Poemas neste tema
Outros
Charles Bukowski
Um Cavalo de Olhos Azul-Esverdeados
o que você vê é aquilo que vê:
os hospícios raramente
estão visíveis.
que continuemos caminhando por aí
e nos coçando e acendendo
cigarros
é mais miraculoso
do que os banhos das beldades
do que as rosas e as mariposas.
sentar-se em um pequeno quarto
e beber uma latinha de cerveja
e fechar um cigarro
ouvindo Brahms
em um radinho vermelho
é como ter voltado
de uma dúzia de batalhas
com vida
ouvir o som
da geladeira
enquanto as beldades banhadas apodrecem
e as laranjas e maçãs
rolam para longe.
Um ou dois dias depois recebi um poema de Lydia pelo correio. Era um poema longo e começava com:
Saia, velho ogro
Saia de seu buraco escuro, velho ogro
Saia para a luz do sol conosco e
Deixe que a gente ponha margaridas nos seus cabelos...
O poema seguia dizendo como seria bom dançar pelos campos na companhia de ninfas que me trariam alegria e sabedoria verdadeira. Coloquei a carta numa das gavetas da cômoda.
Fui acordado na manhã seguinte por uma batida na janela da porta da frente. Eram dez e meia.
– Suma – eu disse
– É Lydia.
– Tudo bem. Espere um minuto.
Vesti uma camiseta e um par de calças e abri a porta. Então corri até o banheiro e vomitei. Tentei escovar meus dentes, mas lá veio uma nova golfada – a doçura da pasta de dente revoltou meu estômago. Retornei para a sala.
– Você está passando mal – disse Lydia. – Quer que eu vá embora?
– Oh, não, já estou bem. Sempre acordo assim.
Lydia estava bonita. A luz entrava através das cortinas e se refletia nela. Trazia uma laranja numa das mãos e ficava jogando-a para cima. A laranja brilhava sob o sol da manhã.
– Não posso ficar. Mas queria perguntar uma coisa.
– Claro.
– Sou escultora. Queria esculpir sua cabeça.
– Tudo bem.
– Você vai ter que ir lá em casa. Não tenho um estúdio. Vamos ter que fazer por lá. Você não vai ficar nervoso, não é mesmo?
– Não.
Anotei seu endereço e as instruções para chegar até lá.
– Tente chegar às onze da manhã. As crianças chegam da escola no meio da tarde e isso atrapalha bastante.
– Estarei lá às onze – eu lhe disse.
Sentei de frente para Lydia na mesa da cozinha. Entre nós havia um grande bloco de argila. Começou a fazer perguntas.
– Seus pais ainda estão vivos?
– Não.
– Você gosta de L.A.?
– É minha cidade favorita.
– Por que você escreve sobre as mulheres do modo como faz?
– Como assim?
– Você sabe.
– Não sei, não.
– Bem, acho que é uma desgraça que um homem que escreve tão bem quanto você não saiba nada sobre as mulheres.
Não respondi.
– Merda! O que a Lisa fez com...? – Ela começou a vasculhar a sala. – Ah, essas garotinhas que consomem com as ferramentas de suas mães!
Lydia encontrou outro objeto. Começou a trabalhar o bloco de argila com uma ferramenta de madeira com um arame curvo na ponta. Ela balançava a ferramenta na minha direção por sobre o bloco. Eu a observava. Seus olhos me encaravam. Eram grandes, castanho-escuros. Mesmo seu olho ruim, aquele que não combinava muito bem com o outro, tinha um aspecto legal. Devolvi seu olhar. Lydia trabalhava. O tempo passou. Eu estava num transe. Então ela disse:
– Que tal uma parada? Toma uma cerveja?
– Beleza. Claro.
Quando ela se levantou para ir até a geladeira eu a segui. Tirou a garrafa e fechou a porta. Ao se voltar, agarrei-a pela cintura e a puxei em minha direção. Colei minha boca e meu corpo nela. Segurava a garrafa numa das mãos com o braço estendido. Beijei-a. Beijei-a de novo. Lydia me afastou.
– Está bem – ela disse –, já chega. Temos muito trabalho pela frente.
– Mulheres
os hospícios raramente
estão visíveis.
que continuemos caminhando por aí
e nos coçando e acendendo
cigarros
é mais miraculoso
do que os banhos das beldades
do que as rosas e as mariposas.
sentar-se em um pequeno quarto
e beber uma latinha de cerveja
e fechar um cigarro
ouvindo Brahms
em um radinho vermelho
é como ter voltado
de uma dúzia de batalhas
com vida
ouvir o som
da geladeira
enquanto as beldades banhadas apodrecem
e as laranjas e maçãs
rolam para longe.
Um ou dois dias depois recebi um poema de Lydia pelo correio. Era um poema longo e começava com:
Saia, velho ogro
Saia de seu buraco escuro, velho ogro
Saia para a luz do sol conosco e
Deixe que a gente ponha margaridas nos seus cabelos...
O poema seguia dizendo como seria bom dançar pelos campos na companhia de ninfas que me trariam alegria e sabedoria verdadeira. Coloquei a carta numa das gavetas da cômoda.
Fui acordado na manhã seguinte por uma batida na janela da porta da frente. Eram dez e meia.
– Suma – eu disse
– É Lydia.
– Tudo bem. Espere um minuto.
Vesti uma camiseta e um par de calças e abri a porta. Então corri até o banheiro e vomitei. Tentei escovar meus dentes, mas lá veio uma nova golfada – a doçura da pasta de dente revoltou meu estômago. Retornei para a sala.
– Você está passando mal – disse Lydia. – Quer que eu vá embora?
– Oh, não, já estou bem. Sempre acordo assim.
Lydia estava bonita. A luz entrava através das cortinas e se refletia nela. Trazia uma laranja numa das mãos e ficava jogando-a para cima. A laranja brilhava sob o sol da manhã.
– Não posso ficar. Mas queria perguntar uma coisa.
– Claro.
– Sou escultora. Queria esculpir sua cabeça.
– Tudo bem.
– Você vai ter que ir lá em casa. Não tenho um estúdio. Vamos ter que fazer por lá. Você não vai ficar nervoso, não é mesmo?
– Não.
Anotei seu endereço e as instruções para chegar até lá.
– Tente chegar às onze da manhã. As crianças chegam da escola no meio da tarde e isso atrapalha bastante.
– Estarei lá às onze – eu lhe disse.
Sentei de frente para Lydia na mesa da cozinha. Entre nós havia um grande bloco de argila. Começou a fazer perguntas.
– Seus pais ainda estão vivos?
– Não.
– Você gosta de L.A.?
– É minha cidade favorita.
– Por que você escreve sobre as mulheres do modo como faz?
– Como assim?
– Você sabe.
– Não sei, não.
– Bem, acho que é uma desgraça que um homem que escreve tão bem quanto você não saiba nada sobre as mulheres.
Não respondi.
– Merda! O que a Lisa fez com...? – Ela começou a vasculhar a sala. – Ah, essas garotinhas que consomem com as ferramentas de suas mães!
Lydia encontrou outro objeto. Começou a trabalhar o bloco de argila com uma ferramenta de madeira com um arame curvo na ponta. Ela balançava a ferramenta na minha direção por sobre o bloco. Eu a observava. Seus olhos me encaravam. Eram grandes, castanho-escuros. Mesmo seu olho ruim, aquele que não combinava muito bem com o outro, tinha um aspecto legal. Devolvi seu olhar. Lydia trabalhava. O tempo passou. Eu estava num transe. Então ela disse:
– Que tal uma parada? Toma uma cerveja?
– Beleza. Claro.
Quando ela se levantou para ir até a geladeira eu a segui. Tirou a garrafa e fechou a porta. Ao se voltar, agarrei-a pela cintura e a puxei em minha direção. Colei minha boca e meu corpo nela. Segurava a garrafa numa das mãos com o braço estendido. Beijei-a. Beijei-a de novo. Lydia me afastou.
– Está bem – ela disse –, já chega. Temos muito trabalho pela frente.
– Mulheres
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Charles Bukowski
Um Cavalo de Olhos Azul-Esverdeados
o que você vê é aquilo que vê:
os hospícios raramente
estão visíveis.
que continuemos caminhando por aí
e nos coçando e acendendo
cigarros
é mais miraculoso
do que os banhos das beldades
do que as rosas e as mariposas.
sentar-se em um pequeno quarto
e beber uma latinha de cerveja
e fechar um cigarro
ouvindo Brahms
em um radinho vermelho
é como ter voltado
de uma dúzia de batalhas
com vida
ouvir o som
da geladeira
enquanto as beldades banhadas apodrecem
e as laranjas e maçãs
rolam para longe.
Um ou dois dias depois recebi um poema de Lydia pelo correio. Era um poema longo e começava com:
Saia, velho ogro
Saia de seu buraco escuro, velho ogro
Saia para a luz do sol conosco e
Deixe que a gente ponha margaridas nos seus cabelos...
O poema seguia dizendo como seria bom dançar pelos campos na companhia de ninfas que me trariam alegria e sabedoria verdadeira. Coloquei a carta numa das gavetas da cômoda.
Fui acordado na manhã seguinte por uma batida na janela da porta da frente. Eram dez e meia.
– Suma – eu disse
– É Lydia.
– Tudo bem. Espere um minuto.
Vesti uma camiseta e um par de calças e abri a porta. Então corri até o banheiro e vomitei. Tentei escovar meus dentes, mas lá veio uma nova golfada – a doçura da pasta de dente revoltou meu estômago. Retornei para a sala.
– Você está passando mal – disse Lydia. – Quer que eu vá embora?
– Oh, não, já estou bem. Sempre acordo assim.
Lydia estava bonita. A luz entrava através das cortinas e se refletia nela. Trazia uma laranja numa das mãos e ficava jogando-a para cima. A laranja brilhava sob o sol da manhã.
– Não posso ficar. Mas queria perguntar uma coisa.
– Claro.
– Sou escultora. Queria esculpir sua cabeça.
– Tudo bem.
– Você vai ter que ir lá em casa. Não tenho um estúdio. Vamos ter que fazer por lá. Você não vai ficar nervoso, não é mesmo?
– Não.
Anotei seu endereço e as instruções para chegar até lá.
– Tente chegar às onze da manhã. As crianças chegam da escola no meio da tarde e isso atrapalha bastante.
– Estarei lá às onze – eu lhe disse.
Sentei de frente para Lydia na mesa da cozinha. Entre nós havia um grande bloco de argila. Começou a fazer perguntas.
– Seus pais ainda estão vivos?
– Não.
– Você gosta de L.A.?
– É minha cidade favorita.
– Por que você escreve sobre as mulheres do modo como faz?
– Como assim?
– Você sabe.
– Não sei, não.
– Bem, acho que é uma desgraça que um homem que escreve tão bem quanto você não saiba nada sobre as mulheres.
Não respondi.
– Merda! O que a Lisa fez com...? – Ela começou a vasculhar a sala. – Ah, essas garotinhas que consomem com as ferramentas de suas mães!
Lydia encontrou outro objeto. Começou a trabalhar o bloco de argila com uma ferramenta de madeira com um arame curvo na ponta. Ela balançava a ferramenta na minha direção por sobre o bloco. Eu a observava. Seus olhos me encaravam. Eram grandes, castanho-escuros. Mesmo seu olho ruim, aquele que não combinava muito bem com o outro, tinha um aspecto legal. Devolvi seu olhar. Lydia trabalhava. O tempo passou. Eu estava num transe. Então ela disse:
– Que tal uma parada? Toma uma cerveja?
– Beleza. Claro.
Quando ela se levantou para ir até a geladeira eu a segui. Tirou a garrafa e fechou a porta. Ao se voltar, agarrei-a pela cintura e a puxei em minha direção. Colei minha boca e meu corpo nela. Segurava a garrafa numa das mãos com o braço estendido. Beijei-a. Beijei-a de novo. Lydia me afastou.
– Está bem – ela disse –, já chega. Temos muito trabalho pela frente.
– Mulheres
os hospícios raramente
estão visíveis.
que continuemos caminhando por aí
e nos coçando e acendendo
cigarros
é mais miraculoso
do que os banhos das beldades
do que as rosas e as mariposas.
sentar-se em um pequeno quarto
e beber uma latinha de cerveja
e fechar um cigarro
ouvindo Brahms
em um radinho vermelho
é como ter voltado
de uma dúzia de batalhas
com vida
ouvir o som
da geladeira
enquanto as beldades banhadas apodrecem
e as laranjas e maçãs
rolam para longe.
Um ou dois dias depois recebi um poema de Lydia pelo correio. Era um poema longo e começava com:
Saia, velho ogro
Saia de seu buraco escuro, velho ogro
Saia para a luz do sol conosco e
Deixe que a gente ponha margaridas nos seus cabelos...
O poema seguia dizendo como seria bom dançar pelos campos na companhia de ninfas que me trariam alegria e sabedoria verdadeira. Coloquei a carta numa das gavetas da cômoda.
Fui acordado na manhã seguinte por uma batida na janela da porta da frente. Eram dez e meia.
– Suma – eu disse
– É Lydia.
– Tudo bem. Espere um minuto.
Vesti uma camiseta e um par de calças e abri a porta. Então corri até o banheiro e vomitei. Tentei escovar meus dentes, mas lá veio uma nova golfada – a doçura da pasta de dente revoltou meu estômago. Retornei para a sala.
– Você está passando mal – disse Lydia. – Quer que eu vá embora?
– Oh, não, já estou bem. Sempre acordo assim.
Lydia estava bonita. A luz entrava através das cortinas e se refletia nela. Trazia uma laranja numa das mãos e ficava jogando-a para cima. A laranja brilhava sob o sol da manhã.
– Não posso ficar. Mas queria perguntar uma coisa.
– Claro.
– Sou escultora. Queria esculpir sua cabeça.
– Tudo bem.
– Você vai ter que ir lá em casa. Não tenho um estúdio. Vamos ter que fazer por lá. Você não vai ficar nervoso, não é mesmo?
– Não.
Anotei seu endereço e as instruções para chegar até lá.
– Tente chegar às onze da manhã. As crianças chegam da escola no meio da tarde e isso atrapalha bastante.
– Estarei lá às onze – eu lhe disse.
Sentei de frente para Lydia na mesa da cozinha. Entre nós havia um grande bloco de argila. Começou a fazer perguntas.
– Seus pais ainda estão vivos?
– Não.
– Você gosta de L.A.?
– É minha cidade favorita.
– Por que você escreve sobre as mulheres do modo como faz?
– Como assim?
– Você sabe.
– Não sei, não.
– Bem, acho que é uma desgraça que um homem que escreve tão bem quanto você não saiba nada sobre as mulheres.
Não respondi.
– Merda! O que a Lisa fez com...? – Ela começou a vasculhar a sala. – Ah, essas garotinhas que consomem com as ferramentas de suas mães!
Lydia encontrou outro objeto. Começou a trabalhar o bloco de argila com uma ferramenta de madeira com um arame curvo na ponta. Ela balançava a ferramenta na minha direção por sobre o bloco. Eu a observava. Seus olhos me encaravam. Eram grandes, castanho-escuros. Mesmo seu olho ruim, aquele que não combinava muito bem com o outro, tinha um aspecto legal. Devolvi seu olhar. Lydia trabalhava. O tempo passou. Eu estava num transe. Então ela disse:
– Que tal uma parada? Toma uma cerveja?
– Beleza. Claro.
Quando ela se levantou para ir até a geladeira eu a segui. Tirou a garrafa e fechou a porta. Ao se voltar, agarrei-a pela cintura e a puxei em minha direção. Colei minha boca e meu corpo nela. Segurava a garrafa numa das mãos com o braço estendido. Beijei-a. Beijei-a de novo. Lydia me afastou.
– Está bem – ela disse –, já chega. Temos muito trabalho pela frente.
– Mulheres
1 204
Charles Bukowski
Um Cavalo de Olhos Azul-Esverdeados
o que você vê é aquilo que vê:
os hospícios raramente
estão visíveis.
que continuemos caminhando por aí
e nos coçando e acendendo
cigarros
é mais miraculoso
do que os banhos das beldades
do que as rosas e as mariposas.
sentar-se em um pequeno quarto
e beber uma latinha de cerveja
e fechar um cigarro
ouvindo Brahms
em um radinho vermelho
é como ter voltado
de uma dúzia de batalhas
com vida
ouvir o som
da geladeira
enquanto as beldades banhadas apodrecem
e as laranjas e maçãs
rolam para longe.
Um ou dois dias depois recebi um poema de Lydia pelo correio. Era um poema longo e começava com:
Saia, velho ogro
Saia de seu buraco escuro, velho ogro
Saia para a luz do sol conosco e
Deixe que a gente ponha margaridas nos seus cabelos...
O poema seguia dizendo como seria bom dançar pelos campos na companhia de ninfas que me trariam alegria e sabedoria verdadeira. Coloquei a carta numa das gavetas da cômoda.
Fui acordado na manhã seguinte por uma batida na janela da porta da frente. Eram dez e meia.
– Suma – eu disse
– É Lydia.
– Tudo bem. Espere um minuto.
Vesti uma camiseta e um par de calças e abri a porta. Então corri até o banheiro e vomitei. Tentei escovar meus dentes, mas lá veio uma nova golfada – a doçura da pasta de dente revoltou meu estômago. Retornei para a sala.
– Você está passando mal – disse Lydia. – Quer que eu vá embora?
– Oh, não, já estou bem. Sempre acordo assim.
Lydia estava bonita. A luz entrava através das cortinas e se refletia nela. Trazia uma laranja numa das mãos e ficava jogando-a para cima. A laranja brilhava sob o sol da manhã.
– Não posso ficar. Mas queria perguntar uma coisa.
– Claro.
– Sou escultora. Queria esculpir sua cabeça.
– Tudo bem.
– Você vai ter que ir lá em casa. Não tenho um estúdio. Vamos ter que fazer por lá. Você não vai ficar nervoso, não é mesmo?
– Não.
Anotei seu endereço e as instruções para chegar até lá.
– Tente chegar às onze da manhã. As crianças chegam da escola no meio da tarde e isso atrapalha bastante.
– Estarei lá às onze – eu lhe disse.
Sentei de frente para Lydia na mesa da cozinha. Entre nós havia um grande bloco de argila. Começou a fazer perguntas.
– Seus pais ainda estão vivos?
– Não.
– Você gosta de L.A.?
– É minha cidade favorita.
– Por que você escreve sobre as mulheres do modo como faz?
– Como assim?
– Você sabe.
– Não sei, não.
– Bem, acho que é uma desgraça que um homem que escreve tão bem quanto você não saiba nada sobre as mulheres.
Não respondi.
– Merda! O que a Lisa fez com...? – Ela começou a vasculhar a sala. – Ah, essas garotinhas que consomem com as ferramentas de suas mães!
Lydia encontrou outro objeto. Começou a trabalhar o bloco de argila com uma ferramenta de madeira com um arame curvo na ponta. Ela balançava a ferramenta na minha direção por sobre o bloco. Eu a observava. Seus olhos me encaravam. Eram grandes, castanho-escuros. Mesmo seu olho ruim, aquele que não combinava muito bem com o outro, tinha um aspecto legal. Devolvi seu olhar. Lydia trabalhava. O tempo passou. Eu estava num transe. Então ela disse:
– Que tal uma parada? Toma uma cerveja?
– Beleza. Claro.
Quando ela se levantou para ir até a geladeira eu a segui. Tirou a garrafa e fechou a porta. Ao se voltar, agarrei-a pela cintura e a puxei em minha direção. Colei minha boca e meu corpo nela. Segurava a garrafa numa das mãos com o braço estendido. Beijei-a. Beijei-a de novo. Lydia me afastou.
– Está bem – ela disse –, já chega. Temos muito trabalho pela frente.
– Mulheres
os hospícios raramente
estão visíveis.
que continuemos caminhando por aí
e nos coçando e acendendo
cigarros
é mais miraculoso
do que os banhos das beldades
do que as rosas e as mariposas.
sentar-se em um pequeno quarto
e beber uma latinha de cerveja
e fechar um cigarro
ouvindo Brahms
em um radinho vermelho
é como ter voltado
de uma dúzia de batalhas
com vida
ouvir o som
da geladeira
enquanto as beldades banhadas apodrecem
e as laranjas e maçãs
rolam para longe.
Um ou dois dias depois recebi um poema de Lydia pelo correio. Era um poema longo e começava com:
Saia, velho ogro
Saia de seu buraco escuro, velho ogro
Saia para a luz do sol conosco e
Deixe que a gente ponha margaridas nos seus cabelos...
O poema seguia dizendo como seria bom dançar pelos campos na companhia de ninfas que me trariam alegria e sabedoria verdadeira. Coloquei a carta numa das gavetas da cômoda.
Fui acordado na manhã seguinte por uma batida na janela da porta da frente. Eram dez e meia.
– Suma – eu disse
– É Lydia.
– Tudo bem. Espere um minuto.
Vesti uma camiseta e um par de calças e abri a porta. Então corri até o banheiro e vomitei. Tentei escovar meus dentes, mas lá veio uma nova golfada – a doçura da pasta de dente revoltou meu estômago. Retornei para a sala.
– Você está passando mal – disse Lydia. – Quer que eu vá embora?
– Oh, não, já estou bem. Sempre acordo assim.
Lydia estava bonita. A luz entrava através das cortinas e se refletia nela. Trazia uma laranja numa das mãos e ficava jogando-a para cima. A laranja brilhava sob o sol da manhã.
– Não posso ficar. Mas queria perguntar uma coisa.
– Claro.
– Sou escultora. Queria esculpir sua cabeça.
– Tudo bem.
– Você vai ter que ir lá em casa. Não tenho um estúdio. Vamos ter que fazer por lá. Você não vai ficar nervoso, não é mesmo?
– Não.
Anotei seu endereço e as instruções para chegar até lá.
– Tente chegar às onze da manhã. As crianças chegam da escola no meio da tarde e isso atrapalha bastante.
– Estarei lá às onze – eu lhe disse.
Sentei de frente para Lydia na mesa da cozinha. Entre nós havia um grande bloco de argila. Começou a fazer perguntas.
– Seus pais ainda estão vivos?
– Não.
– Você gosta de L.A.?
– É minha cidade favorita.
– Por que você escreve sobre as mulheres do modo como faz?
– Como assim?
– Você sabe.
– Não sei, não.
– Bem, acho que é uma desgraça que um homem que escreve tão bem quanto você não saiba nada sobre as mulheres.
Não respondi.
– Merda! O que a Lisa fez com...? – Ela começou a vasculhar a sala. – Ah, essas garotinhas que consomem com as ferramentas de suas mães!
Lydia encontrou outro objeto. Começou a trabalhar o bloco de argila com uma ferramenta de madeira com um arame curvo na ponta. Ela balançava a ferramenta na minha direção por sobre o bloco. Eu a observava. Seus olhos me encaravam. Eram grandes, castanho-escuros. Mesmo seu olho ruim, aquele que não combinava muito bem com o outro, tinha um aspecto legal. Devolvi seu olhar. Lydia trabalhava. O tempo passou. Eu estava num transe. Então ela disse:
– Que tal uma parada? Toma uma cerveja?
– Beleza. Claro.
Quando ela se levantou para ir até a geladeira eu a segui. Tirou a garrafa e fechou a porta. Ao se voltar, agarrei-a pela cintura e a puxei em minha direção. Colei minha boca e meu corpo nela. Segurava a garrafa numa das mãos com o braço estendido. Beijei-a. Beijei-a de novo. Lydia me afastou.
– Está bem – ela disse –, já chega. Temos muito trabalho pela frente.
– Mulheres
1 204
Charles Bukowski
Lava-Rápido
saí, o camarada disse, “ei!”, caminhando na minha
direção, apertamos as mãos, ele me passou 2 cupons
vermelhos para lavar o carro de graça, “nos encontramos depois”,
eu lhe disse, segui em frente até área de
espera com a esposa, sentamos num banco do lado de fora.
um negro manco de uma perna apareceu, disse,
“ei, cara, como vai a parada?”
respondi, “beleza, mermão, e com tu?”
“na paz”, ele disse, então se afastou para
secar uma van.
“essas pessoas o conhecem?”, perguntou minha esposa.
“não”.
“então por que elas vêm falar com você?”
“gostam de mim, as pessoas sempre gostaram de mim,
é minha sina.”
então nosso carro ficou pronto, o camarada acenou com
a flanela pra mim, levantamos, fomos até o
carro, dei-lhe um dólar, entramos,
dei a partida, o gerente se
aproximou, um cara grande de óculos escuros, um cara enorme,
abriu um sorriso largo, “bom ver você,
cara!”
sorri de volta, “obrigado, gentileza sua,
cara!”
misturei-me ao tráfego, “eles te conhecem”,
disse minha esposa.
“claro”, eu disse, “já estive ali.”
direção, apertamos as mãos, ele me passou 2 cupons
vermelhos para lavar o carro de graça, “nos encontramos depois”,
eu lhe disse, segui em frente até área de
espera com a esposa, sentamos num banco do lado de fora.
um negro manco de uma perna apareceu, disse,
“ei, cara, como vai a parada?”
respondi, “beleza, mermão, e com tu?”
“na paz”, ele disse, então se afastou para
secar uma van.
“essas pessoas o conhecem?”, perguntou minha esposa.
“não”.
“então por que elas vêm falar com você?”
“gostam de mim, as pessoas sempre gostaram de mim,
é minha sina.”
então nosso carro ficou pronto, o camarada acenou com
a flanela pra mim, levantamos, fomos até o
carro, dei-lhe um dólar, entramos,
dei a partida, o gerente se
aproximou, um cara grande de óculos escuros, um cara enorme,
abriu um sorriso largo, “bom ver você,
cara!”
sorri de volta, “obrigado, gentileza sua,
cara!”
misturei-me ao tráfego, “eles te conhecem”,
disse minha esposa.
“claro”, eu disse, “já estive ali.”
1 093
Charles Bukowski
Minha Tiete
fiz uma leitura no último sábado no
bosque para além de Santa Cruz
e estava a 3/4 do final
quando escutei um grito longo e desesperado
e uma jovem bastante
atraente veio correndo em minha direção
vestido longo & fogo divino nos olhos
e invadiu o palco
e gritou: “EU QUERO VOCÊ!
EU QUERO VOCÊ! ME LEVE! ME
LEVE!”
eu disse a ela: “olhe, fique longe
de mim”.
mas ela continuava agarrada às minhas
roupas e se esfregando em
mim.
“onde você estava”, eu lhe perguntei, “quando eu
vivia com apenas uma barra de doce por dia e
mandava meus contos para a
Atlantic Monthly?”
ela agarrou minhas bolas e quase
as arrancou. seus beijos
tinham gosto de sopa de merda.
2 mulheres subiram no palco
e
a carregaram para dentro do
bosque.
eu ainda podia ouvir seus gritos
quando comecei o poema seguinte.
talvez, pensei, eu devesse
tê-la possuído naquele palco na frente
de todos aqueles olhos.
mas alguém nunca pode ter certeza
se isso é boa poesia ou
ácido de má qualidade.
Fiquei dois dias sem ver Lydia, embora tenha dado um jeito de telefonar para ela umas sete ou oito vezes nesse período. Então o fim de semana chegou. Seu ex-marido, Gerald, costumava ficar com as crianças nos fins de semana.
Peguei o carro e fui até onde ela morava naquele sábado, às onze da manhã, e bati na porta. Ela estava com um jeans apertado, botas, blusa laranja. Seus olhos castanhos pareciam mais escuros do que nunca e, à luz do sol, ela abriu a porta, fazendo com que eu notasse um tom natural em seus cabelos escuros. Aquilo foi surpreendente. Me deixou beijá-la; então fechou a porta atrás de nós e fomos até o meu carro. A gente tinha decidido ir à praia – não para tomar banho –, pois era pleno inverno, mas só para fazer alguma coisa.
Seguimos. Era bom ter Lydia no carro comigo.
– Que festa aquela – ela disse. – Você chama aquilo de festa de colação? Aquilo era uma festa da copulação, isso sim. Uma festa da copulação!
Eu dirigia com uma das mãos, enquanto a outra descansava na parte interna da coxa de Lydia. Não conseguia evitar. Ela não parecia se importar. Eu ia dirigindo, e a mão escorregou por entre suas pernas. Ela continuou a conversar. De repente, ela disse:
– Tire a mão. Aí é a minha buceta!
– Desculpe – eu disse.
Nenhum de nós disse nada até chegarmos ao estacionamento em Venice Beach.
– Você quer um sanduíche e uma coca, algo assim? – perguntei.
– Beleza – ela disse.
Entramos num mercadinho judeu pra comprar as coisas e as levamos para um montinho gramado que dava para o mar. Tínhamos sanduíches, picles, batatas fritas e refrigerantes. A praia estava quase deserta e a comida estava com um gosto bom. Lydia não dizia nada. Fiquei espantado com a rapidez com que ela comia. Estraçalhava o sanduíche com selvageria, tomava grandes goles de coca, comia metade de um picles com uma só mordida e pegava enormes punhados de batata frita. Eu, ao contrário, como muito devagar.
Paixão, pensei, ela exalava paixão.
– Que tal esse sanduíche? – perguntei.
– Uma beleza. Eu estava com fome.
– Eles fazem sanduíches legais. Quer mais alguma coisa?
– Sim, queria um doce.
– De que tipo?
– Ah, qualquer um. Um que fosse gostoso.
Dei uma mordida no meu sanduíche, tomei um gole de Coca, larguei tudo e fui até o mercadinho. Comprei dois doces, assim ela poderia escolher. Na volta, vi que um negro alto se dirigia ate o montinho. Era um dia frio, mas o cara estava sem camisa e tinha um corpo bem musculoso. Parecia ter vinte e poucos anos. Andava devagar e ereto. Tinha um pescoço longo, magro, e um brinco de ouro pendurado na orelha esquerda. Passou na frente de Lydia, pela areia, entre ela e o mar. Subi no montinho e sentei ao lado de Lydia.
– Você viu aquele cara? – ela perguntou.
– Sim.
– Jesus, e eu estou com você, vinte anos mais velho do que eu. Podia pegar alguém como ele... O que há de errado comigo, afinal?
– Olhe. Trouxe dois doces. Pegue um.
Pegou um, rasgou o invólucro, deu uma mordida e ficou olhando o rapaz negro que se afastava ao longo da praia.
– Cansei da praia – ela disse –, vamos voltar para minha casa.
Ficamos uma semana sem nos ver. Então, certa tarde, lá estava eu na casa de Lydia, os dois na cama, nos beijando. Lydia se afastou.
– Você não entende nada de mulher, não é mesmo?
– Do que você está falando?
– Quero dizer, ao ler seus poemas e seus contos dá pra ver que você não entende nada de mulher.
– Me fale mais.
– Bem, é que para eu me interessar por um homem ele tem que chupar minha buceta. Você já chupou uma buceta?
– Não.
– Você tem mais de cinquenta anos e nunca chupou uma buceta?
– Não.
– Tarde demais.
– Por quê?
– Não dá pra ensinar truque novo pra cachorro velho.
– Claro que dá.
– Não, é tarde demais pra você.
– Sempre demorei pra arrancar na largada.
Lydia se levantou e foi até a sala. Voltou com um lápis e um pedaço de papel.
– Agora, veja bem, vou mostrar uma coisa pra você. – Começou a desenhar no papel. – Bem, isso é uma buceta, e aqui fica um negócio de que você provavelmente nunca ouviu falar: o clitóris. Aqui é o lugar onde estão as sensações. O clitóris se esconde, consegue ver, ele sai pra fora de vez em quando, é cor-de-rosa e muito sensível. Às vezes ele se esconde de você e é preciso achá-lo. Basta tocar nele com a ponta da língua...
– Ok – eu disse –, entendi tudo.
– Acho que você não vai conseguir. Já disse, não dá pra ensinar truque novo pra um cachorro velho.
– Vamos tirar a roupa e nos deitar.
A gente se despiu e se esticou na cama. Comecei a beijar Lydia. Desci dos lábios para o pescoço, e daí para os peitos. Depois, deslizei até o umbigo. Desci mais.
– Você não conseguirá – ela disse. – Sai sangue e urina daí; pense nisso, sangue e urina...
Fui lá embaixo e comecei a lamber. Ela fizera um desenho acurado para mim. Tudo estava onde devia estar. Ouvi sua respiração ficar pesada; depois gemidos. Aquilo me excitou. Fiquei de pau duro. O clitóris se revelou, mas não era exatamente rosado, era de um rosa-púrpura. Aticei o clitóris. Brotaram uns sucos que se misturaram com os pentelhos. Lydia gemia sem parar. Então escutei a porta da frente abrir e fechar. Ouvi passos. Ergui os olhos. Um negrinho de uns cinco anos estava ali parado, ao lado da cama.
– Mas que diabos você quer aqui? – perguntei.
– Tem alguma garrafa vazia? – perguntou.
– Não, não tenho nenhuma garrafa vazia – respondi.
Ele saiu do quarto para a sala, saiu pela porta da frente e se foi.
– Deus – disse Lydia –, achei que a porta da frente estava trancada. Era o garotinho da Bonnie.
Lydia se levantou e trancou a porta da frente. Voltou e se estendeu na cama. Eram umas quatro horas da tarde de sábado.
Voltei a mergulhar ali.
– Mulheres
bosque para além de Santa Cruz
e estava a 3/4 do final
quando escutei um grito longo e desesperado
e uma jovem bastante
atraente veio correndo em minha direção
vestido longo & fogo divino nos olhos
e invadiu o palco
e gritou: “EU QUERO VOCÊ!
EU QUERO VOCÊ! ME LEVE! ME
LEVE!”
eu disse a ela: “olhe, fique longe
de mim”.
mas ela continuava agarrada às minhas
roupas e se esfregando em
mim.
“onde você estava”, eu lhe perguntei, “quando eu
vivia com apenas uma barra de doce por dia e
mandava meus contos para a
Atlantic Monthly?”
ela agarrou minhas bolas e quase
as arrancou. seus beijos
tinham gosto de sopa de merda.
2 mulheres subiram no palco
e
a carregaram para dentro do
bosque.
eu ainda podia ouvir seus gritos
quando comecei o poema seguinte.
talvez, pensei, eu devesse
tê-la possuído naquele palco na frente
de todos aqueles olhos.
mas alguém nunca pode ter certeza
se isso é boa poesia ou
ácido de má qualidade.
Fiquei dois dias sem ver Lydia, embora tenha dado um jeito de telefonar para ela umas sete ou oito vezes nesse período. Então o fim de semana chegou. Seu ex-marido, Gerald, costumava ficar com as crianças nos fins de semana.
Peguei o carro e fui até onde ela morava naquele sábado, às onze da manhã, e bati na porta. Ela estava com um jeans apertado, botas, blusa laranja. Seus olhos castanhos pareciam mais escuros do que nunca e, à luz do sol, ela abriu a porta, fazendo com que eu notasse um tom natural em seus cabelos escuros. Aquilo foi surpreendente. Me deixou beijá-la; então fechou a porta atrás de nós e fomos até o meu carro. A gente tinha decidido ir à praia – não para tomar banho –, pois era pleno inverno, mas só para fazer alguma coisa.
Seguimos. Era bom ter Lydia no carro comigo.
– Que festa aquela – ela disse. – Você chama aquilo de festa de colação? Aquilo era uma festa da copulação, isso sim. Uma festa da copulação!
Eu dirigia com uma das mãos, enquanto a outra descansava na parte interna da coxa de Lydia. Não conseguia evitar. Ela não parecia se importar. Eu ia dirigindo, e a mão escorregou por entre suas pernas. Ela continuou a conversar. De repente, ela disse:
– Tire a mão. Aí é a minha buceta!
– Desculpe – eu disse.
Nenhum de nós disse nada até chegarmos ao estacionamento em Venice Beach.
– Você quer um sanduíche e uma coca, algo assim? – perguntei.
– Beleza – ela disse.
Entramos num mercadinho judeu pra comprar as coisas e as levamos para um montinho gramado que dava para o mar. Tínhamos sanduíches, picles, batatas fritas e refrigerantes. A praia estava quase deserta e a comida estava com um gosto bom. Lydia não dizia nada. Fiquei espantado com a rapidez com que ela comia. Estraçalhava o sanduíche com selvageria, tomava grandes goles de coca, comia metade de um picles com uma só mordida e pegava enormes punhados de batata frita. Eu, ao contrário, como muito devagar.
Paixão, pensei, ela exalava paixão.
– Que tal esse sanduíche? – perguntei.
– Uma beleza. Eu estava com fome.
– Eles fazem sanduíches legais. Quer mais alguma coisa?
– Sim, queria um doce.
– De que tipo?
– Ah, qualquer um. Um que fosse gostoso.
Dei uma mordida no meu sanduíche, tomei um gole de Coca, larguei tudo e fui até o mercadinho. Comprei dois doces, assim ela poderia escolher. Na volta, vi que um negro alto se dirigia ate o montinho. Era um dia frio, mas o cara estava sem camisa e tinha um corpo bem musculoso. Parecia ter vinte e poucos anos. Andava devagar e ereto. Tinha um pescoço longo, magro, e um brinco de ouro pendurado na orelha esquerda. Passou na frente de Lydia, pela areia, entre ela e o mar. Subi no montinho e sentei ao lado de Lydia.
– Você viu aquele cara? – ela perguntou.
– Sim.
– Jesus, e eu estou com você, vinte anos mais velho do que eu. Podia pegar alguém como ele... O que há de errado comigo, afinal?
– Olhe. Trouxe dois doces. Pegue um.
Pegou um, rasgou o invólucro, deu uma mordida e ficou olhando o rapaz negro que se afastava ao longo da praia.
– Cansei da praia – ela disse –, vamos voltar para minha casa.
Ficamos uma semana sem nos ver. Então, certa tarde, lá estava eu na casa de Lydia, os dois na cama, nos beijando. Lydia se afastou.
– Você não entende nada de mulher, não é mesmo?
– Do que você está falando?
– Quero dizer, ao ler seus poemas e seus contos dá pra ver que você não entende nada de mulher.
– Me fale mais.
– Bem, é que para eu me interessar por um homem ele tem que chupar minha buceta. Você já chupou uma buceta?
– Não.
– Você tem mais de cinquenta anos e nunca chupou uma buceta?
– Não.
– Tarde demais.
– Por quê?
– Não dá pra ensinar truque novo pra cachorro velho.
– Claro que dá.
– Não, é tarde demais pra você.
– Sempre demorei pra arrancar na largada.
Lydia se levantou e foi até a sala. Voltou com um lápis e um pedaço de papel.
– Agora, veja bem, vou mostrar uma coisa pra você. – Começou a desenhar no papel. – Bem, isso é uma buceta, e aqui fica um negócio de que você provavelmente nunca ouviu falar: o clitóris. Aqui é o lugar onde estão as sensações. O clitóris se esconde, consegue ver, ele sai pra fora de vez em quando, é cor-de-rosa e muito sensível. Às vezes ele se esconde de você e é preciso achá-lo. Basta tocar nele com a ponta da língua...
– Ok – eu disse –, entendi tudo.
– Acho que você não vai conseguir. Já disse, não dá pra ensinar truque novo pra um cachorro velho.
– Vamos tirar a roupa e nos deitar.
A gente se despiu e se esticou na cama. Comecei a beijar Lydia. Desci dos lábios para o pescoço, e daí para os peitos. Depois, deslizei até o umbigo. Desci mais.
– Você não conseguirá – ela disse. – Sai sangue e urina daí; pense nisso, sangue e urina...
Fui lá embaixo e comecei a lamber. Ela fizera um desenho acurado para mim. Tudo estava onde devia estar. Ouvi sua respiração ficar pesada; depois gemidos. Aquilo me excitou. Fiquei de pau duro. O clitóris se revelou, mas não era exatamente rosado, era de um rosa-púrpura. Aticei o clitóris. Brotaram uns sucos que se misturaram com os pentelhos. Lydia gemia sem parar. Então escutei a porta da frente abrir e fechar. Ouvi passos. Ergui os olhos. Um negrinho de uns cinco anos estava ali parado, ao lado da cama.
– Mas que diabos você quer aqui? – perguntei.
– Tem alguma garrafa vazia? – perguntou.
– Não, não tenho nenhuma garrafa vazia – respondi.
Ele saiu do quarto para a sala, saiu pela porta da frente e se foi.
– Deus – disse Lydia –, achei que a porta da frente estava trancada. Era o garotinho da Bonnie.
Lydia se levantou e trancou a porta da frente. Voltou e se estendeu na cama. Eram umas quatro horas da tarde de sábado.
Voltei a mergulhar ali.
– Mulheres
1 362
Charles Bukowski
Cometi Um Erro
me estiquei até a última prateleira do armário
e puxei de lá uma calcinha azul
e mostrei a ela e
perguntei “é sua?”
e ela olhou e disse,
“não, devem ser da cadela”.
depois disso ela se foi e não a vi
desde então. não está na sua casa.
continuo passando por lá, enfiando bilhetes
debaixo da porta. volto ali e os bilhetes
continuam intocados. arranco a cruz de Malta
do retrovisor do meu carro e a amarro
com um cadarço à sua maçaneta, deixo
um livro de poemas.
ao retornar na noite seguinte tudo
continua ali.
continuo rondando as ruas em busca
daquele encouraçado cor-de-vinho que ela dirige
com uma bateria fraca, e as portas
pendendo das dobradiças estropiadas.
circulo pelas ruas
a um passo de chorar,
envergonhado de meu sentimentalismo e
possível amor.
um homem velho e confuso dirigindo na chuva
perguntando-se onde a boa sorte foi
parar.
e puxei de lá uma calcinha azul
e mostrei a ela e
perguntei “é sua?”
e ela olhou e disse,
“não, devem ser da cadela”.
depois disso ela se foi e não a vi
desde então. não está na sua casa.
continuo passando por lá, enfiando bilhetes
debaixo da porta. volto ali e os bilhetes
continuam intocados. arranco a cruz de Malta
do retrovisor do meu carro e a amarro
com um cadarço à sua maçaneta, deixo
um livro de poemas.
ao retornar na noite seguinte tudo
continua ali.
continuo rondando as ruas em busca
daquele encouraçado cor-de-vinho que ela dirige
com uma bateria fraca, e as portas
pendendo das dobradiças estropiadas.
circulo pelas ruas
a um passo de chorar,
envergonhado de meu sentimentalismo e
possível amor.
um homem velho e confuso dirigindo na chuva
perguntando-se onde a boa sorte foi
parar.
1 107
Charles Bukowski
O Mais Forte dos Estranhos
você não os verá seguidamente
pois onde quer que esteja a multidão
eles não
estarão lá.
esses tipos bizarros, não
muitos
mas deles
vêm
os poucos
pintores decentes
as poucas
sinfonias decentes
os poucos
livros decentes
e outras
obras.
e dos
melhores entre
esses estranhos
talvez
nada.
eles são
suas próprias
pinturas
seus próprios
livros
suas próprias
músicas
suas próprias
obras.
às vezes eu penso
eu os
vejo – digamos
um certo
velho
sentado num
certo banco
de uma certa
maneira
ou
há um certo movimento
das mãos
de um empacotador ou
empacotadora
quando guardam
as compras do
supermercado.
às vezes chega
a ser alguém com quem
você esteve morando
por algum
tempo –
você perceberá
um
rápido e fugaz
lampejo
nunca antes
percebido
neles.
algumas vezes
você só notará
suas
existências
subitamente
em
vívidas
lembranças
alguns meses
alguns anos
depois que eles tiverem
partido.
me lembro
de um
deles –
tinha cerca de
20 anos
bêbado às
10 da manhã
mirando fixo
um espelho
rachado em
Nova Orleans
o rosto sonhador
contra as
paredes do
mundo
onde
eu fui
parar?
pois onde quer que esteja a multidão
eles não
estarão lá.
esses tipos bizarros, não
muitos
mas deles
vêm
os poucos
pintores decentes
as poucas
sinfonias decentes
os poucos
livros decentes
e outras
obras.
e dos
melhores entre
esses estranhos
talvez
nada.
eles são
suas próprias
pinturas
seus próprios
livros
suas próprias
músicas
suas próprias
obras.
às vezes eu penso
eu os
vejo – digamos
um certo
velho
sentado num
certo banco
de uma certa
maneira
ou
há um certo movimento
das mãos
de um empacotador ou
empacotadora
quando guardam
as compras do
supermercado.
às vezes chega
a ser alguém com quem
você esteve morando
por algum
tempo –
você perceberá
um
rápido e fugaz
lampejo
nunca antes
percebido
neles.
algumas vezes
você só notará
suas
existências
subitamente
em
vívidas
lembranças
alguns meses
alguns anos
depois que eles tiverem
partido.
me lembro
de um
deles –
tinha cerca de
20 anos
bêbado às
10 da manhã
mirando fixo
um espelho
rachado em
Nova Orleans
o rosto sonhador
contra as
paredes do
mundo
onde
eu fui
parar?
1 146
Charles Bukowski
Prato Feito
levei minha amiga à sua última leitura de poesia,
ela disse.
sim, sim? perguntei.
ela é jovem e bonita, ela disse.
e? perguntei.
ela achou um
lixo.
então ela esticou as pernas no sofá
e tirou as
botas.
minhas pernas não são lá essas coisas,
ela disse.
tudo bem, pensei, minha poesia não é lá
essas coisas; suas pernas não são lá essas
coisas.
misturemos as duas.
ela disse.
sim, sim? perguntei.
ela é jovem e bonita, ela disse.
e? perguntei.
ela achou um
lixo.
então ela esticou as pernas no sofá
e tirou as
botas.
minhas pernas não são lá essas coisas,
ela disse.
tudo bem, pensei, minha poesia não é lá
essas coisas; suas pernas não são lá essas
coisas.
misturemos as duas.
1 137
Charles Bukowski
Prato Feito
levei minha amiga à sua última leitura de poesia,
ela disse.
sim, sim? perguntei.
ela é jovem e bonita, ela disse.
e? perguntei.
ela achou um
lixo.
então ela esticou as pernas no sofá
e tirou as
botas.
minhas pernas não são lá essas coisas,
ela disse.
tudo bem, pensei, minha poesia não é lá
essas coisas; suas pernas não são lá essas
coisas.
misturemos as duas.
ela disse.
sim, sim? perguntei.
ela é jovem e bonita, ela disse.
e? perguntei.
ela achou um
lixo.
então ela esticou as pernas no sofá
e tirou as
botas.
minhas pernas não são lá essas coisas,
ela disse.
tudo bem, pensei, minha poesia não é lá
essas coisas; suas pernas não são lá essas
coisas.
misturemos as duas.
1 137
Charles Bukowski
Você Anda Bebendo?
desanimado, na praia, o velho caderno amarelo de anotações
mais uma vez aberto
escrevo na cama
como fiz ano
passado.
vamos ao médico,
segunda-feira.
“sim, doutor, pernas fracas, vertigem, dor-de-
cabeça e minhas costas
doem.”
“você anda bebendo?”, ele perguntará.
“tem feito seus
exercícios, tomado suas
vitaminas?”
acho que estou doente simplesmente de
viver, os mesmos elementos sem graça
ainda que
flutuantes.
mesmo nas corridas
vejo os cavalos correrem
e isso me parece
sem sentido.
vou embora mais cedo depois de ter comprado bilhetes para as
corridas restantes.
“já vai?”, pergunta o vendedor das
apostas.
“sim, estou de saco cheio”,
eu lhe digo.
“se você acha que é chato
aí fora”, ele me diz, “tem que ver como é
aqui dentro.”
então cá estou
mais uma vez apoiado em meus
travesseiros
apenas um cara velho
apenas um velho escritor
com uma caderneta
amarela.
alguma coisa
cruza pelo
chão
e vem até
mim.
oh, é apenas
meu gato
desta
vez.
mais uma vez aberto
escrevo na cama
como fiz ano
passado.
vamos ao médico,
segunda-feira.
“sim, doutor, pernas fracas, vertigem, dor-de-
cabeça e minhas costas
doem.”
“você anda bebendo?”, ele perguntará.
“tem feito seus
exercícios, tomado suas
vitaminas?”
acho que estou doente simplesmente de
viver, os mesmos elementos sem graça
ainda que
flutuantes.
mesmo nas corridas
vejo os cavalos correrem
e isso me parece
sem sentido.
vou embora mais cedo depois de ter comprado bilhetes para as
corridas restantes.
“já vai?”, pergunta o vendedor das
apostas.
“sim, estou de saco cheio”,
eu lhe digo.
“se você acha que é chato
aí fora”, ele me diz, “tem que ver como é
aqui dentro.”
então cá estou
mais uma vez apoiado em meus
travesseiros
apenas um cara velho
apenas um velho escritor
com uma caderneta
amarela.
alguma coisa
cruza pelo
chão
e vem até
mim.
oh, é apenas
meu gato
desta
vez.
1 030
Charles Bukowski
A Noite Em Que Eu Ia Morrer
na noite em que eu ia morrer
suava na minha cama
e podia ouvir os grilos
e lá fora gatos brigavam
e eu podia sentir minha alma escorrendo através do
colchão
e antes que ela tocasse o chão me levantei de um salto
fraco de quase não poder caminhar
mas caminhei ali ao redor e acendi todas as luzes
então retornei para a cama
e novamente minha alma começou a escorrer através do colchão
e eu me levantei
antes que ela chegasse ao chão
caminhei por ali e acendi todas as luzes
e então voltei para a cama
e lá estava ela escorrendo de novo e
novamente eu de pé
acendendo todas as luzes
eu tinha uma filha de 7 anos
e a certeza de que ela não queria que eu morresse
de outro modo eu não teria me preocupado nem um
pouco
mas naquela noite inteira
ninguém telefonou
ninguém apareceu com uma cerveja
minha namorada não ligou
e eu podia ouvir os grilos e fazia
calor
e eu seguia imerso naquilo tudo
levantando e deitando
até que o primeiro raio do sol atravessou a janela
através dos arbustos
e então deitei na cama
e alma ficou onde estava
por fim aqui dentro e eu
dormi.
agora as pessoas aparecem
batendo nas portas e nas janelas
o telefone toca
o telefone toca sem parar
recebo grandes cartas no correio
cartas de ódio e cartas de amor.
tudo voltou a ser o que era antes.
Duas madrugadas depois, às quatro da manhã, alguém bateu à porta.
– Quem é?
– É uma piranha ruiva.
Deixei Tammie entrar. Ela se sentou e eu abri duas cervejas.
– Estou com mau hálito, dois dentes podres. Você não pode me beijar.
– Tudo bem.
Conversamos. Bem, eu ouvi. Tammie estava emboletada. Fiquei escutando e olhando para os seus longos cabelos ruivos e enquanto ela se preocupava eu seguia olhando, olhando também para aquele corpo. Era como se ele fosse saltar para fora das roupas dela, como se implorasse para sair. Ela falava e falava. Não a toquei.
Às seis horas da manhã, Tammie me deu seu endereço e número de telefone.
– Tenho que ir – ela disse.
– Acompanho você até o carro.
Era um Camaro vermelho reluzente, completamente demolido. A parte da frente estava amassada, uma das laterais trazia um furo na lataria, as janelas não tinham mais vidros. Na parte de dentro havia panos e camisas e caixas de Kleenex e jornais e caixas de leite e garrafas de Coca e fios e cordas e guardanapos de papel e revistas e copos de papel e sapatos e canudinhos coloridos. Essa enorme massa de coisas estava empilhada até a altura dos bancos e os cobria por completo. Somente o do motorista tinha uma área mais ou menos livre.
Tammie estendeu a cabeça pela janela e nos beijamos.
Então ela se afastou do meio-fio e quando alcançou a esquina já estava a setenta quilômetros por hora. Ela pisou fundo no freio, e o Camaro deu um tranco, subiu e desceu, subiu e desceu. Voltei para dentro.
Voltei para a cama e fiquei pensando naqueles cabelos. Jamais tinha conhecido uma ruiva de verdade. Era fogo puro.
Como relâmpagos celestiais, pensei.
De algum modo seu rosto já não me parecia tão duro quanto antes...
Tammie apareceu naquela noite. Parecia estar louca de anfetaminas.
– Quero um pouco de champanhe – ela disse.
– Tudo bem – eu disse.
Alcancei-lhe uma nota de vinte.
– Volto logo – ela disse, caminhando até a porta.
Então o telefone tocou. Era Lydia.
– Queria saber apenas como estavam as coisas por aí...
– Está tudo bem.
– Comigo não. Estou grávida.
– O quê?
– E não sei quem é o pai.
– Hein?
– Você conhece o Dutch, o cara que anda ali pelo bar onde estou trabalhando?
– Sim, o velho Carequinha.
– Bem, ele é um cara muito legal. Está apaixonado por mim. Sempre me leva flores e doces. Quer se casar comigo. Tem sido muito bacana. E numa noite dessas eu fui pra casa com ele. A gente transou.
– Certo.
– E tem também o Barney, ele é casado, mas gosto dele. De todos os caras no bar ele é o único que nunca tentou me cantar. Fiquei fascinada com isso. Bem, você sabe, estou tentando vender a minha casa. Então ele apareceu uma tarde dessas. Apenas apareceu. Disse que estava atrás de uma casa para um amigo. Deixei ele entrar. Bem, ele chegou na hora certa. As crianças estavam na escola, bem, deixei que ele fosse em frente... Então certa noite um cara desconhecido chegou no bar, já era tarde. Pediu que eu fosse pra casa com ele. Eu disse não. Então ele disse que só queria ficar sentado no carro comigo, conversar e tal. Eu disse tudo bem. Ficamos lá no carro e conversamos. Então fumamos um baseado. E aí ele me beijou. Se ele não tivesse me beijado não teria rolado nada. Bem, agora estou grávida e não sei de quem. Terei que esperar pra ver com quem a criança se parece.
– Tudo bem, Lydia, toda sorte do mundo pra você.
– Obrigada.
Desliguei. Um minuto se passou e o telefone voltou a tocar. Era Lydia.
– Oh – ela disse –, me pergunto como você está se virando.
– O mesmo de sempre, cavalos e trago.
– Então está tudo bem com você?
– Não exatamente.
– O que está acontecendo?
– Bem, mandei uma mulher buscar champanhe...
– Mulher?
– Bem, na verdade é uma garota...
– Uma garota?
– Dei a ela uma nota de 20 pra comprar champanhe e ela ainda não voltou. Acho que fui enganado.
– Chinaski, não quero ouvir falar das suas mulheres. Será que você consegue entender isso?
– Tudo bem.
Lydia desligou. Soou uma batida na porta. Era Tammie. Ela voltava com o champanhe e o troco.
No dia seguinte, perto do meio-dia, o telefone tocou. Era novamente Lydia.
– Bem, ela voltou com o champanhe?
– Quem?
– A sua piranha.
– Sim, ela voltou...
– Então, o que aconteceu?
– Bebemos champanhe. Era dos bons.
– E então o que aconteceu?
– Bem, você sabe, aquela coisa...
Ouvi um uivo longo e insano, como se uma loba tivesse sido baleada em meio à neve do Ártico e, sangrando, fosse abandonada para morrer sozinha...
Ela desligou.
Dormi a maior parte da tarde e, à noite, dirigi até as corridas de charretes.
Perdi 32 dólares e entrei no fusca e fiz o caminho de volta. Estacionei, caminhei até a varanda e pus a chave na fechadura. Todas as luzes estavam acesas. Olhei em volta. As gavetas estavam abertas e haviam sido viradas, as roupas de cama estavam no chão. Todos os meus livros tinham sumido da prateleira, inclusive aqueles que eu tinha escrito, vinte ou mais. E minha máquina de escrever se foi e minha torradeira se foi e meu rádio se foi e minhas telas se foram.
Lydia, pensei.
Tudo o que ela havia me deixado era a tevê, porque sabia que eu não assistia.
Fui até o lado de fora e lá estava o carro de Lydia, mas ela não.
– Lydia – eu disse. – Ei, baby!
Subi e desci a rua e então avistei seus pés, os dois, despontando atrás de uma árvore junto ao muro de um prédio. Aproximei-me da árvore e disse:
– Escute, que diabos há com você?
Lydia não esboçou reação. Ela carregava duas sacolas cheias com os meus livros e uma pasta com as minhas telas.
– Escute, você precisa me devolver meus livros e minhas telas. Tudo isso me pertence.
Lydia saiu detrás da árvore berrando. Ela pegou as telas de pintura e começou a rasgá-las. Jogou os pedaços para cima e, ao caírem no chão, ela os pisoteou. Estava usando suas botas de vaqueira.
Então pegou meus livros da sacola e começou a jogá-los longe, no meio da rua, no gramado, por toda parte.
– Aqui estão suas pinturas! Aqui estão seus livros! E NÃO ME FALE DAS SUAS MULHERES! NÃO ME FALE DAS SUAS MULHERES!
Então Lydia correu até o meu pátio com um livro na mão, meu último lançamento, Obras escolhidas de Henry Chinaski. Ela gritava:
– Então você quer seus livros de volta? Quer a porra dos seus livros de volta? Aqui estão seus malditos livros! E NÃO ME FALE DAS SUAS MULHERES!
Ela começou a quebrar os vidros da minha porta da frente. Pegou o Obras escolhidas de Henry Chinaski e foi quebrando vidro após vidro, gritando:
– Quer seus livros de volta? Aqui estão seus malditos livros! E NÃO ME FALE DAS SUAS MULHERES! NÃO QUERO OUVIR NADA SOBRE AS SUAS MULHERES!
Fiquei ali parado, enquanto ela gritava e quebrava os vidros.
Onde estava a polícia?, pensei. Onde?
Então Lydia atravessou o pátio, dobrou rapidamente à esquerda ao passar pela lata de lixo e seguiu pela calçada até o prédio ao lado. Atrás de um pequeno arbusto estavam a máquina de escrever, o rádio e a torradeira.
Lydia apanhou a máquina e correu até o meio da rua com ela. Era uma máquina comum e antiga, bastante pesada. Lydia a ergueu com as duas mãos por sobre a cabeça e a jogou de encontro ao pavimento. O cilindro e diversas outras partes voaram longe. Ela voltou a erguer a máquina sobre a cabeça e gritou:
– NÃO ME FALE DAS SUAS MULHERES! – e jogou-a mais uma vez no chão.
Depois disso, Lydia saltou para dentro do carro e se foi.
Quinze segundos mais tarde a polícia apareceu.
– É um fusca laranja. Chama-se a Coisa, parece um tanque. Não me lembro do número da placa, mas as letras são NVA, como NÉVOA, anotou?
– Endereço?
Passei-lhes o endereço...
Evidentemente que eles a trouxeram de volta. Podia ouvi-la urrando no banco de trás, enquanto o carro se aproximava.
– AFASTE-SE! – disse um dos policiais ao sair. Acompanhou-me até minha casa. Entrou e pisou sobre um dos vidros quebrados. Por alguma razão ele direcionou sua lanterna para o teto e para as cornijas.
– O senhor quer dar queixa? – o policial me perguntou.
– Não. Ela tem filhos. Não quero que ela fique sem eles. O ex-marido está tentando ficar com a guarda das crianças. Mas, por favor, diga a ela que as pessoas não podem andar por aí fazendo esse tipo de coisa.
– Ok – ele disse –, agora assine aqui.
Escreveu à mão num pequeno caderno pautado. Dizia que eu, Henry Chinaski, não daria queixa contra Lydia Vance.
Assinei e ele se foi.
Passei a chave no que me restara de porta e fui para a cama e tentei dormir.
Mais ou menos uma hora depois, o telefone tocou. Era Lydia. Ela já estava em casa.
– SEU Filho da puta, SE VOCÊ VOLTAR A FALAR DAS SUAS MULHERES DE NOVO PRA MIM EU VOU ATÉ AÍ E QUEBRO TUDO DE NOVO!
Ela desligou.
Duas noites mais tarde, fui até a casa de Tammie em Rustic Court. Bati. As luzes estavam acesas. Parecia vazia. Olhei na sua caixa de correio. Havia cartas ali dentro. Escrevi um bilhete: “Tammie, tenho telefonado para você. Vim até aqui e você não estava. Está tudo bem com você? Me liga... Hank.”
Voltei no dia seguinte às onze da manhã. Seu carro não estava ali na frente. Meu bilhete continuava enfiado na porta. Mesmo assim toquei a campainha. As cartas continuavam na caixa de correio. Deixei um bilhete ali: “Tammie, onde diabos você está? Entre em contato comigo... Hank.”
Dei uma volta pela vizinhança em busca daquele Camaro vermelho todo detonado.
Retornei naquela noite. Chovia. Meus bilhetes estavam molhados. Havia mais cartas na caixa. Deixei-lhe um dos meus livros de poesia, com uma dedicatória. Então voltei para meu fusca. Tinha uma cruz de malta pendurada no meu retrovisor. Arranquei a cruz, voltei à casa dela e a amarrei ao redor da maçaneta.
Não sabia onde morava nenhuma de suas amigas, onde sua mãe morava, onde seus amantes moravam.
Voltei pra casa e escrevi alguns poemas de amor.
– Mulheres
suava na minha cama
e podia ouvir os grilos
e lá fora gatos brigavam
e eu podia sentir minha alma escorrendo através do
colchão
e antes que ela tocasse o chão me levantei de um salto
fraco de quase não poder caminhar
mas caminhei ali ao redor e acendi todas as luzes
então retornei para a cama
e novamente minha alma começou a escorrer através do colchão
e eu me levantei
antes que ela chegasse ao chão
caminhei por ali e acendi todas as luzes
e então voltei para a cama
e lá estava ela escorrendo de novo e
novamente eu de pé
acendendo todas as luzes
eu tinha uma filha de 7 anos
e a certeza de que ela não queria que eu morresse
de outro modo eu não teria me preocupado nem um
pouco
mas naquela noite inteira
ninguém telefonou
ninguém apareceu com uma cerveja
minha namorada não ligou
e eu podia ouvir os grilos e fazia
calor
e eu seguia imerso naquilo tudo
levantando e deitando
até que o primeiro raio do sol atravessou a janela
através dos arbustos
e então deitei na cama
e alma ficou onde estava
por fim aqui dentro e eu
dormi.
agora as pessoas aparecem
batendo nas portas e nas janelas
o telefone toca
o telefone toca sem parar
recebo grandes cartas no correio
cartas de ódio e cartas de amor.
tudo voltou a ser o que era antes.
Duas madrugadas depois, às quatro da manhã, alguém bateu à porta.
– Quem é?
– É uma piranha ruiva.
Deixei Tammie entrar. Ela se sentou e eu abri duas cervejas.
– Estou com mau hálito, dois dentes podres. Você não pode me beijar.
– Tudo bem.
Conversamos. Bem, eu ouvi. Tammie estava emboletada. Fiquei escutando e olhando para os seus longos cabelos ruivos e enquanto ela se preocupava eu seguia olhando, olhando também para aquele corpo. Era como se ele fosse saltar para fora das roupas dela, como se implorasse para sair. Ela falava e falava. Não a toquei.
Às seis horas da manhã, Tammie me deu seu endereço e número de telefone.
– Tenho que ir – ela disse.
– Acompanho você até o carro.
Era um Camaro vermelho reluzente, completamente demolido. A parte da frente estava amassada, uma das laterais trazia um furo na lataria, as janelas não tinham mais vidros. Na parte de dentro havia panos e camisas e caixas de Kleenex e jornais e caixas de leite e garrafas de Coca e fios e cordas e guardanapos de papel e revistas e copos de papel e sapatos e canudinhos coloridos. Essa enorme massa de coisas estava empilhada até a altura dos bancos e os cobria por completo. Somente o do motorista tinha uma área mais ou menos livre.
Tammie estendeu a cabeça pela janela e nos beijamos.
Então ela se afastou do meio-fio e quando alcançou a esquina já estava a setenta quilômetros por hora. Ela pisou fundo no freio, e o Camaro deu um tranco, subiu e desceu, subiu e desceu. Voltei para dentro.
Voltei para a cama e fiquei pensando naqueles cabelos. Jamais tinha conhecido uma ruiva de verdade. Era fogo puro.
Como relâmpagos celestiais, pensei.
De algum modo seu rosto já não me parecia tão duro quanto antes...
Tammie apareceu naquela noite. Parecia estar louca de anfetaminas.
– Quero um pouco de champanhe – ela disse.
– Tudo bem – eu disse.
Alcancei-lhe uma nota de vinte.
– Volto logo – ela disse, caminhando até a porta.
Então o telefone tocou. Era Lydia.
– Queria saber apenas como estavam as coisas por aí...
– Está tudo bem.
– Comigo não. Estou grávida.
– O quê?
– E não sei quem é o pai.
– Hein?
– Você conhece o Dutch, o cara que anda ali pelo bar onde estou trabalhando?
– Sim, o velho Carequinha.
– Bem, ele é um cara muito legal. Está apaixonado por mim. Sempre me leva flores e doces. Quer se casar comigo. Tem sido muito bacana. E numa noite dessas eu fui pra casa com ele. A gente transou.
– Certo.
– E tem também o Barney, ele é casado, mas gosto dele. De todos os caras no bar ele é o único que nunca tentou me cantar. Fiquei fascinada com isso. Bem, você sabe, estou tentando vender a minha casa. Então ele apareceu uma tarde dessas. Apenas apareceu. Disse que estava atrás de uma casa para um amigo. Deixei ele entrar. Bem, ele chegou na hora certa. As crianças estavam na escola, bem, deixei que ele fosse em frente... Então certa noite um cara desconhecido chegou no bar, já era tarde. Pediu que eu fosse pra casa com ele. Eu disse não. Então ele disse que só queria ficar sentado no carro comigo, conversar e tal. Eu disse tudo bem. Ficamos lá no carro e conversamos. Então fumamos um baseado. E aí ele me beijou. Se ele não tivesse me beijado não teria rolado nada. Bem, agora estou grávida e não sei de quem. Terei que esperar pra ver com quem a criança se parece.
– Tudo bem, Lydia, toda sorte do mundo pra você.
– Obrigada.
Desliguei. Um minuto se passou e o telefone voltou a tocar. Era Lydia.
– Oh – ela disse –, me pergunto como você está se virando.
– O mesmo de sempre, cavalos e trago.
– Então está tudo bem com você?
– Não exatamente.
– O que está acontecendo?
– Bem, mandei uma mulher buscar champanhe...
– Mulher?
– Bem, na verdade é uma garota...
– Uma garota?
– Dei a ela uma nota de 20 pra comprar champanhe e ela ainda não voltou. Acho que fui enganado.
– Chinaski, não quero ouvir falar das suas mulheres. Será que você consegue entender isso?
– Tudo bem.
Lydia desligou. Soou uma batida na porta. Era Tammie. Ela voltava com o champanhe e o troco.
No dia seguinte, perto do meio-dia, o telefone tocou. Era novamente Lydia.
– Bem, ela voltou com o champanhe?
– Quem?
– A sua piranha.
– Sim, ela voltou...
– Então, o que aconteceu?
– Bebemos champanhe. Era dos bons.
– E então o que aconteceu?
– Bem, você sabe, aquela coisa...
Ouvi um uivo longo e insano, como se uma loba tivesse sido baleada em meio à neve do Ártico e, sangrando, fosse abandonada para morrer sozinha...
Ela desligou.
Dormi a maior parte da tarde e, à noite, dirigi até as corridas de charretes.
Perdi 32 dólares e entrei no fusca e fiz o caminho de volta. Estacionei, caminhei até a varanda e pus a chave na fechadura. Todas as luzes estavam acesas. Olhei em volta. As gavetas estavam abertas e haviam sido viradas, as roupas de cama estavam no chão. Todos os meus livros tinham sumido da prateleira, inclusive aqueles que eu tinha escrito, vinte ou mais. E minha máquina de escrever se foi e minha torradeira se foi e meu rádio se foi e minhas telas se foram.
Lydia, pensei.
Tudo o que ela havia me deixado era a tevê, porque sabia que eu não assistia.
Fui até o lado de fora e lá estava o carro de Lydia, mas ela não.
– Lydia – eu disse. – Ei, baby!
Subi e desci a rua e então avistei seus pés, os dois, despontando atrás de uma árvore junto ao muro de um prédio. Aproximei-me da árvore e disse:
– Escute, que diabos há com você?
Lydia não esboçou reação. Ela carregava duas sacolas cheias com os meus livros e uma pasta com as minhas telas.
– Escute, você precisa me devolver meus livros e minhas telas. Tudo isso me pertence.
Lydia saiu detrás da árvore berrando. Ela pegou as telas de pintura e começou a rasgá-las. Jogou os pedaços para cima e, ao caírem no chão, ela os pisoteou. Estava usando suas botas de vaqueira.
Então pegou meus livros da sacola e começou a jogá-los longe, no meio da rua, no gramado, por toda parte.
– Aqui estão suas pinturas! Aqui estão seus livros! E NÃO ME FALE DAS SUAS MULHERES! NÃO ME FALE DAS SUAS MULHERES!
Então Lydia correu até o meu pátio com um livro na mão, meu último lançamento, Obras escolhidas de Henry Chinaski. Ela gritava:
– Então você quer seus livros de volta? Quer a porra dos seus livros de volta? Aqui estão seus malditos livros! E NÃO ME FALE DAS SUAS MULHERES!
Ela começou a quebrar os vidros da minha porta da frente. Pegou o Obras escolhidas de Henry Chinaski e foi quebrando vidro após vidro, gritando:
– Quer seus livros de volta? Aqui estão seus malditos livros! E NÃO ME FALE DAS SUAS MULHERES! NÃO QUERO OUVIR NADA SOBRE AS SUAS MULHERES!
Fiquei ali parado, enquanto ela gritava e quebrava os vidros.
Onde estava a polícia?, pensei. Onde?
Então Lydia atravessou o pátio, dobrou rapidamente à esquerda ao passar pela lata de lixo e seguiu pela calçada até o prédio ao lado. Atrás de um pequeno arbusto estavam a máquina de escrever, o rádio e a torradeira.
Lydia apanhou a máquina e correu até o meio da rua com ela. Era uma máquina comum e antiga, bastante pesada. Lydia a ergueu com as duas mãos por sobre a cabeça e a jogou de encontro ao pavimento. O cilindro e diversas outras partes voaram longe. Ela voltou a erguer a máquina sobre a cabeça e gritou:
– NÃO ME FALE DAS SUAS MULHERES! – e jogou-a mais uma vez no chão.
Depois disso, Lydia saltou para dentro do carro e se foi.
Quinze segundos mais tarde a polícia apareceu.
– É um fusca laranja. Chama-se a Coisa, parece um tanque. Não me lembro do número da placa, mas as letras são NVA, como NÉVOA, anotou?
– Endereço?
Passei-lhes o endereço...
Evidentemente que eles a trouxeram de volta. Podia ouvi-la urrando no banco de trás, enquanto o carro se aproximava.
– AFASTE-SE! – disse um dos policiais ao sair. Acompanhou-me até minha casa. Entrou e pisou sobre um dos vidros quebrados. Por alguma razão ele direcionou sua lanterna para o teto e para as cornijas.
– O senhor quer dar queixa? – o policial me perguntou.
– Não. Ela tem filhos. Não quero que ela fique sem eles. O ex-marido está tentando ficar com a guarda das crianças. Mas, por favor, diga a ela que as pessoas não podem andar por aí fazendo esse tipo de coisa.
– Ok – ele disse –, agora assine aqui.
Escreveu à mão num pequeno caderno pautado. Dizia que eu, Henry Chinaski, não daria queixa contra Lydia Vance.
Assinei e ele se foi.
Passei a chave no que me restara de porta e fui para a cama e tentei dormir.
Mais ou menos uma hora depois, o telefone tocou. Era Lydia. Ela já estava em casa.
– SEU Filho da puta, SE VOCÊ VOLTAR A FALAR DAS SUAS MULHERES DE NOVO PRA MIM EU VOU ATÉ AÍ E QUEBRO TUDO DE NOVO!
Ela desligou.
Duas noites mais tarde, fui até a casa de Tammie em Rustic Court. Bati. As luzes estavam acesas. Parecia vazia. Olhei na sua caixa de correio. Havia cartas ali dentro. Escrevi um bilhete: “Tammie, tenho telefonado para você. Vim até aqui e você não estava. Está tudo bem com você? Me liga... Hank.”
Voltei no dia seguinte às onze da manhã. Seu carro não estava ali na frente. Meu bilhete continuava enfiado na porta. Mesmo assim toquei a campainha. As cartas continuavam na caixa de correio. Deixei um bilhete ali: “Tammie, onde diabos você está? Entre em contato comigo... Hank.”
Dei uma volta pela vizinhança em busca daquele Camaro vermelho todo detonado.
Retornei naquela noite. Chovia. Meus bilhetes estavam molhados. Havia mais cartas na caixa. Deixei-lhe um dos meus livros de poesia, com uma dedicatória. Então voltei para meu fusca. Tinha uma cruz de malta pendurada no meu retrovisor. Arranquei a cruz, voltei à casa dela e a amarrei ao redor da maçaneta.
Não sabia onde morava nenhuma de suas amigas, onde sua mãe morava, onde seus amantes moravam.
Voltei pra casa e escrevi alguns poemas de amor.
– Mulheres
1 676
Charles Bukowski
Um Rádio Corajoso
no segundo andar da Coronado Street
eu costumava encher a cara
e jogar o rádio pela janela
sem que ele parasse de tocar e, claro,
a vidraça se partia
e o rádio acabava alojado sobre as telhas
ainda ligado
e eu dizia para minha mulher,
“Ah, que rádio maravilhoso!”
na manha seguinte eu tirava a janela
do esquadro
e levava-a rua abaixo
até o vidraceiro
que fazia a troca necessária.
seguia jogando o rádio pela janela
cada vez que ficava bêbado
e lá ficava ele sobre o telhado
ainda tocando –
um rádio mágico
um rádio corajoso,
e a cada manhã eu levava a janela
outra vez ao vidraceiro.
não lembro bem como tudo isso terminou
embora me lembre de que
finalmente nos mudamos.
havia uma mulher no andar de baixo que trabalhava no
jardim vestindo um traje de banho
e seu marido reclamava que não podia dormir à noite
por minha causa
por isso nos mudamos
e no lugar seguinte
ou me esqueci de jogar o rádio pela janela
ou apenas perdi a vontade de
jogá-lo.
lembro sim de sentir falta da mulher que trabalhava no
jardim em trajes de banho,
ela realmente mandava ver com aquela pazinha
e ela erguia o rabo bem alto no ar
e eu costumava sentar à janela
para acompanhar o sol brilhar naquelas carnes
enquanto a música tocava.
eu costumava encher a cara
e jogar o rádio pela janela
sem que ele parasse de tocar e, claro,
a vidraça se partia
e o rádio acabava alojado sobre as telhas
ainda ligado
e eu dizia para minha mulher,
“Ah, que rádio maravilhoso!”
na manha seguinte eu tirava a janela
do esquadro
e levava-a rua abaixo
até o vidraceiro
que fazia a troca necessária.
seguia jogando o rádio pela janela
cada vez que ficava bêbado
e lá ficava ele sobre o telhado
ainda tocando –
um rádio mágico
um rádio corajoso,
e a cada manhã eu levava a janela
outra vez ao vidraceiro.
não lembro bem como tudo isso terminou
embora me lembre de que
finalmente nos mudamos.
havia uma mulher no andar de baixo que trabalhava no
jardim vestindo um traje de banho
e seu marido reclamava que não podia dormir à noite
por minha causa
por isso nos mudamos
e no lugar seguinte
ou me esqueci de jogar o rádio pela janela
ou apenas perdi a vontade de
jogá-lo.
lembro sim de sentir falta da mulher que trabalhava no
jardim em trajes de banho,
ela realmente mandava ver com aquela pazinha
e ela erguia o rabo bem alto no ar
e eu costumava sentar à janela
para acompanhar o sol brilhar naquelas carnes
enquanto a música tocava.
1 087
Charles Bukowski
Um Rádio Corajoso
no segundo andar da Coronado Street
eu costumava encher a cara
e jogar o rádio pela janela
sem que ele parasse de tocar e, claro,
a vidraça se partia
e o rádio acabava alojado sobre as telhas
ainda ligado
e eu dizia para minha mulher,
“Ah, que rádio maravilhoso!”
na manha seguinte eu tirava a janela
do esquadro
e levava-a rua abaixo
até o vidraceiro
que fazia a troca necessária.
seguia jogando o rádio pela janela
cada vez que ficava bêbado
e lá ficava ele sobre o telhado
ainda tocando –
um rádio mágico
um rádio corajoso,
e a cada manhã eu levava a janela
outra vez ao vidraceiro.
não lembro bem como tudo isso terminou
embora me lembre de que
finalmente nos mudamos.
havia uma mulher no andar de baixo que trabalhava no
jardim vestindo um traje de banho
e seu marido reclamava que não podia dormir à noite
por minha causa
por isso nos mudamos
e no lugar seguinte
ou me esqueci de jogar o rádio pela janela
ou apenas perdi a vontade de
jogá-lo.
lembro sim de sentir falta da mulher que trabalhava no
jardim em trajes de banho,
ela realmente mandava ver com aquela pazinha
e ela erguia o rabo bem alto no ar
e eu costumava sentar à janela
para acompanhar o sol brilhar naquelas carnes
enquanto a música tocava.
eu costumava encher a cara
e jogar o rádio pela janela
sem que ele parasse de tocar e, claro,
a vidraça se partia
e o rádio acabava alojado sobre as telhas
ainda ligado
e eu dizia para minha mulher,
“Ah, que rádio maravilhoso!”
na manha seguinte eu tirava a janela
do esquadro
e levava-a rua abaixo
até o vidraceiro
que fazia a troca necessária.
seguia jogando o rádio pela janela
cada vez que ficava bêbado
e lá ficava ele sobre o telhado
ainda tocando –
um rádio mágico
um rádio corajoso,
e a cada manhã eu levava a janela
outra vez ao vidraceiro.
não lembro bem como tudo isso terminou
embora me lembre de que
finalmente nos mudamos.
havia uma mulher no andar de baixo que trabalhava no
jardim vestindo um traje de banho
e seu marido reclamava que não podia dormir à noite
por minha causa
por isso nos mudamos
e no lugar seguinte
ou me esqueci de jogar o rádio pela janela
ou apenas perdi a vontade de
jogá-lo.
lembro sim de sentir falta da mulher que trabalhava no
jardim em trajes de banho,
ela realmente mandava ver com aquela pazinha
e ela erguia o rabo bem alto no ar
e eu costumava sentar à janela
para acompanhar o sol brilhar naquelas carnes
enquanto a música tocava.
1 087
Charles Bukowski
Consumação do Pesar
ainda escuto as montanhas
o modo como elas riem
de cima a baixo por seus perfis azuis
e mergulhando na água
os peixes lamentam
e toda a água
é fruto de suas lágrimas.
escuto as águas
nas noites de bebedeira
e a tristeza é tanta que posso
ouvi-la em meu relógio
transforma-se nos puxadores da minha cômoda
transforma-se no papel sobre o chão
transforma-se numa calçadeira
no bilhete da lavanderia
transforma-se
na fumaça do cigarro
escalando uma capela de videiras negras...
pouco importa
um pouquinho só de amor não é tão mal assim
ou um pouquinho só de vida
o que realmente importa
é esperar entre paredes
eu nasci para isso
nasci para arrastar rosas pelas avenidas da morte.
Minha mãe gritou ao abrir a porta.
– Filho, é você, filho?
– Preciso dormir um pouco.
– Sua cama está sempre pronta.
Segui até o quarto, me despi e deitei na cama. Fui acordado por volta das seis da tarde pela minha mãe.
– Seu pai está em casa.
Levantei-me e comecei a me vestir. O jantar estava servido quando entrei na sala.
Meu pai era um homem grande, mais alto do que eu, e tinha os olhos castanhos. Os meus eram verdes. Seu nariz era largo demais e não havia como não reparar em suas orelhas: pareciam prestes a fugir de sua cabeça.
– Escute – ele disse –, se você quiser ficar por aqui, vou lhe cobrar pelo quarto, pela comida e mais o serviço de lavanderia. Quando você arranjar um trabalho, o que você nos deve será subtraído de seu salário até que sua dívida conosco esteja encerrada.
Comemos em silêncio.
Minha dívida com quarto, comida, roupa lavada etc. já estava tão alta que foram precisos vários salários para liquidá-la. Assim que isso aconteceu, me mudei de imediato. Eu não tinha condições de pagar os preços praticados lá em casa. Encontrei uma pensão próxima ao trabalho. Fazer a mudança não era difícil. Minhas coisas não enchiam nem a metade de uma mala...
Mama Strader era minha senhoria, uma ruiva apagada de boa aparência, muitos dentes de ouro e um namorado velhusco. Chamou-me na cozinha, logo na primeira manhã, e disse que me daria um copo de uísque se eu fosse lá fora alimentar as galinhas. Depois de cumprir a missão, sentei-me para beber com Mama e seu namorado, Al. Estava uma hora atrasado para o trabalho.
Na segunda noite, houve uma batida na minha porta. Era uma gorda já entrada nos quarenta. Trazia uma garrafa de vinho.
– Moro num quarto do outro lado do corredor, me chamo Martha. Você está sempre escutando boa música. Pensei em lhe trazer uma bebida.
Martha entrou. Vestia uma espécie de bata verde e, depois de alguns copos de vinho, começou a me mostrar suas pernas.
– Tenho pernas legais.
– Sou vidrado em pernas.
– Olhe mais pra cima.
Suas pernas eram muito brancas, gorduchas, flácidas, com veias roxas e protuberantes. Martha me contou sua história.
Era uma prostituta. Tinha percorrido todo o circuito dos bares. Sua principal fonte de renda era o dono de uma loja de departamentos.
– Ele me dá dinheiro. Vou até a loja dele e levo tudo o que quero. Os vendedores não me incomodam. Ele disse pra me deixarem em paz. Ele não quer que a mulher saiba que eu trepo muito melhor do que ela.
Martha se levantou e ligou o rádio. Alto.
– Sou uma ótima dançarina – ela disse. – Veja como eu danço!
Ela girava dentro daquela barraca verde, dando chutes no ar. Estava longe de ser o que alardeava. Logo a bata passava da linha de sua cintura, e ela começou a balançar a bunda bem junto ao meu rosto. A calcinha rosa tinha um enorme furo sobre o glúteo direito. Então a bata já era, e ela ficou só de calcinha. Logo todas as suas vestes estavam no chão, e ela seguiu com o número. Seus pelos pubianos quase desapareciam debaixo da barriga frouxa, que não parava de balançar.
O suor fazia com que sua maquiagem escorresse. Subitamente seus olhos se estreitaram. Eu estava sentado na beirada da cama. Ela se jogou sobre mim antes que eu pudesse reagir. Sua boca já aberta foi pressionada contra a minha. Tinha gosto de cuspe e cebolas e vinho barato e (imaginei) dos espermas de quatrocentos homens. Enfiou sua língua na minha boca. Estava grossa pela quantidade de saliva, o que me fez engasgar e empurrá-la para longe. Ela se pôs de joelhos, baixou meu zíper, e em um segundo meu pau frouxo estava em sua boca. Ela chupou e bateu. Martha usava uma pequena fita amarela em seu cabelo grisalho e curto. Tinha verrugas e grandes pintas marrons no pescoço e nas bochechas.
Meu pênis subiu; ela gemeu e me deu uma mordida. Gritei, segurei-a pelos cabelos e a afastei. Fiquei de pé no centro do quarto, aterrorizado e ferido. Tocavam uma sinfonia do Mahler no rádio. Antes que eu pudesse me mover, ela estava novamente de joelhos. Agarrou minhas bolas sem qualquer piedade com as duas mãos. Sua boca se abriu, ela me tomou; sua cabeça ia e vinha, chupando, masturbando. Ela me obrigou a deitar no chão, dando um tremendo puxão no meu saco, quase partindo meu pau ao meio com os dentes. Os sons da chupada enchiam o quarto, enquanto o rádio tocava Mahler. Era como se eu estivesse sendo devorado por um animal impiedoso. Meu pau endureceu, coberto de cuspe e sangue. A visão daquilo a enlouqueceu. Era como ser devorado vivo.
Se eu gozar, pensei em desespero, jamais me perdoarei.
Quando consegui dar um jeito de agarrar seus cabelos para afastá-la, ela apertou novamente minhas bolas e as esmagou sem pena. Seus dentes cravaram na metade do meu pau como se quisessem, feito uma tesoura, parti-lo ao meio. Gritei, soltei-lhe o cabelo, deitei no chão. Sua cabeça seguia em ação, sem qualquer remorso. Tinha certeza de que essa chupada podia ser ouvida ao longo de toda a pensão.
– NÃO! – gritei.
Ela prosseguiu com uma fúria inumana. Comecei a gozar. Era como sugar o interior de uma serpente que estivesse presa. Sua fúria mesclava-se à loucura; ela engoliu todo o esperma, fazendo-o gorgolejar em sua garganta. Ela continuou masturbando e chupando.
– Martha! Chega! Acabou!
Ela não iria parar. Era como se tivesse se transformado numa enorme boca, capaz de devorar tudo. Continuou chupando e masturbando. Seguiu e seguiu.
– NÃO! – gritei novamente.
Desta vez ela bebeu como se fosse uma batida de baunilha, de canudinho.
Desfaleci. Ela se ergueu e começou a se vestir. Cantou:
“When a New York baby says goodnight
it’s early in the morning
goodnight, sweetheart
it’s early in the morning
goodnight, sweetheart
milkman’s on his way home…”[8]
Com esforço fiquei de pé, agarrando-me aos bolsos da minha calça em busca da carteira. Saquei uma nota de US$ 5, passei a ela. Pegou a nota e enfiou-a entre os seios, pela parte frontal do vestido, deu mais uma agarrada, bem faceira, nas minhas bolas, apertou-as, soltou e seguiu bailando quarto afora.
Trabalhei o tempo necessário para juntar o dinheiro para comprar uma passagem para outro lugar qualquer, mais uns poucos dólares para as despesas iniciais. Larguei o emprego, peguei o mapa dos Estados Unidos e dei uma olhada. Decidi-me por Nova York.
Coloquei cinco garrafas de uísque dentro da mala que levei comigo no ônibus. Toda vez que alguém sentava ao meu lado e começava a falar, eu puxava uma das garrafas e dava um longo trago. Cheguei lá.
A rodoviária de Nova York ficava próxima a Times Square. Ganhei a rua com minha velha mala. Anoitecia. As pessoas saíam em grandes enxames das estações do metrô. Como insetos, sem rostos, dementes, elas se lançavam sobre mim, me cercavam, em grande intensidade. Batiam-se e se empurravam, faziam sons terríveis.
Busquei refúgio no vão de uma porta e terminei a última das garrafas.
Então segui em frente, empurrando, acotovelando, até avistar um sinal de “há vagas” na Terceira Avenida. A gerente era uma velha senhora judia.
– Preciso de um quarto – disse-lhe.
– Precisa de um bom terno, meu garoto.
– Estou falido.
– É um terno dos bons, uma pechincha. Meu marido toca a alfaiataria do outro lado da rua. Venha comigo.
Paguei por meu quarto, levei a mala para o andar de cima. Depois a acompanhei até o outro lado da rua.
– Herman, mostre o terno ao garoto.
– Ah, é um ótimo terno.
Herman o trouxe lá de dentro; era azul-marinho, um pouco gasto.
– Parece muito pequeno.
– Não, não, vai servir direitinho.
Saiu de trás do balcão com o terno.
– Aqui. Experimente o paletó.
Herman me ajudou a vesti-lo.
– Viu só? Serve... Quer provar a calça?
Segurou-a na minha frente. Ia da minha cintura aos dedos do pé.
– Parece bem.
– Dez dólares.
– Estou falido.
– Sete dólares.
Dei a Herman os sete dólares, levei o terno para o meu quarto, escada acima. Saí atrás de uma garrafa de vinho. Ao voltar, tranquei a porta, tirei a roupa, preparava-me para a primeira noite verdadeira de sono em um bom tempo.
Deitei na cama, abri a garrafa, dobrei o travesseiro nas costas para ter um bom apoio, respirei fundo e sentei na escuridão olhando a janela. Era a primeira vez que eu estava sozinho em cinco dias. Eu era um homem que se fortalecia na solidão; ela era para mim a comida e a água dos outros homens. Cada dia sem solidão me enfraquecia. Não que me orgulhasse dela, mas dela eu dependia. A escuridão do quarto era como um dia ensolarado para mim. Tomei um gole de vinho.
Subitamente o quarto se encheu de luz. Houve um estrépito e um rugido. A linha elevada do trem passava ao nível da minha janela. Havia uma estação do metrô ali. Olhei para a fila de rostos nova-iorquinos, que me olharam de volta. O trem se demorou e, então, partiu. O quarto ficou escuro. Logo voltou a se encher de luz. Outra vez olhei para os rostos. Era como uma visão do inferno constantemente repetida. Cada novo carregamento de rostos era mais feio, demente e cruel que o anterior. Bebi o vinho.
Aquilo continuou: escuridão, depois luz; luz, depois escuridão. Terminei a garrafa e fui em busca de mais. Voltei, tirei a roupa, retornei para a cama. As partidas e chegadas dos rostos continuavam; era como se eu estivesse tendo uma visão. Eu era visitado por centenas de demônios que o diabo em pessoa não podia tolerar. Bebi mais vinho.
Finalmente me levantei e peguei meu terno novo no armário. Vesti o paletó. Estava apertado. Parecia menor do que quando o experimentei na alfaiataria. De repente, o tecido se rasgou. O paletó abrira completamente no meio das costas. Joguei o que restara fora. Ainda tinha a calça. Enfiei as pernas. Havia botões na frente em vez de zíper. Ao tentar abotoá-los, a costura abriu nos fundilhos. Passei minha mão atrás e senti minhas cuecas.
Durante quatro ou cinco dias, caminhei a esmo. Depois me embebedei por dois dias seguidos. Mudei do meu quarto e fui para o Greenwich Village. Certo dia, li na coluna de Walter Winchell[9] que O. Henry costumava escrever todos os seus textos na mesa de um famoso bar de escritores. Encontrei o bar e fui procurar pelo que mesmo?
Era meio-dia. Eu era o único cliente, apesar da coluna de Winchell. Fiquei ali plantado, sozinho, na frente de um enorme espelho, do bar e do atendente.
– Sinto muito, senhor, não podemos servi-lo.
Fiquei chocado, incapaz de responder. Esperei por uma explicação.
– O senhor está bêbado.
Era possível que estivesse embriagado, mas eu não bebia uma gota de álcool havia doze horas. Resmunguei alguma coisa sobre O. Henry e fui embora.
Parecia uma loja abandonada. Havia um cartaz na janela: Precisa-se de ajudante. Entrei. Um homem com um bigodinho fino me sorriu.
– Sente-se.
Deu-me uma caneta e uma ficha de inscrição, que preenchi.
– Ah? Faculdade?
– Não exatamente.
– Estamos no ramo da publicidade.
– É?
– Não está interessado?
– Bem, veja você, eu andava envolvido com pintura. Um pintor, entende? Fiquei sem dinheiro. Não conseguia vender o material.
– Chegam aqui vários desses.
– Também não gosto dos tipos.
– Alegre-se. Talvez você fique famoso depois da morte.
Seguiu falando que o trabalho acarretava, para começo de conversa, fazer o turno da noite, mas que sempre se podia ascender na carreira.
Eu lhe disse que gostava do turno da noite. Ele me disse que eu podia começar no metrô.
Dois caras mais velhos esperavam por mim. Encontrei-os dentro do metrô, onde os vagões estavam estacionados. Deram-me uma braçada de pôsteres e um pequeno instrumento de metal que parecia um abridor de latas. Subimos todos em um dos vagões estacionados.
– Veja como eu faço – disse um dos caras mais velhos.
Subiu em cima dos assentos sujos, arrancando os velhos pôsteres com seu abridor de latas ao longo do percurso. Então é assim que esses negócios vão parar ali, pensei. As pessoas os colocam ali.
Cada pôster era preso por duas tiras de metal que precisavam ser removidas para que um novo pudesse ser colocado. As tiras eram presas com molas e curvas para se encaixarem no contorno da parede.
Deixaram que eu tentasse. As tiras de metal resistiram aos meus esforços. Não iriam se mover. As pontas afiadas cortavam minhas mãos enquanto eu trabalhava. Comecei a sangrar. Para cada pôster retirado, era preciso colocar outro no lugar. Cada troca levava uma eternidade. Parecia uma atividade sem fim.
– Há besouros por toda Nova York – disse um dos caras mais velhos depois de um tempo.
– É mesmo?
– Sim. Você é novo em Nova York?
– Sim.
– Não sabe que todas as pessoas em Nova York sofrem com esses besouros?
– Não.
– Sim. A mulher quis trepar comigo na noite passada. Eu disse, “Não, baby, não vai rolar”.
– É?
– É. Disse pra ela que faria a coisa por cinco pratas. Porque é preciso umas cinco pratas em carne pra repor a porra que eu gastaria.
– Ela lhe deu as cinco pratas?
– Que nada. Ofereceu-me uma lata de sopa Campbell’s de cogumelo.
Seguimos com o trabalho até chegarmos ao fim do vagão. Os dois homens saíram pela traseira e caminharam em direção ao próximo carro do metrô, que estava estacionado a cerca de quinze metros de distância. Estávamos a uns bons dez metros acima do chão, com nada além dos trilhos para caminhar. Vi que não seria nada difícil para um corpo passar por entre os vãos e cair lá embaixo.
Saí do vagão e comecei a avançar lentamente em direção ao próximo, cuidando onde pisava, o abridor de latas numa mão e os pôsteres na outra. Um metrô cheio de passageiros partiu, as luzes iluminando o caminho.
O veículo se foi, deixando-me na escuridão total. Não conseguia sequer ver os trilhos e as vigas horizontais. Esperei.
Os dois caras mais velhos gritaram lá do outro vagão:
– Vamos! Depressa! Temos muito trabalho pela frente!
– Esperem! Não vejo nada!
– Não temos nenhuma lanterna!
Meus olhos começavam a se adaptar. Avancei lentamente, passo a passo. Assim que entrei no outro carro, coloquei os pôsteres sobre o chão e me sentei. Minhas pernas estavam bambas.
– Qual é o problema?
– Não sei.
– O que é?
– Um homem pode morrer nesse negócio.
– Ninguém nunca caiu.
– Senti que podia ser o primeiro.
– Tudo está na cabeça.
– Eu sei. Como faço pra dar o fora daqui?
– Há uma escada para aqueles lados. Mas você terá que cruzar várias vias, além de cuidar os trens em movimento.
– Sim.
– E não pise no terceiro trilho.
– O que é isso?
– É o condutor de força. É um trilho dourado. Parece feito de ouro. Você vai ver.
Desci para a pista e comecei a caminhar. Os dois caras mais velhos ficaram me olhando. Ali estava o trilho dourado. Passei dando o passo mais largo que pude sobre ele.
Então cheguei à escada. Meio caindo, meio correndo, venci os degraus. Havia um bar do outro lado da rua.
– Factótum
o modo como elas riem
de cima a baixo por seus perfis azuis
e mergulhando na água
os peixes lamentam
e toda a água
é fruto de suas lágrimas.
escuto as águas
nas noites de bebedeira
e a tristeza é tanta que posso
ouvi-la em meu relógio
transforma-se nos puxadores da minha cômoda
transforma-se no papel sobre o chão
transforma-se numa calçadeira
no bilhete da lavanderia
transforma-se
na fumaça do cigarro
escalando uma capela de videiras negras...
pouco importa
um pouquinho só de amor não é tão mal assim
ou um pouquinho só de vida
o que realmente importa
é esperar entre paredes
eu nasci para isso
nasci para arrastar rosas pelas avenidas da morte.
Minha mãe gritou ao abrir a porta.
– Filho, é você, filho?
– Preciso dormir um pouco.
– Sua cama está sempre pronta.
Segui até o quarto, me despi e deitei na cama. Fui acordado por volta das seis da tarde pela minha mãe.
– Seu pai está em casa.
Levantei-me e comecei a me vestir. O jantar estava servido quando entrei na sala.
Meu pai era um homem grande, mais alto do que eu, e tinha os olhos castanhos. Os meus eram verdes. Seu nariz era largo demais e não havia como não reparar em suas orelhas: pareciam prestes a fugir de sua cabeça.
– Escute – ele disse –, se você quiser ficar por aqui, vou lhe cobrar pelo quarto, pela comida e mais o serviço de lavanderia. Quando você arranjar um trabalho, o que você nos deve será subtraído de seu salário até que sua dívida conosco esteja encerrada.
Comemos em silêncio.
Minha dívida com quarto, comida, roupa lavada etc. já estava tão alta que foram precisos vários salários para liquidá-la. Assim que isso aconteceu, me mudei de imediato. Eu não tinha condições de pagar os preços praticados lá em casa. Encontrei uma pensão próxima ao trabalho. Fazer a mudança não era difícil. Minhas coisas não enchiam nem a metade de uma mala...
Mama Strader era minha senhoria, uma ruiva apagada de boa aparência, muitos dentes de ouro e um namorado velhusco. Chamou-me na cozinha, logo na primeira manhã, e disse que me daria um copo de uísque se eu fosse lá fora alimentar as galinhas. Depois de cumprir a missão, sentei-me para beber com Mama e seu namorado, Al. Estava uma hora atrasado para o trabalho.
Na segunda noite, houve uma batida na minha porta. Era uma gorda já entrada nos quarenta. Trazia uma garrafa de vinho.
– Moro num quarto do outro lado do corredor, me chamo Martha. Você está sempre escutando boa música. Pensei em lhe trazer uma bebida.
Martha entrou. Vestia uma espécie de bata verde e, depois de alguns copos de vinho, começou a me mostrar suas pernas.
– Tenho pernas legais.
– Sou vidrado em pernas.
– Olhe mais pra cima.
Suas pernas eram muito brancas, gorduchas, flácidas, com veias roxas e protuberantes. Martha me contou sua história.
Era uma prostituta. Tinha percorrido todo o circuito dos bares. Sua principal fonte de renda era o dono de uma loja de departamentos.
– Ele me dá dinheiro. Vou até a loja dele e levo tudo o que quero. Os vendedores não me incomodam. Ele disse pra me deixarem em paz. Ele não quer que a mulher saiba que eu trepo muito melhor do que ela.
Martha se levantou e ligou o rádio. Alto.
– Sou uma ótima dançarina – ela disse. – Veja como eu danço!
Ela girava dentro daquela barraca verde, dando chutes no ar. Estava longe de ser o que alardeava. Logo a bata passava da linha de sua cintura, e ela começou a balançar a bunda bem junto ao meu rosto. A calcinha rosa tinha um enorme furo sobre o glúteo direito. Então a bata já era, e ela ficou só de calcinha. Logo todas as suas vestes estavam no chão, e ela seguiu com o número. Seus pelos pubianos quase desapareciam debaixo da barriga frouxa, que não parava de balançar.
O suor fazia com que sua maquiagem escorresse. Subitamente seus olhos se estreitaram. Eu estava sentado na beirada da cama. Ela se jogou sobre mim antes que eu pudesse reagir. Sua boca já aberta foi pressionada contra a minha. Tinha gosto de cuspe e cebolas e vinho barato e (imaginei) dos espermas de quatrocentos homens. Enfiou sua língua na minha boca. Estava grossa pela quantidade de saliva, o que me fez engasgar e empurrá-la para longe. Ela se pôs de joelhos, baixou meu zíper, e em um segundo meu pau frouxo estava em sua boca. Ela chupou e bateu. Martha usava uma pequena fita amarela em seu cabelo grisalho e curto. Tinha verrugas e grandes pintas marrons no pescoço e nas bochechas.
Meu pênis subiu; ela gemeu e me deu uma mordida. Gritei, segurei-a pelos cabelos e a afastei. Fiquei de pé no centro do quarto, aterrorizado e ferido. Tocavam uma sinfonia do Mahler no rádio. Antes que eu pudesse me mover, ela estava novamente de joelhos. Agarrou minhas bolas sem qualquer piedade com as duas mãos. Sua boca se abriu, ela me tomou; sua cabeça ia e vinha, chupando, masturbando. Ela me obrigou a deitar no chão, dando um tremendo puxão no meu saco, quase partindo meu pau ao meio com os dentes. Os sons da chupada enchiam o quarto, enquanto o rádio tocava Mahler. Era como se eu estivesse sendo devorado por um animal impiedoso. Meu pau endureceu, coberto de cuspe e sangue. A visão daquilo a enlouqueceu. Era como ser devorado vivo.
Se eu gozar, pensei em desespero, jamais me perdoarei.
Quando consegui dar um jeito de agarrar seus cabelos para afastá-la, ela apertou novamente minhas bolas e as esmagou sem pena. Seus dentes cravaram na metade do meu pau como se quisessem, feito uma tesoura, parti-lo ao meio. Gritei, soltei-lhe o cabelo, deitei no chão. Sua cabeça seguia em ação, sem qualquer remorso. Tinha certeza de que essa chupada podia ser ouvida ao longo de toda a pensão.
– NÃO! – gritei.
Ela prosseguiu com uma fúria inumana. Comecei a gozar. Era como sugar o interior de uma serpente que estivesse presa. Sua fúria mesclava-se à loucura; ela engoliu todo o esperma, fazendo-o gorgolejar em sua garganta. Ela continuou masturbando e chupando.
– Martha! Chega! Acabou!
Ela não iria parar. Era como se tivesse se transformado numa enorme boca, capaz de devorar tudo. Continuou chupando e masturbando. Seguiu e seguiu.
– NÃO! – gritei novamente.
Desta vez ela bebeu como se fosse uma batida de baunilha, de canudinho.
Desfaleci. Ela se ergueu e começou a se vestir. Cantou:
“When a New York baby says goodnight
it’s early in the morning
goodnight, sweetheart
it’s early in the morning
goodnight, sweetheart
milkman’s on his way home…”[8]
Com esforço fiquei de pé, agarrando-me aos bolsos da minha calça em busca da carteira. Saquei uma nota de US$ 5, passei a ela. Pegou a nota e enfiou-a entre os seios, pela parte frontal do vestido, deu mais uma agarrada, bem faceira, nas minhas bolas, apertou-as, soltou e seguiu bailando quarto afora.
Trabalhei o tempo necessário para juntar o dinheiro para comprar uma passagem para outro lugar qualquer, mais uns poucos dólares para as despesas iniciais. Larguei o emprego, peguei o mapa dos Estados Unidos e dei uma olhada. Decidi-me por Nova York.
Coloquei cinco garrafas de uísque dentro da mala que levei comigo no ônibus. Toda vez que alguém sentava ao meu lado e começava a falar, eu puxava uma das garrafas e dava um longo trago. Cheguei lá.
A rodoviária de Nova York ficava próxima a Times Square. Ganhei a rua com minha velha mala. Anoitecia. As pessoas saíam em grandes enxames das estações do metrô. Como insetos, sem rostos, dementes, elas se lançavam sobre mim, me cercavam, em grande intensidade. Batiam-se e se empurravam, faziam sons terríveis.
Busquei refúgio no vão de uma porta e terminei a última das garrafas.
Então segui em frente, empurrando, acotovelando, até avistar um sinal de “há vagas” na Terceira Avenida. A gerente era uma velha senhora judia.
– Preciso de um quarto – disse-lhe.
– Precisa de um bom terno, meu garoto.
– Estou falido.
– É um terno dos bons, uma pechincha. Meu marido toca a alfaiataria do outro lado da rua. Venha comigo.
Paguei por meu quarto, levei a mala para o andar de cima. Depois a acompanhei até o outro lado da rua.
– Herman, mostre o terno ao garoto.
– Ah, é um ótimo terno.
Herman o trouxe lá de dentro; era azul-marinho, um pouco gasto.
– Parece muito pequeno.
– Não, não, vai servir direitinho.
Saiu de trás do balcão com o terno.
– Aqui. Experimente o paletó.
Herman me ajudou a vesti-lo.
– Viu só? Serve... Quer provar a calça?
Segurou-a na minha frente. Ia da minha cintura aos dedos do pé.
– Parece bem.
– Dez dólares.
– Estou falido.
– Sete dólares.
Dei a Herman os sete dólares, levei o terno para o meu quarto, escada acima. Saí atrás de uma garrafa de vinho. Ao voltar, tranquei a porta, tirei a roupa, preparava-me para a primeira noite verdadeira de sono em um bom tempo.
Deitei na cama, abri a garrafa, dobrei o travesseiro nas costas para ter um bom apoio, respirei fundo e sentei na escuridão olhando a janela. Era a primeira vez que eu estava sozinho em cinco dias. Eu era um homem que se fortalecia na solidão; ela era para mim a comida e a água dos outros homens. Cada dia sem solidão me enfraquecia. Não que me orgulhasse dela, mas dela eu dependia. A escuridão do quarto era como um dia ensolarado para mim. Tomei um gole de vinho.
Subitamente o quarto se encheu de luz. Houve um estrépito e um rugido. A linha elevada do trem passava ao nível da minha janela. Havia uma estação do metrô ali. Olhei para a fila de rostos nova-iorquinos, que me olharam de volta. O trem se demorou e, então, partiu. O quarto ficou escuro. Logo voltou a se encher de luz. Outra vez olhei para os rostos. Era como uma visão do inferno constantemente repetida. Cada novo carregamento de rostos era mais feio, demente e cruel que o anterior. Bebi o vinho.
Aquilo continuou: escuridão, depois luz; luz, depois escuridão. Terminei a garrafa e fui em busca de mais. Voltei, tirei a roupa, retornei para a cama. As partidas e chegadas dos rostos continuavam; era como se eu estivesse tendo uma visão. Eu era visitado por centenas de demônios que o diabo em pessoa não podia tolerar. Bebi mais vinho.
Finalmente me levantei e peguei meu terno novo no armário. Vesti o paletó. Estava apertado. Parecia menor do que quando o experimentei na alfaiataria. De repente, o tecido se rasgou. O paletó abrira completamente no meio das costas. Joguei o que restara fora. Ainda tinha a calça. Enfiei as pernas. Havia botões na frente em vez de zíper. Ao tentar abotoá-los, a costura abriu nos fundilhos. Passei minha mão atrás e senti minhas cuecas.
Durante quatro ou cinco dias, caminhei a esmo. Depois me embebedei por dois dias seguidos. Mudei do meu quarto e fui para o Greenwich Village. Certo dia, li na coluna de Walter Winchell[9] que O. Henry costumava escrever todos os seus textos na mesa de um famoso bar de escritores. Encontrei o bar e fui procurar pelo que mesmo?
Era meio-dia. Eu era o único cliente, apesar da coluna de Winchell. Fiquei ali plantado, sozinho, na frente de um enorme espelho, do bar e do atendente.
– Sinto muito, senhor, não podemos servi-lo.
Fiquei chocado, incapaz de responder. Esperei por uma explicação.
– O senhor está bêbado.
Era possível que estivesse embriagado, mas eu não bebia uma gota de álcool havia doze horas. Resmunguei alguma coisa sobre O. Henry e fui embora.
Parecia uma loja abandonada. Havia um cartaz na janela: Precisa-se de ajudante. Entrei. Um homem com um bigodinho fino me sorriu.
– Sente-se.
Deu-me uma caneta e uma ficha de inscrição, que preenchi.
– Ah? Faculdade?
– Não exatamente.
– Estamos no ramo da publicidade.
– É?
– Não está interessado?
– Bem, veja você, eu andava envolvido com pintura. Um pintor, entende? Fiquei sem dinheiro. Não conseguia vender o material.
– Chegam aqui vários desses.
– Também não gosto dos tipos.
– Alegre-se. Talvez você fique famoso depois da morte.
Seguiu falando que o trabalho acarretava, para começo de conversa, fazer o turno da noite, mas que sempre se podia ascender na carreira.
Eu lhe disse que gostava do turno da noite. Ele me disse que eu podia começar no metrô.
Dois caras mais velhos esperavam por mim. Encontrei-os dentro do metrô, onde os vagões estavam estacionados. Deram-me uma braçada de pôsteres e um pequeno instrumento de metal que parecia um abridor de latas. Subimos todos em um dos vagões estacionados.
– Veja como eu faço – disse um dos caras mais velhos.
Subiu em cima dos assentos sujos, arrancando os velhos pôsteres com seu abridor de latas ao longo do percurso. Então é assim que esses negócios vão parar ali, pensei. As pessoas os colocam ali.
Cada pôster era preso por duas tiras de metal que precisavam ser removidas para que um novo pudesse ser colocado. As tiras eram presas com molas e curvas para se encaixarem no contorno da parede.
Deixaram que eu tentasse. As tiras de metal resistiram aos meus esforços. Não iriam se mover. As pontas afiadas cortavam minhas mãos enquanto eu trabalhava. Comecei a sangrar. Para cada pôster retirado, era preciso colocar outro no lugar. Cada troca levava uma eternidade. Parecia uma atividade sem fim.
– Há besouros por toda Nova York – disse um dos caras mais velhos depois de um tempo.
– É mesmo?
– Sim. Você é novo em Nova York?
– Sim.
– Não sabe que todas as pessoas em Nova York sofrem com esses besouros?
– Não.
– Sim. A mulher quis trepar comigo na noite passada. Eu disse, “Não, baby, não vai rolar”.
– É?
– É. Disse pra ela que faria a coisa por cinco pratas. Porque é preciso umas cinco pratas em carne pra repor a porra que eu gastaria.
– Ela lhe deu as cinco pratas?
– Que nada. Ofereceu-me uma lata de sopa Campbell’s de cogumelo.
Seguimos com o trabalho até chegarmos ao fim do vagão. Os dois homens saíram pela traseira e caminharam em direção ao próximo carro do metrô, que estava estacionado a cerca de quinze metros de distância. Estávamos a uns bons dez metros acima do chão, com nada além dos trilhos para caminhar. Vi que não seria nada difícil para um corpo passar por entre os vãos e cair lá embaixo.
Saí do vagão e comecei a avançar lentamente em direção ao próximo, cuidando onde pisava, o abridor de latas numa mão e os pôsteres na outra. Um metrô cheio de passageiros partiu, as luzes iluminando o caminho.
O veículo se foi, deixando-me na escuridão total. Não conseguia sequer ver os trilhos e as vigas horizontais. Esperei.
Os dois caras mais velhos gritaram lá do outro vagão:
– Vamos! Depressa! Temos muito trabalho pela frente!
– Esperem! Não vejo nada!
– Não temos nenhuma lanterna!
Meus olhos começavam a se adaptar. Avancei lentamente, passo a passo. Assim que entrei no outro carro, coloquei os pôsteres sobre o chão e me sentei. Minhas pernas estavam bambas.
– Qual é o problema?
– Não sei.
– O que é?
– Um homem pode morrer nesse negócio.
– Ninguém nunca caiu.
– Senti que podia ser o primeiro.
– Tudo está na cabeça.
– Eu sei. Como faço pra dar o fora daqui?
– Há uma escada para aqueles lados. Mas você terá que cruzar várias vias, além de cuidar os trens em movimento.
– Sim.
– E não pise no terceiro trilho.
– O que é isso?
– É o condutor de força. É um trilho dourado. Parece feito de ouro. Você vai ver.
Desci para a pista e comecei a caminhar. Os dois caras mais velhos ficaram me olhando. Ali estava o trilho dourado. Passei dando o passo mais largo que pude sobre ele.
Então cheguei à escada. Meio caindo, meio correndo, venci os degraus. Havia um bar do outro lado da rua.
– Factótum
1 514
Charles Bukowski
Você e a Sua Cerveja e o Quão Maravilhoso você é
Jack entrou e encontrou o maço de cigarros junto à lareira. Ann estava no sofá lendo um exemplar da Cosmopolitan. Jack acendeu um cigarro e sentou-se. Faltavam dez minutos para a meia-noite.
– Charley disse para você não fumar – disse Ann, levantando os olhos da revista.
– Mereço um cigarro. Esta noite foi dura.
– Ganhou?
– Não foi unânime, mas ganhei. Benson era um cara duro, muita coragem. Charley disse que Parvinelli é o próximo. Ganhando do Parvinelli, ganhamos o campeonato.
Jack se levantou, foi até a cozinha, voltou com uma garrafa de cerveja.
– Charley me disse pra manter você longe da cerveja – disse Ann enquanto baixava a revista.
– Charley disse isso, Charley disse aquilo... Estou cansado disso. Ganhei a luta. Ganhei dezesseis seguidas, tenho direito a um cigarro e a uma cerveja.
– Tem de manter a forma.
– Não importa. Surro qualquer um deles.
– Você é tão bom... Quando você se embebeda, tenho que ficar ouvindo “como você é bom”. É de dar nos nervos.
– Eu sou bom. Dezesseis seguidas, quinze nocautes. Quem é melhor?
Ann não respondeu. Jack levou sua garrafa de cerveja e seu cigarro para o banheiro.
– Você nem me deu um beijo ao chegar. A primeira coisa que você fez foi pegar a sua garrafa de cerveja. Tão bom, certo. Um bom bebedor de cerveja.
Jack não respondeu. Cinco minutos mais tarde, apareceu em pé na porta do banheiro, com as calças e os calções pelos tornozelos.
– Pelo amor de Deus, Ann, não dá pra deixar nem um rolo de papel higiênico aqui?
– Desculpa.
Foi até o armário e levou um rolo para ele. Jack terminou o serviço e saiu. Então terminou sua cerveja e pegou outra.
– Aqui está você, vivendo com o melhor peso médio do mundo e tudo que faz é reclamar. Um monte de garotas gostaria de estar aqui comigo, e tudo que você faz é ficar sentada e reclamar.
– Sei que você é bom, Jack, talvez até seja o melhor, mas você não faz ideia de como é entediante ficar sentada e ouvir você dizer mais e mais uma vez o quão maravilhoso você é.
– Oh, então você está entediada, é isso?
– Sim, porra, você e a sua cerveja e o quão maravilhoso você é.
– Diga o nome de um peso médio que seja melhor. Você nem mesmo vai às minhas lutas.
– Existem outras coisas além de lutar, Jack.
– Como o quê? Passar o dia com essa bunda no sofá lendo Cosmopolitan?
– Gosto de exercitar a mente.
– E deveria. Tem muito ainda pra progredir nesse terreno.
– Estou dizendo que existem outras coisas além de lutar.
– Como o que, por exemplo?
– Bem, arte, música, pintura, coisas desse tipo.
– E você sabe fazer alguma delas?
– Não, mas aprecio.
– Merda, prefiro ser o melhor no que estou fazendo.
– Bom, melhor, o único... Deus, você não consegue apreciar as pessoas pelo que elas são?
– Pelo que elas são? O que a maioria delas é? Lesmas, sanguessugas, dândis, dedos-duros, cafetões, empregados...
– Você está sempre rebaixando os outros. Nenhum dos seus amigos é bom o suficiente. Você é o fodão!
– Isso mesmo, boneca.
Jack foi até a cozinha e voltou com outra cerveja.
– Você e a sua maldita cerveja!
– É um direito meu. Eles vendem. Eu compro.
– Charley disse...
– Quero que Charley se foda!
– Você é o melhor!
– Isso mesmo. Pelo menos Pattie sabia disso. Ela admitia e se orgulhava. Sabia o que isso custava. Tudo que você faz é reclamar.
– Bem, por que você não volta pra ela? O que está fazendo aqui comigo?
– Era bem nisso que estava pensando.
– Bem, não somos casados, posso ir embora a qualquer hora.
– Isso é o que está nos fodendo. Merda, chego aqui morto de cansado depois de uma luta dura de dez assaltos, e você nem mesmo fica feliz por eu ter vencido. Tudo que você faz é reclamar de mim.
– Escute, Jack, existe mais na vida além de lutar. Quando o conheci, admirei-o pelo que você era.
– Eu era um lutador. Não existe nenhuma outra coisa além de lutar. Isso é o que sou: um lutador. Essa é a minha vida e sou bom nisso. O melhor. Noto que você sempre simpatiza com os lutadores de segunda classe... como Toby Jorgenson.
– Toby é muito engraçado. Tem um senso de humor, um senso de humor de verdade. Gosto do Toby.
– Sua marca são nove vitórias, apenas cinco por nocaute e uma derrota. Dou uma surra nele mesmo podre de bêbado.
– E Deus sabe que você fica podre de bêbado frequentemente. Como você acha que me sinto nas festas quando você está caindo de bêbado, rolando no chão, quando não está se gabando pela sala, dizendo pra todo mundo “SOU O MELHOR, O MELHOR, O MELHOR DE TODOS!”? Não acha que isso faz com que eu me sinta um cu?
– Talvez você seja um cu mesmo. Se gosta tanto do Toby, por que não vai ficar com ele?
– Ah, só disse que gostava dele, achei ele engraçado, isso não quer dizer que quero ir para a cama com ele.
– Bem, você vai pra cama comigo e diz que sou entediante. Não sei o que diabos você quer.
Ann não respondeu. Jack se levantou, caminhou até o sofá, ergueu a cabeça de Ann e beijou-a, retornou ao seu lugar e se sentou.
– Escute, deixe-me contar sobre essa luta com o Benson. Até você teria ficado orgulhosa de mim. Ele me derruba no primeiro assalto, uma direita perigosa. Levanto e o seguro o resto do assalto. Caio outra vez no segundo assalto e quase não consigo me levantar quando a contagem já estava em oito. Seguro ele outra vez. Uso alguns dos assaltos seguintes para recuperar minhas pernas. Ganho o sexto, o sétimo e o oitavo assaltos, derrubo ele uma vez no nono e duas vezes no décimo. Não acho que era luta para decidir nos pontos. Mas os juízes acharam que era. Venci, mas não foi unânime. Bem, são 45 mil, entende, garota? Quarenta e cinco mil. Sou ótimo. Não dá pra negar. Sou muito bom. Dá pra negar?
Ann não respondeu.
– Vamos, diz que eu sou o melhor.
– Está bem, você é o melhor.
– Bem, começamos a nos entender.
Jack caminhou até ela e a beijou novamente.
– Sinto que sou tão bom. Boxe é uma obra de arte, realmente é. É preciso ter coragem para ser um grande artista e é preciso ter coragem pra ser um bom lutador.
– Tudo bem, Jack.
– Tudo bem, Jack? É tudo que você tem a dizer? Pattie costumava ficar feliz quando eu ganhava. Ficávamos ambos felizes a noite inteira. Você não pode compartilhar algo de bom que eu fiz? Porra, você está apaixonada por mim ou está apaixonada pelos perdedores, aqueles merdas? Acho que você seria mais feliz se eu chegasse aqui como perdedor.
– Quero que você vença, Jack, é só que você põe muita ênfase no que faz...
– Porra, é o meu sustento, minha vida. Me orgulho de ser o melhor. É como voar, é como sair voando pelo céu espancando o sol.
– O que você vai fazer quando não puder mais lutar?
– Porra, vamos ter bastante dinheiro para fazer o que quisermos.
– Menos nos dar bem, talvez.
– Talvez eu possa aprender a ler Cosmopolitan, melhorar minha mente.
– Bem, há espaço para melhorias.
– Vai se foder!
– Quê?
– Vai se foder!
– Bem, é algo que você não faz já há algum tempo.
– Alguns caras gostam de foder mulheres que não param de reclamar, eu não gosto.
– Imagino que Pattie não reclamava?
– Todas reclamam, mas você é a campeã.
– Bem, por que não volta para Pattie?
– Você está aqui agora. Só posso hospedar uma puta de cada vez.
– Puta?
– Puta.
Ann se levantou e foi até o armário, pegou sua mala e começou a guardar suas roupas ali. Jack foi até a cozinha e pegou outra garrafa de cerveja. Ann estava chorando, tomada de fúria. Jack sentou com a cerveja e tomou um bom gole. Precisava de um uísque, precisava de uma garrafa de uísque. E de um bom charuto.
– Posso vir pegar o resto das minhas coisas quando você não estiver por aqui.
– Não se preocupe. Mando pra você.
Ela parou junto à porta.
– Bem, imagino que seja o fim – ela disse.
– Creio que sim – respondeu Jack.
Ela fechou a porta e se foi. Procedimento padrão. Jack terminou sua cerveja e foi até o telefone. Discou o número de Pattie. Ela atendeu.
– Pattie?
– Oi, Jack, como tem passado?
– Ganhei uma grande essa noite. Não foi unânime. Tudo que tenho que fazer é passar por cima do Parvinelli e levo o campeonato.
– Vai acabar com a raça deles, Jack. Sei que você consegue.
– O que vai fazer essa noite, Pattie?
– É uma da manhã, Jack. Andou bebendo?
– Um pouco. Estou comemorando.
– E Ann?
– Brigamos. Só ando com uma mulher por vez, você sabe disso, Pattie.
– Jack...
– Quê?
– Estou com um cara.
– Um cara?
– Toby Jorgenson. Ele está no banheiro...
– Oh, sinto muito.
– Também sinto muito, Jack. Eu amava você... talvez ainda ame.
– Merda, vocês mulheres gostam mesmo de jogar essa palavra por aí...
– Sinto muito, Jack.
– Tudo bem.
Ele desligou. Então foi até o armário pegar seu casaco. Vestiu, terminou a cerveja, desceu o elevador e foi até o carro. Dirigiu pela Normandie a cem quilômetros por hora, parou na loja de bebidas na Hollywood Boulevard. Saiu do carro e entrou na loja. Comprou um pacote de cerveja de seis garrafas Michelob, uma caixa de Alka-Seltzer. Então, no caixa, pediu ao funcionário por uma garrafa de Jack Daniels. Enquanto o funcionário estava somando as compras, um bêbado entrou com dois pacotes de seis cervejas Coors.
– Ei, cara! – ele disse a Jack. – Você não é Jack Backenweld, o lutador?
– Sou – respondeu Jack.
– Cara, vi a sua luta essa noite, Jack, você tem colhões. Você é realmente bom!
– Obrigado, cara – respondeu ao bêbado e então pegou sua sacola de compras e caminhou para o carro. Sentou lá, abriu a tampa do Daniels e tomou um bom trago. Então voltou, dirigiu em alta velocidade no sentido oeste, de volta pela Hollywood, dobrou a esquerda na Normandie e notou uma garota nova e bem feita de corpo cambaleando pela rua. Parou o carro, pegou a garrafa de uísque e mostrou a ela.
– Quer uma carona?
Jack ficou surpreso quando ela entrou.
– Vou ajudar você a beber isso, senhor, mas nada além disso.
– Claro que não – disse Jack.
Desceu a Normandie a sessenta quilômetros por hora, um respeitado cidadão, o terceiro melhor peso médio no ranking mundial. Por um momento sentiu vontade de contar para ela com quem estava andando, mas mudou de ideia e estendeu a mão para apalpar um dos joelhos dela.
– Você tem um cigarro, senhor? – ela perguntou.
Ele ofereceu rapidamente um cigarro com a mão, acionou o isqueiro do painel, que saltou para fora, e então acendeu o fogo para ela.
– Ao sul de lugar nenhum
– Charley disse para você não fumar – disse Ann, levantando os olhos da revista.
– Mereço um cigarro. Esta noite foi dura.
– Ganhou?
– Não foi unânime, mas ganhei. Benson era um cara duro, muita coragem. Charley disse que Parvinelli é o próximo. Ganhando do Parvinelli, ganhamos o campeonato.
Jack se levantou, foi até a cozinha, voltou com uma garrafa de cerveja.
– Charley me disse pra manter você longe da cerveja – disse Ann enquanto baixava a revista.
– Charley disse isso, Charley disse aquilo... Estou cansado disso. Ganhei a luta. Ganhei dezesseis seguidas, tenho direito a um cigarro e a uma cerveja.
– Tem de manter a forma.
– Não importa. Surro qualquer um deles.
– Você é tão bom... Quando você se embebeda, tenho que ficar ouvindo “como você é bom”. É de dar nos nervos.
– Eu sou bom. Dezesseis seguidas, quinze nocautes. Quem é melhor?
Ann não respondeu. Jack levou sua garrafa de cerveja e seu cigarro para o banheiro.
– Você nem me deu um beijo ao chegar. A primeira coisa que você fez foi pegar a sua garrafa de cerveja. Tão bom, certo. Um bom bebedor de cerveja.
Jack não respondeu. Cinco minutos mais tarde, apareceu em pé na porta do banheiro, com as calças e os calções pelos tornozelos.
– Pelo amor de Deus, Ann, não dá pra deixar nem um rolo de papel higiênico aqui?
– Desculpa.
Foi até o armário e levou um rolo para ele. Jack terminou o serviço e saiu. Então terminou sua cerveja e pegou outra.
– Aqui está você, vivendo com o melhor peso médio do mundo e tudo que faz é reclamar. Um monte de garotas gostaria de estar aqui comigo, e tudo que você faz é ficar sentada e reclamar.
– Sei que você é bom, Jack, talvez até seja o melhor, mas você não faz ideia de como é entediante ficar sentada e ouvir você dizer mais e mais uma vez o quão maravilhoso você é.
– Oh, então você está entediada, é isso?
– Sim, porra, você e a sua cerveja e o quão maravilhoso você é.
– Diga o nome de um peso médio que seja melhor. Você nem mesmo vai às minhas lutas.
– Existem outras coisas além de lutar, Jack.
– Como o quê? Passar o dia com essa bunda no sofá lendo Cosmopolitan?
– Gosto de exercitar a mente.
– E deveria. Tem muito ainda pra progredir nesse terreno.
– Estou dizendo que existem outras coisas além de lutar.
– Como o que, por exemplo?
– Bem, arte, música, pintura, coisas desse tipo.
– E você sabe fazer alguma delas?
– Não, mas aprecio.
– Merda, prefiro ser o melhor no que estou fazendo.
– Bom, melhor, o único... Deus, você não consegue apreciar as pessoas pelo que elas são?
– Pelo que elas são? O que a maioria delas é? Lesmas, sanguessugas, dândis, dedos-duros, cafetões, empregados...
– Você está sempre rebaixando os outros. Nenhum dos seus amigos é bom o suficiente. Você é o fodão!
– Isso mesmo, boneca.
Jack foi até a cozinha e voltou com outra cerveja.
– Você e a sua maldita cerveja!
– É um direito meu. Eles vendem. Eu compro.
– Charley disse...
– Quero que Charley se foda!
– Você é o melhor!
– Isso mesmo. Pelo menos Pattie sabia disso. Ela admitia e se orgulhava. Sabia o que isso custava. Tudo que você faz é reclamar.
– Bem, por que você não volta pra ela? O que está fazendo aqui comigo?
– Era bem nisso que estava pensando.
– Bem, não somos casados, posso ir embora a qualquer hora.
– Isso é o que está nos fodendo. Merda, chego aqui morto de cansado depois de uma luta dura de dez assaltos, e você nem mesmo fica feliz por eu ter vencido. Tudo que você faz é reclamar de mim.
– Escute, Jack, existe mais na vida além de lutar. Quando o conheci, admirei-o pelo que você era.
– Eu era um lutador. Não existe nenhuma outra coisa além de lutar. Isso é o que sou: um lutador. Essa é a minha vida e sou bom nisso. O melhor. Noto que você sempre simpatiza com os lutadores de segunda classe... como Toby Jorgenson.
– Toby é muito engraçado. Tem um senso de humor, um senso de humor de verdade. Gosto do Toby.
– Sua marca são nove vitórias, apenas cinco por nocaute e uma derrota. Dou uma surra nele mesmo podre de bêbado.
– E Deus sabe que você fica podre de bêbado frequentemente. Como você acha que me sinto nas festas quando você está caindo de bêbado, rolando no chão, quando não está se gabando pela sala, dizendo pra todo mundo “SOU O MELHOR, O MELHOR, O MELHOR DE TODOS!”? Não acha que isso faz com que eu me sinta um cu?
– Talvez você seja um cu mesmo. Se gosta tanto do Toby, por que não vai ficar com ele?
– Ah, só disse que gostava dele, achei ele engraçado, isso não quer dizer que quero ir para a cama com ele.
– Bem, você vai pra cama comigo e diz que sou entediante. Não sei o que diabos você quer.
Ann não respondeu. Jack se levantou, caminhou até o sofá, ergueu a cabeça de Ann e beijou-a, retornou ao seu lugar e se sentou.
– Escute, deixe-me contar sobre essa luta com o Benson. Até você teria ficado orgulhosa de mim. Ele me derruba no primeiro assalto, uma direita perigosa. Levanto e o seguro o resto do assalto. Caio outra vez no segundo assalto e quase não consigo me levantar quando a contagem já estava em oito. Seguro ele outra vez. Uso alguns dos assaltos seguintes para recuperar minhas pernas. Ganho o sexto, o sétimo e o oitavo assaltos, derrubo ele uma vez no nono e duas vezes no décimo. Não acho que era luta para decidir nos pontos. Mas os juízes acharam que era. Venci, mas não foi unânime. Bem, são 45 mil, entende, garota? Quarenta e cinco mil. Sou ótimo. Não dá pra negar. Sou muito bom. Dá pra negar?
Ann não respondeu.
– Vamos, diz que eu sou o melhor.
– Está bem, você é o melhor.
– Bem, começamos a nos entender.
Jack caminhou até ela e a beijou novamente.
– Sinto que sou tão bom. Boxe é uma obra de arte, realmente é. É preciso ter coragem para ser um grande artista e é preciso ter coragem pra ser um bom lutador.
– Tudo bem, Jack.
– Tudo bem, Jack? É tudo que você tem a dizer? Pattie costumava ficar feliz quando eu ganhava. Ficávamos ambos felizes a noite inteira. Você não pode compartilhar algo de bom que eu fiz? Porra, você está apaixonada por mim ou está apaixonada pelos perdedores, aqueles merdas? Acho que você seria mais feliz se eu chegasse aqui como perdedor.
– Quero que você vença, Jack, é só que você põe muita ênfase no que faz...
– Porra, é o meu sustento, minha vida. Me orgulho de ser o melhor. É como voar, é como sair voando pelo céu espancando o sol.
– O que você vai fazer quando não puder mais lutar?
– Porra, vamos ter bastante dinheiro para fazer o que quisermos.
– Menos nos dar bem, talvez.
– Talvez eu possa aprender a ler Cosmopolitan, melhorar minha mente.
– Bem, há espaço para melhorias.
– Vai se foder!
– Quê?
– Vai se foder!
– Bem, é algo que você não faz já há algum tempo.
– Alguns caras gostam de foder mulheres que não param de reclamar, eu não gosto.
– Imagino que Pattie não reclamava?
– Todas reclamam, mas você é a campeã.
– Bem, por que não volta para Pattie?
– Você está aqui agora. Só posso hospedar uma puta de cada vez.
– Puta?
– Puta.
Ann se levantou e foi até o armário, pegou sua mala e começou a guardar suas roupas ali. Jack foi até a cozinha e pegou outra garrafa de cerveja. Ann estava chorando, tomada de fúria. Jack sentou com a cerveja e tomou um bom gole. Precisava de um uísque, precisava de uma garrafa de uísque. E de um bom charuto.
– Posso vir pegar o resto das minhas coisas quando você não estiver por aqui.
– Não se preocupe. Mando pra você.
Ela parou junto à porta.
– Bem, imagino que seja o fim – ela disse.
– Creio que sim – respondeu Jack.
Ela fechou a porta e se foi. Procedimento padrão. Jack terminou sua cerveja e foi até o telefone. Discou o número de Pattie. Ela atendeu.
– Pattie?
– Oi, Jack, como tem passado?
– Ganhei uma grande essa noite. Não foi unânime. Tudo que tenho que fazer é passar por cima do Parvinelli e levo o campeonato.
– Vai acabar com a raça deles, Jack. Sei que você consegue.
– O que vai fazer essa noite, Pattie?
– É uma da manhã, Jack. Andou bebendo?
– Um pouco. Estou comemorando.
– E Ann?
– Brigamos. Só ando com uma mulher por vez, você sabe disso, Pattie.
– Jack...
– Quê?
– Estou com um cara.
– Um cara?
– Toby Jorgenson. Ele está no banheiro...
– Oh, sinto muito.
– Também sinto muito, Jack. Eu amava você... talvez ainda ame.
– Merda, vocês mulheres gostam mesmo de jogar essa palavra por aí...
– Sinto muito, Jack.
– Tudo bem.
Ele desligou. Então foi até o armário pegar seu casaco. Vestiu, terminou a cerveja, desceu o elevador e foi até o carro. Dirigiu pela Normandie a cem quilômetros por hora, parou na loja de bebidas na Hollywood Boulevard. Saiu do carro e entrou na loja. Comprou um pacote de cerveja de seis garrafas Michelob, uma caixa de Alka-Seltzer. Então, no caixa, pediu ao funcionário por uma garrafa de Jack Daniels. Enquanto o funcionário estava somando as compras, um bêbado entrou com dois pacotes de seis cervejas Coors.
– Ei, cara! – ele disse a Jack. – Você não é Jack Backenweld, o lutador?
– Sou – respondeu Jack.
– Cara, vi a sua luta essa noite, Jack, você tem colhões. Você é realmente bom!
– Obrigado, cara – respondeu ao bêbado e então pegou sua sacola de compras e caminhou para o carro. Sentou lá, abriu a tampa do Daniels e tomou um bom trago. Então voltou, dirigiu em alta velocidade no sentido oeste, de volta pela Hollywood, dobrou a esquerda na Normandie e notou uma garota nova e bem feita de corpo cambaleando pela rua. Parou o carro, pegou a garrafa de uísque e mostrou a ela.
– Quer uma carona?
Jack ficou surpreso quando ela entrou.
– Vou ajudar você a beber isso, senhor, mas nada além disso.
– Claro que não – disse Jack.
Desceu a Normandie a sessenta quilômetros por hora, um respeitado cidadão, o terceiro melhor peso médio no ranking mundial. Por um momento sentiu vontade de contar para ela com quem estava andando, mas mudou de ideia e estendeu a mão para apalpar um dos joelhos dela.
– Você tem um cigarro, senhor? – ela perguntou.
Ele ofereceu rapidamente um cigarro com a mão, acionou o isqueiro do painel, que saltou para fora, e então acendeu o fogo para ela.
– Ao sul de lugar nenhum
1 275
Charles Bukowski
Você e a Sua Cerveja e o Quão Maravilhoso você é
Jack entrou e encontrou o maço de cigarros junto à lareira. Ann estava no sofá lendo um exemplar da Cosmopolitan. Jack acendeu um cigarro e sentou-se. Faltavam dez minutos para a meia-noite.
– Charley disse para você não fumar – disse Ann, levantando os olhos da revista.
– Mereço um cigarro. Esta noite foi dura.
– Ganhou?
– Não foi unânime, mas ganhei. Benson era um cara duro, muita coragem. Charley disse que Parvinelli é o próximo. Ganhando do Parvinelli, ganhamos o campeonato.
Jack se levantou, foi até a cozinha, voltou com uma garrafa de cerveja.
– Charley me disse pra manter você longe da cerveja – disse Ann enquanto baixava a revista.
– Charley disse isso, Charley disse aquilo... Estou cansado disso. Ganhei a luta. Ganhei dezesseis seguidas, tenho direito a um cigarro e a uma cerveja.
– Tem de manter a forma.
– Não importa. Surro qualquer um deles.
– Você é tão bom... Quando você se embebeda, tenho que ficar ouvindo “como você é bom”. É de dar nos nervos.
– Eu sou bom. Dezesseis seguidas, quinze nocautes. Quem é melhor?
Ann não respondeu. Jack levou sua garrafa de cerveja e seu cigarro para o banheiro.
– Você nem me deu um beijo ao chegar. A primeira coisa que você fez foi pegar a sua garrafa de cerveja. Tão bom, certo. Um bom bebedor de cerveja.
Jack não respondeu. Cinco minutos mais tarde, apareceu em pé na porta do banheiro, com as calças e os calções pelos tornozelos.
– Pelo amor de Deus, Ann, não dá pra deixar nem um rolo de papel higiênico aqui?
– Desculpa.
Foi até o armário e levou um rolo para ele. Jack terminou o serviço e saiu. Então terminou sua cerveja e pegou outra.
– Aqui está você, vivendo com o melhor peso médio do mundo e tudo que faz é reclamar. Um monte de garotas gostaria de estar aqui comigo, e tudo que você faz é ficar sentada e reclamar.
– Sei que você é bom, Jack, talvez até seja o melhor, mas você não faz ideia de como é entediante ficar sentada e ouvir você dizer mais e mais uma vez o quão maravilhoso você é.
– Oh, então você está entediada, é isso?
– Sim, porra, você e a sua cerveja e o quão maravilhoso você é.
– Diga o nome de um peso médio que seja melhor. Você nem mesmo vai às minhas lutas.
– Existem outras coisas além de lutar, Jack.
– Como o quê? Passar o dia com essa bunda no sofá lendo Cosmopolitan?
– Gosto de exercitar a mente.
– E deveria. Tem muito ainda pra progredir nesse terreno.
– Estou dizendo que existem outras coisas além de lutar.
– Como o que, por exemplo?
– Bem, arte, música, pintura, coisas desse tipo.
– E você sabe fazer alguma delas?
– Não, mas aprecio.
– Merda, prefiro ser o melhor no que estou fazendo.
– Bom, melhor, o único... Deus, você não consegue apreciar as pessoas pelo que elas são?
– Pelo que elas são? O que a maioria delas é? Lesmas, sanguessugas, dândis, dedos-duros, cafetões, empregados...
– Você está sempre rebaixando os outros. Nenhum dos seus amigos é bom o suficiente. Você é o fodão!
– Isso mesmo, boneca.
Jack foi até a cozinha e voltou com outra cerveja.
– Você e a sua maldita cerveja!
– É um direito meu. Eles vendem. Eu compro.
– Charley disse...
– Quero que Charley se foda!
– Você é o melhor!
– Isso mesmo. Pelo menos Pattie sabia disso. Ela admitia e se orgulhava. Sabia o que isso custava. Tudo que você faz é reclamar.
– Bem, por que você não volta pra ela? O que está fazendo aqui comigo?
– Era bem nisso que estava pensando.
– Bem, não somos casados, posso ir embora a qualquer hora.
– Isso é o que está nos fodendo. Merda, chego aqui morto de cansado depois de uma luta dura de dez assaltos, e você nem mesmo fica feliz por eu ter vencido. Tudo que você faz é reclamar de mim.
– Escute, Jack, existe mais na vida além de lutar. Quando o conheci, admirei-o pelo que você era.
– Eu era um lutador. Não existe nenhuma outra coisa além de lutar. Isso é o que sou: um lutador. Essa é a minha vida e sou bom nisso. O melhor. Noto que você sempre simpatiza com os lutadores de segunda classe... como Toby Jorgenson.
– Toby é muito engraçado. Tem um senso de humor, um senso de humor de verdade. Gosto do Toby.
– Sua marca são nove vitórias, apenas cinco por nocaute e uma derrota. Dou uma surra nele mesmo podre de bêbado.
– E Deus sabe que você fica podre de bêbado frequentemente. Como você acha que me sinto nas festas quando você está caindo de bêbado, rolando no chão, quando não está se gabando pela sala, dizendo pra todo mundo “SOU O MELHOR, O MELHOR, O MELHOR DE TODOS!”? Não acha que isso faz com que eu me sinta um cu?
– Talvez você seja um cu mesmo. Se gosta tanto do Toby, por que não vai ficar com ele?
– Ah, só disse que gostava dele, achei ele engraçado, isso não quer dizer que quero ir para a cama com ele.
– Bem, você vai pra cama comigo e diz que sou entediante. Não sei o que diabos você quer.
Ann não respondeu. Jack se levantou, caminhou até o sofá, ergueu a cabeça de Ann e beijou-a, retornou ao seu lugar e se sentou.
– Escute, deixe-me contar sobre essa luta com o Benson. Até você teria ficado orgulhosa de mim. Ele me derruba no primeiro assalto, uma direita perigosa. Levanto e o seguro o resto do assalto. Caio outra vez no segundo assalto e quase não consigo me levantar quando a contagem já estava em oito. Seguro ele outra vez. Uso alguns dos assaltos seguintes para recuperar minhas pernas. Ganho o sexto, o sétimo e o oitavo assaltos, derrubo ele uma vez no nono e duas vezes no décimo. Não acho que era luta para decidir nos pontos. Mas os juízes acharam que era. Venci, mas não foi unânime. Bem, são 45 mil, entende, garota? Quarenta e cinco mil. Sou ótimo. Não dá pra negar. Sou muito bom. Dá pra negar?
Ann não respondeu.
– Vamos, diz que eu sou o melhor.
– Está bem, você é o melhor.
– Bem, começamos a nos entender.
Jack caminhou até ela e a beijou novamente.
– Sinto que sou tão bom. Boxe é uma obra de arte, realmente é. É preciso ter coragem para ser um grande artista e é preciso ter coragem pra ser um bom lutador.
– Tudo bem, Jack.
– Tudo bem, Jack? É tudo que você tem a dizer? Pattie costumava ficar feliz quando eu ganhava. Ficávamos ambos felizes a noite inteira. Você não pode compartilhar algo de bom que eu fiz? Porra, você está apaixonada por mim ou está apaixonada pelos perdedores, aqueles merdas? Acho que você seria mais feliz se eu chegasse aqui como perdedor.
– Quero que você vença, Jack, é só que você põe muita ênfase no que faz...
– Porra, é o meu sustento, minha vida. Me orgulho de ser o melhor. É como voar, é como sair voando pelo céu espancando o sol.
– O que você vai fazer quando não puder mais lutar?
– Porra, vamos ter bastante dinheiro para fazer o que quisermos.
– Menos nos dar bem, talvez.
– Talvez eu possa aprender a ler Cosmopolitan, melhorar minha mente.
– Bem, há espaço para melhorias.
– Vai se foder!
– Quê?
– Vai se foder!
– Bem, é algo que você não faz já há algum tempo.
– Alguns caras gostam de foder mulheres que não param de reclamar, eu não gosto.
– Imagino que Pattie não reclamava?
– Todas reclamam, mas você é a campeã.
– Bem, por que não volta para Pattie?
– Você está aqui agora. Só posso hospedar uma puta de cada vez.
– Puta?
– Puta.
Ann se levantou e foi até o armário, pegou sua mala e começou a guardar suas roupas ali. Jack foi até a cozinha e pegou outra garrafa de cerveja. Ann estava chorando, tomada de fúria. Jack sentou com a cerveja e tomou um bom gole. Precisava de um uísque, precisava de uma garrafa de uísque. E de um bom charuto.
– Posso vir pegar o resto das minhas coisas quando você não estiver por aqui.
– Não se preocupe. Mando pra você.
Ela parou junto à porta.
– Bem, imagino que seja o fim – ela disse.
– Creio que sim – respondeu Jack.
Ela fechou a porta e se foi. Procedimento padrão. Jack terminou sua cerveja e foi até o telefone. Discou o número de Pattie. Ela atendeu.
– Pattie?
– Oi, Jack, como tem passado?
– Ganhei uma grande essa noite. Não foi unânime. Tudo que tenho que fazer é passar por cima do Parvinelli e levo o campeonato.
– Vai acabar com a raça deles, Jack. Sei que você consegue.
– O que vai fazer essa noite, Pattie?
– É uma da manhã, Jack. Andou bebendo?
– Um pouco. Estou comemorando.
– E Ann?
– Brigamos. Só ando com uma mulher por vez, você sabe disso, Pattie.
– Jack...
– Quê?
– Estou com um cara.
– Um cara?
– Toby Jorgenson. Ele está no banheiro...
– Oh, sinto muito.
– Também sinto muito, Jack. Eu amava você... talvez ainda ame.
– Merda, vocês mulheres gostam mesmo de jogar essa palavra por aí...
– Sinto muito, Jack.
– Tudo bem.
Ele desligou. Então foi até o armário pegar seu casaco. Vestiu, terminou a cerveja, desceu o elevador e foi até o carro. Dirigiu pela Normandie a cem quilômetros por hora, parou na loja de bebidas na Hollywood Boulevard. Saiu do carro e entrou na loja. Comprou um pacote de cerveja de seis garrafas Michelob, uma caixa de Alka-Seltzer. Então, no caixa, pediu ao funcionário por uma garrafa de Jack Daniels. Enquanto o funcionário estava somando as compras, um bêbado entrou com dois pacotes de seis cervejas Coors.
– Ei, cara! – ele disse a Jack. – Você não é Jack Backenweld, o lutador?
– Sou – respondeu Jack.
– Cara, vi a sua luta essa noite, Jack, você tem colhões. Você é realmente bom!
– Obrigado, cara – respondeu ao bêbado e então pegou sua sacola de compras e caminhou para o carro. Sentou lá, abriu a tampa do Daniels e tomou um bom trago. Então voltou, dirigiu em alta velocidade no sentido oeste, de volta pela Hollywood, dobrou a esquerda na Normandie e notou uma garota nova e bem feita de corpo cambaleando pela rua. Parou o carro, pegou a garrafa de uísque e mostrou a ela.
– Quer uma carona?
Jack ficou surpreso quando ela entrou.
– Vou ajudar você a beber isso, senhor, mas nada além disso.
– Claro que não – disse Jack.
Desceu a Normandie a sessenta quilômetros por hora, um respeitado cidadão, o terceiro melhor peso médio no ranking mundial. Por um momento sentiu vontade de contar para ela com quem estava andando, mas mudou de ideia e estendeu a mão para apalpar um dos joelhos dela.
– Você tem um cigarro, senhor? – ela perguntou.
Ele ofereceu rapidamente um cigarro com a mão, acionou o isqueiro do painel, que saltou para fora, e então acendeu o fogo para ela.
– Ao sul de lugar nenhum
– Charley disse para você não fumar – disse Ann, levantando os olhos da revista.
– Mereço um cigarro. Esta noite foi dura.
– Ganhou?
– Não foi unânime, mas ganhei. Benson era um cara duro, muita coragem. Charley disse que Parvinelli é o próximo. Ganhando do Parvinelli, ganhamos o campeonato.
Jack se levantou, foi até a cozinha, voltou com uma garrafa de cerveja.
– Charley me disse pra manter você longe da cerveja – disse Ann enquanto baixava a revista.
– Charley disse isso, Charley disse aquilo... Estou cansado disso. Ganhei a luta. Ganhei dezesseis seguidas, tenho direito a um cigarro e a uma cerveja.
– Tem de manter a forma.
– Não importa. Surro qualquer um deles.
– Você é tão bom... Quando você se embebeda, tenho que ficar ouvindo “como você é bom”. É de dar nos nervos.
– Eu sou bom. Dezesseis seguidas, quinze nocautes. Quem é melhor?
Ann não respondeu. Jack levou sua garrafa de cerveja e seu cigarro para o banheiro.
– Você nem me deu um beijo ao chegar. A primeira coisa que você fez foi pegar a sua garrafa de cerveja. Tão bom, certo. Um bom bebedor de cerveja.
Jack não respondeu. Cinco minutos mais tarde, apareceu em pé na porta do banheiro, com as calças e os calções pelos tornozelos.
– Pelo amor de Deus, Ann, não dá pra deixar nem um rolo de papel higiênico aqui?
– Desculpa.
Foi até o armário e levou um rolo para ele. Jack terminou o serviço e saiu. Então terminou sua cerveja e pegou outra.
– Aqui está você, vivendo com o melhor peso médio do mundo e tudo que faz é reclamar. Um monte de garotas gostaria de estar aqui comigo, e tudo que você faz é ficar sentada e reclamar.
– Sei que você é bom, Jack, talvez até seja o melhor, mas você não faz ideia de como é entediante ficar sentada e ouvir você dizer mais e mais uma vez o quão maravilhoso você é.
– Oh, então você está entediada, é isso?
– Sim, porra, você e a sua cerveja e o quão maravilhoso você é.
– Diga o nome de um peso médio que seja melhor. Você nem mesmo vai às minhas lutas.
– Existem outras coisas além de lutar, Jack.
– Como o quê? Passar o dia com essa bunda no sofá lendo Cosmopolitan?
– Gosto de exercitar a mente.
– E deveria. Tem muito ainda pra progredir nesse terreno.
– Estou dizendo que existem outras coisas além de lutar.
– Como o que, por exemplo?
– Bem, arte, música, pintura, coisas desse tipo.
– E você sabe fazer alguma delas?
– Não, mas aprecio.
– Merda, prefiro ser o melhor no que estou fazendo.
– Bom, melhor, o único... Deus, você não consegue apreciar as pessoas pelo que elas são?
– Pelo que elas são? O que a maioria delas é? Lesmas, sanguessugas, dândis, dedos-duros, cafetões, empregados...
– Você está sempre rebaixando os outros. Nenhum dos seus amigos é bom o suficiente. Você é o fodão!
– Isso mesmo, boneca.
Jack foi até a cozinha e voltou com outra cerveja.
– Você e a sua maldita cerveja!
– É um direito meu. Eles vendem. Eu compro.
– Charley disse...
– Quero que Charley se foda!
– Você é o melhor!
– Isso mesmo. Pelo menos Pattie sabia disso. Ela admitia e se orgulhava. Sabia o que isso custava. Tudo que você faz é reclamar.
– Bem, por que você não volta pra ela? O que está fazendo aqui comigo?
– Era bem nisso que estava pensando.
– Bem, não somos casados, posso ir embora a qualquer hora.
– Isso é o que está nos fodendo. Merda, chego aqui morto de cansado depois de uma luta dura de dez assaltos, e você nem mesmo fica feliz por eu ter vencido. Tudo que você faz é reclamar de mim.
– Escute, Jack, existe mais na vida além de lutar. Quando o conheci, admirei-o pelo que você era.
– Eu era um lutador. Não existe nenhuma outra coisa além de lutar. Isso é o que sou: um lutador. Essa é a minha vida e sou bom nisso. O melhor. Noto que você sempre simpatiza com os lutadores de segunda classe... como Toby Jorgenson.
– Toby é muito engraçado. Tem um senso de humor, um senso de humor de verdade. Gosto do Toby.
– Sua marca são nove vitórias, apenas cinco por nocaute e uma derrota. Dou uma surra nele mesmo podre de bêbado.
– E Deus sabe que você fica podre de bêbado frequentemente. Como você acha que me sinto nas festas quando você está caindo de bêbado, rolando no chão, quando não está se gabando pela sala, dizendo pra todo mundo “SOU O MELHOR, O MELHOR, O MELHOR DE TODOS!”? Não acha que isso faz com que eu me sinta um cu?
– Talvez você seja um cu mesmo. Se gosta tanto do Toby, por que não vai ficar com ele?
– Ah, só disse que gostava dele, achei ele engraçado, isso não quer dizer que quero ir para a cama com ele.
– Bem, você vai pra cama comigo e diz que sou entediante. Não sei o que diabos você quer.
Ann não respondeu. Jack se levantou, caminhou até o sofá, ergueu a cabeça de Ann e beijou-a, retornou ao seu lugar e se sentou.
– Escute, deixe-me contar sobre essa luta com o Benson. Até você teria ficado orgulhosa de mim. Ele me derruba no primeiro assalto, uma direita perigosa. Levanto e o seguro o resto do assalto. Caio outra vez no segundo assalto e quase não consigo me levantar quando a contagem já estava em oito. Seguro ele outra vez. Uso alguns dos assaltos seguintes para recuperar minhas pernas. Ganho o sexto, o sétimo e o oitavo assaltos, derrubo ele uma vez no nono e duas vezes no décimo. Não acho que era luta para decidir nos pontos. Mas os juízes acharam que era. Venci, mas não foi unânime. Bem, são 45 mil, entende, garota? Quarenta e cinco mil. Sou ótimo. Não dá pra negar. Sou muito bom. Dá pra negar?
Ann não respondeu.
– Vamos, diz que eu sou o melhor.
– Está bem, você é o melhor.
– Bem, começamos a nos entender.
Jack caminhou até ela e a beijou novamente.
– Sinto que sou tão bom. Boxe é uma obra de arte, realmente é. É preciso ter coragem para ser um grande artista e é preciso ter coragem pra ser um bom lutador.
– Tudo bem, Jack.
– Tudo bem, Jack? É tudo que você tem a dizer? Pattie costumava ficar feliz quando eu ganhava. Ficávamos ambos felizes a noite inteira. Você não pode compartilhar algo de bom que eu fiz? Porra, você está apaixonada por mim ou está apaixonada pelos perdedores, aqueles merdas? Acho que você seria mais feliz se eu chegasse aqui como perdedor.
– Quero que você vença, Jack, é só que você põe muita ênfase no que faz...
– Porra, é o meu sustento, minha vida. Me orgulho de ser o melhor. É como voar, é como sair voando pelo céu espancando o sol.
– O que você vai fazer quando não puder mais lutar?
– Porra, vamos ter bastante dinheiro para fazer o que quisermos.
– Menos nos dar bem, talvez.
– Talvez eu possa aprender a ler Cosmopolitan, melhorar minha mente.
– Bem, há espaço para melhorias.
– Vai se foder!
– Quê?
– Vai se foder!
– Bem, é algo que você não faz já há algum tempo.
– Alguns caras gostam de foder mulheres que não param de reclamar, eu não gosto.
– Imagino que Pattie não reclamava?
– Todas reclamam, mas você é a campeã.
– Bem, por que não volta para Pattie?
– Você está aqui agora. Só posso hospedar uma puta de cada vez.
– Puta?
– Puta.
Ann se levantou e foi até o armário, pegou sua mala e começou a guardar suas roupas ali. Jack foi até a cozinha e pegou outra garrafa de cerveja. Ann estava chorando, tomada de fúria. Jack sentou com a cerveja e tomou um bom gole. Precisava de um uísque, precisava de uma garrafa de uísque. E de um bom charuto.
– Posso vir pegar o resto das minhas coisas quando você não estiver por aqui.
– Não se preocupe. Mando pra você.
Ela parou junto à porta.
– Bem, imagino que seja o fim – ela disse.
– Creio que sim – respondeu Jack.
Ela fechou a porta e se foi. Procedimento padrão. Jack terminou sua cerveja e foi até o telefone. Discou o número de Pattie. Ela atendeu.
– Pattie?
– Oi, Jack, como tem passado?
– Ganhei uma grande essa noite. Não foi unânime. Tudo que tenho que fazer é passar por cima do Parvinelli e levo o campeonato.
– Vai acabar com a raça deles, Jack. Sei que você consegue.
– O que vai fazer essa noite, Pattie?
– É uma da manhã, Jack. Andou bebendo?
– Um pouco. Estou comemorando.
– E Ann?
– Brigamos. Só ando com uma mulher por vez, você sabe disso, Pattie.
– Jack...
– Quê?
– Estou com um cara.
– Um cara?
– Toby Jorgenson. Ele está no banheiro...
– Oh, sinto muito.
– Também sinto muito, Jack. Eu amava você... talvez ainda ame.
– Merda, vocês mulheres gostam mesmo de jogar essa palavra por aí...
– Sinto muito, Jack.
– Tudo bem.
Ele desligou. Então foi até o armário pegar seu casaco. Vestiu, terminou a cerveja, desceu o elevador e foi até o carro. Dirigiu pela Normandie a cem quilômetros por hora, parou na loja de bebidas na Hollywood Boulevard. Saiu do carro e entrou na loja. Comprou um pacote de cerveja de seis garrafas Michelob, uma caixa de Alka-Seltzer. Então, no caixa, pediu ao funcionário por uma garrafa de Jack Daniels. Enquanto o funcionário estava somando as compras, um bêbado entrou com dois pacotes de seis cervejas Coors.
– Ei, cara! – ele disse a Jack. – Você não é Jack Backenweld, o lutador?
– Sou – respondeu Jack.
– Cara, vi a sua luta essa noite, Jack, você tem colhões. Você é realmente bom!
– Obrigado, cara – respondeu ao bêbado e então pegou sua sacola de compras e caminhou para o carro. Sentou lá, abriu a tampa do Daniels e tomou um bom trago. Então voltou, dirigiu em alta velocidade no sentido oeste, de volta pela Hollywood, dobrou a esquerda na Normandie e notou uma garota nova e bem feita de corpo cambaleando pela rua. Parou o carro, pegou a garrafa de uísque e mostrou a ela.
– Quer uma carona?
Jack ficou surpreso quando ela entrou.
– Vou ajudar você a beber isso, senhor, mas nada além disso.
– Claro que não – disse Jack.
Desceu a Normandie a sessenta quilômetros por hora, um respeitado cidadão, o terceiro melhor peso médio no ranking mundial. Por um momento sentiu vontade de contar para ela com quem estava andando, mas mudou de ideia e estendeu a mão para apalpar um dos joelhos dela.
– Você tem um cigarro, senhor? – ela perguntou.
Ele ofereceu rapidamente um cigarro com a mão, acionou o isqueiro do painel, que saltou para fora, e então acendeu o fogo para ela.
– Ao sul de lugar nenhum
1 275
Charles Bukowski
A Morte Quer Mais Morte
a morte quer mais morte, e suas teias estão cheias:
lembro da garagem do meu pai, como de modo infantil
eu arrancaria os cadáveres das moscas
das janelas que lhes tinham parecido uma chance de fuga...
seus corpos endurecidos, feios, vibrantes
gritando como cães loucos e tolos contra os vidros
apenas para rodar e revoltear
naquele segundo mais longo que o céu e o inferno
limite dos limites,
e então a aranha vinda de seu buraco úmido
nervosa e exposta
a protuberância do corpo
ali balançando
ainda sem saber plenamente
e logo sabendo –
lançando seus fios,
a teia pegajosa,
em direção à fraca cortina de zumbido,
o pulsar;
um último movimento desesperado da perna peluda
lá, contra o vidro
lá, viva ao sol,
envolta em branco;
e quase como o amor:
a aproximação
o primeiro e silencioso sugar da aranha;
a pança cheia
aquela coisa que um dia esteve viva;
arrastando-se sobre as patas
sugando seu sangue garantido
enquanto o mundo segue seu rumo lá fora
e minhas têmporas gritam
e disparo a vassoura contra elas:
a aranha embotada em sua fúria de aranha
ainda pensando em sua presa
balançando uma surpreendente perna quebrada;
a mosca muito fixa,
uma mancha suja grudada ao fio de palha;
solto a assassina com um chacoalhar
e ela se move aleijada e ensandecida
em direção a um canto escuro
mas intercepto seu esforço vão
seu rastejar como uma heroína abatida,
e as palhas esmagam suas pernas
agora a ondular
sobre sua cabeça
sem deixar de buscar
o inimigo
de certa forma valente
a aranha morre sem dor aparente
arrastando-se para trás, com simplicidade
levando todos os pedaços
sem deixar nada por ali
até que por fim seu estômago se rompe
espalhando seu segredo,
e eu corro como uma criança
com a fúria de Deus em meus calcanhares,
de volta à pura luz do sol,
me perguntando
enquanto o mundo segue igual
com um sorriso torto
se alguém mais
viu ou percebeu o meu crime.
lembro da garagem do meu pai, como de modo infantil
eu arrancaria os cadáveres das moscas
das janelas que lhes tinham parecido uma chance de fuga...
seus corpos endurecidos, feios, vibrantes
gritando como cães loucos e tolos contra os vidros
apenas para rodar e revoltear
naquele segundo mais longo que o céu e o inferno
limite dos limites,
e então a aranha vinda de seu buraco úmido
nervosa e exposta
a protuberância do corpo
ali balançando
ainda sem saber plenamente
e logo sabendo –
lançando seus fios,
a teia pegajosa,
em direção à fraca cortina de zumbido,
o pulsar;
um último movimento desesperado da perna peluda
lá, contra o vidro
lá, viva ao sol,
envolta em branco;
e quase como o amor:
a aproximação
o primeiro e silencioso sugar da aranha;
a pança cheia
aquela coisa que um dia esteve viva;
arrastando-se sobre as patas
sugando seu sangue garantido
enquanto o mundo segue seu rumo lá fora
e minhas têmporas gritam
e disparo a vassoura contra elas:
a aranha embotada em sua fúria de aranha
ainda pensando em sua presa
balançando uma surpreendente perna quebrada;
a mosca muito fixa,
uma mancha suja grudada ao fio de palha;
solto a assassina com um chacoalhar
e ela se move aleijada e ensandecida
em direção a um canto escuro
mas intercepto seu esforço vão
seu rastejar como uma heroína abatida,
e as palhas esmagam suas pernas
agora a ondular
sobre sua cabeça
sem deixar de buscar
o inimigo
de certa forma valente
a aranha morre sem dor aparente
arrastando-se para trás, com simplicidade
levando todos os pedaços
sem deixar nada por ali
até que por fim seu estômago se rompe
espalhando seu segredo,
e eu corro como uma criança
com a fúria de Deus em meus calcanhares,
de volta à pura luz do sol,
me perguntando
enquanto o mundo segue igual
com um sorriso torto
se alguém mais
viu ou percebeu o meu crime.
1 208
Charles Bukowski
Chuva
uma orquestra sinfônica.
há uma tempestade,
eles estão tocando um prelúdio de Wagner
e as pessoas abandonam seus assentos debaixo das árvores
e correm para dentro de um pavilhão
as mulheres aos gritinhos, os homens fingindo calma,
cigarros molhados sendo jogados fora,
Wagner segue tocando, e agora todos estão debaixo do
pavilhão. mesmo os pássaros abandonam as árvores
e entram no pavilhão e agora é a Rapsódia
Húngara #2 de Lizst, e segue chovendo, mas vejam,
um homem está sentado sozinho na chuva
escutando. a audiência o percebe. volta-se para
vê-lo. a orquestra segue com sua
função. o homem segue sentado em meio à noite e à chuva,
escutando. há algo errado com ele,
não é mesmo?
ele veio escutar
música.
há uma tempestade,
eles estão tocando um prelúdio de Wagner
e as pessoas abandonam seus assentos debaixo das árvores
e correm para dentro de um pavilhão
as mulheres aos gritinhos, os homens fingindo calma,
cigarros molhados sendo jogados fora,
Wagner segue tocando, e agora todos estão debaixo do
pavilhão. mesmo os pássaros abandonam as árvores
e entram no pavilhão e agora é a Rapsódia
Húngara #2 de Lizst, e segue chovendo, mas vejam,
um homem está sentado sozinho na chuva
escutando. a audiência o percebe. volta-se para
vê-lo. a orquestra segue com sua
função. o homem segue sentado em meio à noite e à chuva,
escutando. há algo errado com ele,
não é mesmo?
ele veio escutar
música.
1 270
Charles Bukowski
Chuva
uma orquestra sinfônica.
há uma tempestade,
eles estão tocando um prelúdio de Wagner
e as pessoas abandonam seus assentos debaixo das árvores
e correm para dentro de um pavilhão
as mulheres aos gritinhos, os homens fingindo calma,
cigarros molhados sendo jogados fora,
Wagner segue tocando, e agora todos estão debaixo do
pavilhão. mesmo os pássaros abandonam as árvores
e entram no pavilhão e agora é a Rapsódia
Húngara #2 de Lizst, e segue chovendo, mas vejam,
um homem está sentado sozinho na chuva
escutando. a audiência o percebe. volta-se para
vê-lo. a orquestra segue com sua
função. o homem segue sentado em meio à noite e à chuva,
escutando. há algo errado com ele,
não é mesmo?
ele veio escutar
música.
há uma tempestade,
eles estão tocando um prelúdio de Wagner
e as pessoas abandonam seus assentos debaixo das árvores
e correm para dentro de um pavilhão
as mulheres aos gritinhos, os homens fingindo calma,
cigarros molhados sendo jogados fora,
Wagner segue tocando, e agora todos estão debaixo do
pavilhão. mesmo os pássaros abandonam as árvores
e entram no pavilhão e agora é a Rapsódia
Húngara #2 de Lizst, e segue chovendo, mas vejam,
um homem está sentado sozinho na chuva
escutando. a audiência o percebe. volta-se para
vê-lo. a orquestra segue com sua
função. o homem segue sentado em meio à noite e à chuva,
escutando. há algo errado com ele,
não é mesmo?
ele veio escutar
música.
1 270
Charles Bukowski
Poema Para Chefes de Departamento Pessoal:
Um velho me pediu um cigarro
e eu cuidadosamente saquei dois.
“Tô procurando emprego. Vou ficar aqui,
debaixo do sol e fumando.”
Ele estava no limite da mendicância e da fúria
e se escorava na morte.
Era um dia frio, de fato, e os caminhões
carregados e pesados como putas velhas
batiam e chacoalhavam pelas ruas...
Caímos como placas de um teto podre
enquanto o mundo luta para se livrar do peso
que lhe atrapalha as ideias.
(Deus é um lugar solitário e sem bife.)
Somos pássaros agonizantes
navios à deriva –
o mundo se choca contra nós
e nós
estendemos nossos braços
e nós
estendemos nossas pernas
como o beijo da morte da centopeia:
mas eles, gentis, nos dão um tapinha nas costas
e chamam nosso veneno de “política”.
Bem, nós fumamos, ele e eu – homenzinhos
mordiscando pensamentos medíocres...
Nenhum dos cavalos entra,
e enquanto você vê as luzes das cadeias
e dos hospitais cintilarem,
e homens carregando bandeiras com o cuidado dispensado aos bebês,
lembre-se disso:
você é um instrumento cheio de tripas
coração e barriga, cuidadosamente planejado –
de modo que se você pegar um avião para Savannah,
pegue o melhor avião;
ou se você comer frango feito na pedra quente,
faça-o com um animal nobre.
(Você o chama de ave; eu chamo as aves de
flores.)
E se você decidir matar alguém,
que seja qualquer um e não alguém importante:
alguns homens são feitos de partes mais especiais e
preciosas: não mate
se puder
um presidente ou um Rei
ou um homem
atrás de uma escrivaninha –
estes possuem longitudes celestiais
atitudes luminais.
Se essa for sua decisão,
escolha um de nós
que estamos aqui parados, fumando, furiosos;
estamos entorpecidos pela tristeza e
pela febre
por escalar escadas rotas.
Leve-nos
nunca fomos crianças
como as suas crianças.
Não entendemos de canções de amor
como a sua namorada.
Nossos rostos são como linóleo rachado
fendido sob o peso dos passos resolutos
de nossos mestres.
Estamos misturados a cabeças de cenoura
e semente de papoula e a uma gramática bêbada;
desperdiçamos os dias como melros loucos
ansiando pelas noites de trago.
Nossos sorrisos humanos e descoloridos
nos envolvem como os confetes de outra pessoa:
nós sequer pertencemos ao Partido.
Somos uma cena apagada
com o branco e doentio apagador do Tempo.
Fumamos, insones como um prato de figos.
Fumamos, tão mortos quanto um nevoeiro.
Leve-nos.
Um assassinato na banheira
ou algo rápido e certeiro; nossos nomes
nos jornais.
Conhecidos, por um momento, enfim
por milhões de olhos indiferentes de um violeta apagado
que se mantêm ocupados
apenas com os lampejos
das caricaturas de pobres feitas
por seus comediantes conceituados, mal-acostumados
e corretos.
Conhecidos, por um momento, enfim,
como eles também serão conhecidos
como você será conhecido
por um homem todo cinza em uma casa toda cinza
que se senta e acaricia uma espada
mais longa que a noite
mais longa que a dor de coluna da montanha
mais longa que todos os prantos
que têm uma bomba atômica sendo expelida das gargantas
e explodindo em uma terra nova,
menos planejada.
Fumamos e as nuvens não nos notam.
Um gato caminha e sacode o Shakespeare
de suas costas.
Sebo, sebo, vela como cera: nossas espinhas
são curvadas e nossas consciências queimam
de um jeito inocente
o que ainda restava do pavio da vida nos
foi distribuído.
Um velho me pede um cigarro
e me conta seus problemas
e isto
é o que ele disse:
que a Idade era um crime
e que a Compaixão apanhou as bolinhas de gude
e que o Ódio apanhou a
grana.
Ele poderia ter sido seu pai
ou o meu.
Ele poderia ter sido um garanhão
ou um santo.
Mas o que quer que ele tenha sido
agora estava condenado
e nós ficamos debaixo do sol e
fumamos
e olhamos em volta
em nosso ócio
para ver quem era o próximo da
fila.
e eu cuidadosamente saquei dois.
“Tô procurando emprego. Vou ficar aqui,
debaixo do sol e fumando.”
Ele estava no limite da mendicância e da fúria
e se escorava na morte.
Era um dia frio, de fato, e os caminhões
carregados e pesados como putas velhas
batiam e chacoalhavam pelas ruas...
Caímos como placas de um teto podre
enquanto o mundo luta para se livrar do peso
que lhe atrapalha as ideias.
(Deus é um lugar solitário e sem bife.)
Somos pássaros agonizantes
navios à deriva –
o mundo se choca contra nós
e nós
estendemos nossos braços
e nós
estendemos nossas pernas
como o beijo da morte da centopeia:
mas eles, gentis, nos dão um tapinha nas costas
e chamam nosso veneno de “política”.
Bem, nós fumamos, ele e eu – homenzinhos
mordiscando pensamentos medíocres...
Nenhum dos cavalos entra,
e enquanto você vê as luzes das cadeias
e dos hospitais cintilarem,
e homens carregando bandeiras com o cuidado dispensado aos bebês,
lembre-se disso:
você é um instrumento cheio de tripas
coração e barriga, cuidadosamente planejado –
de modo que se você pegar um avião para Savannah,
pegue o melhor avião;
ou se você comer frango feito na pedra quente,
faça-o com um animal nobre.
(Você o chama de ave; eu chamo as aves de
flores.)
E se você decidir matar alguém,
que seja qualquer um e não alguém importante:
alguns homens são feitos de partes mais especiais e
preciosas: não mate
se puder
um presidente ou um Rei
ou um homem
atrás de uma escrivaninha –
estes possuem longitudes celestiais
atitudes luminais.
Se essa for sua decisão,
escolha um de nós
que estamos aqui parados, fumando, furiosos;
estamos entorpecidos pela tristeza e
pela febre
por escalar escadas rotas.
Leve-nos
nunca fomos crianças
como as suas crianças.
Não entendemos de canções de amor
como a sua namorada.
Nossos rostos são como linóleo rachado
fendido sob o peso dos passos resolutos
de nossos mestres.
Estamos misturados a cabeças de cenoura
e semente de papoula e a uma gramática bêbada;
desperdiçamos os dias como melros loucos
ansiando pelas noites de trago.
Nossos sorrisos humanos e descoloridos
nos envolvem como os confetes de outra pessoa:
nós sequer pertencemos ao Partido.
Somos uma cena apagada
com o branco e doentio apagador do Tempo.
Fumamos, insones como um prato de figos.
Fumamos, tão mortos quanto um nevoeiro.
Leve-nos.
Um assassinato na banheira
ou algo rápido e certeiro; nossos nomes
nos jornais.
Conhecidos, por um momento, enfim
por milhões de olhos indiferentes de um violeta apagado
que se mantêm ocupados
apenas com os lampejos
das caricaturas de pobres feitas
por seus comediantes conceituados, mal-acostumados
e corretos.
Conhecidos, por um momento, enfim,
como eles também serão conhecidos
como você será conhecido
por um homem todo cinza em uma casa toda cinza
que se senta e acaricia uma espada
mais longa que a noite
mais longa que a dor de coluna da montanha
mais longa que todos os prantos
que têm uma bomba atômica sendo expelida das gargantas
e explodindo em uma terra nova,
menos planejada.
Fumamos e as nuvens não nos notam.
Um gato caminha e sacode o Shakespeare
de suas costas.
Sebo, sebo, vela como cera: nossas espinhas
são curvadas e nossas consciências queimam
de um jeito inocente
o que ainda restava do pavio da vida nos
foi distribuído.
Um velho me pede um cigarro
e me conta seus problemas
e isto
é o que ele disse:
que a Idade era um crime
e que a Compaixão apanhou as bolinhas de gude
e que o Ódio apanhou a
grana.
Ele poderia ter sido seu pai
ou o meu.
Ele poderia ter sido um garanhão
ou um santo.
Mas o que quer que ele tenha sido
agora estava condenado
e nós ficamos debaixo do sol e
fumamos
e olhamos em volta
em nosso ócio
para ver quem era o próximo da
fila.
883
Charles Bukowski
O Soldado, Sua Mulher e o Vagabundo
eu vivia como um vagabundo em São Francisco mas certa vez consegui
ir a um concerto sinfônico junto com pessoas
bem-vestidas
e a música era boa mas algo relacionado à
audiência não era
e algo relacionado à orquestra
e ao maestro não
era,
embora o prédio fosse ótimo e a
acústica perfeita
eu preferia escutar música sozinho
no meu rádio
e depois disso eu voltei para o meu quarto e
liguei o rádio mas
veio então uma pancada na parede:
“DESLIGA ESSE MALDITO NEGÓCIO!”
havia um soldado no quarto ao lado
vivendo com sua mulher
e logo ele seria mandado para o front para me proteger
de Hitler e então
eu desliguei o rádio e ouvi sua
mulher dizer, “você não devia ter feito isso”.
e o soldado disse, “POR QUE ESSE OTÁRIO NÃO VAI SE FODER?!”
o que me pareceu ser uma ótima coisa para
fazer com sua mulher.
claro,
isso nunca aconteceu.
de qualquer modo, jamais voltei a pôr meus pés num concerto
e naquela noite escutei o rádio bem
baixinho, meu ouvido colado ao
alto-falante.
a guerra tem seu preço e a paz nunca dura e
milhões de homens na flor da idade iriam morrer por aí
e enquanto eu escutava música clássica
ouvi os dois fazendo amor, desesperados e
lastimosos, através de Shostakovich, Brahms,
Mozart, através do crescendo e do clímax
e através da parede
dividida de nossas escuridões.
ir a um concerto sinfônico junto com pessoas
bem-vestidas
e a música era boa mas algo relacionado à
audiência não era
e algo relacionado à orquestra
e ao maestro não
era,
embora o prédio fosse ótimo e a
acústica perfeita
eu preferia escutar música sozinho
no meu rádio
e depois disso eu voltei para o meu quarto e
liguei o rádio mas
veio então uma pancada na parede:
“DESLIGA ESSE MALDITO NEGÓCIO!”
havia um soldado no quarto ao lado
vivendo com sua mulher
e logo ele seria mandado para o front para me proteger
de Hitler e então
eu desliguei o rádio e ouvi sua
mulher dizer, “você não devia ter feito isso”.
e o soldado disse, “POR QUE ESSE OTÁRIO NÃO VAI SE FODER?!”
o que me pareceu ser uma ótima coisa para
fazer com sua mulher.
claro,
isso nunca aconteceu.
de qualquer modo, jamais voltei a pôr meus pés num concerto
e naquela noite escutei o rádio bem
baixinho, meu ouvido colado ao
alto-falante.
a guerra tem seu preço e a paz nunca dura e
milhões de homens na flor da idade iriam morrer por aí
e enquanto eu escutava música clássica
ouvi os dois fazendo amor, desesperados e
lastimosos, através de Shostakovich, Brahms,
Mozart, através do crescendo e do clímax
e através da parede
dividida de nossas escuridões.
1 127
Charles Bukowski
Nirvana
sem grandes chances,
completamente desprovido de
propósito,
ele era um jovem
seguindo de ônibus
cruzando a Carolina do Norte
em direção a
alguma parte
e então começou a nevar
e o ônibus parou
num pequeno café
nas montanhas
e os passageiros
ali entraram.
sentou juntou ao balcão
com os outros,
fez o pedido e a
comida chegou.
a refeição estava
especialmente
gostosa
assim como o
café.
a garçonete era
diferente das mulheres
que ele
conhecera.
não era afetada,
sentia que dela
emanava um humor
natural.
a frigideira dizia
coisas malucas.
a pia,
logo atrás,
ria, uma risada
boa
limpa e
prazenteira.
o jovem assistiu
à neve cair através da
janela.
queria ficar
naquele café
para sempre.
um sentimento curioso
perpassou-o por completo
de que tudo
era
lindo
ali,
de que sempre seria
maravilhoso ficar
por ali.
então o motorista do ônibus
disse aos passageiros
que era hora de
partir.
o jovem pensou,
ficarei sentado
aqui, apenas ficarei onde
estou.
mas então
ele se ergueu e seguiu
os outros até o
ônibus.
encontrou seu assento
e olhou para o café
através da janela do
ônibus.
então a partida do
veículo, logo uma curva,
em declive, afastando-se
das montanhas.
o jovem
olhou diretamente
para frente.
ouviu os outros
passageiros
falando
de outras coisas,
ou então eles
liam
ou
tentavam
dormir.
não haviam
percebido
a
mágica.
o jovem
virou a cabeça para
o lado,
fechou os
olhos,
fingiu
dormir.
não havia mais nada
a fazer –
apenas escutar
o som do
motor,
o som dos
pneus
sobre a
neve.
Depois de chegar à Filadélfia, encontrei uma pensão e paguei uma semana de aluguel adiantado. O bar mais próximo devia ter uns cinquenta anos. Dava para sentir o cheiro de urina, merda e vômito acumulados ao longo de meio século brotando das frestas do piso, visto que os banheiros ficavam no andar de baixo.
Eram quatro e meia. Dois homens brigavam no meio do bar.
O cara à minha direita disse que seu nome era Danny. O da esquerda, que se chamava Jim.
Danny trazia um cigarro na boca, a ponta brilhando. Uma garrafa de cerveja vazia cruzou o ar. Por um triz, não lhe acertou em cheio no cigarro e no nariz. Não se moveu nem olhou ao redor, bateu a cinza do cigarro no cinzeiro.
– Essa foi perto, seu filho da puta! Mande mais uma dessas e a pancadaria começa!
Todos os lugares estavam ocupados. Havia umas mulheres por ali, algumas donas de casa, gordas e meio estúpidas, e duas ou três senhoras que enfrentavam dificuldades. Ao me sentar por ali, uma garota levantou e se foi com um homem. Retornou em cinco minutos.
– Helen! Helen! Como você consegue fazer isso?
Ela gargalhou.
Outro se lançou sobre ela para experimentar.
– Deve ser bom. Tenho que provar!
Saíram juntos. Helen retornou em cinco minutos.
– Ela deve ter uma bomba de sucção na buceta!
– Tenho que tentar também – disse um velho sentado no fundo do bar. – Não tenho uma ereção desde que Teddy Roosevelt tomou sua última colina.
Com ele, Helen levou dez minutos.
– Quero um sanduíche – disse um gordo. – Quem vai buscar pra mim por uma graninha?
Eu lhe disse que iria.
– Bife no pão, com tudo o que tem direito.
Deu-me algum dinheiro.
– Fique com o troco.
Fui até o lugar onde se faziam os sanduíches. Um velho meio esquisito apareceu.
– Bife no pão, com tudo o que der pra botar em cima. E uma garrafa de cerveja enquanto espero.
Tomei a cerveja, levei o sanduíche até o gordo e procurei outro lugar. Apareceu uma dose de uísque. Virei. Outra surgiu. Virei. A jukebox tocava.
Um jovem, que devia ter uns 24, veio lá dos fundos do bar.
– Preciso que as persianas sejam limpas – ele me disse.
– Sem dúvida.
– O que você faz?
– Nada. Bebo. Vario entre isso.
– Que tal cuidar das persianas?
– Cinco pratas.
– Contratado.
Eles o chamavam de Billy-Boy. Billy-Boy havia se casado com a dona do bar. Ela estava com 45.
Trouxe-me dois baldes, água e sabão, uns esfregões e esponjas. Retirei as persianas, removi as lâminas e comecei.
– Bebida de graça – disse Tommy, o atendente da noite – enquanto você estiver trabalhando.
– Uma dose de uísque, Tommy.
Era um trabalho lento; o pó havia endurecido, formando uma espécie de laca. Cortei minha mão diversas vezes nas plaquetas de metal. A água ensaboada ardia.
– Uma dose de uísque, Tommy.
Terminei o primeiro jogo de persianas e o coloquei no lugar. Os fregueses do bar deram uma olhada no que eu havia feito.
– Maravilha!
– Com certeza vai ajudar o lugar.
– Na certa vão subir o preço das bebidas.
– Uma dose de uísque, Tommy – eu disse.
Baixei outro jogo de persianas, retirei as plaquetas. Desafiei Jim para uma partida de pinball e lhe tomei vinte e cinco centavos, esvaziei os baldes na privada e os enchi com água limpa.
O segundo jogo progrediu ainda mais devagar. Minhas mãos receberam mais cortes. Duvido que essas persianas tivessem sido limpas em dez anos. Ganhei mais 25 centavos no pinball, e então Billy-Boy ordenou que eu voltasse ao trabalho.
Helen passou em direção ao banheiro feminino.
– Helen, vou lhe dar cinco pratas assim que acabar. Será que dá?
– Claro, mas você não vai nem levantar o negócio quando for a hora.
– Levanto sim.
– Estarei aqui quando fecharem. Se você ainda conseguir ficar de pé, faço de graça!
– Estarei firme, baby!
Helen retornou ao banheiro.
– Uma dose de uísque.
– Ei, vá devagar – disse Billy-Boy – ou jamais terminará o trabalho nesta noite.
– Billy, se eu não terminar, você pode ficar com os cinco.
– Fechado. Ouviram isso?
– A gente ouviu, Billy, seu mão-de-vaca.
– A saideira, Tommy.
Tommy me serviu o uísque. Bebi o copo e então fui trabalhar. Consegui progredir. Após mais umas doses de uísque, consegui deixar os três jogos de persianas limpos e brilhantes.
– Tudo pronto, Billy. Pague o que deve.
– Ainda não acabou.
– Como?
– Há mais três janelas no salão dos fundos.
– Salão dos fundos?
– Salão dos fundos. O salão de festas.
Billy-Boy me mostrou o salão dos fundos. Havia mais três janelas, mais três jogos de persianas.
– Deixo por 2,50, Billy.
– Negativo. Ou faz todo o trabalho, ou não recebe nada.
Apanhei os baldes, esvaziei a água suja, enchi de água limpa, sabão, depois desci um novo jogo de persianas. Retirei as plaquetas, depositei-as sobre uma mesa e fiquei olhando para elas.
Jim parou no meio do caminho até o banheiro.
– O que está acontecendo?
– Não conseguirei limpar outro jogo.
Quando Jim saiu do banheiro, foi até o bar e retornou com sua cerveja. Começou a limpar as persianas.
– Jim, deixe disso.
Fui até o bar, peguei mais uma dose. Quando voltei, uma das garotas descia um dos jogos.
– Tome cuidado, não vá se cortar – eu disse a ela.
Alguns minutos depois, havia umas quatro ou cinco pessoas por ali, falando e sorrindo, até mesmo Helen. Todas trabalhavam na limpeza. Logo quase todos os fregueses do bar estavam por lá. Concentrei-me em esvaziar mais dois copos. Finalmente, as persianas estavam limpas e no lugar. Não levou muito tempo. Cintilavam. Billy-Boy apareceu:
– Não tenho que lhe pagar nada.
– O trabalho está terminado.
– Mas não foi você quem terminou.
– Não seja um mão-de-vaca, Billy – alguém disse.
Billy-Boy desencavou uma nota de US$ 5, eu a peguei. Fomos até o bar.
– Uma rodada por minha conta!
Coloquei a nota de US$ 5 sobre o balcão.
– E uma bebida pra mim.
Tommy deu uma volta distribuindo as bebidas.
Tomei a minha e Tommy pegou o dinheiro.
– Você deve US$ 3,15 para o bar.
– Ponha na conta.
– O.k., qual é seu sobrenome?
– Chinaski.
– Conhece aquela do polaco que teve que usar a casinha?
– Sim.
Os drinques continuaram chegando para mim até a hora do fechamento. Após o último, dei uma olhada em volta. Helen tinha desaparecido. Ela mentira.
Como fazem as putas, pensei, assustada com o trabalho que teria...
Ergui-me e tomei o rumo de minha pensão. A lua brilhava. Meus passos ecoavam pela rua vazia, parecendo os passos de um perseguidor. Olhei ao redor. Eu estava enganado. Somente a solidão me acompanhava.
Quando cheguei a St. Louis, fazia muito frio, estava prestes a nevar. Encontrei um quarto num lugar legal e limpo, um segundo andar de fundos. Era cedo da noite e me atacava uma de minhas crises depressivas, o que me fez ir cedo para cama, buscando, de alguma maneira, adormecer.
Quando despertei pela manhã, estava muito frio. Eu tremia de modo incontrolável. Levantei e descobri que uma das janelas estava aberta. Fechei-a e voltei para a cama. Comecei a me sentir nauseado. Consegui dormir mais uma hora, depois acordei. Fiquei de pé, me vesti, mal alcançara o banheiro do corredor quando vomitei. Despi-me novamente e voltei a me deitar. Logo houve uma batida à porta. Não respondi. As batidas continuaram.
– Sim? – respondi.
– Você está bem?
– Sim.
– Podemos entrar?
– Entrem.
Eram duas garotas. Uma estava um pouco acima do peso, mas parecia limpa, radiante, em um vestido florido e rosado. Tinha um rosto gentil. A outra usava um cinto bem apertado que acentuava sua maravilhosa figura. Seu cabelo era longo, negro, e tinha um nariz delicado; usava saltos, dona de pernas perfeitas, vestia uma blusa branca decotada. Seus olhos eram de um castanho-escuro, muito escuro, e seguiam cravados em mim, marotos, muito marotos.
– Sou Gertrude – ela disse – e esta é Hilda.
Hilda se ruborizou quando Gertrude cruzou o quarto em direção à cama.
– Escutamos você no banheiro. Você está passando mal?
– Sim. Mas não é nada sério, tenho certeza. Uma janela aberta.
– A sra. Downing, a senhoria, está fazendo uma sopa para você.
– Não precisa, está tudo bem.
– Vai lhe fazer bem.
Gertrude se aproximou da minha cama. Hilda permaneceu onde estava, rosa e luzidia e ruborizada. Gertrude andava para lá e para cá em seus saltos agudíssimos.
– Você é novo na cidade?
– Sim.
– Não está no exército?
– Não.
– O que você faz?
– Nada.
– Não trabalha?
– Não trabalho.
– Sim – disse Gertrude a Hilda –, olhe essas mãos. Tem as mãos mais lindas que já vi. Dá pra ver que nunca pegaram no batente.
A senhoria, sra. Downing, bateu. Ela era gorda e simpática. Imaginei que seu marido estava morto e que ela era uma pessoa religiosa. Trazia uma enorme tigela de caldo de carne. Podia ver a fumaça subindo. Peguei a tigela. Trocamos gentilezas. Sim, seu marido falecera. Ela era extremamente religiosa. Havia ainda umas bolachas, mais sal e pimenta.
– Muito obrigado.
A sra. Downing olhou para as duas garotas.
– Bem, está na hora de a gente ir. E espero que as garotas não o tenham incomodado muito.
– Oh, não!
Sorri em direção à sopa. Ela gostou do gesto.
– Vamos, garotas.
A sra. Downing deixou a porta aberta. Hilda deu um jeito de ruborizar mais uma vez, deu-me um sorriso discreto, depois saiu. Gertrude permaneceu. Observou-me tomar umas colheradas do caldo.
– Está gostoso?
– Quero agradecer a todas vocês. Tudo isso... não é algo a que eu esteja acostumado.
– Vou indo.
Ela deu meia-volta e caminhou lentamente até a porta. Sua bunda se movia sob a saia negra apertada; suas pernas eram douradas. Junto à soleira, ela parou e se virou, deitando seus olhos negros novamente sobre mim, deixando-os ficar. Fiquei pasmado, em brasa. No momento em que percebeu minha reação, lançou a cabeça para trás e deu uma gargalhada. Tinha um pescoço adorável e toda aquela cabeleira negra. Ela desapareceu no corredor, deixando a porta entreaberta.
Peguei o sal e a pimenta, temperei o caldo, quebrei as bolachas de água e sal e as coloquei na tigela, aplacando minha doença a colheradas.
Após perder várias máquinas de escrever no prego, simplesmente desisti da ideia de possuir uma. Compunha minhas histórias à mão e as enviava dessa maneira. Escrevia-as à pena. Eu precisava ser um calígrafo veloz. Tinha que conseguir executar as letras mais rápido do que as ideias que elas continham. Escrevia três ou quatro contos por semana. Colocava-os no correio. Imaginava os editores da The Atlantic Monthly e da Harper’s dizendo: “Ei, aqui está mais uma das coisas daquele louco...”.
Certa noite, levei Gertrude a um bar. Sentamos lado a lado em uma mesa e bebemos cerveja. Nevava lá fora. Sentia-me um pouco melhor do que de costume. Bebemos e conversamos. Uma hora, ou por volta disso, se passou. Comecei a me fixar nos olhos de Gertrude, e ela me respondia da mesma maneira. “Nos dias de hoje, é difícil encontrar um bom homem!”, dizia a jukebox. Gertrude acompanhava a música com o corpo, com a cabeça, olhava-me nos olhos.
– Você tem uma cara muito estranha – ela disse. – Você não é realmente feio.
– Número quatro no setor de envio de mercadorias, galgando posições.
– Alguma vez você já se apaixonou?
– Isso é para pessoas de verdade.
– Você me parece de verdade.
– Não gosto de pessoas de verdade.
– Não gosta?
– Eu as odeio.
Bebemos mais um pouco, sem falar muito. Continuava a nevar. Gertrude virou a cabeça e ficou olhando para o aglomerado de pessoas. Então voltou a me olhar.
– Ele não é bonito?
– Quem?
– O soldado lá adiante. Está sentado sozinho. Tão ereto. E tem todas as medalhas no uniforme.
– Vamos, é hora de dar o fora daqui.
– Mas ainda é cedo.
– Você pode ficar.
– Não, quero ir com você.
– Não me importo com o que você fizer.
– É por causa do soldado? Você ficou assim por causa do soldado?
– Oh, merda!
– Foi o soldado!
– Estou indo.
Levantei-me, deixei uma gorjeta e caminhei em direção à porta. Ouvi Gertrude atrás de mim. Segui pela rua cortando a neve. Logo ela estava ao meu lado.
– Você nem ao menos pegou um táxi. Andar de salto alto na neve!
Não respondi. Caminhamos as quatro ou cinco quadras até a pensão. Subi os degraus lado a lado com ela. Então entrei em meu quarto, fechei a porta, me despi e fui para a cama. Escutei-a jogar alguma coisa contra a parede em seu quarto.
Filas e mais filas de bicicletas silenciosas. Caixas cheias de peças para bicicleta. Filas e mais filas de bicicletas pendendo do teto: bicicletas verdes, bicicletas vermelhas, bicicletas roxas, bicicletas azuis, bicicletas para meninas, bicicletas para meninos, todas penduradas ali; aros brilhantes, as rodas, os pneus, as tintas, os assentos de couro, as luzes traseiras, os faroletes, os freios de mão; centenas de bicicletas, fila após fila.
Tínhamos uma hora para o almoço. Eu comia depressa, tendo estado desperto ao longo de toda a noite e alvorada, sentia-me cansado e todo dolorido. Havia conseguido encontrar um local escondido debaixo das bicicletas. Eu me arrastava até ali, debaixo de três fileiras de bicicletas imaculadamente arranjadas. Deitava-me ali de costas, e suspensas sobre mim, alinhados com precisão, pendiam pneus, aros prateados e reluzentes, pinturas novas, tudo em perfeita ordem. Tudo era grandioso, correto, ordenado – 500 ou 600 bicicletas se estendendo sobre mim, cobrindo-me, tudo no seu devido lugar. De algum modo, aquilo tinha um profundo significado. Eu as olhava e sabia que tinha 45 minutos de descanso sob aquela árvore de bicicletas.
Ao mesmo tempo, eu sabia, em outra parte da minha consciência, que, se alguma vez eu me deixasse cair no meio de todas aquelas bicicletas cintilantes, seria meu fim, que eu nunca poderia me salvar. Assim, eu ficava ali deitado de costas, deixando que as rodas e os aros e as cores de alguma forma me acalmassem.
Um homem de ressaca jamais deveria deitar de costas e olhar para o telhado de um galpão. As vigas de madeira, por fim, apoderam-se de você; e as claraboias – você pode ver o gradeado para os pássaros sobre as claraboias de vidro – que formam esse gradeado de certa maneira trazem à mente de um homem a imagem de uma prisão. Então há todo aquele peso sobre os olhos, o desejo desesperado por um gole apenas, e o som das pessoas se movendo, você as escuta, sabe que seu tempo está se esgotando, de alguma maneira você terá que se levantar e também entrar nesse movimento, preenchendo ordens e empacotando pedidos...
Ela era a secretária do gerente. Seu nome era Carmen – mas, apesar do nome espanhol, ela era loira e usava vestidos colados de tricô, sapatos de salto agulha, meias de náilon, cinta-liga, trazia a boca muito pintada, porém, ah, ela sabia rebolar, sabia mexer, ondulava os quadris quando vinha com os pedidos até a mesa, voltava do mesmo modo para o escritório, a rapaziada de olho em cada movimento, em cada contração de sua bunda; oscilando, serpenteando, rebolando. Não sou um galanteador. Nunca fui. Para ser um galã, é preciso ter a lábia doce. Nunca fui bom em passar a lábia numa mulher. Mas, finalmente, com Carmen me pressionando, levei-a até um dos transportes de carga que descarregávamos nos fundos do galpão e a peguei de pé, atrás de um desses caminhões. Foi bom, foi quente; pensei no céu azul e em praias amplas e limpas, porém ao mesmo tempo foi triste – faltava, na certa, algum sentimento humano que eu desconhecia ou com o qual não sabia lidar. Eu tinha erguido aquele vestido de tricô acima de seus quadris e fiquei ali, a bombeá-la, apertando, por fim, minha boca contra seus lábios carregados de batom escarlate e gozei entre duas caixas lacradas com o ar cheio de cinzas e com ela pressionada contra um caminhão imundo e descascado na misericordiosa escuridão.
– Factótum
completamente desprovido de
propósito,
ele era um jovem
seguindo de ônibus
cruzando a Carolina do Norte
em direção a
alguma parte
e então começou a nevar
e o ônibus parou
num pequeno café
nas montanhas
e os passageiros
ali entraram.
sentou juntou ao balcão
com os outros,
fez o pedido e a
comida chegou.
a refeição estava
especialmente
gostosa
assim como o
café.
a garçonete era
diferente das mulheres
que ele
conhecera.
não era afetada,
sentia que dela
emanava um humor
natural.
a frigideira dizia
coisas malucas.
a pia,
logo atrás,
ria, uma risada
boa
limpa e
prazenteira.
o jovem assistiu
à neve cair através da
janela.
queria ficar
naquele café
para sempre.
um sentimento curioso
perpassou-o por completo
de que tudo
era
lindo
ali,
de que sempre seria
maravilhoso ficar
por ali.
então o motorista do ônibus
disse aos passageiros
que era hora de
partir.
o jovem pensou,
ficarei sentado
aqui, apenas ficarei onde
estou.
mas então
ele se ergueu e seguiu
os outros até o
ônibus.
encontrou seu assento
e olhou para o café
através da janela do
ônibus.
então a partida do
veículo, logo uma curva,
em declive, afastando-se
das montanhas.
o jovem
olhou diretamente
para frente.
ouviu os outros
passageiros
falando
de outras coisas,
ou então eles
liam
ou
tentavam
dormir.
não haviam
percebido
a
mágica.
o jovem
virou a cabeça para
o lado,
fechou os
olhos,
fingiu
dormir.
não havia mais nada
a fazer –
apenas escutar
o som do
motor,
o som dos
pneus
sobre a
neve.
Depois de chegar à Filadélfia, encontrei uma pensão e paguei uma semana de aluguel adiantado. O bar mais próximo devia ter uns cinquenta anos. Dava para sentir o cheiro de urina, merda e vômito acumulados ao longo de meio século brotando das frestas do piso, visto que os banheiros ficavam no andar de baixo.
Eram quatro e meia. Dois homens brigavam no meio do bar.
O cara à minha direita disse que seu nome era Danny. O da esquerda, que se chamava Jim.
Danny trazia um cigarro na boca, a ponta brilhando. Uma garrafa de cerveja vazia cruzou o ar. Por um triz, não lhe acertou em cheio no cigarro e no nariz. Não se moveu nem olhou ao redor, bateu a cinza do cigarro no cinzeiro.
– Essa foi perto, seu filho da puta! Mande mais uma dessas e a pancadaria começa!
Todos os lugares estavam ocupados. Havia umas mulheres por ali, algumas donas de casa, gordas e meio estúpidas, e duas ou três senhoras que enfrentavam dificuldades. Ao me sentar por ali, uma garota levantou e se foi com um homem. Retornou em cinco minutos.
– Helen! Helen! Como você consegue fazer isso?
Ela gargalhou.
Outro se lançou sobre ela para experimentar.
– Deve ser bom. Tenho que provar!
Saíram juntos. Helen retornou em cinco minutos.
– Ela deve ter uma bomba de sucção na buceta!
– Tenho que tentar também – disse um velho sentado no fundo do bar. – Não tenho uma ereção desde que Teddy Roosevelt tomou sua última colina.
Com ele, Helen levou dez minutos.
– Quero um sanduíche – disse um gordo. – Quem vai buscar pra mim por uma graninha?
Eu lhe disse que iria.
– Bife no pão, com tudo o que tem direito.
Deu-me algum dinheiro.
– Fique com o troco.
Fui até o lugar onde se faziam os sanduíches. Um velho meio esquisito apareceu.
– Bife no pão, com tudo o que der pra botar em cima. E uma garrafa de cerveja enquanto espero.
Tomei a cerveja, levei o sanduíche até o gordo e procurei outro lugar. Apareceu uma dose de uísque. Virei. Outra surgiu. Virei. A jukebox tocava.
Um jovem, que devia ter uns 24, veio lá dos fundos do bar.
– Preciso que as persianas sejam limpas – ele me disse.
– Sem dúvida.
– O que você faz?
– Nada. Bebo. Vario entre isso.
– Que tal cuidar das persianas?
– Cinco pratas.
– Contratado.
Eles o chamavam de Billy-Boy. Billy-Boy havia se casado com a dona do bar. Ela estava com 45.
Trouxe-me dois baldes, água e sabão, uns esfregões e esponjas. Retirei as persianas, removi as lâminas e comecei.
– Bebida de graça – disse Tommy, o atendente da noite – enquanto você estiver trabalhando.
– Uma dose de uísque, Tommy.
Era um trabalho lento; o pó havia endurecido, formando uma espécie de laca. Cortei minha mão diversas vezes nas plaquetas de metal. A água ensaboada ardia.
– Uma dose de uísque, Tommy.
Terminei o primeiro jogo de persianas e o coloquei no lugar. Os fregueses do bar deram uma olhada no que eu havia feito.
– Maravilha!
– Com certeza vai ajudar o lugar.
– Na certa vão subir o preço das bebidas.
– Uma dose de uísque, Tommy – eu disse.
Baixei outro jogo de persianas, retirei as plaquetas. Desafiei Jim para uma partida de pinball e lhe tomei vinte e cinco centavos, esvaziei os baldes na privada e os enchi com água limpa.
O segundo jogo progrediu ainda mais devagar. Minhas mãos receberam mais cortes. Duvido que essas persianas tivessem sido limpas em dez anos. Ganhei mais 25 centavos no pinball, e então Billy-Boy ordenou que eu voltasse ao trabalho.
Helen passou em direção ao banheiro feminino.
– Helen, vou lhe dar cinco pratas assim que acabar. Será que dá?
– Claro, mas você não vai nem levantar o negócio quando for a hora.
– Levanto sim.
– Estarei aqui quando fecharem. Se você ainda conseguir ficar de pé, faço de graça!
– Estarei firme, baby!
Helen retornou ao banheiro.
– Uma dose de uísque.
– Ei, vá devagar – disse Billy-Boy – ou jamais terminará o trabalho nesta noite.
– Billy, se eu não terminar, você pode ficar com os cinco.
– Fechado. Ouviram isso?
– A gente ouviu, Billy, seu mão-de-vaca.
– A saideira, Tommy.
Tommy me serviu o uísque. Bebi o copo e então fui trabalhar. Consegui progredir. Após mais umas doses de uísque, consegui deixar os três jogos de persianas limpos e brilhantes.
– Tudo pronto, Billy. Pague o que deve.
– Ainda não acabou.
– Como?
– Há mais três janelas no salão dos fundos.
– Salão dos fundos?
– Salão dos fundos. O salão de festas.
Billy-Boy me mostrou o salão dos fundos. Havia mais três janelas, mais três jogos de persianas.
– Deixo por 2,50, Billy.
– Negativo. Ou faz todo o trabalho, ou não recebe nada.
Apanhei os baldes, esvaziei a água suja, enchi de água limpa, sabão, depois desci um novo jogo de persianas. Retirei as plaquetas, depositei-as sobre uma mesa e fiquei olhando para elas.
Jim parou no meio do caminho até o banheiro.
– O que está acontecendo?
– Não conseguirei limpar outro jogo.
Quando Jim saiu do banheiro, foi até o bar e retornou com sua cerveja. Começou a limpar as persianas.
– Jim, deixe disso.
Fui até o bar, peguei mais uma dose. Quando voltei, uma das garotas descia um dos jogos.
– Tome cuidado, não vá se cortar – eu disse a ela.
Alguns minutos depois, havia umas quatro ou cinco pessoas por ali, falando e sorrindo, até mesmo Helen. Todas trabalhavam na limpeza. Logo quase todos os fregueses do bar estavam por lá. Concentrei-me em esvaziar mais dois copos. Finalmente, as persianas estavam limpas e no lugar. Não levou muito tempo. Cintilavam. Billy-Boy apareceu:
– Não tenho que lhe pagar nada.
– O trabalho está terminado.
– Mas não foi você quem terminou.
– Não seja um mão-de-vaca, Billy – alguém disse.
Billy-Boy desencavou uma nota de US$ 5, eu a peguei. Fomos até o bar.
– Uma rodada por minha conta!
Coloquei a nota de US$ 5 sobre o balcão.
– E uma bebida pra mim.
Tommy deu uma volta distribuindo as bebidas.
Tomei a minha e Tommy pegou o dinheiro.
– Você deve US$ 3,15 para o bar.
– Ponha na conta.
– O.k., qual é seu sobrenome?
– Chinaski.
– Conhece aquela do polaco que teve que usar a casinha?
– Sim.
Os drinques continuaram chegando para mim até a hora do fechamento. Após o último, dei uma olhada em volta. Helen tinha desaparecido. Ela mentira.
Como fazem as putas, pensei, assustada com o trabalho que teria...
Ergui-me e tomei o rumo de minha pensão. A lua brilhava. Meus passos ecoavam pela rua vazia, parecendo os passos de um perseguidor. Olhei ao redor. Eu estava enganado. Somente a solidão me acompanhava.
Quando cheguei a St. Louis, fazia muito frio, estava prestes a nevar. Encontrei um quarto num lugar legal e limpo, um segundo andar de fundos. Era cedo da noite e me atacava uma de minhas crises depressivas, o que me fez ir cedo para cama, buscando, de alguma maneira, adormecer.
Quando despertei pela manhã, estava muito frio. Eu tremia de modo incontrolável. Levantei e descobri que uma das janelas estava aberta. Fechei-a e voltei para a cama. Comecei a me sentir nauseado. Consegui dormir mais uma hora, depois acordei. Fiquei de pé, me vesti, mal alcançara o banheiro do corredor quando vomitei. Despi-me novamente e voltei a me deitar. Logo houve uma batida à porta. Não respondi. As batidas continuaram.
– Sim? – respondi.
– Você está bem?
– Sim.
– Podemos entrar?
– Entrem.
Eram duas garotas. Uma estava um pouco acima do peso, mas parecia limpa, radiante, em um vestido florido e rosado. Tinha um rosto gentil. A outra usava um cinto bem apertado que acentuava sua maravilhosa figura. Seu cabelo era longo, negro, e tinha um nariz delicado; usava saltos, dona de pernas perfeitas, vestia uma blusa branca decotada. Seus olhos eram de um castanho-escuro, muito escuro, e seguiam cravados em mim, marotos, muito marotos.
– Sou Gertrude – ela disse – e esta é Hilda.
Hilda se ruborizou quando Gertrude cruzou o quarto em direção à cama.
– Escutamos você no banheiro. Você está passando mal?
– Sim. Mas não é nada sério, tenho certeza. Uma janela aberta.
– A sra. Downing, a senhoria, está fazendo uma sopa para você.
– Não precisa, está tudo bem.
– Vai lhe fazer bem.
Gertrude se aproximou da minha cama. Hilda permaneceu onde estava, rosa e luzidia e ruborizada. Gertrude andava para lá e para cá em seus saltos agudíssimos.
– Você é novo na cidade?
– Sim.
– Não está no exército?
– Não.
– O que você faz?
– Nada.
– Não trabalha?
– Não trabalho.
– Sim – disse Gertrude a Hilda –, olhe essas mãos. Tem as mãos mais lindas que já vi. Dá pra ver que nunca pegaram no batente.
A senhoria, sra. Downing, bateu. Ela era gorda e simpática. Imaginei que seu marido estava morto e que ela era uma pessoa religiosa. Trazia uma enorme tigela de caldo de carne. Podia ver a fumaça subindo. Peguei a tigela. Trocamos gentilezas. Sim, seu marido falecera. Ela era extremamente religiosa. Havia ainda umas bolachas, mais sal e pimenta.
– Muito obrigado.
A sra. Downing olhou para as duas garotas.
– Bem, está na hora de a gente ir. E espero que as garotas não o tenham incomodado muito.
– Oh, não!
Sorri em direção à sopa. Ela gostou do gesto.
– Vamos, garotas.
A sra. Downing deixou a porta aberta. Hilda deu um jeito de ruborizar mais uma vez, deu-me um sorriso discreto, depois saiu. Gertrude permaneceu. Observou-me tomar umas colheradas do caldo.
– Está gostoso?
– Quero agradecer a todas vocês. Tudo isso... não é algo a que eu esteja acostumado.
– Vou indo.
Ela deu meia-volta e caminhou lentamente até a porta. Sua bunda se movia sob a saia negra apertada; suas pernas eram douradas. Junto à soleira, ela parou e se virou, deitando seus olhos negros novamente sobre mim, deixando-os ficar. Fiquei pasmado, em brasa. No momento em que percebeu minha reação, lançou a cabeça para trás e deu uma gargalhada. Tinha um pescoço adorável e toda aquela cabeleira negra. Ela desapareceu no corredor, deixando a porta entreaberta.
Peguei o sal e a pimenta, temperei o caldo, quebrei as bolachas de água e sal e as coloquei na tigela, aplacando minha doença a colheradas.
Após perder várias máquinas de escrever no prego, simplesmente desisti da ideia de possuir uma. Compunha minhas histórias à mão e as enviava dessa maneira. Escrevia-as à pena. Eu precisava ser um calígrafo veloz. Tinha que conseguir executar as letras mais rápido do que as ideias que elas continham. Escrevia três ou quatro contos por semana. Colocava-os no correio. Imaginava os editores da The Atlantic Monthly e da Harper’s dizendo: “Ei, aqui está mais uma das coisas daquele louco...”.
Certa noite, levei Gertrude a um bar. Sentamos lado a lado em uma mesa e bebemos cerveja. Nevava lá fora. Sentia-me um pouco melhor do que de costume. Bebemos e conversamos. Uma hora, ou por volta disso, se passou. Comecei a me fixar nos olhos de Gertrude, e ela me respondia da mesma maneira. “Nos dias de hoje, é difícil encontrar um bom homem!”, dizia a jukebox. Gertrude acompanhava a música com o corpo, com a cabeça, olhava-me nos olhos.
– Você tem uma cara muito estranha – ela disse. – Você não é realmente feio.
– Número quatro no setor de envio de mercadorias, galgando posições.
– Alguma vez você já se apaixonou?
– Isso é para pessoas de verdade.
– Você me parece de verdade.
– Não gosto de pessoas de verdade.
– Não gosta?
– Eu as odeio.
Bebemos mais um pouco, sem falar muito. Continuava a nevar. Gertrude virou a cabeça e ficou olhando para o aglomerado de pessoas. Então voltou a me olhar.
– Ele não é bonito?
– Quem?
– O soldado lá adiante. Está sentado sozinho. Tão ereto. E tem todas as medalhas no uniforme.
– Vamos, é hora de dar o fora daqui.
– Mas ainda é cedo.
– Você pode ficar.
– Não, quero ir com você.
– Não me importo com o que você fizer.
– É por causa do soldado? Você ficou assim por causa do soldado?
– Oh, merda!
– Foi o soldado!
– Estou indo.
Levantei-me, deixei uma gorjeta e caminhei em direção à porta. Ouvi Gertrude atrás de mim. Segui pela rua cortando a neve. Logo ela estava ao meu lado.
– Você nem ao menos pegou um táxi. Andar de salto alto na neve!
Não respondi. Caminhamos as quatro ou cinco quadras até a pensão. Subi os degraus lado a lado com ela. Então entrei em meu quarto, fechei a porta, me despi e fui para a cama. Escutei-a jogar alguma coisa contra a parede em seu quarto.
Filas e mais filas de bicicletas silenciosas. Caixas cheias de peças para bicicleta. Filas e mais filas de bicicletas pendendo do teto: bicicletas verdes, bicicletas vermelhas, bicicletas roxas, bicicletas azuis, bicicletas para meninas, bicicletas para meninos, todas penduradas ali; aros brilhantes, as rodas, os pneus, as tintas, os assentos de couro, as luzes traseiras, os faroletes, os freios de mão; centenas de bicicletas, fila após fila.
Tínhamos uma hora para o almoço. Eu comia depressa, tendo estado desperto ao longo de toda a noite e alvorada, sentia-me cansado e todo dolorido. Havia conseguido encontrar um local escondido debaixo das bicicletas. Eu me arrastava até ali, debaixo de três fileiras de bicicletas imaculadamente arranjadas. Deitava-me ali de costas, e suspensas sobre mim, alinhados com precisão, pendiam pneus, aros prateados e reluzentes, pinturas novas, tudo em perfeita ordem. Tudo era grandioso, correto, ordenado – 500 ou 600 bicicletas se estendendo sobre mim, cobrindo-me, tudo no seu devido lugar. De algum modo, aquilo tinha um profundo significado. Eu as olhava e sabia que tinha 45 minutos de descanso sob aquela árvore de bicicletas.
Ao mesmo tempo, eu sabia, em outra parte da minha consciência, que, se alguma vez eu me deixasse cair no meio de todas aquelas bicicletas cintilantes, seria meu fim, que eu nunca poderia me salvar. Assim, eu ficava ali deitado de costas, deixando que as rodas e os aros e as cores de alguma forma me acalmassem.
Um homem de ressaca jamais deveria deitar de costas e olhar para o telhado de um galpão. As vigas de madeira, por fim, apoderam-se de você; e as claraboias – você pode ver o gradeado para os pássaros sobre as claraboias de vidro – que formam esse gradeado de certa maneira trazem à mente de um homem a imagem de uma prisão. Então há todo aquele peso sobre os olhos, o desejo desesperado por um gole apenas, e o som das pessoas se movendo, você as escuta, sabe que seu tempo está se esgotando, de alguma maneira você terá que se levantar e também entrar nesse movimento, preenchendo ordens e empacotando pedidos...
Ela era a secretária do gerente. Seu nome era Carmen – mas, apesar do nome espanhol, ela era loira e usava vestidos colados de tricô, sapatos de salto agulha, meias de náilon, cinta-liga, trazia a boca muito pintada, porém, ah, ela sabia rebolar, sabia mexer, ondulava os quadris quando vinha com os pedidos até a mesa, voltava do mesmo modo para o escritório, a rapaziada de olho em cada movimento, em cada contração de sua bunda; oscilando, serpenteando, rebolando. Não sou um galanteador. Nunca fui. Para ser um galã, é preciso ter a lábia doce. Nunca fui bom em passar a lábia numa mulher. Mas, finalmente, com Carmen me pressionando, levei-a até um dos transportes de carga que descarregávamos nos fundos do galpão e a peguei de pé, atrás de um desses caminhões. Foi bom, foi quente; pensei no céu azul e em praias amplas e limpas, porém ao mesmo tempo foi triste – faltava, na certa, algum sentimento humano que eu desconhecia ou com o qual não sabia lidar. Eu tinha erguido aquele vestido de tricô acima de seus quadris e fiquei ali, a bombeá-la, apertando, por fim, minha boca contra seus lábios carregados de batom escarlate e gozei entre duas caixas lacradas com o ar cheio de cinzas e com ela pressionada contra um caminhão imundo e descascado na misericordiosa escuridão.
– Factótum
2 609
Charles Bukowski
Para Jane: Com Todo Amor Que Tive, Que Não Foi Suficiente: –
recolho a saia,
recolho as luminosas contas negras
do colar,
esta coisa que uma vez se moveu
em torno da carne,
e chamo Deus de mentiroso,
digo que qualquer coisa que
como esta
tenha se movido
ou conhecido
meu nome
jamais poderia morrer
na verdade comum da morte,
e eu recolho
seu vestido
amado,
esvaziado do amor que dela emanava,
e falo
com todos os deuses,
deuses judeus, deuses cristãos,
pedacinhos de coisas brilhantes
ídolos, pílulas, pão,
compreensões, riscos,
renúncias conscientes,
ratos na complacência de dois que foram às raias da loucura
sem qualquer chance,
consciência de colibri, sorte de colibri
apoio-me nisso,
apoio-me em tudo isso
e sei:
seu vestido sobre meus braços:
mas
ninguém irá
devolvê-la para mim.
recolho as luminosas contas negras
do colar,
esta coisa que uma vez se moveu
em torno da carne,
e chamo Deus de mentiroso,
digo que qualquer coisa que
como esta
tenha se movido
ou conhecido
meu nome
jamais poderia morrer
na verdade comum da morte,
e eu recolho
seu vestido
amado,
esvaziado do amor que dela emanava,
e falo
com todos os deuses,
deuses judeus, deuses cristãos,
pedacinhos de coisas brilhantes
ídolos, pílulas, pão,
compreensões, riscos,
renúncias conscientes,
ratos na complacência de dois que foram às raias da loucura
sem qualquer chance,
consciência de colibri, sorte de colibri
apoio-me nisso,
apoio-me em tudo isso
e sei:
seu vestido sobre meus braços:
mas
ninguém irá
devolvê-la para mim.
1 052
Charles Bukowski
Para Jane
225 dias sob a relva
e você sabe mais do que eu.
há muito que eles secaram seu sangue,
você não é mais que um graveto seco numa lixeira.
é assim que as coisas funcionam?
neste quarto
as horas de amor
ainda fazem sombras.
quando você se foi
levou quase
tudo junto.
às noites me ajoelho
diante de tigres
que não deixarão que eu exista.
o que você foi
não voltará a se repetir.
os tigres me encontraram
e eu já não me importo.
e você sabe mais do que eu.
há muito que eles secaram seu sangue,
você não é mais que um graveto seco numa lixeira.
é assim que as coisas funcionam?
neste quarto
as horas de amor
ainda fazem sombras.
quando você se foi
levou quase
tudo junto.
às noites me ajoelho
diante de tigres
que não deixarão que eu exista.
o que você foi
não voltará a se repetir.
os tigres me encontraram
e eu já não me importo.
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