Poemas neste tema
Outros
Charles Bukowski
Agarre o Escuro
estou sentado aqui
agora bêbado
escutando as
mesmas sinfonias
que me deram a
vontade de seguir em frente
quando eu tinha 22 anos.
40 anos depois
elas e eu já não somos mais tão
mágicos.
você deveria ter-me
visto
tão
esbelto
sem
barriga
eu era
um pedaço de
homem:
flamejante, forte,
insano.
dissesse uma palavra
errada
para mim
e eu quebrava a sua cara
na hora.
eu não queria ser
incomodado
com qualquer coisa
ou por qualquer um.
eu parecia estar
sempre a caminho de alguma
cela
depois de ser fichado
por fazer coisas
na avenida
ou fora dela.
agora eu estou aqui
bêbado.
sou
uma série de
pequenas vitórias
e grandes derrotas
e estou tão
espantado
quanto qualquer outro
por
ter conseguido
chegar
até aqui
sem cometer um assassinato
ou ser
assassinado:
sem
ter acabado no
hospício.
enquanto bebo sozinho
de novo esta noite
minha alma apesar da agonia
passada
agradece a todos os deuses
que não estavam
lá
por mim
então.
agora bêbado
escutando as
mesmas sinfonias
que me deram a
vontade de seguir em frente
quando eu tinha 22 anos.
40 anos depois
elas e eu já não somos mais tão
mágicos.
você deveria ter-me
visto
tão
esbelto
sem
barriga
eu era
um pedaço de
homem:
flamejante, forte,
insano.
dissesse uma palavra
errada
para mim
e eu quebrava a sua cara
na hora.
eu não queria ser
incomodado
com qualquer coisa
ou por qualquer um.
eu parecia estar
sempre a caminho de alguma
cela
depois de ser fichado
por fazer coisas
na avenida
ou fora dela.
agora eu estou aqui
bêbado.
sou
uma série de
pequenas vitórias
e grandes derrotas
e estou tão
espantado
quanto qualquer outro
por
ter conseguido
chegar
até aqui
sem cometer um assassinato
ou ser
assassinado:
sem
ter acabado no
hospício.
enquanto bebo sozinho
de novo esta noite
minha alma apesar da agonia
passada
agradece a todos os deuses
que não estavam
lá
por mim
então.
944
Charles Bukowski
Doente
ter andado muito doente e muito fraco é algo muito
estranho.
quando é necessária toda sua força para ir do
quarto ao banheiro e voltar, isto parece
uma piada mas
você não ri.
de volta à cama você volta a pensar na morte e descobre
a mesma coisa: quanto mais perto se está dela
menos apavorante ela se
torna.
você tem tempo o suficiente para examinar as paredes
e lá fora
os passarinhos sobre o fio do telefone ganham tremenda
importância.
e ali está a tevê: homens jogando beisebol
dia após dia.
nenhum apetite.
a comida tem gosto de papelão, faz com que você se sinta
mal, além de todos os
limites.
a esposa dedicada não cansa de insistir para que você
coma.
“o médico disse...”
pobrezinha.
e os gatos.
os gatos pulam sobre a cama e me olham.
me encaram, e então pulam para o
chão.
que mundo, você pensa: comer, trabalhar, trepar,
morrer.
por sorte tenho uma doença contagiosa: nada de
visitas.
a balança marca 70, do que um dia foram
98.
pareço um homem num campo de concentração.
eu sou esse
homem.
ainda assim, tenho sorte: me agrada a solidão,
jamais sentirei falta das pessoas.
eu poderia ler os grandes livros mas os grandes livros não
me interessam.
me sento na cama e espero que tudo siga
por um caminho ou pelo
outro.
exatamente como faz todo
mundo.
estranho.
quando é necessária toda sua força para ir do
quarto ao banheiro e voltar, isto parece
uma piada mas
você não ri.
de volta à cama você volta a pensar na morte e descobre
a mesma coisa: quanto mais perto se está dela
menos apavorante ela se
torna.
você tem tempo o suficiente para examinar as paredes
e lá fora
os passarinhos sobre o fio do telefone ganham tremenda
importância.
e ali está a tevê: homens jogando beisebol
dia após dia.
nenhum apetite.
a comida tem gosto de papelão, faz com que você se sinta
mal, além de todos os
limites.
a esposa dedicada não cansa de insistir para que você
coma.
“o médico disse...”
pobrezinha.
e os gatos.
os gatos pulam sobre a cama e me olham.
me encaram, e então pulam para o
chão.
que mundo, você pensa: comer, trabalhar, trepar,
morrer.
por sorte tenho uma doença contagiosa: nada de
visitas.
a balança marca 70, do que um dia foram
98.
pareço um homem num campo de concentração.
eu sou esse
homem.
ainda assim, tenho sorte: me agrada a solidão,
jamais sentirei falta das pessoas.
eu poderia ler os grandes livros mas os grandes livros não
me interessam.
me sento na cama e espero que tudo siga
por um caminho ou pelo
outro.
exatamente como faz todo
mundo.
1 115
Charles Bukowski
Guerra e Paz
experimentar a
verdadeira agonia
é
algo
duro
de escrever a respeito,
impossível
de entender
quando o
pega:
você fica
amedrontado
até a
medula,
não pode parar
quieto,
mexer-se
ou até
ficar
louco
decentemente.
e então
quando sua compostura
finalmente
retorna
e você
consegue
avaliar
a
experiência
é quase
como se
tivesse acontecido
a
outra
pessoa
pois
veja
você
agora:
calmo
desligado
por exemplo
limpando suas
unhas
procurando em
uma
gaveta
por
selos
passando
graxa
em seus
sapatos
ou
pagando a
conta
da luz.
a vida é
e não é
uma
delicada
chatice.
verdadeira agonia
é
algo
duro
de escrever a respeito,
impossível
de entender
quando o
pega:
você fica
amedrontado
até a
medula,
não pode parar
quieto,
mexer-se
ou até
ficar
louco
decentemente.
e então
quando sua compostura
finalmente
retorna
e você
consegue
avaliar
a
experiência
é quase
como se
tivesse acontecido
a
outra
pessoa
pois
veja
você
agora:
calmo
desligado
por exemplo
limpando suas
unhas
procurando em
uma
gaveta
por
selos
passando
graxa
em seus
sapatos
ou
pagando a
conta
da luz.
a vida é
e não é
uma
delicada
chatice.
718
Charles Bukowski
Guerra e Paz
experimentar a
verdadeira agonia
é
algo
duro
de escrever a respeito,
impossível
de entender
quando o
pega:
você fica
amedrontado
até a
medula,
não pode parar
quieto,
mexer-se
ou até
ficar
louco
decentemente.
e então
quando sua compostura
finalmente
retorna
e você
consegue
avaliar
a
experiência
é quase
como se
tivesse acontecido
a
outra
pessoa
pois
veja
você
agora:
calmo
desligado
por exemplo
limpando suas
unhas
procurando em
uma
gaveta
por
selos
passando
graxa
em seus
sapatos
ou
pagando a
conta
da luz.
a vida é
e não é
uma
delicada
chatice.
verdadeira agonia
é
algo
duro
de escrever a respeito,
impossível
de entender
quando o
pega:
você fica
amedrontado
até a
medula,
não pode parar
quieto,
mexer-se
ou até
ficar
louco
decentemente.
e então
quando sua compostura
finalmente
retorna
e você
consegue
avaliar
a
experiência
é quase
como se
tivesse acontecido
a
outra
pessoa
pois
veja
você
agora:
calmo
desligado
por exemplo
limpando suas
unhas
procurando em
uma
gaveta
por
selos
passando
graxa
em seus
sapatos
ou
pagando a
conta
da luz.
a vida é
e não é
uma
delicada
chatice.
718
Charles Bukowski
O Minuto
"eu estou sempre lutando pelo próximo
minuto", digo à minha mulher.
então ela começa a me dizer
o quanto estou enganado.
mulheres têm um jeito de não
acreditar no que seus maridos
lhes dizem.
o minuto é uma coisa muito
sagrada.
lutei por cada um deles desde a minha
infância.
eu continuo a lutar por cada um deles.
nunca fiquei chateado ou
sem saber o que fazer em seguida.
mesmo quando não faço nada,
eu estou utilizando meu tempo.
por que pessoas têm que ir a
parques de diversão ou ao cinema
ou ficar sentadas diante dos aparelhos de TV
ou resolver palavras cruzadas
ou ir a piqueniques
ou visitar parentes
ou viajar
ou fazer a maior parte das coisas
que elas fazem
está além da minha compreensão.
elas mutilam minutos,
horas,
dias,
vidas inteiras.
elas não têm ideia do quanto
um minuto
é precioso.
luto para entender a essência
do meu tempo.
isso não significa que
eu não possa relaxar
e tirar uma hora de folga
mas deve ser
minha escolha.
lutar por cada minuto é
lutar pelo que é possível dentro
de você,
de modo que sua vida e sua morte
não sejam iguais
as delas.
não seja como elas
e você irá
sobreviver.
minuto a
minuto.
minuto", digo à minha mulher.
então ela começa a me dizer
o quanto estou enganado.
mulheres têm um jeito de não
acreditar no que seus maridos
lhes dizem.
o minuto é uma coisa muito
sagrada.
lutei por cada um deles desde a minha
infância.
eu continuo a lutar por cada um deles.
nunca fiquei chateado ou
sem saber o que fazer em seguida.
mesmo quando não faço nada,
eu estou utilizando meu tempo.
por que pessoas têm que ir a
parques de diversão ou ao cinema
ou ficar sentadas diante dos aparelhos de TV
ou resolver palavras cruzadas
ou ir a piqueniques
ou visitar parentes
ou viajar
ou fazer a maior parte das coisas
que elas fazem
está além da minha compreensão.
elas mutilam minutos,
horas,
dias,
vidas inteiras.
elas não têm ideia do quanto
um minuto
é precioso.
luto para entender a essência
do meu tempo.
isso não significa que
eu não possa relaxar
e tirar uma hora de folga
mas deve ser
minha escolha.
lutar por cada minuto é
lutar pelo que é possível dentro
de você,
de modo que sua vida e sua morte
não sejam iguais
as delas.
não seja como elas
e você irá
sobreviver.
minuto a
minuto.
1 028
Charles Bukowski
Pessoas Como Flores
que cantoria prossegue nas
ruas -
as pessoas parecem flores
finalmente
a polícia guardou suas
insígnias
o exército rasgou seus uniformes e
destroçou suas armas. não há mais necessidade de
cadeias ou jornais ou hospícios ou
trancas nas portas.
uma mulher vem correndo até minha porta
ME COMA! ME AME!
ela grita.
ela é bela como um charuto
depois de jantar um bom filé. eu
a possuo.
mas depois de sua partida
eu me sinto esquisito
tranco a porta
vou à escrivaninha e pego a pistola
da gaveta. ela tem seu próprio senso de
amor.
AMOR! AMOR! AMOR! a multidão canta nas
ruas.
eu atiro pela janela
o vidro corta meu rosto e
braços. acerto um garoto de 12 anos
um velho de barba
e uma adorável moça algo parecida a uma
violeta.
a multidão para de cantar para
me olhar.
estou parado na janela quebrada
o sangue em meu
rosto.
"isso", eu grito para eles, "é em defesa da
pobreza de si mesmo e em defesa da liberdade
de não amar!"
"deixe-o em paz", alguém diz,
"ele está louco, viveu uma vida ruim por
tempo demais."
entro na cozinha
sento-me e encho um
copo de uísque.
resolvo que a única definição da
Verdade (que muda)
é ela ser a única coisa ou ato ou
crença que a multidão
rejeita.
estão socando minha
porta. é a mesma mulher de novo.
ela é tão bela como encontrar um
sapo verde e gordo no
jardim.
eu tenho 2 balas restantes e
uso
ambas.
nada no ar a não ser
nuvens. nada no ar a não ser
chuva. a vida de cada homem é curta demais para
encontrar sentido e
todos os livros quase um
desperdício.
sento e os ouço
a cantar.
sento e os
ouço.
ruas -
as pessoas parecem flores
finalmente
a polícia guardou suas
insígnias
o exército rasgou seus uniformes e
destroçou suas armas. não há mais necessidade de
cadeias ou jornais ou hospícios ou
trancas nas portas.
uma mulher vem correndo até minha porta
ME COMA! ME AME!
ela grita.
ela é bela como um charuto
depois de jantar um bom filé. eu
a possuo.
mas depois de sua partida
eu me sinto esquisito
tranco a porta
vou à escrivaninha e pego a pistola
da gaveta. ela tem seu próprio senso de
amor.
AMOR! AMOR! AMOR! a multidão canta nas
ruas.
eu atiro pela janela
o vidro corta meu rosto e
braços. acerto um garoto de 12 anos
um velho de barba
e uma adorável moça algo parecida a uma
violeta.
a multidão para de cantar para
me olhar.
estou parado na janela quebrada
o sangue em meu
rosto.
"isso", eu grito para eles, "é em defesa da
pobreza de si mesmo e em defesa da liberdade
de não amar!"
"deixe-o em paz", alguém diz,
"ele está louco, viveu uma vida ruim por
tempo demais."
entro na cozinha
sento-me e encho um
copo de uísque.
resolvo que a única definição da
Verdade (que muda)
é ela ser a única coisa ou ato ou
crença que a multidão
rejeita.
estão socando minha
porta. é a mesma mulher de novo.
ela é tão bela como encontrar um
sapo verde e gordo no
jardim.
eu tenho 2 balas restantes e
uso
ambas.
nada no ar a não ser
nuvens. nada no ar a não ser
chuva. a vida de cada homem é curta demais para
encontrar sentido e
todos os livros quase um
desperdício.
sento e os ouço
a cantar.
sento e os
ouço.
638
Charles Bukowski
Pessoas Como Flores
que cantoria prossegue nas
ruas -
as pessoas parecem flores
finalmente
a polícia guardou suas
insígnias
o exército rasgou seus uniformes e
destroçou suas armas. não há mais necessidade de
cadeias ou jornais ou hospícios ou
trancas nas portas.
uma mulher vem correndo até minha porta
ME COMA! ME AME!
ela grita.
ela é bela como um charuto
depois de jantar um bom filé. eu
a possuo.
mas depois de sua partida
eu me sinto esquisito
tranco a porta
vou à escrivaninha e pego a pistola
da gaveta. ela tem seu próprio senso de
amor.
AMOR! AMOR! AMOR! a multidão canta nas
ruas.
eu atiro pela janela
o vidro corta meu rosto e
braços. acerto um garoto de 12 anos
um velho de barba
e uma adorável moça algo parecida a uma
violeta.
a multidão para de cantar para
me olhar.
estou parado na janela quebrada
o sangue em meu
rosto.
"isso", eu grito para eles, "é em defesa da
pobreza de si mesmo e em defesa da liberdade
de não amar!"
"deixe-o em paz", alguém diz,
"ele está louco, viveu uma vida ruim por
tempo demais."
entro na cozinha
sento-me e encho um
copo de uísque.
resolvo que a única definição da
Verdade (que muda)
é ela ser a única coisa ou ato ou
crença que a multidão
rejeita.
estão socando minha
porta. é a mesma mulher de novo.
ela é tão bela como encontrar um
sapo verde e gordo no
jardim.
eu tenho 2 balas restantes e
uso
ambas.
nada no ar a não ser
nuvens. nada no ar a não ser
chuva. a vida de cada homem é curta demais para
encontrar sentido e
todos os livros quase um
desperdício.
sento e os ouço
a cantar.
sento e os
ouço.
ruas -
as pessoas parecem flores
finalmente
a polícia guardou suas
insígnias
o exército rasgou seus uniformes e
destroçou suas armas. não há mais necessidade de
cadeias ou jornais ou hospícios ou
trancas nas portas.
uma mulher vem correndo até minha porta
ME COMA! ME AME!
ela grita.
ela é bela como um charuto
depois de jantar um bom filé. eu
a possuo.
mas depois de sua partida
eu me sinto esquisito
tranco a porta
vou à escrivaninha e pego a pistola
da gaveta. ela tem seu próprio senso de
amor.
AMOR! AMOR! AMOR! a multidão canta nas
ruas.
eu atiro pela janela
o vidro corta meu rosto e
braços. acerto um garoto de 12 anos
um velho de barba
e uma adorável moça algo parecida a uma
violeta.
a multidão para de cantar para
me olhar.
estou parado na janela quebrada
o sangue em meu
rosto.
"isso", eu grito para eles, "é em defesa da
pobreza de si mesmo e em defesa da liberdade
de não amar!"
"deixe-o em paz", alguém diz,
"ele está louco, viveu uma vida ruim por
tempo demais."
entro na cozinha
sento-me e encho um
copo de uísque.
resolvo que a única definição da
Verdade (que muda)
é ela ser a única coisa ou ato ou
crença que a multidão
rejeita.
estão socando minha
porta. é a mesma mulher de novo.
ela é tão bela como encontrar um
sapo verde e gordo no
jardim.
eu tenho 2 balas restantes e
uso
ambas.
nada no ar a não ser
nuvens. nada no ar a não ser
chuva. a vida de cada homem é curta demais para
encontrar sentido e
todos os livros quase um
desperdício.
sento e os ouço
a cantar.
sento e os
ouço.
638
Charles Bukowski
Mil Dólares
todo o meu conhecimento sobre corridas de cavalos
me dizia que esta era uma aposta garantida.
apostei mil para ganhar.
o cavalo estava cotado em primeiro
nos três quartos de milha.
a campainha tocou e eles
saíram do portão.
meu cavalo virou à esquerda
atravessou correndo a cerca
caiu e
morreu
lá mesmo
com 7/5 no páreo.
quando conto essa história
as pessoas não dizem
nada.
às vezes não há nada a dizer
sobre
a morte.
me dizia que esta era uma aposta garantida.
apostei mil para ganhar.
o cavalo estava cotado em primeiro
nos três quartos de milha.
a campainha tocou e eles
saíram do portão.
meu cavalo virou à esquerda
atravessou correndo a cerca
caiu e
morreu
lá mesmo
com 7/5 no páreo.
quando conto essa história
as pessoas não dizem
nada.
às vezes não há nada a dizer
sobre
a morte.
703
Charles Bukowski
Mil Dólares
todo o meu conhecimento sobre corridas de cavalos
me dizia que esta era uma aposta garantida.
apostei mil para ganhar.
o cavalo estava cotado em primeiro
nos três quartos de milha.
a campainha tocou e eles
saíram do portão.
meu cavalo virou à esquerda
atravessou correndo a cerca
caiu e
morreu
lá mesmo
com 7/5 no páreo.
quando conto essa história
as pessoas não dizem
nada.
às vezes não há nada a dizer
sobre
a morte.
me dizia que esta era uma aposta garantida.
apostei mil para ganhar.
o cavalo estava cotado em primeiro
nos três quartos de milha.
a campainha tocou e eles
saíram do portão.
meu cavalo virou à esquerda
atravessou correndo a cerca
caiu e
morreu
lá mesmo
com 7/5 no páreo.
quando conto essa história
as pessoas não dizem
nada.
às vezes não há nada a dizer
sobre
a morte.
703
Charles Bukowski
Homem Cortando A Grama do Outro Lado Da Rua
eu o vejo seguindo em frente com sua máquina.
ah, você é estúpido demais para ser cortado como grama,
você é estúpido demais para qualquer coisa o violar -
as garotas não usarão suas lâminas em você
elas não querem
que suas lâminas afiadas sejam desperdiçadas em você,
você está interessado apenas em partidas de beisebol e
filmes de faroeste e lâminas cortadoras de grama.
você não pode ficar com uma só das minhas lâminas?
aqui está uma bem velha - enfiada em mim em 1955,
agora está morta, não o machucará muito.
não posso lhe dar esta última -
eu ainda não posso arrancá-la,
mas aqui está esta outra de 1964, que tal arrancar
esta de 1964 de mim?
homem cortando a grama do outro lado da rua
você não tem uma lâmina enfiada em suas entranhas
onde o amor o largou?
homem cortando a grama do outro lado da rua
você não tem uma lâmina enfiada bem fundo em seu coração
onde o amor o largou?
homem cortando a grama do outro lado da rua
você não vê as garotas passeando pelas calçadas agora
com lâminas em suas bolsas?
você não vê seus lindos olhos e vestidos e
cabelos?
você não vê suas lindas bundas e joelhos e
tornozelos?
homem cortando a grama do outro lado da rua
isso é tudo o que você consegue enxergar - essas lâminas de cortar
grama?
isso é tudo o que você consegue ouvir - o ronco do cortador de grama?
eu posso enxergar o caminho todo até a Itália
o Japão
as Honduras
eu posso ver as garotinhas afiando suas lâminas
pela manhã e ao meio-dia e à noite, e
especialmente à noite, ah,
especialmente à noite.
ah, você é estúpido demais para ser cortado como grama,
você é estúpido demais para qualquer coisa o violar -
as garotas não usarão suas lâminas em você
elas não querem
que suas lâminas afiadas sejam desperdiçadas em você,
você está interessado apenas em partidas de beisebol e
filmes de faroeste e lâminas cortadoras de grama.
você não pode ficar com uma só das minhas lâminas?
aqui está uma bem velha - enfiada em mim em 1955,
agora está morta, não o machucará muito.
não posso lhe dar esta última -
eu ainda não posso arrancá-la,
mas aqui está esta outra de 1964, que tal arrancar
esta de 1964 de mim?
homem cortando a grama do outro lado da rua
você não tem uma lâmina enfiada em suas entranhas
onde o amor o largou?
homem cortando a grama do outro lado da rua
você não tem uma lâmina enfiada bem fundo em seu coração
onde o amor o largou?
homem cortando a grama do outro lado da rua
você não vê as garotas passeando pelas calçadas agora
com lâminas em suas bolsas?
você não vê seus lindos olhos e vestidos e
cabelos?
você não vê suas lindas bundas e joelhos e
tornozelos?
homem cortando a grama do outro lado da rua
isso é tudo o que você consegue enxergar - essas lâminas de cortar
grama?
isso é tudo o que você consegue ouvir - o ronco do cortador de grama?
eu posso enxergar o caminho todo até a Itália
o Japão
as Honduras
eu posso ver as garotinhas afiando suas lâminas
pela manhã e ao meio-dia e à noite, e
especialmente à noite, ah,
especialmente à noite.
1 162
Charles Bukowski
junto a uma vitrine
junto a uma vitrine
cachorros e anjos não estão
muito distantes.
eu vou muito a esse lugarzinho
para comer
por volta das 2:30 da tarde
porque todas as pessoas que comem
lá são completamente sãs,
contentes por estarem simplesmente vivas e
comendo sua comida
junto a uma vitrine
que dá boas-vindas ao sol
mas não deixa os carros e
as calçadas entrarem.
atravessando a rua há um bar
chinês de striptease
aberto já às 2:30 da
tarde
está pintado de
um pobre e pálido
azul.
dão-nos quantos cafés
de graça pudermos tomar
e todos nos sentamos e bebemos em silêncio
o café preto e forte.
é bom poder ficar em algum lugar
em público às 2:30 da tarde
sem que lhe arranquem a carne
de seus ossos.
ninguém nos incomoda.
não incomodamos ninguém.
anjos e cachorros não estão
muito distantes
às 2:30 da tarde.
tenho minha mesa favorita
junto da janela
e depois de haver terminado
eu empilho os pratos, tigelas,
a xícara, Os talheres etc.
direitinho
em uma pilha bem arrumada -
minha oferenda à
garçonete idosa -
comida e tempo
íntegros,
e o sol desgraçado
lá fora
fazendo seu serviço
para cima e
para baixo.
cachorros e anjos não estão
muito distantes.
eu vou muito a esse lugarzinho
para comer
por volta das 2:30 da tarde
porque todas as pessoas que comem
lá são completamente sãs,
contentes por estarem simplesmente vivas e
comendo sua comida
junto a uma vitrine
que dá boas-vindas ao sol
mas não deixa os carros e
as calçadas entrarem.
atravessando a rua há um bar
chinês de striptease
aberto já às 2:30 da
tarde
está pintado de
um pobre e pálido
azul.
dão-nos quantos cafés
de graça pudermos tomar
e todos nos sentamos e bebemos em silêncio
o café preto e forte.
é bom poder ficar em algum lugar
em público às 2:30 da tarde
sem que lhe arranquem a carne
de seus ossos.
ninguém nos incomoda.
não incomodamos ninguém.
anjos e cachorros não estão
muito distantes
às 2:30 da tarde.
tenho minha mesa favorita
junto da janela
e depois de haver terminado
eu empilho os pratos, tigelas,
a xícara, Os talheres etc.
direitinho
em uma pilha bem arrumada -
minha oferenda à
garçonete idosa -
comida e tempo
íntegros,
e o sol desgraçado
lá fora
fazendo seu serviço
para cima e
para baixo.
1 081
Charles Bukowski
junto a uma vitrine
junto a uma vitrine
cachorros e anjos não estão
muito distantes.
eu vou muito a esse lugarzinho
para comer
por volta das 2:30 da tarde
porque todas as pessoas que comem
lá são completamente sãs,
contentes por estarem simplesmente vivas e
comendo sua comida
junto a uma vitrine
que dá boas-vindas ao sol
mas não deixa os carros e
as calçadas entrarem.
atravessando a rua há um bar
chinês de striptease
aberto já às 2:30 da
tarde
está pintado de
um pobre e pálido
azul.
dão-nos quantos cafés
de graça pudermos tomar
e todos nos sentamos e bebemos em silêncio
o café preto e forte.
é bom poder ficar em algum lugar
em público às 2:30 da tarde
sem que lhe arranquem a carne
de seus ossos.
ninguém nos incomoda.
não incomodamos ninguém.
anjos e cachorros não estão
muito distantes
às 2:30 da tarde.
tenho minha mesa favorita
junto da janela
e depois de haver terminado
eu empilho os pratos, tigelas,
a xícara, Os talheres etc.
direitinho
em uma pilha bem arrumada -
minha oferenda à
garçonete idosa -
comida e tempo
íntegros,
e o sol desgraçado
lá fora
fazendo seu serviço
para cima e
para baixo.
cachorros e anjos não estão
muito distantes.
eu vou muito a esse lugarzinho
para comer
por volta das 2:30 da tarde
porque todas as pessoas que comem
lá são completamente sãs,
contentes por estarem simplesmente vivas e
comendo sua comida
junto a uma vitrine
que dá boas-vindas ao sol
mas não deixa os carros e
as calçadas entrarem.
atravessando a rua há um bar
chinês de striptease
aberto já às 2:30 da
tarde
está pintado de
um pobre e pálido
azul.
dão-nos quantos cafés
de graça pudermos tomar
e todos nos sentamos e bebemos em silêncio
o café preto e forte.
é bom poder ficar em algum lugar
em público às 2:30 da tarde
sem que lhe arranquem a carne
de seus ossos.
ninguém nos incomoda.
não incomodamos ninguém.
anjos e cachorros não estão
muito distantes
às 2:30 da tarde.
tenho minha mesa favorita
junto da janela
e depois de haver terminado
eu empilho os pratos, tigelas,
a xícara, Os talheres etc.
direitinho
em uma pilha bem arrumada -
minha oferenda à
garçonete idosa -
comida e tempo
íntegros,
e o sol desgraçado
lá fora
fazendo seu serviço
para cima e
para baixo.
1 081
Charles Bukowski
Paz
perto da mesa de canto no
café
senta-se um casal de
meia-idade.
já terminaram seu
jantar
e cada um deles bebe uma
cerveja.
são 9 da noite.
ela fuma um
cigarro.
então ele diz alguma coisa.
ela concorda.
depois fala.
ele sorri, move a
mão.
os dois estão
sossegados.
através das persianas junto à
sua mesa
luzes fulgurantes de néon vermelho
não param de
piscar.
não há guerra nenhuma.
não há inferno nenhum.
então ele ergue a sua garrafa de
cerveja.
é verde.
leva-a aos lábios,
inclina-a.
é uma pequena coroa.
o cotovelo esquerdo dela está
sobre a mesa
e em sua mão
ela segura o
cigarro
entre o polegar e o
indicador
e
enquanto ela o
observa
as ruas lá fora
florescem
sob a
noite.
café
senta-se um casal de
meia-idade.
já terminaram seu
jantar
e cada um deles bebe uma
cerveja.
são 9 da noite.
ela fuma um
cigarro.
então ele diz alguma coisa.
ela concorda.
depois fala.
ele sorri, move a
mão.
os dois estão
sossegados.
através das persianas junto à
sua mesa
luzes fulgurantes de néon vermelho
não param de
piscar.
não há guerra nenhuma.
não há inferno nenhum.
então ele ergue a sua garrafa de
cerveja.
é verde.
leva-a aos lábios,
inclina-a.
é uma pequena coroa.
o cotovelo esquerdo dela está
sobre a mesa
e em sua mão
ela segura o
cigarro
entre o polegar e o
indicador
e
enquanto ela o
observa
as ruas lá fora
florescem
sob a
noite.
1 328
Charles Bukowski
Não é Muito
suponho que assim como outros
eu tenha atravessado ferro e fogo,
o amor que deu errado,
quedas de cabeça, bêbado no mar,
e escutei o simples rumor da água escorrendo
nos encanamentos
e desejei afogar-me
mas simplesmente não conseguia aguentar os outros
carregando meu corpo três lances de escada abaixo
até os curiosos boquiabertos;
a psique foi queimada
e nos deixou insensíveis,
o mundo tem estado mais escuro que um apagão
dentro de um cubículo cheio de morcegos famintos,
e o uísque e o vinho penetraram em nossas veias
quando o sangue estava fraco demais para continuar;
e isso acontecerá com outros,
e nossos poucos bons momentos serão raros
porque temos um senso crítico
e não somos fáceis de enganar com risadas;
minúsculos insetos rastejam em nossa tela
mas podemos enxergar através dela
uma paisagem devastada
e que eles possam ter sua vez;
só pedimos que leopardos guardem
nossos ralos sonhos.
certa vez estive internado em um
hospital branco
para os moribundos e os egos
moribundos, onde algum deus mijou uma chuva de
razões para fazer com que as coisas crescessem
só para morrer, onde de joelhos
eu rezei por LUZ,
eu rezei por I*u*z,
e rezando
arrastei-me como uma lesma cega para a
teia
na qual fios de vento se enroscaram em minha mente
e morri de piedade
pelo Homem, por mim,
em uma cruz sem pregos,
olhando atemorizado enquanto
o porco arrota em seu chiqueiro, peida,
pisca e come.
eu tenha atravessado ferro e fogo,
o amor que deu errado,
quedas de cabeça, bêbado no mar,
e escutei o simples rumor da água escorrendo
nos encanamentos
e desejei afogar-me
mas simplesmente não conseguia aguentar os outros
carregando meu corpo três lances de escada abaixo
até os curiosos boquiabertos;
a psique foi queimada
e nos deixou insensíveis,
o mundo tem estado mais escuro que um apagão
dentro de um cubículo cheio de morcegos famintos,
e o uísque e o vinho penetraram em nossas veias
quando o sangue estava fraco demais para continuar;
e isso acontecerá com outros,
e nossos poucos bons momentos serão raros
porque temos um senso crítico
e não somos fáceis de enganar com risadas;
minúsculos insetos rastejam em nossa tela
mas podemos enxergar através dela
uma paisagem devastada
e que eles possam ter sua vez;
só pedimos que leopardos guardem
nossos ralos sonhos.
certa vez estive internado em um
hospital branco
para os moribundos e os egos
moribundos, onde algum deus mijou uma chuva de
razões para fazer com que as coisas crescessem
só para morrer, onde de joelhos
eu rezei por LUZ,
eu rezei por I*u*z,
e rezando
arrastei-me como uma lesma cega para a
teia
na qual fios de vento se enroscaram em minha mente
e morri de piedade
pelo Homem, por mim,
em uma cruz sem pregos,
olhando atemorizado enquanto
o porco arrota em seu chiqueiro, peida,
pisca e come.
1 065
Charles Bukowski
Encurralado
bem, eles diziam que tudo terminaria
assim: velho. o talento perdido. tateando às cegas em busca
da palavra
ouvindo os passos
na escuridão, volto-me
para olhar atrás de mim...
ainda não, velho cão...
logo em breve.
agora
eles se sentam falando sobre
mim: “sim, acontece, ele já
era... é
triste...”
“ele nunca teve muito, não é
mesmo?”
“bem, não, mas agora...”
agora
eles celebram minha derrocada
em tavernas que há muito já não
frequento.
agora
bebo sozinho
junto a essa máquina que mal
funciona
enquanto as sombras assumem
formas
combato retirando-me
lentamente
agora
minha antiga promessa
definha
definha
agora
acendendo novos cigarros
servindo mais
bebidas
tem sido um belo
combate
ainda
é.
assim: velho. o talento perdido. tateando às cegas em busca
da palavra
ouvindo os passos
na escuridão, volto-me
para olhar atrás de mim...
ainda não, velho cão...
logo em breve.
agora
eles se sentam falando sobre
mim: “sim, acontece, ele já
era... é
triste...”
“ele nunca teve muito, não é
mesmo?”
“bem, não, mas agora...”
agora
eles celebram minha derrocada
em tavernas que há muito já não
frequento.
agora
bebo sozinho
junto a essa máquina que mal
funciona
enquanto as sombras assumem
formas
combato retirando-me
lentamente
agora
minha antiga promessa
definha
definha
agora
acendendo novos cigarros
servindo mais
bebidas
tem sido um belo
combate
ainda
é.
1 334
Charles Bukowski
Encurralado
bem, eles diziam que tudo terminaria
assim: velho. o talento perdido. tateando às cegas em busca
da palavra
ouvindo os passos
na escuridão, volto-me
para olhar atrás de mim...
ainda não, velho cão...
logo em breve.
agora
eles se sentam falando sobre
mim: “sim, acontece, ele já
era... é
triste...”
“ele nunca teve muito, não é
mesmo?”
“bem, não, mas agora...”
agora
eles celebram minha derrocada
em tavernas que há muito já não
frequento.
agora
bebo sozinho
junto a essa máquina que mal
funciona
enquanto as sombras assumem
formas
combato retirando-me
lentamente
agora
minha antiga promessa
definha
definha
agora
acendendo novos cigarros
servindo mais
bebidas
tem sido um belo
combate
ainda
é.
assim: velho. o talento perdido. tateando às cegas em busca
da palavra
ouvindo os passos
na escuridão, volto-me
para olhar atrás de mim...
ainda não, velho cão...
logo em breve.
agora
eles se sentam falando sobre
mim: “sim, acontece, ele já
era... é
triste...”
“ele nunca teve muito, não é
mesmo?”
“bem, não, mas agora...”
agora
eles celebram minha derrocada
em tavernas que há muito já não
frequento.
agora
bebo sozinho
junto a essa máquina que mal
funciona
enquanto as sombras assumem
formas
combato retirando-me
lentamente
agora
minha antiga promessa
definha
definha
agora
acendendo novos cigarros
servindo mais
bebidas
tem sido um belo
combate
ainda
é.
1 334
Charles Bukowski
Globulárias e Latadas
claro, posso morrer nos próximos dez minutos
e estou pronto para isso
mas o que realmente me preocupa é
que meu editor venha a se aposentar
ainda que ele seja dez anos mais jovem do que
eu.
tudo começou 25 anos atrás (eu estava na madura
faixa dos 45)
quando começamos nossa profana aliança para
testar as águas literárias,
nenhum de nós sendo muito
conhecido.
acho que tivemos um pouco de sorte e que ainda nos
resta um pouco da
mesma
as possibilidades são bem favoráveis
para que ele opte por tardes quentes e
prazenteiras
no jardim
muito antes de mim.
a escrita é sua própria bebedeira
enquanto que publicar e editar,
esforçar-se por pagar as contas
carrega consigo seu próprio
atrito
que ainda inclui lidar com
os faniquitos tolos e as exigências
de tantos
assim chamados gênios extravagantes que nada
são.
não vou culpá-lo por dar o
fora
e espero que me mande fotos de sua
Alameda Rosa, de sua
Avenida Gardênia.
terei que procurar outros
promulgadores?
aquele camarada com o chapéu de pelúcia
russo?
ou aquela besta no leste
com todos aqueles pelos
saindo dos ouvidos, com aqueles lábios
úmidos e gordurosos?
ou será que meu editor
ao sair do mundo de Globulárias e
latadas
passará a
maquinaria
de seu antigo negócio a um
primo, uma
filha ou a
algum poundiano do Grande
Sul?
ou simplesmente transmitirá seu legado
a um
funcionário do despacho
que ressurgirá como
Lázaro,
manuseando uma importância
recém-encontrada?
alguém pode imaginar coisas
terríveis:
“Sr. Chinaski, seus textos
devem agora ser submetidos em
forma de Rondó
e
digitados
em espaço três em papel de
arroz”.
o poder corrompe,
a vida aborta
e tudo o que
lhe resta
é um
bocado de
verrugas.
“não, não, sr. Chinaski:
tem que ser em Rondó!”
“ei, cara”, perguntarei,
“você já ouviu falar
dos anos 30?”
“os anos 30? o que é
isso?”
meu atual editor
e eu
às vezes
discutíamos os anos 30,
a Depressão
e
alguns dos truques que
nos ensinaram –
como perseverar apoiado em quase
nada
e como seguir em
frente.
bem, John, se isso acontecer aproveite seu
ócio para
se dedicar à agricultura
cultivar e viver ao ar livre
no meio do
mato, água apenas
cedo pela manhã, plante
com folga para desencorajar
as ervas daninhas
e
como faço com minha escrita:
use muito
adubo.
e obrigado
por ter me ajeitado aqui no
5124 da DeLongpre Avenue
em algum lugar entre o
alcoolismo e a
loucura.
juntos nós
lançamos o desafio
e até os dias de hoje
há aceitadores
para serem
encontrados
enquanto o fogo canta
por entre as
árvores.
e estou pronto para isso
mas o que realmente me preocupa é
que meu editor venha a se aposentar
ainda que ele seja dez anos mais jovem do que
eu.
tudo começou 25 anos atrás (eu estava na madura
faixa dos 45)
quando começamos nossa profana aliança para
testar as águas literárias,
nenhum de nós sendo muito
conhecido.
acho que tivemos um pouco de sorte e que ainda nos
resta um pouco da
mesma
as possibilidades são bem favoráveis
para que ele opte por tardes quentes e
prazenteiras
no jardim
muito antes de mim.
a escrita é sua própria bebedeira
enquanto que publicar e editar,
esforçar-se por pagar as contas
carrega consigo seu próprio
atrito
que ainda inclui lidar com
os faniquitos tolos e as exigências
de tantos
assim chamados gênios extravagantes que nada
são.
não vou culpá-lo por dar o
fora
e espero que me mande fotos de sua
Alameda Rosa, de sua
Avenida Gardênia.
terei que procurar outros
promulgadores?
aquele camarada com o chapéu de pelúcia
russo?
ou aquela besta no leste
com todos aqueles pelos
saindo dos ouvidos, com aqueles lábios
úmidos e gordurosos?
ou será que meu editor
ao sair do mundo de Globulárias e
latadas
passará a
maquinaria
de seu antigo negócio a um
primo, uma
filha ou a
algum poundiano do Grande
Sul?
ou simplesmente transmitirá seu legado
a um
funcionário do despacho
que ressurgirá como
Lázaro,
manuseando uma importância
recém-encontrada?
alguém pode imaginar coisas
terríveis:
“Sr. Chinaski, seus textos
devem agora ser submetidos em
forma de Rondó
e
digitados
em espaço três em papel de
arroz”.
o poder corrompe,
a vida aborta
e tudo o que
lhe resta
é um
bocado de
verrugas.
“não, não, sr. Chinaski:
tem que ser em Rondó!”
“ei, cara”, perguntarei,
“você já ouviu falar
dos anos 30?”
“os anos 30? o que é
isso?”
meu atual editor
e eu
às vezes
discutíamos os anos 30,
a Depressão
e
alguns dos truques que
nos ensinaram –
como perseverar apoiado em quase
nada
e como seguir em
frente.
bem, John, se isso acontecer aproveite seu
ócio para
se dedicar à agricultura
cultivar e viver ao ar livre
no meio do
mato, água apenas
cedo pela manhã, plante
com folga para desencorajar
as ervas daninhas
e
como faço com minha escrita:
use muito
adubo.
e obrigado
por ter me ajeitado aqui no
5124 da DeLongpre Avenue
em algum lugar entre o
alcoolismo e a
loucura.
juntos nós
lançamos o desafio
e até os dias de hoje
há aceitadores
para serem
encontrados
enquanto o fogo canta
por entre as
árvores.
938
Charles Bukowski
A Vida na Agência De Correios
eu me agacho diante desse labirinto
de caixotes de madeira
enfiando pequenos cartões e cartas
endereçados a inexistentes
vidas
enquanto a cidade toda comemora
e fode pelas ruas e canta
com os pássaros.
eu fico parado debaixo de uma fraca luz elétrica
e mando mensagens para um Garcia falecido,
e tenho idade suficiente para morrer
(sempre tive idade suficiente para morrer)
enquanto fico parado diante dessa bagunça de madeira
e alimento sua fome muda;
este é meu trabalho, meu aluguel, minha puta, meus sapatos,
o escorrer da cor dos meus olhos;
chefe, foda-se, você me achou,
minha boca franzida,
minhas mãos enrugadas contra meu
peito branco com manchas vermelhas;
a rua é tão dura, ao menos
dê-me o descanso pelo qual paguei uma vida,
e quando o Gavião chegar
eu o encontrarei no meio do caminho,
nos abraçaremos lá onde o papel de parede está rasgado
onde a chuva entrou.
agora estou parado diante de um cemitério de olhos e bocas
de cabeças esvaziadas para sombras
e sombras entram
como ratos e me olham.
eu remexo em cartões e cartas com números secretos enquanto
agentes cortam os fios e testam meu batimento cardíaco,
para escutar sanidade
ou alegria ou amor, e sem acharem nada,
satisfeitos, vão embora;
flap, flap, flap, estou parado diante do labirinto de madeira
e minha alma desfalece
e além do labirinto há uma janela
com sons, grama, caminhada, torres, cães,
mas aqui estou e aqui fico,
enviando cartas com minha própria demissão;
e eu estou cansado de me importar: ir embora, largar tudo,
e tocar fogo.
de caixotes de madeira
enfiando pequenos cartões e cartas
endereçados a inexistentes
vidas
enquanto a cidade toda comemora
e fode pelas ruas e canta
com os pássaros.
eu fico parado debaixo de uma fraca luz elétrica
e mando mensagens para um Garcia falecido,
e tenho idade suficiente para morrer
(sempre tive idade suficiente para morrer)
enquanto fico parado diante dessa bagunça de madeira
e alimento sua fome muda;
este é meu trabalho, meu aluguel, minha puta, meus sapatos,
o escorrer da cor dos meus olhos;
chefe, foda-se, você me achou,
minha boca franzida,
minhas mãos enrugadas contra meu
peito branco com manchas vermelhas;
a rua é tão dura, ao menos
dê-me o descanso pelo qual paguei uma vida,
e quando o Gavião chegar
eu o encontrarei no meio do caminho,
nos abraçaremos lá onde o papel de parede está rasgado
onde a chuva entrou.
agora estou parado diante de um cemitério de olhos e bocas
de cabeças esvaziadas para sombras
e sombras entram
como ratos e me olham.
eu remexo em cartões e cartas com números secretos enquanto
agentes cortam os fios e testam meu batimento cardíaco,
para escutar sanidade
ou alegria ou amor, e sem acharem nada,
satisfeitos, vão embora;
flap, flap, flap, estou parado diante do labirinto de madeira
e minha alma desfalece
e além do labirinto há uma janela
com sons, grama, caminhada, torres, cães,
mas aqui estou e aqui fico,
enviando cartas com minha própria demissão;
e eu estou cansado de me importar: ir embora, largar tudo,
e tocar fogo.
718
Charles Bukowski
Inacreditável
tenho ido às corridas há
décadas
mas vi algo novo
hoje.
2 cavalos derrubaram seus cavaleiros.
normalmente quando um cavalo derruba
o cavaleiro dele ou dela
ele (ou ela) continua a correr
na mesma direção que
os outros cavalos.
mas
dessa vez
os dois cavalos se viraram
e começaram a correr na
direção contrária.
em outras palavras,
na direção do bloco
que estava vindo.
era uma pista de 5/8 de
milha
e eles estavam se aproximando bem
rápido.
o locutor avisou
os cavaleiros
e quando eles passaram
pela última curva
na direção da reta
lá vieram os outros
2 cavalos bem na direção
deles.
não houve gritos.
houve um silêncio
mortal.
dava para ouvir as ferraduras
pisoteando a terra.
então um dos cavalos desviou
em uma curva bem aberta
e saiu da
pista.
o outro avançou direto
naquilo
e atravessou direto
entre os outros
cavalos.
os outros cavalos alcançaram
a chegada.
o meu havia ganhado.
mas os juízes procederam a
um inquérito e foi
declarada
anulação.
eu estava
me lixando.
continuava a ver aquele cavalo
disparando pelo prado
e passando direto,
intocado.
um milagre.
décadas
mas vi algo novo
hoje.
2 cavalos derrubaram seus cavaleiros.
normalmente quando um cavalo derruba
o cavaleiro dele ou dela
ele (ou ela) continua a correr
na mesma direção que
os outros cavalos.
mas
dessa vez
os dois cavalos se viraram
e começaram a correr na
direção contrária.
em outras palavras,
na direção do bloco
que estava vindo.
era uma pista de 5/8 de
milha
e eles estavam se aproximando bem
rápido.
o locutor avisou
os cavaleiros
e quando eles passaram
pela última curva
na direção da reta
lá vieram os outros
2 cavalos bem na direção
deles.
não houve gritos.
houve um silêncio
mortal.
dava para ouvir as ferraduras
pisoteando a terra.
então um dos cavalos desviou
em uma curva bem aberta
e saiu da
pista.
o outro avançou direto
naquilo
e atravessou direto
entre os outros
cavalos.
os outros cavalos alcançaram
a chegada.
o meu havia ganhado.
mas os juízes procederam a
um inquérito e foi
declarada
anulação.
eu estava
me lixando.
continuava a ver aquele cavalo
disparando pelo prado
e passando direto,
intocado.
um milagre.
1 038
Charles Bukowski
lingua de boi
eu não havia comido por alguns dias
e havia mencionado isso várias vezes
e havia chegado à casa daquele poeta
onde uma mulher minúscula tomava conta dele.
ele era um cara grande e barbado com um cérebro duas vezes o tamanho
do
mundo, e havíamos passado a noite toda sem dormir
escutando gravações, conversando, fumando, tomando pílulas.
sua mulher havia se deitado há horas.
eram 10 da manhã
e a luz do sol entrava sem ligar se não havíamos dormido
e quando vi
ele saía da cozinha
dizendo: "Hei, Chinaski! OLHE!"
não conseguia enxergar direito -
primeiro parecia uma bota amarela cheia d'água
e depois parecia um peixe sem cabeça
e depois parecia o caralho de um elefante,
e ele fez aquilo chegar mais perto:
"língua de boi! língua de boi!"
ele segurou com o braço estendido
bem na minha cara:
"LÍNGUA DE BOI! LÍNGUA DE BOI!"
e era, e eu nunca havia imaginado que a língua de um novilho fosse tão
grande e gorda,
havia sido um estupro,
haviam entrado fundo na garganta da criatura
e arrancado para fora, e estava ali agora:
"LÍNGUA DE BOI!"
e era amarela e rosada
e
a coisa se havia engasgado em si mesma
só mais uma atrocidade razoável e sensível
cometida por homens inteligentes.
eu não era um homem inteligente. eu
consegui chegar à pia e começaram as
náuseas.
estúpido, é claro, estúpido, era só carne morta,
sem sentir nada agora, a dor há tempos havia escorrido pelo fundo do
mundo
mas continuei a vomitar, terminei, limpei a pia
e voltei
"desculpe", eu disse
"tudo certo, esqueci sobre seu estômago."
então ele levou a língua de volta para a cozinha
e depois retornou à sala e conversamos sobre isso e aquilo
e em uns dez minutos
ouvi a água fervendo e senti o cheiro da língua a cozinhar
naquela água borbulhante sem boca ou olhos
ou nome, era uma língua enorme dando voltas e mais voltas
debaixo daquela tampa
e fedendo
tornando-se língua cozida
tornando-se mais deliciosa e aromática
mas como ele era um sujeito agradável
eu pedi para desligar aquilo por favor.
era uma manhã fria e senti calafrios junto à porta
enquanto me preparava para ir embora
o ar fresco era bom
eu podia sentir as pernas o coração os pulmões
começando a vislumbrar uma outra chance.
conversamos sobre um livro de poemas que ele me estava ajudando
a editar, então eu disse "até logo, vamos
ficar em contato", e não apertamos as mãos, algo que nenhum de nós
gostava de fazer
e subi pelo caminho até meu carro e dei partida
e enquanto esquentava imaginei-o voltando para
a cozinha por trás da massa de barba negra,
aqueles olhos de diamante azul brilhando no meio
de todo aquele cabelo negro
aqueles olhos de diamante azul inteligentes e felizes
sabendo tudo (quase), e então
acendendo novamente o fogo
a água começando a borbulhar e assobiar
a língua dando voltas lá dentro
mais uma vez.
e eu, estúpido em meu carro, afastei-me do
meio-fio, deixei-o rodar através da manhã amarela,
descendo pelas curvas e encostas,
todo aquele verde crescendo lindamente ao longo da beira
do caminho.
bem,
graças a Deus ele não me convidou para ficar para
jantar, quando cheguei em casa folheei algumas
reproduções de
Renoir, Pissarro e Diaz,
então comi um ovo
cozido.
e havia mencionado isso várias vezes
e havia chegado à casa daquele poeta
onde uma mulher minúscula tomava conta dele.
ele era um cara grande e barbado com um cérebro duas vezes o tamanho
do
mundo, e havíamos passado a noite toda sem dormir
escutando gravações, conversando, fumando, tomando pílulas.
sua mulher havia se deitado há horas.
eram 10 da manhã
e a luz do sol entrava sem ligar se não havíamos dormido
e quando vi
ele saía da cozinha
dizendo: "Hei, Chinaski! OLHE!"
não conseguia enxergar direito -
primeiro parecia uma bota amarela cheia d'água
e depois parecia um peixe sem cabeça
e depois parecia o caralho de um elefante,
e ele fez aquilo chegar mais perto:
"língua de boi! língua de boi!"
ele segurou com o braço estendido
bem na minha cara:
"LÍNGUA DE BOI! LÍNGUA DE BOI!"
e era, e eu nunca havia imaginado que a língua de um novilho fosse tão
grande e gorda,
havia sido um estupro,
haviam entrado fundo na garganta da criatura
e arrancado para fora, e estava ali agora:
"LÍNGUA DE BOI!"
e era amarela e rosada
e
a coisa se havia engasgado em si mesma
só mais uma atrocidade razoável e sensível
cometida por homens inteligentes.
eu não era um homem inteligente. eu
consegui chegar à pia e começaram as
náuseas.
estúpido, é claro, estúpido, era só carne morta,
sem sentir nada agora, a dor há tempos havia escorrido pelo fundo do
mundo
mas continuei a vomitar, terminei, limpei a pia
e voltei
"desculpe", eu disse
"tudo certo, esqueci sobre seu estômago."
então ele levou a língua de volta para a cozinha
e depois retornou à sala e conversamos sobre isso e aquilo
e em uns dez minutos
ouvi a água fervendo e senti o cheiro da língua a cozinhar
naquela água borbulhante sem boca ou olhos
ou nome, era uma língua enorme dando voltas e mais voltas
debaixo daquela tampa
e fedendo
tornando-se língua cozida
tornando-se mais deliciosa e aromática
mas como ele era um sujeito agradável
eu pedi para desligar aquilo por favor.
era uma manhã fria e senti calafrios junto à porta
enquanto me preparava para ir embora
o ar fresco era bom
eu podia sentir as pernas o coração os pulmões
começando a vislumbrar uma outra chance.
conversamos sobre um livro de poemas que ele me estava ajudando
a editar, então eu disse "até logo, vamos
ficar em contato", e não apertamos as mãos, algo que nenhum de nós
gostava de fazer
e subi pelo caminho até meu carro e dei partida
e enquanto esquentava imaginei-o voltando para
a cozinha por trás da massa de barba negra,
aqueles olhos de diamante azul brilhando no meio
de todo aquele cabelo negro
aqueles olhos de diamante azul inteligentes e felizes
sabendo tudo (quase), e então
acendendo novamente o fogo
a água começando a borbulhar e assobiar
a língua dando voltas lá dentro
mais uma vez.
e eu, estúpido em meu carro, afastei-me do
meio-fio, deixei-o rodar através da manhã amarela,
descendo pelas curvas e encostas,
todo aquele verde crescendo lindamente ao longo da beira
do caminho.
bem,
graças a Deus ele não me convidou para ficar para
jantar, quando cheguei em casa folheei algumas
reproduções de
Renoir, Pissarro e Diaz,
então comi um ovo
cozido.
1 176
Charles Bukowski
lingua de boi
eu não havia comido por alguns dias
e havia mencionado isso várias vezes
e havia chegado à casa daquele poeta
onde uma mulher minúscula tomava conta dele.
ele era um cara grande e barbado com um cérebro duas vezes o tamanho
do
mundo, e havíamos passado a noite toda sem dormir
escutando gravações, conversando, fumando, tomando pílulas.
sua mulher havia se deitado há horas.
eram 10 da manhã
e a luz do sol entrava sem ligar se não havíamos dormido
e quando vi
ele saía da cozinha
dizendo: "Hei, Chinaski! OLHE!"
não conseguia enxergar direito -
primeiro parecia uma bota amarela cheia d'água
e depois parecia um peixe sem cabeça
e depois parecia o caralho de um elefante,
e ele fez aquilo chegar mais perto:
"língua de boi! língua de boi!"
ele segurou com o braço estendido
bem na minha cara:
"LÍNGUA DE BOI! LÍNGUA DE BOI!"
e era, e eu nunca havia imaginado que a língua de um novilho fosse tão
grande e gorda,
havia sido um estupro,
haviam entrado fundo na garganta da criatura
e arrancado para fora, e estava ali agora:
"LÍNGUA DE BOI!"
e era amarela e rosada
e
a coisa se havia engasgado em si mesma
só mais uma atrocidade razoável e sensível
cometida por homens inteligentes.
eu não era um homem inteligente. eu
consegui chegar à pia e começaram as
náuseas.
estúpido, é claro, estúpido, era só carne morta,
sem sentir nada agora, a dor há tempos havia escorrido pelo fundo do
mundo
mas continuei a vomitar, terminei, limpei a pia
e voltei
"desculpe", eu disse
"tudo certo, esqueci sobre seu estômago."
então ele levou a língua de volta para a cozinha
e depois retornou à sala e conversamos sobre isso e aquilo
e em uns dez minutos
ouvi a água fervendo e senti o cheiro da língua a cozinhar
naquela água borbulhante sem boca ou olhos
ou nome, era uma língua enorme dando voltas e mais voltas
debaixo daquela tampa
e fedendo
tornando-se língua cozida
tornando-se mais deliciosa e aromática
mas como ele era um sujeito agradável
eu pedi para desligar aquilo por favor.
era uma manhã fria e senti calafrios junto à porta
enquanto me preparava para ir embora
o ar fresco era bom
eu podia sentir as pernas o coração os pulmões
começando a vislumbrar uma outra chance.
conversamos sobre um livro de poemas que ele me estava ajudando
a editar, então eu disse "até logo, vamos
ficar em contato", e não apertamos as mãos, algo que nenhum de nós
gostava de fazer
e subi pelo caminho até meu carro e dei partida
e enquanto esquentava imaginei-o voltando para
a cozinha por trás da massa de barba negra,
aqueles olhos de diamante azul brilhando no meio
de todo aquele cabelo negro
aqueles olhos de diamante azul inteligentes e felizes
sabendo tudo (quase), e então
acendendo novamente o fogo
a água começando a borbulhar e assobiar
a língua dando voltas lá dentro
mais uma vez.
e eu, estúpido em meu carro, afastei-me do
meio-fio, deixei-o rodar através da manhã amarela,
descendo pelas curvas e encostas,
todo aquele verde crescendo lindamente ao longo da beira
do caminho.
bem,
graças a Deus ele não me convidou para ficar para
jantar, quando cheguei em casa folheei algumas
reproduções de
Renoir, Pissarro e Diaz,
então comi um ovo
cozido.
e havia mencionado isso várias vezes
e havia chegado à casa daquele poeta
onde uma mulher minúscula tomava conta dele.
ele era um cara grande e barbado com um cérebro duas vezes o tamanho
do
mundo, e havíamos passado a noite toda sem dormir
escutando gravações, conversando, fumando, tomando pílulas.
sua mulher havia se deitado há horas.
eram 10 da manhã
e a luz do sol entrava sem ligar se não havíamos dormido
e quando vi
ele saía da cozinha
dizendo: "Hei, Chinaski! OLHE!"
não conseguia enxergar direito -
primeiro parecia uma bota amarela cheia d'água
e depois parecia um peixe sem cabeça
e depois parecia o caralho de um elefante,
e ele fez aquilo chegar mais perto:
"língua de boi! língua de boi!"
ele segurou com o braço estendido
bem na minha cara:
"LÍNGUA DE BOI! LÍNGUA DE BOI!"
e era, e eu nunca havia imaginado que a língua de um novilho fosse tão
grande e gorda,
havia sido um estupro,
haviam entrado fundo na garganta da criatura
e arrancado para fora, e estava ali agora:
"LÍNGUA DE BOI!"
e era amarela e rosada
e
a coisa se havia engasgado em si mesma
só mais uma atrocidade razoável e sensível
cometida por homens inteligentes.
eu não era um homem inteligente. eu
consegui chegar à pia e começaram as
náuseas.
estúpido, é claro, estúpido, era só carne morta,
sem sentir nada agora, a dor há tempos havia escorrido pelo fundo do
mundo
mas continuei a vomitar, terminei, limpei a pia
e voltei
"desculpe", eu disse
"tudo certo, esqueci sobre seu estômago."
então ele levou a língua de volta para a cozinha
e depois retornou à sala e conversamos sobre isso e aquilo
e em uns dez minutos
ouvi a água fervendo e senti o cheiro da língua a cozinhar
naquela água borbulhante sem boca ou olhos
ou nome, era uma língua enorme dando voltas e mais voltas
debaixo daquela tampa
e fedendo
tornando-se língua cozida
tornando-se mais deliciosa e aromática
mas como ele era um sujeito agradável
eu pedi para desligar aquilo por favor.
era uma manhã fria e senti calafrios junto à porta
enquanto me preparava para ir embora
o ar fresco era bom
eu podia sentir as pernas o coração os pulmões
começando a vislumbrar uma outra chance.
conversamos sobre um livro de poemas que ele me estava ajudando
a editar, então eu disse "até logo, vamos
ficar em contato", e não apertamos as mãos, algo que nenhum de nós
gostava de fazer
e subi pelo caminho até meu carro e dei partida
e enquanto esquentava imaginei-o voltando para
a cozinha por trás da massa de barba negra,
aqueles olhos de diamante azul brilhando no meio
de todo aquele cabelo negro
aqueles olhos de diamante azul inteligentes e felizes
sabendo tudo (quase), e então
acendendo novamente o fogo
a água começando a borbulhar e assobiar
a língua dando voltas lá dentro
mais uma vez.
e eu, estúpido em meu carro, afastei-me do
meio-fio, deixei-o rodar através da manhã amarela,
descendo pelas curvas e encostas,
todo aquele verde crescendo lindamente ao longo da beira
do caminho.
bem,
graças a Deus ele não me convidou para ficar para
jantar, quando cheguei em casa folheei algumas
reproduções de
Renoir, Pissarro e Diaz,
então comi um ovo
cozido.
1 176
Charles Bukowski
Canção de Amor Para a Mulher Que Vi Quarta-feira Nas Pistas De Corrida
lembrando Savannah 20 anos atrás
uma cama com dossel
e ruas cheias de capacetes e caçadores
coisas que fiz então
deixaram marcas;
ha ha, diz você,
mas elas voltam vivas enquanto compro pão
ou amarro o cadarço do sapato
e pouco importa
exceto que dá certo para mim
assim como as pernas daquela mulher deram certo para mim
assim como o sol dá certo para mim assim como dá certo para o cacto
e assim como você dá certo para mim
lendo este poema.
e as pernas daquela mulher caminham
enquanto as observo
e os cavalos na próxima corrida
e as montanhas ficam lá
observando
marcas e pernas de uma mulher
pule de 10 no número seis na ponta
e para longe no oceano
ou parado no parque
como uma estátua
eu a vejo
caminhando.
cavalos parados por toda parte:
conchas como de Savannah em meus bolsos:
eu amei você mulher
com certeza assim como eu a nomeei
ferrugem e areia e nylon.
você deu certo para mim
coisa selvagem.
uma cama com dossel
e ruas cheias de capacetes e caçadores
coisas que fiz então
deixaram marcas;
ha ha, diz você,
mas elas voltam vivas enquanto compro pão
ou amarro o cadarço do sapato
e pouco importa
exceto que dá certo para mim
assim como as pernas daquela mulher deram certo para mim
assim como o sol dá certo para mim assim como dá certo para o cacto
e assim como você dá certo para mim
lendo este poema.
e as pernas daquela mulher caminham
enquanto as observo
e os cavalos na próxima corrida
e as montanhas ficam lá
observando
marcas e pernas de uma mulher
pule de 10 no número seis na ponta
e para longe no oceano
ou parado no parque
como uma estátua
eu a vejo
caminhando.
cavalos parados por toda parte:
conchas como de Savannah em meus bolsos:
eu amei você mulher
com certeza assim como eu a nomeei
ferrugem e areia e nylon.
você deu certo para mim
coisa selvagem.
1 126
Charles Bukowski
Seis
10:30 da manhã
5 bebedores de café no Café Pickwick
os garotos que trabalham nas cocheiras
em Hollywood Park
dão voltas em suas cadeiras giratórias
juntos,
um, dois, três, quatro, cinco,
dão voltas
largando seus cafés que esfriam e seus
papos furados
para olhar uma garota que passa
e que chega para sentar-se em uma mesa separada.
dificilmente seria uma garota incomum,
apenas uma garota,
e um, dois, três, quatro,
quatro deles voltam a seus cafés;
o 50, um jovem loiro e saudável
continua a olhar
com seus olhos azuis belos e vazios.
então, enfim, ele retorna a seu café.
tem que ser mais do que parece, eu penso,
ah, sim, deixe-me ver,
eles estão pensando, essa aí é aquela que fodeu com Mick
atrás das cocheiras a noite passada.
sim, sim, é claro, eles a estão punindo
por não foder com eles.
garotos malvados; pequenos egos de bosta de cavalo.
todos eles acham que têm caralhos de garanhões.
"mais um café?", pergunta-me a garçonete.
"sim, obrigado", eu digo, pensando que eu deveria
dar uma olhada melhor
naquela garota.
5 bebedores de café no Café Pickwick
os garotos que trabalham nas cocheiras
em Hollywood Park
dão voltas em suas cadeiras giratórias
juntos,
um, dois, três, quatro, cinco,
dão voltas
largando seus cafés que esfriam e seus
papos furados
para olhar uma garota que passa
e que chega para sentar-se em uma mesa separada.
dificilmente seria uma garota incomum,
apenas uma garota,
e um, dois, três, quatro,
quatro deles voltam a seus cafés;
o 50, um jovem loiro e saudável
continua a olhar
com seus olhos azuis belos e vazios.
então, enfim, ele retorna a seu café.
tem que ser mais do que parece, eu penso,
ah, sim, deixe-me ver,
eles estão pensando, essa aí é aquela que fodeu com Mick
atrás das cocheiras a noite passada.
sim, sim, é claro, eles a estão punindo
por não foder com eles.
garotos malvados; pequenos egos de bosta de cavalo.
todos eles acham que têm caralhos de garanhões.
"mais um café?", pergunta-me a garçonete.
"sim, obrigado", eu digo, pensando que eu deveria
dar uma olhada melhor
naquela garota.
1 224
Charles Bukowski
Pode Ir Dando Adeus a Sua Bunda
eu finalmente o conheci. ele estava sentado em um velho roupão
e reclamou por 5 horas.
"olha," ele disse, "não confie em Krause,
Krause irá roubá-lo. ele me deve 10.000 dólares
e não tem jeito de eu arrancá-los
dele. um verdadeiro safado."
"Senhor", eu disse, "quando escreveu aquele primeiro romance,
tinha tanto humor, a verdade sempre é tão engraçada,
sabe, o jeito como as pessoas agem, como coisas mecânicas cegas,
matando sem razão, maravilhoso como conseguiu por tudo aquilo
no papel."
uma velha senhora entrou e serviu-lhe uma
xícara de chá. "eles arrebentaram minha motocicleta, roubaram meus
manuscritos,
me limparam. eles teriam me matado mas eu não estava
aqui. eles me chamaram de fascista, afirmaram que eu havia vendido os
planos
da Linha Maginot aos Krauts. agora, onde diabos eu poderia ter
conseguido os planos da Linha
Maginot?"
ele serviu-se de chá. ergueu a xícara. estava quente demais
ou algo assim. ele cuspiu tudo no tapete, um pouco em
meus sapatos e calças.
"Senhor", eu perguntei, "aquele primeiro romance, o senhor realmente
comeu sua própria
carne quando era um jovem escritor? estava tão
faminto assim? meu deus, que narrativa aquela, eu nunca
a esquecerei!"
"Martha!", ele chamou. "Martha!"
a velha senhora entrou.
"você esqueceu o limão e o açúcar, sua bruxa velha!"
a velha senhora saiu correndo
para pegar o limão e o açúcar.
"o governo reclama que eu lhe devo 70.000 dólares! eles não incomodam
Krause, o filho
da puta roda por aí em um Cadillac e tem uma propriedade
de cinco hectares. nunca confie em Krause. ele é um sanguessuga. ele
sugou
os corpos e talento de pelo menos 3 dúzias de escritores. ele é como uma
aranha
gigante, uma tarântula!
"Krause nunca me pediu nada..."
"se ele pedir, você pode ir dando adeus
a sua bunda!"
Martha entrou correndo com o limão e o açúcar.
"sua maldita puta sem vergonha! eu deveria chicotear sua bunda!"
"Senhor", eu disse, "o senhor é visto como
um dos mais poderosos escritores desde 1900."
"não confie em Krause! um sanguessuga!?"
ele se queixou por 5 horas. e eu ouvi. então sua cabeça caiu para trás,
sobre o encosto da sua cadeira de balanço, e eu vi aquele
famoso perfil de águia. então ele começou
a roncar.
ele era apenas um velho em um velho
roupão.
eu me levantei. Martha entrou.
"estou contente por ter tido uma chance de encontrá-lo",
disse a ela.
"tento lembrar-me de que ele já foi um grande escritor",
ela me disse.
"ele ainda tem um certo senso de humor",
disse a ela.
"eu não acho", ela disse,
"veja, eu sou
a mulher
dele."
"boa noite", eu
disse.
"boa noite", ela
respondeu.
e reclamou por 5 horas.
"olha," ele disse, "não confie em Krause,
Krause irá roubá-lo. ele me deve 10.000 dólares
e não tem jeito de eu arrancá-los
dele. um verdadeiro safado."
"Senhor", eu disse, "quando escreveu aquele primeiro romance,
tinha tanto humor, a verdade sempre é tão engraçada,
sabe, o jeito como as pessoas agem, como coisas mecânicas cegas,
matando sem razão, maravilhoso como conseguiu por tudo aquilo
no papel."
uma velha senhora entrou e serviu-lhe uma
xícara de chá. "eles arrebentaram minha motocicleta, roubaram meus
manuscritos,
me limparam. eles teriam me matado mas eu não estava
aqui. eles me chamaram de fascista, afirmaram que eu havia vendido os
planos
da Linha Maginot aos Krauts. agora, onde diabos eu poderia ter
conseguido os planos da Linha
Maginot?"
ele serviu-se de chá. ergueu a xícara. estava quente demais
ou algo assim. ele cuspiu tudo no tapete, um pouco em
meus sapatos e calças.
"Senhor", eu perguntei, "aquele primeiro romance, o senhor realmente
comeu sua própria
carne quando era um jovem escritor? estava tão
faminto assim? meu deus, que narrativa aquela, eu nunca
a esquecerei!"
"Martha!", ele chamou. "Martha!"
a velha senhora entrou.
"você esqueceu o limão e o açúcar, sua bruxa velha!"
a velha senhora saiu correndo
para pegar o limão e o açúcar.
"o governo reclama que eu lhe devo 70.000 dólares! eles não incomodam
Krause, o filho
da puta roda por aí em um Cadillac e tem uma propriedade
de cinco hectares. nunca confie em Krause. ele é um sanguessuga. ele
sugou
os corpos e talento de pelo menos 3 dúzias de escritores. ele é como uma
aranha
gigante, uma tarântula!
"Krause nunca me pediu nada..."
"se ele pedir, você pode ir dando adeus
a sua bunda!"
Martha entrou correndo com o limão e o açúcar.
"sua maldita puta sem vergonha! eu deveria chicotear sua bunda!"
"Senhor", eu disse, "o senhor é visto como
um dos mais poderosos escritores desde 1900."
"não confie em Krause! um sanguessuga!?"
ele se queixou por 5 horas. e eu ouvi. então sua cabeça caiu para trás,
sobre o encosto da sua cadeira de balanço, e eu vi aquele
famoso perfil de águia. então ele começou
a roncar.
ele era apenas um velho em um velho
roupão.
eu me levantei. Martha entrou.
"estou contente por ter tido uma chance de encontrá-lo",
disse a ela.
"tento lembrar-me de que ele já foi um grande escritor",
ela me disse.
"ele ainda tem um certo senso de humor",
disse a ela.
"eu não acho", ela disse,
"veja, eu sou
a mulher
dele."
"boa noite", eu
disse.
"boa noite", ela
respondeu.
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