Poemas neste tema
Outros
Charles Bukowski
A Geração Falida
era muito mais fácil ser gênio nos anos 20, havia
apenas três ou quatro revistas literárias e se você publicasse nelas
umas quatro ou cinco vezes podia terminar no salão de Gertie,
você podia provavelmente encontrar Picasso para um copo de vinho, ou
talvez apenas Miró.
e sim, se você mandasse sua papelada com carimbo postal de Paris
as chances de publicação eram muito maiores.
muitos escritores encerravam seus manuscritos com a palavra "Paris" e a data.
tendo um patrono, havia tempo para
escrever, comer, beber e dar uns passeios pela Itália e até pela
Grécia
era bom ser fotografado com outros do seu time
era bom parecer asseado, enigmático e magro.
foto na praia era ótimo.
e sim, você podia escrever cartas para os 15 ou 20
outros
resmungando sobre uma coisa ou outra.
você podia receber uma carta de Ezra ou de Hem, Ezra gostava
de dar orientações e Hem gostava de praticar a escrita
nas cartas, quando não podia praticar a outra.
era um grande jogo romântico então, cheio da fúria
da descoberta.
agora
agora somos tantos, são centenas de revistas literárias,
centenas de editoras, milhares de títulos.
quem vai sobreviver desse monturo?
perguntar é quase uma grossura.
volto atrás, leio livros sobre as vidas dos meninos
e meninas lá dos 20.
se eles foram a Geração Perdida, como você chamaria a gente?
vendo a gente sentada aqui no meio das ogivas
com nossas máquinas de escrever elétricas?
a Geração Falida?
eu preferia estar na Perdida a estar na Falida, mas quando leio livros sobre
eles
sinto delicadeza e generosidade
e quando leio sobre o suicídio de Harry Crosby em seu quarto de hotel
com sua prostituta
a coisa me parece tão real como a torneira que está pingando agora
na pia do meu banheiro.
gosto de ler sobre eles: Joyce cego e zanzando
pelas livrarias como uma tarântula, como diziam.
Dos Passos com seus recortes de notícias usando uma
máquina de escrever com fita vermelha.
D.H. tarado e de porre, H.D. sabida o bastante para usar
suas iniciais que pareciam muito mais literárias do que Hilda Doolittle.
G. B. Shaw, firmado há muito tempo, nobre e
estúpido como a realeza, carne e cérebro virando mármore. um saco.
Huxley passeando seu cérebro com grande alegria, discutindo com Lawrence que a coisa não era na barriga nem nos colhões,
que a glória estava era no crânio.
e aquele matuto do Sinclair Lewis despontando.
enquanto isso,
com a revolução terminada, os russos estavam libertos e morrendo.
Gorki, sem ter nada por que lutar, sentado numa sala, tentando
achar frases para elogiar o governo.
muitos outros falidos na vitória,
agora
agora há tantos de nós
mas devíamos estar agradecidos, porque em cem anos
se o mundo não estiver destruído, pense bem, quanto ficará de tudo isso:
ninguém realmente capaz de falhar ou de vencer - só algum mérito relativo, ainda mais diminuído pela nossa superioridade numérica.
estaremos todos catalogados e arquivados.
está certo...
se você ainda tem dúvidas sobre aqueles outros
anos dourados
veja que há outras criaturas curiosas: Richard
Aldington, Teddy Dreiser, F. Scott, Hart Crane, Wyndham Lewis, a
Black Sun Press.
mas para mim, os anos 20 estavam centrados principalmente em Hemingway
saindo da guerra e começando a datilografar.
era tudo tão simples, tão deliciosamente calmo
agora
há tantos de nós.
Ernie, você não imaginava como era bom
quatro décadas atrás quando vocês metiam o cérebro no
suco de laranja
embora
-posso garantir
não fosse isto o melhor de vocês.
apenas três ou quatro revistas literárias e se você publicasse nelas
umas quatro ou cinco vezes podia terminar no salão de Gertie,
você podia provavelmente encontrar Picasso para um copo de vinho, ou
talvez apenas Miró.
e sim, se você mandasse sua papelada com carimbo postal de Paris
as chances de publicação eram muito maiores.
muitos escritores encerravam seus manuscritos com a palavra "Paris" e a data.
tendo um patrono, havia tempo para
escrever, comer, beber e dar uns passeios pela Itália e até pela
Grécia
era bom ser fotografado com outros do seu time
era bom parecer asseado, enigmático e magro.
foto na praia era ótimo.
e sim, você podia escrever cartas para os 15 ou 20
outros
resmungando sobre uma coisa ou outra.
você podia receber uma carta de Ezra ou de Hem, Ezra gostava
de dar orientações e Hem gostava de praticar a escrita
nas cartas, quando não podia praticar a outra.
era um grande jogo romântico então, cheio da fúria
da descoberta.
agora
agora somos tantos, são centenas de revistas literárias,
centenas de editoras, milhares de títulos.
quem vai sobreviver desse monturo?
perguntar é quase uma grossura.
volto atrás, leio livros sobre as vidas dos meninos
e meninas lá dos 20.
se eles foram a Geração Perdida, como você chamaria a gente?
vendo a gente sentada aqui no meio das ogivas
com nossas máquinas de escrever elétricas?
a Geração Falida?
eu preferia estar na Perdida a estar na Falida, mas quando leio livros sobre
eles
sinto delicadeza e generosidade
e quando leio sobre o suicídio de Harry Crosby em seu quarto de hotel
com sua prostituta
a coisa me parece tão real como a torneira que está pingando agora
na pia do meu banheiro.
gosto de ler sobre eles: Joyce cego e zanzando
pelas livrarias como uma tarântula, como diziam.
Dos Passos com seus recortes de notícias usando uma
máquina de escrever com fita vermelha.
D.H. tarado e de porre, H.D. sabida o bastante para usar
suas iniciais que pareciam muito mais literárias do que Hilda Doolittle.
G. B. Shaw, firmado há muito tempo, nobre e
estúpido como a realeza, carne e cérebro virando mármore. um saco.
Huxley passeando seu cérebro com grande alegria, discutindo com Lawrence que a coisa não era na barriga nem nos colhões,
que a glória estava era no crânio.
e aquele matuto do Sinclair Lewis despontando.
enquanto isso,
com a revolução terminada, os russos estavam libertos e morrendo.
Gorki, sem ter nada por que lutar, sentado numa sala, tentando
achar frases para elogiar o governo.
muitos outros falidos na vitória,
agora
agora há tantos de nós
mas devíamos estar agradecidos, porque em cem anos
se o mundo não estiver destruído, pense bem, quanto ficará de tudo isso:
ninguém realmente capaz de falhar ou de vencer - só algum mérito relativo, ainda mais diminuído pela nossa superioridade numérica.
estaremos todos catalogados e arquivados.
está certo...
se você ainda tem dúvidas sobre aqueles outros
anos dourados
veja que há outras criaturas curiosas: Richard
Aldington, Teddy Dreiser, F. Scott, Hart Crane, Wyndham Lewis, a
Black Sun Press.
mas para mim, os anos 20 estavam centrados principalmente em Hemingway
saindo da guerra e começando a datilografar.
era tudo tão simples, tão deliciosamente calmo
agora
há tantos de nós.
Ernie, você não imaginava como era bom
quatro décadas atrás quando vocês metiam o cérebro no
suco de laranja
embora
-posso garantir
não fosse isto o melhor de vocês.
877
Charles Bukowski
A Geração Falida
era muito mais fácil ser gênio nos anos 20, havia
apenas três ou quatro revistas literárias e se você publicasse nelas
umas quatro ou cinco vezes podia terminar no salão de Gertie,
você podia provavelmente encontrar Picasso para um copo de vinho, ou
talvez apenas Miró.
e sim, se você mandasse sua papelada com carimbo postal de Paris
as chances de publicação eram muito maiores.
muitos escritores encerravam seus manuscritos com a palavra "Paris" e a data.
tendo um patrono, havia tempo para
escrever, comer, beber e dar uns passeios pela Itália e até pela
Grécia
era bom ser fotografado com outros do seu time
era bom parecer asseado, enigmático e magro.
foto na praia era ótimo.
e sim, você podia escrever cartas para os 15 ou 20
outros
resmungando sobre uma coisa ou outra.
você podia receber uma carta de Ezra ou de Hem, Ezra gostava
de dar orientações e Hem gostava de praticar a escrita
nas cartas, quando não podia praticar a outra.
era um grande jogo romântico então, cheio da fúria
da descoberta.
agora
agora somos tantos, são centenas de revistas literárias,
centenas de editoras, milhares de títulos.
quem vai sobreviver desse monturo?
perguntar é quase uma grossura.
volto atrás, leio livros sobre as vidas dos meninos
e meninas lá dos 20.
se eles foram a Geração Perdida, como você chamaria a gente?
vendo a gente sentada aqui no meio das ogivas
com nossas máquinas de escrever elétricas?
a Geração Falida?
eu preferia estar na Perdida a estar na Falida, mas quando leio livros sobre
eles
sinto delicadeza e generosidade
e quando leio sobre o suicídio de Harry Crosby em seu quarto de hotel
com sua prostituta
a coisa me parece tão real como a torneira que está pingando agora
na pia do meu banheiro.
gosto de ler sobre eles: Joyce cego e zanzando
pelas livrarias como uma tarântula, como diziam.
Dos Passos com seus recortes de notícias usando uma
máquina de escrever com fita vermelha.
D.H. tarado e de porre, H.D. sabida o bastante para usar
suas iniciais que pareciam muito mais literárias do que Hilda Doolittle.
G. B. Shaw, firmado há muito tempo, nobre e
estúpido como a realeza, carne e cérebro virando mármore. um saco.
Huxley passeando seu cérebro com grande alegria, discutindo com Lawrence que a coisa não era na barriga nem nos colhões,
que a glória estava era no crânio.
e aquele matuto do Sinclair Lewis despontando.
enquanto isso,
com a revolução terminada, os russos estavam libertos e morrendo.
Gorki, sem ter nada por que lutar, sentado numa sala, tentando
achar frases para elogiar o governo.
muitos outros falidos na vitória,
agora
agora há tantos de nós
mas devíamos estar agradecidos, porque em cem anos
se o mundo não estiver destruído, pense bem, quanto ficará de tudo isso:
ninguém realmente capaz de falhar ou de vencer - só algum mérito relativo, ainda mais diminuído pela nossa superioridade numérica.
estaremos todos catalogados e arquivados.
está certo...
se você ainda tem dúvidas sobre aqueles outros
anos dourados
veja que há outras criaturas curiosas: Richard
Aldington, Teddy Dreiser, F. Scott, Hart Crane, Wyndham Lewis, a
Black Sun Press.
mas para mim, os anos 20 estavam centrados principalmente em Hemingway
saindo da guerra e começando a datilografar.
era tudo tão simples, tão deliciosamente calmo
agora
há tantos de nós.
Ernie, você não imaginava como era bom
quatro décadas atrás quando vocês metiam o cérebro no
suco de laranja
embora
-posso garantir
não fosse isto o melhor de vocês.
apenas três ou quatro revistas literárias e se você publicasse nelas
umas quatro ou cinco vezes podia terminar no salão de Gertie,
você podia provavelmente encontrar Picasso para um copo de vinho, ou
talvez apenas Miró.
e sim, se você mandasse sua papelada com carimbo postal de Paris
as chances de publicação eram muito maiores.
muitos escritores encerravam seus manuscritos com a palavra "Paris" e a data.
tendo um patrono, havia tempo para
escrever, comer, beber e dar uns passeios pela Itália e até pela
Grécia
era bom ser fotografado com outros do seu time
era bom parecer asseado, enigmático e magro.
foto na praia era ótimo.
e sim, você podia escrever cartas para os 15 ou 20
outros
resmungando sobre uma coisa ou outra.
você podia receber uma carta de Ezra ou de Hem, Ezra gostava
de dar orientações e Hem gostava de praticar a escrita
nas cartas, quando não podia praticar a outra.
era um grande jogo romântico então, cheio da fúria
da descoberta.
agora
agora somos tantos, são centenas de revistas literárias,
centenas de editoras, milhares de títulos.
quem vai sobreviver desse monturo?
perguntar é quase uma grossura.
volto atrás, leio livros sobre as vidas dos meninos
e meninas lá dos 20.
se eles foram a Geração Perdida, como você chamaria a gente?
vendo a gente sentada aqui no meio das ogivas
com nossas máquinas de escrever elétricas?
a Geração Falida?
eu preferia estar na Perdida a estar na Falida, mas quando leio livros sobre
eles
sinto delicadeza e generosidade
e quando leio sobre o suicídio de Harry Crosby em seu quarto de hotel
com sua prostituta
a coisa me parece tão real como a torneira que está pingando agora
na pia do meu banheiro.
gosto de ler sobre eles: Joyce cego e zanzando
pelas livrarias como uma tarântula, como diziam.
Dos Passos com seus recortes de notícias usando uma
máquina de escrever com fita vermelha.
D.H. tarado e de porre, H.D. sabida o bastante para usar
suas iniciais que pareciam muito mais literárias do que Hilda Doolittle.
G. B. Shaw, firmado há muito tempo, nobre e
estúpido como a realeza, carne e cérebro virando mármore. um saco.
Huxley passeando seu cérebro com grande alegria, discutindo com Lawrence que a coisa não era na barriga nem nos colhões,
que a glória estava era no crânio.
e aquele matuto do Sinclair Lewis despontando.
enquanto isso,
com a revolução terminada, os russos estavam libertos e morrendo.
Gorki, sem ter nada por que lutar, sentado numa sala, tentando
achar frases para elogiar o governo.
muitos outros falidos na vitória,
agora
agora há tantos de nós
mas devíamos estar agradecidos, porque em cem anos
se o mundo não estiver destruído, pense bem, quanto ficará de tudo isso:
ninguém realmente capaz de falhar ou de vencer - só algum mérito relativo, ainda mais diminuído pela nossa superioridade numérica.
estaremos todos catalogados e arquivados.
está certo...
se você ainda tem dúvidas sobre aqueles outros
anos dourados
veja que há outras criaturas curiosas: Richard
Aldington, Teddy Dreiser, F. Scott, Hart Crane, Wyndham Lewis, a
Black Sun Press.
mas para mim, os anos 20 estavam centrados principalmente em Hemingway
saindo da guerra e começando a datilografar.
era tudo tão simples, tão deliciosamente calmo
agora
há tantos de nós.
Ernie, você não imaginava como era bom
quatro décadas atrás quando vocês metiam o cérebro no
suco de laranja
embora
-posso garantir
não fosse isto o melhor de vocês.
877
Charles Bukowski
Carta do Norte
meu amigo escreve falando de rejeições e editores,
e conta sua visita a K.,ou R., ou W,
e pergunta se estou na S., número 12, que ele
tem um poema nela
e T. escreveu da Flórida
mas recusou seus poemas, R. dorme na tipografia
e T. o criticou impiedosamente....
encontrou o editor da Revista X. na rua,
e o editor parecia que tinha levado um chute nos colhões
no momento em que ele o identificou
e pediu sua opinião sobre os poemas,
é bom imprensar esses caras de vez em quando,
dar uma escovadela neles;
as agências de publicidade esqueceram dele, e W. está
demorando demais para ler o seu livro, ganhou só cinco
pratas para ler no Unicorn,
telefonou a K., da Revista W., parece um bom sujeito,
e acha à que acabou com R.,
manda uns recortes para que eu me divirta:
seu nome numa coluna de jornal, vai ter que telefonar para R. de novo: S. está lecionando
na universidade
e ele não aguenta ir, M. é homo,
C. não é capaz de se decidir e P. está louco com ele
porque ele bebeu cerveja na frente de N.
só cartas de recusa, mas ele sabe que sua produção é boa.
L. esteve lá para pegar um maço de Pall Malls emprestado, o puto o deixa
doente, sempre se lamentando...
B. escreve dizendo que P está com problemas, é preciso esquematizar
uma ajuda,
terrivelmente desanimado. dinheiro nem para os selos.
morto sem selos, escreva-me, ele diz,
estou na baixa.
escrever para você? meu amigo, sobre o quê?
eu só me interesso
por poesia.
e conta sua visita a K.,ou R., ou W,
e pergunta se estou na S., número 12, que ele
tem um poema nela
e T. escreveu da Flórida
mas recusou seus poemas, R. dorme na tipografia
e T. o criticou impiedosamente....
encontrou o editor da Revista X. na rua,
e o editor parecia que tinha levado um chute nos colhões
no momento em que ele o identificou
e pediu sua opinião sobre os poemas,
é bom imprensar esses caras de vez em quando,
dar uma escovadela neles;
as agências de publicidade esqueceram dele, e W. está
demorando demais para ler o seu livro, ganhou só cinco
pratas para ler no Unicorn,
telefonou a K., da Revista W., parece um bom sujeito,
e acha à que acabou com R.,
manda uns recortes para que eu me divirta:
seu nome numa coluna de jornal, vai ter que telefonar para R. de novo: S. está lecionando
na universidade
e ele não aguenta ir, M. é homo,
C. não é capaz de se decidir e P. está louco com ele
porque ele bebeu cerveja na frente de N.
só cartas de recusa, mas ele sabe que sua produção é boa.
L. esteve lá para pegar um maço de Pall Malls emprestado, o puto o deixa
doente, sempre se lamentando...
B. escreve dizendo que P está com problemas, é preciso esquematizar
uma ajuda,
terrivelmente desanimado. dinheiro nem para os selos.
morto sem selos, escreva-me, ele diz,
estou na baixa.
escrever para você? meu amigo, sobre o quê?
eu só me interesso
por poesia.
1 092
Charles Bukowski
Confissões
esperando pela morte
como um gato
que vai pular na
cama
lamento muitíssimo pela
minha esposa
ela vai ver este
corpo
rijo e
branco
vai sacudi-lo uma vez, então
talvez
de novo:
“Hank!”
Hank não vai
responder
não é a minha morte que
me preocupa, é a minha esposa
deixada sozinha com este
monte
de nada.
eu quero que
ela saiba
no entanto
que todas as noites
dormindo
a seu lado
e mesmo as inúteis
discussões
foram coisas
totalmente esplêndidas
e as palavras
duras
que sempre temi
dizer
podem agora ser
ditas:
eu te
amo.
como um gato
que vai pular na
cama
lamento muitíssimo pela
minha esposa
ela vai ver este
corpo
rijo e
branco
vai sacudi-lo uma vez, então
talvez
de novo:
“Hank!”
Hank não vai
responder
não é a minha morte que
me preocupa, é a minha esposa
deixada sozinha com este
monte
de nada.
eu quero que
ela saiba
no entanto
que todas as noites
dormindo
a seu lado
e mesmo as inúteis
discussões
foram coisas
totalmente esplêndidas
e as palavras
duras
que sempre temi
dizer
podem agora ser
ditas:
eu te
amo.
1 114
Charles Bukowski
Poema nos Meus 43 Anos
Terminar sozinho
no túmulo de um quarto
sem cigarros
nem bebida ---
careca como uma lâmpada,
barrigudo,
grisalho,
e feliz por ter
um quarto.
...de manhã
eles estão lá fora
ganhando dinheiro:
juízes, carpinteiros,
encanadores, médicos,
jornaleiros, guardas,
barbeiros, lavadores de carro,
dentistas, floristas,
garçonetes, cozinheiros,
motoristas de táxi...
e você se vira
para o lado esquerdo
pra pegar o sol
nas costas
e não
direto nos olhos.
no túmulo de um quarto
sem cigarros
nem bebida ---
careca como uma lâmpada,
barrigudo,
grisalho,
e feliz por ter
um quarto.
...de manhã
eles estão lá fora
ganhando dinheiro:
juízes, carpinteiros,
encanadores, médicos,
jornaleiros, guardas,
barbeiros, lavadores de carro,
dentistas, floristas,
garçonetes, cozinheiros,
motoristas de táxi...
e você se vira
para o lado esquerdo
pra pegar o sol
nas costas
e não
direto nos olhos.
1 196
Charles Bukowski
Que Fazer com os Exemplares do Autor?
(Prezado Senhor: Embora reconheçamos que seja pagamento insuficiente por seus poemas, o senhor receberá 4 exemplares diutor que lhe serão enviados pessoalmente ou para quem o senhor queira. - Nota do Editor.)
bem, é melhor mandar um para M.S. ou então ela provavelmente vai
meter o rabo no forno, ela pensa que é durona, e provavelmente é, com os diabos, nem quero saber
e depois vem C. W, que não responde sua correspondência mas está muito ocupado ensinando aos rapazes como escrever e eu sei que ele tem andado por lugares importantes e sendo assim
mandem um para ele...
Palm Springs
e depois tem a minha velha tia lá em
só dinheiro
e eu tenho tudo menos dinheiro... talento, uma boa voz para cantar, uma esquerda que vai lá dentro das tripas... mandem um exemplar pra ela,
ela desligou na minha cara na última vez que liguei pra ela de porre,
e dizendo que estava com problemas, ela desligou na minha cara...
e aí tem aquela menina em Sacramento que me escreve essas cartinhas... puta muito deprimida, batida e mexida como massa de bolo, expondo grandes lances de abertura intelectual que eu ignoro, mas mandem uma revista pra ela,
en lieu de um vibrador.
já são 4?
espero mandar pra vocês mais alguns poemas logo, porque acho que as pessoas que publicam meus poemas são meio loucas, mas tudo bem, eu também sou
seja como for ---
Espero,
nesse interim
que vocês não desistam
antes
que eu
desista.
c.b.
bem, é melhor mandar um para M.S. ou então ela provavelmente vai
meter o rabo no forno, ela pensa que é durona, e provavelmente é, com os diabos, nem quero saber
e depois vem C. W, que não responde sua correspondência mas está muito ocupado ensinando aos rapazes como escrever e eu sei que ele tem andado por lugares importantes e sendo assim
mandem um para ele...
Palm Springs
e depois tem a minha velha tia lá em
só dinheiro
e eu tenho tudo menos dinheiro... talento, uma boa voz para cantar, uma esquerda que vai lá dentro das tripas... mandem um exemplar pra ela,
ela desligou na minha cara na última vez que liguei pra ela de porre,
e dizendo que estava com problemas, ela desligou na minha cara...
e aí tem aquela menina em Sacramento que me escreve essas cartinhas... puta muito deprimida, batida e mexida como massa de bolo, expondo grandes lances de abertura intelectual que eu ignoro, mas mandem uma revista pra ela,
en lieu de um vibrador.
já são 4?
espero mandar pra vocês mais alguns poemas logo, porque acho que as pessoas que publicam meus poemas são meio loucas, mas tudo bem, eu também sou
seja como for ---
Espero,
nesse interim
que vocês não desistam
antes
que eu
desista.
c.b.
1 058
Charles Bukowski
Carson Mccullers
ela morreu de alcoolismo
enrolada no cobertor
de uma espreguiçadeira
num vapor
transoceânico
todos os seus livros de
aterrorizada solidão
todos os seus livros sobre
a crueldade
do amante sem amor
foram tudo que restou
dela
enquanto o excursionista passeador
encontrava seu corpo
avisava o capitão
e ela era despachada
para outro setor
do navio
enquanto tudo mais
continuava
como
ela tinha escrito.
enrolada no cobertor
de uma espreguiçadeira
num vapor
transoceânico
todos os seus livros de
aterrorizada solidão
todos os seus livros sobre
a crueldade
do amante sem amor
foram tudo que restou
dela
enquanto o excursionista passeador
encontrava seu corpo
avisava o capitão
e ela era despachada
para outro setor
do navio
enquanto tudo mais
continuava
como
ela tinha escrito.
975
Charles Bukowski
Carson Mccullers
ela morreu de alcoolismo
enrolada no cobertor
de uma espreguiçadeira
num vapor
transoceânico
todos os seus livros de
aterrorizada solidão
todos os seus livros sobre
a crueldade
do amante sem amor
foram tudo que restou
dela
enquanto o excursionista passeador
encontrava seu corpo
avisava o capitão
e ela era despachada
para outro setor
do navio
enquanto tudo mais
continuava
como
ela tinha escrito.
enrolada no cobertor
de uma espreguiçadeira
num vapor
transoceânico
todos os seus livros de
aterrorizada solidão
todos os seus livros sobre
a crueldade
do amante sem amor
foram tudo que restou
dela
enquanto o excursionista passeador
encontrava seu corpo
avisava o capitão
e ela era despachada
para outro setor
do navio
enquanto tudo mais
continuava
como
ela tinha escrito.
975
Charles Bukowski
Muito
peguei o táxi para Newport e estudei as pregas no
crânio do motorista, todo o previsto se vai:
a derrota veio tantas vezes
(como a chuva)
que ganhou mais significado
que a vitória, o artista é bom no
piano
e nós esperamos num canto
(este poeta!)
aguardando para recitar
poemas; é como uma cave, isso aqui:
cheia de morcegos e putas
e música sem corpo
movo-me no dorso do mundo, minha cabeça dói,
e procurando determinada porta
penso com carinho no bem-sucedido papai Haydn
se acabando no jardim chuvoso
acima da cópula
desses ratões sem ouvido...
o sol está numa caixa por aí
dormindo como um gato
os morcegos dão rasantes, um corpo
pega na minha mão (a do copo
a mão direita é a que bebe)
uma mulher, uma horrível
danada de uma mulher, uma coisa viva
senta
e pisca
para mim:
Hank, a coisa diz,
estão lhe esperando firme e
forte!
que se fodam, eu digo, que se fodam.
eu engordei um bocado e
fiquei vulgar (uma morte deliberada
na cozinha) e
subitamente caio na risada
considerando minha excelente forma física
como a de algum porco de um homem de negócios
e nem sequer cuido
de me levantar
para mijar...
Anjos,
nós crescemos apartados
crânio do motorista, todo o previsto se vai:
a derrota veio tantas vezes
(como a chuva)
que ganhou mais significado
que a vitória, o artista é bom no
piano
e nós esperamos num canto
(este poeta!)
aguardando para recitar
poemas; é como uma cave, isso aqui:
cheia de morcegos e putas
e música sem corpo
movo-me no dorso do mundo, minha cabeça dói,
e procurando determinada porta
penso com carinho no bem-sucedido papai Haydn
se acabando no jardim chuvoso
acima da cópula
desses ratões sem ouvido...
o sol está numa caixa por aí
dormindo como um gato
os morcegos dão rasantes, um corpo
pega na minha mão (a do copo
a mão direita é a que bebe)
uma mulher, uma horrível
danada de uma mulher, uma coisa viva
senta
e pisca
para mim:
Hank, a coisa diz,
estão lhe esperando firme e
forte!
que se fodam, eu digo, que se fodam.
eu engordei um bocado e
fiquei vulgar (uma morte deliberada
na cozinha) e
subitamente caio na risada
considerando minha excelente forma física
como a de algum porco de um homem de negócios
e nem sequer cuido
de me levantar
para mijar...
Anjos,
nós crescemos apartados
1 090
Charles Bukowski
Muito
peguei o táxi para Newport e estudei as pregas no
crânio do motorista, todo o previsto se vai:
a derrota veio tantas vezes
(como a chuva)
que ganhou mais significado
que a vitória, o artista é bom no
piano
e nós esperamos num canto
(este poeta!)
aguardando para recitar
poemas; é como uma cave, isso aqui:
cheia de morcegos e putas
e música sem corpo
movo-me no dorso do mundo, minha cabeça dói,
e procurando determinada porta
penso com carinho no bem-sucedido papai Haydn
se acabando no jardim chuvoso
acima da cópula
desses ratões sem ouvido...
o sol está numa caixa por aí
dormindo como um gato
os morcegos dão rasantes, um corpo
pega na minha mão (a do copo
a mão direita é a que bebe)
uma mulher, uma horrível
danada de uma mulher, uma coisa viva
senta
e pisca
para mim:
Hank, a coisa diz,
estão lhe esperando firme e
forte!
que se fodam, eu digo, que se fodam.
eu engordei um bocado e
fiquei vulgar (uma morte deliberada
na cozinha) e
subitamente caio na risada
considerando minha excelente forma física
como a de algum porco de um homem de negócios
e nem sequer cuido
de me levantar
para mijar...
Anjos,
nós crescemos apartados
crânio do motorista, todo o previsto se vai:
a derrota veio tantas vezes
(como a chuva)
que ganhou mais significado
que a vitória, o artista é bom no
piano
e nós esperamos num canto
(este poeta!)
aguardando para recitar
poemas; é como uma cave, isso aqui:
cheia de morcegos e putas
e música sem corpo
movo-me no dorso do mundo, minha cabeça dói,
e procurando determinada porta
penso com carinho no bem-sucedido papai Haydn
se acabando no jardim chuvoso
acima da cópula
desses ratões sem ouvido...
o sol está numa caixa por aí
dormindo como um gato
os morcegos dão rasantes, um corpo
pega na minha mão (a do copo
a mão direita é a que bebe)
uma mulher, uma horrível
danada de uma mulher, uma coisa viva
senta
e pisca
para mim:
Hank, a coisa diz,
estão lhe esperando firme e
forte!
que se fodam, eu digo, que se fodam.
eu engordei um bocado e
fiquei vulgar (uma morte deliberada
na cozinha) e
subitamente caio na risada
considerando minha excelente forma física
como a de algum porco de um homem de negócios
e nem sequer cuido
de me levantar
para mijar...
Anjos,
nós crescemos apartados
1 090
Charles Bukowski
Muito
peguei o táxi para Newport e estudei as pregas no
crânio do motorista, todo o previsto se vai:
a derrota veio tantas vezes
(como a chuva)
que ganhou mais significado
que a vitória, o artista é bom no
piano
e nós esperamos num canto
(este poeta!)
aguardando para recitar
poemas; é como uma cave, isso aqui:
cheia de morcegos e putas
e música sem corpo
movo-me no dorso do mundo, minha cabeça dói,
e procurando determinada porta
penso com carinho no bem-sucedido papai Haydn
se acabando no jardim chuvoso
acima da cópula
desses ratões sem ouvido...
o sol está numa caixa por aí
dormindo como um gato
os morcegos dão rasantes, um corpo
pega na minha mão (a do copo
a mão direita é a que bebe)
uma mulher, uma horrível
danada de uma mulher, uma coisa viva
senta
e pisca
para mim:
Hank, a coisa diz,
estão lhe esperando firme e
forte!
que se fodam, eu digo, que se fodam.
eu engordei um bocado e
fiquei vulgar (uma morte deliberada
na cozinha) e
subitamente caio na risada
considerando minha excelente forma física
como a de algum porco de um homem de negócios
e nem sequer cuido
de me levantar
para mijar...
Anjos,
nós crescemos apartados
crânio do motorista, todo o previsto se vai:
a derrota veio tantas vezes
(como a chuva)
que ganhou mais significado
que a vitória, o artista é bom no
piano
e nós esperamos num canto
(este poeta!)
aguardando para recitar
poemas; é como uma cave, isso aqui:
cheia de morcegos e putas
e música sem corpo
movo-me no dorso do mundo, minha cabeça dói,
e procurando determinada porta
penso com carinho no bem-sucedido papai Haydn
se acabando no jardim chuvoso
acima da cópula
desses ratões sem ouvido...
o sol está numa caixa por aí
dormindo como um gato
os morcegos dão rasantes, um corpo
pega na minha mão (a do copo
a mão direita é a que bebe)
uma mulher, uma horrível
danada de uma mulher, uma coisa viva
senta
e pisca
para mim:
Hank, a coisa diz,
estão lhe esperando firme e
forte!
que se fodam, eu digo, que se fodam.
eu engordei um bocado e
fiquei vulgar (uma morte deliberada
na cozinha) e
subitamente caio na risada
considerando minha excelente forma física
como a de algum porco de um homem de negócios
e nem sequer cuido
de me levantar
para mijar...
Anjos,
nós crescemos apartados
1 090
Charles Bukowski
Os Cisnes Passeiam por Meu Cérebro em Abril Chove
você quer que eu descasque uma laranja e
fale do Saavedra (Miguel de) Cervantes?
cai fora! você é como aquela mosca na
cortina.
não gostam de mim no supermercado.
eu não dou risinhos para as crianças.
não me interesso pelo que fazem
os funcionários.
eu uso os bebedouros até que os meus olhos
saltem para fora como morangos maduros.
eu tenho mau cheiro e não dou brilho
nos sapatos.
eu não possuo nada.
nada entendo além
de estar fora da cravação.
só entendo o horror e
mais horror.
não sei rimar.
estou cansado demais para
roubar.
eu ouço Segovia
sorrir.
eu olho para uma cabeça de porco
e logo estou
apaixonado.
eu ando eu ando
uma himenotomia de
homem - ó
coisas suaves deste tempo,
onde estão vocês?
vocês precisam me encontrar agora, porque
eu estou horrorizado com o que
vejo!
a prisão varre o passado iluminado por
olhos, olhos? magma!
entro numa loja e compro bebida a um
homem morto
depois saio sob um céu transbordante
de pus. os caçadores tossem
nos bancos do parque.
eu sigo...
fale do Saavedra (Miguel de) Cervantes?
cai fora! você é como aquela mosca na
cortina.
não gostam de mim no supermercado.
eu não dou risinhos para as crianças.
não me interesso pelo que fazem
os funcionários.
eu uso os bebedouros até que os meus olhos
saltem para fora como morangos maduros.
eu tenho mau cheiro e não dou brilho
nos sapatos.
eu não possuo nada.
nada entendo além
de estar fora da cravação.
só entendo o horror e
mais horror.
não sei rimar.
estou cansado demais para
roubar.
eu ouço Segovia
sorrir.
eu olho para uma cabeça de porco
e logo estou
apaixonado.
eu ando eu ando
uma himenotomia de
homem - ó
coisas suaves deste tempo,
onde estão vocês?
vocês precisam me encontrar agora, porque
eu estou horrorizado com o que
vejo!
a prisão varre o passado iluminado por
olhos, olhos? magma!
entro numa loja e compro bebida a um
homem morto
depois saio sob um céu transbordante
de pus. os caçadores tossem
nos bancos do parque.
eu sigo...
529
Charles Bukowski
pois eles tinham coisas para dizer
os canários estavam lá, e o limoeiro
e a mulher velha com verrugas;
e eu estava lá, uma criança
e eu tocava as teclas do piano
enquanto eles conversavam
mas não tão alto
pois tinham coisas para dizer
todos os três;
e eu os espiava a cobrirem os canários à noite
com sacos:
"assim eles conseguem dormir, querido."
eu toquei o piano bem baixo
uma nota por vez,
os canários sob seus sacos,
e havia pimenteiras,
pimenteiras roçando o telhado feito chuva
e pendendo de fora da janela
como chuva verde,
e eles conversavam, os três
sentados em um semicírculo na noite quente,
e as teclas eram pretas e brancas
e respondiam a meus dedos
como a magia secreta
de um mundo adulto à espera; e agora eles se foram, todos os três
e eu estou velho:
pés de piratas pisotearam os assoalhos bem varridos
da minha alma,
e os canários não cantam mais.
e a mulher velha com verrugas;
e eu estava lá, uma criança
e eu tocava as teclas do piano
enquanto eles conversavam
mas não tão alto
pois tinham coisas para dizer
todos os três;
e eu os espiava a cobrirem os canários à noite
com sacos:
"assim eles conseguem dormir, querido."
eu toquei o piano bem baixo
uma nota por vez,
os canários sob seus sacos,
e havia pimenteiras,
pimenteiras roçando o telhado feito chuva
e pendendo de fora da janela
como chuva verde,
e eles conversavam, os três
sentados em um semicírculo na noite quente,
e as teclas eram pretas e brancas
e respondiam a meus dedos
como a magia secreta
de um mundo adulto à espera; e agora eles se foram, todos os três
e eu estou velho:
pés de piratas pisotearam os assoalhos bem varridos
da minha alma,
e os canários não cantam mais.
1 215
Charles Bukowski
pois eles tinham coisas para dizer
os canários estavam lá, e o limoeiro
e a mulher velha com verrugas;
e eu estava lá, uma criança
e eu tocava as teclas do piano
enquanto eles conversavam
mas não tão alto
pois tinham coisas para dizer
todos os três;
e eu os espiava a cobrirem os canários à noite
com sacos:
"assim eles conseguem dormir, querido."
eu toquei o piano bem baixo
uma nota por vez,
os canários sob seus sacos,
e havia pimenteiras,
pimenteiras roçando o telhado feito chuva
e pendendo de fora da janela
como chuva verde,
e eles conversavam, os três
sentados em um semicírculo na noite quente,
e as teclas eram pretas e brancas
e respondiam a meus dedos
como a magia secreta
de um mundo adulto à espera; e agora eles se foram, todos os três
e eu estou velho:
pés de piratas pisotearam os assoalhos bem varridos
da minha alma,
e os canários não cantam mais.
e a mulher velha com verrugas;
e eu estava lá, uma criança
e eu tocava as teclas do piano
enquanto eles conversavam
mas não tão alto
pois tinham coisas para dizer
todos os três;
e eu os espiava a cobrirem os canários à noite
com sacos:
"assim eles conseguem dormir, querido."
eu toquei o piano bem baixo
uma nota por vez,
os canários sob seus sacos,
e havia pimenteiras,
pimenteiras roçando o telhado feito chuva
e pendendo de fora da janela
como chuva verde,
e eles conversavam, os três
sentados em um semicírculo na noite quente,
e as teclas eram pretas e brancas
e respondiam a meus dedos
como a magia secreta
de um mundo adulto à espera; e agora eles se foram, todos os três
e eu estou velho:
pés de piratas pisotearam os assoalhos bem varridos
da minha alma,
e os canários não cantam mais.
1 215
Charles Bukowski
Jane E Droll
estávamos num barraco apertado na
região central de L.A.
havia uma mulher na cama
comigo
e havia um enorme
cão
ao pé da cama
e enquanto os dois dormiam
fiquei escutando suas
respirações
e pensei: eles dependem
de mim.
absurdamente curioso.
esse pensamento continuou comigo
pela manhã
depois do nosso café
dando a ré com o carro
na saída da garagem
a mulher e o cão
no degrau da frente
sentados e me
observando
enquanto eu ria e acenava
e ela sorria e
acenava
e o cão olhava
enquanto eu recuava até a
rua e desaparecia
cidade adentro.
agora nesta noite
ainda penso neles
sentados naquele
degrau da frente
é como um filme
antigo – de 35 anos
atrás – que ninguém jamais
viu ou entendeu
exceto eu
e muito embora os
críticos possam rotulá-lo de
ordinário
eu gosto dele
bastante.
região central de L.A.
havia uma mulher na cama
comigo
e havia um enorme
cão
ao pé da cama
e enquanto os dois dormiam
fiquei escutando suas
respirações
e pensei: eles dependem
de mim.
absurdamente curioso.
esse pensamento continuou comigo
pela manhã
depois do nosso café
dando a ré com o carro
na saída da garagem
a mulher e o cão
no degrau da frente
sentados e me
observando
enquanto eu ria e acenava
e ela sorria e
acenava
e o cão olhava
enquanto eu recuava até a
rua e desaparecia
cidade adentro.
agora nesta noite
ainda penso neles
sentados naquele
degrau da frente
é como um filme
antigo – de 35 anos
atrás – que ninguém jamais
viu ou entendeu
exceto eu
e muito embora os
críticos possam rotulá-lo de
ordinário
eu gosto dele
bastante.
1 021
Charles Bukowski
Nenhuma Sorte Nisso
há um lugar no coração que
nunca será preenchido
um espaço
e mesmo durante os
melhores momentos
e
as maiores
épocas
nós saberemos disso
nós saberemos disso
mais do que
nunca
há um lugar no coração que
nunca será preenchido
e
nós vamos esperar
e
esperar
nesse
espaço.
nunca será preenchido
um espaço
e mesmo durante os
melhores momentos
e
as maiores
épocas
nós saberemos disso
nós saberemos disso
mais do que
nunca
há um lugar no coração que
nunca será preenchido
e
nós vamos esperar
e
esperar
nesse
espaço.
1 319
Charles Bukowski
Poema de Amor
lugar nenhum e meio
na torre
desmoronada
que os vermes conquistem
a glória
escuro dentro da
escuridão
a última aposta
perdida
tentando
alcançar
silêncio
ósseo.
na torre
desmoronada
que os vermes conquistem
a glória
escuro dentro da
escuridão
a última aposta
perdida
tentando
alcançar
silêncio
ósseo.
1 171
Charles Bukowski
Falando a Minha Caixa de Correio...
menino, não venha me dizendo que você
não pode impedir, que
estão batendo embaixo e dentro e duro, que
estão conspirando contra você,
que tudo que você quer é uma chance, mas que eles
não vão lhe dar
uma chance.
menino, o problema é que você não está fazendo
o que quer, ou
se está, não está fazendo
bem.
menino, eu concordo:
não há muitas oportunidades, e há alguns
no topo que não estão trabalhando
lá muito melhor do que
você
mas
você está é gastando energia brigando e
resmungando.
menino, eu não estou aconselhando, estou apenas sugerindo que
em vez de me mandar seus poemas
com suas cartas
queixosas
você devia entrar na
arena -
mandar seus trabalhos para os editores,
isso vai reforçar sua espinha dorsal e sua
versatilidade.
menino, quero lhe agradecer
os elogios a alguns dos meus
trabalhos publicados,
mas isso
não tem nada a ver com
nada e não ajuda
merda nenhuma, você tem que
aprender a bater embaixo
e dentro e duro.
isso é uma espécie de carta
que eu mando pra quase todo mundo, mas
espero que você receba como
uma coisa pessoal,
homem.
não pode impedir, que
estão batendo embaixo e dentro e duro, que
estão conspirando contra você,
que tudo que você quer é uma chance, mas que eles
não vão lhe dar
uma chance.
menino, o problema é que você não está fazendo
o que quer, ou
se está, não está fazendo
bem.
menino, eu concordo:
não há muitas oportunidades, e há alguns
no topo que não estão trabalhando
lá muito melhor do que
você
mas
você está é gastando energia brigando e
resmungando.
menino, eu não estou aconselhando, estou apenas sugerindo que
em vez de me mandar seus poemas
com suas cartas
queixosas
você devia entrar na
arena -
mandar seus trabalhos para os editores,
isso vai reforçar sua espinha dorsal e sua
versatilidade.
menino, quero lhe agradecer
os elogios a alguns dos meus
trabalhos publicados,
mas isso
não tem nada a ver com
nada e não ajuda
merda nenhuma, você tem que
aprender a bater embaixo
e dentro e duro.
isso é uma espécie de carta
que eu mando pra quase todo mundo, mas
espero que você receba como
uma coisa pessoal,
homem.
1 158
Charles Bukowski
Falando a Minha Caixa de Correio...
menino, não venha me dizendo que você
não pode impedir, que
estão batendo embaixo e dentro e duro, que
estão conspirando contra você,
que tudo que você quer é uma chance, mas que eles
não vão lhe dar
uma chance.
menino, o problema é que você não está fazendo
o que quer, ou
se está, não está fazendo
bem.
menino, eu concordo:
não há muitas oportunidades, e há alguns
no topo que não estão trabalhando
lá muito melhor do que
você
mas
você está é gastando energia brigando e
resmungando.
menino, eu não estou aconselhando, estou apenas sugerindo que
em vez de me mandar seus poemas
com suas cartas
queixosas
você devia entrar na
arena -
mandar seus trabalhos para os editores,
isso vai reforçar sua espinha dorsal e sua
versatilidade.
menino, quero lhe agradecer
os elogios a alguns dos meus
trabalhos publicados,
mas isso
não tem nada a ver com
nada e não ajuda
merda nenhuma, você tem que
aprender a bater embaixo
e dentro e duro.
isso é uma espécie de carta
que eu mando pra quase todo mundo, mas
espero que você receba como
uma coisa pessoal,
homem.
não pode impedir, que
estão batendo embaixo e dentro e duro, que
estão conspirando contra você,
que tudo que você quer é uma chance, mas que eles
não vão lhe dar
uma chance.
menino, o problema é que você não está fazendo
o que quer, ou
se está, não está fazendo
bem.
menino, eu concordo:
não há muitas oportunidades, e há alguns
no topo que não estão trabalhando
lá muito melhor do que
você
mas
você está é gastando energia brigando e
resmungando.
menino, eu não estou aconselhando, estou apenas sugerindo que
em vez de me mandar seus poemas
com suas cartas
queixosas
você devia entrar na
arena -
mandar seus trabalhos para os editores,
isso vai reforçar sua espinha dorsal e sua
versatilidade.
menino, quero lhe agradecer
os elogios a alguns dos meus
trabalhos publicados,
mas isso
não tem nada a ver com
nada e não ajuda
merda nenhuma, você tem que
aprender a bater embaixo
e dentro e duro.
isso é uma espécie de carta
que eu mando pra quase todo mundo, mas
espero que você receba como
uma coisa pessoal,
homem.
1 158
Charles Bukowski
Vacas na Aula de Arte
bom tempo
é como
boas mulheres -
não acontece sempre
e quando acontece
não dura para sempre.
um homem é
mais estável: se ele é ruim
é mais provável
que continue assim,
ou se ele é bom
ele pode
se fixar,
mas a mulher
se modifica para sempre
pelos filhos
pela idade
pela dieta
pela conversação
pelo sexo
pela lua
por haver ou não haver sol
ou bom tempo. uma mulher tem que ser ninada
para subsistir
pelo amor
onde um homem pode se tornar
mais forte
por ser odiado
estou bebendo esta noite no Spangler's
e me lembro das vacas
que pintei certa vez na aula de Arte
e pareciam bem
pareciam estar melhor do que tudo
ali, estou bebendo no Spangler's
pensando em qual amar e qual
odiar, mas já não há regras:
amo e odeio somente
a mim mesmo -
os outros ficam além de mim
como laranjas caídas da mesa
e rolando para longe, é o que devo
decidir:
matar-me, ou
me amar?
qual é a traição?
de onde vem a informação?
livros... como vidro quebrado:
eu não limparia a bunda com eles
e está ficando
mais escuro, está vendo?
(bebemos aqui e falamos uns
com os outros e parecemos saber.)
pinte a vaca com as maiores
tetas
pinte a vaca com a maior
garupa.
o cara do balcão faz deslizar uma cerveja pra mim
e ela percorre o trajeto
como um corredor olímpico
e o alicate que é minha mão
segura, levanta o copo
dourado, plena tentação,
eu bebo
e fico ali
mau tempo para vacas
mas meu pincel está pronto
para atingir
o olho de palha da grama verde
a tristeza me recobre
e mando a cerveja goela abaixo
peço uma bebida forte
rápido
para adquirir a garra e o amor de
continuar.
é como
boas mulheres -
não acontece sempre
e quando acontece
não dura para sempre.
um homem é
mais estável: se ele é ruim
é mais provável
que continue assim,
ou se ele é bom
ele pode
se fixar,
mas a mulher
se modifica para sempre
pelos filhos
pela idade
pela dieta
pela conversação
pelo sexo
pela lua
por haver ou não haver sol
ou bom tempo. uma mulher tem que ser ninada
para subsistir
pelo amor
onde um homem pode se tornar
mais forte
por ser odiado
estou bebendo esta noite no Spangler's
e me lembro das vacas
que pintei certa vez na aula de Arte
e pareciam bem
pareciam estar melhor do que tudo
ali, estou bebendo no Spangler's
pensando em qual amar e qual
odiar, mas já não há regras:
amo e odeio somente
a mim mesmo -
os outros ficam além de mim
como laranjas caídas da mesa
e rolando para longe, é o que devo
decidir:
matar-me, ou
me amar?
qual é a traição?
de onde vem a informação?
livros... como vidro quebrado:
eu não limparia a bunda com eles
e está ficando
mais escuro, está vendo?
(bebemos aqui e falamos uns
com os outros e parecemos saber.)
pinte a vaca com as maiores
tetas
pinte a vaca com a maior
garupa.
o cara do balcão faz deslizar uma cerveja pra mim
e ela percorre o trajeto
como um corredor olímpico
e o alicate que é minha mão
segura, levanta o copo
dourado, plena tentação,
eu bebo
e fico ali
mau tempo para vacas
mas meu pincel está pronto
para atingir
o olho de palha da grama verde
a tristeza me recobre
e mando a cerveja goela abaixo
peço uma bebida forte
rápido
para adquirir a garra e o amor de
continuar.
1 298
Charles Bukowski
Vacas na Aula de Arte
bom tempo
é como
boas mulheres -
não acontece sempre
e quando acontece
não dura para sempre.
um homem é
mais estável: se ele é ruim
é mais provável
que continue assim,
ou se ele é bom
ele pode
se fixar,
mas a mulher
se modifica para sempre
pelos filhos
pela idade
pela dieta
pela conversação
pelo sexo
pela lua
por haver ou não haver sol
ou bom tempo. uma mulher tem que ser ninada
para subsistir
pelo amor
onde um homem pode se tornar
mais forte
por ser odiado
estou bebendo esta noite no Spangler's
e me lembro das vacas
que pintei certa vez na aula de Arte
e pareciam bem
pareciam estar melhor do que tudo
ali, estou bebendo no Spangler's
pensando em qual amar e qual
odiar, mas já não há regras:
amo e odeio somente
a mim mesmo -
os outros ficam além de mim
como laranjas caídas da mesa
e rolando para longe, é o que devo
decidir:
matar-me, ou
me amar?
qual é a traição?
de onde vem a informação?
livros... como vidro quebrado:
eu não limparia a bunda com eles
e está ficando
mais escuro, está vendo?
(bebemos aqui e falamos uns
com os outros e parecemos saber.)
pinte a vaca com as maiores
tetas
pinte a vaca com a maior
garupa.
o cara do balcão faz deslizar uma cerveja pra mim
e ela percorre o trajeto
como um corredor olímpico
e o alicate que é minha mão
segura, levanta o copo
dourado, plena tentação,
eu bebo
e fico ali
mau tempo para vacas
mas meu pincel está pronto
para atingir
o olho de palha da grama verde
a tristeza me recobre
e mando a cerveja goela abaixo
peço uma bebida forte
rápido
para adquirir a garra e o amor de
continuar.
é como
boas mulheres -
não acontece sempre
e quando acontece
não dura para sempre.
um homem é
mais estável: se ele é ruim
é mais provável
que continue assim,
ou se ele é bom
ele pode
se fixar,
mas a mulher
se modifica para sempre
pelos filhos
pela idade
pela dieta
pela conversação
pelo sexo
pela lua
por haver ou não haver sol
ou bom tempo. uma mulher tem que ser ninada
para subsistir
pelo amor
onde um homem pode se tornar
mais forte
por ser odiado
estou bebendo esta noite no Spangler's
e me lembro das vacas
que pintei certa vez na aula de Arte
e pareciam bem
pareciam estar melhor do que tudo
ali, estou bebendo no Spangler's
pensando em qual amar e qual
odiar, mas já não há regras:
amo e odeio somente
a mim mesmo -
os outros ficam além de mim
como laranjas caídas da mesa
e rolando para longe, é o que devo
decidir:
matar-me, ou
me amar?
qual é a traição?
de onde vem a informação?
livros... como vidro quebrado:
eu não limparia a bunda com eles
e está ficando
mais escuro, está vendo?
(bebemos aqui e falamos uns
com os outros e parecemos saber.)
pinte a vaca com as maiores
tetas
pinte a vaca com a maior
garupa.
o cara do balcão faz deslizar uma cerveja pra mim
e ela percorre o trajeto
como um corredor olímpico
e o alicate que é minha mão
segura, levanta o copo
dourado, plena tentação,
eu bebo
e fico ali
mau tempo para vacas
mas meu pincel está pronto
para atingir
o olho de palha da grama verde
a tristeza me recobre
e mando a cerveja goela abaixo
peço uma bebida forte
rápido
para adquirir a garra e o amor de
continuar.
1 298
Charles Bukowski
Todas as Perdas...
eu disse a ela na cama então
depois de voar toda a descida
até ali
eu disse a ela na cama
depois
"não tem volta,
cê sabe, é danado
de ruim demais..."
e era, embora eu
ficasse 2 ou
3 dias
e aí ela me levou
até o aeroporto
cachorro no
banco traseiro
aquele cachorro que tinha vivido
conosco
naqueles poucos
anos.
eu saí
disse a ela
"não entre",
o cachorro pulou pra cima
e pra baixo,
ele sabia que eu estava indo embora
assanhei o pêlo dele,
ele lambeu meu rosto
de volta.
que fracasso.
inclinado para dentro
segurava minha mala,
ela me deu um pequeno
beijo de adeus,
e então eu me virei e
caminhei para
o guichê do aeroporto
e o cara do controle
destacou fora
a outra metade do bilhete de ida
e volta.
"fumante ou
não-fumante?", o funcionário
perguntou.
"bebedor", eu
respondi.
recebi meu bilhete de embarque
e caminhei até
o portão
me sentindo mal
porque todo mundo
que eu sabia
que não sabia
ia ficar
sabendo.
depois de voar toda a descida
até ali
eu disse a ela na cama
depois
"não tem volta,
cê sabe, é danado
de ruim demais..."
e era, embora eu
ficasse 2 ou
3 dias
e aí ela me levou
até o aeroporto
cachorro no
banco traseiro
aquele cachorro que tinha vivido
conosco
naqueles poucos
anos.
eu saí
disse a ela
"não entre",
o cachorro pulou pra cima
e pra baixo,
ele sabia que eu estava indo embora
assanhei o pêlo dele,
ele lambeu meu rosto
de volta.
que fracasso.
inclinado para dentro
segurava minha mala,
ela me deu um pequeno
beijo de adeus,
e então eu me virei e
caminhei para
o guichê do aeroporto
e o cara do controle
destacou fora
a outra metade do bilhete de ida
e volta.
"fumante ou
não-fumante?", o funcionário
perguntou.
"bebedor", eu
respondi.
recebi meu bilhete de embarque
e caminhei até
o portão
me sentindo mal
porque todo mundo
que eu sabia
que não sabia
ia ficar
sabendo.
1 217
Charles Bukowski
Poema de Amor Para Uma Stripper
50 anos atrás eu observava as garotas
rebolando e fazendo striptease
no Burbank e no Follies
e era muito triste
e muito dramático
e a luz mudava de verde para
roxo para rosa
e a música era alta e
vibrante,
agora sento aqui esta noite
fumando e bebendo
ouvindo música
clássica
mas ainda me lembro de alguns de
seus nomes: Darlene, Candy, Jeanette
e Rosalie.
Rosalie era a
melhor, sabia como fazer,
e nós girávamos em nossos assentos e
fazíamos barulhos
e Rosalie dava magia
para os solitários
tanto tempo atrás.
agora, Rosalie,
ou tão absolutamente velha ou
tão tranquila embaixo da
terra,
este é o garoto
com o rosto cheio de espinhas
que mentiu sobre sua
idade
apenas para ver
você.
você era boa, Rosalie,
em 1935,
boa o bastante para lembrar
agora
quando a luz é
amarela
e as noites são
lentas.
rebolando e fazendo striptease
no Burbank e no Follies
e era muito triste
e muito dramático
e a luz mudava de verde para
roxo para rosa
e a música era alta e
vibrante,
agora sento aqui esta noite
fumando e bebendo
ouvindo música
clássica
mas ainda me lembro de alguns de
seus nomes: Darlene, Candy, Jeanette
e Rosalie.
Rosalie era a
melhor, sabia como fazer,
e nós girávamos em nossos assentos e
fazíamos barulhos
e Rosalie dava magia
para os solitários
tanto tempo atrás.
agora, Rosalie,
ou tão absolutamente velha ou
tão tranquila embaixo da
terra,
este é o garoto
com o rosto cheio de espinhas
que mentiu sobre sua
idade
apenas para ver
você.
você era boa, Rosalie,
em 1935,
boa o bastante para lembrar
agora
quando a luz é
amarela
e as noites são
lentas.
629