Poemas neste tema
Outros
José Anastácio da Cunha
Os Porquês do Amor
Céu, porque tão convulso e consternado
Me bate, ao Vê-la, o coração no peito?
Porque pasma entre os beiços congelado,
Indo a falar-lhe, o tímido conceito?
Porque nas áureas ondas engolfado
Da caudalosa trança, inda que afeito,
Me naufraga o juízo embelezado,
E em ternura suavíssima desfeito?
Porque a luz dos seus olhos, tão activa,
Por lânguida inda mais encantadora,
Me cega, e por a ver, ansioso, clamo?
Porque da mão nevada sai tão viva
Chama, que me electriza e me devora?
Os mesmos meus porquês me dizem: - Amo!
Me bate, ao Vê-la, o coração no peito?
Porque pasma entre os beiços congelado,
Indo a falar-lhe, o tímido conceito?
Porque nas áureas ondas engolfado
Da caudalosa trança, inda que afeito,
Me naufraga o juízo embelezado,
E em ternura suavíssima desfeito?
Porque a luz dos seus olhos, tão activa,
Por lânguida inda mais encantadora,
Me cega, e por a ver, ansioso, clamo?
Porque da mão nevada sai tão viva
Chama, que me electriza e me devora?
Os mesmos meus porquês me dizem: - Amo!
692
Manuel Laranjeira
PALAVRAS DUM FAN'TASMA
Aquela doce e mística suicida
que me visita pela noite morta,
vim agora encontrá-la à minha porta
esperando por mim, toda transida...
Prendeu-me nos seus braços desvairados,
longamente, em silêncio, como louca..
E ainda sinto o consolo dessa boca,
beijando-me nos olhos desolados....
Depois pôs-se a dizer-me em voz baixinha:
– "Bem vês, meu pobre amor, ela não tinha
um coração como eu...
Alma de sacrifício – nunca a viste
igual à minha!... e a minha não te deu
felicidade alguma... se isso existe..."
que me visita pela noite morta,
vim agora encontrá-la à minha porta
esperando por mim, toda transida...
Prendeu-me nos seus braços desvairados,
longamente, em silêncio, como louca..
E ainda sinto o consolo dessa boca,
beijando-me nos olhos desolados....
Depois pôs-se a dizer-me em voz baixinha:
– "Bem vês, meu pobre amor, ela não tinha
um coração como eu...
Alma de sacrifício – nunca a viste
igual à minha!... e a minha não te deu
felicidade alguma... se isso existe..."
716
Everardo Norões
TUA FALA
ua fala parecia
uma rede de varandas,
branca,
no meio da sala.
(Uma coisa que envolve
e, ao mesmo tempo, se esquiva):
gesto seco de uma chama,
morrendo,
e sempre mais viva.
Era assim, tua palavra:
escorreita, sem medida.
Falas como pés descalços,
presos à relva macia.
Ou um cheiro de curral
quando a manhã principia.
(Tua fala parecia
a rede, toda bordada,
onde a noite amanhecia).
De A Rua do Padre Inglês (2006)
uma rede de varandas,
branca,
no meio da sala.
(Uma coisa que envolve
e, ao mesmo tempo, se esquiva):
gesto seco de uma chama,
morrendo,
e sempre mais viva.
Era assim, tua palavra:
escorreita, sem medida.
Falas como pés descalços,
presos à relva macia.
Ou um cheiro de curral
quando a manhã principia.
(Tua fala parecia
a rede, toda bordada,
onde a noite amanhecia).
De A Rua do Padre Inglês (2006)
715
João Filho
Quase Gregas - Quinta
Dos possíveis caminhos propôs o Caminho.
E, assim, nascida sem fim, luz fundante,
sabendo que o cosmo é insuficiente
neste mundo-minuto
– do gozo do corpo
ao pó de tudo –,
profere: sim!
Rompe nãos, nadas
e principia a traçar o que não poderia ter sido.
Aqui, no largo do instante,
persente o espanto e celebra por celebrar –
das funduras da noite ao sussurro do sangue.
Luz generosa repete seu átimo,
assíduo em sumir,
mas delimita e, ao fazê-lo, liberta,
contorna e penetra toda a folhagem em fibra e
[verdura –
no centro da vida ,
a amendoeira transpira silêncio.
Manhã.
No trajeto, a luz atravessa o copo com água
na mesa da sala,
blocos de cores,
miríades rebentam
– rasante azulado cantante cruzando a varanda –
e desaparecem.
Ama? E degola.
O intento é cumprido
e os dias nos acontecem.
E, assim, nascida sem fim, luz fundante,
sabendo que o cosmo é insuficiente
neste mundo-minuto
– do gozo do corpo
ao pó de tudo –,
profere: sim!
Rompe nãos, nadas
e principia a traçar o que não poderia ter sido.
Aqui, no largo do instante,
persente o espanto e celebra por celebrar –
das funduras da noite ao sussurro do sangue.
Luz generosa repete seu átimo,
assíduo em sumir,
mas delimita e, ao fazê-lo, liberta,
contorna e penetra toda a folhagem em fibra e
[verdura –
no centro da vida ,
a amendoeira transpira silêncio.
Manhã.
No trajeto, a luz atravessa o copo com água
na mesa da sala,
blocos de cores,
miríades rebentam
– rasante azulado cantante cruzando a varanda –
e desaparecem.
Ama? E degola.
O intento é cumprido
e os dias nos acontecem.
642
João Filho
Quase Gregas - Quinta
Dos possíveis caminhos propôs o Caminho.
E, assim, nascida sem fim, luz fundante,
sabendo que o cosmo é insuficiente
neste mundo-minuto
– do gozo do corpo
ao pó de tudo –,
profere: sim!
Rompe nãos, nadas
e principia a traçar o que não poderia ter sido.
Aqui, no largo do instante,
persente o espanto e celebra por celebrar –
das funduras da noite ao sussurro do sangue.
Luz generosa repete seu átimo,
assíduo em sumir,
mas delimita e, ao fazê-lo, liberta,
contorna e penetra toda a folhagem em fibra e
[verdura –
no centro da vida ,
a amendoeira transpira silêncio.
Manhã.
No trajeto, a luz atravessa o copo com água
na mesa da sala,
blocos de cores,
miríades rebentam
– rasante azulado cantante cruzando a varanda –
e desaparecem.
Ama? E degola.
O intento é cumprido
e os dias nos acontecem.
E, assim, nascida sem fim, luz fundante,
sabendo que o cosmo é insuficiente
neste mundo-minuto
– do gozo do corpo
ao pó de tudo –,
profere: sim!
Rompe nãos, nadas
e principia a traçar o que não poderia ter sido.
Aqui, no largo do instante,
persente o espanto e celebra por celebrar –
das funduras da noite ao sussurro do sangue.
Luz generosa repete seu átimo,
assíduo em sumir,
mas delimita e, ao fazê-lo, liberta,
contorna e penetra toda a folhagem em fibra e
[verdura –
no centro da vida ,
a amendoeira transpira silêncio.
Manhã.
No trajeto, a luz atravessa o copo com água
na mesa da sala,
blocos de cores,
miríades rebentam
– rasante azulado cantante cruzando a varanda –
e desaparecem.
Ama? E degola.
O intento é cumprido
e os dias nos acontecem.
642
Ademir Assunção
O Anjo do Ácido Elétrico
o anjo sujo, esfarrapado
remela nos olhos
cabeça feita
bate as asas sob o céu lilás
:
luas se dissolvem
(comprimidos de sonrisal
na fornalha da noite)
música que não cessa
minha mão dentro da sua
veias são nervuras
golfinho saltando
na pele das costas
vênus vestindo
um manto de água
a ninfa chapada
de olhos elétricos
cores girando
no abismo sem fundo
dança de estrelas
no teto da sala
dois sóis em cada ontem
três vozes
na voz de quem cala
remela nos olhos
cabeça feita
bate as asas sob o céu lilás
:
luas se dissolvem
(comprimidos de sonrisal
na fornalha da noite)
música que não cessa
minha mão dentro da sua
veias são nervuras
golfinho saltando
na pele das costas
vênus vestindo
um manto de água
a ninfa chapada
de olhos elétricos
cores girando
no abismo sem fundo
dança de estrelas
no teto da sala
dois sóis em cada ontem
três vozes
na voz de quem cala
800
Ademir Assunção
O Anjo do Ácido Elétrico
o anjo sujo, esfarrapado
remela nos olhos
cabeça feita
bate as asas sob o céu lilás
:
luas se dissolvem
(comprimidos de sonrisal
na fornalha da noite)
música que não cessa
minha mão dentro da sua
veias são nervuras
golfinho saltando
na pele das costas
vênus vestindo
um manto de água
a ninfa chapada
de olhos elétricos
cores girando
no abismo sem fundo
dança de estrelas
no teto da sala
dois sóis em cada ontem
três vozes
na voz de quem cala
remela nos olhos
cabeça feita
bate as asas sob o céu lilás
:
luas se dissolvem
(comprimidos de sonrisal
na fornalha da noite)
música que não cessa
minha mão dentro da sua
veias são nervuras
golfinho saltando
na pele das costas
vênus vestindo
um manto de água
a ninfa chapada
de olhos elétricos
cores girando
no abismo sem fundo
dança de estrelas
no teto da sala
dois sóis em cada ontem
três vozes
na voz de quem cala
800
Everardo Norões
SONETO I
Agonizavam os rastros de novembro.
E os meus ossos, cansados das neblinas,
doíam, no concerto das esquinas
da cidade, onde um dia, ainda me lembro,
penetrou-se de escuro a minha alma,
quando um cão, a ladrar contra o sol-posto,
mordeu o lado oculto do meu rosto
e deixou seus sinais à minha palma.
Lembro-me que era de tarde. Ainda chovia.
O eco dos espelhos conduzia
meus passos que jaziam pelas ruas.
Havia o som da água que caía.
E no horizonte, além da agonia,
um cemitério de meninas nuas.
E os meus ossos, cansados das neblinas,
doíam, no concerto das esquinas
da cidade, onde um dia, ainda me lembro,
penetrou-se de escuro a minha alma,
quando um cão, a ladrar contra o sol-posto,
mordeu o lado oculto do meu rosto
e deixou seus sinais à minha palma.
Lembro-me que era de tarde. Ainda chovia.
O eco dos espelhos conduzia
meus passos que jaziam pelas ruas.
Havia o som da água que caía.
E no horizonte, além da agonia,
um cemitério de meninas nuas.
755
João Filho
Quase Gregas - Quarta
Nossos pequenos tesouros terrenos,
raiz sem razão,
inomináveis alguns,
na penumbra do quarto,
agradecem pelo respiro do instante,
por esse repouso em comum –
luz irmanada sem preço.
Teu corpo cósmico,
eixo de amor e sentido
– noite aberta no tempo –,
reacende ao redor de si os elementos, as coisas,
e, solar,
compartilha surpresas,
que os sentidos festejam.
Fala do pouco sabido,
daquilo por fresta avistado,
mas nítido;
acolhe e oferece,
presente sem par,
páginas, gozos, outros de lágrimas,
canta e somos dueto na dissonância.
Ao pairar pesadelo,
o gesto Állex em minha sede insone.
Serenidade de lume depois do percurso,
do inventário da jornada.
Silêncio
irradiado do seu centro –
aceitando essa dádiva.
raiz sem razão,
inomináveis alguns,
na penumbra do quarto,
agradecem pelo respiro do instante,
por esse repouso em comum –
luz irmanada sem preço.
Teu corpo cósmico,
eixo de amor e sentido
– noite aberta no tempo –,
reacende ao redor de si os elementos, as coisas,
e, solar,
compartilha surpresas,
que os sentidos festejam.
Fala do pouco sabido,
daquilo por fresta avistado,
mas nítido;
acolhe e oferece,
presente sem par,
páginas, gozos, outros de lágrimas,
canta e somos dueto na dissonância.
Ao pairar pesadelo,
o gesto Állex em minha sede insone.
Serenidade de lume depois do percurso,
do inventário da jornada.
Silêncio
irradiado do seu centro –
aceitando essa dádiva.
674
João Filho
Quase Gregas - Quarta
Nossos pequenos tesouros terrenos,
raiz sem razão,
inomináveis alguns,
na penumbra do quarto,
agradecem pelo respiro do instante,
por esse repouso em comum –
luz irmanada sem preço.
Teu corpo cósmico,
eixo de amor e sentido
– noite aberta no tempo –,
reacende ao redor de si os elementos, as coisas,
e, solar,
compartilha surpresas,
que os sentidos festejam.
Fala do pouco sabido,
daquilo por fresta avistado,
mas nítido;
acolhe e oferece,
presente sem par,
páginas, gozos, outros de lágrimas,
canta e somos dueto na dissonância.
Ao pairar pesadelo,
o gesto Állex em minha sede insone.
Serenidade de lume depois do percurso,
do inventário da jornada.
Silêncio
irradiado do seu centro –
aceitando essa dádiva.
raiz sem razão,
inomináveis alguns,
na penumbra do quarto,
agradecem pelo respiro do instante,
por esse repouso em comum –
luz irmanada sem preço.
Teu corpo cósmico,
eixo de amor e sentido
– noite aberta no tempo –,
reacende ao redor de si os elementos, as coisas,
e, solar,
compartilha surpresas,
que os sentidos festejam.
Fala do pouco sabido,
daquilo por fresta avistado,
mas nítido;
acolhe e oferece,
presente sem par,
páginas, gozos, outros de lágrimas,
canta e somos dueto na dissonância.
Ao pairar pesadelo,
o gesto Állex em minha sede insone.
Serenidade de lume depois do percurso,
do inventário da jornada.
Silêncio
irradiado do seu centro –
aceitando essa dádiva.
674
Everardo Norões
a música
Para Isaac Duarte
Sem pedir licença,
insinua-se pelos cômodos,
invade os espelhos,
derrama suas jarras de luz.
Vejo-a
pelos canteiros da casa,
na nitidez dos bordados
de minha mãe,
no brilhar de tua íris
quando os deuses descem
para beber a insensatez
das águas.
Depois,
ela se transforma em seios,
goiabas,
espigas.
E nua, adormece,
enquanto a lua brinca
entre meus dedos
e lagartixas
passeiam pelas pedras do pátio…
Sem pedir licença,
insinua-se pelos cômodos,
invade os espelhos,
derrama suas jarras de luz.
Vejo-a
pelos canteiros da casa,
na nitidez dos bordados
de minha mãe,
no brilhar de tua íris
quando os deuses descem
para beber a insensatez
das águas.
Depois,
ela se transforma em seios,
goiabas,
espigas.
E nua, adormece,
enquanto a lua brinca
entre meus dedos
e lagartixas
passeiam pelas pedras do pátio…
752
Everardo Norões
a música
Para Isaac Duarte
Sem pedir licença,
insinua-se pelos cômodos,
invade os espelhos,
derrama suas jarras de luz.
Vejo-a
pelos canteiros da casa,
na nitidez dos bordados
de minha mãe,
no brilhar de tua íris
quando os deuses descem
para beber a insensatez
das águas.
Depois,
ela se transforma em seios,
goiabas,
espigas.
E nua, adormece,
enquanto a lua brinca
entre meus dedos
e lagartixas
passeiam pelas pedras do pátio…
Sem pedir licença,
insinua-se pelos cômodos,
invade os espelhos,
derrama suas jarras de luz.
Vejo-a
pelos canteiros da casa,
na nitidez dos bordados
de minha mãe,
no brilhar de tua íris
quando os deuses descem
para beber a insensatez
das águas.
Depois,
ela se transforma em seios,
goiabas,
espigas.
E nua, adormece,
enquanto a lua brinca
entre meus dedos
e lagartixas
passeiam pelas pedras do pátio…
752
Everardo Norões
Corpo
Teu corpo
se enxuga em minha água:
calafeta,
enxágua.
Completa
o que não vem de mim.
E por ser água e calma,
sonâmbula
como a
distraída voz do lume,
lembra um vago perfume
de jasmim.
se enxuga em minha água:
calafeta,
enxágua.
Completa
o que não vem de mim.
E por ser água e calma,
sonâmbula
como a
distraída voz do lume,
lembra um vago perfume
de jasmim.
644
Manuel Laranjeira
A TRISTEZA DE VIVER
Ânsia de amar! Oh ânsia de viver!
um’hora só que seja, mas vivida
e satisfeita… e pode-se morrer,
- porque se morre abençoando a vida!
Mas ess’hora suprema em que se vive
quanto possa sonhar-se de ventura,
oh vida mentirosa, oh vida impura,
esperei-a, esperei-a, e nunca a tive!
E quantos como eu a desejaram!
e quantos como eu nunca a tiveram
uma hora de amor como a sonharam!
Em quantos olhos tristes tenho eu lido
o desespero dos que não viveram
esse sonho de amor incompreendido!
um’hora só que seja, mas vivida
e satisfeita… e pode-se morrer,
- porque se morre abençoando a vida!
Mas ess’hora suprema em que se vive
quanto possa sonhar-se de ventura,
oh vida mentirosa, oh vida impura,
esperei-a, esperei-a, e nunca a tive!
E quantos como eu a desejaram!
e quantos como eu nunca a tiveram
uma hora de amor como a sonharam!
Em quantos olhos tristes tenho eu lido
o desespero dos que não viveram
esse sonho de amor incompreendido!
814
João Filho
BALANÇA
Para Alana Freitas El Fahl
y todo lo que tuvo
que suceder para que tú nacieras
Miguel d’Ors
Uma pessoa é sempre mais pesada
do que indica a balança
ao sair de casa desloca
todos os seus dias e infâncias
leva mundos imensos de livros e esquecimentos
carrega países desconhecidos
e todos os tempos
não sabe os universos de mortos anônimos
que arrasta nos pés
nem desconfia da multidão de dramas
que a cruza de viés
não se dá conta dos milhões de manhãs
que a fazem sair
das línguas inumeráveis
que puderam dizer – aqui
a pré-história de gestos que a mantêm a salvo
para o acerto do fogo, do fruto
– quanto estrago!
uma pessoa é sempre mais do que leva
e menos do que isso
esse peso
é parte do seu compromisso
y todo lo que tuvo
que suceder para que tú nacieras
Miguel d’Ors
Uma pessoa é sempre mais pesada
do que indica a balança
ao sair de casa desloca
todos os seus dias e infâncias
leva mundos imensos de livros e esquecimentos
carrega países desconhecidos
e todos os tempos
não sabe os universos de mortos anônimos
que arrasta nos pés
nem desconfia da multidão de dramas
que a cruza de viés
não se dá conta dos milhões de manhãs
que a fazem sair
das línguas inumeráveis
que puderam dizer – aqui
a pré-história de gestos que a mantêm a salvo
para o acerto do fogo, do fruto
– quanto estrago!
uma pessoa é sempre mais do que leva
e menos do que isso
esse peso
é parte do seu compromisso
637
Salgado Maranhão
NOZ
As distâncias que se deitam
sob os meus pés,espicharam-me
os olhos ao leito das almas
tristes.
Essas tristes léguas
que se me espalham
às metrópoles rasuradas.
Eu que sou do barro
dos oleiros, do sol
que acorda os mirantes;
eu que sou da várzea —
irmão dos rios descalços
e das pedras mudas;
não tenho para quem
chorar esta litania
de espectros,
estes grafites de sangue.
Não é a sucursal da dor
que nos acende o sol
e a sede de ágora,
é o esplendor do ínfimo.
Ainda que agarremos o real
pelo pântano, pelos
baixios que nos afoga
à superfície,
Ainda assim,
quebra-se a noz desse jogo.
E o que não serve ao pasto,
serve ao fogo.
sob os meus pés,espicharam-me
os olhos ao leito das almas
tristes.
Essas tristes léguas
que se me espalham
às metrópoles rasuradas.
Eu que sou do barro
dos oleiros, do sol
que acorda os mirantes;
eu que sou da várzea —
irmão dos rios descalços
e das pedras mudas;
não tenho para quem
chorar esta litania
de espectros,
estes grafites de sangue.
Não é a sucursal da dor
que nos acende o sol
e a sede de ágora,
é o esplendor do ínfimo.
Ainda que agarremos o real
pelo pântano, pelos
baixios que nos afoga
à superfície,
Ainda assim,
quebra-se a noz desse jogo.
E o que não serve ao pasto,
serve ao fogo.
738
Everardo Norões
A RUA DO PADRE INGLÊS
Na rua do Padre Inglês
um louco joga xadrez.
Joga o xadrez da desgraça:
uma sombra na vidraça
é o seu parceiro demente.
(Entre a dama e o cavalo,
corre um rio de afogados).
De sua cama, ainda quente,
um bafo de nicotina.
Vem um cheiro de latrina
da cela defronte à sua.
Na rua do Padre Inglês
um louco fala francês
com acentos de Baudelaire...
(O flamboyant encarnado
se mistura ao espetáculo
da esquizofrênica rua).
O bispo toma o cavalo
das mãos da dama de preto.
(São cinco horas da tarde:
as luzes se apagam cedo.)
Batente do meio-fio:
vem vindo a sombra da noiva,
sozinha, morta de medo.
(O louco avista das grades
as andorinhas azuis
que voam feito morcegos.)
Na rua do Padre Inglês,
um cheiro de gasolina.
{O louco engendra seu mate
contra a sombra na vidraça.}
São cinco em ponto da tarde
(cinco de Ignacio Mejías,
pensa o louco em sua cela)
— dos girassóis de Van Gogh
à solidão amarela...
O cavalo solta as crinas,
a noiva voa na rua
e nas vozes de um menino
acordes de um violino.
O louco sabe que o tempo
de dormir já vem chegando...
(Corujas soltas na cela
bicam as flores de papel
e uma boneca de pano).
Corre, corre, vem depressa,
Que a noite já vem chegando!
Na rua do Padre Inglês
um louco joga xadrez...
um louco joga xadrez.
Joga o xadrez da desgraça:
uma sombra na vidraça
é o seu parceiro demente.
(Entre a dama e o cavalo,
corre um rio de afogados).
De sua cama, ainda quente,
um bafo de nicotina.
Vem um cheiro de latrina
da cela defronte à sua.
Na rua do Padre Inglês
um louco fala francês
com acentos de Baudelaire...
(O flamboyant encarnado
se mistura ao espetáculo
da esquizofrênica rua).
O bispo toma o cavalo
das mãos da dama de preto.
(São cinco horas da tarde:
as luzes se apagam cedo.)
Batente do meio-fio:
vem vindo a sombra da noiva,
sozinha, morta de medo.
(O louco avista das grades
as andorinhas azuis
que voam feito morcegos.)
Na rua do Padre Inglês,
um cheiro de gasolina.
{O louco engendra seu mate
contra a sombra na vidraça.}
São cinco em ponto da tarde
(cinco de Ignacio Mejías,
pensa o louco em sua cela)
— dos girassóis de Van Gogh
à solidão amarela...
O cavalo solta as crinas,
a noiva voa na rua
e nas vozes de um menino
acordes de um violino.
O louco sabe que o tempo
de dormir já vem chegando...
(Corujas soltas na cela
bicam as flores de papel
e uma boneca de pano).
Corre, corre, vem depressa,
Que a noite já vem chegando!
Na rua do Padre Inglês
um louco joga xadrez...
770
Everardo Norões
A RUA DO PADRE INGLÊS
Na rua do Padre Inglês
um louco joga xadrez.
Joga o xadrez da desgraça:
uma sombra na vidraça
é o seu parceiro demente.
(Entre a dama e o cavalo,
corre um rio de afogados).
De sua cama, ainda quente,
um bafo de nicotina.
Vem um cheiro de latrina
da cela defronte à sua.
Na rua do Padre Inglês
um louco fala francês
com acentos de Baudelaire...
(O flamboyant encarnado
se mistura ao espetáculo
da esquizofrênica rua).
O bispo toma o cavalo
das mãos da dama de preto.
(São cinco horas da tarde:
as luzes se apagam cedo.)
Batente do meio-fio:
vem vindo a sombra da noiva,
sozinha, morta de medo.
(O louco avista das grades
as andorinhas azuis
que voam feito morcegos.)
Na rua do Padre Inglês,
um cheiro de gasolina.
{O louco engendra seu mate
contra a sombra na vidraça.}
São cinco em ponto da tarde
(cinco de Ignacio Mejías,
pensa o louco em sua cela)
— dos girassóis de Van Gogh
à solidão amarela...
O cavalo solta as crinas,
a noiva voa na rua
e nas vozes de um menino
acordes de um violino.
O louco sabe que o tempo
de dormir já vem chegando...
(Corujas soltas na cela
bicam as flores de papel
e uma boneca de pano).
Corre, corre, vem depressa,
Que a noite já vem chegando!
Na rua do Padre Inglês
um louco joga xadrez...
um louco joga xadrez.
Joga o xadrez da desgraça:
uma sombra na vidraça
é o seu parceiro demente.
(Entre a dama e o cavalo,
corre um rio de afogados).
De sua cama, ainda quente,
um bafo de nicotina.
Vem um cheiro de latrina
da cela defronte à sua.
Na rua do Padre Inglês
um louco fala francês
com acentos de Baudelaire...
(O flamboyant encarnado
se mistura ao espetáculo
da esquizofrênica rua).
O bispo toma o cavalo
das mãos da dama de preto.
(São cinco horas da tarde:
as luzes se apagam cedo.)
Batente do meio-fio:
vem vindo a sombra da noiva,
sozinha, morta de medo.
(O louco avista das grades
as andorinhas azuis
que voam feito morcegos.)
Na rua do Padre Inglês,
um cheiro de gasolina.
{O louco engendra seu mate
contra a sombra na vidraça.}
São cinco em ponto da tarde
(cinco de Ignacio Mejías,
pensa o louco em sua cela)
— dos girassóis de Van Gogh
à solidão amarela...
O cavalo solta as crinas,
a noiva voa na rua
e nas vozes de um menino
acordes de um violino.
O louco sabe que o tempo
de dormir já vem chegando...
(Corujas soltas na cela
bicam as flores de papel
e uma boneca de pano).
Corre, corre, vem depressa,
Que a noite já vem chegando!
Na rua do Padre Inglês
um louco joga xadrez...
770
José Manuel Capêlo
NO CUME DA GUARDUNHA
para o Peado Loução
Viver é criar. Subir é ver.
Eu que não criei montanhas, nem aves, nem espaços
vejo-me criá-los ao erguer os braços no ponto mais alto da serra
na Senhora da Penha, em pleno maciço da Guardunha
como Godofredo, o conquistador do Templo, o fez
— quando a cidade sagrada lhe foi entregue
depois de acometida, tomada e saqueada—
brandidas as audácias e a loucura da posse.
Deixando o caminho mais largo, com os meus amigos, começo a subida
do morro firme e vário, como que escondido pela serra maior,
por entre caminhos antigos e pedras de leitura
que nos descobrem os vestígios dos passos, do arquitecto lúcido
que por ali andara há alguns séculos e escolhera aquela região .
para deixar nome em rio, terras, ameias e memórias.
Sinto-me na terra, que é bela e estranha
— gerida por uma força que não se vê, mas sente —
a cada palmo de rocha trepada. Subo para ver
a íngreme escadaria de pedra, própria de deuses
com sinais deles, até ao cume.
Recuperado o fôlego perdido, preso à grande pedra em que me firmo
ergo os braços de punhos cerrados e grito como o vento:
— Sou o senhor do mundo!... O senhor do mundo!...
Viver é criar. Subir é ver.
Eu que não criei montanhas, nem aves, nem espaços
vejo-me criá-los ao erguer os braços no ponto mais alto da serra
na Senhora da Penha, em pleno maciço da Guardunha
como Godofredo, o conquistador do Templo, o fez
— quando a cidade sagrada lhe foi entregue
depois de acometida, tomada e saqueada—
brandidas as audácias e a loucura da posse.
Deixando o caminho mais largo, com os meus amigos, começo a subida
do morro firme e vário, como que escondido pela serra maior,
por entre caminhos antigos e pedras de leitura
que nos descobrem os vestígios dos passos, do arquitecto lúcido
que por ali andara há alguns séculos e escolhera aquela região .
para deixar nome em rio, terras, ameias e memórias.
Sinto-me na terra, que é bela e estranha
— gerida por uma força que não se vê, mas sente —
a cada palmo de rocha trepada. Subo para ver
a íngreme escadaria de pedra, própria de deuses
com sinais deles, até ao cume.
Recuperado o fôlego perdido, preso à grande pedra em que me firmo
ergo os braços de punhos cerrados e grito como o vento:
— Sou o senhor do mundo!... O senhor do mundo!...
643
João Filho
Quase Gregas - Terceira
A mesa posta, cadeiras,
o branco do linho da toalha,
festa da luz,
claridade sem fugas no espaço da copa,
o copo d’água, em pureza complexa,
equilibra e concentra
cada conviva em torno da mesa.
Conversas de oferta,
sal e silêncio,
o portento do pão aceitado,
a prece simples das coisas,
concretude de sede sincera,
da fome rústica,
do gesto que reparte a beleza comum:
a de tez aquiescente,
servindo a porção necessária;
esse de rosto vincado, mas amplo,
do merecido, contempla sem fel;
apesar das agulhas incandescentes de perda e paixão,
sua dor acrescenta.
O azul arejando.
Daquele o olhar amoroso,
condição de um lúcido total: o deleite feroz.
À mesa todos comungam
alegres.
Os nascimentos compensam ausências,
o aceite inconsútil da vida
em seu curso terrestre
de escureza e fulgor.
o branco do linho da toalha,
festa da luz,
claridade sem fugas no espaço da copa,
o copo d’água, em pureza complexa,
equilibra e concentra
cada conviva em torno da mesa.
Conversas de oferta,
sal e silêncio,
o portento do pão aceitado,
a prece simples das coisas,
concretude de sede sincera,
da fome rústica,
do gesto que reparte a beleza comum:
a de tez aquiescente,
servindo a porção necessária;
esse de rosto vincado, mas amplo,
do merecido, contempla sem fel;
apesar das agulhas incandescentes de perda e paixão,
sua dor acrescenta.
O azul arejando.
Daquele o olhar amoroso,
condição de um lúcido total: o deleite feroz.
À mesa todos comungam
alegres.
Os nascimentos compensam ausências,
o aceite inconsútil da vida
em seu curso terrestre
de escureza e fulgor.
685
Everardo Norões
TRISTÃO
Em pé, ao sol e ao vento do sertão,
ele não se decompôs.
Pedro Nava (Baú de Ossos)
As palavras no alforje. E o rosário,
a escorrer das penas e dos dias.
O azul da barba lembra uma paisagem
onde campeiam cabras. E ramagens
desatam-se em sombras nas janelas.
A morrinha dos bichos. O mormaço,
trazendo o desespero, em vez de março:
um luto atravancando as taramelas.
A sela desapeada. E na garupa
do cavalo, a sentença das esporas.
Pendentes dos estribos, estão as horas,
relampejos de facas. E o sono da jurema.
O braço descarnado, o giz dos dentes,
e o olho além do corpo do poema.
No chão do meu degredo, sempre chão,
sete frases do ofício e um bordão.
ele não se decompôs.
Pedro Nava (Baú de Ossos)
As palavras no alforje. E o rosário,
a escorrer das penas e dos dias.
O azul da barba lembra uma paisagem
onde campeiam cabras. E ramagens
desatam-se em sombras nas janelas.
A morrinha dos bichos. O mormaço,
trazendo o desespero, em vez de março:
um luto atravancando as taramelas.
A sela desapeada. E na garupa
do cavalo, a sentença das esporas.
Pendentes dos estribos, estão as horas,
relampejos de facas. E o sono da jurema.
O braço descarnado, o giz dos dentes,
e o olho além do corpo do poema.
No chão do meu degredo, sempre chão,
sete frases do ofício e um bordão.
681
Frei Agostinho da Cruz
LIII Ó montes altos
Ó montes altos, vales abatidos,
Verdes ribeiras de correntes rios,
Ora por baixo de bosques sombrios,
Ora por largos campos estendidos;
Onde mais claro vejo repetidos
Meus mal considerados desvarios
De pensamentos vãos, baixos e frios,
Emendados tão mal, quão mal sentidos.
Passei a mocidade sem proveito,
Antes contra meu Deos acrescentando
Culpas a quantas culpas tenho feito;
Cuja pena a velhice está pejando
Para passar da morte o passo estreito,
Se não se no seu sangue for nadando.
Verdes ribeiras de correntes rios,
Ora por baixo de bosques sombrios,
Ora por largos campos estendidos;
Onde mais claro vejo repetidos
Meus mal considerados desvarios
De pensamentos vãos, baixos e frios,
Emendados tão mal, quão mal sentidos.
Passei a mocidade sem proveito,
Antes contra meu Deos acrescentando
Culpas a quantas culpas tenho feito;
Cuja pena a velhice está pejando
Para passar da morte o passo estreito,
Se não se no seu sangue for nadando.
625
Frei Agostinho da Cruz
LI À morte
Os correos da morte são chegados,
Por caminhos antigos, impedidos,
Mal com meus olhos, mal com meus ouvidos,
Mal com meus pés, do chão mal levantados.
E mal, por não chorar bem meus pecados,
Que sendo sete, e cinco, meus sentidos,
Por serem tantas vezes repetidos,
Impossivel será serem contados.
Se não viera a morte acompanhada
Da conta, que dar devo tão estreita,
Não fora tão penosa imaginada.
Mas a que vivo ou morto tenho feita,
Tenho com meu Senhor na cruz pregada,
Onde o ladrão contrito não se enjeita.
Por caminhos antigos, impedidos,
Mal com meus olhos, mal com meus ouvidos,
Mal com meus pés, do chão mal levantados.
E mal, por não chorar bem meus pecados,
Que sendo sete, e cinco, meus sentidos,
Por serem tantas vezes repetidos,
Impossivel será serem contados.
Se não viera a morte acompanhada
Da conta, que dar devo tão estreita,
Não fora tão penosa imaginada.
Mas a que vivo ou morto tenho feita,
Tenho com meu Senhor na cruz pregada,
Onde o ladrão contrito não se enjeita.
769