúria.
cansei dos seus acessos de fúria:
você sempre atua como um
personagem de uma peça de O’Neill.
mas eu sou diferente, baby,
não consigo
evitar.
você é diferente, essa é boa!
Nossa, quanta diferença!
não bata
a porta
quando sair.
mas, baby, eu amo o seu
dinheiro!
você nunca me disse
que me ama!
o que você quer afinal
um mentiroso ou um
amante?
de você não quero nada! se manda, vagabundo,
se manda!
... mas baby!
volta lá pro seu O’Neill!
fui até a porta,
fechei-a com cuidado e me afastei,
pensando: tudo o que elas querem
é um índio de madeira
que diga sim e não
e fique parado junto ao fogo e
não faça muito barulho;
mas acontece que você já não é mais
uma criança, rapaz;
da próxima vez jogue visando
o pé-de-
meia.

Passei o Natal com Betty. Ela assou um peru e nós bebemos. Betty sempre gostou de grandes árvores de Natal. Essa devia ter uns dois metros de altura por um de largura, coberta com luzes, lâmpadas elétricas, lantejoulas e outras porcarias. Bebemos várias doses de uísque, fizemos amor, comemos nosso peru, bebemos mais um pouco. O prego da base estava frouxo e a base não era grande o suficiente para dar suporte à árvore. Eu ficava tentando ajeitá-lo. Betty se esticou na cama e apagou. Eu bebia no chão, de cuecas. Então também me estiquei. Fechei os olhos. Alguma coisa me despertou. Abri os olhos. Bem a tempo de ver a enorme árvore coberta de luzes quentes se inclinar devagar em minha direção, a estrela pontuda descendo como uma adaga. Não consegui entender muito bem o que estava acontecendo. Parecia o fim do mundo. Não conseguia me mexer. Os galhos da árvore me impediam. Eu estava debaixo dela. As lâmpadas incandesciam.
– Oh, OH, JESUS CRISTO, TENHA PIEDADE! SENHOR, ME AJUDE! JESUS! JESUS! SOCORRO!
As lâmpadas me queimavam. Rolei para a esquerda, mas não consegui me libertar, depois rolei para a direita.
– AI!
Finalmente consegui escapar rolando de baixo da árvore. Betty estava de pé, parada.
– O que aconteceu? O que é isso?
– NÃO ESTÁ VENDO? ESSA MALDITA ÁRVORE TENTOU ME MATAR!
– O quê?
– SIM, OLHA PRA MIM!
Meu corpo estava coberto de marcas vermelhas.
– Oh, pobrezinho!
Segui até a parede e desliguei a árvore da tomada. As luzes se apagaram. A coisa estava morta.
– Oh, minha pobre arvorezinha!
– Pobre arvorezinha?
– É, me deu tanta pena!
– Amanhã de manhã eu boto ela de pé de novo. Não confio nela agora. Vou deixar que descanse durante a noite.
Ela não gostou da ideia. Senti que teria de enfrentar um bate-boca, então coloquei o negócio de pé, apoiado numa cadeira, e acendi as luzes outra vez. Se a coisa tivesse queimado seus peitos ou seu rabo, ela teria jogado o negócio pela janela. Aquilo me pareceu uma extrema gentileza da minha parte.
Alguns dias depois do Natal apareci na casa de Betti para vê-la. Ela estava sentada em seu quarto, bêbada, às 8h45 da manhã. Seu aspecto não era nada bom, o que também se poderia dizer de mim naquela ocasião. Era como se cada um dos pensionistas tivesse dado a ela um pouco de bebida. Havia de tudo: vinho, vodca, uísque, scotch. Das marcas mais baratas. As garrafas enchiam o quarto.
– Esses cretinos! Será que eles não conhecem ninguém melhor? Se você beber todo esse negócio é morte na certa!
Betty apenas me olhou. Pude perceber tudo naquele olhar.
Ela tinha um filho e uma filha que nunca vinham visitá-la, sequer lhe escreviam. Era uma faxineira num hotel barato. Quando a conheci, suas roupas eram caras, tornozelos bem torneados em sapatos de luxo. Era toda rija, quase bela. Olhos selvagens. Sorridente. Vinda de um marido rico, recém-divorciada, ele que logo morreria num acidente de carro, bêbado, queimado vivo em Connecticut.
– Você jamais irá domá-la – me diziam.
Ali estava ela. Mas eu tinha recebido alguma ajuda.
– Escute – eu disse –, tenho que levar uma parte desse negócio. Quero dizer, de vez em quando eu lhe entrego uma garrafa. Não vou bebê-las.
– Deixe as garrafas – disse Betty. Não me olhava. Seu quarto ficava no último andar e ela se sentava junto à janela, acompanhando o tráfego da manhã.
Me aproximei.
– Veja, estou acabado. Tenho que ir embora. Mas pelo amor de Deus, pegue leve com esse negócio!
– Claro – ela disse.
Inclinei-me e lhe dei um beijo de despedida.
Retornei cerca de uma semana e meia depois. Não houve qualquer resposta para as minhas batidas.
– Betty! Betty! Você está bem?
Girei a maçaneta. A porta estava aberta. A cama estava virada. Havia uma enorme mancha de sangue no lençol.
– Ah, caralho! – eu disse. Olhei em volta. Todas as garrafas tinham sumido.
Então olhei mais uma vez ao meu redor. Ali estava a francesa de meia-idade que era dona do lugar. Ficou junto à porta.
– Ela está no Hospital Geral do Condado. Estava muito doente. Chamei a ambulância na noite passada.
– Ela bebeu todo aquele negócio?
– Teve alguma ajuda.
Desci correndo as escadas e entrei no meu carro. Logo cheguei lá. Conhecia bem o lugar. Informaram-me o número do quarto.
Havia três ou quatro camas num quarto apertado. Uma mulher estava sentada sobre a sua no sentido cruzado, mastigando uma maçã e rindo com duas visitantes do sexo feminino. Puxei a cortina divisória que circundava a cama de Betty, sentei-me no banquinho e me inclinei sobre ela.
– Betty! Betty!
Toquei seu braço.
– Betty!
Seus olhos se abriram. Eram novamente belos. De um azul sereno e brilhante.
– Tinha certeza de que era você – ela disse.
Em seguida voltou a fechar os olhos. Seus lábios estavam ressecados. Restos de saliva amarelada haviam se acumulado no canto esquerdo de sua boca. Peguei um lenço e removi os resíduos. Limpei seu rosto, suas mãos, sua garganta. Peguei outro lenço e espremi um pouco de água em sua língua. Depois um pouco mais. Molhei seus lábios. Ajeitei seus cabelos. Podia ouvir as mulheres rindo através da cortina que nos separava.
– Betty, Betty, Betty. Por favor, quero que você beba um pouco de água, apenas um golinho, não precisa ser muito, só um gole.
Ela não respondeu. Tentei aquilo por uns dez minutos. Nada.
Mais restos de saliva se formaram em sua boca. Removi-os.
Então me levantei e fechei a cortina. Fiquei olhando para as três mulheres.
Me afastei e falei com a enfermeira encarregada.
– Escute, por que ninguém faz nada em relação à mulher do 45-c? Betty Williams.
– A gente faz o que pode, senhor.
– Mas não há ninguém ali.
– Fazemos nossas rondas regulares.
– Mas onde estão os médicos? Não vi nenhum médico.
– O doutor já a examinou, senhor.
– Como é que vocês a abandonam lá daquele jeito?
– A gente faz o que pode, senhor.
– SENHOR! SENHOR! SENHOR! ESQUEÇA ESSA PORRA DE “SENHOR”! Aposto que se fosse o presidente ou o governador ou o prefeito ou um filho da puta qualquer cheio da grana, então haveria um montão de médicos ao redor do quarto fazendo alguma coisa! Por que vocês simplesmente não deixam o pessoal morrer? Que pecado há em ser pobre?
– Já lhe disse, meu senhor, estamos fazendo TUDO ao nosso alcance.
– Voltarei em duas horas.
– O senhor é o marido?
– Eu vivia com ela em concubinato.
– Pode nos deixar seu nome e um número de telefone?
Passei-lhe as informações e saí apressado.
O funeral estava marcado para as dez e meia e já fazia calor. Eu vestia um terno preto barato, comprado e ajustado às pressas. Era o meu primeiro terno novo em anos. Conseguira localizar o filho. Seguimos em seu Mercedes-Benz novinho. Tinha conseguido localizá-lo com a ajuda de uma tira de papel com o endereço de seu sogro. Duas chamadas de longa distância e cheguei até ele. Quando finalmente conseguiu se deslocar até aqui, sua mãe já estava morta. Morreu enquanto eu fazia as ligações. O rapaz, Larry, jamais tinha se enquadrado nas normas da sociedade. Tinha o hábito de roubar os carros dos amigos, mas entre os amigos e o tribunal dava um jeito de resolver as coisas. Então o exército o apanhou, e, de alguma maneira, entrou para um programa de treinamento, o que fez com que, assim que saísse, arranjasse um emprego muito bem pago. Foi quando deixou de ver a mãe, quando conseguiu esse bom emprego.
– Onde está sua irmã? – perguntei.
– Não sei.
– É um carro bacana. Não dá nem pra ouvir o motor.
Larry sorriu. Gostou do comentário.
Havia apenas três pessoas acompanhando o funeral: o filho, o amante e a irmã retardada da dona do hotel. Seu nome era Marcia. Marcia nunca dizia nada. Ficava apenas sentada, com um sorriso vazio nos lábios. Sua pele era branca como esmalte. Tinha um cabelo armado, de um amarelo mortiço, e um chapéu que não assentava. Marcia havia sido mandada pela dona do hotel para representá-la. A dona não podia perder seu negócio de vista.
Claro, eu estava com uma ressaca dos diabos. Paramos para tomar um café.
Àquela altura, então, já tinham ocorrido alguns problemas com o funeral. Larry tivera uma discussão com o padre católico. O padre não queria realizar o serviço. Finalmente foi decidido que ele faria o serviço pela metade. Bem, metade era melhor do que nada.
Tivemos problemas até com as flores. Eu havia comprado uma coroa de rosas, rosas misturadas, que foram arranjadas de modo a compor uma coroa. A floricultura passou a tarde inteira em cima do arranjo. A dona da floricultura tinha conhecido Betty. Haviam tomado umas e outras na época em que Betty e eu, alguns anos antes, morávamos numa casa com cachorro. Seu nome era Delsie. Sempre desejara chegar ao que estava debaixo das calcinhas de Delsie, mas nunca tinha conseguido.
Delsie tinha me telefonado.
– Hank, qual é o problema com esses cretinos?
– Que cretinos?
– Esses caras da funerária.
– Qual é o problema?
– Bem, eu mandei um rapaz na caminhonete para entregar a coroa e eles não deixaram ele entrar. Disseram que estavam fechados. Você sabe, é uma distância enorme.
– E aí, Delsie?
– Bem, por fim os caras deixaram ele pôr as flores para dentro, mas não pôde colocá-las no refrigerador. Então o rapaz teve que deixar elas ali mesmo. Que diabos há com essas pessoas?
– Não sei. Que diabos há com todo mundo?
– Não conseguirei ir ao funeral. Você está bem, Hank?
– Por que você não vem me consolar?
– Teria que levar o Paul.
Paul era seu marido.
– Esqueça.
Então assim estávamos, a caminho de nosso meio-funeral.
Larry ergueu os olhos do café.
– Vou escrever para você mais tarde para a gente ver o negócio da lápide. Agora estou pelado.
– Tudo bem – eu disse.
Larry pagou os cafés, então nós saímos e embarcamos no Mercedes-Benz.
– Espere um minuto – eu disse.
– O que foi? – perguntou Larry.
– Acho que esquecemos alguma coisa.
Retornei ao café.
– Marcia.
Ela seguia sentada à mesa.
– Estamos indo, Marcia.
Ela se levantou e me seguiu até a rua.
– Cartas na rua
1 271
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Nº 6

vou ficar com o cavalo 6
numa tarde chuvosa
um copo de café de papel
na mão
tudo prestes a começar,
o vento fazendo rodopiar
pequenas cambaxirras do
grande telhado superior,
os jóqueis partindo
para uma corrida intermediária
silenciosos
e a garoa fazendo
todas as coisas
de uma só vez
quase iguais,
os cavalos em paz uns
com os outros
antes da guerra bêbada
e eu debaixo da tribuna principal
sensível aos
cigarros
conformado com o café,
então os cavalos passam
levando seus pequenos homens
consigo –
é fúnebre e gracioso
e agradável
como o desabrochar
das flores.

De alguma maneira o dinheiro se esvaiu depois disso e logo eu abandonei as corridas e fiquei sentado em meu apartamento, esperando que a licença de noventa dias acabasse. Meus nervos estavam em frangalhos graças à bebida e à ação. Não é nenhuma novidade que as mulheres dão em cima dos homens. Quando você pensa que terá um tempinho para respirar, basta erguer os olhos e outra já está por ali. Alguns dias depois de retornar ao trabalho, a outra já estava por ali. Fay. Fay era grisalha e sempre se vestia de preto. Dizia que era um protesto contra a guerra. Mas se Fay queria protestar contra a guerra, por mim tudo bem. Era uma espécie de escritora e frequentava algumas oficinas literárias. Tinha ideias sobre como Salvar o Mundo. Se ela pudesse salvá-lo para mim, isto também estaria bem. Estivera vivendo dos cheques da pensão alimentícia de um antigo marido – tinham tido três filhos –, e a mãe também lhe mandava algum dinheiro de vez em quando. Fay nunca tivera mais do que um ou dois empregos na vida.
Enquanto isso, Janko tinha uma nova história de merda. Ele me mandava pra casa a cada manhã com a cabeça doendo. Naquela época eu vinha recebendo inúmeras multas de trânsito. Parecia que a cada vez que eu olhava pelo retrovisor lá estavam as sirenes vermelhas. Um carro-patrulha ou uma moto.
Certa noite cheguei em casa tarde. Estava realmente acabado. Sacar a chave e levá-la até a fechadura estava no limite das minhas forças. Segui até o quarto e lá estava Fay na cama, lendo The New Yorker e comendo chocolates. Ela sequer disse olá.
Fui até a cozinha e procurei alguma coisa para comer. Não havia nada na geladeira. Resolvi me servir um copo d’água. Fui até a pia. Estava entulhada de porcaria. Fay gostava de guardar potes vazios e suas tampas. Os pratos sujos enchiam metade da pia e, flutuando sobre a água, junto com alguns pratos de papel, estavam os potes e as tampas.
Retornei ao quarto no exato momento em que Fay punha na boca um pedaço de chocolate.
– Veja bem, Fay – eu disse –, sei que você quer salvar o mundo. Mas será que você não pode começar pela cozinha?
– Cozinhas não são importantes – ela disse.
Era difícil bater numa mulher grisalha, de modo que eu simplesmente segui para o banheiro e deixei que a água enchesse a banheira. Um banho escaldante talvez pudesse esfriar os nervos. Quando a banheira se encheu tive medo de entrar nela. Meu corpo estropiado havia, àquela altura, endurecido de tal maneira que eu temia me afogar ali dentro.
Fui até a sala e depois de um esforço consegui tirar as calças, as cuecas, os sapatos, as meias. Retornei ao quarto e galguei a cama até junto a Fay. Não conseguia me ajeitar. Cada vez que eu me movia, o custo era alto.
O único momento em que você está sozinho, Chinaski, pensei, é quando você dirige para o trabalho ou volta dele.
Finalmente consegui encontrar uma posição sobre minha barriga. Meu corpo todo doía. Logo eu estaria de volta no trabalho. Se eu conseguisse dar um jeito de dormir, isso me ajudaria. Com alguma frequência, podia ouvir o som de uma página sendo virada, de um chocolate sendo comido. Havia sido uma de suas noites de oficina. Se ela pudesse ao menos apagar as luzes.
– Como estava a oficina? – perguntei, deitado de bruços.
– Estou preocupada com Robby.
– Oh – perguntei –, o que está acontecendo?
Robby era um cara perto dos quarenta que tinha vivido com a mãe desde que nascera. Tudo o que ele escrevia, segundo tinham me informado, eram histórias muito engraçadas sobre a Igreja Católica. Robby realmente tirava sarro dos católicos. As revistas apenas não estavam prontas para Robby, embora tivesse sido publicado uma vez num jornal canadense. Certa vez, numa das minhas noites de folga, eu tinha visto Robby. Levei Fay até esta mansão onde eles se encontravam para ler suas coisas.
– Oh! Este é o Robby! – Fay dissera. – Ele escreve essas histórias divertidíssimas sobre a Igreja Católica!
Ela havia me apontado o cara. Robby estava de costas para a gente. Sua bunda era larga e grande e molenga; ficava pendurada dentro das calças. Será que eles não veem isso?, pensei.
– Você não quer entrar? – Fay tinha perguntado.
– Talvez na próxima semana...
Fay pôs outro chocolate na boca.
– Robby está preocupado. Perdeu seu emprego de entregador. Diz que não consegue escrever sem estar empregado. Precisa do sentimento de segurança. Diz que não será capaz de escrever nada enquanto não encontrar outro trabalho.
– Caralho – eu disse –, já sei onde podemos arranjar um emprego.
– Onde? Como?
– Estão contratando gente lá nos Correios, a torto e a direito. O salário não é mau.
– OS CORREIOS! ROBBY É SENSÍVEL DEMAIS PARA TRABALHAR NOS CORREIOS!
– Desculpe – eu disse –, achei que valia a pena tentar. Boa noite.
Fay não me respondeu. Estava furiosa.
– Cartas na rua
1 178
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Grite Quando Se Queimar

Henry serviu um drinque e olhou pela janela a quente e nua rua de Hollywood. Nossa, fora um longo estirão, e ele ainda estava contra a parede. A seguir viria a morte, a morte estava sempre ali. Cometera um erro estúpido e comprara um jornal alternativo, e ainda idolatravam Lenny Bruce. Havia uma foto dele, morto, logo depois da dose ruim. Certo, Lenny tinha sido engraçado às vezes: “Não posso gozar!” – essa tinha sido uma obra-prima, mas ele não era tão bom assim. Perseguido, certo, claro, física e espiritualmente. Bem, todos morremos um dia, era simples matemática. Nada de novo. A espera é que era um problema. O telefone tocou. Era sua namorada.
– Escuta, seu filho da puta, estou cansada de suas bebedeiras. Me fartei disso com meu pai...
– Ah, diabos, não é tão ruim assim.
– É, sim, e não vou passar por isso de novo.
– Escuta, você está exagerando.
– Não, estou cheia, estou lhe dizendo, estou cheia. Vi você na festa, pedindo mais uísque, foi aí que fui embora. Estou cheia. Não vou aguentar mais nada...
Ela desligou. Ele foi encher outro copo de uísque com água. Entrou no quarto com o copo, tirou a camisa, as calças, os sapatos, as meias. De cueca, foi para a cama com a bebida. Faltavam quinze para meio-dia. Sem ambição, sem talento, sem sorte. O que o mantinha fora da sarjeta era pura sorte, e a sorte jamais durava. Bem, era uma pena aquele negócio da Lu, mas Lu era uma vencedora. Esvaziou o copo e deitou-se. Pegou Resistência, rebelião e morte, de Camus... leu algumas páginas. Camus falava de angústia, terror, e da miserável condição humana, mas falava disso de uma forma tão cômoda e floreada... a linguagem... aquele ali achava que nada afetava a ele ou a sua literatura. Em outras palavras, era como se tudo fosse ótimo. Camus escrevia como alguém que acabou de concluir um lauto jantar de bife com batatas e salada, e depois enxaguou com uma garrafa de bom vinho francês. A humanidade podia ter andado sofrendo, mas ele não. Um sábio, talvez, mas Henry preferia alguém que gritasse quando se queimasse. Largou o livro no chão e tentou dormir. Era sempre difícil. Se conseguia dormir três horas em cada 24, dava-se por satisfeito. Bem, pensou, as paredes ainda estavam ali, era só dar quatro paredes a alguém que ele tinha uma chance. Nas ruas, nada se podia fazer.
A campainha da porta tocou.
– Hank! – gritou alguém. – Oi, Hank!
Que merda é essa, ele pensou. E agora?
– Sim... – respondeu, ali deitado, de cuecas.
– Oi! Que está fazendo?
– Espere um minuto...
Levantou-se, pegou a camisa e as calças e entrou no quarto da frente.
– Que está fazendo?
– Me vestindo...
– Se vestindo?
– É.
Eram meio-dia e dez. Ele abriu a porta. Era o professor de Pasadena que ensinava literatura inglesa. Trazia um mulherão consigo. O professor apresentou-a. Assistente editorial numa das grandes editoras de Nova York.
– Oh, coisinha fofa – ele disse, e avançou e apertou forte a coxa direita dela. – Eu te amo.
– Você não perde tempo – ela disse.
– Bem, você sabe, os escritores sempre tiveram de puxar o saco dos editores.
– Eu achava que era o contrário.
– Não é. É o escritor que morre de fome.
– Ela quer ver seu romance.
– Eu só tenho uma edição encadernada. Não posso dar a ela uma edição encadernada.
– Dê uma a ela. Talvez eles comprem – disse o professor.
Falavam do romance dele, Pesadelo. Ele calculou que ela queria apenas ganhar um exemplar de graça.
– Nós estávamos indo para Del Mar, mas Pat queria ver você em carne e osso.
– Que legal.
– Hank leu os poemas dele para minha classe. Nós lhe pagamos cinquenta dólares. Ele estava assustado e chorando. Tive de empurrá-lo para a frente da classe.
– Foi uma coisa indigna. Só cinquenta dólares. Auden ganhava dois mil. Não acho que ele seja tão melhor assim do que eu. Na verdade...
– É, sabemos o que você acha.
Henry recolheu as cartelas de corrida em torno dos pés da assistente editorial.
– O pessoal me deve mil e cem. Não consigo receber. As revistas de sexo se tornaram incríveis. Tive de conhecer a garota do escritório da frente. Uma certa Clara. “Oi, Clara”, telefono pra ela, “teve um bom café da manhã?” “Oh, sim, Hank, e você?” “Claro”, eu digo, “dois ovos duros.” “Sei por que está telefonando”, ela responde. “Claro”, eu digo, “o mesmo de sempre.” “Bem, estamos com ele aqui, nosso p.o. 984765, no valor de 85 dólares.” “E tem outro, Clara, seu p.o. 973895, por cinco contos, 570 dólares.” “Ah, sim, vou pedir ao Sr. Masters que assine esses.” “Obrigado, Clara”, digo a ela. “Oh, tudo bem”, ela diz, “vocês merecem seu dinheiro.” “Claro”, eu digo. E então ela diz: “E se não receber, você liga de novo, não liga? Ha-ha-ha.” “Sim, Clara”, digo a ela. “Eu ligo de novo.”
O professor e a assistente editorial riram.
– Eu não consigo, porra, alguém quer um drinque?
Eles não responderam e Henry serviu-se um.
– Cheguei a tentar conseguir jogando nos cavalinhos. No princípio fui bem, mas fiquei sem grana. Tive de parar. Só tenho dinheiro pra ganhar.
O professor começou a explicar o sistema para ganhar no vinte e um em Las Vegas. Henry aproximou-se da assistente editorial.
– Vamos pra cama – disse.
– Você tem graça – ela disse.
– É – ele disse –, como Lenny Bruce. Quase. Ele morreu, e eu estou morrendo.
– Ainda tem graça.
– É, sou o herói. O mito. Sou o não mimado, o que não se vendeu. Minhas cartas são vendidas em leilão por 250 dólares lá no leste. E eu não posso comprar um saco de peidos.
– Todos vocês, escritores, vivem chorando miséria.
– Talvez a miséria tenha chegado. Não se pode viver da própria alma. Não se pode pagar o aluguel com a alma. Experimente fazer isso um dia.
– Talvez eu devesse ir pra cama com você – ela disse.
– Vamos, Pat – disse o professor, levantando-se –, temos de chegar a Del Mar.
Dirigiram-se para a porta.
– Foi um prazer conhecer você.
– Claro – disse Henry.
– Vai conseguir.
– Claro – ele disse –, adeus.
Voltou para o quarto, tirou a roupa e meteu-se na cama. Talvez conseguisse dormir. O sono parecia a morte. Então adormeceu. Estava no jóquei. O homem do guichê lhe dava dinheiro e ele o guardava na carteira. Era dinheiro paca.
– Precisa comprar uma carteira nova – disse o homem –, essa aí está rasgada.
– Não – ele disse –, não quero que os outros saibam que estou rico.
A campainha tocou.
– Oi, Hank! Hank!
– Tudo bem, tudo bem... espere um minuto...
Vestiu a roupa de novo e abriu a porta. Era Harry Stobbs. Outro escritor. Conhecia escritores demais.
Stobbs entrou.
– Tem alguma grana, Stobbs?
– Porra, não.
– Tudo bem, eu pago a cerveja. Achei que você estava rico.
– Não, eu estava morando com uma garota em Malibu. Ela me vestia bem, me alimentava. Me deu um chute. Agora estou morando num chuveiro.
– Chuveiro?
– É, é legal. Portas de vidro corrediças de verdade.
– Tudo bem, vamos. Tem carro?
– Não.
– A gente vai no meu.
Entraram no Comet 62 dele e subiram para Hollywood e Normandy.
– Vendi um artigo pra Time. Cara, achei que tinha entrado na grana. Recebi o cheque deles hoje. Ainda não saquei. Adivinha quanto? – perguntou Stobbs.
– Oitocentos dólares?
– Não, 165.
– Quê? A revista Time? Cento e sessenta e cinco dólares?
– É isso aí.
Estacionaram e foram a uma pequena loja de bebidas pegar a cerveja.
– Minha mulher me chutou – disse Henry a Stobbs. – Diz que eu bebo demais. Uma mentira descarada. – Pegou duas embalagens de seis cervejas no freezer. – Estou chegando ao fim da corda. Festa ruim ontem de noite. Só escritores mortos de fome, e professores em risco de perder os empregos. Papo profissional. Muito cansativo.
– Os escritores são prostitutas – disse Stobbs –, os escritores são as prostitutas do universo.
– As prostitutas do universo se dão muito melhor, meu amigo.
Dirigiram-se ao balcão.
– “Asas da Canção” – disse o dono da loja.
– “Asas da Canção” – respondeu Henry.
O dono da loja tinha lido uma matéria no L. A. Times cerca de um ano atrás sobre a poesia de Henry e jamais esquecera. Era o número Asas da Canção deles. A princípio ele detestara, mas agora achava engraçado. Asas da Canção, deus do céu.
Entraram no carro e voltaram. O carteiro tinha passado. Havia alguma coisa na caixa.
– Talvez seja um cheque – disse Henry.
Pegou a carta, abriu duas garrafas e a carta. Dizia:
“Caro sr. Chinaski, acabei de ler seu romance Pesadelo e seu livro de poemas Fotografias do inferno, e acho o senhor um grande escritor. Sou casada, 52 anos, filhos crescidos. Gostaria muito de ter notícias suas. Respeitosamente, Doris Anderson.”
A carta vinha de uma cidadezinha do Maine.
– Eu não sabia que ainda tinha gente no Maine – ele disse a Stobbs.
– Acho que não tem – disse Stobbs.
– Tem. Esta aqui.
Henry jogou a carta no saco de lixo. A cerveja estava boa. As enfermeiras voltavam para o alto edifício do outro lado da rua. Moravam muitas enfermeiras ali. A maioria usava uniformes transparentes, e o sol da tarde fazia o resto. Ele ficou ali com Stobbs vendo-as saltar de seus carros e passar pela entrada de vidro, desaparecendo para seus chuveiros, aparelhos de TV e portas fechadas.
– Veja só aquela – disse Stobbs.
– Um-hum.
– Lá vai outra.
– Oh, nossa!
Estamos agindo como garotos de quinze anos, pensou Henry. Não merecemos viver. Aposto que Camus nunca ficou espionando pelas janelas.
– O que você pretende fazer, Stobbs?
– Bem, enquanto tiver aquele chuveiro, eu vou levando.
– Por que não arranja um emprego?
– Um emprego? Não dê uma de maluco.
– Acho que tem razão.
– Veja só aquela! Olha que rabo!
– É, de fato.
Ficaram sentados, atacando a cerveja.
– Mason – ele disse a Stobbs, falando de um jovem poeta inédito – foi viver no México. Caça carne com arco e flecha, pesca peixes. Levou a mulher e uma empregada. Faturou quatro livros. Escreveu até um western. O problema é que quando a gente está no campo, é quase impossível receber o dinheiro. A única maneira de receber o dinheiro é ameaçar eles de morte. Sou bom nessas cartas. Mas se o cara está a mil e quinhentos quilômetros, eles sabem que a gente esfria até chegar à porta deles. Mas eu gosto de caçar minha própria carne. É melhor do que ir ao A & P. A gente finge que os animais são assistentes editoriais e editores. É sensacional.
Stobbs ficou até umas cinco da tarde. Falaram mal da literatura, dos caras importantes que realmente fediam. Caras como Mailer, Capote. Depois Stobbs foi embora e Henry tirou a camisa, as calças, os sapatos e as meias e voltou para a cama. O telefone tocou. Estava no chão perto da cama. Ele baixou o braço e pegou-o. Era Lu.
– Que está fazendo? Escrevendo?
– Raramente escrevo.
– Bebendo?
– Chegando ao fim da corda.
– Acho que precisa de uma enfermeira.
– Vamos às corridas esta noite.
– Tudo bem. A que horas você passa?
– Seis e meia tá bem?
– Seis e meia tá bem.
– Té logo, então.
Esticou-se na cama. Bem, era bom estar de volta com Lu. Ela era boa para ele. Estava certa, ele bebia demais. Se Lu bebesse como ele, não a quereria. Seja justo, cara. Veja o que aconteceu com Hemingway, sempre sentado com uma bebida na mão. Veja Faulkner, veja eles todos. Bem, merda.
O telefone tocou de novo.
– Chinaski?
– É.
Era a poetisa Janessa Teel. Tinha um belo corpo, mas ele nunca fora para a cama com ela.
– Eu gostaria que você viesse jantar amanhã de noite.
– Estou firme com Lu – ele disse. Nossa, pensou, sou fiel. Nossa, pensou, sou um cara legal. Nossa.
– Traga ela junto.
– Acha que seria sensato?
– Por mim, tudo bem.
– Escuta, eu ligo pra você amanhã. Pra confirmar.
Desligou e tornou a se estender. Durante trinta anos, pensou, eu quis ser um escritor, e agora sou um escritor, e que é que isso significa?
O telefone tornou a tocar. Era o poeta Doug Eshlesham.
– Hank, querido...
– Sim, Doug?
– Estou duro, querido, preciso duns cinco dólares. Me passa uns cinco.
– Doug, os cavalinhos acabaram comigo. Estou duro, absolutamente.
– Oh – disse Doug.
– Desculpe, querido.
– Bem, tudo bem.
Doug desligou. Doug já lhe devia quinze paus. Mas ele tinha os cinco. Devia ter dado a Doug. Provavelmente, Doug estava comendo comida de cachorro. Não sou um cara muito legal, ele pensou. Nossa, não sou um cara muito legal, afinal.
Estendeu-se na cama, pleno, em sua inglória.
– Numa fria
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