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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Sorrindo, Brilhando, Cantando

minha filha parecia uma Katharine Hepburn muito jovem
na apresentação de Natal da escola primária.
estava lá com os outros
sorrindo, brilhando, cantando
no vestido longo que eu tinha comprado pra ela.
ela parece a Katharine Hepburn, falei à mãe dela
que estava sentada à minha esquerda.
ela parece a Katharine Hepburn, falei à minha namorada
que estava sentada à minha direita.
a vó da minha filha estava a dois assentos de mim;
não falei nada pra ela.
nunca gostei das atuações de Katharine Hepburn,
mas sempre gostei de sua aparência,
de sua classe, sabe,
alguém com quem você podia conversar na cama
por uma hora e meia antes de pegar no
sono.
posso ver que minha filha vai ser uma
mulher belíssima.
um dia quando eu estiver bastante velho
ela provavelmente vai me trazer o urinol com um sorriso
dos mais amáveis.
e ela provavelmente vai se casar com um caminhoneiro que
caminha pesadão
e joga boliche todas as quintas à noite
com a rapaziada.
bem, nada disso importa.
o que importa é o agora.
sua avó é uma grande mulher de rapina.
sua mãe é uma liberal psicótica e amante da vida.
seu pai é um bêbado.
minha filha parecia uma Katharine Hepburn muito jovem.
depois da apresentação de Natal
nós fomos ao McDonald’s e comemos, e alimentamos os pardais.
faltava uma semana para o Natal.
estávamos menos preocupados com isso do que nove décimos da cidade.
isso é classe, nós dois temos classe.
ignorar a vida no momento certo exige uma sabedoria especial:
como um Feliz Ano-Novo para
todos vocês.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Sim

não importa com quem eu esteja
as pessoas sempre dizem:
você ainda está com ela?
meus relacionamentos duram em média
dois anos e meio.
com guerras
inflação
desemprego
alcoolismo
jogatina
e o meu próprio nervosismo degenerado
acho que me saio bem o bastante.
gosto de ler os jornais dominicais na cama.
gosto de fitas cor de laranja amarradas em volta do pescoço do gato.
gosto de dormir apertado contra um corpo que conheço bem.
gosto de papeletas pretas no pé da minha cama
às 2 da tarde.
gosto de ver como ficaram as fotos.
gosto que me ajudem a suportar os feriados:
Independência, Dia do Trabalho, Halloween, Ação de Graças,
Natal, Ano-Novo.
elas sabem como remar por essas correntezas
e têm menos medo do amor do que eu.
conseguem me fazer rir onde comediantes profissionais
fracassam.
há a caminhada na rua para comprar um jornal juntos.
há muita coisa boa em estar sozinho
mas há um estranho calor em não estar sozinho.
gosto de batatas vermelhas cozidas.
gosto de olhos e dedos melhores que os meus que consigam
tirar nós de cadarços.
gosto de deixá-la dirigir o carro em noites escuras
quando a estrada e o caminho me deram nos nervos,
o rádio do carro ligado
nós acendemos cigarros e conversamos sobre coisas
e de vez em quando
ficamos em silêncio.
eu gosto de grampos de cabelo em cima de mesas.
eu gosto de conhecer as mesmas paredes
as mesmas pessoas.
não gosto das brigas insanas e inúteis que sempre
ocorrem
e não gosto de mim nessas ocasiões
não dando nada
não entendendo nada.
gosto de aspargos cozidos
gosto de rabanetes
gosto de cebolas.
gosto de levar meu carro num lava-jato.
gosto quando tenho vitória de dez em aposta de seis
por um.
gosto do meu rádio que fica tocando
Shostakovich, Brahms, Beethoven, Mahler.
gosto quando há uma batida na porta e
é ela.
não importa com quem eu esteja
as pessoas sempre dizem:
você ainda está com ela?
devem pensar que eu as enterro
em Hollywood Hills.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Sim

não importa com quem eu esteja
as pessoas sempre dizem:
você ainda está com ela?
meus relacionamentos duram em média
dois anos e meio.
com guerras
inflação
desemprego
alcoolismo
jogatina
e o meu próprio nervosismo degenerado
acho que me saio bem o bastante.
gosto de ler os jornais dominicais na cama.
gosto de fitas cor de laranja amarradas em volta do pescoço do gato.
gosto de dormir apertado contra um corpo que conheço bem.
gosto de papeletas pretas no pé da minha cama
às 2 da tarde.
gosto de ver como ficaram as fotos.
gosto que me ajudem a suportar os feriados:
Independência, Dia do Trabalho, Halloween, Ação de Graças,
Natal, Ano-Novo.
elas sabem como remar por essas correntezas
e têm menos medo do amor do que eu.
conseguem me fazer rir onde comediantes profissionais
fracassam.
há a caminhada na rua para comprar um jornal juntos.
há muita coisa boa em estar sozinho
mas há um estranho calor em não estar sozinho.
gosto de batatas vermelhas cozidas.
gosto de olhos e dedos melhores que os meus que consigam
tirar nós de cadarços.
gosto de deixá-la dirigir o carro em noites escuras
quando a estrada e o caminho me deram nos nervos,
o rádio do carro ligado
nós acendemos cigarros e conversamos sobre coisas
e de vez em quando
ficamos em silêncio.
eu gosto de grampos de cabelo em cima de mesas.
eu gosto de conhecer as mesmas paredes
as mesmas pessoas.
não gosto das brigas insanas e inúteis que sempre
ocorrem
e não gosto de mim nessas ocasiões
não dando nada
não entendendo nada.
gosto de aspargos cozidos
gosto de rabanetes
gosto de cebolas.
gosto de levar meu carro num lava-jato.
gosto quando tenho vitória de dez em aposta de seis
por um.
gosto do meu rádio que fica tocando
Shostakovich, Brahms, Beethoven, Mahler.
gosto quando há uma batida na porta e
é ela.
não importa com quem eu esteja
as pessoas sempre dizem:
você ainda está com ela?
devem pensar que eu as enterro
em Hollywood Hills.
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Charles Bukowski

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Meu Verdadeiro Amor Em Atenas

e eu me lembro da faca,
do modo como você toca uma rosa
e sai com sangue
e como você toca o amor do mesmo modo,
e como quando você quer entrar na autoestrada
os caminhões encurralam você na pista interna
luar e rugindo
atropelando sua bravura,
fazendo você pisar no freio
e pequenas imagens surgem na sua cabeça:
imagens de Cristo pendurado lá
ou Hiroshima
ou sua última esposa
fritando um ovo.
o modo como você toca uma rosa
é o modo como você se encosta nas laterais dos caixões
dos mortos,
o modo como você toca uma rosa
e vê os mortos rodopiando de volta
por baixo das suas unhas;
a faca
Gettysburg, as Ardenas, Flandres,
Átila, Muss –
de que me serve a história
quando tudo se reduz
à sombra das três da tarde
embaixo de uma folha?
e se a mente fica atormentada
e a rosa morde
como um cão,
dizem
que temos amor...
mas de que me serve o amor
quando todos nascemos
em diferentes momentos e lugares
e só nos encontramos
através de um truque dos séculos
e três passos casuais
à esquerda?
você quer dizer que
um amor que não encontrei
é menos do que um egoísmo
que chamo de próximo?
posso dizer agora
com sangue de rosa no fundo da minha mente,
posso dizer agora enquanto rodopiam os planetas
e toneladas de força são disparadas dentro do fim do espaço
para fazer Colombo parecer uma criança idiota
posso dizer agora
que porque gritei dentro de uma noite
e não me ouviram,
posso dizer agora
que me lembro da faca
e fico sentado num quarto fresco
e esfrego meus dedos ao apito do relógio
e calmamente penso em
Ajax e escarro
e galinhas ferroviárias atravessando os trilhos dourados,
e meu verdadeiro amor está em Atenas
600
A ou D,
enquanto fora da minha janela
pombos tropeçam enquanto voam
e por uma porta
de longa espera para um quarto vazio
rosas não conseguem
entrar ou sair,
ou amor ou mariposas ou relâmpago –
eu não irromperia nem em suspiro
nem em sorriso; poderiam nadas
como mariposas ou homens
existir como luz solar laranja sobre papel
dividido por nove?
Atenas fica agora a muitas milhas
e uma morte de distância,
e as mesas estão sujas pra cacete
e os lençóis e os pratos,
mas estou rindo; isso não é real;
mas é, dividido por nove
ou cem;
roupa limpa é amor
que não se coça
e suspira.
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