Temas
Poemas neste tema

Outros

Charles Bukowski

Charles Bukowski

Sua Mulher, a Pintora

Havia esboços de homens, mulheres e patos sobre as paredes,
e do lado de fora um grande ônibus verde cortava o tráfego como
a insanidade que saltasse de uma linha ondulada, Turguêniev, Turguêniev,
diz o rádio, e Jane Austen, Jane Austen, também.
“Vou fazer o retrato dela no dia 28, quando você estiver
no trabalho.”
Ele estava a um passo da obesidade e caminhava constantemente,
espatifava-se; eles o tinham; esvaziavam-no por dentro como
uma mosca na teia, e seus olhos eram injetados de raiva-medo.
Ele sente o ódio e o descartar do mundo, mais afiados que sua
gilete, e sua intuição está suspensa como um pólipo úmido; e
ele se julga derrotado ao tentar remover os fios de barba
presos à lâmina sob a água (como a vida), não tão quente como deveria.
Daumier. Rue Transnonain, le 15 Avril, 1843. (Litografia.)
Paris, Bibliothèque Nationale.
“Ela tem um rosto como nunca vi em outra mulher.”
“O que é isso? Um caso amoroso?”
“Tolinho. Não posso amar uma mulher. Além disso, ela está grávida.”
Não posso pintar – uma flor devorada por uma cobra; aquela luz do sol é uma
mentira; e aqueles mercados cheiram a sapatos e a nudez de garotos vestidos,
e abaixo de tudo isso algum rio, algum movimento, alguma virada que
suba ao longo do limite de meu templo e morda com uma picada atordoante...
homens dirigem carros e pintam suas casas,
mas eles são loucos; homens se sentam nas barbearias, compram chapéus.
Corot. Lembrança de Mortefontaine.
Paris, Louvre.
“Tenho que escrever para o Kaiser, embora eu ache que ele é homossexual.”
“Você segue lendo Freud?”
“Página 299.”
Ela produziu um pequeno chapéu e ele fez dois estalos com a mão debaixo do
braço, erguendo-o da cama como uma longa antena de
lesma, e ela foi à igreja, e ele pensou agora eu tenho
tempo e o cachorro.
Sobre a igreja: o problema de uma máscara é que ela
nunca muda.
Tão rude as flores que crescem e não crescem belas.
Tão incrível a cadeira no pátio que não precisa sustentar pernas
e barriga e braço e pescoço e boca que morde o
vento como o fim de um túnel.
Ele se voltou na cama e pensou: estou procurando algum
segmento no ar. Ele flutua sobre a cabeça das pessoas.
Quando chove sobre as árvores ele se acomoda entre os galhos
mais quente e mais verdadeiramente sanguíneo que a pomba.
Orozco. Cristo Destruindo a Cruz.
Hanover, Dartmouth College, Baker Library.
Deixou-se consumir pelo sono.

Fay estava grávida. Mas isso não a fez mudar nem as coisas nos Correios mudaram.
Os mesmos funcionários faziam todo o trabalho enquanto o resto do pessoal, a equipe mista, ficava por ali, discutindo esportes. Eram todos caras negros, grandes – com uma constituição de profissionais da luta livre. Sempre que um novato entrava no serviço, era enviado para a equipe mista. Isso evitava que eles assassinassem os supervisores. Se as equipes mistas tinham um supervisor, jamais se conseguia avistá-lo. A equipe carregava os caminhões com as cartas que chegavam através do elevador de carga. Isso ocupava cinco minutos de uma hora de trabalho. Às vezes, eles contavam as cartas, ou ao menos fingiam. Pareciam bastante calmos e inteligentes, fazendo suas contas com um lápis comprido atrás da orelha. Mas na maior parte do tempo eles discutiam sobre esporte, de um modo violento. Todos eram especialistas – liam os mesmos comentaristas esportivos.
– Muito bem, cara, quem é pra você o melhor jogador de todos os tempos do campo externo?
– Bem, Willie Mays, Ted Williams, Cobb.
– O quê? O quê?
– É isso aí, meu!
– E quanto ao Babe? Como deixar o Babe de fora?
– Ok, Ok, quem é o seu jogador cinco estrelas na posição?
– Não é cinco estrelas, é o melhor de todos os tempos!
– Ok, Ok, você sabe o que eu quero dizer, meu, você sabe o que eu quero
dizer!
– Bem, fico com Mays, Ruth e Di Maj!
– Vocês dois perderam a noção! E o Hank Aaron, rapaziada? Como deixar o Hank de fora?
Certa vez, todos os cargos da equipe mista foram postos à disposição. As vagas eram preenchidas principalmente em função do tempo de trabalho. A equipe mista se organizou e rasgou as fichas de preenchimentos de vagas do livro de pedidos. Eles não podiam fazer nada. Ninguém deu queixa por escrito. Era um caminho comprido e escuro até o estacionamento à noite.
Comecei a sentir tonturas. Podia senti-las vindo. A caixa começava a girar. As crises duravam um minuto. Não conseguia entender o que se passava. Cada carta se tornava mais e mais pesada. Os funcionários começavam a ter aquele aspecto de um cinza esmaecido. Eu começava a deslizar de meu banquinho. Minhas pernas mal eram capazes de me sustentar. O trabalho estava me matando.
Fui até meu médico e lhe disse o que estava acontecendo. Ele mediu minha pressão.
– Não, não, não há nada de errado com sua pressão.
Então ele me auscultou e me pesou.
– Não vejo nada de errado.
Depois resolveu fazer um exame de sangue especial. Fez três coletas de sangue, sucessivas, em intervalos, cada um parecendo maior do que o anterior.
– Importa-se de esperar na outra sala?
– Não, não, vou dar uma volta por aí e retorno na hora combinada.
– Certo, mas volte mesmo na hora combinada.
Cheguei a tempo para a segunda coleta. Então houve uma espera maior para a terceira, cerca de vinte ou 25 minutos. Dei uma volta pela rua. Nada de especial estava acontecendo. Fui até uma loja de conveniências e fiquei lendo uma revista. Coloquei-a de volta em seu lugar, olhei para o relógio e saí. Vi aquela mulher sentada na parada de ônibus. Era uma dessas que a gente vê raramente. Mostrava boa parte das pernas. Não conseguia desviar meus olhos. Atravessei a rua e fiquei a uns vinte metros de distância.
Então ela se levantou. Tive que segui-la. Aquele rabo gostoso acenava para mim. Eu estava hipnotizado. Ela entrou numa agência dos Correios. Entrou numa enorme fila e eu fiquei atrás dela. Trazia dois postais consigo. Comprei doze postais de via aérea e dois dólares em selos.
Quando saí, ela apanhava o ônibus. Vi ainda um resquício daquelas pernas e daquele rabo deliciosos entrando no ônibus, ônibus que a levou embora.
O médico estava esperando.
– O que aconteceu? O senhor está cinco minutos atrasado!
– Não sei. Meu relógio deve ter parado.
– AS COISAS TÊM QUE SER FEITAS COM EXATIDÃO!
– Vamos. Tire meu sangue duma vez.
Ele me enfiou a agulha...
Dois dias depois, os testes disseram que não havia nada de errado comigo. Não sei se foi por causa daquela diferença de cinco minutos. Mas as crises de tontura pioraram. Comecei a sair do trabalho quatro horas antes do previsto, sem preencher corretamente os formulários.
Eu chegava por volta das onze da noite e lá estava Fay. Pobre Fay grávida.
– O que aconteceu?
– Não conseguia suportar mais – eu disse –, estou muito sensível...
– Cartas na rua
1 187
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Menos Delicado Que Os Gafanhotos

– Bolas – ele disse. – Estou cansado de pintar. Vamos sair. Estou cheio desse fedor de tinta, estou cansado de ser grande. Estou cansado de esperar pela morte. Vamos sair.
– Sair pra onde? – ela perguntou.
– Pra qualquer lugar. Comer, beber, ver.
– Jorg – ela disse –, que é que eu vou fazer quando você morrer?
– Vai comer, dormir, foder, mijar, se vestir, andar por aí e encher o saco dos outros.
– Eu preciso de segurança.
– Todos nós.
– Quer dizer, não somos casados. Eu não vou poder nem receber o seu seguro.
– Tá tudo bem, não esquenta com isso. Além do mais, você não acredita em casamento, Arlene.
Arlene sentava-se na poltrona cor-de-rosa lendo o jornal da tarde.
– Você diz que cinco mil mulheres querem dormir com você. Onde é que eu fico?
– Cinco mil e uma.
– Acha que eu não consigo outro homem?
– Não, pra você não tem problema. Pode arranjar outro homem em três minutos.
– Acha que eu preciso de um grande pintor?
– Não precisa, não. Um bom bombeiro serve.
– É, desde que ele me ame.
– Claro. Ponha o casaco. Vamos sair.
Desceram a escada do sótão. Para todos os lados, quartos baratos, entupidos de baratas, mas ninguém parecia passar fome: pareciam viver cozinhando coisas em panelões e sentados por toda parte, fumando, limpando as unhas, bebendo latas de cerveja ou dividindo uma comprida garrafa azul de vinho branco, gritando ou rindo uns com os outros, ou peidando, arrotando ou dormindo diante da TV. Não havia muita gente com dinheiro no mundo, mas quanto menos dinheiro tinham melhor pareciam viver. Só precisavam de sono, lençóis limpos, comida, bebida e pomada para hemorroidas. E sempre deixavam os quartos um pouco abertos.
– Idiotas – disse Jorg, quando desciam a escada –, passam a vida fofocando e enchendo a minha vida.
– Oh, Jorg – suspirou Arlene. – Você simplesmente não gosta das pessoas, gosta?
Jorg ergueu uma sobrancelha para ela, mas não respondeu. A reação de Arlene ao que ele sentia pelas massas era sempre a mesma – como se não amar as pessoas fosse algo que revelasse uma imperdoável deficiência espiritual. Mas ela era uma foda excelente e uma companhia agradável – a maior parte do tempo.
Chegaram ao boulevard e seguiram andando, Jorg com a barba vermelha e branca, os dentes amarelos podres e o mau hálito, as orelhas roxas, os olhos assustados, o casaco fedorento rasgado e a bengala branca de marfim. Sentia-se melhor quando estava pior.
– Merda – disse –, tudo morre cagando.
Arlene rebolava o rabo, não fazendo segredo dele, Jorg batia na calçada com a bengala, e até o sol olhava lá de cima e dizia Ô-hô! Chegaram finalmente ao velho prédio miserável onde morava Serge. Jorg e Serge vinham ambos pintando há anos, mas só recentemente tinham vendido suas obras por mais que peidos de porco. Tinham passado fome juntos, agora se tornavam famosos separados. Jorg e Arlene entraram no hotel e subiram a escada. O cheiro de iodo e fritura de frango enchia os corredores. Num quarto, alguém fodia sem fazer segredo disso. Eles subiram até o sótão e Arlene bateu. Abriu-se a porta, e lá estava Serge.
– Tchan-tchan! – ele disse. E corou. – Oh, desculpem... entrem.
– Que diabos deu em você? – perguntou Jorg.
– Senta aí. Pensei que fosse Lila...
– Você brinca de esconder com Lila?
– Esquece.
– Serge, você precisa se livrar dessa dona, ela está fundindo sua cuca.
– Ela aponta meus lápis.
– Serge, ela é jovem demais pra você.
– Tem trinta anos.
– E você sessenta. São trinta anos.
– Trinta anos é demais?
– Claro.
– E vinte? – perguntou Serge, olhando para Arlene.
– Vinte anos é aceitável. Trinta anos é obsceno.
– Por que vocês dois não arranjam mulheres da sua idade? – perguntou Arlene.
Os dois olharam-na.
– Ela gosta de fazer piadinhas – disse Jorg.
– É – disse Serge –, é engraçada. Vamos lá, escuta, eu mostro a vocês o que estou fazendo.
Seguiram-no até o quarto. Ele tirou os sapatos e estendeu-se na cama.
– Estão vendo? É assim, olha. Todos os confortos. – Serge amarrara os pincéis em longos cabos e pintava numa tela presa ao teto. – É minhas costas. Não posso pintar dez minutos sem parar. Assim, pinto horas.
– Quem mistura suas tintas?
– Lila. Eu digo a ela: “Mergulhe no azul. Agora um pouco de verde.” Ela é muito boa. Posso acabar deixando os pincéis a ela e ficar por aí lendo revistas.
Então ouviram Lila subindo a escada. Ela abriu a porta, atravessou a sala da frente e entrou no quarto.
– Opa – disse –, vejo que o velho vagabundo tá pintando.
– É... – disse Jorg – diz que você machucou as costas dele.
– Eu não falei nada disso.
– Vamos sair pra comer – disse Arlene.
Serge gemeu e levantou-se.
– Palavra de honra – disse Lila. – Ele só fica por aí deitado como uma rã doente, a maior parte do tempo.
– Preciso de um trago – disse Serge. – Aí volto à forma.
Desceram juntos para a rua e foram a The Sheep’s Tick. Dois rapazes em meados da casa dos vinte se aproximaram. Usavam suéteres de gola rolê.
– Oi, vocês são os pintores Jorg Swenson e Serge Maro!
– Sai da frente, porra! – disse Serge.
Jorg brandiu sua bengala de marfim. Atingiu o mais jovem dos rapazes bem no joelho.
– Merda – disse o rapaz –, me quebrou a perna!
– Espero – disse Jorg. – Talvez você aprenda um pouco de boas maneiras!
Seguiram para The Sheep’s Tick. Quando entraram, subiu um zunzum dos comensais. O chefe dos garçons acorreu imediatamente, curvando-se e acenando com menus e falando coisas lisonjeiras em italiano, francês e russo.
– Veja esses pelos negros, compridos, nas narinas dele – disse Serge. – Realmente nojento.
– É – disse Jorg, e gritou para o garçom: – ESCONDA O NARIZ!
– Cinco garrafas de seu melhor vinho! – berrou Serge, enquanto se sentavam à melhor mesa.
O chefe dos garçons desapareceu.
– Vocês dois são dois babacas – disse Lila.
Jorg correu a mão pela perna dela acima.
– Dois imortais vivos têm direito a algumas indiscrições.
– Tira a mão de minha xoxota, Jorg.
– A xoxota não é sua, é de Serge.
– Tira a mão da xoxota de Serge, senão eu grito.
– Minha vontade é fraca.
Ela gritou. Jorg tirou a mão. O chefe dos garçons aproximou-se com o carrinho contendo um balde de vinho. Rolou as garrafas no gelo, curvou-se e tirou uma rolha. Encheu a taça de Jorg. Jorg esvaziou-a.
– É merda – disse –, mas tudo bem. Abra as garrafas!
– Todas?
– Todas, seu babaca, e depressa com isso!
– É um trapalhão – disse Jorg. – Olha só pra ele. Vamos jantar?
– Jantar? – disse Arlene. – Vocês só fazem beber. Acho que nunca vi nenhum dos dois comer mais que um ovo mole.
– Suma de minha vista, covarde – disse Serge ao garçom.
O chefe dos garçons sumiu.
– Vocês não deviam falar assim com os outros – disse Lila.
– Pagamos nossas contas – disse Serge.
– Não têm o direito – disse Arlene.
– Acho que não – disse Jorg –, mas é interessante.
– Os outros não têm de aceitar essa merda – disse Lila.
– Os outros aceitam o que têm de aceitar – disse Jorg. – Aceitam muito pior.
– Só o que eles querem são os quadros de vocês – disse Arlene.
– Nós somos nossos quadros – disse Serge.
– As mulheres são idiotas – disse Jorg.
– Cuidado – disse Serge. – Também são capazes de terríveis atos de vingança...
Ficaram umas duas horas tomando vinho.
– O homem é menos delicado que o gafanhoto – disse Jorg por fim.
– O homem é a cloaca do universo – disse Serge.
– Vocês são dois babacas mesmo – disse Lila.
– Claro que são – disse Arlene.
– Vamos trocar esta noite – disse Jorg. – Eu fodo sua xoxota e você fode a minha.
– Ah, não – disse Arlene – nada disso.
– E isso aí – disse Lila.
– Estou com vontade de pintar – disse Jorg. – Estou chateado de beber.
– Eu também estou com vontade de pintar – disse Serge.
– Vamos dar o fora daqui – disse Jorg.
– Escuta – disse Lila –, ainda não pagaram a conta.
– Conta? – berrou Serge. – Você não acha que a gente vai pagar por essa merda?
– Vamos – disse Jorg.
Quando se levantavam, surgiu o chefe dos garçons com a conta.
– Essa merda fede – berrou Serge, dando saltos. – Eu jamais pediria a ninguém que pagasse por uma coisa dessas! Quero que você saiba que a prova está no mijo!
Serge agarrou uma meia garrafa de vinho, abriu à força a camisa do garçom e despejou o vinho no peito. Jorg mantinha a bengala como uma espada. O chefe dos garçons parecia confuso. Era um belo rapaz com unhas compridas e um caro apartamento. Estudava química e certa vez ganhara o segundo prêmio num concurso de ópera. Jorg brandiu a bengala e atingiu o garçom, com força, pouco abaixo da orelha esquerda. O garçom ficou muito pálido e oscilou. Jorg atingiu-o mais três vezes no mesmo lugar, e ele desabou.
Saíram juntos, Serge, Jorg, Lila e Arlene. Estavam todos bêbados, mas tinham um certo porte, uma coisa singular. Saíram pela porta e alcançaram a rua.
Um jovem casal sentado a uma mesa próxima tinha visto tudo. O rapaz parecia inteligente, só uma grande bolota de carne perto da ponta do nariz estragava esse efeito. A garota era gorda mas linda, num vestido azul-escuro. Um dia quisera ser freira.
– Eles não foram magníficos? – perguntou o rapaz.
– Foram babacas – disse a garota.
O rapaz acenou pedindo uma terceira garrafa de vinho. Ia ser outra noite difícil.
– Numa fria
1 248
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Menos Delicado Que Os Gafanhotos

– Bolas – ele disse. – Estou cansado de pintar. Vamos sair. Estou cheio desse fedor de tinta, estou cansado de ser grande. Estou cansado de esperar pela morte. Vamos sair.
– Sair pra onde? – ela perguntou.
– Pra qualquer lugar. Comer, beber, ver.
– Jorg – ela disse –, que é que eu vou fazer quando você morrer?
– Vai comer, dormir, foder, mijar, se vestir, andar por aí e encher o saco dos outros.
– Eu preciso de segurança.
– Todos nós.
– Quer dizer, não somos casados. Eu não vou poder nem receber o seu seguro.
– Tá tudo bem, não esquenta com isso. Além do mais, você não acredita em casamento, Arlene.
Arlene sentava-se na poltrona cor-de-rosa lendo o jornal da tarde.
– Você diz que cinco mil mulheres querem dormir com você. Onde é que eu fico?
– Cinco mil e uma.
– Acha que eu não consigo outro homem?
– Não, pra você não tem problema. Pode arranjar outro homem em três minutos.
– Acha que eu preciso de um grande pintor?
– Não precisa, não. Um bom bombeiro serve.
– É, desde que ele me ame.
– Claro. Ponha o casaco. Vamos sair.
Desceram a escada do sótão. Para todos os lados, quartos baratos, entupidos de baratas, mas ninguém parecia passar fome: pareciam viver cozinhando coisas em panelões e sentados por toda parte, fumando, limpando as unhas, bebendo latas de cerveja ou dividindo uma comprida garrafa azul de vinho branco, gritando ou rindo uns com os outros, ou peidando, arrotando ou dormindo diante da TV. Não havia muita gente com dinheiro no mundo, mas quanto menos dinheiro tinham melhor pareciam viver. Só precisavam de sono, lençóis limpos, comida, bebida e pomada para hemorroidas. E sempre deixavam os quartos um pouco abertos.
– Idiotas – disse Jorg, quando desciam a escada –, passam a vida fofocando e enchendo a minha vida.
– Oh, Jorg – suspirou Arlene. – Você simplesmente não gosta das pessoas, gosta?
Jorg ergueu uma sobrancelha para ela, mas não respondeu. A reação de Arlene ao que ele sentia pelas massas era sempre a mesma – como se não amar as pessoas fosse algo que revelasse uma imperdoável deficiência espiritual. Mas ela era uma foda excelente e uma companhia agradável – a maior parte do tempo.
Chegaram ao boulevard e seguiram andando, Jorg com a barba vermelha e branca, os dentes amarelos podres e o mau hálito, as orelhas roxas, os olhos assustados, o casaco fedorento rasgado e a bengala branca de marfim. Sentia-se melhor quando estava pior.
– Merda – disse –, tudo morre cagando.
Arlene rebolava o rabo, não fazendo segredo dele, Jorg batia na calçada com a bengala, e até o sol olhava lá de cima e dizia Ô-hô! Chegaram finalmente ao velho prédio miserável onde morava Serge. Jorg e Serge vinham ambos pintando há anos, mas só recentemente tinham vendido suas obras por mais que peidos de porco. Tinham passado fome juntos, agora se tornavam famosos separados. Jorg e Arlene entraram no hotel e subiram a escada. O cheiro de iodo e fritura de frango enchia os corredores. Num quarto, alguém fodia sem fazer segredo disso. Eles subiram até o sótão e Arlene bateu. Abriu-se a porta, e lá estava Serge.
– Tchan-tchan! – ele disse. E corou. – Oh, desculpem... entrem.
– Que diabos deu em você? – perguntou Jorg.
– Senta aí. Pensei que fosse Lila...
– Você brinca de esconder com Lila?
– Esquece.
– Serge, você precisa se livrar dessa dona, ela está fundindo sua cuca.
– Ela aponta meus lápis.
– Serge, ela é jovem demais pra você.
– Tem trinta anos.
– E você sessenta. São trinta anos.
– Trinta anos é demais?
– Claro.
– E vinte? – perguntou Serge, olhando para Arlene.
– Vinte anos é aceitável. Trinta anos é obsceno.
– Por que vocês dois não arranjam mulheres da sua idade? – perguntou Arlene.
Os dois olharam-na.
– Ela gosta de fazer piadinhas – disse Jorg.
– É – disse Serge –, é engraçada. Vamos lá, escuta, eu mostro a vocês o que estou fazendo.
Seguiram-no até o quarto. Ele tirou os sapatos e estendeu-se na cama.
– Estão vendo? É assim, olha. Todos os confortos. – Serge amarrara os pincéis em longos cabos e pintava numa tela presa ao teto. – É minhas costas. Não posso pintar dez minutos sem parar. Assim, pinto horas.
– Quem mistura suas tintas?
– Lila. Eu digo a ela: “Mergulhe no azul. Agora um pouco de verde.” Ela é muito boa. Posso acabar deixando os pincéis a ela e ficar por aí lendo revistas.
Então ouviram Lila subindo a escada. Ela abriu a porta, atravessou a sala da frente e entrou no quarto.
– Opa – disse –, vejo que o velho vagabundo tá pintando.
– É... – disse Jorg – diz que você machucou as costas dele.
– Eu não falei nada disso.
– Vamos sair pra comer – disse Arlene.
Serge gemeu e levantou-se.
– Palavra de honra – disse Lila. – Ele só fica por aí deitado como uma rã doente, a maior parte do tempo.
– Preciso de um trago – disse Serge. – Aí volto à forma.
Desceram juntos para a rua e foram a The Sheep’s Tick. Dois rapazes em meados da casa dos vinte se aproximaram. Usavam suéteres de gola rolê.
– Oi, vocês são os pintores Jorg Swenson e Serge Maro!
– Sai da frente, porra! – disse Serge.
Jorg brandiu sua bengala de marfim. Atingiu o mais jovem dos rapazes bem no joelho.
– Merda – disse o rapaz –, me quebrou a perna!
– Espero – disse Jorg. – Talvez você aprenda um pouco de boas maneiras!
Seguiram para The Sheep’s Tick. Quando entraram, subiu um zunzum dos comensais. O chefe dos garçons acorreu imediatamente, curvando-se e acenando com menus e falando coisas lisonjeiras em italiano, francês e russo.
– Veja esses pelos negros, compridos, nas narinas dele – disse Serge. – Realmente nojento.
– É – disse Jorg, e gritou para o garçom: – ESCONDA O NARIZ!
– Cinco garrafas de seu melhor vinho! – berrou Serge, enquanto se sentavam à melhor mesa.
O chefe dos garçons desapareceu.
– Vocês dois são dois babacas – disse Lila.
Jorg correu a mão pela perna dela acima.
– Dois imortais vivos têm direito a algumas indiscrições.
– Tira a mão de minha xoxota, Jorg.
– A xoxota não é sua, é de Serge.
– Tira a mão da xoxota de Serge, senão eu grito.
– Minha vontade é fraca.
Ela gritou. Jorg tirou a mão. O chefe dos garçons aproximou-se com o carrinho contendo um balde de vinho. Rolou as garrafas no gelo, curvou-se e tirou uma rolha. Encheu a taça de Jorg. Jorg esvaziou-a.
– É merda – disse –, mas tudo bem. Abra as garrafas!
– Todas?
– Todas, seu babaca, e depressa com isso!
– É um trapalhão – disse Jorg. – Olha só pra ele. Vamos jantar?
– Jantar? – disse Arlene. – Vocês só fazem beber. Acho que nunca vi nenhum dos dois comer mais que um ovo mole.
– Suma de minha vista, covarde – disse Serge ao garçom.
O chefe dos garçons sumiu.
– Vocês não deviam falar assim com os outros – disse Lila.
– Pagamos nossas contas – disse Serge.
– Não têm o direito – disse Arlene.
– Acho que não – disse Jorg –, mas é interessante.
– Os outros não têm de aceitar essa merda – disse Lila.
– Os outros aceitam o que têm de aceitar – disse Jorg. – Aceitam muito pior.
– Só o que eles querem são os quadros de vocês – disse Arlene.
– Nós somos nossos quadros – disse Serge.
– As mulheres são idiotas – disse Jorg.
– Cuidado – disse Serge. – Também são capazes de terríveis atos de vingança...
Ficaram umas duas horas tomando vinho.
– O homem é menos delicado que o gafanhoto – disse Jorg por fim.
– O homem é a cloaca do universo – disse Serge.
– Vocês são dois babacas mesmo – disse Lila.
– Claro que são – disse Arlene.
– Vamos trocar esta noite – disse Jorg. – Eu fodo sua xoxota e você fode a minha.
– Ah, não – disse Arlene – nada disso.
– E isso aí – disse Lila.
– Estou com vontade de pintar – disse Jorg. – Estou chateado de beber.
– Eu também estou com vontade de pintar – disse Serge.
– Vamos dar o fora daqui – disse Jorg.
– Escuta – disse Lila –, ainda não pagaram a conta.
– Conta? – berrou Serge. – Você não acha que a gente vai pagar por essa merda?
– Vamos – disse Jorg.
Quando se levantavam, surgiu o chefe dos garçons com a conta.
– Essa merda fede – berrou Serge, dando saltos. – Eu jamais pediria a ninguém que pagasse por uma coisa dessas! Quero que você saiba que a prova está no mijo!
Serge agarrou uma meia garrafa de vinho, abriu à força a camisa do garçom e despejou o vinho no peito. Jorg mantinha a bengala como uma espada. O chefe dos garçons parecia confuso. Era um belo rapaz com unhas compridas e um caro apartamento. Estudava química e certa vez ganhara o segundo prêmio num concurso de ópera. Jorg brandiu a bengala e atingiu o garçom, com força, pouco abaixo da orelha esquerda. O garçom ficou muito pálido e oscilou. Jorg atingiu-o mais três vezes no mesmo lugar, e ele desabou.
Saíram juntos, Serge, Jorg, Lila e Arlene. Estavam todos bêbados, mas tinham um certo porte, uma coisa singular. Saíram pela porta e alcançaram a rua.
Um jovem casal sentado a uma mesa próxima tinha visto tudo. O rapaz parecia inteligente, só uma grande bolota de carne perto da ponta do nariz estragava esse efeito. A garota era gorda mas linda, num vestido azul-escuro. Um dia quisera ser freira.
– Eles não foram magníficos? – perguntou o rapaz.
– Foram babacas – disse a garota.
O rapaz acenou pedindo uma terceira garrafa de vinho. Ia ser outra noite difícil.
– Numa fria
1 248
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Você Não Consegue Escrever Uma História de Amor

Margie ia sair com um sujeito, mas, no caminho, esse sujeito encontrou com outro que vestia um casaco de couro e o sujeito com casaco de couro abriu o casaco de couro e mostrou as tetas e o outro sujeito foi até a casa de Margie e disse que não poderia mais ir ao encontro, porque esse sujeito, vestindo um casaco de couro, havia lhe mostrado as tetas e ele iria trepar com esse sujeito. Então Margie foi até a casa de Carl. Carl estava em casa e ela se sentou e disse para Carl:
– Um sujeito ia me levar para um café com mesas na calçada e íamos beber vinho e conversar, só beber vinho e conversar, só isso, nada mais, mas, no caminho para me encontrar, esse sujeito encontrou outro com um casaco de couro e o sujeito com casaco de couro lhe mostrou as tetas e agora esse sujeito vai trepar com o sujeito com casaco de couro e eu fico sem minha mesa e meu vinho e minha conversa.
– Não consigo escrever – disse Carl. – Acabou-se.
Então ele se levantou e foi até o banheiro, fechou a porta e deu uma cagada. Carl cagava quatro ou cinco vezes por dia. Não havia mais nada a fazer. Ele tomava cinco ou seis banhos por dia. Não havia mais nada a fazer. Ficava bêbado pela mesma razão.
Margie ouviu a descarga da privada. Então Carl saiu do banheiro.
– Um homem simplesmente não consegue escrever oito horas por dia. Nem mesmo consegue escrever todo dia ou toda semana. É uma situação péssima. Não há nada a fazer além de esperar.
Carl foi até a geladeira e voltou com um pacote de seis garrafas de cerveja Michelob. Abriu uma garrafa.
– Sou o maior escritor do mundo – ele disse. – Você sabe como isso é difícil?
Margie não respondeu.
– Posso sentir a dor rastejando por todo o meu corpo. É como uma segunda pele. Queria poder me livrar dessa pele como uma cobra.
– Bem, por que você não se deita no tapete e tenta?
– Escute – ele perguntou –, onde foi que a conheci?
– Na Bodega do Barney.
– Bem, isso explica um pouco as coisas. Beba uma cerveja.
Carl abriu uma garrafa e lhe entregou.
– É... – disse Margie – eu sei. Você precisa do seu isolamento. Você precisa ficar sozinho. Exceto quando quer trepar, ou exceto quando nos separamos, então você me liga. Diz que precisa de mim. Diz que está morrendo por causa de uma ressaca. Você enfraquece rápido.
– Enfraqueço rápido.
– E fica tão inerte quando estou por perto, nunca se excita. Vocês escritores são tão... preciosos... não suportam pessoas. A humanidade fede, certo?
– Certo.
– Mas toda vez que nos separamos você começa a fazer festas gigantes que duram quatro dias. E de repente você acorda, começa a FALAR! De repente fica cheio de vida, falando, dançando, cantando, dança em cima da mesa de café, joga garrafas pela janela, encena trechos de Shakespeare. De repente, você está vivo... quando estou longe. Ah, fiquei sabendo de tudo!
– Não faço festas. Odeio ainda mais as pessoas nas festas.
– Para um sujeito que não gosta de festas, certamente você organiza um bocado delas.
– Escute, Margie, você não entende. Não consigo mais escrever. Estou acabado. Em algum lugar tomei uma trajetória errada. Em algum momento, morri durante a noite.
– O único jeito de você morrer é numa dessas suas ressacas gigantescas.
– Jeffers diz que até mesmo o mais forte dos homens fica encurralado.
– Quem foi Jeffers?
– Foi o sujeito que transformou Big Sur numa armadilha para turistas.
– O que você ia fazer essa noite?
– Ia ouvir as músicas de Rachmaninoff.
– Quem é?
– Um russo que já morreu.
– Olha para você. Fica aí sentado.
– Estou esperando. Alguns sujeitos esperam por dois anos. Às vezes a coisa nunca volta.
– E se nunca voltar?
– Apenas calçarei meus sapatos e descerei até a rua principal.
– Por que não arranja um emprego decente?
– Não existem empregos decentes. Se um escritor não consegue sucesso através da criação, está morto.
– Ah, para com isso, Carl! Existem bilhões de pessoas no mundo que não atingem o sucesso pela criação. Quer me dizer que elas estão mortas?
– Sim.
– E você tem uma alma? Você é um dos poucos que tem uma alma?
– Diria que sim.
– Diria que sim! Você e a sua maquininha de escrever! Você e os seus cheques mirrados! Minha avó ganha mais dinheiro do que você!
Carl abriu outra garrafa de cerveja.
– Cerveja! Cerveja! Você e a porra da sua cerveja! Isso está nas suas histórias também. “Marty ergueu sua cerveja. Quando levantou os olhos, uma tremenda loira entrou no bar e sentou ao seu lado...” Você está certo. Está acabado. Seu material é limitado, muito limitado. Você não consegue escrever uma história decente de amor.
– Você está certa, Margie.
– Se um homem não consegue escrever uma história de amor, ele é um inútil.
– Quantas você já escreveu?
– Não digo que sou uma escritora.
– Mas – disse Carl – você parece posar como uma crítica literária infernal.
Margie, depois disso, foi logo embora. Carl ficou sentado e bebeu o resto das cervejas. Era verdade, a escrita o havia deixado. Isso deixaria algum de seus inimigos do subsolo felizes. Eles poderiam aumentar em um tento a marca dos inimigos abatidos. A morte os agradava, em cima ou embaixo da terra. Lembrou-se de Endicott, Endicott sentado, dizendo:
– Bem, Hemingway se foi, Dos Passos se foi, Patchen se foi, Pound se foi, Berryman pulou daquela ponte... as coisas estão parecendo cada vez melhores.
O telefone tocou. Carl atendeu.
– Sr. Gantling?
– Sim – ele respondeu.
– Gostaríamos de saber se você estaria interessado em uma leitura de algum dos seus trabalhos na Faculdade Fairmount.
– Bem, sim, qual a data?
– No dia 30 do próximo mês.
– Acho que não tenho nada marcado para esse dia.
– Nosso pagamento geralmente é de cem dólares.
– Geralmente recebo 150. Ginsberg ganha mil.
– Mas ele é Ginsberg. Podemos oferecer apenas cem.
– Tudo bem.
– Bom, sr. Gantling. Enviaremos os detalhes para você.
– E o transporte? Dirigir até aí não é pouca coisa.
– Ok, 25 dólares pela viagem.
– Ok.
– Gostaria de falar com os estudantes em suas classes?
– Não.
– Oferecemos um almoço grátis.
– Vou aceitar o almoço.
– Bom, sr. Gantling, estaremos esperando para vê-lo em nosso campus.
– Nos falamos.
Carl foi até o quarto. Olhou para a máquina de escrever. Colocou uma folha de papel no rolo, então observou uma garota com uma minissaia surpreendentemente curta cruzar pela frente de sua janela. Depois começou a escrever:
“Margie ia sair com um sujeito, mas, no caminho, esse sujeito encontrou com outro que vestia um casaco de couro e o sujeito com casaco de couro abriu o casaco de couro e mostrou as tetas e o outro sujeito foi até a casa de Margie e disse que não poderia mais ir ao encontro, porque esse sujeito, vestindo um casaco de couro, havia lhe mostrado as tetas...”
Carl ergueu sua cerveja. Era bom voltar a escrever.
– Ao sul de lugar nenhum
1 299
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Você Não Consegue Escrever Uma História de Amor

Margie ia sair com um sujeito, mas, no caminho, esse sujeito encontrou com outro que vestia um casaco de couro e o sujeito com casaco de couro abriu o casaco de couro e mostrou as tetas e o outro sujeito foi até a casa de Margie e disse que não poderia mais ir ao encontro, porque esse sujeito, vestindo um casaco de couro, havia lhe mostrado as tetas e ele iria trepar com esse sujeito. Então Margie foi até a casa de Carl. Carl estava em casa e ela se sentou e disse para Carl:
– Um sujeito ia me levar para um café com mesas na calçada e íamos beber vinho e conversar, só beber vinho e conversar, só isso, nada mais, mas, no caminho para me encontrar, esse sujeito encontrou outro com um casaco de couro e o sujeito com casaco de couro lhe mostrou as tetas e agora esse sujeito vai trepar com o sujeito com casaco de couro e eu fico sem minha mesa e meu vinho e minha conversa.
– Não consigo escrever – disse Carl. – Acabou-se.
Então ele se levantou e foi até o banheiro, fechou a porta e deu uma cagada. Carl cagava quatro ou cinco vezes por dia. Não havia mais nada a fazer. Ele tomava cinco ou seis banhos por dia. Não havia mais nada a fazer. Ficava bêbado pela mesma razão.
Margie ouviu a descarga da privada. Então Carl saiu do banheiro.
– Um homem simplesmente não consegue escrever oito horas por dia. Nem mesmo consegue escrever todo dia ou toda semana. É uma situação péssima. Não há nada a fazer além de esperar.
Carl foi até a geladeira e voltou com um pacote de seis garrafas de cerveja Michelob. Abriu uma garrafa.
– Sou o maior escritor do mundo – ele disse. – Você sabe como isso é difícil?
Margie não respondeu.
– Posso sentir a dor rastejando por todo o meu corpo. É como uma segunda pele. Queria poder me livrar dessa pele como uma cobra.
– Bem, por que você não se deita no tapete e tenta?
– Escute – ele perguntou –, onde foi que a conheci?
– Na Bodega do Barney.
– Bem, isso explica um pouco as coisas. Beba uma cerveja.
Carl abriu uma garrafa e lhe entregou.
– É... – disse Margie – eu sei. Você precisa do seu isolamento. Você precisa ficar sozinho. Exceto quando quer trepar, ou exceto quando nos separamos, então você me liga. Diz que precisa de mim. Diz que está morrendo por causa de uma ressaca. Você enfraquece rápido.
– Enfraqueço rápido.
– E fica tão inerte quando estou por perto, nunca se excita. Vocês escritores são tão... preciosos... não suportam pessoas. A humanidade fede, certo?
– Certo.
– Mas toda vez que nos separamos você começa a fazer festas gigantes que duram quatro dias. E de repente você acorda, começa a FALAR! De repente fica cheio de vida, falando, dançando, cantando, dança em cima da mesa de café, joga garrafas pela janela, encena trechos de Shakespeare. De repente, você está vivo... quando estou longe. Ah, fiquei sabendo de tudo!
– Não faço festas. Odeio ainda mais as pessoas nas festas.
– Para um sujeito que não gosta de festas, certamente você organiza um bocado delas.
– Escute, Margie, você não entende. Não consigo mais escrever. Estou acabado. Em algum lugar tomei uma trajetória errada. Em algum momento, morri durante a noite.
– O único jeito de você morrer é numa dessas suas ressacas gigantescas.
– Jeffers diz que até mesmo o mais forte dos homens fica encurralado.
– Quem foi Jeffers?
– Foi o sujeito que transformou Big Sur numa armadilha para turistas.
– O que você ia fazer essa noite?
– Ia ouvir as músicas de Rachmaninoff.
– Quem é?
– Um russo que já morreu.
– Olha para você. Fica aí sentado.
– Estou esperando. Alguns sujeitos esperam por dois anos. Às vezes a coisa nunca volta.
– E se nunca voltar?
– Apenas calçarei meus sapatos e descerei até a rua principal.
– Por que não arranja um emprego decente?
– Não existem empregos decentes. Se um escritor não consegue sucesso através da criação, está morto.
– Ah, para com isso, Carl! Existem bilhões de pessoas no mundo que não atingem o sucesso pela criação. Quer me dizer que elas estão mortas?
– Sim.
– E você tem uma alma? Você é um dos poucos que tem uma alma?
– Diria que sim.
– Diria que sim! Você e a sua maquininha de escrever! Você e os seus cheques mirrados! Minha avó ganha mais dinheiro do que você!
Carl abriu outra garrafa de cerveja.
– Cerveja! Cerveja! Você e a porra da sua cerveja! Isso está nas suas histórias também. “Marty ergueu sua cerveja. Quando levantou os olhos, uma tremenda loira entrou no bar e sentou ao seu lado...” Você está certo. Está acabado. Seu material é limitado, muito limitado. Você não consegue escrever uma história decente de amor.
– Você está certa, Margie.
– Se um homem não consegue escrever uma história de amor, ele é um inútil.
– Quantas você já escreveu?
– Não digo que sou uma escritora.
– Mas – disse Carl – você parece posar como uma crítica literária infernal.
Margie, depois disso, foi logo embora. Carl ficou sentado e bebeu o resto das cervejas. Era verdade, a escrita o havia deixado. Isso deixaria algum de seus inimigos do subsolo felizes. Eles poderiam aumentar em um tento a marca dos inimigos abatidos. A morte os agradava, em cima ou embaixo da terra. Lembrou-se de Endicott, Endicott sentado, dizendo:
– Bem, Hemingway se foi, Dos Passos se foi, Patchen se foi, Pound se foi, Berryman pulou daquela ponte... as coisas estão parecendo cada vez melhores.
O telefone tocou. Carl atendeu.
– Sr. Gantling?
– Sim – ele respondeu.
– Gostaríamos de saber se você estaria interessado em uma leitura de algum dos seus trabalhos na Faculdade Fairmount.
– Bem, sim, qual a data?
– No dia 30 do próximo mês.
– Acho que não tenho nada marcado para esse dia.
– Nosso pagamento geralmente é de cem dólares.
– Geralmente recebo 150. Ginsberg ganha mil.
– Mas ele é Ginsberg. Podemos oferecer apenas cem.
– Tudo bem.
– Bom, sr. Gantling. Enviaremos os detalhes para você.
– E o transporte? Dirigir até aí não é pouca coisa.
– Ok, 25 dólares pela viagem.
– Ok.
– Gostaria de falar com os estudantes em suas classes?
– Não.
– Oferecemos um almoço grátis.
– Vou aceitar o almoço.
– Bom, sr. Gantling, estaremos esperando para vê-lo em nosso campus.
– Nos falamos.
Carl foi até o quarto. Olhou para a máquina de escrever. Colocou uma folha de papel no rolo, então observou uma garota com uma minissaia surpreendentemente curta cruzar pela frente de sua janela. Depois começou a escrever:
“Margie ia sair com um sujeito, mas, no caminho, esse sujeito encontrou com outro que vestia um casaco de couro e o sujeito com casaco de couro abriu o casaco de couro e mostrou as tetas e o outro sujeito foi até a casa de Margie e disse que não poderia mais ir ao encontro, porque esse sujeito, vestindo um casaco de couro, havia lhe mostrado as tetas...”
Carl ergueu sua cerveja. Era bom voltar a escrever.
– Ao sul de lugar nenhum
1 299
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Saboreio As Cinzas de Tua Morte

as florações espargem
água inesperada
pela manga da minha camisa,
água inesperada
fresca e pura
como neve –
enquanto espadas
afiadas como talos
penetram
em seu peito
e as doces e selvagens
pedras
caem sobre nós
e
nos encerram.

Foi quando desenvolvi um novo sistema para usar no hipódromo. Eu tinha arrumado três mil dólares em um mês e meio, indo às corridas apenas duas ou três vezes por semana. Comecei a sonhar. Vi uma casinha à beira-mar. Vi-me vestido com roupas caras, calmo, levantando de manhã, entrando em meu carro importado, dirigindo com suavidade na saída da garagem. Vi jantares prazerosos com belos filés, precedidos e sucedidos por deliciosos drinques gelados em copos coloridos. A bela gorjeta. O charuto. E mulheres a mancheias. É fácil se deixar levar por esse tipo de pensamento quando os homens lhe entregam notas graúdas no guichê das apostas. Quando numa corrida de 1.200 m, que leva, digamos, um minuto e nove segundos, você ganha o equivalente a um mês de salário.
Então ali estava eu, de pé no escritório do superintendente. Lá estava ele atrás de sua mesa. Eu tinha um charuto na boca e uísque no meu hálito. Sentia-me endinheirado. Eu parecia endinheirado.
– Sr. Winters – eu disse –, os Correios sempre me trataram bem. Mas há interesses externos que simplesmente exigem minha atenção. Se o senhor não puder me dar uma licença, serei obrigado a me demitir.
– Já não lhe dei uma licença no início do ano, Chinaski?
– Não, sr. Winters, o senhor rejeitou o meu pedido de licença. Desta vez isto não será possível. Ou a licença ou a demissão.
– Tudo bem, preencha o formulário e eu o assinarei. Mas só posso lhe dar noventa dias de dispensa.
– Aceito – eu disse, exalando uma longa coluna de fumaça azul de meu charuto caro.
– Cartas na rua
1 103
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Sandra

é a alta e magra
donzela do quarto
de brincos
coberta por um longo
vestido
está sempre alta
em sapatos de salto
espírito
boletas
trago
Sandra se inclina
em sua cadeira
inclina-se em direção a
Glendale
aguardo que sua cabeça
bata na maçaneta
do guarda-roupa
enquanto ela tenta
acender
um novo cigarro num
outro já quase
consumido
aos 32 ela gosta de
jovens limpos
imaculados
com rostos semelhantes ao fundo
de pires recém-comprados
depois de se vangloriar
a não mais poder
acabou me trazendo seus prêmios
para que eu desse uma olhada:
garotos nulos, loiros e silenciosos
que
a) sentam
b) levantam
c) falam
ao seu comando
às vezes ela traz um
às vezes dois
às vezes três
para que eu os
veja
Sandra fica muito bem em
vestidos longos
Sandra pode partir provavelmente
o coração de um homem
espero que ela encontre
um.

Comecei a receber cartas de uma garota de Nova York. Seu nome era Mindy. Ela havia encontrado alguns dos meus livros por acaso, mas o melhor a respeito de suas cartas era que ela raramente mencionava algo sobre escrita exceto para dizer que ela não era uma escritora. Escrevia sobre as mais variadas coisas e sobre homens e sobre sexo em particular. Mindy tinha 25, escrevia à mão, e sua caligrafia era estável, sensível, com uma pitada de humor. Eu respondia suas cartas e era sempre uma alegria encontrar uma das dela na minha caixa de correio. Muitas pessoas dizem as coisas bem melhor em cartas do que em conversas, e algumas pessoas conseguem escrever cartas criativas, artísticas, mas quando tentam um poema, um conto ou um romance, tornam-se pretensiosas.
Então Mindy mandou algumas fotografias. Caso se pudesse confiar em sua veracidade, ela era bem bonita. Escrevemo-nos por mais algumas semanas e então ela mencionou que em breve tiraria duas semanas de férias.
– Por que você não pega um avião até aqui? – sugeri.
– Tudo bem – ela respondeu.
Começamos a nos telefonar. Por fim ela me deu a data de chegada de seu voo no L.A. International.
– Estarei lá – disse a ela –, nada poderá me impedir.
Sentei-me no aeroporto e esperei. Nunca se pode ter certeza com esse negócio de fotos. Não há garantias. Sentia-me prestes a vomitar. Acendi um cigarro e me veio um engulho. Por que eu fazia essas coisas? Não a queria mais agora. E Mindy voava de Nova York para cá. Eu conhecia um número grande de mulheres. Por que esse negócio de mais e mais mulheres? O que eu estava tentando fazer? Casos novos são excitantes, mas também dão um trabalho dos diabos. O primeiro beijo, a primeira foda sempre são um pouco dramáticos. As pessoas eram interessantes no início. Então mais tarde, devagar mas inevitavelmente, todas as imperfeições e as demências começariam a se manifestar. Eu seria então cada vez menos interessante para elas; e elas se tornariam cada vez menos importantes para mim.
Eu era velho e feio. Talvez por isso fosse tão bom meter nessas jovens garotas. Eu era o King Kong e elas flexíveis e macias. Será que eu estava tentando enganar a morte? Ficando com essas jovens eu tinha esperanças de não envelhecer, não me sentir um caco? Eu só não queria envelhecer sem dignidade, simplesmente desistir, estar morto antes da morte chegar.
O avião de Mindy pousou e começou a taxiar. Senti que estava a perigo. As mulheres me conheciam de antemão, pois haviam lido meus livros. Eu já havia me exposto. Por outro lado, eu não sabia nada delas. Eu era o verdadeiro jogador. Eu podia ser morto, ter minhas bolas cortadas. Chinaski castrado. Poemas de amor de um eunuco.
Fiquei esperando por Mindy. Os passageiros saíram pelo portão.
Oh, tomara que não seja aquela.
Ou aquela.
Especialmente aquela outra.
Bem, aquela ali estaria bem! Veja que pernas, que rabo, e esses olhos...
Uma delas veio em minha direção. Torci para que fosse ela. Era a melhor de todo o grupo. Eu não podia ter tanta sorte. Ela se aproximou e sorriu:
– Eu sou a Mindy.
– Estou feliz que você seja a Mindy.
– Estou feliz que você seja o Chinaski.
– Você precisa pegar alguma bagagem?
– Sim, trouxe o suficiente para uma longa estada!
– Vamos esperar no bar.
Entramos e encontramos uma mesa. Mindy pediu uma vodca com tônica. Pedi uma vodca-7.[14] Ah, quase em perfeita harmonia. Acendi-lhe o cigarro. Ela tinha uma ótima aparência, quase virginal. Era difícil de acreditar. Era baixinha, loira e perfeita de corpo. Era mais natural do que sofisticada. Era fácil olhá-la nos olhos, de um azul-esverdeado. Usava dois brincos pequenos. E usava sapatos de salto. Havia dito a Mindy que saltos altos me excitavam.
– Bem – ela disse –, você está assustado?
– Agora nem tanto. Gosto de você.
– Você é bem melhor pessoalmente do que nas fotos – ela disse. – Não acho você nem um pouco feio.
– Obrigado.
– Oh, não quis dizer que você é bonito, não no sentido que as pessoas dão pro termo. Seu rosto parece comum. Mas seus olhos... eles são lindos. São selvagens, loucos, como os olhos de um animal surgindo de uma floresta em chamas. Deus, alguma coisa desse tipo. Não sou muito boa com as palavras.
– Acho que você é linda – eu disse. – E muito gentil. É bom estar perto de você. Estou feliz de estarmos juntos. Beba. Precisamos de mais bebida. Você é como suas cartas.
Tomamos a segunda rodada e fomos buscar sua bagagem. Orgulhava-me estar ao lado de Mindy. Ela caminhava com estilo. Muitas mulheres com belos corpos apenas se arrastavam, como se fossem criaturas sobrecarregadas de peso. Mindy deslizava.
Eu seguia pensando, isso é bom demais. Isso simplesmente não é possível.
– Mulheres
1 239
Charles Bukowski

Charles Bukowski

aula noturna, 20 anos depois

a pressão famélica de ser tarde demais;
teias de agulhas,
as mesmas árvores estão aqui;
e grama crescida sobre a grama
mas os rostos agora são jovens
e enquanto você caminha pelo campus pensando
"memória é uma pobre desculpa para o presente"
as pernas querem deixar que o corpo caia enquanto
velhas imagens grudam em você como moluscos
e as garotas que agora se foram e que antes
pediam por sua substância
agora pendem como cortinas rasgadas
pelas janelas da sua mente;
- houve um tempo aqui
em que tudo era meu -
agora jovens leões reivindicam o território
e olham distraidamente
suas patas frouxas
e resolvem
misericordiosamente
deixar essa pobre presa passar. ele, é claro,
não é páreo para as jovens leoas,
ou a primavera no céu matinal.
uma vez aqui -
uma vez -
eu entro na sala e fico em pé contra a parede
e ouço meu nome ser lido, e
não, não é a mesma coisa:
meu velho professor parecia um leão-marinho
quando escarrava meu nome
na escarradeira do mundo
e eu dizia PRESENTE! enquanto
sentia o sol a escorrer
pelos cabelos da minha cabeça
como fios alimentando vida com vida:
chuva branca, mar bravo;
mas esse novo sussurra meu nome (e está escuro);
e como uma garra pegando algo profundo em mim,
rodeado por paredes como túmulos eu respondo de modo dócil:
presente,
e ele passa para outro nome.
sou mais velho que ele
e certamente não tão afortunado
enquanto as leoas se enrodilham a seus pés e ronronam prazerosamente,
e um velho gato cinza
vira O pescoço
e me pergunta: você já esteve aqui antes?
sim, sim, sim, sim
eu já
estive aqui
antes.
1 321
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Albergue

você não viveu de verdade
até ter estado num
albergue
onde não há nada além de um único
bico de luz
e 56 homens
apertados uns contra os outros
em catres
com todo mundo
roncando
ao mesmo tempo
e alguns desses
roncos
são
tão profundos e
graves e
inacreditáveis –
cavernosos
repulsivos
graves
subumanos
ruídos
vindos do próprio
inferno.
você quase
perde o juízo
submetido a esses
sons que parecem
uma condenação
e os
odores
misturados:
meias
duras e imundas
cuecas
mijadas e
cagadas
e sobre tudo isso
um ar que circula
devagar
que mais parece
a emanação de
lixeiras sem
tampa.
e aqueles
corpos
no escuro
gordos e
magros
e
curvos
alguns
manetas
pernetas
alguns
desmiolados
e o pior de
tudo:
a total
falta de
esperança
que os
amortalha
que os recobre
por completo.
não há como
suportar.
você se
levanta
sai
caminha pelas
ruas
sobe e
desce as
calçadas
passa por prédios
dá a volta na
esquina
e retorna
pela
mesma
rua
pensando
aqueles homens
todos
uma vez foram
crianças
o que aconteceu
com
eles?
e o
que
aconteceu
comigo?
está escuro
e frio
aqui
fora.

Cheguei a Nova Orleans às cinco da manhã, debaixo de chuva. Sentei-me nas proximidades da rodoviária por um tempo, mas as pessoas me deprimiam de tal maneira que peguei minha mala, enfrentei a chuva e comecei a andar. Não sabia onde ficavam as pensões, qual a localização do bairro pobre.
Eu tinha uma mala de papelão que estava se desmanchando. Certa vez tinha sido preta, mas a cobertura havia descascado, expondo o papelão amarelo de que era feita. Eu tentara resolver o problema passando uma cera preta de sapato sobre as partes descobertas. Enquanto caminhava debaixo da chuva, a cera começou a escorrer da mala e, sem eu perceber, foi sujando as duas pernas das minhas calças de preto cada vez que eu mudava a mala de mão.
Bem, era uma nova cidade. Talvez eu tivesse sorte.
A chuva parou e o sol apareceu. Eu estava no bairro negro. Segui caminhando devagar.
– Ei, branquelo sujo!
Coloquei minha mala no chão. Uma mulatona estava sentada nos degraus da varanda, balançando as pernas. Tinha uma boa aparência.
– Olá, branquelo sujo!
Eu não disse nada. Fiquei apenas olhando para ela.
– Está atrás de um bom rabo, branquelo sujo?
Riu na minha cara. Suas pernas estavam cruzadas bem alto e ela mexia um dos pés; tinha ótimas pernas, sapatos de salto, jogava as pernas para lá e para cá e sorria. Recolhi minha mala e comecei a me aproximar dela pela calçada. Ao chegar mais perto, percebi que a cortina da janela ao seu lado havia se mexido um pouco. Vi o rosto de um negro. Ele parecia o Jersey Joe Wolcott.[7] Retornei da passagem para a calçada. Suas risadas me seguiram rua abaixo.
Fiquei em um quarto no segundo andar, de frente para um bar. O bar se chamava Café Gangplank. Do meu quarto eu podia ver através das portas abertas do bar tudo o que acontecia lá dentro. Havia uns rostos ferozes por ali, outros interessantes. Eu ficava no meu quarto à noite, bebia vinho e olhava aqueles rostos no bar enquanto meu dinheiro se esvaía. Durante o dia, eu dava longas e vagarosas caminhadas. Ficava sentado por horas olhando os pombos. Descobri um café imundo, com um dono mais imundo ainda, mas onde se podia tomar um café da manhã caprichado – panquecas, cereais, salsicha – por quase nada.
Saí pela rua, como sempre, e fiquei caminhando sem rumo. Sentia-me feliz e relaxado. O sol estava na medida certa. Brando. Havia paz no ar. Ao me aproximar do meio da quadra, avistei um homem parado junto à entrada de uma loja. Segui em frente.
– Ei, PARCEIRO!
Parei e dei meia-volta.
– Está atrás de trabalho?
Retornei até onde ele estava. Por sobre seu ombro, pude ver uma enorme sala escura. Havia uma mesa comprida, com homens e mulheres de pé, de ambos os lados. Eles tinham martelos com os quais golpeavam objetos a sua frente. Na escuridão, os objetos pareciam ser mexilhões. Cheiravam como mexilhões. Dei meia-volta e segui caminhando pela rua.
Lembrei de como meu pai costumava chegar em casa todas as noites e falar do seu trabalho para minha mãe. A ladainha sobre o trabalho começava assim que ele cruzava a porta, continuava ao longo do jantar e se estendia até o momento em que meu pai gritava lá do quarto “Luzes apagadas!”, às oito da noite, para que ele pudesse descansar e recuperar as forças para o trabalho do dia seguinte. Não havia nenhum outro assunto, exceto o trabalho.
Perto da esquina, fui parado por outro homem.
– Escute, meu amigo... – ele começou.
– Sim? – perguntei.
– Escute. Sou um veterano da Primeira Guerra Mundial. Coloquei minha vida em risco para defender este país, mas ninguém quer me contratar, ninguém me oferece um emprego. Eles não têm consideração pelo que eu fiz. Estou com fome, me ajude...
– Estou desempregado.
– Está desempregado?
– Isso mesmo.
Afastei-me. Atravessei a rua.
– Você está mentindo! – gritou. – Você está trabalhando. Você tem um emprego!
Alguns dias mais tarde, eu estava realmente em busca de um.
Ele era uma espécie de atendente, atrás de sua mesa de escritório, e usava um aparelho auditivo cujo fio se estendia ao longo de seu rosto e passava pela camisa, onde a bateria estava escondida. A sala era escura e confortável. Ele vestia um terno marrom surrado, uma camisa amassada e uma gravata com a ponta puída. Chamava-se Heathercliff.
Eu havia visto o anúncio no jornal, e esse lugar ficava perto da minha pensão.
Procura-se jovem ambicioso com um olho no futuro. Não é necessário ter experiência. Trabalho inicial no setor de expedição, com possibilidade de ascensão.
Esperei do lado de fora com mais cinco ou seis jovens, todos se esforçando em parecer ambiciosos. Tínhamos preenchido nossas fichas de emprego e agora esperávamos. Fui o último a ser chamado.
– Sr. Chinaski, por que razão o senhor abandonou o trabalho na companhia ferroviária?
– Bem, não via muito futuro nesse setor.
– Eles têm bons sindicatos, planos de saúde, aposentadoria.
– Na minha idade, pensar em aposentadoria poderia ser considerado algo supérfluo.
– Por que veio a Nova Orleans?
– Tenho amigos demais em Los Angeles, amigos que estavam atravancando minha carreira. Queria ir para um lugar onde eu pudesse me concentrar, sem ser molestado.
– Como pode saber que permanecerá aqui conosco por tempo suficiente?
– Não tenho como saber.
– Por quê?
– Seu anúncio diz que há um futuro por aqui para um jovem ambicioso. Se não houver qualquer futuro por aqui, será minha hora de partir.
– Por que não está de barba feita? Perdeu uma aposta?
– Ainda não.
– Ainda não?
– Não. Apostei com meu senhorio que poderia conseguir um emprego em um dia, mesmo com essa barba.
– Muito bem, informaremos se o senhor for o escolhido.
– Não tenho telefone.
– Está tudo bem, sr. Chinaski.
Saí dali e voltei para o meu quarto. Cruzei o corredor sujo e fui tomar um banho quente. Logo em seguida, vesti as mesmas roupas e fui atrás de uma garrafa de vinho. Voltei para o quarto e me sentei junto à janela, bebendo, observando as pessoas no bar, o modo como se movimentavam. Eu bebia devagar, tomado novamente pela ideia de comprar uma arma e acabar com tudo aquilo de modo rápido – sem todos aqueles pensamentos e palavrórios. Uma questão de colhões. Perguntava-me se teria mesmo colhões para isso. Terminei a garrafa e fui deitar. Por volta das quatro da manhã, fui acordado por uma batida na porta. Era um mensageiro da Western Union.
Abri o telegrama:
SR. H. CHINASKI. COMPAREÇA AO ESCRITÓRIO
AMANHÃ ÀS 8H. CIA. R. M. HEATHERCLIFF.
Era uma distribuidora de revistas, e ficávamos na mesa de expedição, verificando se os pedidos coincidiam em quantidade com o que estava marcado nas faturas. Então assinávamos a fatura e empacotávamos o pedido para remessas intermunicipais, ou separávamos as revistas para que fossem distribuídas pelo caminhão de entrega local. O trabalho era fácil e monótono, mas os empregados estavam sempre num constante estado de tensão. Estavam preocupados com seus empregos. Havia uma mistura de jovens e mulheres, e não parecia haver nenhum tipo de fiscal. Depois de várias horas, começou uma discussão entre duas das mulheres. Era algo sobre as revistas. Enquanto empacotávamos revistinhas, alguma coisa deu errado do outro lado da mesa. Com o progresso do bate-boca, as mulheres foram se tornando violentas.
– Olhem – eu disse –, essas revistas não valem a pena nem ser lidas, quanto mais que vocês briguem por elas.
– Tudo bem – disse uma das mulheres –, nós sabemos que você se acha bom demais para esse trabalho.
– Bom demais?
– Sim, essa sua atitude. Você acha que a gente não reparou?
Foi quando aprendi, pela primeira vez, que não bastava que você fizesse seu trabalho. Era preciso mostrar interesse, se possível até paixão por ele.
Trabalhei por três ou quatro dias ali, então, na sexta-feira, fomos pagos pelo exato número de horas que tínhamos trabalhado. Os envelopes amarelos que nos deram continham uma série de verdinhas, além dos centavos devidos. Dinheiro de verdade, nada de cheques.
O motorista do caminhão chegou um pouco antes, perto do final do expediente. Sentou-se sobre uma pilha de revistas e fumou um cigarro.
– Sim, Harry – ele disse para um dos empregados –, recebi um aumento hoje. Dois dólares a mais.
Na saída, parei para comprar uma garrafa de vinho, depois fui para o meu quarto, tomei um gole e desci as escadas para ligar para o emprego. O telefone tocou por um longo tempo. Finalmente, o sr. Heathercliff atendeu. Ele ainda estava por lá.
– Sr. Heathercliff?
– Sim?
– É o Chinaski.
– Sim, sr. Chinaski?
– Quero um aumento de dois dólares.
– Como?
– Isso mesmo. O motorista do caminhão ganhou um aumento.
– Mas ele está conosco há dois anos.
– Preciso de um aumento.
– Nesse momento, estamos lhe pagando dezessete dólares por semana e o senhor vem me pedir dezenove?
– Exatamente. Vou receber ou não?
– Não podemos oferecer isso.
– Então me demito.
E desliguei.
– Factótum
1 372
Charles Bukowski

Charles Bukowski

22.000 Dólares Em 3 Meses

a noite chegou como um ser que se arrasta
corrimão acima, sibilando sua língua
de fogo, e me lembro dos
missionários com a lama até os joelhos
batendo em retirada através do belo rio azul
e as balas da metralhadora erguendo pequenas
fontes e Jones bêbado junto à margem
dizendo fodam-se esses selvagens
onde arrumaram armas de fogo?
e eu retorno pra ver Maria
e ela diz, você acha que eles vão atacar,
acha que eles vão atravessar o rio?
medo de morrer? lhe pergunto, e ela diz
quem não tem?
e eu fui até o armário de remédios
e me servi uma taça cheia, e disse
ganhamos 22.000 dólares em 3 meses construindo estradas
pro Jones e é preciso morrer um pouco
para fazer tudo mais depressa... Você acha que os comunistas
começaram com isso? ela perguntou, você acha que são os comunistas?
e eu disse, dá pra parar de ser uma vaca neurótica.
essas republiquetas crescem porque estão
enchendo os bolsos com dinheiro dos dois lados... e ela
me olhou com aquela linda estupidez das colegiais
e se afastou, escurecia mas eu a deixei partir,
precisamos saber quando é hora de deixar uma mulher ir a fim de mantê-la,
e se você não quer ficar com ela deixa-a ir de qualquer maneira,
assim que é sempre um processo de deixar partir, de um modo ou de outro,
então me sentei e terminei o drinque e preparei outro
e pensei, quem poderia imaginar que um curso de engenharia na Old Miss
poderia trazê-lo para onde as lâmpadas balançam devagar
no verde de certa noite distante?
e Jones apareceu com o braço ao redor de sua cintura azul
e ela também andara bebendo, e eu me aproximei e disse,
marido e mulher? e isso a deixou puta porque se uma mulher não pode
pegá-lo pelo cangote e fazê-lo de gato e sapato, está acabada,
e eu me servi mais uma dose caprichada, e
disse, vocês 2 podem não perceber
mas não vamos sair vivos daqui.
bebemos o resto da noite.
você poderia ouvir, se ficasse bem parado,
a água descendo através das árvores de deus,
e as estradas que havíamos construído
dava pra ouvir os animais a cruzá-las
e os selvagens, tolos bárbaros com alguma cruz bárbara para enterrar.
e finalmente o último olhar no espelho
enquanto os amantes embriagados se abraçam
e se afastam e erguem um pedaço de palha
do teto da cabana
então acendem o isqueiro, e eu
vejo as chamas se alastrarem, como ratos esfaimados
sobre as frágeis estruturas marrons, vagarosamente mas de modo
real, e logo irreal, algo que parecia uma ópera,
e então caminhei em direção ao som da metralha,
o mesmo rio, e a lua voltada para mim
e no caminho eu vi uma cobra, das pequenas,
mais parecendo uma cascavel, mas não poderia ser uma cascavel,
e se assustou ao me ver, e eu a agarrei atrás do pescoço
antes que pudesse se enrolar e então a segurei
seu pequeno corpo se enroscando ao redor do meu pulso
como um dedo amoroso e todas as árvores abriram seus olhos
e eu levei minha boca à sua
e o amor era iluminação e lembrança,
comunistas mortos, fascistas mortos, democratas mortos, deuses mortos e
ao retornar ao que restara da cabana de Jones
lá estava seu braço morto e carbonizado ao redor de sua cintura azul e morta.
1 011
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Tesuda

ela era tesuda, tão tesuda
que eu não queria que ninguém mais a tivesse,
e se eu não chegasse a tempo em casa
ela saía, e eu não podia suportar aquilo –
eu ficava louco...
sei que era uma tolice, coisa de criança,
mas eu me deixava envolver por isso, me deixava envolver
eu entregava todas as cartas
e então Henderson me colocava para apanhar o correio noturno
num velho caminhão do exército,
e o maldito começava a esquentar no meio da corrida
e a noite avançava
comigo pensamentos na tesuda da Miriam
no sobe e desce do caminhão
enchendo sacos de carta
o motor cada vez mais quente
o ponteiro da temperatura cravado no máximo
QUENTE QUENTE
como Miriam.
eu pulava para dentro e para fora
mais três coletas e depois para a estação
lá estaria meu carro
esperando para me levar até Miriam que se sentava em meu sofá azul
com um uísque com gelo
cruzando as pernas e balançando seus tornozelos
como era seu costume,
mais duas paradas...
o caminhão apagou junto a um sinal, era o inferno
se impondo
outra vez...
eu tinha que estar em casa às 8, 8 era o prazo final de Miriam.
fiz a última coleta e o caminhão apagou junto a um sinal
a meia quadra da estação
não dava mais a partida, não dava mais a partida...
tranquei as portas, tirei as chaves e corri até a
estação...
joguei as chaves... bati o ponto...
seu maldito caminhão está emperrado junto ao sinal,
gritei,
Pico e Western...
... avancei pelo corredor, enfiei a chave na porta,
abri-a... seu copo estava lá, e um bilhete:
filho da puta:
esperei até oito e cinco
você não me ama
seu filho da puta
alguém vai me amar
esperei o dia inteiro
Miriam
me servi uma bebida e deixei a água encher a banheira
havia 5.000 bares na cidade
e eu percorreria 25 deles
atrás de Miriam
seu ursinho púrpura de pelúcia segurava o bilhete
encostado contra um travesseiro
dei uma bebida para o urso, outra para mim
e entrei na água
quente.

– Chinaski! Pegue a rota 539!
A mais difícil de toda a estação. Prédios com caixas com nomes rabiscados ou sem qualquer identificação, iluminadas por lâmpadas amareladas em corredores escuros. Velhas senhoras plantadas nos saguões, pelas ruas, fazendo sempre as mesmas perguntas, como se fossem uma única pessoa com uma única voz:
– Carteiro, o senhor tem alguma carta pra mim?
E você tinha vontade de gritar:
– Senhora, como, diabos, vou saber quem a senhora é ou quem eu sou ou quem qualquer um é?
O suor pingando, a ressaca, a impossibilidade do cronograma, e Jonstone lá no escritório com sua camisa vermelha, sabendo de tudo, saboreando cada gota, fingindo fazer o que fazia por uma questão de contenção de custos. Mas todo mundo conhecia suas razões. Oh, que ótimo homem ele era!
As pessoas. As pessoas. E os cachorros.
Deixe-me falar sobre os cachorros. Era um desses dias de 37ºC e eu seguia em frente, suando, enjoado, delirante, de ressaca. Parei junto a um pequeno prédio cuja caixa de correspondência ficava escada abaixo, junto à calçada da frente. Entrei com minha chave. Não houve qualquer som. Então senti alguma coisa se esfregando contra minha virilha. Escalei os degraus. Olhei para trás e lá estava um pastor alemão, crescido, com o focinho a meio caminho do meu rabo. Com uma abocanhada poderia arrancar fora meus bagos. Decidi que aquelas pessoas não receberiam suas cartas naquele dia, e que talvez jamais recebessem nenhuma outra. Cara, o que estou dizendo é que aquele focinho foi longe demais. SNUF! SNUF! SNUF!
Coloquei a correspondência de volta na sacola de couro e então bem devagar, bem devagarzinho, dei meio passo. O focinho me seguiu. Mais um meio passo com o outro pé. O focinho ali. Então dei um passo completo, bem devagar. E depois mais outro. Então parei. O focinho já não estava no meu rabo. E o bicho ficou parado, olhando para mim. Talvez ele nunca tivesse cheirado nada como aquilo e não soubesse muito bem o que fazer.
Discretamente me afastei.
– Cartas na rua
1 279
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Poema de Amor Para Uma Stripper

50 anos atrás eu assistia às garotas
balançarem seus rabos e se despir
no Burbank e no Follies
e era muito triste
e muito dramático
assim que a luz ia do verde para
o púrpura e para o rosa
e a música era alta e
vibrante,
agora fico sentado aqui
fumando e
ouvindo música
clássica
mas ainda me lembro de alguns de seus
nomes: Darlene, Candy, Jeanette
e Rosalie.
Rosalie era a
melhor, tinha a manha,
e nós nos revirávamos em nossas poltronas e
fazíamos barulho
enquanto Rosalie levava mágica
aos solitários
de tanto tempo atrás.
escute Rosalie
ou velha demais ou
tranquila demais debaixo da
terra,
aqui fala o garoto
espinhento
que mentia a
idade
só para
te ver.
você era boa, Rosalie
em 1935,
suficientemente boa para ser lembrada
agora
que a luz é
amarela
e as noites correm
mansas.

O tempo do colégio passou com rapidez suficiente. Por volta da oitava série, indo para a nona, comecei a ter acne. Muitos dos caras tinham esse problema, mas não no mesmo grau que eu. Meu caso era realmente terrível. Era o mais grave em toda a cidade. Eu tinha espinhas e erupções por toda a face, costas, todo o pescoço e um pouco no peito. Isso aconteceu no exato momento em que eu começava a ser aceito como um cara durão e um líder. Eu continuava durão, mas não era a mesma coisa. Tive que me retirar. Observava as pessoas à distância, como numa peça de teatro. Apenas eles estavam no palco, e eu era plateia de um homem só. Eu sempre tivera problema com as garotas, mas agora, coberto de acnes, eu estava condenado. As garotas ficaram mais distantes do que nunca. Algumas delas eram verdadeiramente belas – seus vestidos, seus cabelos, seus olhos, o jeito como se moviam. Simplesmente caminhar rua abaixo durante uma tarde com uma delas, você sabe, falando qualquer coisa sobre qualquer assunto, creio que isso teria me feito sentir bastante bem.
Além disso, havia algo em mim que continuava sendo fonte de constantes problemas. A maioria dos professores não gostava ou não confiava em mim, especialmente as professoras. Nunca disse nada fora do convencional, mas alegavam que se tratava da minha “atitude”. Era algo relacionado com o modo como eu sentava com desleixo na cadeira e também meu “tom de voz”. Eu era frequentemente acusado de estar “escarnecendo”, embora eu não tivesse consciência disso. Constantemente, me faziam ficar do lado de fora da sala, de pé, no corredor, ou me mandavam para a sala da direção. O diretor sempre fazia a mesma coisa. Ele tinha uma cabine telefônica em sua sala. Obrigava-me a ficar de pé dentro da cabine e a fechava. Passei muitas horas dentro daquela cabine. A única coisa que havia para ler ali dentro era a Ladies Home Journal[4]. Era tortura deliberada. De qualquer forma, eu acabava lendo as revistas. Tinha que ler cada novo número. Eu esperava que talvez pudesse aprender alguma coisa sobre as mulheres.
Eu devia ter uns cinco mil deméritos acumulados à época da graduação, mas isso não teve importância. Queriam se livrar de mim. Eu estava de pé do lado de fora, na fila que entrava no auditório ao ritmo de um por vez. Todos nós estávamos com a toga e o barrete vagabundos que já tinham atravessado gerações e gerações de formandos antes de nós. Podíamos ouvir o nome de cada pessoa à medida que ela entrava no palco. Estavam transformando nossa graduação numa maldita comédia. A banda tocou o hino do colégio:
Ó, Mt. Justin, Ó, Mt. Justin
Nós seremos leais
Nossos corações cantam fervorosos
A certeza de amanhãs celestiais...
Ficamos alinhados, cada qual esperando sua hora de marchar pelo palco. Na plateia estavam nossos pais e amigos.
– Estou quase vomitando – disse um dos caras.
– Saímos de uma merda para nos metermos em outra – disse um segundo.
As garotas pareciam encarar a coisa com maior seriedade. Era por isso que não se podia confiar nelas. Pareciam compactuar com as coisas erradas. Elas e o colégio pareciam cantar em uníssono o mesmo hino.
– Esse negócio me deixa deprimido – disse um dos caras. – Queria fumar um cigarro.
– Aqui tem um...
Um dos outros caras lhe alcançou um cigarro. Nós o passamos, éramos quatro ou cinco. Dei uma tragada e exalei a fumaça pelo nariz. Então vi Curly Wagner se aproximar.
– Apaguem o cigarro! – eu disse. – Aí vem o cabeça de vômito!
Wagner caminhou reto na minha direção. Usava o seu abrigo cinza, incluindo a camiseta, exatamente como eu o vira da primeira vez e em todas as oportunidades seguintes. Parou na minha frente.
– Escute – ele disse –, se você acha que está se livrando de mim porque está saindo daqui está muito enganado! Vou seguir você pelo resto da vida. Vou seguir você até os confins da Terra e vou pegá-lo!
Simplesmente o encarei, sem nenhum comentário, e ele se afastou. O discursinho de Wagner serviu para aumentar meu prestígio entre os rapazes. Pensaram que eu tinha feito algo realmente diabólico para deixá-lo tão irritado. Mas não era verdade. Wagner era simplesmente maluco.
Nos aproximávamos cada vez mais da porta do auditório. Não só podíamos ouvir cada nome que era pronunciado e os aplausos na sequência, mas também víamos a plateia. Então, chegou a minha vez.
– Henry Chinaski – o diretor disse ao microfone.
E avancei. Não houve nenhum aplauso. Então uma alma gentil na plateia bateu duas ou três palmas.
Havia algumas filas de cadeiras dispostas no palco para a turma que se graduava. Sentamos lá e esperamos. O diretor fez o seu discurso sobre a América ser a terra das oportunidades e do sucesso. Então tudo acabou. A banda atacou novamente o hino do colégio Mt. Justin. Os estudantes e seus pais e seus amigos se ergueram e se congregaram. Andei por ali, procurando. Meus pais não estavam lá. Quis ter certeza. Dei mais uma volta, procurando com afinco.
Estava tudo bem. Um cara durão não precisava dessas coisas. Tirei o barrete e a toga e os alcancei ao cara no fim do corredor – o porteiro. Ele guardou as peças para a próxima formatura.
Ganhei a rua. O primeiro a sair. Mas para onde eu poderia ir? Tinha onze centavos no bolso. Segui de volta para o lugar em que eu vivia.
– Misto-quente
1 406