Poemas neste tema
Outros
Frei Agostinho da Cruz
§ Perdi-me dentro em mim
Perdi-me dentro em mim, como em deserto,
Minha alma está metida em labirinto,
Contino contradigo o que consinto,
Cem mil discursos faço, em nada acerto.
Vejo seguro o dano, o bem incerto;
Comigo porfiando me desminto,
O que mais atormenta, menos sinto,
O que me foge, quando está mais certo.
E se as asas levanta o pensamento
Àquela parte, onde está escondida
A causa deste vario movimento,
Transforma-se por não ser conhecida,
Porque quer a pesar do sofrimento
Pôr as armas da morte em mão da vida.
Minha alma está metida em labirinto,
Contino contradigo o que consinto,
Cem mil discursos faço, em nada acerto.
Vejo seguro o dano, o bem incerto;
Comigo porfiando me desminto,
O que mais atormenta, menos sinto,
O que me foge, quando está mais certo.
E se as asas levanta o pensamento
Àquela parte, onde está escondida
A causa deste vario movimento,
Transforma-se por não ser conhecida,
Porque quer a pesar do sofrimento
Pôr as armas da morte em mão da vida.
710
Charles Bukowski
Especial De 1990
gasto pelos anos
cansado até a medula.
dançando na escuridão com a
escuridão,
o Garoto Suicida ficou
grisalho.
ah, os velozes verões
idos e partidos
para sempre!
estará a morte
me espreitando
agora?
não, é apenas meu gato,
desta
vez.
cansado até a medula.
dançando na escuridão com a
escuridão,
o Garoto Suicida ficou
grisalho.
ah, os velozes verões
idos e partidos
para sempre!
estará a morte
me espreitando
agora?
não, é apenas meu gato,
desta
vez.
1 144
Charles Bukowski
Nota Sobre Alguém Que Bate À Porta
é? eu disse, é isso
mesmo?
sim, ele disse, ela mora em
Malibu, vou vê-la esta
noite.
ah, eu disse, foi uma relação
duradoura?
diabo, não, ele disse, não sou um
masoquista.
ele mexia em sua corrente de ouro
e falava sobre
poesia. ele falou sobre poesia
por uma
hora.
não sou um masoquista, tampouco, eu disse,
então você poderia
cair fora
daqui?
ele foi embora. mas eu sabia que ele
voltaria.
ele falava sobre
poesia. eu a
escrevia.
ele não conseguia entender
que isso e nós
não éramos
iguais.
mesmo?
sim, ele disse, ela mora em
Malibu, vou vê-la esta
noite.
ah, eu disse, foi uma relação
duradoura?
diabo, não, ele disse, não sou um
masoquista.
ele mexia em sua corrente de ouro
e falava sobre
poesia. ele falou sobre poesia
por uma
hora.
não sou um masoquista, tampouco, eu disse,
então você poderia
cair fora
daqui?
ele foi embora. mas eu sabia que ele
voltaria.
ele falava sobre
poesia. eu a
escrevia.
ele não conseguia entender
que isso e nós
não éramos
iguais.
1 109
Charles Bukowski
Nota Sobre Alguém Que Bate À Porta
é? eu disse, é isso
mesmo?
sim, ele disse, ela mora em
Malibu, vou vê-la esta
noite.
ah, eu disse, foi uma relação
duradoura?
diabo, não, ele disse, não sou um
masoquista.
ele mexia em sua corrente de ouro
e falava sobre
poesia. ele falou sobre poesia
por uma
hora.
não sou um masoquista, tampouco, eu disse,
então você poderia
cair fora
daqui?
ele foi embora. mas eu sabia que ele
voltaria.
ele falava sobre
poesia. eu a
escrevia.
ele não conseguia entender
que isso e nós
não éramos
iguais.
mesmo?
sim, ele disse, ela mora em
Malibu, vou vê-la esta
noite.
ah, eu disse, foi uma relação
duradoura?
diabo, não, ele disse, não sou um
masoquista.
ele mexia em sua corrente de ouro
e falava sobre
poesia. ele falou sobre poesia
por uma
hora.
não sou um masoquista, tampouco, eu disse,
então você poderia
cair fora
daqui?
ele foi embora. mas eu sabia que ele
voltaria.
ele falava sobre
poesia. eu a
escrevia.
ele não conseguia entender
que isso e nós
não éramos
iguais.
1 109
Charles Bukowski
Dia Maldito
nos velhos tempos
após as corridas eu costumava terminar com uma
amarela alta ou uma branca louca em algum quarto
de motel
mas agora estou com 70 e tenho que levantar quatro vezes
toda noite para mijar
e quase que a única coisa a me preocupar é
o tráfego nas vias expressas.
hoje eu perdi $810,00 nas corridas e quando
tentei entrar na via expressa um
tipo em um Camaro vermelho quase me jogou
fora da estrada (automóveis vermelhos sempre
me aborreceram) então me mandei atrás dele e dirigimos lado a lado.
dando uma olhada nele vi que era um cara magro
que parecia com um contador, então baixei
minha janela e berrei para ele enquanto
buzinava, informando-o de que ele era um pedaço de
merda subnormal mas ele só continuou a olhar
para a frente por isso pisei fundo e o deixei para
trás e meu pensamento seguinte foi, será que
devo contar isso à minha mulher?
e então rapidamente uma voz de algum lugar
respondeu, não seja trouxa, meu chapa, ela
só vai tornar isso uma piada sem graça.
"oh, hahaha! ele provavelmente nem viu
que você estava lá!"
se um homem vive por 70 anos ele aprende
duas ou três coisas - a primeira sendo: não faça confidências
desnecessárias
para sua mulher.
a segunda sendo: outros podem às vezes
entendê-lo mas
ninguém o entenderá
melhor que sua
mulher.
após as corridas eu costumava terminar com uma
amarela alta ou uma branca louca em algum quarto
de motel
mas agora estou com 70 e tenho que levantar quatro vezes
toda noite para mijar
e quase que a única coisa a me preocupar é
o tráfego nas vias expressas.
hoje eu perdi $810,00 nas corridas e quando
tentei entrar na via expressa um
tipo em um Camaro vermelho quase me jogou
fora da estrada (automóveis vermelhos sempre
me aborreceram) então me mandei atrás dele e dirigimos lado a lado.
dando uma olhada nele vi que era um cara magro
que parecia com um contador, então baixei
minha janela e berrei para ele enquanto
buzinava, informando-o de que ele era um pedaço de
merda subnormal mas ele só continuou a olhar
para a frente por isso pisei fundo e o deixei para
trás e meu pensamento seguinte foi, será que
devo contar isso à minha mulher?
e então rapidamente uma voz de algum lugar
respondeu, não seja trouxa, meu chapa, ela
só vai tornar isso uma piada sem graça.
"oh, hahaha! ele provavelmente nem viu
que você estava lá!"
se um homem vive por 70 anos ele aprende
duas ou três coisas - a primeira sendo: não faça confidências
desnecessárias
para sua mulher.
a segunda sendo: outros podem às vezes
entendê-lo mas
ninguém o entenderá
melhor que sua
mulher.
659
Charles Bukowski
9 Da Manhã
em chamas como um forte incendiado
a primeira nota de "impromptu" -
luz do sol -
agressora traidora
irrompendo através de beijos e perfume e nylon,
mostrando uma cidade com dentes quebrados
e leis loucas,
trazendo um beco em ruínas ao olho,
este diamante bruto;
e na palma da minha mão
uma pequena ferida
vermelho-cereja
que nem Cristo iria ignorar
enquanto as mulheres passam
arranhando suas mudanças de marcha arrebentadas
e cercas vivas e cães mimados
soltando fogo enquanto
você queima:
o sol das 9 da manhã
nos dá maçãs e putas
e agora agradecido
posso novamente me lembrar
de quando eu era jovem
de quando eu caminhava em ouro
de quando rios tinham espelhos
e não havia fim.
a primeira nota de "impromptu" -
luz do sol -
agressora traidora
irrompendo através de beijos e perfume e nylon,
mostrando uma cidade com dentes quebrados
e leis loucas,
trazendo um beco em ruínas ao olho,
este diamante bruto;
e na palma da minha mão
uma pequena ferida
vermelho-cereja
que nem Cristo iria ignorar
enquanto as mulheres passam
arranhando suas mudanças de marcha arrebentadas
e cercas vivas e cães mimados
soltando fogo enquanto
você queima:
o sol das 9 da manhã
nos dá maçãs e putas
e agora agradecido
posso novamente me lembrar
de quando eu era jovem
de quando eu caminhava em ouro
de quando rios tinham espelhos
e não havia fim.
1 055
Frei Agostinho da Cruz
elegia II
Os olhos meus dali dependurados,
Pergunto ao mar, às ondas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados?
Respondem-me em segredo, mil segredos,
Cujas letras primeiras vou cortando
Nos pés de outros mais verdes arvoredos.
Assi com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo,
Que de outras, que ensinar querem falando.
Se pelejo, se grito, se contendo
Com armas, com razões com argumentos,
Elas só com calar ficam vencendo.
Ferido de tamanhos sentimentos
Fico fora de mim, fico corrido
De ver sobre que fiz meus fundamentos.
Pergunto ao mar, às ondas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados?
Respondem-me em segredo, mil segredos,
Cujas letras primeiras vou cortando
Nos pés de outros mais verdes arvoredos.
Assi com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo,
Que de outras, que ensinar querem falando.
Se pelejo, se grito, se contendo
Com armas, com razões com argumentos,
Elas só com calar ficam vencendo.
Ferido de tamanhos sentimentos
Fico fora de mim, fico corrido
De ver sobre que fiz meus fundamentos.
704
Frei Agostinho da Cruz
elegia II
Os olhos meus dali dependurados,
Pergunto ao mar, às ondas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados?
Respondem-me em segredo, mil segredos,
Cujas letras primeiras vou cortando
Nos pés de outros mais verdes arvoredos.
Assi com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo,
Que de outras, que ensinar querem falando.
Se pelejo, se grito, se contendo
Com armas, com razões com argumentos,
Elas só com calar ficam vencendo.
Ferido de tamanhos sentimentos
Fico fora de mim, fico corrido
De ver sobre que fiz meus fundamentos.
Pergunto ao mar, às ondas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados?
Respondem-me em segredo, mil segredos,
Cujas letras primeiras vou cortando
Nos pés de outros mais verdes arvoredos.
Assi com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo,
Que de outras, que ensinar querem falando.
Se pelejo, se grito, se contendo
Com armas, com razões com argumentos,
Elas só com calar ficam vencendo.
Ferido de tamanhos sentimentos
Fico fora de mim, fico corrido
De ver sobre que fiz meus fundamentos.
704
Frei Agostinho da Cruz
elegia II
Os olhos meus dali dependurados,
Pergunto ao mar, às ondas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados?
Respondem-me em segredo, mil segredos,
Cujas letras primeiras vou cortando
Nos pés de outros mais verdes arvoredos.
Assi com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo,
Que de outras, que ensinar querem falando.
Se pelejo, se grito, se contendo
Com armas, com razões com argumentos,
Elas só com calar ficam vencendo.
Ferido de tamanhos sentimentos
Fico fora de mim, fico corrido
De ver sobre que fiz meus fundamentos.
Pergunto ao mar, às ondas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados?
Respondem-me em segredo, mil segredos,
Cujas letras primeiras vou cortando
Nos pés de outros mais verdes arvoredos.
Assi com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo,
Que de outras, que ensinar querem falando.
Se pelejo, se grito, se contendo
Com armas, com razões com argumentos,
Elas só com calar ficam vencendo.
Ferido de tamanhos sentimentos
Fico fora de mim, fico corrido
De ver sobre que fiz meus fundamentos.
704
Charles Bukowski
Meu Pai
meu pai gostava de regras e de fazer as coisas
do jeito difícil.
ele falava de responsabilidades e leis
e coisas que só tinham que ser feitas corretamente.
um homem tem que trabalhar, um homem tem que comer.
um homem tem que ter sua propriedade e aparar seu gramado.
acabei me tornando um bêbado e um andarilho
e seus pacotes de cartas me seguiam por todo lugar.
eu olhava para os pombos na chuva em
Nova Orleans enquanto as cartas diziam,
vá em frente, dê um jeito na sua vida!
com que dificuldade o mundo tenta e como tudo
foi difícil para mim.
meu pai agora está velho e grisalho e quando
eu entro na casa dele se queixa
do barro que trago para dentro. ele
se orgulha da sua casa e jardim e
fica sentado à espera. mas eu
fico horrorizado enquanto ele fala comigo:
ele nunca pensou na morte! ele não
pensa em morrer! enquanto fala, sua
boca é um buraco redondo; ele se reclina contente
em suas almofadas. quando me vou ele diz,
volte de novo, volte de novo.
quantas vezes e por quê?
quem é meu pai? alguma vez ele
tocou uma guitarra ou nadou em águas geladas?
conheço meu pai: ele está morto. há lama
morta e há um galho de árvore. o galho
de árvore balança suave ao vento e
entre as folhas você vê lampejos do sol.
é sossegado. é real. é tépido.
e o barro no assoalho é o coração do meu pai
e seu cérebro.
do jeito difícil.
ele falava de responsabilidades e leis
e coisas que só tinham que ser feitas corretamente.
um homem tem que trabalhar, um homem tem que comer.
um homem tem que ter sua propriedade e aparar seu gramado.
acabei me tornando um bêbado e um andarilho
e seus pacotes de cartas me seguiam por todo lugar.
eu olhava para os pombos na chuva em
Nova Orleans enquanto as cartas diziam,
vá em frente, dê um jeito na sua vida!
com que dificuldade o mundo tenta e como tudo
foi difícil para mim.
meu pai agora está velho e grisalho e quando
eu entro na casa dele se queixa
do barro que trago para dentro. ele
se orgulha da sua casa e jardim e
fica sentado à espera. mas eu
fico horrorizado enquanto ele fala comigo:
ele nunca pensou na morte! ele não
pensa em morrer! enquanto fala, sua
boca é um buraco redondo; ele se reclina contente
em suas almofadas. quando me vou ele diz,
volte de novo, volte de novo.
quantas vezes e por quê?
quem é meu pai? alguma vez ele
tocou uma guitarra ou nadou em águas geladas?
conheço meu pai: ele está morto. há lama
morta e há um galho de árvore. o galho
de árvore balança suave ao vento e
entre as folhas você vê lampejos do sol.
é sossegado. é real. é tépido.
e o barro no assoalho é o coração do meu pai
e seu cérebro.
1 493
Charles Bukowski
Você Não Pode Passar À Força Pelo Buraco Da Agulha
rasgar poemas é minha
especialidade.
em uma noite
sou capaz de escrever entre 5 e uma
dúzia
sentindo-me muito bem com relação a
todos
eles.
no dia seguinte
à luz da manhã
fria
eu os encaro de
novo:
alguns têm
quando muito
apenas um verso decente
ou dois.
rasgar e mandar para a cesta
esses fracassos
é puro
prazer.
há alguns
dias
em que todos eles
se vão.
o poema dificilmente é o
centro da nossa
existência
embora tenha havido muitos
poetas
que sentiam
assim.
sejam quem forem,
os deuses não são
bobos.
eles devem rir
e admirar-se
da nossa febre
por fama.
especialidade.
em uma noite
sou capaz de escrever entre 5 e uma
dúzia
sentindo-me muito bem com relação a
todos
eles.
no dia seguinte
à luz da manhã
fria
eu os encaro de
novo:
alguns têm
quando muito
apenas um verso decente
ou dois.
rasgar e mandar para a cesta
esses fracassos
é puro
prazer.
há alguns
dias
em que todos eles
se vão.
o poema dificilmente é o
centro da nossa
existência
embora tenha havido muitos
poetas
que sentiam
assim.
sejam quem forem,
os deuses não são
bobos.
eles devem rir
e admirar-se
da nossa febre
por fama.
978
Charles Bukowski
Você Não Pode Passar À Força Pelo Buraco Da Agulha
rasgar poemas é minha
especialidade.
em uma noite
sou capaz de escrever entre 5 e uma
dúzia
sentindo-me muito bem com relação a
todos
eles.
no dia seguinte
à luz da manhã
fria
eu os encaro de
novo:
alguns têm
quando muito
apenas um verso decente
ou dois.
rasgar e mandar para a cesta
esses fracassos
é puro
prazer.
há alguns
dias
em que todos eles
se vão.
o poema dificilmente é o
centro da nossa
existência
embora tenha havido muitos
poetas
que sentiam
assim.
sejam quem forem,
os deuses não são
bobos.
eles devem rir
e admirar-se
da nossa febre
por fama.
especialidade.
em uma noite
sou capaz de escrever entre 5 e uma
dúzia
sentindo-me muito bem com relação a
todos
eles.
no dia seguinte
à luz da manhã
fria
eu os encaro de
novo:
alguns têm
quando muito
apenas um verso decente
ou dois.
rasgar e mandar para a cesta
esses fracassos
é puro
prazer.
há alguns
dias
em que todos eles
se vão.
o poema dificilmente é o
centro da nossa
existência
embora tenha havido muitos
poetas
que sentiam
assim.
sejam quem forem,
os deuses não são
bobos.
eles devem rir
e admirar-se
da nossa febre
por fama.
978
Charles Bukowski
Nota Sobre a Tigresa
primeiro, uma terrível discussão.
em seguida, nós fizemos amor.
agora, finalmente, estou pacificamente deitado
em sua vasta cama
que está
coberta por um prado de graciosas flores espalhadas nela,
minha cabeça e barriga para baixo,
cabeça de lado,
borrifado pela luz através da cortina
enquanto ela se banha silenciosa no
outro aposento.
tudo está além de mim
assim como está a maioria das coisas.
ouço música clássica em um pequeno rádio.
ela toma banho.
ouço a água a escorrer.
três
enquanto a maioria das pessoas
joga toda a conversa fora
eu
em seguida, nós fizemos amor.
agora, finalmente, estou pacificamente deitado
em sua vasta cama
que está
coberta por um prado de graciosas flores espalhadas nela,
minha cabeça e barriga para baixo,
cabeça de lado,
borrifado pela luz através da cortina
enquanto ela se banha silenciosa no
outro aposento.
tudo está além de mim
assim como está a maioria das coisas.
ouço música clássica em um pequeno rádio.
ela toma banho.
ouço a água a escorrer.
três
enquanto a maioria das pessoas
joga toda a conversa fora
eu
1 102
Charles Bukowski
O Caixão da Criação
o talento para sofrer e suportar,
isso é nobreza, amigo.
o talento para sofrer e suportar
por uma ideia, um sentimento, um caminho,
isso é arte, meu amigo.
o talento para sofrer e suportar
quando o amor fracassa,
isso é o inferno, velho amigo.
nobreza, arte e inferno,
vamos falar um pouco de arte.
o destino é minha filha aleijada.
veja, é difícil,
eu contra eles,
com eles.
Kafka, deixe-me entrar!
Hemingway, cuidado!
Hegel, você é engraçado!
Cervantes, quer dizer que você escreveu aquele
romance com a idade de
80 anos?
grandes escritores são pessoas indecentes
eles vivem de modo injusto
guardando a melhor parte para o papel.
bons seres humanos salvam o mundo
para que desgraçados como eu possam continuar a criar arte,
a tornar-se imortais.
se você ler isto depois de eu estar morto há muito tempo
quer dizer que consegui.
assim, escritores do mundo
agora é a sua Vez
de abusar da sua mulher
e abusar de seus filhos
amem-se a si mesmos
vivam dos recursos dos outros
desgostem de toda arte criada antes e
durante seu tempo,
e desgostem ou até odeiem a humanidade
individualmente ou em massa.
desgraçados, mesmo se lerem isto
muito tempo depois de eu ter morrido
esqueçam-me. eu
provavelmente não era tão
bom assim.
isso é nobreza, amigo.
o talento para sofrer e suportar
por uma ideia, um sentimento, um caminho,
isso é arte, meu amigo.
o talento para sofrer e suportar
quando o amor fracassa,
isso é o inferno, velho amigo.
nobreza, arte e inferno,
vamos falar um pouco de arte.
o destino é minha filha aleijada.
veja, é difícil,
eu contra eles,
com eles.
Kafka, deixe-me entrar!
Hemingway, cuidado!
Hegel, você é engraçado!
Cervantes, quer dizer que você escreveu aquele
romance com a idade de
80 anos?
grandes escritores são pessoas indecentes
eles vivem de modo injusto
guardando a melhor parte para o papel.
bons seres humanos salvam o mundo
para que desgraçados como eu possam continuar a criar arte,
a tornar-se imortais.
se você ler isto depois de eu estar morto há muito tempo
quer dizer que consegui.
assim, escritores do mundo
agora é a sua Vez
de abusar da sua mulher
e abusar de seus filhos
amem-se a si mesmos
vivam dos recursos dos outros
desgostem de toda arte criada antes e
durante seu tempo,
e desgostem ou até odeiem a humanidade
individualmente ou em massa.
desgraçados, mesmo se lerem isto
muito tempo depois de eu ter morrido
esqueçam-me. eu
provavelmente não era tão
bom assim.
889
Charles Bukowski
O Caixão da Criação
o talento para sofrer e suportar,
isso é nobreza, amigo.
o talento para sofrer e suportar
por uma ideia, um sentimento, um caminho,
isso é arte, meu amigo.
o talento para sofrer e suportar
quando o amor fracassa,
isso é o inferno, velho amigo.
nobreza, arte e inferno,
vamos falar um pouco de arte.
o destino é minha filha aleijada.
veja, é difícil,
eu contra eles,
com eles.
Kafka, deixe-me entrar!
Hemingway, cuidado!
Hegel, você é engraçado!
Cervantes, quer dizer que você escreveu aquele
romance com a idade de
80 anos?
grandes escritores são pessoas indecentes
eles vivem de modo injusto
guardando a melhor parte para o papel.
bons seres humanos salvam o mundo
para que desgraçados como eu possam continuar a criar arte,
a tornar-se imortais.
se você ler isto depois de eu estar morto há muito tempo
quer dizer que consegui.
assim, escritores do mundo
agora é a sua Vez
de abusar da sua mulher
e abusar de seus filhos
amem-se a si mesmos
vivam dos recursos dos outros
desgostem de toda arte criada antes e
durante seu tempo,
e desgostem ou até odeiem a humanidade
individualmente ou em massa.
desgraçados, mesmo se lerem isto
muito tempo depois de eu ter morrido
esqueçam-me. eu
provavelmente não era tão
bom assim.
isso é nobreza, amigo.
o talento para sofrer e suportar
por uma ideia, um sentimento, um caminho,
isso é arte, meu amigo.
o talento para sofrer e suportar
quando o amor fracassa,
isso é o inferno, velho amigo.
nobreza, arte e inferno,
vamos falar um pouco de arte.
o destino é minha filha aleijada.
veja, é difícil,
eu contra eles,
com eles.
Kafka, deixe-me entrar!
Hemingway, cuidado!
Hegel, você é engraçado!
Cervantes, quer dizer que você escreveu aquele
romance com a idade de
80 anos?
grandes escritores são pessoas indecentes
eles vivem de modo injusto
guardando a melhor parte para o papel.
bons seres humanos salvam o mundo
para que desgraçados como eu possam continuar a criar arte,
a tornar-se imortais.
se você ler isto depois de eu estar morto há muito tempo
quer dizer que consegui.
assim, escritores do mundo
agora é a sua Vez
de abusar da sua mulher
e abusar de seus filhos
amem-se a si mesmos
vivam dos recursos dos outros
desgostem de toda arte criada antes e
durante seu tempo,
e desgostem ou até odeiem a humanidade
individualmente ou em massa.
desgraçados, mesmo se lerem isto
muito tempo depois de eu ter morrido
esqueçam-me. eu
provavelmente não era tão
bom assim.
889
Charles Bukowski
O Caixão da Criação
o talento para sofrer e suportar,
isso é nobreza, amigo.
o talento para sofrer e suportar
por uma ideia, um sentimento, um caminho,
isso é arte, meu amigo.
o talento para sofrer e suportar
quando o amor fracassa,
isso é o inferno, velho amigo.
nobreza, arte e inferno,
vamos falar um pouco de arte.
o destino é minha filha aleijada.
veja, é difícil,
eu contra eles,
com eles.
Kafka, deixe-me entrar!
Hemingway, cuidado!
Hegel, você é engraçado!
Cervantes, quer dizer que você escreveu aquele
romance com a idade de
80 anos?
grandes escritores são pessoas indecentes
eles vivem de modo injusto
guardando a melhor parte para o papel.
bons seres humanos salvam o mundo
para que desgraçados como eu possam continuar a criar arte,
a tornar-se imortais.
se você ler isto depois de eu estar morto há muito tempo
quer dizer que consegui.
assim, escritores do mundo
agora é a sua Vez
de abusar da sua mulher
e abusar de seus filhos
amem-se a si mesmos
vivam dos recursos dos outros
desgostem de toda arte criada antes e
durante seu tempo,
e desgostem ou até odeiem a humanidade
individualmente ou em massa.
desgraçados, mesmo se lerem isto
muito tempo depois de eu ter morrido
esqueçam-me. eu
provavelmente não era tão
bom assim.
isso é nobreza, amigo.
o talento para sofrer e suportar
por uma ideia, um sentimento, um caminho,
isso é arte, meu amigo.
o talento para sofrer e suportar
quando o amor fracassa,
isso é o inferno, velho amigo.
nobreza, arte e inferno,
vamos falar um pouco de arte.
o destino é minha filha aleijada.
veja, é difícil,
eu contra eles,
com eles.
Kafka, deixe-me entrar!
Hemingway, cuidado!
Hegel, você é engraçado!
Cervantes, quer dizer que você escreveu aquele
romance com a idade de
80 anos?
grandes escritores são pessoas indecentes
eles vivem de modo injusto
guardando a melhor parte para o papel.
bons seres humanos salvam o mundo
para que desgraçados como eu possam continuar a criar arte,
a tornar-se imortais.
se você ler isto depois de eu estar morto há muito tempo
quer dizer que consegui.
assim, escritores do mundo
agora é a sua Vez
de abusar da sua mulher
e abusar de seus filhos
amem-se a si mesmos
vivam dos recursos dos outros
desgostem de toda arte criada antes e
durante seu tempo,
e desgostem ou até odeiem a humanidade
individualmente ou em massa.
desgraçados, mesmo se lerem isto
muito tempo depois de eu ter morrido
esqueçam-me. eu
provavelmente não era tão
bom assim.
889
Charles Bukowski
Perfeitos Dentes Brancos
eu finalmente comprei uma TV a cores
e a outra noite
deparei com esse filme
e lá está um cara em
Paris
ele não tem dinheiro
mas veste um terno muito bom
e o nó da sua gravata está perfeito
e ele não está nem preocupado nem bêbado
mas está em um café
e todas as mulheres maravilhosas estão
apaixonadas por ele
e de algum modo ele continua a pagar seu aluguel
e a subir e descer por escadarias
usando camisas muito limpas
e ele aconselha algumas das garotas
sobre não poderem escrever poesia
enquanto ele pode
mas que não está realmente com vontade de fazer isso
naquele momento -
em vez disso ele está procurando a Verdade.
enquanto isso ele tem um corte de cabelo perfeito
nenhuma ressaca
nada de tiques nervosos ao redor dos olhos e perfeitos
dentes brancos.
eu sabia o que ia acontecer:
ele conseguiria a poesia, as mulheres e
a Verdade.
desliguei o televisor
pensando, seu safado filho da puta
você merece
todas
as três.
e a outra noite
deparei com esse filme
e lá está um cara em
Paris
ele não tem dinheiro
mas veste um terno muito bom
e o nó da sua gravata está perfeito
e ele não está nem preocupado nem bêbado
mas está em um café
e todas as mulheres maravilhosas estão
apaixonadas por ele
e de algum modo ele continua a pagar seu aluguel
e a subir e descer por escadarias
usando camisas muito limpas
e ele aconselha algumas das garotas
sobre não poderem escrever poesia
enquanto ele pode
mas que não está realmente com vontade de fazer isso
naquele momento -
em vez disso ele está procurando a Verdade.
enquanto isso ele tem um corte de cabelo perfeito
nenhuma ressaca
nada de tiques nervosos ao redor dos olhos e perfeitos
dentes brancos.
eu sabia o que ia acontecer:
ele conseguiria a poesia, as mulheres e
a Verdade.
desliguei o televisor
pensando, seu safado filho da puta
você merece
todas
as três.
652
Charles Bukowski
Perfeitos Dentes Brancos
eu finalmente comprei uma TV a cores
e a outra noite
deparei com esse filme
e lá está um cara em
Paris
ele não tem dinheiro
mas veste um terno muito bom
e o nó da sua gravata está perfeito
e ele não está nem preocupado nem bêbado
mas está em um café
e todas as mulheres maravilhosas estão
apaixonadas por ele
e de algum modo ele continua a pagar seu aluguel
e a subir e descer por escadarias
usando camisas muito limpas
e ele aconselha algumas das garotas
sobre não poderem escrever poesia
enquanto ele pode
mas que não está realmente com vontade de fazer isso
naquele momento -
em vez disso ele está procurando a Verdade.
enquanto isso ele tem um corte de cabelo perfeito
nenhuma ressaca
nada de tiques nervosos ao redor dos olhos e perfeitos
dentes brancos.
eu sabia o que ia acontecer:
ele conseguiria a poesia, as mulheres e
a Verdade.
desliguei o televisor
pensando, seu safado filho da puta
você merece
todas
as três.
e a outra noite
deparei com esse filme
e lá está um cara em
Paris
ele não tem dinheiro
mas veste um terno muito bom
e o nó da sua gravata está perfeito
e ele não está nem preocupado nem bêbado
mas está em um café
e todas as mulheres maravilhosas estão
apaixonadas por ele
e de algum modo ele continua a pagar seu aluguel
e a subir e descer por escadarias
usando camisas muito limpas
e ele aconselha algumas das garotas
sobre não poderem escrever poesia
enquanto ele pode
mas que não está realmente com vontade de fazer isso
naquele momento -
em vez disso ele está procurando a Verdade.
enquanto isso ele tem um corte de cabelo perfeito
nenhuma ressaca
nada de tiques nervosos ao redor dos olhos e perfeitos
dentes brancos.
eu sabia o que ia acontecer:
ele conseguiria a poesia, as mulheres e
a Verdade.
desliguei o televisor
pensando, seu safado filho da puta
você merece
todas
as três.
652
Charles Bukowski
Perfeitos Dentes Brancos
eu finalmente comprei uma TV a cores
e a outra noite
deparei com esse filme
e lá está um cara em
Paris
ele não tem dinheiro
mas veste um terno muito bom
e o nó da sua gravata está perfeito
e ele não está nem preocupado nem bêbado
mas está em um café
e todas as mulheres maravilhosas estão
apaixonadas por ele
e de algum modo ele continua a pagar seu aluguel
e a subir e descer por escadarias
usando camisas muito limpas
e ele aconselha algumas das garotas
sobre não poderem escrever poesia
enquanto ele pode
mas que não está realmente com vontade de fazer isso
naquele momento -
em vez disso ele está procurando a Verdade.
enquanto isso ele tem um corte de cabelo perfeito
nenhuma ressaca
nada de tiques nervosos ao redor dos olhos e perfeitos
dentes brancos.
eu sabia o que ia acontecer:
ele conseguiria a poesia, as mulheres e
a Verdade.
desliguei o televisor
pensando, seu safado filho da puta
você merece
todas
as três.
e a outra noite
deparei com esse filme
e lá está um cara em
Paris
ele não tem dinheiro
mas veste um terno muito bom
e o nó da sua gravata está perfeito
e ele não está nem preocupado nem bêbado
mas está em um café
e todas as mulheres maravilhosas estão
apaixonadas por ele
e de algum modo ele continua a pagar seu aluguel
e a subir e descer por escadarias
usando camisas muito limpas
e ele aconselha algumas das garotas
sobre não poderem escrever poesia
enquanto ele pode
mas que não está realmente com vontade de fazer isso
naquele momento -
em vez disso ele está procurando a Verdade.
enquanto isso ele tem um corte de cabelo perfeito
nenhuma ressaca
nada de tiques nervosos ao redor dos olhos e perfeitos
dentes brancos.
eu sabia o que ia acontecer:
ele conseguiria a poesia, as mulheres e
a Verdade.
desliguei o televisor
pensando, seu safado filho da puta
você merece
todas
as três.
652
Charles Bukowski
Mais Um Poema Sobre Um Bêbado e Depois Eu Deixo Vocês Irem Embora
"cara", ele disse sentado nos degraus.
"seu carro precisa com certeza de uma limpeza e uma cera.
posso fazer por 5 pratas.
tenho a cera, tenho os panos, tenho tudo
que preciso."
eu lhe dei 5 e subi.
quando desci 4 horas mais tarde
ele estava sentado nos degraus, bêbado.
ele me ofereceu uma lata de cerveja.
disse que ia fazer o carro
no dia seguinte.
no dia seguinte ele estava bêbado de novo e
eu lhe emprestei um dólar para uma garrafa de
vinho. o nome dele era Mike.
um veterano da Segunda Guerra Mundial.
sua mulher trabalhava como enfermeira.
no outro dia quando desci ele estava sentado
nos degraus. ele disse,
"sabe, eu estava sentado aqui olhando seu carro
pensando como fazer melhor.
quero fazer bem feito mesmo".
no dia seguinte Mike disse que parecia que estava com jeito de chuva
e com certeza não faria qualquer sentido
lavar e polir um carro quando ia chover.
no dia seguinte estava outra vez com jeito de chuva.
e no outro dia.
depois nunca mais o vi.
vi sua mulher e ela disse,
"levaram Mike para o hospital,
ele está todo inchado, dizem que é de
beber".
"escute", eu lhe disse, "ele falou que ia polir meu
carro. eu lhe dei 5 dólares para polir meu
carro."
eu estava sentado na cozinha deles
bebendo com a mulher dele
quando o telefone tocou.
ela me passou o telefone.
era Mike. "ouça", ele disse, "venha para cá e
me busque. eu não aguento mais este
lugar."
quando cheguei lá
não quiseram me entregar as roupas dele
e assim Mike caminhou até o elevador em seu roupão de
hospital.
seguimos em frente e havia um garoto no
elevador comendo um picolé.
"ninguém tem permissão para sair daqui de roupão",
ele disse.
"você dirige esta coisa, garoto", eu disse,
"nós cuidamos do roupão."
parei na loja de bebidas para 2 engradados de meia dúzia
e então dirigi para casa. bebi com Mike e sua mulher até
as 11 da noite.
então subi.
"onde está Mike?", perguntei para a mulher dele 3 dias
depois.
"Mike morreu", ela disse, "ele se foi."
"sinto muito", eu disse, "sinto muito, mesmo."
choveu por uma semana depois disso e
imaginei que o único jeito de conseguir aqueles 5 de volta
seria ir para a cama com a mulher dele
mas você sabe
ela se mudou uns dois dias
depois
e um cara velho de cabelos brancos
se mudou para lá.
ele era cego de um olho e
tocava trompete.
de jeito nenhum eu faria aquilo
com ele.
assim, tive eu que lavar e polir meu próprio carro.
"seu carro precisa com certeza de uma limpeza e uma cera.
posso fazer por 5 pratas.
tenho a cera, tenho os panos, tenho tudo
que preciso."
eu lhe dei 5 e subi.
quando desci 4 horas mais tarde
ele estava sentado nos degraus, bêbado.
ele me ofereceu uma lata de cerveja.
disse que ia fazer o carro
no dia seguinte.
no dia seguinte ele estava bêbado de novo e
eu lhe emprestei um dólar para uma garrafa de
vinho. o nome dele era Mike.
um veterano da Segunda Guerra Mundial.
sua mulher trabalhava como enfermeira.
no outro dia quando desci ele estava sentado
nos degraus. ele disse,
"sabe, eu estava sentado aqui olhando seu carro
pensando como fazer melhor.
quero fazer bem feito mesmo".
no dia seguinte Mike disse que parecia que estava com jeito de chuva
e com certeza não faria qualquer sentido
lavar e polir um carro quando ia chover.
no dia seguinte estava outra vez com jeito de chuva.
e no outro dia.
depois nunca mais o vi.
vi sua mulher e ela disse,
"levaram Mike para o hospital,
ele está todo inchado, dizem que é de
beber".
"escute", eu lhe disse, "ele falou que ia polir meu
carro. eu lhe dei 5 dólares para polir meu
carro."
eu estava sentado na cozinha deles
bebendo com a mulher dele
quando o telefone tocou.
ela me passou o telefone.
era Mike. "ouça", ele disse, "venha para cá e
me busque. eu não aguento mais este
lugar."
quando cheguei lá
não quiseram me entregar as roupas dele
e assim Mike caminhou até o elevador em seu roupão de
hospital.
seguimos em frente e havia um garoto no
elevador comendo um picolé.
"ninguém tem permissão para sair daqui de roupão",
ele disse.
"você dirige esta coisa, garoto", eu disse,
"nós cuidamos do roupão."
parei na loja de bebidas para 2 engradados de meia dúzia
e então dirigi para casa. bebi com Mike e sua mulher até
as 11 da noite.
então subi.
"onde está Mike?", perguntei para a mulher dele 3 dias
depois.
"Mike morreu", ela disse, "ele se foi."
"sinto muito", eu disse, "sinto muito, mesmo."
choveu por uma semana depois disso e
imaginei que o único jeito de conseguir aqueles 5 de volta
seria ir para a cama com a mulher dele
mas você sabe
ela se mudou uns dois dias
depois
e um cara velho de cabelos brancos
se mudou para lá.
ele era cego de um olho e
tocava trompete.
de jeito nenhum eu faria aquilo
com ele.
assim, tive eu que lavar e polir meu próprio carro.
1 610
Charles Bukowski
Roxo e Preto
uma garota de calças roxas e suéter preto
atravessando a rua
com um fundo de trailers e arranha-céus,
um fundo de uma Hollywood tumular de
sábado à tarde
é bem interessante:
algo que se mexe,
algo que se mexe em roxo e preto enquanto
seu cabelo balança ao vento enquanto ela se volta,
o sol como o olho de um sapo,
o inverno está lá e está
aqui, e a rua é insípida, insossa,
eu seria capaz de me arrebentar naquele asfalto até
sangrar loucamente
e eu sequer me incomodaria;
a garota de roxo e preto
dá destino e direção à rua
até sair do alcance da minha janela,
e agora é outra vez
o que era antes, e uma pequena aranha
quase como algo feito de um fio de cabelo caído,
um pelo de uma pálpebra,
arrasta-se ao longo da parede à minha esquerda
e sequer tenho o desejo de
matá-la. fora da minha janela
é fantasmagórico e
fede com a malícia dos homens.
eu espero por novos arranjos
mas enquanto isso aguento
quando o telefone toca
e salto da minha cadeira
como um homem que levou um tiro nas
costas.
atravessando a rua
com um fundo de trailers e arranha-céus,
um fundo de uma Hollywood tumular de
sábado à tarde
é bem interessante:
algo que se mexe,
algo que se mexe em roxo e preto enquanto
seu cabelo balança ao vento enquanto ela se volta,
o sol como o olho de um sapo,
o inverno está lá e está
aqui, e a rua é insípida, insossa,
eu seria capaz de me arrebentar naquele asfalto até
sangrar loucamente
e eu sequer me incomodaria;
a garota de roxo e preto
dá destino e direção à rua
até sair do alcance da minha janela,
e agora é outra vez
o que era antes, e uma pequena aranha
quase como algo feito de um fio de cabelo caído,
um pelo de uma pálpebra,
arrasta-se ao longo da parede à minha esquerda
e sequer tenho o desejo de
matá-la. fora da minha janela
é fantasmagórico e
fede com a malícia dos homens.
eu espero por novos arranjos
mas enquanto isso aguento
quando o telefone toca
e salto da minha cadeira
como um homem que levou um tiro nas
costas.
1 126
Charles Bukowski
Suas
minhas mulheres do passado ficam tentando me localizar.
encolho-me em armários escuros e puxo as cobertas
sobre minha cabeça.
nas corridas de cavalos eu fico na área reservada
fumando cigarro após cigarro
observando os cavalos que saem para a apresentação
e olhando sobre meu ombro.
vou até o guichê de apostas e esse rabo se parece ao modo
como aquele outro rabo parecia.
desvio-me dela.
então aquela cabeleira poderia tê-la debaixo dela.
caio fora da área reservada e vou até a arquibancada.
não quero um retorno ao passado.
não quero um retorno âquelas
mulheres do meu passado.
não quero tentar mais uma vez, não quero vê-las
novamente, nem a silhueta delas;
eu as dou todas, dou todas elas a todos os outros homens
sequiosos, eles podem ficar com todas aquelas gracinhas,
aqueles peitos aquelas bundas aquelas mentes
e suas mães e pais e irmãs e
irmãos e filhos e cães e ex-namorados
e namorados atuais, podem ficar com todas elas
e fodê-las todas
se quiserem.
fui um amante terrível e ciumento que as maltratava
e não conseguia entendê-las
e é melhor que agora estejam com outros
pois isso será melhor para elas e isso será
melhor para mim
por isso, quando telefonarem ou escreverem ou deixarem
recados
eu as passarei, todas, para seus novos
e legais companheiros.
eu não mereço o que elas têm e quero
deixar tudo por isso mesmo.
encolho-me em armários escuros e puxo as cobertas
sobre minha cabeça.
nas corridas de cavalos eu fico na área reservada
fumando cigarro após cigarro
observando os cavalos que saem para a apresentação
e olhando sobre meu ombro.
vou até o guichê de apostas e esse rabo se parece ao modo
como aquele outro rabo parecia.
desvio-me dela.
então aquela cabeleira poderia tê-la debaixo dela.
caio fora da área reservada e vou até a arquibancada.
não quero um retorno ao passado.
não quero um retorno âquelas
mulheres do meu passado.
não quero tentar mais uma vez, não quero vê-las
novamente, nem a silhueta delas;
eu as dou todas, dou todas elas a todos os outros homens
sequiosos, eles podem ficar com todas aquelas gracinhas,
aqueles peitos aquelas bundas aquelas mentes
e suas mães e pais e irmãs e
irmãos e filhos e cães e ex-namorados
e namorados atuais, podem ficar com todas elas
e fodê-las todas
se quiserem.
fui um amante terrível e ciumento que as maltratava
e não conseguia entendê-las
e é melhor que agora estejam com outros
pois isso será melhor para elas e isso será
melhor para mim
por isso, quando telefonarem ou escreverem ou deixarem
recados
eu as passarei, todas, para seus novos
e legais companheiros.
eu não mereço o que elas têm e quero
deixar tudo por isso mesmo.
834
Charles Bukowski
Poema Para Minha Filha
eu lhe dou colheradas:
jantar de lamen de galinha
ameixas para bebê
salada de frutas para bebê.
dou colheradas e
pelo amor de Deus
não culpem
a criança
não culpem o
governo
não culpem os patrões ou as
classes trabalhadoras -
colheradas
nessa boquinha
igual a cera
derretida
um amigo telefona:
"o que você vai fazer agora, Hank?"
"que diabo você quer dizer com o que eu vou
fazer?"
"quero dizer, agora você tem responsabilidades, você tem que criar
direito
a criança."
em vez disso eu lhe dou comida:
colheradas!
que ela possa chegar até
uma casa em Beverly Hills
sem nunca precisar de seguro-desemprego
e nunca tenha que vender para quem lhe oferecer
o melhor preço.
e nunca se apaixone por um soldado ou um matador de qualquer
tipo.
e que ela possa
apreciar Beethoven e Jelly Roll Morton e
lindos vestidos.
ela tem uma chance
de verdade:
houve uma vez os
patrocínios atenienses para as artes[1] e agora há
a Great Society.[21
"você vai continuar apostando nos cavalos? você vai continuar
bebendo? você vai continuar - ?"
sim
ela está acenando com uma flor ao vento na direção do centro morto do
meu coração -
agora ela dorme lindamente como um
barco no rio Nilo.
talvez algum dia ela me
enterre.
isso seria bonito.
se não fosse uma
responsabilidade.
jantar de lamen de galinha
ameixas para bebê
salada de frutas para bebê.
dou colheradas e
pelo amor de Deus
não culpem
a criança
não culpem o
governo
não culpem os patrões ou as
classes trabalhadoras -
colheradas
nessa boquinha
igual a cera
derretida
um amigo telefona:
"o que você vai fazer agora, Hank?"
"que diabo você quer dizer com o que eu vou
fazer?"
"quero dizer, agora você tem responsabilidades, você tem que criar
direito
a criança."
em vez disso eu lhe dou comida:
colheradas!
que ela possa chegar até
uma casa em Beverly Hills
sem nunca precisar de seguro-desemprego
e nunca tenha que vender para quem lhe oferecer
o melhor preço.
e nunca se apaixone por um soldado ou um matador de qualquer
tipo.
e que ela possa
apreciar Beethoven e Jelly Roll Morton e
lindos vestidos.
ela tem uma chance
de verdade:
houve uma vez os
patrocínios atenienses para as artes[1] e agora há
a Great Society.[21
"você vai continuar apostando nos cavalos? você vai continuar
bebendo? você vai continuar - ?"
sim
ela está acenando com uma flor ao vento na direção do centro morto do
meu coração -
agora ela dorme lindamente como um
barco no rio Nilo.
talvez algum dia ela me
enterre.
isso seria bonito.
se não fosse uma
responsabilidade.
1 497
Charles Bukowski
O Ódio a Hemingway
dei ao último livro de Hemingway
As ilhas da corrente
uma resenha ruim
enquanto a maioria dos outros lhe dava
boas resenhas.
mas o ódio a Hemingway
pelo escritor malsucedido
especialmente a mulher escritora
é incompreensível para mim.
essa mulher escritora malsucedida estava enfurecida.
tentei explicar porque achava que
Hemingway escrevia
desse modo.
essa coisa de vida-através-da-morte, ela disse,
absolutamente não é exclusiva de
Hemingway. do que mais toda
a nossa cultura ocidental trata? é a mesma história
mais uma vez e mais
uma vez. nada de novo
aqui!
é verdade, pensei, mas...
atirar em leões significava apenas atirar
em si mesmo? ela perguntou. é isso? é
isso? não quando esses leões estavam desarmados e
ele chegava neles com um rifle e
nem mesmo precisava
chegar perto. realmente! pobrezinho do Heming-
way.
é verdade, pensei, os leões não levam
rifles.
a tradição espanhola. entendo Goya porque ele consegue
ser tão real e completo, ela disse. não entendo
Hemingway como outra coisa a não ser um velho filme de Hollywood
protagonizado por... qual é o nome dele? aquele Cooper que era amigo
dele - aquele cara do Matar ou morrer. uau!
ela não gosta nem mesmo dos amigos dele,
pensei.
você aprende sobre a morte por morrer
não por olhá-la,
ela disse.
isso é verdade, pensei, mas então
como você escreve sobre isso?
você diz que Shakespeare o aborrece, ela disse -
o fato é
que ele sabia muito mais que Hemingway -
Hemingway nunca foi além de ser um
jornalista.
que aprendeu a escrever com Gertrude Stein, pensei.
ele lhe contava o que via, ela disse, mas ele não sabia
o que significava - como as coisas realmente
se relacionam... ele nunca
explicou.
estranho, pensei, era exatamente isso que eu
gostava
nele.
você fala um monte de típica
besteira, ela disse.
que pena, pensei,
ela tem pernas tão lindas
e longas. bem, Goya também tinha razão,
mas você não pode ir para a cama com
Goya.
bem, tudo certo, eu pensei, Hemingway puxou aqueles peixes grandes
para fora do mar e encarou algumas guerras
e assistiu a touros morrerem e atirou em alguns
leões;
escreveu alguns grandes contos
e nos deu 2 ou 3
bons romances
iniciais;
em seu derradeiro dia
Hemingway acenou para
alguns garotos indo para a escola,
eles acenaram de volta, e ele nunca tocou o suco de laranja
à sua frente;
então ele enfiou aquela arma em sua boca como um canudinho
e apertou o gatilho
e um dos poucos imortais da América
era sangue e miolos pelas paredes e pelo
forro da sala, e então todos eles sorriram,
eles sorriram e disseram,
ah, um fresco! ah, um covarde!
sim, ele se aproveitou de McAlmon,
ele se aproveitou de todo mundo
e não tratou Fitzgerald corretamente
e ele datilografava em pé
e uma vez ele esteve em um
hospício,
e Gertie Stein, aquele
canhão,
talvez ela o tivesse
ensinado a
escrever.
mas quem o convenceu de que era hora de morrer?
vocês fizeram isso, vocês
seus bundões
sujos.
As ilhas da corrente
uma resenha ruim
enquanto a maioria dos outros lhe dava
boas resenhas.
mas o ódio a Hemingway
pelo escritor malsucedido
especialmente a mulher escritora
é incompreensível para mim.
essa mulher escritora malsucedida estava enfurecida.
tentei explicar porque achava que
Hemingway escrevia
desse modo.
essa coisa de vida-através-da-morte, ela disse,
absolutamente não é exclusiva de
Hemingway. do que mais toda
a nossa cultura ocidental trata? é a mesma história
mais uma vez e mais
uma vez. nada de novo
aqui!
é verdade, pensei, mas...
atirar em leões significava apenas atirar
em si mesmo? ela perguntou. é isso? é
isso? não quando esses leões estavam desarmados e
ele chegava neles com um rifle e
nem mesmo precisava
chegar perto. realmente! pobrezinho do Heming-
way.
é verdade, pensei, os leões não levam
rifles.
a tradição espanhola. entendo Goya porque ele consegue
ser tão real e completo, ela disse. não entendo
Hemingway como outra coisa a não ser um velho filme de Hollywood
protagonizado por... qual é o nome dele? aquele Cooper que era amigo
dele - aquele cara do Matar ou morrer. uau!
ela não gosta nem mesmo dos amigos dele,
pensei.
você aprende sobre a morte por morrer
não por olhá-la,
ela disse.
isso é verdade, pensei, mas então
como você escreve sobre isso?
você diz que Shakespeare o aborrece, ela disse -
o fato é
que ele sabia muito mais que Hemingway -
Hemingway nunca foi além de ser um
jornalista.
que aprendeu a escrever com Gertrude Stein, pensei.
ele lhe contava o que via, ela disse, mas ele não sabia
o que significava - como as coisas realmente
se relacionam... ele nunca
explicou.
estranho, pensei, era exatamente isso que eu
gostava
nele.
você fala um monte de típica
besteira, ela disse.
que pena, pensei,
ela tem pernas tão lindas
e longas. bem, Goya também tinha razão,
mas você não pode ir para a cama com
Goya.
bem, tudo certo, eu pensei, Hemingway puxou aqueles peixes grandes
para fora do mar e encarou algumas guerras
e assistiu a touros morrerem e atirou em alguns
leões;
escreveu alguns grandes contos
e nos deu 2 ou 3
bons romances
iniciais;
em seu derradeiro dia
Hemingway acenou para
alguns garotos indo para a escola,
eles acenaram de volta, e ele nunca tocou o suco de laranja
à sua frente;
então ele enfiou aquela arma em sua boca como um canudinho
e apertou o gatilho
e um dos poucos imortais da América
era sangue e miolos pelas paredes e pelo
forro da sala, e então todos eles sorriram,
eles sorriram e disseram,
ah, um fresco! ah, um covarde!
sim, ele se aproveitou de McAlmon,
ele se aproveitou de todo mundo
e não tratou Fitzgerald corretamente
e ele datilografava em pé
e uma vez ele esteve em um
hospício,
e Gertie Stein, aquele
canhão,
talvez ela o tivesse
ensinado a
escrever.
mas quem o convenceu de que era hora de morrer?
vocês fizeram isso, vocês
seus bundões
sujos.
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