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Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Única Vida

eu era como um daqueles doidos dos séculos passados, eu era
Romanticamente louco com a minha obsessão – ha, ha, ser um
escritor, eu escrevia noite e dia. eu escrevia até quando estava
adormecido
e na maioria das vezes eu escrevia quando estava bêbado, até quando não
estava escrevendo.

ah, aquelas dúzias de quartos baratos, minha barriga achatada contra
o cu, fui a 60 quilos numa carcaça de
um metro e oitenta. passei fome. haha, para poder escrever.
(esta é uma história verídica) (não são todas?) e
todos os meus escritos voltavam e afinal precisei
jogá-los fora porque
havia mais espaço de papel do que havia espaço de
mim
e continuei a escrever novas obras que continuaram
voltando e eu pensava
Schopenhauer, Van Gogh, Shostakovich, Céline, Dos-
toiévski
e continuava escrevendo e tudo voltava
de novo
e eu pensava
Villon, Górki, Turguêniev, Sherwood Anderson
e escrevia e escrevia
e ainda nada acontecia
e quando afinal comi
você não imagina como
a comida pode ser verdadeiramente linda, cada mordida um milagre de
luz solar sobre a alma cambaleante, haha,
e eu pensava,
Hamsun, Ezra Pound, T.S. Eliot
mas nada acontecia –
todas as minhas máquinas de escrever perdidas na penhora e eu
imprimia as páginas em tinta
e elas voltavam
e eu as jogava fora
e escrevia um pouco mais e passava fome um pouco
mais.

ah, tive um aprendizado, tive sim, e agora tive um pouco de
sorte, alguns estão começando a pensar que posso escrever, mas
na verdade só a escrita é o lance, agora como foi antes,
seja sim ou não ou algo no meio, é só a escrita, é
o único siga quando tudo mais diz pare
e uma parte ainda volta agora e penso
Nietzsche, e.e. cummings, Robinson Jeffers, Sartre, Camus, Hemingway,
o som da máquina, o som da máquina, palavras
mordendo papel, não há nada mais, não pode haver nada
mais, não importa que volte, não importa que fique e quando
acabar, ha
ha.
1 023
Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Única Vida

eu era como um daqueles doidos dos séculos passados, eu era
Romanticamente louco com a minha obsessão – ha, ha, ser um
escritor, eu escrevia noite e dia. eu escrevia até quando estava
adormecido
e na maioria das vezes eu escrevia quando estava bêbado, até quando não
estava escrevendo.

ah, aquelas dúzias de quartos baratos, minha barriga achatada contra
o cu, fui a 60 quilos numa carcaça de
um metro e oitenta. passei fome. haha, para poder escrever.
(esta é uma história verídica) (não são todas?) e
todos os meus escritos voltavam e afinal precisei
jogá-los fora porque
havia mais espaço de papel do que havia espaço de
mim
e continuei a escrever novas obras que continuaram
voltando e eu pensava
Schopenhauer, Van Gogh, Shostakovich, Céline, Dos-
toiévski
e continuava escrevendo e tudo voltava
de novo
e eu pensava
Villon, Górki, Turguêniev, Sherwood Anderson
e escrevia e escrevia
e ainda nada acontecia
e quando afinal comi
você não imagina como
a comida pode ser verdadeiramente linda, cada mordida um milagre de
luz solar sobre a alma cambaleante, haha,
e eu pensava,
Hamsun, Ezra Pound, T.S. Eliot
mas nada acontecia –
todas as minhas máquinas de escrever perdidas na penhora e eu
imprimia as páginas em tinta
e elas voltavam
e eu as jogava fora
e escrevia um pouco mais e passava fome um pouco
mais.

ah, tive um aprendizado, tive sim, e agora tive um pouco de
sorte, alguns estão começando a pensar que posso escrever, mas
na verdade só a escrita é o lance, agora como foi antes,
seja sim ou não ou algo no meio, é só a escrita, é
o único siga quando tudo mais diz pare
e uma parte ainda volta agora e penso
Nietzsche, e.e. cummings, Robinson Jeffers, Sartre, Camus, Hemingway,
o som da máquina, o som da máquina, palavras
mordendo papel, não há nada mais, não pode haver nada
mais, não importa que volte, não importa que fique e quando
acabar, ha
ha.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Única Vida

eu era como um daqueles doidos dos séculos passados, eu era
Romanticamente louco com a minha obsessão – ha, ha, ser um
escritor, eu escrevia noite e dia. eu escrevia até quando estava
adormecido
e na maioria das vezes eu escrevia quando estava bêbado, até quando não
estava escrevendo.

ah, aquelas dúzias de quartos baratos, minha barriga achatada contra
o cu, fui a 60 quilos numa carcaça de
um metro e oitenta. passei fome. haha, para poder escrever.
(esta é uma história verídica) (não são todas?) e
todos os meus escritos voltavam e afinal precisei
jogá-los fora porque
havia mais espaço de papel do que havia espaço de
mim
e continuei a escrever novas obras que continuaram
voltando e eu pensava
Schopenhauer, Van Gogh, Shostakovich, Céline, Dos-
toiévski
e continuava escrevendo e tudo voltava
de novo
e eu pensava
Villon, Górki, Turguêniev, Sherwood Anderson
e escrevia e escrevia
e ainda nada acontecia
e quando afinal comi
você não imagina como
a comida pode ser verdadeiramente linda, cada mordida um milagre de
luz solar sobre a alma cambaleante, haha,
e eu pensava,
Hamsun, Ezra Pound, T.S. Eliot
mas nada acontecia –
todas as minhas máquinas de escrever perdidas na penhora e eu
imprimia as páginas em tinta
e elas voltavam
e eu as jogava fora
e escrevia um pouco mais e passava fome um pouco
mais.

ah, tive um aprendizado, tive sim, e agora tive um pouco de
sorte, alguns estão começando a pensar que posso escrever, mas
na verdade só a escrita é o lance, agora como foi antes,
seja sim ou não ou algo no meio, é só a escrita, é
o único siga quando tudo mais diz pare
e uma parte ainda volta agora e penso
Nietzsche, e.e. cummings, Robinson Jeffers, Sartre, Camus, Hemingway,
o som da máquina, o som da máquina, palavras
mordendo papel, não há nada mais, não pode haver nada
mais, não importa que volte, não importa que fique e quando
acabar, ha
ha.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

As Cartas de John Steinbeck

sonhei que eu estava congelando e quando acordei e descobri
que não estava congelando de algum modo eu caguei na cama.
eu tinha trabalhado no livro de viagem naquela noite e
não tinha rendido muito bem e estavam levando meus cavalos
embora, para Del Mar.
eu teria tempo para ser escritor agora. eu acordaria de
manhã e lá estaria a máquina olhando para mim,
ela ia parecer uma tarântula; ou melhor – ia parecer
um sapo preto com cinquenta e uma verrugas.

você deduz que Camus se ferrou porque deixou outra pessoa
dirigir o carro. não gosto de nenhuma outra pessoa dirigindo o
carro, não gosto nem quando eu mesmo dirijo. bem,
depois de limpar a merda coloquei minha bermuda
amarela de caminhada e fui de carro para o hipódromo. estacionei e
entrei.

o primeiro que vi foi o meu biógrafo. eu o vi
de lado e me escondi. ele estava bem-vestido,
fumava um charuto e tinha um drinque na mão.
da última vez na minha casa ele me deu dois livros:
Scott e Ernest e As cartas de John Steinbeck.
leio esses livros quando cago. sempre leio quando cago
e quanto pior o livro melhor o movimento intestinal.
aí depois da primeira corrida meu médico sentou do meu lado.
ele parecia ter acabado de sair de uma cirurgia sem
se lavar muito bem. ele ficou até depois da
oitava corrida, conversando, bebendo cerveja e comendo cachorros-quentes.
então desatou a falar do meu fígado: “você bebe quantidades
tão absurdas que quero dar uma olhada no seu fígado. trate
de aparecer agora.” “tá bom”, falei, “terça de
tarde.”

eu me lembrei da recepcionista dele. na minha última consulta
tinha ocorrido uma inundação no banheiro e ela ficou de joelhos
no chão para secar e seu vestido havia subido bem
alto acima das coxas. eu tinha parado pra ficar olhando,
dizendo a ela que as duas maiores invenções do Homem haviam sido
a bomba atômica e o encanamento.

aí o meu médico se foi e o meu biógrafo se foi também
e eu ainda tinha $97.
lá em Del Mar eles têm uma reta curta e eles
vêm gemendo por aquela última curva, e a água dos
bebedouros tem gosto de mijo.

se o meu fígado já era então já era; algo sempre ia
primeiro e aí o restante seguia. que desfile.
não era verdade, porém, dependia da parte.
eu conhecia certas pessoas sem mente que esbanjavam
saúde.

perdi a última corrida e saí dirigindo com sorte o bastante para
pegar um Shostakovich no rádio
e quando você vê às 6:20 da tarde numa rádio AM
isso é tirar um rei com ás, rainha, valete, dez...
1 223
Charles Bukowski

Charles Bukowski

As Cartas de John Steinbeck

sonhei que eu estava congelando e quando acordei e descobri
que não estava congelando de algum modo eu caguei na cama.
eu tinha trabalhado no livro de viagem naquela noite e
não tinha rendido muito bem e estavam levando meus cavalos
embora, para Del Mar.
eu teria tempo para ser escritor agora. eu acordaria de
manhã e lá estaria a máquina olhando para mim,
ela ia parecer uma tarântula; ou melhor – ia parecer
um sapo preto com cinquenta e uma verrugas.

você deduz que Camus se ferrou porque deixou outra pessoa
dirigir o carro. não gosto de nenhuma outra pessoa dirigindo o
carro, não gosto nem quando eu mesmo dirijo. bem,
depois de limpar a merda coloquei minha bermuda
amarela de caminhada e fui de carro para o hipódromo. estacionei e
entrei.

o primeiro que vi foi o meu biógrafo. eu o vi
de lado e me escondi. ele estava bem-vestido,
fumava um charuto e tinha um drinque na mão.
da última vez na minha casa ele me deu dois livros:
Scott e Ernest e As cartas de John Steinbeck.
leio esses livros quando cago. sempre leio quando cago
e quanto pior o livro melhor o movimento intestinal.
aí depois da primeira corrida meu médico sentou do meu lado.
ele parecia ter acabado de sair de uma cirurgia sem
se lavar muito bem. ele ficou até depois da
oitava corrida, conversando, bebendo cerveja e comendo cachorros-quentes.
então desatou a falar do meu fígado: “você bebe quantidades
tão absurdas que quero dar uma olhada no seu fígado. trate
de aparecer agora.” “tá bom”, falei, “terça de
tarde.”

eu me lembrei da recepcionista dele. na minha última consulta
tinha ocorrido uma inundação no banheiro e ela ficou de joelhos
no chão para secar e seu vestido havia subido bem
alto acima das coxas. eu tinha parado pra ficar olhando,
dizendo a ela que as duas maiores invenções do Homem haviam sido
a bomba atômica e o encanamento.

aí o meu médico se foi e o meu biógrafo se foi também
e eu ainda tinha $97.
lá em Del Mar eles têm uma reta curta e eles
vêm gemendo por aquela última curva, e a água dos
bebedouros tem gosto de mijo.

se o meu fígado já era então já era; algo sempre ia
primeiro e aí o restante seguia. que desfile.
não era verdade, porém, dependia da parte.
eu conhecia certas pessoas sem mente que esbanjavam
saúde.

perdi a última corrida e saí dirigindo com sorte o bastante para
pegar um Shostakovich no rádio
e quando você vê às 6:20 da tarde numa rádio AM
isso é tirar um rei com ás, rainha, valete, dez...
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Leitor Escreve

“Caro sr. Chinaski:
Ainda gosto da sua escrita mas gostava
mais nos bons tempos, quero dizer, quando você
escrevia coisas como ‘quando ela se curvou eu
vi aquela bunda toda’. Ou
você escrevia sobre as detenções de bêbados e os ratos
e as baratas e os camundongos.
Eu gostava de todos os seus problemas com mulheres, eu tenho
problemas com mulheres também e realmente curtia o que
você estava nos passando.
Eu gostava da loucura toda, das brigas no
beco, das batidas da polícia.
Seria bom se houvesse mais disso, me dá energia.
Sei que você vai cagar pra isso mas vou
lhe contar mesmo assim.
Temos um grupo, a gente toma umas,
bota uns discos do Frank Sinatra e lê os seus textos
em voz alta.
Queira nos dar mais daquilo de
antigamente.
é isso aí!”

Caro Leitor:
Sobre o sr. Sinatra vamos esquecer, mas
devo lhe dizer que tenho hoje 70 anos de idade e é
uma surpresa para mim também mas se eu continuasse escrevendo sobre
espiar as bundas das mulheres eu não teria tempo de
escrever sobre como meu gato atravessa a sala enquanto
transmite os segredos da Eternidade para o meu cérebro, quero dizer,
olha, dá pra escrever sobre algo até a morte, a maioria faz isso ao
descobrir que faz vender livros mas não escrevo para vender
livros eu escrevo para impedir que as entranhas da minha psique se afoguem
nas águas cheias de bosta desta assim chamada Existência.
Pegue Hemingway, ele foi escrevendo cada vez mais pra dentro do mesmo
círculo apertado que afinal se fechou e o espremeu até a
morte.
Pegue J.D. Salinger, ele escreveu histórias vívidas e
envolventes da juventude etílica mas quando ficou mais velho não
havia mais nada parecido para escrever.
A especialização é a morte, um doce ruim apodrecido.
A jogatina é a única saída, você precisa ficar lançando
novos dados.
Quanto às mulheres, elas são superestimadas porque nós as
superestimamos.
Você realmente não pode esperar de mim que eu continue escrevendo sobre as
bundas grandes de certas mulheres.
Mas tive de fato alguns problemas, algumas dúvidas sobre
abandonar essa vasta e lucrativa área – pois eu estava ganhando
mais do que o aluguel fazendo aquilo e então por que correr o risco
de escrever sobre, digamos, um azulão de uma só asa se debatendo
num montinho de folhas podres?
Eu precisava, é por isso, e se tirarem o aluguel e mais
ainda vou precisar.
Não invento pretextos para o meu assunto e ele não
inventa pretextos para mim.
Por exemplo, certa vez conheci um popular compositor que tinha um
problema – ele tinha ficado famoso escrevendo canções
sobre a vida dura nos motéis de Hollywood e ele morava
num e ficou rico e famoso e continuava
morando lá, temendo que caso se mudasse
perderia sua imagem pública e sua popularidade.
Na verdade, porém, não faz nenhum sentido um homem rico ficar
morando num motel barato hollywoodiano porque simplesmente
não é a mesma coisa que um homem pobre morando ali.
Para sorte dele o lugar foi fechado e ele
não precisou fingir mais.
Assim como as minhas histórias sobre pensões baratas eram
escritas porque eu morava nelas.
Nós tocamos a vida em frente e se tivermos sorte encontramos material
novo.
O assombro, a novidade e o inferno estão por toda parte.
Frank Sinatra canta suas mesmas velhas canções sem jamais
parar.
É porque está preso àquilo que o tornou
famoso.
A fama não tem nada a ver com nada.
Tocar a vida em frente tem.
Vou morrer em breve, não há nada de extraordinário nisso
mas não serei capaz de escrever a respeito
e ficarei contente por não ter continuado escrevendo sobre
aquilo que você considera interessante e eu
não.
Cara, meu Deus, não quero assumir um tom sagrado
nisso tudo, não tem nada de sagrado no ato de escrever
mas é a maior encenação bêbada de que eu
tenho conhecimento.
Foi no passado e é agora.
As bundas das mulheres e tudo mais.
Estou rindo da escuridão que nem você.
Da próxima vez que vocês tomarem umas, botem um
Sibelius.
claro,
Henry Chinaski
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Leitor Escreve

“Caro sr. Chinaski:
Ainda gosto da sua escrita mas gostava
mais nos bons tempos, quero dizer, quando você
escrevia coisas como ‘quando ela se curvou eu
vi aquela bunda toda’. Ou
você escrevia sobre as detenções de bêbados e os ratos
e as baratas e os camundongos.
Eu gostava de todos os seus problemas com mulheres, eu tenho
problemas com mulheres também e realmente curtia o que
você estava nos passando.
Eu gostava da loucura toda, das brigas no
beco, das batidas da polícia.
Seria bom se houvesse mais disso, me dá energia.
Sei que você vai cagar pra isso mas vou
lhe contar mesmo assim.
Temos um grupo, a gente toma umas,
bota uns discos do Frank Sinatra e lê os seus textos
em voz alta.
Queira nos dar mais daquilo de
antigamente.
é isso aí!”

Caro Leitor:
Sobre o sr. Sinatra vamos esquecer, mas
devo lhe dizer que tenho hoje 70 anos de idade e é
uma surpresa para mim também mas se eu continuasse escrevendo sobre
espiar as bundas das mulheres eu não teria tempo de
escrever sobre como meu gato atravessa a sala enquanto
transmite os segredos da Eternidade para o meu cérebro, quero dizer,
olha, dá pra escrever sobre algo até a morte, a maioria faz isso ao
descobrir que faz vender livros mas não escrevo para vender
livros eu escrevo para impedir que as entranhas da minha psique se afoguem
nas águas cheias de bosta desta assim chamada Existência.
Pegue Hemingway, ele foi escrevendo cada vez mais pra dentro do mesmo
círculo apertado que afinal se fechou e o espremeu até a
morte.
Pegue J.D. Salinger, ele escreveu histórias vívidas e
envolventes da juventude etílica mas quando ficou mais velho não
havia mais nada parecido para escrever.
A especialização é a morte, um doce ruim apodrecido.
A jogatina é a única saída, você precisa ficar lançando
novos dados.
Quanto às mulheres, elas são superestimadas porque nós as
superestimamos.
Você realmente não pode esperar de mim que eu continue escrevendo sobre as
bundas grandes de certas mulheres.
Mas tive de fato alguns problemas, algumas dúvidas sobre
abandonar essa vasta e lucrativa área – pois eu estava ganhando
mais do que o aluguel fazendo aquilo e então por que correr o risco
de escrever sobre, digamos, um azulão de uma só asa se debatendo
num montinho de folhas podres?
Eu precisava, é por isso, e se tirarem o aluguel e mais
ainda vou precisar.
Não invento pretextos para o meu assunto e ele não
inventa pretextos para mim.
Por exemplo, certa vez conheci um popular compositor que tinha um
problema – ele tinha ficado famoso escrevendo canções
sobre a vida dura nos motéis de Hollywood e ele morava
num e ficou rico e famoso e continuava
morando lá, temendo que caso se mudasse
perderia sua imagem pública e sua popularidade.
Na verdade, porém, não faz nenhum sentido um homem rico ficar
morando num motel barato hollywoodiano porque simplesmente
não é a mesma coisa que um homem pobre morando ali.
Para sorte dele o lugar foi fechado e ele
não precisou fingir mais.
Assim como as minhas histórias sobre pensões baratas eram
escritas porque eu morava nelas.
Nós tocamos a vida em frente e se tivermos sorte encontramos material
novo.
O assombro, a novidade e o inferno estão por toda parte.
Frank Sinatra canta suas mesmas velhas canções sem jamais
parar.
É porque está preso àquilo que o tornou
famoso.
A fama não tem nada a ver com nada.
Tocar a vida em frente tem.
Vou morrer em breve, não há nada de extraordinário nisso
mas não serei capaz de escrever a respeito
e ficarei contente por não ter continuado escrevendo sobre
aquilo que você considera interessante e eu
não.
Cara, meu Deus, não quero assumir um tom sagrado
nisso tudo, não tem nada de sagrado no ato de escrever
mas é a maior encenação bêbada de que eu
tenho conhecimento.
Foi no passado e é agora.
As bundas das mulheres e tudo mais.
Estou rindo da escuridão que nem você.
Da próxima vez que vocês tomarem umas, botem um
Sibelius.
claro,
Henry Chinaski
635
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Leitor Escreve

“Caro sr. Chinaski:
Ainda gosto da sua escrita mas gostava
mais nos bons tempos, quero dizer, quando você
escrevia coisas como ‘quando ela se curvou eu
vi aquela bunda toda’. Ou
você escrevia sobre as detenções de bêbados e os ratos
e as baratas e os camundongos.
Eu gostava de todos os seus problemas com mulheres, eu tenho
problemas com mulheres também e realmente curtia o que
você estava nos passando.
Eu gostava da loucura toda, das brigas no
beco, das batidas da polícia.
Seria bom se houvesse mais disso, me dá energia.
Sei que você vai cagar pra isso mas vou
lhe contar mesmo assim.
Temos um grupo, a gente toma umas,
bota uns discos do Frank Sinatra e lê os seus textos
em voz alta.
Queira nos dar mais daquilo de
antigamente.
é isso aí!”

Caro Leitor:
Sobre o sr. Sinatra vamos esquecer, mas
devo lhe dizer que tenho hoje 70 anos de idade e é
uma surpresa para mim também mas se eu continuasse escrevendo sobre
espiar as bundas das mulheres eu não teria tempo de
escrever sobre como meu gato atravessa a sala enquanto
transmite os segredos da Eternidade para o meu cérebro, quero dizer,
olha, dá pra escrever sobre algo até a morte, a maioria faz isso ao
descobrir que faz vender livros mas não escrevo para vender
livros eu escrevo para impedir que as entranhas da minha psique se afoguem
nas águas cheias de bosta desta assim chamada Existência.
Pegue Hemingway, ele foi escrevendo cada vez mais pra dentro do mesmo
círculo apertado que afinal se fechou e o espremeu até a
morte.
Pegue J.D. Salinger, ele escreveu histórias vívidas e
envolventes da juventude etílica mas quando ficou mais velho não
havia mais nada parecido para escrever.
A especialização é a morte, um doce ruim apodrecido.
A jogatina é a única saída, você precisa ficar lançando
novos dados.
Quanto às mulheres, elas são superestimadas porque nós as
superestimamos.
Você realmente não pode esperar de mim que eu continue escrevendo sobre as
bundas grandes de certas mulheres.
Mas tive de fato alguns problemas, algumas dúvidas sobre
abandonar essa vasta e lucrativa área – pois eu estava ganhando
mais do que o aluguel fazendo aquilo e então por que correr o risco
de escrever sobre, digamos, um azulão de uma só asa se debatendo
num montinho de folhas podres?
Eu precisava, é por isso, e se tirarem o aluguel e mais
ainda vou precisar.
Não invento pretextos para o meu assunto e ele não
inventa pretextos para mim.
Por exemplo, certa vez conheci um popular compositor que tinha um
problema – ele tinha ficado famoso escrevendo canções
sobre a vida dura nos motéis de Hollywood e ele morava
num e ficou rico e famoso e continuava
morando lá, temendo que caso se mudasse
perderia sua imagem pública e sua popularidade.
Na verdade, porém, não faz nenhum sentido um homem rico ficar
morando num motel barato hollywoodiano porque simplesmente
não é a mesma coisa que um homem pobre morando ali.
Para sorte dele o lugar foi fechado e ele
não precisou fingir mais.
Assim como as minhas histórias sobre pensões baratas eram
escritas porque eu morava nelas.
Nós tocamos a vida em frente e se tivermos sorte encontramos material
novo.
O assombro, a novidade e o inferno estão por toda parte.
Frank Sinatra canta suas mesmas velhas canções sem jamais
parar.
É porque está preso àquilo que o tornou
famoso.
A fama não tem nada a ver com nada.
Tocar a vida em frente tem.
Vou morrer em breve, não há nada de extraordinário nisso
mas não serei capaz de escrever a respeito
e ficarei contente por não ter continuado escrevendo sobre
aquilo que você considera interessante e eu
não.
Cara, meu Deus, não quero assumir um tom sagrado
nisso tudo, não tem nada de sagrado no ato de escrever
mas é a maior encenação bêbada de que eu
tenho conhecimento.
Foi no passado e é agora.
As bundas das mulheres e tudo mais.
Estou rindo da escuridão que nem você.
Da próxima vez que vocês tomarem umas, botem um
Sibelius.
claro,
Henry Chinaski
635
Charles Bukowski

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Ai Disse a Vaca À Cerca Que Ligava

, esperneiam esses bebês idiotas,
os leprosos se embebedaram de leite
de coco
, o último sonho do pervertido foi
bacon misturado com torta
de anca
, morto é morto que chega
torto é torto que chega
e o cavalo falhou na
cara da rainha
e uma hora depois
ela estava com as bolas dele na mão
e a cabeça dele montada entre
as manoplas da motocicleta de
Hades
, as verdes florestas na minha mente
estão cegas
enquanto levo a mão ao rolo de papel
higiênico
o mundo late uma vez e
desaparece
, baunilha, baunilha, baunilha,
imagine você no bolso traseiro
de Prokofiev durante uma tempestade
de verão perante a casa de campo de um
comedor de cães bebedor de
vermute
, Paris é um lugar nas cercanias de
lugar nenhum que costumava
ser
, fico recebendo ligações telefônicas
de pessoas totalmente loucas que
me amam porque acreditam
que a minha loucura justifica a delas
o que é pior do que baixíssima
categoria
, a dor é como um foguete, sinta
o bastante
que ela te projeta através
e além de toda a baboseira
por um tempo
apenas
, a dama me trouxe uma bebida
e eu trouxe à dama uma bebida
e a dama me trouxe uma
bebida
e aí eu trouxe à dama uma
bebida
e aí o bartender
arrancou o olho esquerdo
enfiou na boca e
o cuspiu para o teto
enquanto um cara cruzava pela
porta e perguntava
“Godot está aqui?”
, a placenta é o hino da
ferida esquecida
e você não está me devendo 20
pratas que eu te emprestei durante
o
Mardi Gras?
, ah, que se danem todas as coisas e
os pássaros e os lagos e as cintas-
ligas
ah, por que somos tão estufados
dessa merda de hélio?
ah, quem roubou os olhos
e botou as tampas de garrafa na
bunda da Georgia?

, por que a porta abre
para trás?

, ei, a rançosa respiração
dos fedorentos tambores...
tais armas vêm dentro de quê?
peguem a calhandra bêbada!

, essa chicana de perfeição...
esse pelúcido bocejo de
incêndio...

, Cristo parou num tranco,
pneu estourou,
abri o porta-malas e
não achei o
macaco.
1 001
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Porq Tud Se Sgota

abatido do lado de fora do Seaside Motel e fico olha
ndo a lagosta viva na peixaria do píer de Redondo
Beach a ruiva partiu para torturar outros machos
está chovendo de novo está chovendo de novo e de novo às vez
es penso em Bogart e não gosto mais de Bogart hoj
e em dia porq tud se sgota – quando entra um dinheirin
ho na sua conta você pode rabiscar qualquer coisa na p
ágina chamar de Arte e passar a perna abatido num
mercado de peixes as lagostas que você vê elas são apanhadas com
o nós somos apanhados. pense em Gertie S. sentada lá
contando aos rapazes como aprimorar. ela era um tran
satlântico eu prefiro trens puxando vagões cheios de arma
s roupa íntima pretzels fotos de Mao Tsé-Tung haltere
s porq tud se sgota – (escrever mãe) quando você florar
minha pedra note a mosca na sua manga e pense
num violino pendurado numa casa de penhores. em muitas casas de penhores fiq
uei eu abatido na melhor em L.A. eles puxam
uma pequena cortina em volta daquele que quer penhorar e d
aquele que poderia pagar algo. é uma Arte casas de penhores s
ão necessárias como F. Scott Fitz era necessário o que nos
faz hesitar neste momento: eu gosto de olhar lagostas viva
s elas são fogo embaixo d’água hemorroidas – grossa outr
a mágica – colhões!: elas são lagostas mas gosto de o
lhá-las quando eu se eu ficar rico vou comprar um
grande tanque de vidro digamos três metros por um e v
ou sentar e olhá-las por horas enquanto bebo meu
mosele branco que estou bebendo agora e quando as pessoas apar
ecerem vou escorraçá-las como faço agora. quero dizer,
alguns dizem que mudança quer dizer crescimento bem certos at
os permanentes também previnem decadência como passar fio dental fode
r esgrimir engordar arrotar e sangrar sob uma lâmp
ada General Electric de cem watts. romances são legais c
amundongos são irrequietos e meu advogado me diz que Abraham L
incoln fez uma merda que nunca entrou nos livr
os de história – o muro é o mesmo por onde quer que se olhe.
nunca peça desculpa. entenda o pesar do erro. m
as nunca. não peça desculpa para ovo serpente ou am
ante. abatido num táxi verde perto de Santa Cru
z com um AE-I no meu colo trambicado na mão d
o punguista pendurado como um presunto. por acaso foi Ginsberg que
dançou no poste em maio na Iugoslávia para celebrar o Dia de M
aio se me pegarem fazendo isso podem arrancar meus dois
bolsos de trás. sabe eu nunca escutei minha mãe mijar
. escutei muitas mulheres mijando mas agora que penso
nisso não consigo lembrar de jamais ter escutado minha mãe mijar.
não sou grande fã de planetas não que me desagrad
em quero dizer tipo cascas de amendoim num cinzeiro isso são
planetas. às vezes a cada 3 ou 4 anos você vê um ro
sto geralmente não é um rosto de criança mas esse r
osto rende um dia espantoso muito embora a luz
esteja de certo modo ou você estava dirigindo um a
utomóvel ou você estava caminhando e o rosto estava passa
ndo num ônibus ou num carro isso faz daquele dia do
momento como que um sacolejo cerebral algo pra lhe dizer é
sempre solitário você estar abatido enquanto tira um
chiclete da embalagem na frente do salão de bilhar
mais antigo de Hollywood no lado oeste da Western embaix
o do bulevar. o bruto é líquido e o líquido é b
ruto e Gertie S. nunca mostrou seu joelho aos ra
pazes e Van Gogh era uma lagosta um amendoim torrado. eu
acho que “guinada” é uma palavra esplêndida e ainda está
chovendo abatido em sacos d’água com água para focinho
s de porco astutamente como cigarros para homens e para
mulheres eu me importo o bastante para proclamar liberdade em toda
a terra depois me pergunto por que freiras são freiras açougueiros iss
o e homens gordos me remetem a coisas gloriosas respirand
o pó por seus pigarros. se eu abatesse Bogar
t ele cuspiria seu cigarro agarraria seu flanco esquerdo na
camisa de listras pretas e brancas me olharia com
olho de nata e cairia. se significado é o que fazemos n
ós fazemos bastante se significado não é o que fazemos marque o qu
adrado #9 provavelmente cai bem a meio caminho o que mant
ém equilíbrio e a pobreza dos pobres e hidrantes
visco grandes cães em grandes gramados atrás de cercas
de ferro. Gertie S., claro, se interessava mais
pela palavra do que pelo sentimento e isso é claramente just
o porque homens de sentimento (ou mulheres) (ou) (veja)
(que legal) (eu sou) geralmente se tornam criaturas de Açã
o que fracassam (em certo sentido) e são registrados pelas pess
oas de palavras cujas obras geralmente fracassam não importa. (
que legal). rola e rola e rola continua chovendo
abatido num mercado de peixes por um italiano com mau
hálito que não fazia ideia de que eu alimentava meu gato duas vezes por dia e
nunca me masturbava quando ele estava no mesmo aposento. Agor
a você sabe neste ano de 1978 paguei $8441,32 para
o governo e $2419,84 para o estado da Califór
nia porque sento perante esta máquina de escrever geralmente b
êbado depois das corridas de cavalo e não uso sequer uma gr
ande editora comercial e já vivi à base de
uma barra de chocolate vagabundo por dia máquina de escrever penhorada imp
rimindo meu material à caneta e o material voltava. quero dizer,
camarada cão, os homens às vezes viram filmes. e às v
ezes acontece que os filmes não são tão bons. reze por
mim. não peço desculpa. astúcia não é a saída
persistência ajuda se você conseguir acertar o ferrão externo
às 5:32 crepúsculo – bum! os irmãos Waner costumavam
bater dois três para os Pirates agora somente 182 pessoas e
m Pittsburgh se lembram deles e isso é exatamente correto
. o que me desagradava naquela turma de Paris era qu
e eles exageravam demais o valor da escrita mas ninguém pode dizer
que não fizeram o maior esforço possível qu
ando todas as cabeças e olhos pareciam estar voltados para outro
lugar é por isso que apesar de todo o romantismo ass
ociado eu embarco não pela propaganda mas pel
as razões mais tolas da sorte e do caminho. minhas lagostas
cavalos e lagostas e o mosele branco e há uma
boa mulher perto de mim depois de todas as ruins ou ap
arentemente ruins. Rachmaninoff está tocando agora no rádio e
termino minha segunda garrafa de mosele. que adorável
caçador emotivo ele era meu gato preto gigante estirado
no tapete o aluguel está pago a chuva paro
u há um fedor nos meus dedos minhas costas doem abat
ido eu caio rolo aquelas lagostas examiná-las ex
iste um segredo ali elas contêm pirâmides derrubá-las tod
as as mulheres do passado todas as avenidas maçanetas bot
ões caindo da camiseta nunca escutei minha mãe mij
ar e nunca conheci seu pai acho que teríam
os bebido que chega, corretamente.
1 051
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Vivo Para Escrever E Agora Estou Morrendo

já contei antes e nunca foi publicado então
talvez eu não tenha contado direito, então
é assim: eu estava em Atlanta, morando num barraco
por $1.25 por semana.
sem luz.
sem aquecimento.
um frio de rachar, estou sem dinheiro mas tenho
selos
envelopes
papel.

mando cartas pedindo socorro, só que não conheço
ninguém.
tem os meus pais mas sei que eles não vão estar
nem aí.
escrevo uma pra eles
mesmo assim.

depois
pra quem mais?

o editor da New Yorker, ele deve me conhecer, eu
enviei um conto por semana pra ele por
anos.

e o editor da Esquire

e a Atlantic Monthly

e Harper’s.

“não estou submetendo texto”, eu
escrevia, “ou talvez esteja... de todo modo...”
e aí vinha a proposta: “só um dólar, vai
salvar a minha vida...” e etc. e etc...

e por algum motivo
eu tinha os endereços de Kay Boyle e Caresse
Crosby
e
escrevi para elas.

pelo menos Caresse tinha me publicado em sua
Portfolio...

levei todas as cartas até a caixa de correio
larguei lá dentro e
esperei.

pensei, alguém ficará com pena do escritor
faminto, sou um homem
dedicado:

vivo para escrever e agora estou
morrendo.

e
cada dia
eu achava que seria
meu último.

eu atrasava o aluguel, encontrava pedaços de comida
nas ruas, geralmente
congelados.

eu levava pra casa e descongelava
embaixo da colcha.

eu pensava no Fome de Hamsun
e
ria.

um dia frio era seguido por outro,
lentamente.

a primeira carta foi do meu pai,
seis páginas, e sacudi as páginas
repetidas vezes
mas não havia dinheiro
algum

conselhos,
o principal sendo
este: “você nunca será um
escritor! o que você escreve é feio
demais! ninguém quer ler essa
bosta!”

então chegou o
dia!
uma carta de Caresse
Crosby!
eu abri.
nada de dinheiro
mas
texto datilografado bonitinho:
“Caro Charles,
foi bom receber notícias
suas. desisti da
revista. moro agora num
castelo na Itália. é
no alto de uma montanha mas
embaixo há um vilarejo
com frequência desço lá
para ajudar os pobres. sinto
que é a minha missão.
com amor,
Caresse...”

ela não tinha lido minha carta?
eu
era o pobre!
eu precisava ser um camponês
italiano para me
qualificar?

e os editores das revistas nunca
responderam e tampouco
Kay Boyle
mas nunca gostei do que ela escrevia
de qualquer maneira.
e nunca esperei grande coisa
dos editores das
revistas.

mas Caresse
Crosby?
black sun press?

eu agora até lembro como
afinal saí de
Atlanta.
eu estava simplesmente vagando pelas
ruas e cheguei a uma
pequena área
arborizada.
havia uma cabana de zinco ali
e um grande letreiro vermelho
dizendo: “vagas de trabalho!”

dentro havia um homem com
agradáveis olhos azuis e ele era
bastante cordial
e assinei pra me juntar aos
operários de uma ferrovia:
“em algum ponto a oeste de
Sacramento.”

no caminho de volta
naquele vagão empoeirado de cem anos de idade com
os assentos rasgados e os ratos e
as latas de feijão com carne de porco
nenhum dos caras sabia que eu tinha sido
publicado na Portfolio junto com
Sartre, Henry Miller, Genet e
etc.
junto com reproduções de pinturas de
Picasso e etc. e etc.
e se tivessem ficado sabendo estariam
cagando e andando
e francamente
eu mesmo estava.

só algumas décadas depois
quando eu me via em circunstâncias ligeiramente melhores
que me aconteceu de ler sobre a morte de
Caresse Crosby
e outra vez fiquei desconcertado
por sua recusa em
mandar uma reles notinha para um
gênio americano faminto.

é isso
esta é a última vez que vou escrever essa
história.
ela deveria ser
publicada...

e se for vou receber centenas
de cartas
de gênios americanos famintos
pedindo uma prata, cinco pratas, dez ou
mais.

não vou lhes dizer que estou ajudando os
pobres, à la Caresse.

vou mandá-los ler
os Poemas reunidos de
Kay Boyle.
1 249
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Me Modernizando

bebi mais do que o normal esta noite, produzi com isso alguma
escrita mas eis ali minha máquina de escrever elétrica IBM e ambas
as fitas acabaram ao mesmo tempo: a fita de escrever e a fita apagadora
e geralmente consigo trocá-las
mas esta noite eu estava bêbado demais:

foi uma batalha da alma inserir a fita de escrever mas
no tocante à fita apagadora me faltou
alma: a fita grudenta grudava em coisas
indevidas, torcia-se como um pretzel, e a joguei fora e
tentei outra.
devem ter se passado dez minutos até que fiz
direito.
enquanto isso – eu já estava em outra garrafa, então olhei
a caixa no chão: restavam-me uma fita de escrever e uma
fita apagadora por isso recorri ao Manual de Instruções e disquei o
número 800 que acho que ficava em Maryland ou Dakota do Sul e
fiquei surpreso por ser atendido: eram 3:30 da manhã em
Los Angeles.

falei à mulher sobre a minha necessidade mas ela não entendia direito,
ficava exigindo um # do pedido.
eu estava com Richard Wagner no máximo volume no rádio e falei a ela
que eu não tinha um maldito # do pedido.
ela
desligou na minha cara e eu disquei de novo e dessa vez peguei um jovem
simpático e ele disse “que música maravilhosa o senhor está ouvindo...”, mas
o jovem simpático também exigiu um # do pedido.
sequei uma taça inteira de vinho, falei “escuta, eu não tinha um
# do pedido na primeira vez que liguei...”

“mas, senhor, na segunda vez que o senhor liga a regra é que deve ter
um # do pedido.”

“você quer dizer que não posso comprar minhas fitas? eu sou escritor, porra, como
vou fazer? você cortaria fora os chifres de um touro?”

“o senhor tem a sua última conta aí
consigo?”

“sim, sim...”

“o # do pedido deve estar na conta,
senhor...”

“estou dizendo, não tem nada aqui indicando um # do
pedido!”

“bem, senhor...”

“não, não, não!”

sequei outra taça de
vinho, “escuta, vamos fazer de conta que esta é a primeira vez que ligo
pra vocês e vamos começar pelo começo?”

“tudo bem, senhor... agora, o senhor pode listar pra mim o que
deseja?”

“obrigado! quero 18 fitas tira-tinta, item # 1136433 e quero 12
cartuchos de fita preta, item # 1299508.”

então li para ele o # do meu cartão American Express que não vou incluir
aqui.

“o senhor receberá todas as suas mercadorias dentro de 8 a dez dias, senhor...”
“obrigado!”

então, desligando, notei uma linha na minha conta anterior, ela dizia # de
pedido 11101 – isso e aquilo e traço isso e aquilo.
tinha estado ali o tempo
inteiro.

agora eu estava pronto para escrever de novo, o socorro já vinha, minha mente
livre, inclinei o corpo à frente e comecei a bater as teclas:
frsyj mrbrt ,syyrtrf sd ,ivj, sd yjsy dytuhhlr yo dysy
slibr s,pmh yjr %rp%;r smf om d%oyr pg yjs
%rp%;r.
frsyj eo%% mr yjr rsdody %sty.
1 053
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Me Modernizando

bebi mais do que o normal esta noite, produzi com isso alguma
escrita mas eis ali minha máquina de escrever elétrica IBM e ambas
as fitas acabaram ao mesmo tempo: a fita de escrever e a fita apagadora
e geralmente consigo trocá-las
mas esta noite eu estava bêbado demais:

foi uma batalha da alma inserir a fita de escrever mas
no tocante à fita apagadora me faltou
alma: a fita grudenta grudava em coisas
indevidas, torcia-se como um pretzel, e a joguei fora e
tentei outra.
devem ter se passado dez minutos até que fiz
direito.
enquanto isso – eu já estava em outra garrafa, então olhei
a caixa no chão: restavam-me uma fita de escrever e uma
fita apagadora por isso recorri ao Manual de Instruções e disquei o
número 800 que acho que ficava em Maryland ou Dakota do Sul e
fiquei surpreso por ser atendido: eram 3:30 da manhã em
Los Angeles.

falei à mulher sobre a minha necessidade mas ela não entendia direito,
ficava exigindo um # do pedido.
eu estava com Richard Wagner no máximo volume no rádio e falei a ela
que eu não tinha um maldito # do pedido.
ela
desligou na minha cara e eu disquei de novo e dessa vez peguei um jovem
simpático e ele disse “que música maravilhosa o senhor está ouvindo...”, mas
o jovem simpático também exigiu um # do pedido.
sequei uma taça inteira de vinho, falei “escuta, eu não tinha um
# do pedido na primeira vez que liguei...”

“mas, senhor, na segunda vez que o senhor liga a regra é que deve ter
um # do pedido.”

“você quer dizer que não posso comprar minhas fitas? eu sou escritor, porra, como
vou fazer? você cortaria fora os chifres de um touro?”

“o senhor tem a sua última conta aí
consigo?”

“sim, sim...”

“o # do pedido deve estar na conta,
senhor...”

“estou dizendo, não tem nada aqui indicando um # do
pedido!”

“bem, senhor...”

“não, não, não!”

sequei outra taça de
vinho, “escuta, vamos fazer de conta que esta é a primeira vez que ligo
pra vocês e vamos começar pelo começo?”

“tudo bem, senhor... agora, o senhor pode listar pra mim o que
deseja?”

“obrigado! quero 18 fitas tira-tinta, item # 1136433 e quero 12
cartuchos de fita preta, item # 1299508.”

então li para ele o # do meu cartão American Express que não vou incluir
aqui.

“o senhor receberá todas as suas mercadorias dentro de 8 a dez dias, senhor...”
“obrigado!”

então, desligando, notei uma linha na minha conta anterior, ela dizia # de
pedido 11101 – isso e aquilo e traço isso e aquilo.
tinha estado ali o tempo
inteiro.

agora eu estava pronto para escrever de novo, o socorro já vinha, minha mente
livre, inclinei o corpo à frente e comecei a bater as teclas:
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slibr s,pmh yjr %rp%;r smf om d%oyr pg yjs
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Me Modernizando

bebi mais do que o normal esta noite, produzi com isso alguma
escrita mas eis ali minha máquina de escrever elétrica IBM e ambas
as fitas acabaram ao mesmo tempo: a fita de escrever e a fita apagadora
e geralmente consigo trocá-las
mas esta noite eu estava bêbado demais:

foi uma batalha da alma inserir a fita de escrever mas
no tocante à fita apagadora me faltou
alma: a fita grudenta grudava em coisas
indevidas, torcia-se como um pretzel, e a joguei fora e
tentei outra.
devem ter se passado dez minutos até que fiz
direito.
enquanto isso – eu já estava em outra garrafa, então olhei
a caixa no chão: restavam-me uma fita de escrever e uma
fita apagadora por isso recorri ao Manual de Instruções e disquei o
número 800 que acho que ficava em Maryland ou Dakota do Sul e
fiquei surpreso por ser atendido: eram 3:30 da manhã em
Los Angeles.

falei à mulher sobre a minha necessidade mas ela não entendia direito,
ficava exigindo um # do pedido.
eu estava com Richard Wagner no máximo volume no rádio e falei a ela
que eu não tinha um maldito # do pedido.
ela
desligou na minha cara e eu disquei de novo e dessa vez peguei um jovem
simpático e ele disse “que música maravilhosa o senhor está ouvindo...”, mas
o jovem simpático também exigiu um # do pedido.
sequei uma taça inteira de vinho, falei “escuta, eu não tinha um
# do pedido na primeira vez que liguei...”

“mas, senhor, na segunda vez que o senhor liga a regra é que deve ter
um # do pedido.”

“você quer dizer que não posso comprar minhas fitas? eu sou escritor, porra, como
vou fazer? você cortaria fora os chifres de um touro?”

“o senhor tem a sua última conta aí
consigo?”

“sim, sim...”

“o # do pedido deve estar na conta,
senhor...”

“estou dizendo, não tem nada aqui indicando um # do
pedido!”

“bem, senhor...”

“não, não, não!”

sequei outra taça de
vinho, “escuta, vamos fazer de conta que esta é a primeira vez que ligo
pra vocês e vamos começar pelo começo?”

“tudo bem, senhor... agora, o senhor pode listar pra mim o que
deseja?”

“obrigado! quero 18 fitas tira-tinta, item # 1136433 e quero 12
cartuchos de fita preta, item # 1299508.”

então li para ele o # do meu cartão American Express que não vou incluir
aqui.

“o senhor receberá todas as suas mercadorias dentro de 8 a dez dias, senhor...”
“obrigado!”

então, desligando, notei uma linha na minha conta anterior, ela dizia # de
pedido 11101 – isso e aquilo e traço isso e aquilo.
tinha estado ali o tempo
inteiro.

agora eu estava pronto para escrever de novo, o socorro já vinha, minha mente
livre, inclinei o corpo à frente e comecei a bater as teclas:
frsyj mrbrt ,syyrtrf sd ,ivj, sd yjsy dytuhhlr yo dysy
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1 053
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Andei Trabalhando Na Ferrovia...

o Grande Editor disse que queria me encontrar
pessoalmente antes de publicar meu livro.
ele disse que os escritores eram na maioria filhos da puta
e ele só não queria lançar alguém
que fosse
então já que ele estava pagando a passagem de trem
fui lá para
Nova Orleans
onde morei perto dele dobrando a esquina
num quarto pequeno.

o Grande Editor morava num porão com uma
prensa, sua esposa e dois
cães.
o Grande Editor também publicava uma famosa
revista literária
mas meu planejado livro
seria sua primeira tentativa na
área.
ele sobrevivia com a revista, com a sorte, com
doações.

toda noite eu jantava com o Grande
Editor e sua esposa (minha única refeição e
provavelmente a deles também).
depois nós tomávamos cerveja até a meia-noite
quando eu ia para o meu quarto pequeno
abria uma garrafa de vinho e começava a
datilografar.
ele dizia que não tinha poemas
suficientes.
“preciso de mais poemas”, ele dizia.

ele tinha vencido meus poemas antigos
e conforme eu escrevia os novos poemas ele
os imprimia.
eu estava escrevendo diretamente para o
prelo.

pelo meio-dia todos os dias eu dobrava
a esquina
batia na janela
e via o Grande Editor
alimentando a prensa com
páginas dos meus poemas.

o Grande Editor era também o Grande
Empresário, o Grande Impressor e
Inúmeras Outras Grandes Coisas,
e eu era praticamente o poeta
desconhecido por isso tudo era bem
estranho.

de todo modo, eu acenava minhas páginas pra
ele e ele parava a prensa
e abria a porta pra mim.

ele sentava e lia os poemas:
“hmmm... bom... por que você não
vem jantar esta noite?”
aí eu ia embora.

certos meios-dias eu batia na
janela
sem quaisquer poemas
e o Grande Editor me encarava
como se eu fosse uma
barata gigante.
ele não abria a porta.

“vá embora!”, eu podia ouvi-lo gritar
através da janela, “vá embora e
não volte até ter
alguns poemas!”

ele ficava genuinamente zangado
e isso me intrigava: ele esperava
de mim 4 ou 5 poemas
por dia.

eu parava em algum lugar pra beber uma
dúzia de latinhas
voltava para o meu quarto
e começava a datilografar.
a cerveja da tarde sempre tinha um gosto
bom e me vinham
alguns poemas...

levava de volta
batia na janela
acenava as páginas.

o Grande Editor sorria
agradavelmente
abria a porta
pegava as páginas
sentava e lia:
“ãmm... ãmmm... estes estão
bons... por que você não aparece
pra jantar esta noite?”

e entre a tarde
e a noite
eu voltava para o meu quarto
e assinava mais e mais
colofões.
as páginas eram grossas, de alta
gramatura, caras,
criadas para durar
2.000 anos.
as assinaturas eram lentas e
trabalhosas
escritas com caneta
especial...
milhares de colofões
e conforme eu ficava mais bêbado
para tentar não ficar
completamente louco
eu começava a fazer desenhos
e
declarações...
quando eu terminava de assinar os
colos
a pilha de páginas alcançava
dois metros de altura
no meio do
quarto.

como falei,
era um tempo muito estranho
para um escritor desconhecido.
ele me disse uma
noite:
“Chinaski, você estragou
a poesia pra mim... desde que
passei a ler a sua eu simplesmente não consigo ler
mais nada...”

grande louvor, sem dúvida, mas eu
sabia o que ele queria dizer.

todos os dias sua esposa se postava
nas esquinas
tentando vender pinturas,
suas pinturas e as pinturas
de outros pintores.
ela era uma mulher belíssima e
fogosa.

finalmente o livro ficou pronto.
isto é, menos a encadernação;
o Grande Editor não conseguia fazer
a encadernação, tinha de pagar pela
parte da encadernação e isso o
deixava puto.

mas nosso trabalho estava pronto,
o dele e o meu,
e o Grande Editor e
sua esposa me puseram no trem
de volta para L.A.

ambos parados ali
na plataforma
olhando pra mim e sorrindo
enquanto eu olhava pra trás do
assento na janela.
foi algo...

constrangedor...
por fim o trem começou
a rodar lentamente
e eu acenei e eles
acenaram
e aí quando eu já estava
quase fora de vista
o Grande Editor
ficou dando vários saltos
como um garotinho,
acenando ainda...

fui até o vagão
do bar e decidi passar
minha viagem
ali.

algumas paradas e
algumas horas depois
o portador chegou
lá atrás:
“henry chinaski! tem
algum henry chinaski aqui?”

“aqui meu bom homem”,
falei.

“porra, cara”, ele disse, “eu
estava procurando você em tudo que é
canto desse trem!”

dei gorjeta e abri o
telegrama:
“você continua um f.d.p. mas
continuamos te amando...
Jon e Louise...”

fiz sinal para o portador se mandar
pedi um scotch duplo
com gelo
peguei o copo
e o ergui no ar por um instante
brindei a eles uma quase
lírica bênção
então bebi tudo
com o trem
rodando e balançando
balançando e rodando
levando-me para mais e mais
longe
daquelas mágicas
pessoas.
1 181
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Andei Trabalhando Na Ferrovia...

o Grande Editor disse que queria me encontrar
pessoalmente antes de publicar meu livro.
ele disse que os escritores eram na maioria filhos da puta
e ele só não queria lançar alguém
que fosse
então já que ele estava pagando a passagem de trem
fui lá para
Nova Orleans
onde morei perto dele dobrando a esquina
num quarto pequeno.

o Grande Editor morava num porão com uma
prensa, sua esposa e dois
cães.
o Grande Editor também publicava uma famosa
revista literária
mas meu planejado livro
seria sua primeira tentativa na
área.
ele sobrevivia com a revista, com a sorte, com
doações.

toda noite eu jantava com o Grande
Editor e sua esposa (minha única refeição e
provavelmente a deles também).
depois nós tomávamos cerveja até a meia-noite
quando eu ia para o meu quarto pequeno
abria uma garrafa de vinho e começava a
datilografar.
ele dizia que não tinha poemas
suficientes.
“preciso de mais poemas”, ele dizia.

ele tinha vencido meus poemas antigos
e conforme eu escrevia os novos poemas ele
os imprimia.
eu estava escrevendo diretamente para o
prelo.

pelo meio-dia todos os dias eu dobrava
a esquina
batia na janela
e via o Grande Editor
alimentando a prensa com
páginas dos meus poemas.

o Grande Editor era também o Grande
Empresário, o Grande Impressor e
Inúmeras Outras Grandes Coisas,
e eu era praticamente o poeta
desconhecido por isso tudo era bem
estranho.

de todo modo, eu acenava minhas páginas pra
ele e ele parava a prensa
e abria a porta pra mim.

ele sentava e lia os poemas:
“hmmm... bom... por que você não
vem jantar esta noite?”
aí eu ia embora.

certos meios-dias eu batia na
janela
sem quaisquer poemas
e o Grande Editor me encarava
como se eu fosse uma
barata gigante.
ele não abria a porta.

“vá embora!”, eu podia ouvi-lo gritar
através da janela, “vá embora e
não volte até ter
alguns poemas!”

ele ficava genuinamente zangado
e isso me intrigava: ele esperava
de mim 4 ou 5 poemas
por dia.

eu parava em algum lugar pra beber uma
dúzia de latinhas
voltava para o meu quarto
e começava a datilografar.
a cerveja da tarde sempre tinha um gosto
bom e me vinham
alguns poemas...

levava de volta
batia na janela
acenava as páginas.

o Grande Editor sorria
agradavelmente
abria a porta
pegava as páginas
sentava e lia:
“ãmm... ãmmm... estes estão
bons... por que você não aparece
pra jantar esta noite?”

e entre a tarde
e a noite
eu voltava para o meu quarto
e assinava mais e mais
colofões.
as páginas eram grossas, de alta
gramatura, caras,
criadas para durar
2.000 anos.
as assinaturas eram lentas e
trabalhosas
escritas com caneta
especial...
milhares de colofões
e conforme eu ficava mais bêbado
para tentar não ficar
completamente louco
eu começava a fazer desenhos
e
declarações...
quando eu terminava de assinar os
colos
a pilha de páginas alcançava
dois metros de altura
no meio do
quarto.

como falei,
era um tempo muito estranho
para um escritor desconhecido.
ele me disse uma
noite:
“Chinaski, você estragou
a poesia pra mim... desde que
passei a ler a sua eu simplesmente não consigo ler
mais nada...”

grande louvor, sem dúvida, mas eu
sabia o que ele queria dizer.

todos os dias sua esposa se postava
nas esquinas
tentando vender pinturas,
suas pinturas e as pinturas
de outros pintores.
ela era uma mulher belíssima e
fogosa.

finalmente o livro ficou pronto.
isto é, menos a encadernação;
o Grande Editor não conseguia fazer
a encadernação, tinha de pagar pela
parte da encadernação e isso o
deixava puto.

mas nosso trabalho estava pronto,
o dele e o meu,
e o Grande Editor e
sua esposa me puseram no trem
de volta para L.A.

ambos parados ali
na plataforma
olhando pra mim e sorrindo
enquanto eu olhava pra trás do
assento na janela.
foi algo...

constrangedor...
por fim o trem começou
a rodar lentamente
e eu acenei e eles
acenaram
e aí quando eu já estava
quase fora de vista
o Grande Editor
ficou dando vários saltos
como um garotinho,
acenando ainda...

fui até o vagão
do bar e decidi passar
minha viagem
ali.

algumas paradas e
algumas horas depois
o portador chegou
lá atrás:
“henry chinaski! tem
algum henry chinaski aqui?”

“aqui meu bom homem”,
falei.

“porra, cara”, ele disse, “eu
estava procurando você em tudo que é
canto desse trem!”

dei gorjeta e abri o
telegrama:
“você continua um f.d.p. mas
continuamos te amando...
Jon e Louise...”

fiz sinal para o portador se mandar
pedi um scotch duplo
com gelo
peguei o copo
e o ergui no ar por um instante
brindei a eles uma quase
lírica bênção
então bebi tudo
com o trem
rodando e balançando
balançando e rodando
levando-me para mais e mais
longe
daquelas mágicas
pessoas.
1 181
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Árvore Genealógica

nada de mais na minha árvore genealógica, bem, houve o meu tio
John, procurado pelo F.B.I., me pegaram primeiro.
Vovô Leonard, no meu lado paterno, ficava muito
amável quando bebia, elogiava todo mundo, distribuía dinheiro,
chorava copiosamente pela condição humana, mas quando ficava
sóbrio se dizia dele que era uma das criaturas mais
ruins jamais vistas, escutadas ou evitadas.
não muito mais exceto Vovô Willy no meu lado
materno (lá na Alemanha): “Ele era um homem amável,
Henry, mas tudo que queria fazer era beber e tocar seu
violino, ele tocava tão bem, ele tinha um ótimo
emprego numa orquestra sinfônica de primeira mas o
perdeu por causa da bebida, ninguém queria contratá-
lo, mas ele era bom com o violino, ele ia para os cafés
e pegava uma mesa e tocava seu violino, botava o chapéu
sobre a mesa de cabeça pra baixo e as pessoas colocavam um
monte de dinheiro dentro mas ele continuava comprando bebida e
tocando o violino e logo passou a não tocar tão bem
assim e pediam que ele saísse mas na noite
seguinte ele encontrava outro café, outra mesa, ele
escrevia sua própria música e ninguém conseguia tocar violino
como ele conseguia.
Ele morreu certa noite na mesa, largou o
violino, tomou a bebida, deitou a cabeça na mesa e
morreu”.
bem, houve o meu tio Ben, ele era tão bonito que
assustava, ele era bonito demais, ele simplesmente fulgurava,
não dava para acreditar e aquilo não passava, tudo que ele
podia fazer a respeito era sorrir e acender outro cigarro
e encontrar outra mulher para sustentá-lo e consolá-lo, e
depois encontrar outra mulher para fazer o mesmo, e depois encontrar
outra.
ele morreu de tuberculose num sanatório nas colinas, o maço de
cigarros embaixo do travesseiro, morto ele sorria, e em seu
enterro 2 dúzias das mais lindas mulheres de Pasadena,
Glendale e Echo Park choraram
desavergonhadamente enquanto meu pai o xingava no caixão: “Seu
filho da puta desgraçado, você nunca trabalhou um único dia na
vida!”.

meu pai, é claro, foi um que eu nunca consegui decifrar –
quero dizer, como é que ele pode ter conseguido entrar na árvore
genealógica.
mas eu estava me sentindo bastante bem até aqui, mal pode haver
algum proveito em fazer disso aqui um poema depressivo.

bem, às vezes você ganha um macaco estranho num galho e tudo que você
pode fazer é perdoar se puder e esquecer, se possível,
e se nem uma nem outra coisa adiantar, então pense nos outros
e saiba que ao menos parte do seu sangue tem alguma
esperança.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Paz E Amor

nos anos 60
escrevi uma coluna para um jornal
hippie.

eu não era um hippie (já tinha
40 e poucos) mas achei
legal que o jornal
me permitisse expor minhas
errantes
visões
uma vez por
semana.

para cada uma daquelas obras
geniais
eu ganhava
$10 (às vezes).

agora
havia outro jornal
hippie
querendo comprar meus
serviços.
estavam me oferecendo
$15 para cada
coluna.

não querendo parecer um
desertor
eu estava pedindo
$20.

então
eu visitava o outro
jornal
com bastante frequência
negociando com o
editor
a diferença de
5 pratas
enquanto esvaziávamos uma
dúzia de latinhas.

uma coisa legal desse
jornal hippie é que
quando eu entrava
todo mundo começava
a gritar meu
nome:

“Ei, Chinaski!”

“Chinaski!”
eu gostava,
ficava me sentindo uma
estrela.

e eles também
gritavam
“paz e amor!”

“paz e amor!”

várias gatinhas
gritavam isso pra
mim
e eu gostava
disso
embora eu nunca tenha
respondido às
saudações
exceto por um leve
sorriso
e um quase
invisível
aceno da mão
esquerda

eu ia falar com o
editor e dizia
pra ele “escuta, legal o
ambiente de vocês aqui, a gente
precisa bolar
algo...”
no entanto
nunca bolávamos
nada
mas decidi
continuar
insistindo...

então
houve a semana
em que fui

e o lugar todo estava
fechado: ninguém, na-
da

dentro...

bem, pensei, quem sabe
se mudaram, quem sabe acharam
um
lugar mais barato.

então
me afastei de lá
e segui caminhando
e no meu caminho
olhei para dentro de um café
e a mais estranha das
improbabilidades
aconteceu:
lá estava o editor
sentado a uma
mesa
então
entrei
e ele me viu
chegando
e falou “senta aqui,
Chinaski.”

eu sentei
e perguntei
a ele:

“o que aconteceu?”
“é triste, tivemos que
fechar justo quando estávamos
crescendo em circulação
e
anúncios.”

“ah é? e?”

“bem, 4 ou 5 deles
não tinham onde dormir então
falei que podiam
dormir no escritório à
noite desde que não fizessem
barulho e desligassem as luzes... então
eles trouxeram seus colchões
d’água, seus cachimbos, seu ácido,
seus violões, sua erva, seus
discos do Bobby Dylan e
parecia correr tudo
bem...”

“ah é? e??...”

“eles usavam os telefones de
noite. longa distância pra vários lugares,
alguns deles pra
França, Índia ou China
mas
na maioria
pra
lugares nos E.U.A.
mas pra onde quer que ligassem
era sempre por um longo
tempo, algo entre 45
minutos e 3 horas e
meia...”

“Jesus...”

“é, não conseguimos pagar a conta,
portanto adeus ligações, cobradores
atrás da gente, tivemos que
fechar...”

“sinto muito, cara...”

“tá tudo
bem...”

“eu tenho umas
verdinhas”, falei, “vamos
achar um
bar...”

bem, achamos
um e ele pediu um
scotch & soda e eu
pedi um whiskey
sour
e ficamos ali sentados
olhando reto
pra frente
realmente
sem ter muito a
dizer

exceto que
algum tempo depois
nós dois ainda ali
bebendo mais do
mesmo

ele me contou
que sua esposa o tinha
trocado
por um corretor
de imóveis
que trabalhava baseado no
Arizona e no
Novo México
onde as coisas estavam
indo
incrivelmente bem
sobretudo na área de
Santa
Fé.
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