Poemas neste tema
Outros
Charles Bukowski
Espelho
mulheres no meu espelho de penteadeira
houve tantas mulheres
no meu espelho de penteadeira
penteando seus cabelos
o pente prendendo
e vejo os olhos delas no
espelho enquanto elas olham
para mim
estirado na cama.
estou quase sempre na cama
é o meu lugar favorito.
que o amor ou até
um relacionamento
acabe
parece tão absolutamente curioso
mas que novos amores
novos relacionamentos
cheguem
isso é sorte.
muito embora ficar sozinho seja
bom
a solidão parece
imperfeita.
todos aqueles rostos no
espelho
eu me lembro deles.
florações de sentimento e
humor,
fui bem tratado
na maior parte do
tempo.
as mulheres estão agora
diante de outros espelhos
e os homens se estiram nas camas
tenho certeza –
conversando, ou
calados, relaxando.
outra mulher usa o
meu espelho
seu nome é Linda Lee
ela ri de mim
estou usando um happi
japonês preto e branco.
talvez ela continue no meu
espelho.
houve tantas mulheres
no meu espelho de penteadeira
penteando seus cabelos
o pente prendendo
e vejo os olhos delas no
espelho enquanto elas olham
para mim
estirado na cama.
estou quase sempre na cama
é o meu lugar favorito.
que o amor ou até
um relacionamento
acabe
parece tão absolutamente curioso
mas que novos amores
novos relacionamentos
cheguem
isso é sorte.
muito embora ficar sozinho seja
bom
a solidão parece
imperfeita.
todos aqueles rostos no
espelho
eu me lembro deles.
florações de sentimento e
humor,
fui bem tratado
na maior parte do
tempo.
as mulheres estão agora
diante de outros espelhos
e os homens se estiram nas camas
tenho certeza –
conversando, ou
calados, relaxando.
outra mulher usa o
meu espelho
seu nome é Linda Lee
ela ri de mim
estou usando um happi
japonês preto e branco.
talvez ela continue no meu
espelho.
1 225
Charles Bukowski
Fazendo Cabeças
ela ainda faz.
ela esculpe cabeças de homens
depois vai pra cama com
eles
creio que para equiparar a argila
com a carne.
foi assim que a
conheci.
não fiz objeção
mas em tais casos
você sempre acha que é
você.
mas depois
descobri
que eu não era o
primeiro
e depois de começar a morar com
ela
eu olhava aquelas cabeças esculpidas
de homens
sobre uma mesa
e em cima da tv
e
aqui e ali
e pensava
puxa vida.
e aí ela me dizia
“escuta, você sabe que cabeça eu
gostaria esculpir?”
“hmm hmm.”
“eu gostaria de esculpir o grande Mike
Swinnert... ele tem um crânio interessante...
você já reparou na boca dele, nos
dentes?”
“sim, já...”
“eu gosto da esposa dele também... mas acho que gostaria
de fazer o Mike primeiro... você não ficaria
com ciúme, né?”
“ah, não. eu vou nas corridas ou algo assim
pra você se concentrar...”
“é meio embaraçoso eu
pedir pra ele. ele é seu amigo. você se
importaria de pedir...?”
Mike não tinha carro então fui
pegá-lo e voltei com ele. enquanto estacionávamos
ele disse “seguinte, posso comer ela se eu
quiser, você sabe. você se importaria?”
“bem, acho que me importaria”, falei.
ele me olhou daquele jeito: “tá bom,
por você vou me segurar.”
acompanhei Mike até a argila e então
desci as escadas.
fui de carro para o hipódromo e tive
um dia terrível no
hipódromo...
certa vez caminhei com ela pelo McArthur Park
enquanto ela selecionava homens com
cabeças interessantes e
eu me aproximava deles e perguntava se ela
poderia esculpir suas cabeças. eu até
lhes oferecia dinheiro. todos
recusavam, sentindo que havia algo de
errado. eu também sentia que havia algo de
errado, sobretudo comigo.
não foi muito tempo depois disso que
a escultora e eu
nos separamos.
ela tinha até se mudado de cidade mas
me vi voando para outro
estado pra vê-la – duas vezes. e
a cada vez notando
mais cabeças masculinas espalhadas pelo
apartamento.
“quem é esse cara?”, perguntei
sobre uma delas.
“ah, esse é o Billyboy, o
ginete...”
fui embora 2 ou 3 dias
depois...
as vidas seguiram e 2 ou 3 mulheres depois
meu amigo Jack Bahiah apareceu. nós
falamos disso e daquilo e aí Jack
mencionou que havia voado ao
encontro da escultora.
“ela fez a sua cabeça, Jack?”
“fez, cara, ela fez a minha cabeça mas
não ficou parecido comigo, cara. adivinha com
quem ficou parecido, cara?”
“sei lá, cara...”
“ficou parecido com você...”
“Jack, meu rapaz, você sempre soube dizer
muita sacanagem...”
“sem sacanagem, cara, sem sacanagem...”
Jack e eu bebemos bastante vinho naquela noite, ele
vira os copos muito bem.
“ela estava nos meus braços na cama
e falou ‘Deus, eu amo ele, Jack, sinto
falta dele!’, e aí começou a chorar.”
não odeio Jack nem um pouco por comê-la
por dormir encostado nela quando eu tinha dormido
encostado nela por 5 ou 6 anos, e isso demonstra
a durabilidade dos humanos: sabemos extirpar o
troço e destruí-lo e esquecer.
sei que ela ainda esculpe cabeças
de homens e não consegue parar. ela me disse uma vez
que Rodin fez algo similar de um
modo ligeiramente diferente. tá bom.
desejo a ela a sorte da argila e
a sorte dos homens. tem sido uma longa
noite rumo ao meio-dia, por vezes, para a maioria
de nós.
ela esculpe cabeças de homens
depois vai pra cama com
eles
creio que para equiparar a argila
com a carne.
foi assim que a
conheci.
não fiz objeção
mas em tais casos
você sempre acha que é
você.
mas depois
descobri
que eu não era o
primeiro
e depois de começar a morar com
ela
eu olhava aquelas cabeças esculpidas
de homens
sobre uma mesa
e em cima da tv
e
aqui e ali
e pensava
puxa vida.
e aí ela me dizia
“escuta, você sabe que cabeça eu
gostaria esculpir?”
“hmm hmm.”
“eu gostaria de esculpir o grande Mike
Swinnert... ele tem um crânio interessante...
você já reparou na boca dele, nos
dentes?”
“sim, já...”
“eu gosto da esposa dele também... mas acho que gostaria
de fazer o Mike primeiro... você não ficaria
com ciúme, né?”
“ah, não. eu vou nas corridas ou algo assim
pra você se concentrar...”
“é meio embaraçoso eu
pedir pra ele. ele é seu amigo. você se
importaria de pedir...?”
Mike não tinha carro então fui
pegá-lo e voltei com ele. enquanto estacionávamos
ele disse “seguinte, posso comer ela se eu
quiser, você sabe. você se importaria?”
“bem, acho que me importaria”, falei.
ele me olhou daquele jeito: “tá bom,
por você vou me segurar.”
acompanhei Mike até a argila e então
desci as escadas.
fui de carro para o hipódromo e tive
um dia terrível no
hipódromo...
certa vez caminhei com ela pelo McArthur Park
enquanto ela selecionava homens com
cabeças interessantes e
eu me aproximava deles e perguntava se ela
poderia esculpir suas cabeças. eu até
lhes oferecia dinheiro. todos
recusavam, sentindo que havia algo de
errado. eu também sentia que havia algo de
errado, sobretudo comigo.
não foi muito tempo depois disso que
a escultora e eu
nos separamos.
ela tinha até se mudado de cidade mas
me vi voando para outro
estado pra vê-la – duas vezes. e
a cada vez notando
mais cabeças masculinas espalhadas pelo
apartamento.
“quem é esse cara?”, perguntei
sobre uma delas.
“ah, esse é o Billyboy, o
ginete...”
fui embora 2 ou 3 dias
depois...
as vidas seguiram e 2 ou 3 mulheres depois
meu amigo Jack Bahiah apareceu. nós
falamos disso e daquilo e aí Jack
mencionou que havia voado ao
encontro da escultora.
“ela fez a sua cabeça, Jack?”
“fez, cara, ela fez a minha cabeça mas
não ficou parecido comigo, cara. adivinha com
quem ficou parecido, cara?”
“sei lá, cara...”
“ficou parecido com você...”
“Jack, meu rapaz, você sempre soube dizer
muita sacanagem...”
“sem sacanagem, cara, sem sacanagem...”
Jack e eu bebemos bastante vinho naquela noite, ele
vira os copos muito bem.
“ela estava nos meus braços na cama
e falou ‘Deus, eu amo ele, Jack, sinto
falta dele!’, e aí começou a chorar.”
não odeio Jack nem um pouco por comê-la
por dormir encostado nela quando eu tinha dormido
encostado nela por 5 ou 6 anos, e isso demonstra
a durabilidade dos humanos: sabemos extirpar o
troço e destruí-lo e esquecer.
sei que ela ainda esculpe cabeças
de homens e não consegue parar. ela me disse uma vez
que Rodin fez algo similar de um
modo ligeiramente diferente. tá bom.
desejo a ela a sorte da argila e
a sorte dos homens. tem sido uma longa
noite rumo ao meio-dia, por vezes, para a maioria
de nós.
1 186
Charles Bukowski
Fazendo Cabeças
ela ainda faz.
ela esculpe cabeças de homens
depois vai pra cama com
eles
creio que para equiparar a argila
com a carne.
foi assim que a
conheci.
não fiz objeção
mas em tais casos
você sempre acha que é
você.
mas depois
descobri
que eu não era o
primeiro
e depois de começar a morar com
ela
eu olhava aquelas cabeças esculpidas
de homens
sobre uma mesa
e em cima da tv
e
aqui e ali
e pensava
puxa vida.
e aí ela me dizia
“escuta, você sabe que cabeça eu
gostaria esculpir?”
“hmm hmm.”
“eu gostaria de esculpir o grande Mike
Swinnert... ele tem um crânio interessante...
você já reparou na boca dele, nos
dentes?”
“sim, já...”
“eu gosto da esposa dele também... mas acho que gostaria
de fazer o Mike primeiro... você não ficaria
com ciúme, né?”
“ah, não. eu vou nas corridas ou algo assim
pra você se concentrar...”
“é meio embaraçoso eu
pedir pra ele. ele é seu amigo. você se
importaria de pedir...?”
Mike não tinha carro então fui
pegá-lo e voltei com ele. enquanto estacionávamos
ele disse “seguinte, posso comer ela se eu
quiser, você sabe. você se importaria?”
“bem, acho que me importaria”, falei.
ele me olhou daquele jeito: “tá bom,
por você vou me segurar.”
acompanhei Mike até a argila e então
desci as escadas.
fui de carro para o hipódromo e tive
um dia terrível no
hipódromo...
certa vez caminhei com ela pelo McArthur Park
enquanto ela selecionava homens com
cabeças interessantes e
eu me aproximava deles e perguntava se ela
poderia esculpir suas cabeças. eu até
lhes oferecia dinheiro. todos
recusavam, sentindo que havia algo de
errado. eu também sentia que havia algo de
errado, sobretudo comigo.
não foi muito tempo depois disso que
a escultora e eu
nos separamos.
ela tinha até se mudado de cidade mas
me vi voando para outro
estado pra vê-la – duas vezes. e
a cada vez notando
mais cabeças masculinas espalhadas pelo
apartamento.
“quem é esse cara?”, perguntei
sobre uma delas.
“ah, esse é o Billyboy, o
ginete...”
fui embora 2 ou 3 dias
depois...
as vidas seguiram e 2 ou 3 mulheres depois
meu amigo Jack Bahiah apareceu. nós
falamos disso e daquilo e aí Jack
mencionou que havia voado ao
encontro da escultora.
“ela fez a sua cabeça, Jack?”
“fez, cara, ela fez a minha cabeça mas
não ficou parecido comigo, cara. adivinha com
quem ficou parecido, cara?”
“sei lá, cara...”
“ficou parecido com você...”
“Jack, meu rapaz, você sempre soube dizer
muita sacanagem...”
“sem sacanagem, cara, sem sacanagem...”
Jack e eu bebemos bastante vinho naquela noite, ele
vira os copos muito bem.
“ela estava nos meus braços na cama
e falou ‘Deus, eu amo ele, Jack, sinto
falta dele!’, e aí começou a chorar.”
não odeio Jack nem um pouco por comê-la
por dormir encostado nela quando eu tinha dormido
encostado nela por 5 ou 6 anos, e isso demonstra
a durabilidade dos humanos: sabemos extirpar o
troço e destruí-lo e esquecer.
sei que ela ainda esculpe cabeças
de homens e não consegue parar. ela me disse uma vez
que Rodin fez algo similar de um
modo ligeiramente diferente. tá bom.
desejo a ela a sorte da argila e
a sorte dos homens. tem sido uma longa
noite rumo ao meio-dia, por vezes, para a maioria
de nós.
ela esculpe cabeças de homens
depois vai pra cama com
eles
creio que para equiparar a argila
com a carne.
foi assim que a
conheci.
não fiz objeção
mas em tais casos
você sempre acha que é
você.
mas depois
descobri
que eu não era o
primeiro
e depois de começar a morar com
ela
eu olhava aquelas cabeças esculpidas
de homens
sobre uma mesa
e em cima da tv
e
aqui e ali
e pensava
puxa vida.
e aí ela me dizia
“escuta, você sabe que cabeça eu
gostaria esculpir?”
“hmm hmm.”
“eu gostaria de esculpir o grande Mike
Swinnert... ele tem um crânio interessante...
você já reparou na boca dele, nos
dentes?”
“sim, já...”
“eu gosto da esposa dele também... mas acho que gostaria
de fazer o Mike primeiro... você não ficaria
com ciúme, né?”
“ah, não. eu vou nas corridas ou algo assim
pra você se concentrar...”
“é meio embaraçoso eu
pedir pra ele. ele é seu amigo. você se
importaria de pedir...?”
Mike não tinha carro então fui
pegá-lo e voltei com ele. enquanto estacionávamos
ele disse “seguinte, posso comer ela se eu
quiser, você sabe. você se importaria?”
“bem, acho que me importaria”, falei.
ele me olhou daquele jeito: “tá bom,
por você vou me segurar.”
acompanhei Mike até a argila e então
desci as escadas.
fui de carro para o hipódromo e tive
um dia terrível no
hipódromo...
certa vez caminhei com ela pelo McArthur Park
enquanto ela selecionava homens com
cabeças interessantes e
eu me aproximava deles e perguntava se ela
poderia esculpir suas cabeças. eu até
lhes oferecia dinheiro. todos
recusavam, sentindo que havia algo de
errado. eu também sentia que havia algo de
errado, sobretudo comigo.
não foi muito tempo depois disso que
a escultora e eu
nos separamos.
ela tinha até se mudado de cidade mas
me vi voando para outro
estado pra vê-la – duas vezes. e
a cada vez notando
mais cabeças masculinas espalhadas pelo
apartamento.
“quem é esse cara?”, perguntei
sobre uma delas.
“ah, esse é o Billyboy, o
ginete...”
fui embora 2 ou 3 dias
depois...
as vidas seguiram e 2 ou 3 mulheres depois
meu amigo Jack Bahiah apareceu. nós
falamos disso e daquilo e aí Jack
mencionou que havia voado ao
encontro da escultora.
“ela fez a sua cabeça, Jack?”
“fez, cara, ela fez a minha cabeça mas
não ficou parecido comigo, cara. adivinha com
quem ficou parecido, cara?”
“sei lá, cara...”
“ficou parecido com você...”
“Jack, meu rapaz, você sempre soube dizer
muita sacanagem...”
“sem sacanagem, cara, sem sacanagem...”
Jack e eu bebemos bastante vinho naquela noite, ele
vira os copos muito bem.
“ela estava nos meus braços na cama
e falou ‘Deus, eu amo ele, Jack, sinto
falta dele!’, e aí começou a chorar.”
não odeio Jack nem um pouco por comê-la
por dormir encostado nela quando eu tinha dormido
encostado nela por 5 ou 6 anos, e isso demonstra
a durabilidade dos humanos: sabemos extirpar o
troço e destruí-lo e esquecer.
sei que ela ainda esculpe cabeças
de homens e não consegue parar. ela me disse uma vez
que Rodin fez algo similar de um
modo ligeiramente diferente. tá bom.
desejo a ela a sorte da argila e
a sorte dos homens. tem sido uma longa
noite rumo ao meio-dia, por vezes, para a maioria
de nós.
1 186
Charles Bukowski
#1
ah me perdoem Por quem os sinos dobram,
ah me perdoe Homem que andou sobre as águas,
ah me perdoe velhinha que morava num sapato,
ah me perdoe a montanha que rugia à meia-noite,
ah me perdoem os sons bobos da noite do dia e da morte,
ah me perdoe a morte da última bela pantera,
ah me perdoem todos os navios afundados e exércitos derrotados.
este é o meu primeiro POEMA EM FAX.
é tarde demais:
fui
conquistado.
ah me perdoe Homem que andou sobre as águas,
ah me perdoe velhinha que morava num sapato,
ah me perdoe a montanha que rugia à meia-noite,
ah me perdoem os sons bobos da noite do dia e da morte,
ah me perdoe a morte da última bela pantera,
ah me perdoem todos os navios afundados e exércitos derrotados.
este é o meu primeiro POEMA EM FAX.
é tarde demais:
fui
conquistado.
1 115
Charles Bukowski
Um Poema Para Mim Mesmo
Charles Bukowski contesta o incontestável
trabalhava nos Correios
assusta pessoas nas ruas
é um neurótico
inventa as merdas que escreve
principalmente as partes sobre sexo
Charles Bukowski é o Rei dos Poetas Teimosos
Charles Bukowski trabalhava nos Correios
Charles Bukowski escreve com dureza e age com medo
age com medo e escreve com dureza
inventa as merdas que escreve
principalmente as partes sobre sexo
Charles Bukowski tem $90.000 no banco e está
preocupado
Charles Bukowski vai ganhar $20.000 por ano nos
próximos 4 anos e
está preocupado
Charles Bukowski é um bêbado
Charles Bukowski ama sua filha
Charles Bukowski trabalhava nos Correios
Charles Bukowski diz que odeia leituras de poesia em público
faz leituras de poesia em público
e tem chiliques quando o cachê é inferior a
$50
Charles Bukowski ganhou uma crítica boa na Der Spiegel
Charles Bukowski foi publicado na Penguin Poetry Series #13
Charles Bukowski acabou de escrever seu primeiro romance
tem dois pares velhos de sapato – um preto, outro marrom
Charles Bukowski foi certa vez casado com uma milionária
Charles Bukowski é conhecido no underground
Charles Bukowski dorme até o meio-dia e sempre acorda de
ressaca
Charles Bukowski foi louvado por Genet e Henry Miller
muita gente rica e bem-sucedida gostaria de ser
Charles Bukowski
Charles Bukowski bebe e conversa com fascistas, revolucionários,
babacas, putas e loucos
Charles Bukowski não gosta de poesia
parece um lutador mas apanha todas as vezes
ele bebe scotch ou vinho
Charles Bukowski foi funcionário dos Correios por onze anos
Charles Bukowski foi carteiro nos Correios por 3 anos
escreveu Notas de um velho safado
que está em livrarias do Canal do Panamá até
Amsterdã
Charles Bukowski se embebeda com professores universitários e os manda
chupar merda;
certa vez bebeu meio litro de uísque num só gole numa festa
para caretas, e o que é que
Charles Bukowski estava fazendo lá?
Charles Bukowski está nos arquivos da Universidade de Santa Barbara
foi o que provocou os tumultos em Isla Vista
Charles Bukowski se deu bem – ele pode foder um gambá numa cloaca
e se sair com um royal flush num furacão texano
quase todo mundo quer ser
Charles Bukowski
se embebedar com
Charles Bukowski
todas as garotas de cabelos pretos com bocetas apertadinhas querem
dar para
Charles Bukowski
até quando ele fala de suicídio
Charles Bukowski sorri e às vezes ri
e quando seus editores lhe dizem
mal chegamos no adiantamento ainda
ou nós não fizemos a nossa tabulação bianual
mas você se deu bem
Charles Bukowski
não se preocupe
e a Penguin Books cobra de
Charles Bukowski 2 libras devidas depois que
a primeira edição se esgotou, mas não se preocupe, nós
faremos uma segunda
edição,
e quando o bebum no sofá cai de cara
e Charles Bukowski tenta botá-lo de volta no sofá
o bebum lhe dá um soco no nariz
Charles Bukowski já teve até uma bibliografia escrita a seu respeito
ou tabulada a seu respeito
ele simplesmente não erra
seu mijo não fede
tudo está ótimo,
ele se embebeda até com seu senhorio e sua
senhoria, todo mundo gosta dele, acha que ele é
só só só...
Charles Bukowski tem ombros caídos
ele dá bicadas em teclas que não respondem ao chamado
sabendo que se deu bem
sabendo que ele é excelente
Charles Bukowski está indo à falência
está falindo
num período de aclamação
num período de professores e editores e boceta
ninguém poderá entender que suas últimas cédulas
estão queimando mais rápido do que
cocô de cachorro encharcado de gasolina F-310
e Marina precisa de sapatos
novos.
claro, ele não entende o
intangível, mas
entende.
Charles Bukowski não tem noção
ele se debruça sobre uma máquina de escrever
bêbado às 3:30 da manhã
que outra pessoa leve a bola
ele está machucado e sua bunda foi
chutada
já era
a noite está se mostrando
Charles Bukowski, querido garoto,
o jogo está terminando e você
jamais passou
do meio-campo,
seu imprestável.
trabalhava nos Correios
assusta pessoas nas ruas
é um neurótico
inventa as merdas que escreve
principalmente as partes sobre sexo
Charles Bukowski é o Rei dos Poetas Teimosos
Charles Bukowski trabalhava nos Correios
Charles Bukowski escreve com dureza e age com medo
age com medo e escreve com dureza
inventa as merdas que escreve
principalmente as partes sobre sexo
Charles Bukowski tem $90.000 no banco e está
preocupado
Charles Bukowski vai ganhar $20.000 por ano nos
próximos 4 anos e
está preocupado
Charles Bukowski é um bêbado
Charles Bukowski ama sua filha
Charles Bukowski trabalhava nos Correios
Charles Bukowski diz que odeia leituras de poesia em público
faz leituras de poesia em público
e tem chiliques quando o cachê é inferior a
$50
Charles Bukowski ganhou uma crítica boa na Der Spiegel
Charles Bukowski foi publicado na Penguin Poetry Series #13
Charles Bukowski acabou de escrever seu primeiro romance
tem dois pares velhos de sapato – um preto, outro marrom
Charles Bukowski foi certa vez casado com uma milionária
Charles Bukowski é conhecido no underground
Charles Bukowski dorme até o meio-dia e sempre acorda de
ressaca
Charles Bukowski foi louvado por Genet e Henry Miller
muita gente rica e bem-sucedida gostaria de ser
Charles Bukowski
Charles Bukowski bebe e conversa com fascistas, revolucionários,
babacas, putas e loucos
Charles Bukowski não gosta de poesia
parece um lutador mas apanha todas as vezes
ele bebe scotch ou vinho
Charles Bukowski foi funcionário dos Correios por onze anos
Charles Bukowski foi carteiro nos Correios por 3 anos
escreveu Notas de um velho safado
que está em livrarias do Canal do Panamá até
Amsterdã
Charles Bukowski se embebeda com professores universitários e os manda
chupar merda;
certa vez bebeu meio litro de uísque num só gole numa festa
para caretas, e o que é que
Charles Bukowski estava fazendo lá?
Charles Bukowski está nos arquivos da Universidade de Santa Barbara
foi o que provocou os tumultos em Isla Vista
Charles Bukowski se deu bem – ele pode foder um gambá numa cloaca
e se sair com um royal flush num furacão texano
quase todo mundo quer ser
Charles Bukowski
se embebedar com
Charles Bukowski
todas as garotas de cabelos pretos com bocetas apertadinhas querem
dar para
Charles Bukowski
até quando ele fala de suicídio
Charles Bukowski sorri e às vezes ri
e quando seus editores lhe dizem
mal chegamos no adiantamento ainda
ou nós não fizemos a nossa tabulação bianual
mas você se deu bem
Charles Bukowski
não se preocupe
e a Penguin Books cobra de
Charles Bukowski 2 libras devidas depois que
a primeira edição se esgotou, mas não se preocupe, nós
faremos uma segunda
edição,
e quando o bebum no sofá cai de cara
e Charles Bukowski tenta botá-lo de volta no sofá
o bebum lhe dá um soco no nariz
Charles Bukowski já teve até uma bibliografia escrita a seu respeito
ou tabulada a seu respeito
ele simplesmente não erra
seu mijo não fede
tudo está ótimo,
ele se embebeda até com seu senhorio e sua
senhoria, todo mundo gosta dele, acha que ele é
só só só...
Charles Bukowski tem ombros caídos
ele dá bicadas em teclas que não respondem ao chamado
sabendo que se deu bem
sabendo que ele é excelente
Charles Bukowski está indo à falência
está falindo
num período de aclamação
num período de professores e editores e boceta
ninguém poderá entender que suas últimas cédulas
estão queimando mais rápido do que
cocô de cachorro encharcado de gasolina F-310
e Marina precisa de sapatos
novos.
claro, ele não entende o
intangível, mas
entende.
Charles Bukowski não tem noção
ele se debruça sobre uma máquina de escrever
bêbado às 3:30 da manhã
que outra pessoa leve a bola
ele está machucado e sua bunda foi
chutada
já era
a noite está se mostrando
Charles Bukowski, querido garoto,
o jogo está terminando e você
jamais passou
do meio-campo,
seu imprestável.
1 026
Charles Bukowski
A Massa Solar: Alma: Gênese E Geotropismo:
permitam-me agora tentar
atenuar a grandeza laríngea de Veechy:
pois que homem do tempo poderia ter
dito:
“Espiões, Espadas, Espinhos – externo extrapsino.
Oósporo aguilhão do ofito opino.”
Bigorna!
e isso foi antes de
Pound, Olson, Williams, John
Muir.
“Planos planímetros planifólios!”, certa vez ele me
escreveu.
“Pelas barbas da rocha quinquangular”, retorqui
eu, “acertou em cheio!”
eu o visitei na Itália no Dia de Todos os Tolos
e sua autoridade nos pulvilos pontilhados
nunca me deixou em dúvida
umbrosa.
“Trépano”, ele disse, “ode – uíste! – fragrantes astrágalos.”
foi a última vez. que. o vi. Veechy tinha
embocaduras brasonadas, criptônimos, drosômetros;
que o favoso favor dele
ressoe pela ruma,
rubefaciente, causando também o ruído na
rutabaga.
atenuar a grandeza laríngea de Veechy:
pois que homem do tempo poderia ter
dito:
“Espiões, Espadas, Espinhos – externo extrapsino.
Oósporo aguilhão do ofito opino.”
Bigorna!
e isso foi antes de
Pound, Olson, Williams, John
Muir.
“Planos planímetros planifólios!”, certa vez ele me
escreveu.
“Pelas barbas da rocha quinquangular”, retorqui
eu, “acertou em cheio!”
eu o visitei na Itália no Dia de Todos os Tolos
e sua autoridade nos pulvilos pontilhados
nunca me deixou em dúvida
umbrosa.
“Trépano”, ele disse, “ode – uíste! – fragrantes astrágalos.”
foi a última vez. que. o vi. Veechy tinha
embocaduras brasonadas, criptônimos, drosômetros;
que o favoso favor dele
ressoe pela ruma,
rubefaciente, causando também o ruído na
rutabaga.
707
Charles Bukowski
Eu Era Merda
pesar, as paredes sangram de tanto pesar e quem se importa?
um pardal, uma princesa, uma puta, um cão de caça?
meu deus, a sujeira se importa, sujeira, e sujeira eu serei,
vou soprar um clarim de herói onde os heróis são todos iguais:
Ezra metido junto com o menino de recados que nem eu,
que nem eu, débil chuva chapinhando no cérebro vazio,
ah meu deus, as nobres intenções, as vidas, os esgotos,
as mesas em Paris
pairando pavoneadas em nossas memórias suínas,
Havana, Cuba, Hemingway
caindo no chão
sangue chapinhado em todas as saídas.
se Hemingway se mata
eu sou o quê?
se Cummings morre por cima da máquina de escrever,
se Faulkner agarra o coração e se vai,
eu sou o quê?
eu sou o quê? eu era o que
quando Jeffers morreu em sua tumba,
seu casulo de pedra?
eu era merda, merda, merda, merda.
eu agora caio no chão e levanto meus últimos pedaços
o que resta de mim
prometo grais cheios de palavras bem como de vinho,
e o verde, e a sombra que adeja,
tudo isso é nada,
Deus se barbeando no meu banheiro,
aluguel atrasado,
relâmpago quebrando as costas das formigas,
preciso me aproximar de mim mesmo,
preciso parar de fazer truques pois
bem lá dentro
em algum lugar
acima das bolas ou
abaixo ou naquela cabeça
ainda não esmagada
olhos espiando para fora como fogos impossíveis e amaldiçoados,
vejo a fenda que devo pular, e serei forte
e serei gentil, sempre fui gentil,
os animais me amam como se eu fosse uma criança pintando com giz
as bordas do mundo,
pardais passam andando, moscas rastejam sob minhas pálpebras,
não consigo machucar nada
que não seja eu mesmo,
não consigo nem mesmo no pesar sangrento
dar um grito;
isso é mais do que uma escritura no interior do meu cérebro –
sou impelido ao longo das avenidas de progresso e processo
como dados
os deuses abocanhando seus fogos de força
e eu
não devo morrer,
ainda.
um pardal, uma princesa, uma puta, um cão de caça?
meu deus, a sujeira se importa, sujeira, e sujeira eu serei,
vou soprar um clarim de herói onde os heróis são todos iguais:
Ezra metido junto com o menino de recados que nem eu,
que nem eu, débil chuva chapinhando no cérebro vazio,
ah meu deus, as nobres intenções, as vidas, os esgotos,
as mesas em Paris
pairando pavoneadas em nossas memórias suínas,
Havana, Cuba, Hemingway
caindo no chão
sangue chapinhado em todas as saídas.
se Hemingway se mata
eu sou o quê?
se Cummings morre por cima da máquina de escrever,
se Faulkner agarra o coração e se vai,
eu sou o quê?
eu sou o quê? eu era o que
quando Jeffers morreu em sua tumba,
seu casulo de pedra?
eu era merda, merda, merda, merda.
eu agora caio no chão e levanto meus últimos pedaços
o que resta de mim
prometo grais cheios de palavras bem como de vinho,
e o verde, e a sombra que adeja,
tudo isso é nada,
Deus se barbeando no meu banheiro,
aluguel atrasado,
relâmpago quebrando as costas das formigas,
preciso me aproximar de mim mesmo,
preciso parar de fazer truques pois
bem lá dentro
em algum lugar
acima das bolas ou
abaixo ou naquela cabeça
ainda não esmagada
olhos espiando para fora como fogos impossíveis e amaldiçoados,
vejo a fenda que devo pular, e serei forte
e serei gentil, sempre fui gentil,
os animais me amam como se eu fosse uma criança pintando com giz
as bordas do mundo,
pardais passam andando, moscas rastejam sob minhas pálpebras,
não consigo machucar nada
que não seja eu mesmo,
não consigo nem mesmo no pesar sangrento
dar um grito;
isso é mais do que uma escritura no interior do meu cérebro –
sou impelido ao longo das avenidas de progresso e processo
como dados
os deuses abocanhando seus fogos de força
e eu
não devo morrer,
ainda.
1 409
Charles Bukowski
Eu Era Merda
pesar, as paredes sangram de tanto pesar e quem se importa?
um pardal, uma princesa, uma puta, um cão de caça?
meu deus, a sujeira se importa, sujeira, e sujeira eu serei,
vou soprar um clarim de herói onde os heróis são todos iguais:
Ezra metido junto com o menino de recados que nem eu,
que nem eu, débil chuva chapinhando no cérebro vazio,
ah meu deus, as nobres intenções, as vidas, os esgotos,
as mesas em Paris
pairando pavoneadas em nossas memórias suínas,
Havana, Cuba, Hemingway
caindo no chão
sangue chapinhado em todas as saídas.
se Hemingway se mata
eu sou o quê?
se Cummings morre por cima da máquina de escrever,
se Faulkner agarra o coração e se vai,
eu sou o quê?
eu sou o quê? eu era o que
quando Jeffers morreu em sua tumba,
seu casulo de pedra?
eu era merda, merda, merda, merda.
eu agora caio no chão e levanto meus últimos pedaços
o que resta de mim
prometo grais cheios de palavras bem como de vinho,
e o verde, e a sombra que adeja,
tudo isso é nada,
Deus se barbeando no meu banheiro,
aluguel atrasado,
relâmpago quebrando as costas das formigas,
preciso me aproximar de mim mesmo,
preciso parar de fazer truques pois
bem lá dentro
em algum lugar
acima das bolas ou
abaixo ou naquela cabeça
ainda não esmagada
olhos espiando para fora como fogos impossíveis e amaldiçoados,
vejo a fenda que devo pular, e serei forte
e serei gentil, sempre fui gentil,
os animais me amam como se eu fosse uma criança pintando com giz
as bordas do mundo,
pardais passam andando, moscas rastejam sob minhas pálpebras,
não consigo machucar nada
que não seja eu mesmo,
não consigo nem mesmo no pesar sangrento
dar um grito;
isso é mais do que uma escritura no interior do meu cérebro –
sou impelido ao longo das avenidas de progresso e processo
como dados
os deuses abocanhando seus fogos de força
e eu
não devo morrer,
ainda.
um pardal, uma princesa, uma puta, um cão de caça?
meu deus, a sujeira se importa, sujeira, e sujeira eu serei,
vou soprar um clarim de herói onde os heróis são todos iguais:
Ezra metido junto com o menino de recados que nem eu,
que nem eu, débil chuva chapinhando no cérebro vazio,
ah meu deus, as nobres intenções, as vidas, os esgotos,
as mesas em Paris
pairando pavoneadas em nossas memórias suínas,
Havana, Cuba, Hemingway
caindo no chão
sangue chapinhado em todas as saídas.
se Hemingway se mata
eu sou o quê?
se Cummings morre por cima da máquina de escrever,
se Faulkner agarra o coração e se vai,
eu sou o quê?
eu sou o quê? eu era o que
quando Jeffers morreu em sua tumba,
seu casulo de pedra?
eu era merda, merda, merda, merda.
eu agora caio no chão e levanto meus últimos pedaços
o que resta de mim
prometo grais cheios de palavras bem como de vinho,
e o verde, e a sombra que adeja,
tudo isso é nada,
Deus se barbeando no meu banheiro,
aluguel atrasado,
relâmpago quebrando as costas das formigas,
preciso me aproximar de mim mesmo,
preciso parar de fazer truques pois
bem lá dentro
em algum lugar
acima das bolas ou
abaixo ou naquela cabeça
ainda não esmagada
olhos espiando para fora como fogos impossíveis e amaldiçoados,
vejo a fenda que devo pular, e serei forte
e serei gentil, sempre fui gentil,
os animais me amam como se eu fosse uma criança pintando com giz
as bordas do mundo,
pardais passam andando, moscas rastejam sob minhas pálpebras,
não consigo machucar nada
que não seja eu mesmo,
não consigo nem mesmo no pesar sangrento
dar um grito;
isso é mais do que uma escritura no interior do meu cérebro –
sou impelido ao longo das avenidas de progresso e processo
como dados
os deuses abocanhando seus fogos de força
e eu
não devo morrer,
ainda.
1 409
Charles Bukowski
Canção de Blues
perdão pelo território do meu pranto –
é impróprio, eu sei,
talvez até
hostil
mas o bacon está queimando
o bacon está queimando
noites altas
armadas com metralhadoras
circundam minha tonta e covarde
cama
o bacon
está
queimando
então limpemos nossos tolos
traseiros
finjamos que somos coisas
agradáveis e significativas
não é esse o som
para tentar lograr
o truque mais sujo de
todos?
é impróprio, eu sei,
talvez até
hostil
mas o bacon está queimando
o bacon está queimando
noites altas
armadas com metralhadoras
circundam minha tonta e covarde
cama
o bacon
está
queimando
então limpemos nossos tolos
traseiros
finjamos que somos coisas
agradáveis e significativas
não é esse o som
para tentar lograr
o truque mais sujo de
todos?
1 046
Charles Bukowski
Eu Achei Que Ia Me Dar Bem
eu tinha acabado de vomitar fora da porta do meu carro
misturas vermelhas, vinho, cerveja e uísque.
tarde da noite no sábado
não, cedo na manhã de domingo;
eu não aguentaria muito mais; eu estava sempre
me matando
indo parar em cadeias, hospitais, soleiras de porta, pisos...
traduzido para 7 línguas
tema de meia dúzia de cursos de lit. moderna,
eu ainda não sabia nada,
não queria saber;
forcei o último jato
fechei a porta
e rodei a leste pelo Sunset –
quando vi uma coisa com longos cabelos loiros
vomitando, realmente botando pra
fora – expelindo a vida podre o trago podre –
as calças femininas caídas e arrastadas no chão,
bunda nua sob o luar hollywoodiano de cartolina –
a coisa estava realmente passando mal:
ela arfava, então andava um pouquinho,
arfava, aquela bunda branca toda,
e eu pensei, caralho, vou me dar bem –
já faz uns 2 anos e estou cansado de escrever sobre
punhetas –
mas quando me aproximei
percebi que não eram calças femininas e sim masculinas;
era só um garoto de cabelo comprido com uma grande bunda pelada,
mas ora, como dizia o meu amigão Benny –
“qual diabo é a diferença?”
e eu estava prestes a parar junto dele
quando a viatura o viu
e se intrometeu entre nós
e os dois tiras saltaram
bem felizes e empolgados com seu achado –
“ei, mãe, quê que cê tá fazendo com o furo
de fora?”
o garoto afastou as pernas, jogou os braços para o ar.
“ei, você!”, um dos tiras gritou para mim.
desliguei meus faróis e caí fora devagar como se eu não tivesse
escutado. aí pisei fundo na primeira
à direita. na Gramercy Place com Hollywood Blvd. eu parei
abri a porta e
vomitei de novo.
pobre filho da puta, pensei, em vez de
levá-lo pra casa ou para um hospital
vão levá-lo pra cadeia – aquela bunda branca toda.
talvez eles se aproveitem um pouco. bem, era tarde demais para
mim.
fechei a porta, liguei os faróis, rodei em frente,
tentando lembrar onde eu
morava.
misturas vermelhas, vinho, cerveja e uísque.
tarde da noite no sábado
não, cedo na manhã de domingo;
eu não aguentaria muito mais; eu estava sempre
me matando
indo parar em cadeias, hospitais, soleiras de porta, pisos...
traduzido para 7 línguas
tema de meia dúzia de cursos de lit. moderna,
eu ainda não sabia nada,
não queria saber;
forcei o último jato
fechei a porta
e rodei a leste pelo Sunset –
quando vi uma coisa com longos cabelos loiros
vomitando, realmente botando pra
fora – expelindo a vida podre o trago podre –
as calças femininas caídas e arrastadas no chão,
bunda nua sob o luar hollywoodiano de cartolina –
a coisa estava realmente passando mal:
ela arfava, então andava um pouquinho,
arfava, aquela bunda branca toda,
e eu pensei, caralho, vou me dar bem –
já faz uns 2 anos e estou cansado de escrever sobre
punhetas –
mas quando me aproximei
percebi que não eram calças femininas e sim masculinas;
era só um garoto de cabelo comprido com uma grande bunda pelada,
mas ora, como dizia o meu amigão Benny –
“qual diabo é a diferença?”
e eu estava prestes a parar junto dele
quando a viatura o viu
e se intrometeu entre nós
e os dois tiras saltaram
bem felizes e empolgados com seu achado –
“ei, mãe, quê que cê tá fazendo com o furo
de fora?”
o garoto afastou as pernas, jogou os braços para o ar.
“ei, você!”, um dos tiras gritou para mim.
desliguei meus faróis e caí fora devagar como se eu não tivesse
escutado. aí pisei fundo na primeira
à direita. na Gramercy Place com Hollywood Blvd. eu parei
abri a porta e
vomitei de novo.
pobre filho da puta, pensei, em vez de
levá-lo pra casa ou para um hospital
vão levá-lo pra cadeia – aquela bunda branca toda.
talvez eles se aproveitem um pouco. bem, era tarde demais para
mim.
fechei a porta, liguei os faróis, rodei em frente,
tentando lembrar onde eu
morava.
1 117
Charles Bukowski
Desculpa Para Uma Possível Imortalidade
se não conseguirmos fazer literatura com nossa
agonia
o que é que faremos com
ela?
mendigar nas ruas?
eu gosto dos meus pequenos confortos
igual a qualquer outro
filho da
puta.
agonia
o que é que faremos com
ela?
mendigar nas ruas?
eu gosto dos meus pequenos confortos
igual a qualquer outro
filho da
puta.
1 227
Charles Bukowski
Desculpa Para Uma Possível Imortalidade
se não conseguirmos fazer literatura com nossa
agonia
o que é que faremos com
ela?
mendigar nas ruas?
eu gosto dos meus pequenos confortos
igual a qualquer outro
filho da
puta.
agonia
o que é que faremos com
ela?
mendigar nas ruas?
eu gosto dos meus pequenos confortos
igual a qualquer outro
filho da
puta.
1 227
Charles Bukowski
Desculpa Para Uma Possível Imortalidade
se não conseguirmos fazer literatura com nossa
agonia
o que é que faremos com
ela?
mendigar nas ruas?
eu gosto dos meus pequenos confortos
igual a qualquer outro
filho da
puta.
agonia
o que é que faremos com
ela?
mendigar nas ruas?
eu gosto dos meus pequenos confortos
igual a qualquer outro
filho da
puta.
1 227
Charles Bukowski
Mais Potente do Que de Carne Moída Com Batata –
o movimento do coração humano:
estrangulado no Missouri;
recoberto por cera quente em Boston;
assado feito batata em Norfolk;
perdido nas Montanhas Allegheny;
encontrado mais uma vez numa cama de mogno com dossel
em Nova Orleans;
ensopado e moído com feijões-rajados
em El Paso;
suspenso numa cruz como um cão embriagado
em Denver;
cortado ao meio e tostado em
Kalamazoo;
tomado de câncer num barco pesqueiro
para além da costa do México;
enganado e encurralado em Daytona Beach;
chutado por uma babá
usando um vestido verde e branco de algodão,
que atende mesas numa rodoviária
da Carolina do Norte;
besuntado em azeite e mijo de cabra
por uma puta enxadrista no East Village;
pintado de vermelho, branco e azul
por um ato do Congresso;
torpedeado por uma loira aguada
com o maior rabo em Kansas;
estripado e barbarizado por uma mulher
com a alma de um touro
em East Lansing;
petrificado por uma garota de dedos minúsculos,
faltava a ela um dente,
um da frente na arcada superior, e bombeando gás
em Mesa;
o movimento do coração humano segue
e segue
e segue e segue
por algum tempo.
estrangulado no Missouri;
recoberto por cera quente em Boston;
assado feito batata em Norfolk;
perdido nas Montanhas Allegheny;
encontrado mais uma vez numa cama de mogno com dossel
em Nova Orleans;
ensopado e moído com feijões-rajados
em El Paso;
suspenso numa cruz como um cão embriagado
em Denver;
cortado ao meio e tostado em
Kalamazoo;
tomado de câncer num barco pesqueiro
para além da costa do México;
enganado e encurralado em Daytona Beach;
chutado por uma babá
usando um vestido verde e branco de algodão,
que atende mesas numa rodoviária
da Carolina do Norte;
besuntado em azeite e mijo de cabra
por uma puta enxadrista no East Village;
pintado de vermelho, branco e azul
por um ato do Congresso;
torpedeado por uma loira aguada
com o maior rabo em Kansas;
estripado e barbarizado por uma mulher
com a alma de um touro
em East Lansing;
petrificado por uma garota de dedos minúsculos,
faltava a ela um dente,
um da frente na arcada superior, e bombeando gás
em Mesa;
o movimento do coração humano segue
e segue
e segue e segue
por algum tempo.
663
Charles Bukowski
Penso Em Hemingway
penso em Hemingway sentado
numa cadeira, ele tinha uma máquina de escrever
e agora já não toca
sua máquina de escrever, não tem mais
o que dizer.
e agora Belmonte não tem mais
touros para matar, às vezes penso que
não tenho mais poemas para escrever
nem mais mulheres para amar.
penso na forma do poema
mas meus pés doem, há sujeira
nas janelas.
os touros dormem noites inteiras nos
campos, eles dormem bem sem
Belmonte.
Belmonte dorme bem sem
Belmonte mas eu não durmo
tão bem.
não tenho criado tampouco
amado faz um tempo, golpeio
uma mosca e erro, sou um
velho cão cinzento ficando des-
dentado.
eu tenho uma máquina de escrever e agora
minha máquina de escrever já não tem
coisa alguma para dizer.
vou beber até que a manhã
me descubra na cama com a
maior puta de todas:
eu mesmo.
Belmonte & Papa,
entendo, é assim que
funciona, de verdade.
eu os observei trazendo
a terra durante a manhã toda
para preencher os buracos nas
ruas. eu os observei
instalando cabos novos nos
postes, choveu
ontem à noite, uma chuva
muito seca, não foi
um bombardeio, só que o
mundo está acabando e eu sou
incapaz de escrever
a respeito.
numa cadeira, ele tinha uma máquina de escrever
e agora já não toca
sua máquina de escrever, não tem mais
o que dizer.
e agora Belmonte não tem mais
touros para matar, às vezes penso que
não tenho mais poemas para escrever
nem mais mulheres para amar.
penso na forma do poema
mas meus pés doem, há sujeira
nas janelas.
os touros dormem noites inteiras nos
campos, eles dormem bem sem
Belmonte.
Belmonte dorme bem sem
Belmonte mas eu não durmo
tão bem.
não tenho criado tampouco
amado faz um tempo, golpeio
uma mosca e erro, sou um
velho cão cinzento ficando des-
dentado.
eu tenho uma máquina de escrever e agora
minha máquina de escrever já não tem
coisa alguma para dizer.
vou beber até que a manhã
me descubra na cama com a
maior puta de todas:
eu mesmo.
Belmonte & Papa,
entendo, é assim que
funciona, de verdade.
eu os observei trazendo
a terra durante a manhã toda
para preencher os buracos nas
ruas. eu os observei
instalando cabos novos nos
postes, choveu
ontem à noite, uma chuva
muito seca, não foi
um bombardeio, só que o
mundo está acabando e eu sou
incapaz de escrever
a respeito.
1 504
Charles Bukowski
Por Que Todos Os Seus Poemas São Pessoais?
por que todos os seus poemas são pessoais?, ela
falou, não admira que ela te odiasse...
qual?, falei. você sabe
qual... e nunca mais deixe
água na sua pia, e você não sabe
nem grelhar uma carne; minha senhoria disse
que você é bonitão e queria saber
por que não voltei a ficar com
você...
você contou pra ela?
daria pra contar que você é presunçoso
e alcoólatra? daria pra contar sobre
o dia em que precisei te recolher
caído de costas no chão
quando você brigou?
daria pra contar
que você bate uma toda hora?
daria pra contar
que você se acha
um sr. Vanbilderass?
por que você não vai pra casa?
eu sempre te amei, você sabe,
eu sempre te amei!
ótimo. um dia eu escrevo um poema sobre
isso. um poema bem
pessoal.
falou, não admira que ela te odiasse...
qual?, falei. você sabe
qual... e nunca mais deixe
água na sua pia, e você não sabe
nem grelhar uma carne; minha senhoria disse
que você é bonitão e queria saber
por que não voltei a ficar com
você...
você contou pra ela?
daria pra contar que você é presunçoso
e alcoólatra? daria pra contar sobre
o dia em que precisei te recolher
caído de costas no chão
quando você brigou?
daria pra contar
que você bate uma toda hora?
daria pra contar
que você se acha
um sr. Vanbilderass?
por que você não vai pra casa?
eu sempre te amei, você sabe,
eu sempre te amei!
ótimo. um dia eu escrevo um poema sobre
isso. um poema bem
pessoal.
1 145
Charles Bukowski
As Condições
atualmente, sob as condições do sol
meu mundo está terminando.
marcado pelo verme,
contestado por uma população mundial
que a mim não tem referência.
atualmente, sob as condições do sol
meu mundo está terminando.
meus amigos, quase nunca houve
um tempo amável.
demonstrei coragem, bebedeira e
medo.
o coração segue funcionando
em meio ao terror inquestionável.
sob as condições do sol
preparo-me para largar
o labor, a dor e qualquer
honra que reste.
meu mundo está terminando.
marcado pelo verme,
contestado por uma população mundial
que a mim não tem referência.
atualmente, sob as condições do sol
meu mundo está terminando.
meus amigos, quase nunca houve
um tempo amável.
demonstrei coragem, bebedeira e
medo.
o coração segue funcionando
em meio ao terror inquestionável.
sob as condições do sol
preparo-me para largar
o labor, a dor e qualquer
honra que reste.
1 181
Charles Bukowski
Direto Sem Parar
eu estou
suspenso por um prego
o sol derrete meu coração
eu estou
irmanado com a serpente
e tenho medo de quedas d’água
eu tenho
medo de mulheres e cercas vivas
a polícia me para e
me diz
enquanto as árvores se curvam ao vento
(estou de ressaca) que meu escapamento está furado e
minha ventarola não abre
e o farol da luz de ré está quebrado.
eu não tenho luz de ré,
assino a multa e me sinto grato,
já dentro,
que eles não tenham feito o que estou
pensando
a tristeza pinga como grandes gotas de água
num poço envenenado até a metade,
sei que minhas chances se afunilaram a ponto de chegar a
quase nada –
sou como um inseto no banheiro quando você acende o
interruptor às 3 da manhã.
o amor, por fim, como um pano de chão enfiado goela
abaixo, retratos de alegria
convertidos em clipes para papel, você
sabe você sabe você sabe.
uma vez que você tenha entendido este processo (o que você
precisa entender
é
que a maior parte das coisas
simplesmente não funciona, então
você não deve tentar
salvá-las, e ao tempo em que você aprender isto
seus anos já terão
rareado) – uma que tenha entendido este processo
você precisa ser queimado apenas 2 ou 3 vezes mais
antes que eles o transformem em entulho, e
é importante saber isso –
pare de ser tão fodidamente rápido com suas
respostinhas e relaxe –
você está prestes a ser liquidado, também, assim
como eu. não há motivo para
vergonha. posso entrar em qualquer bar e
pedir um uísque e água,
pagar,
e colocar a mão em volta do copo,
eles não sabem, eles não sabem,
nada sobre você nem sobre mim,
estarão todos falando sobre futebol e
sobre o tempo e sobre a crise energética,
e nossas mãos buscarão
o espelho observando as mãos
e então beberemos tudo –
Jane, Barbara, Frances, Linda, Liza, Stella,
o chinelo de couro marrom do pai
virado para baixo no banheiro,
cachorros mortos e sem nome,
o jornal de amanhã,
a água fervendo para fora do radiador numa
tarde de quinta-feira, queimando seu braço
até metade da distância do cotovelo, e sem ser sequer
capaz de se irritar com a dor,
arreganhando os dentes para os vencedores
arreganhando os dentes para o cara que trepa com sua garota
enquanto você está bêbado ou longe
e arreganhando os dentes para a garota que permite isso.
as rosas uivam
ao vento ameno,
já dissemos
as coisas necessárias, e
sair é a próxima, mas eu só gostaria
de dizer
não importa o que eles tenham dito
eu nunca me emputeci
com nada.
suspenso por um prego
o sol derrete meu coração
eu estou
irmanado com a serpente
e tenho medo de quedas d’água
eu tenho
medo de mulheres e cercas vivas
a polícia me para e
me diz
enquanto as árvores se curvam ao vento
(estou de ressaca) que meu escapamento está furado e
minha ventarola não abre
e o farol da luz de ré está quebrado.
eu não tenho luz de ré,
assino a multa e me sinto grato,
já dentro,
que eles não tenham feito o que estou
pensando
a tristeza pinga como grandes gotas de água
num poço envenenado até a metade,
sei que minhas chances se afunilaram a ponto de chegar a
quase nada –
sou como um inseto no banheiro quando você acende o
interruptor às 3 da manhã.
o amor, por fim, como um pano de chão enfiado goela
abaixo, retratos de alegria
convertidos em clipes para papel, você
sabe você sabe você sabe.
uma vez que você tenha entendido este processo (o que você
precisa entender
é
que a maior parte das coisas
simplesmente não funciona, então
você não deve tentar
salvá-las, e ao tempo em que você aprender isto
seus anos já terão
rareado) – uma que tenha entendido este processo
você precisa ser queimado apenas 2 ou 3 vezes mais
antes que eles o transformem em entulho, e
é importante saber isso –
pare de ser tão fodidamente rápido com suas
respostinhas e relaxe –
você está prestes a ser liquidado, também, assim
como eu. não há motivo para
vergonha. posso entrar em qualquer bar e
pedir um uísque e água,
pagar,
e colocar a mão em volta do copo,
eles não sabem, eles não sabem,
nada sobre você nem sobre mim,
estarão todos falando sobre futebol e
sobre o tempo e sobre a crise energética,
e nossas mãos buscarão
o espelho observando as mãos
e então beberemos tudo –
Jane, Barbara, Frances, Linda, Liza, Stella,
o chinelo de couro marrom do pai
virado para baixo no banheiro,
cachorros mortos e sem nome,
o jornal de amanhã,
a água fervendo para fora do radiador numa
tarde de quinta-feira, queimando seu braço
até metade da distância do cotovelo, e sem ser sequer
capaz de se irritar com a dor,
arreganhando os dentes para os vencedores
arreganhando os dentes para o cara que trepa com sua garota
enquanto você está bêbado ou longe
e arreganhando os dentes para a garota que permite isso.
as rosas uivam
ao vento ameno,
já dissemos
as coisas necessárias, e
sair é a próxima, mas eu só gostaria
de dizer
não importa o que eles tenham dito
eu nunca me emputeci
com nada.
1 084
Charles Bukowski
Poema Para Dante
Dante, bebê, o Inferno
é aqui agora.
eu queria que você pudesse
ver. por certo tempo
tivemos o poder de
explodir a terra
e agora estamos descobrindo
o poder de abandoná-
la. mas a maioria terá de
ficar e
morrer. ou pela Bomba
ou então pelo refugo de ossos
empilhados
e outros recipientes vazios,
e merda e vidro e fumaça,
Dante, bebê, o Inferno
é aqui agora.
e as pessoas ainda contemplam rosas
pedalam bicicletas
batem relógio de ponto
compram casas e pinturas e carros;
as pessoas continuam a
copular
em todos os lugares, e os jovens olham em volta
e gritam
que este deveria ser um lugar melhor,
como sempre fizeram,
e aí ficaram velhos
e entraram no mesmo jogo sujo.
só que agora
todos os jogos sujos dos séculos
se somaram a um placar que parece quase
impossível de reverter.
alguns ainda tentam –
nós os chamamos de santos, poetas, loucos, tolos.
Dante, bebê, ó Dante, bebê,
você devia ver a gente
agora.
é aqui agora.
eu queria que você pudesse
ver. por certo tempo
tivemos o poder de
explodir a terra
e agora estamos descobrindo
o poder de abandoná-
la. mas a maioria terá de
ficar e
morrer. ou pela Bomba
ou então pelo refugo de ossos
empilhados
e outros recipientes vazios,
e merda e vidro e fumaça,
Dante, bebê, o Inferno
é aqui agora.
e as pessoas ainda contemplam rosas
pedalam bicicletas
batem relógio de ponto
compram casas e pinturas e carros;
as pessoas continuam a
copular
em todos os lugares, e os jovens olham em volta
e gritam
que este deveria ser um lugar melhor,
como sempre fizeram,
e aí ficaram velhos
e entraram no mesmo jogo sujo.
só que agora
todos os jogos sujos dos séculos
se somaram a um placar que parece quase
impossível de reverter.
alguns ainda tentam –
nós os chamamos de santos, poetas, loucos, tolos.
Dante, bebê, ó Dante, bebê,
você devia ver a gente
agora.
1 510
Charles Bukowski
Correções de Mim Mesmo, Sobretudo Segundo Whitman:
eu quebraria os bulevares como palhas
e jogaria os velhos poetas confusos que sorvem leite
e levantam pesos
nas detenções de bêbados de Iowa
até San Diego;
eu anunciaria minha própria firme reivindicação de imortalidade
bem quieto
já que ninguém escutaria mesmo,
e eu quebraria a Vitrola
eu quebraria a alma de Caruso
numa noite quente cheia de moscas;
eu sairia empinando uma bunda judaica
requebrando pelos bulevares
numa velha bicicleta italiana de corrida,
lançando olhares para trás
sempre sabendo
como boas-noites na Alemanha
ou luvas atiradas ao chão,
acontece.
eu choraria pelos exércitos da Espanha,
eu choraria pelos índios viciados em vinho,
eu choraria, inclusive, por Gable morto
se conseguisse achar uma lágrima;
eu escreveria introduções para livros de poesia
de rapazes que já perderam metade da audição
devido à palavra;
eu mataria um elefante com um facão de caça
para ver sua tromba cair
feito uma meia vazia.
eu encontraria coisas na areia e coisas
embaixo da minha cama: marcas de dentes, marcas de braço, sinais,
pontas, manchas de tinta, manchas de amor, rabiscos
de Swinburne...
eu derrubaria as montanhas por seus caroços de azeitona,
eu prantearia mergulhadores de narizes mortos
com isso aís,
e por falar nisso
eu esmagaria e mataria mais uma mosca
ou escreveria
mais um poema inútil.
e jogaria os velhos poetas confusos que sorvem leite
e levantam pesos
nas detenções de bêbados de Iowa
até San Diego;
eu anunciaria minha própria firme reivindicação de imortalidade
bem quieto
já que ninguém escutaria mesmo,
e eu quebraria a Vitrola
eu quebraria a alma de Caruso
numa noite quente cheia de moscas;
eu sairia empinando uma bunda judaica
requebrando pelos bulevares
numa velha bicicleta italiana de corrida,
lançando olhares para trás
sempre sabendo
como boas-noites na Alemanha
ou luvas atiradas ao chão,
acontece.
eu choraria pelos exércitos da Espanha,
eu choraria pelos índios viciados em vinho,
eu choraria, inclusive, por Gable morto
se conseguisse achar uma lágrima;
eu escreveria introduções para livros de poesia
de rapazes que já perderam metade da audição
devido à palavra;
eu mataria um elefante com um facão de caça
para ver sua tromba cair
feito uma meia vazia.
eu encontraria coisas na areia e coisas
embaixo da minha cama: marcas de dentes, marcas de braço, sinais,
pontas, manchas de tinta, manchas de amor, rabiscos
de Swinburne...
eu derrubaria as montanhas por seus caroços de azeitona,
eu prantearia mergulhadores de narizes mortos
com isso aís,
e por falar nisso
eu esmagaria e mataria mais uma mosca
ou escreveria
mais um poema inútil.
937
Charles Bukowski
Correções de Mim Mesmo, Sobretudo Segundo Whitman:
eu quebraria os bulevares como palhas
e jogaria os velhos poetas confusos que sorvem leite
e levantam pesos
nas detenções de bêbados de Iowa
até San Diego;
eu anunciaria minha própria firme reivindicação de imortalidade
bem quieto
já que ninguém escutaria mesmo,
e eu quebraria a Vitrola
eu quebraria a alma de Caruso
numa noite quente cheia de moscas;
eu sairia empinando uma bunda judaica
requebrando pelos bulevares
numa velha bicicleta italiana de corrida,
lançando olhares para trás
sempre sabendo
como boas-noites na Alemanha
ou luvas atiradas ao chão,
acontece.
eu choraria pelos exércitos da Espanha,
eu choraria pelos índios viciados em vinho,
eu choraria, inclusive, por Gable morto
se conseguisse achar uma lágrima;
eu escreveria introduções para livros de poesia
de rapazes que já perderam metade da audição
devido à palavra;
eu mataria um elefante com um facão de caça
para ver sua tromba cair
feito uma meia vazia.
eu encontraria coisas na areia e coisas
embaixo da minha cama: marcas de dentes, marcas de braço, sinais,
pontas, manchas de tinta, manchas de amor, rabiscos
de Swinburne...
eu derrubaria as montanhas por seus caroços de azeitona,
eu prantearia mergulhadores de narizes mortos
com isso aís,
e por falar nisso
eu esmagaria e mataria mais uma mosca
ou escreveria
mais um poema inútil.
e jogaria os velhos poetas confusos que sorvem leite
e levantam pesos
nas detenções de bêbados de Iowa
até San Diego;
eu anunciaria minha própria firme reivindicação de imortalidade
bem quieto
já que ninguém escutaria mesmo,
e eu quebraria a Vitrola
eu quebraria a alma de Caruso
numa noite quente cheia de moscas;
eu sairia empinando uma bunda judaica
requebrando pelos bulevares
numa velha bicicleta italiana de corrida,
lançando olhares para trás
sempre sabendo
como boas-noites na Alemanha
ou luvas atiradas ao chão,
acontece.
eu choraria pelos exércitos da Espanha,
eu choraria pelos índios viciados em vinho,
eu choraria, inclusive, por Gable morto
se conseguisse achar uma lágrima;
eu escreveria introduções para livros de poesia
de rapazes que já perderam metade da audição
devido à palavra;
eu mataria um elefante com um facão de caça
para ver sua tromba cair
feito uma meia vazia.
eu encontraria coisas na areia e coisas
embaixo da minha cama: marcas de dentes, marcas de braço, sinais,
pontas, manchas de tinta, manchas de amor, rabiscos
de Swinburne...
eu derrubaria as montanhas por seus caroços de azeitona,
eu prantearia mergulhadores de narizes mortos
com isso aís,
e por falar nisso
eu esmagaria e mataria mais uma mosca
ou escreveria
mais um poema inútil.
937
Charles Bukowski
Bem, Agora Que Ezra Morreu...
bem, agora que Ezra morreu
nós veremos inúmeros poemas escritos
sobre Ezra e o que ele significava e quem ele
era e como a coisa ia
e como vai continuar com
Ezra desaparecido.
bem, eu morei com uma alcoólatra
por 7 anos
e eu costumava trazer os Cantos pra casa pela
porta, e ela costumava dizer
“Pelo amor de Deus, você pegou o POUND outra vez? Você sabe
que não consegue lê-lo. Você trouxe
vinho?”
ela estava certa. eu não conseguia ler os Cantos.
mas eu geralmente trazia vinho
e nós bebíamos o
vinho.
não sei por quantos anos peguei e devolvi aqueles
Cantos na biblioteca pública no
centro
mas eles estavam sempre disponíveis nas estantes da
seção de Literatura e Filologia.
bem, ele morreu, e afinal passei do vinho à
cerveja; imagino que ele fosse um grande escritor
é só que eu sou muito preguiçoso nos meus hábitos de leitura.
detesto qualquer tipo de estilo imaculado,
mas mesmo assim sinto um apreço bem caloroso por ele e Ernie
e Gertie e James J., todo aquele bando
agarrando a primeira guerra mundial
tornando disponíveis os anos 20 e 30
ao modo especial deles; depois houve a 2a guerra mundial,
Ezra apoiou um perdedor e pegou 13 anos com os
doidinhos, e agora está morto aos 87 e sua amante está
sozinha.
bem, este é só mais um poema sobre Ezra Pound
com a ressalva
de que nunca consegui ler ou entender os Cantos
mas aposto que os carreguei de um lado a outro mais do que
qualquer um, e todos os rapazinhos
estão tentando retirá-los na biblioteca
esta noite.
nós veremos inúmeros poemas escritos
sobre Ezra e o que ele significava e quem ele
era e como a coisa ia
e como vai continuar com
Ezra desaparecido.
bem, eu morei com uma alcoólatra
por 7 anos
e eu costumava trazer os Cantos pra casa pela
porta, e ela costumava dizer
“Pelo amor de Deus, você pegou o POUND outra vez? Você sabe
que não consegue lê-lo. Você trouxe
vinho?”
ela estava certa. eu não conseguia ler os Cantos.
mas eu geralmente trazia vinho
e nós bebíamos o
vinho.
não sei por quantos anos peguei e devolvi aqueles
Cantos na biblioteca pública no
centro
mas eles estavam sempre disponíveis nas estantes da
seção de Literatura e Filologia.
bem, ele morreu, e afinal passei do vinho à
cerveja; imagino que ele fosse um grande escritor
é só que eu sou muito preguiçoso nos meus hábitos de leitura.
detesto qualquer tipo de estilo imaculado,
mas mesmo assim sinto um apreço bem caloroso por ele e Ernie
e Gertie e James J., todo aquele bando
agarrando a primeira guerra mundial
tornando disponíveis os anos 20 e 30
ao modo especial deles; depois houve a 2a guerra mundial,
Ezra apoiou um perdedor e pegou 13 anos com os
doidinhos, e agora está morto aos 87 e sua amante está
sozinha.
bem, este é só mais um poema sobre Ezra Pound
com a ressalva
de que nunca consegui ler ou entender os Cantos
mas aposto que os carreguei de um lado a outro mais do que
qualquer um, e todos os rapazinhos
estão tentando retirá-los na biblioteca
esta noite.
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Charles Bukowski
29 Uvas Geladas
o processo de aprender é tortuoso
todos esses moinhos de vento
toda essa transição sangrenta
pias tampadas
mentes de papel higiênico
a mentira do amor, aquela puta pelada
cães com mais almas do que aqueles milionários de Pittsburgh
homens arruinados que achavam a graça mais eterna do que astuciosa
o processo de viver é curto demais e longo demais
longo demais para os velhos que nunca descobrem
curto demais para os velhos que descobriram
prematuro demais para os jovens que nunca sabem
excessivo demais para os jovens que descobrem
o processo de continuar é possível
com ajuda de álcool ou droga ou sexo
ou ouro ou golfe ou música sinfônica,
ou caça de cervos ou aprender a dançar a galinha maluca
ou ver um jogo de beisebol ou apostar num cavalo
ou tomar 6 banhos quentes por dia
ou insistir na ioga
ou virar um batista ou um violonista
ou ganhar uma massagem ou ler os quadrinhos
ou se masturbar ou comer 29 uvas geladas
ou discutir sobre John Cage ou ir ao zoológico
ou fumar charutos ou mostrar seu peru para garotinhas no parque
ou ser negro e comer uma garota branca
ou ser branco e comer uma garota negra
ou passear com um cão ou alimentar um gato ou xingar aos gritos uma criança
ou fazer as palavras cruzadas ou sentar no parque
ou frequentar faculdade ou pedalar uma bicicleta ou comer espaguete
ou ir a leituras de poesia ou ler poesia em público
ou ir ao cinema ou votar ou viajar à Índia ou
Nova York ou surrar alguém
ou polir prataria ou lustrar os sapatos
ou escrever uma carta ou encerar o carro
ou comprar um carro novo ou um tapetinho
ou uma camisa vermelha com bolinhas brancas
ou deixar crescer a barba ou cortar rente o cabelo
ou ficar parado na esquina suando com cara de inteligente
o processo de continuar é possível.
o processo de aprender é tortuoso
todas as pessoas sem esperança
e sem jamais saber
a flor silvestre é o tigre que comanda o universo
o tigre é a flor silvestre que comanda o universo
e as loucas e incomparáveis criaturas humanas com almas de barata
que sou chamado a amar e odiar e ter em convívio,
essas deverão verdadeiramente um dia sumir
na força de dinossauro de sua feiura
para que o sol não se sinta tão mal assim
para que o mar possa expelir os navios e o óleo e a merda
para que o céu possa se limpar da mesquinha cobiça delas
para que a noite possa se distinguir do dia
para que a traição possa virar o mais ínfimo dos anacronismos
para que o amor, provável iniciador de tudo, possa ter outro início
e durar e durar e durar e durar e durar e durar e
durar e durar e durar e durar
todos esses moinhos de vento
toda essa transição sangrenta
pias tampadas
mentes de papel higiênico
a mentira do amor, aquela puta pelada
cães com mais almas do que aqueles milionários de Pittsburgh
homens arruinados que achavam a graça mais eterna do que astuciosa
o processo de viver é curto demais e longo demais
longo demais para os velhos que nunca descobrem
curto demais para os velhos que descobriram
prematuro demais para os jovens que nunca sabem
excessivo demais para os jovens que descobrem
o processo de continuar é possível
com ajuda de álcool ou droga ou sexo
ou ouro ou golfe ou música sinfônica,
ou caça de cervos ou aprender a dançar a galinha maluca
ou ver um jogo de beisebol ou apostar num cavalo
ou tomar 6 banhos quentes por dia
ou insistir na ioga
ou virar um batista ou um violonista
ou ganhar uma massagem ou ler os quadrinhos
ou se masturbar ou comer 29 uvas geladas
ou discutir sobre John Cage ou ir ao zoológico
ou fumar charutos ou mostrar seu peru para garotinhas no parque
ou ser negro e comer uma garota branca
ou ser branco e comer uma garota negra
ou passear com um cão ou alimentar um gato ou xingar aos gritos uma criança
ou fazer as palavras cruzadas ou sentar no parque
ou frequentar faculdade ou pedalar uma bicicleta ou comer espaguete
ou ir a leituras de poesia ou ler poesia em público
ou ir ao cinema ou votar ou viajar à Índia ou
Nova York ou surrar alguém
ou polir prataria ou lustrar os sapatos
ou escrever uma carta ou encerar o carro
ou comprar um carro novo ou um tapetinho
ou uma camisa vermelha com bolinhas brancas
ou deixar crescer a barba ou cortar rente o cabelo
ou ficar parado na esquina suando com cara de inteligente
o processo de continuar é possível.
o processo de aprender é tortuoso
todas as pessoas sem esperança
e sem jamais saber
a flor silvestre é o tigre que comanda o universo
o tigre é a flor silvestre que comanda o universo
e as loucas e incomparáveis criaturas humanas com almas de barata
que sou chamado a amar e odiar e ter em convívio,
essas deverão verdadeiramente um dia sumir
na força de dinossauro de sua feiura
para que o sol não se sinta tão mal assim
para que o mar possa expelir os navios e o óleo e a merda
para que o céu possa se limpar da mesquinha cobiça delas
para que a noite possa se distinguir do dia
para que a traição possa virar o mais ínfimo dos anacronismos
para que o amor, provável iniciador de tudo, possa ter outro início
e durar e durar e durar e durar e durar e durar e
durar e durar e durar e durar
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Charles Bukowski
29 Uvas Geladas
o processo de aprender é tortuoso
todos esses moinhos de vento
toda essa transição sangrenta
pias tampadas
mentes de papel higiênico
a mentira do amor, aquela puta pelada
cães com mais almas do que aqueles milionários de Pittsburgh
homens arruinados que achavam a graça mais eterna do que astuciosa
o processo de viver é curto demais e longo demais
longo demais para os velhos que nunca descobrem
curto demais para os velhos que descobriram
prematuro demais para os jovens que nunca sabem
excessivo demais para os jovens que descobrem
o processo de continuar é possível
com ajuda de álcool ou droga ou sexo
ou ouro ou golfe ou música sinfônica,
ou caça de cervos ou aprender a dançar a galinha maluca
ou ver um jogo de beisebol ou apostar num cavalo
ou tomar 6 banhos quentes por dia
ou insistir na ioga
ou virar um batista ou um violonista
ou ganhar uma massagem ou ler os quadrinhos
ou se masturbar ou comer 29 uvas geladas
ou discutir sobre John Cage ou ir ao zoológico
ou fumar charutos ou mostrar seu peru para garotinhas no parque
ou ser negro e comer uma garota branca
ou ser branco e comer uma garota negra
ou passear com um cão ou alimentar um gato ou xingar aos gritos uma criança
ou fazer as palavras cruzadas ou sentar no parque
ou frequentar faculdade ou pedalar uma bicicleta ou comer espaguete
ou ir a leituras de poesia ou ler poesia em público
ou ir ao cinema ou votar ou viajar à Índia ou
Nova York ou surrar alguém
ou polir prataria ou lustrar os sapatos
ou escrever uma carta ou encerar o carro
ou comprar um carro novo ou um tapetinho
ou uma camisa vermelha com bolinhas brancas
ou deixar crescer a barba ou cortar rente o cabelo
ou ficar parado na esquina suando com cara de inteligente
o processo de continuar é possível.
o processo de aprender é tortuoso
todas as pessoas sem esperança
e sem jamais saber
a flor silvestre é o tigre que comanda o universo
o tigre é a flor silvestre que comanda o universo
e as loucas e incomparáveis criaturas humanas com almas de barata
que sou chamado a amar e odiar e ter em convívio,
essas deverão verdadeiramente um dia sumir
na força de dinossauro de sua feiura
para que o sol não se sinta tão mal assim
para que o mar possa expelir os navios e o óleo e a merda
para que o céu possa se limpar da mesquinha cobiça delas
para que a noite possa se distinguir do dia
para que a traição possa virar o mais ínfimo dos anacronismos
para que o amor, provável iniciador de tudo, possa ter outro início
e durar e durar e durar e durar e durar e durar e
durar e durar e durar e durar
todos esses moinhos de vento
toda essa transição sangrenta
pias tampadas
mentes de papel higiênico
a mentira do amor, aquela puta pelada
cães com mais almas do que aqueles milionários de Pittsburgh
homens arruinados que achavam a graça mais eterna do que astuciosa
o processo de viver é curto demais e longo demais
longo demais para os velhos que nunca descobrem
curto demais para os velhos que descobriram
prematuro demais para os jovens que nunca sabem
excessivo demais para os jovens que descobrem
o processo de continuar é possível
com ajuda de álcool ou droga ou sexo
ou ouro ou golfe ou música sinfônica,
ou caça de cervos ou aprender a dançar a galinha maluca
ou ver um jogo de beisebol ou apostar num cavalo
ou tomar 6 banhos quentes por dia
ou insistir na ioga
ou virar um batista ou um violonista
ou ganhar uma massagem ou ler os quadrinhos
ou se masturbar ou comer 29 uvas geladas
ou discutir sobre John Cage ou ir ao zoológico
ou fumar charutos ou mostrar seu peru para garotinhas no parque
ou ser negro e comer uma garota branca
ou ser branco e comer uma garota negra
ou passear com um cão ou alimentar um gato ou xingar aos gritos uma criança
ou fazer as palavras cruzadas ou sentar no parque
ou frequentar faculdade ou pedalar uma bicicleta ou comer espaguete
ou ir a leituras de poesia ou ler poesia em público
ou ir ao cinema ou votar ou viajar à Índia ou
Nova York ou surrar alguém
ou polir prataria ou lustrar os sapatos
ou escrever uma carta ou encerar o carro
ou comprar um carro novo ou um tapetinho
ou uma camisa vermelha com bolinhas brancas
ou deixar crescer a barba ou cortar rente o cabelo
ou ficar parado na esquina suando com cara de inteligente
o processo de continuar é possível.
o processo de aprender é tortuoso
todas as pessoas sem esperança
e sem jamais saber
a flor silvestre é o tigre que comanda o universo
o tigre é a flor silvestre que comanda o universo
e as loucas e incomparáveis criaturas humanas com almas de barata
que sou chamado a amar e odiar e ter em convívio,
essas deverão verdadeiramente um dia sumir
na força de dinossauro de sua feiura
para que o sol não se sinta tão mal assim
para que o mar possa expelir os navios e o óleo e a merda
para que o céu possa se limpar da mesquinha cobiça delas
para que a noite possa se distinguir do dia
para que a traição possa virar o mais ínfimo dos anacronismos
para que o amor, provável iniciador de tudo, possa ter outro início
e durar e durar e durar e durar e durar e durar e
durar e durar e durar e durar
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