Temas
Poemas neste tema

Outros

Charles Bukowski

Charles Bukowski

Maja Thurup

Houve ampla cobertura da imprensa e da televisão, e a senhora estava para escrever um livro sobre tudo isso. O nome da senhora era Hester Adams, duas vezes divorciada, dois filhos. Tinha 35 anos, e alguém poderia imaginar que essa seria sua última jogada. As rugas estavam aparecendo, os peitos estavam caindo já há algum tempo, os tornozelos e as panturrilhas estavam engrossando, já havia sinais de uma barriga. A América aprendeu que a beleza reside apenas na juventude, especialmente para a mulher. Mas Hester Adams tinha a sombria beleza da frustração e da perda vindoura; era algo que rastejava por cima dela, a perda vindoura, e dava-lhe alguma coisa sexualmente atrativa, como uma mulher desesperada para quem o tempo está passando enquanto ela continua sentada em um bar cheio de homens. Hester tinha olhado ao redor, visto poucos sinais de ajuda vindos dos homens americanos e entrou em um avião para a América do Sul. Entrou na selva com sua câmera, sua máquina de escrever portátil, seus tornozelos que estão engrossando, sua pele branca e arranjou para si um canibal, um canibal negro: Maja Thurup. Maja Thurup tinha uma cara com um bom aspecto. Seu rosto parecia estar marcado por mil ressacas e mil tragédias. E era verdade: passara por mil ressacas, mas todas as tragédias tinham a mesma origem: Maja Thurup tinha o pau maior do que a média, muito maior do que a média. Nenhuma garota na aldeia o aceitava. Tinha provocado a morte de duas garotas com seu instrumento. Uma tinha sido penetrada pela frente e a outra por trás. Não fazia diferença.
Maja era um homem solitário que bebia e pensava em sua solidão até que Hester Adams chegou com um guia e sua pele branca e uma câmera. Depois das apresentações formais e algumas bebidas perto do fogo, Hester tinha entrado na cabana de Maja e aguentado tudo o que Maja Thurup podia meter e ainda pediu por mais. Era um milagre para ambos, e os dois se casaram em uma cerimônia tribal de três dias, durante a qual homens capturados de tribos inimigas eram assados e comidos em meio a danças, encantamentos e embriaguez. Foi depois da cerimônia, depois que as ressacas passaram que os problemas começaram. O pajé, notando que Hester não partilhara da carne assada do homem da tribo inimiga (decorada com abacaxi, azeitona e nozes), anunciou para todos que não se tratava de uma deusa branca, mas uma das filhas de um deus mau chamado Ritikan. (Séculos atrás, Ritikan tinha sido expulso do céu tribal por se recusar a comer qualquer coisa além de vegetais, frutas e nozes.) O anúncio causou dissensão na tribo, e dois amigos de Maja Thurup foram imediatamente assassinados por terem sugerido que a habilidade de Hester de lidar com todo o tamanho do pau de Maja era em si um milagre e o fato de que ela não ingeria outras formas de carne humana poderia ser perdoado, pelo menos temporariamente. Hester e Maja fugiram para a América, para North Hollywood para ser mais preciso, onde Hester deu início aos procedimentos para tornar Maja Thurup um cidadão americano. Sendo uma antiga professora de colégio, Hester começou a instruir Maja no uso de roupas e da língua inglesa, a beber cervejas e vinhos da Califórnia, a assistir a televisão e a se alimentar de comidas compradas no Safety Market mais próximo. Maja não apenas via televisão, mas também aparecia nela com Hester, e eles declararam seu amor publicamente. Então voltaram para seu apartamento em North Hollywood e fizeram amor. Depois Maja sentou no meio do tapete com seus livros de gramática inglesa, bebendo cerveja e vinho e cantando cantos nativos e tocando bongô. Hester trabalhava em seu livro sobre Maja e Hester. Uma grande editora estava esperando. Tudo que Hester precisava fazer era escrever.
Certa manhã, eu estava na cama lá pelas oito horas. No dia anterior eu perdera quarenta dólares em Santa Anita, minhas economias na conta do California Federal estavam se tornando perigosamente baixas e eu não tinha escrito uma história decente em um mês. O telefone tocou. Levantei, pigarreei, tossi e atendi ao telefone.
– Chinaski?
– Sim?
– Aqui é Dan Hudson.
Dan dirigia a revista Flare de Chicago. Ele pagava bem. Era o editor e o diretor.
– Olá, Dan, nossa.
– Olha, tenho algo para você.
– Claro, Dan. O que é?
– Quero que você entreviste uma puta que casou com um canibal. Torne o sexo GRANDE. Misture amor com horror, sabe?
– Sei. Tenho feito isso minha vida toda.
– Pago quinhentos dólares se conseguir entregar antes do prazo final, que é 27 de março.
– Dan, por quinhentos dólares consigo fazer do Burt Reynolds uma lésbica.
Dan me passou o endereço e um número de telefone. Levantei, joguei água na cara, tomei dois Alka-Seltezers, abri uma garrafa de cerveja e telefonei para Hester Adams. Contei-lhe que queria dar publicidade a sua relação com Maja Thurup como uma das maiores histórias de amor do século XX. Para os leitores da revista Flare. Afirmei-lhe que isso ajudaria Maja a obter sua cidadania americana. Ela concordou com a entrevista, e marcamos para a primeira hora da tarde.
Era um apartamento no terceiro andar de um prédio sem elevador. Ela abriu a porta. Maja estava sentado no chão, com seu bongô, bebendo uma garrafa de um vinho do Porto direto do gargalo. Estava descalço, vestia calças jeans apertadas e uma camiseta branca com listras pretas, zebrada. Hester estava vestindo uma roupa idêntica. Trouxe-me uma garrafa de cerveja, peguei um cigarro do maço na mesa de café e comecei a entrevista.
– Quando você viu Maja pela primeira vez?
Hester me deu uma data. Também disse a hora com exatidão e o lugar.
– Quando você começou a perceber os primeiros sentimentos de amor por Maja? Quais foram exatamente as circunstâncias que desencadearam a relação?
– Bem – disse Hester –, foi quando...
– Ela me ama quando eu meto o troço nela – disse Maja do tapete.
– Ele aprendeu inglês muito rapidamente, não é mesmo?
– Sim, ele é brilhante.
Maja pegou a garrafa e tomou um bom gole.
– Meto o troço nela, ela dizer “Oh meu deus oh meu deus oh meu deus!” Rá, rá, rá, rá!
– Maja tem um corpo fantástico – ela disse.
– Ela engole também – disse Maja –, ela engole bem. Garganta profunda, rá, rá, rá!
– Amei Maja desde o começo – disse Hester. – Foram seus olhos, seu rosto... tão trágico. E o jeito que ele caminhava. Ele caminha, bem, ele caminha meio que como um tigre.
– Porra – disse Maja –, trepamos e esporreamos, porra, foda, porra. Estou ficando cansado.
Maja bebeu mais um pouco. Ele me olhou.
– Você fode ela. Eu cansei. Ela grande túnel faminto.
– Maja tem um senso de humor muito peculiar – disse Hester. – Isso foi outra coisa que me fez amá-lo ainda mais.
– A única coisa que você gosta em mim – disse Maja – é o meu caralho poste telefônico.
– Maja está bebendo desde a manhã – disse Hester –, você terá de perdoá-lo.
– Talvez seja mais adequado que eu volte quando ele estiver melhor.
– Acho que sim.
Hester marcou um novo horário comigo, duas da tarde do dia seguinte.
Tudo corria bem. Eu precisava de fotografias. Conhecia um fotógrafo totalmente arruinado, um tal de Sam Jacoby que era bom e cobraria barato. Levei-o até lá comigo. Era uma tarde ensolarada com apenas uma fina camada de poluição no ar. Subimos e toquei a campainha. Não houve resposta. Toquei a campainha mais uma vez. Maja abriu a porta.
– Hester não está – ele disse. – Foi à loja de conveniências.
– Tínhamos hora marcada para as duas da tarde em ponto. Gostaria de entrar e esperar.
Entramos e sentamos.
– Mim tocar tambor para você – disse Maja.
Ele tocou o tambor e cantou alguns cantos da floresta. Ele era muito bom. Estava bebendo outra garrafa de vinho do Porto. Ainda estava vestindo sua camiseta listrada ao estilo zebra e seus jeans.
– Foder, foder, foder – ele disse. – É só o que ela quer. Ela me deixa louco.
– Sente falta da floresta, Maja?
– Você não caga contra a corrente, paizinho.
– Mas ela ama você, Maja.
– Rá, rá, rá!
Maja fez outro solo no tambor. Mesmo bêbado ele era bom.
Quando Maja acabou, Sam me perguntou:
– Você acha que ela pode ter uma cerveja na geladeira?
– Pode ser.
– Minha cabeça não está boa. Preciso de uma cerveja.
– Vai lá. Traga duas. Depois compro mais para ela. Eu devia ter trazido algumas.
Sam levantou-se e foi até a cozinha. Ouvi a porta da geladeira se abrindo.
– Estou escrevendo um artigo sobre você e Hester – disse para Maja.
– Mulher buracão. Nunca enche. Como um vulcão.
Ouvi Sam vomitando na cozinha. Ele bebia muito. Sabia que estava de ressaca. Mas ainda assim era um dos melhores fotógrafos em atividade. Então tudo ficou quieto. Sam voltou caminhando. Sentou-se. Não trouxe a cerveja.
– Eu tocar tambor mais uma vez – disse Maja.
Ele tocou novamente. Ainda estava tocando bem. Embora não tão bem como da outra vez. O vinho estava pegando.
– Vamos sair daqui – Sam me disse.
– Tenho que esperar por Hester – respondi.
– Cara, vamos embora – disse Sam.
– Vocês querem um pouco de vinho? – Maja ofereceu.
Levantei e fui até a cozinha buscar uma cerveja. Sam me seguiu. Fui em direção à geladeira.
– Por favor, não abra essa porta! – ele disse.
Sam caminhou até a pia e vomitou mais uma vez. Olhei para a porta da geladeira. Não a abri. Quando Sam acabou, eu disse:
– Tudo bem. Vamos embora.
Caminhamos até a sala da frente, onde Maja ainda estava sentado tocando seu bongô.
– Eu tocar tambor mais uma vez – ele disse.
– Não, obrigado, Maja.
Saímos e descemos a escada e ganhamos a rua. Entramos no meu carro. Dei a partida e arranquei. Não sabia o que dizer. Sam não disse nada. Estávamos no bairro comercial. Dirigi até um posto de gasolina e disse ao frentista para encher o tanque com gasolina comum. Sam saiu do carro e foi até um telefone público para ligar para a polícia. Vi Sam sair da cabine telefônica. Paguei pela gasolina. Não consegui minha entrevista. Fiquei sem os meus quinhentos dólares. Esperei enquanto Sam voltava para o carro.
– Ao sul de lugar nenhum
1 552
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Maja Thurup

Houve ampla cobertura da imprensa e da televisão, e a senhora estava para escrever um livro sobre tudo isso. O nome da senhora era Hester Adams, duas vezes divorciada, dois filhos. Tinha 35 anos, e alguém poderia imaginar que essa seria sua última jogada. As rugas estavam aparecendo, os peitos estavam caindo já há algum tempo, os tornozelos e as panturrilhas estavam engrossando, já havia sinais de uma barriga. A América aprendeu que a beleza reside apenas na juventude, especialmente para a mulher. Mas Hester Adams tinha a sombria beleza da frustração e da perda vindoura; era algo que rastejava por cima dela, a perda vindoura, e dava-lhe alguma coisa sexualmente atrativa, como uma mulher desesperada para quem o tempo está passando enquanto ela continua sentada em um bar cheio de homens. Hester tinha olhado ao redor, visto poucos sinais de ajuda vindos dos homens americanos e entrou em um avião para a América do Sul. Entrou na selva com sua câmera, sua máquina de escrever portátil, seus tornozelos que estão engrossando, sua pele branca e arranjou para si um canibal, um canibal negro: Maja Thurup. Maja Thurup tinha uma cara com um bom aspecto. Seu rosto parecia estar marcado por mil ressacas e mil tragédias. E era verdade: passara por mil ressacas, mas todas as tragédias tinham a mesma origem: Maja Thurup tinha o pau maior do que a média, muito maior do que a média. Nenhuma garota na aldeia o aceitava. Tinha provocado a morte de duas garotas com seu instrumento. Uma tinha sido penetrada pela frente e a outra por trás. Não fazia diferença.
Maja era um homem solitário que bebia e pensava em sua solidão até que Hester Adams chegou com um guia e sua pele branca e uma câmera. Depois das apresentações formais e algumas bebidas perto do fogo, Hester tinha entrado na cabana de Maja e aguentado tudo o que Maja Thurup podia meter e ainda pediu por mais. Era um milagre para ambos, e os dois se casaram em uma cerimônia tribal de três dias, durante a qual homens capturados de tribos inimigas eram assados e comidos em meio a danças, encantamentos e embriaguez. Foi depois da cerimônia, depois que as ressacas passaram que os problemas começaram. O pajé, notando que Hester não partilhara da carne assada do homem da tribo inimiga (decorada com abacaxi, azeitona e nozes), anunciou para todos que não se tratava de uma deusa branca, mas uma das filhas de um deus mau chamado Ritikan. (Séculos atrás, Ritikan tinha sido expulso do céu tribal por se recusar a comer qualquer coisa além de vegetais, frutas e nozes.) O anúncio causou dissensão na tribo, e dois amigos de Maja Thurup foram imediatamente assassinados por terem sugerido que a habilidade de Hester de lidar com todo o tamanho do pau de Maja era em si um milagre e o fato de que ela não ingeria outras formas de carne humana poderia ser perdoado, pelo menos temporariamente. Hester e Maja fugiram para a América, para North Hollywood para ser mais preciso, onde Hester deu início aos procedimentos para tornar Maja Thurup um cidadão americano. Sendo uma antiga professora de colégio, Hester começou a instruir Maja no uso de roupas e da língua inglesa, a beber cervejas e vinhos da Califórnia, a assistir a televisão e a se alimentar de comidas compradas no Safety Market mais próximo. Maja não apenas via televisão, mas também aparecia nela com Hester, e eles declararam seu amor publicamente. Então voltaram para seu apartamento em North Hollywood e fizeram amor. Depois Maja sentou no meio do tapete com seus livros de gramática inglesa, bebendo cerveja e vinho e cantando cantos nativos e tocando bongô. Hester trabalhava em seu livro sobre Maja e Hester. Uma grande editora estava esperando. Tudo que Hester precisava fazer era escrever.
Certa manhã, eu estava na cama lá pelas oito horas. No dia anterior eu perdera quarenta dólares em Santa Anita, minhas economias na conta do California Federal estavam se tornando perigosamente baixas e eu não tinha escrito uma história decente em um mês. O telefone tocou. Levantei, pigarreei, tossi e atendi ao telefone.
– Chinaski?
– Sim?
– Aqui é Dan Hudson.
Dan dirigia a revista Flare de Chicago. Ele pagava bem. Era o editor e o diretor.
– Olá, Dan, nossa.
– Olha, tenho algo para você.
– Claro, Dan. O que é?
– Quero que você entreviste uma puta que casou com um canibal. Torne o sexo GRANDE. Misture amor com horror, sabe?
– Sei. Tenho feito isso minha vida toda.
– Pago quinhentos dólares se conseguir entregar antes do prazo final, que é 27 de março.
– Dan, por quinhentos dólares consigo fazer do Burt Reynolds uma lésbica.
Dan me passou o endereço e um número de telefone. Levantei, joguei água na cara, tomei dois Alka-Seltezers, abri uma garrafa de cerveja e telefonei para Hester Adams. Contei-lhe que queria dar publicidade a sua relação com Maja Thurup como uma das maiores histórias de amor do século XX. Para os leitores da revista Flare. Afirmei-lhe que isso ajudaria Maja a obter sua cidadania americana. Ela concordou com a entrevista, e marcamos para a primeira hora da tarde.
Era um apartamento no terceiro andar de um prédio sem elevador. Ela abriu a porta. Maja estava sentado no chão, com seu bongô, bebendo uma garrafa de um vinho do Porto direto do gargalo. Estava descalço, vestia calças jeans apertadas e uma camiseta branca com listras pretas, zebrada. Hester estava vestindo uma roupa idêntica. Trouxe-me uma garrafa de cerveja, peguei um cigarro do maço na mesa de café e comecei a entrevista.
– Quando você viu Maja pela primeira vez?
Hester me deu uma data. Também disse a hora com exatidão e o lugar.
– Quando você começou a perceber os primeiros sentimentos de amor por Maja? Quais foram exatamente as circunstâncias que desencadearam a relação?
– Bem – disse Hester –, foi quando...
– Ela me ama quando eu meto o troço nela – disse Maja do tapete.
– Ele aprendeu inglês muito rapidamente, não é mesmo?
– Sim, ele é brilhante.
Maja pegou a garrafa e tomou um bom gole.
– Meto o troço nela, ela dizer “Oh meu deus oh meu deus oh meu deus!” Rá, rá, rá, rá!
– Maja tem um corpo fantástico – ela disse.
– Ela engole também – disse Maja –, ela engole bem. Garganta profunda, rá, rá, rá!
– Amei Maja desde o começo – disse Hester. – Foram seus olhos, seu rosto... tão trágico. E o jeito que ele caminhava. Ele caminha, bem, ele caminha meio que como um tigre.
– Porra – disse Maja –, trepamos e esporreamos, porra, foda, porra. Estou ficando cansado.
Maja bebeu mais um pouco. Ele me olhou.
– Você fode ela. Eu cansei. Ela grande túnel faminto.
– Maja tem um senso de humor muito peculiar – disse Hester. – Isso foi outra coisa que me fez amá-lo ainda mais.
– A única coisa que você gosta em mim – disse Maja – é o meu caralho poste telefônico.
– Maja está bebendo desde a manhã – disse Hester –, você terá de perdoá-lo.
– Talvez seja mais adequado que eu volte quando ele estiver melhor.
– Acho que sim.
Hester marcou um novo horário comigo, duas da tarde do dia seguinte.
Tudo corria bem. Eu precisava de fotografias. Conhecia um fotógrafo totalmente arruinado, um tal de Sam Jacoby que era bom e cobraria barato. Levei-o até lá comigo. Era uma tarde ensolarada com apenas uma fina camada de poluição no ar. Subimos e toquei a campainha. Não houve resposta. Toquei a campainha mais uma vez. Maja abriu a porta.
– Hester não está – ele disse. – Foi à loja de conveniências.
– Tínhamos hora marcada para as duas da tarde em ponto. Gostaria de entrar e esperar.
Entramos e sentamos.
– Mim tocar tambor para você – disse Maja.
Ele tocou o tambor e cantou alguns cantos da floresta. Ele era muito bom. Estava bebendo outra garrafa de vinho do Porto. Ainda estava vestindo sua camiseta listrada ao estilo zebra e seus jeans.
– Foder, foder, foder – ele disse. – É só o que ela quer. Ela me deixa louco.
– Sente falta da floresta, Maja?
– Você não caga contra a corrente, paizinho.
– Mas ela ama você, Maja.
– Rá, rá, rá!
Maja fez outro solo no tambor. Mesmo bêbado ele era bom.
Quando Maja acabou, Sam me perguntou:
– Você acha que ela pode ter uma cerveja na geladeira?
– Pode ser.
– Minha cabeça não está boa. Preciso de uma cerveja.
– Vai lá. Traga duas. Depois compro mais para ela. Eu devia ter trazido algumas.
Sam levantou-se e foi até a cozinha. Ouvi a porta da geladeira se abrindo.
– Estou escrevendo um artigo sobre você e Hester – disse para Maja.
– Mulher buracão. Nunca enche. Como um vulcão.
Ouvi Sam vomitando na cozinha. Ele bebia muito. Sabia que estava de ressaca. Mas ainda assim era um dos melhores fotógrafos em atividade. Então tudo ficou quieto. Sam voltou caminhando. Sentou-se. Não trouxe a cerveja.
– Eu tocar tambor mais uma vez – disse Maja.
Ele tocou novamente. Ainda estava tocando bem. Embora não tão bem como da outra vez. O vinho estava pegando.
– Vamos sair daqui – Sam me disse.
– Tenho que esperar por Hester – respondi.
– Cara, vamos embora – disse Sam.
– Vocês querem um pouco de vinho? – Maja ofereceu.
Levantei e fui até a cozinha buscar uma cerveja. Sam me seguiu. Fui em direção à geladeira.
– Por favor, não abra essa porta! – ele disse.
Sam caminhou até a pia e vomitou mais uma vez. Olhei para a porta da geladeira. Não a abri. Quando Sam acabou, eu disse:
– Tudo bem. Vamos embora.
Caminhamos até a sala da frente, onde Maja ainda estava sentado tocando seu bongô.
– Eu tocar tambor mais uma vez – ele disse.
– Não, obrigado, Maja.
Saímos e descemos a escada e ganhamos a rua. Entramos no meu carro. Dei a partida e arranquei. Não sabia o que dizer. Sam não disse nada. Estávamos no bairro comercial. Dirigi até um posto de gasolina e disse ao frentista para encher o tanque com gasolina comum. Sam saiu do carro e foi até um telefone público para ligar para a polícia. Vi Sam sair da cabine telefônica. Paguei pela gasolina. Não consegui minha entrevista. Fiquei sem os meus quinhentos dólares. Esperei enquanto Sam voltava para o carro.
– Ao sul de lugar nenhum
1 552
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Poema de Amor Para Uma Stripper

50 anos atrás eu assistia às garotas
balançarem seus rabos e se despir
no Burbank e no Follies
e era muito triste
e muito dramático
assim que a luz ia do verde para
o púrpura e para o rosa
e a música era alta e
vibrante,
agora fico sentado aqui
fumando e
ouvindo música
clássica
mas ainda me lembro de alguns de seus
nomes: Darlene, Candy, Jeanette
e Rosalie.
Rosalie era a
melhor, tinha a manha,
e nós nos revirávamos em nossas poltronas e
fazíamos barulho
enquanto Rosalie levava mágica
aos solitários
de tanto tempo atrás.
escute Rosalie
ou velha demais ou
tranquila demais debaixo da
terra,
aqui fala o garoto
espinhento
que mentia a
idade
só para
te ver.
você era boa, Rosalie
em 1935,
suficientemente boa para ser lembrada
agora
que a luz é
amarela
e as noites correm
mansas.

O tempo do colégio passou com rapidez suficiente. Por volta da oitava série, indo para a nona, comecei a ter acne. Muitos dos caras tinham esse problema, mas não no mesmo grau que eu. Meu caso era realmente terrível. Era o mais grave em toda a cidade. Eu tinha espinhas e erupções por toda a face, costas, todo o pescoço e um pouco no peito. Isso aconteceu no exato momento em que eu começava a ser aceito como um cara durão e um líder. Eu continuava durão, mas não era a mesma coisa. Tive que me retirar. Observava as pessoas à distância, como numa peça de teatro. Apenas eles estavam no palco, e eu era plateia de um homem só. Eu sempre tivera problema com as garotas, mas agora, coberto de acnes, eu estava condenado. As garotas ficaram mais distantes do que nunca. Algumas delas eram verdadeiramente belas – seus vestidos, seus cabelos, seus olhos, o jeito como se moviam. Simplesmente caminhar rua abaixo durante uma tarde com uma delas, você sabe, falando qualquer coisa sobre qualquer assunto, creio que isso teria me feito sentir bastante bem.
Além disso, havia algo em mim que continuava sendo fonte de constantes problemas. A maioria dos professores não gostava ou não confiava em mim, especialmente as professoras. Nunca disse nada fora do convencional, mas alegavam que se tratava da minha “atitude”. Era algo relacionado com o modo como eu sentava com desleixo na cadeira e também meu “tom de voz”. Eu era frequentemente acusado de estar “escarnecendo”, embora eu não tivesse consciência disso. Constantemente, me faziam ficar do lado de fora da sala, de pé, no corredor, ou me mandavam para a sala da direção. O diretor sempre fazia a mesma coisa. Ele tinha uma cabine telefônica em sua sala. Obrigava-me a ficar de pé dentro da cabine e a fechava. Passei muitas horas dentro daquela cabine. A única coisa que havia para ler ali dentro era a Ladies Home Journal[4]. Era tortura deliberada. De qualquer forma, eu acabava lendo as revistas. Tinha que ler cada novo número. Eu esperava que talvez pudesse aprender alguma coisa sobre as mulheres.
Eu devia ter uns cinco mil deméritos acumulados à época da graduação, mas isso não teve importância. Queriam se livrar de mim. Eu estava de pé do lado de fora, na fila que entrava no auditório ao ritmo de um por vez. Todos nós estávamos com a toga e o barrete vagabundos que já tinham atravessado gerações e gerações de formandos antes de nós. Podíamos ouvir o nome de cada pessoa à medida que ela entrava no palco. Estavam transformando nossa graduação numa maldita comédia. A banda tocou o hino do colégio:
Ó, Mt. Justin, Ó, Mt. Justin
Nós seremos leais
Nossos corações cantam fervorosos
A certeza de amanhãs celestiais...
Ficamos alinhados, cada qual esperando sua hora de marchar pelo palco. Na plateia estavam nossos pais e amigos.
– Estou quase vomitando – disse um dos caras.
– Saímos de uma merda para nos metermos em outra – disse um segundo.
As garotas pareciam encarar a coisa com maior seriedade. Era por isso que não se podia confiar nelas. Pareciam compactuar com as coisas erradas. Elas e o colégio pareciam cantar em uníssono o mesmo hino.
– Esse negócio me deixa deprimido – disse um dos caras. – Queria fumar um cigarro.
– Aqui tem um...
Um dos outros caras lhe alcançou um cigarro. Nós o passamos, éramos quatro ou cinco. Dei uma tragada e exalei a fumaça pelo nariz. Então vi Curly Wagner se aproximar.
– Apaguem o cigarro! – eu disse. – Aí vem o cabeça de vômito!
Wagner caminhou reto na minha direção. Usava o seu abrigo cinza, incluindo a camiseta, exatamente como eu o vira da primeira vez e em todas as oportunidades seguintes. Parou na minha frente.
– Escute – ele disse –, se você acha que está se livrando de mim porque está saindo daqui está muito enganado! Vou seguir você pelo resto da vida. Vou seguir você até os confins da Terra e vou pegá-lo!
Simplesmente o encarei, sem nenhum comentário, e ele se afastou. O discursinho de Wagner serviu para aumentar meu prestígio entre os rapazes. Pensaram que eu tinha feito algo realmente diabólico para deixá-lo tão irritado. Mas não era verdade. Wagner era simplesmente maluco.
Nos aproximávamos cada vez mais da porta do auditório. Não só podíamos ouvir cada nome que era pronunciado e os aplausos na sequência, mas também víamos a plateia. Então, chegou a minha vez.
– Henry Chinaski – o diretor disse ao microfone.
E avancei. Não houve nenhum aplauso. Então uma alma gentil na plateia bateu duas ou três palmas.
Havia algumas filas de cadeiras dispostas no palco para a turma que se graduava. Sentamos lá e esperamos. O diretor fez o seu discurso sobre a América ser a terra das oportunidades e do sucesso. Então tudo acabou. A banda atacou novamente o hino do colégio Mt. Justin. Os estudantes e seus pais e seus amigos se ergueram e se congregaram. Andei por ali, procurando. Meus pais não estavam lá. Quis ter certeza. Dei mais uma volta, procurando com afinco.
Estava tudo bem. Um cara durão não precisava dessas coisas. Tirei o barrete e a toga e os alcancei ao cara no fim do corredor – o porteiro. Ele guardou as peças para a próxima formatura.
Ganhei a rua. O primeiro a sair. Mas para onde eu poderia ir? Tinha onze centavos no bolso. Segui de volta para o lugar em que eu vivia.
– Misto-quente
1 408
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Garras do Paraíso

borboleta de madeira
sorriso de bicarbonato de sódio
mosca de serragem
amo minha pança
e o homem da loja de bebidas
me chama,
“sr. Schlitz.”
os caixas no hipódromo
gritam,
“O POETA SABE A VERDADE!”
quando desconto meus bilhetes.
as senhoras
dentro e fora da cama
dizem que me amam
e eu sigo por aí com pés
molhados e brancos.
albatrozes com olhos embriagados
as cuecas sujas do Popeye
percevejos de Paris,
já limpei as barricadas
dominei o
automóvel
a ressaca
as lágrimas
mas eu conheço
a condenação final
como qualquer garoto de escola que vê
o gato ser esmagado
pelo tráfego.
meu crânio tem uma fenda de
quatro centímetros bem no
topo.
a maioria dos meus dentes está
na frente. sinto
tonturas em supermercados
cuspo sangue quando bebo
uísque
e me entristeço
até a
aflição
quando penso em todas as
boas mulheres que conheci
que se
dissolveram
desapareceram
por trivialidades:
viagens a Pasadena,
piqueniques de criança,
tampas de pasta de dente
ralo abaixo.
não há nada a fazer
senão beber
jogar nos cavalos
apostar no poema
enquanto as jovens
se tornam mulheres
e as metralhadoras
apontam para mim
encolhidas
atrás de paredes mais finas
que pálpebras.
não há defesa
exceto em todos os erros
cometidos.
nesse meio-tempo
tomo banhos de chuveiro
atendo ao telefone
ponho ovos pra ferver
estudo o movimento e a perda
e me sinto tão bem
quanto o próximo instante
caminhando ao sol.

Fay estava indo bem com a gravidez. Para uma mulher madura, ela estava bem. Esperávamos em casa. Finalmente chegou a hora.
– Não vai levar muito tempo – ela disse. – Não quero chegar lá muito cedo.
Saí e dei uma verificada no carro. Retornei.
– Ooooh, oh – ela disse. – Não, espere.
Talvez ela pudesse salvar o mundo. Orgulhava-me sua calma. Perdoei-a a louça suja, a The New Yorker e a oficina de escritores. A velha era apenas mais uma criatura sozinha num mundo que não estava nem aí pra ela.
– É melhor irmos agora – eu disse.
– Não – disse Fay –, não quero fazer você esperar muito tempo. Sei que você não anda se sentindo bem.
– Fodam-se meus problemas. Vamos fazer isso duma vez.
– Não, por favor, Hank.
Ela simplesmente ficou ali sentada.
– Em que posso ajudar você? – perguntei.
– Nada.
Ficou onde estava por mais dez minutos. Fui até a cozinha atrás de um copo d’água. Quando voltei, ela disse:
– Você está pronto pra dirigir?
– Claro.
– Sabe onde fica o hospital?
– Claro.
Ajudei-a a entrar no carro. Havia percorrido duas vezes o trajeto na semana passada, como treinamento. Mas quando cheguei lá não fazia a mais vaga ideia de onde estacionar. Fay apontou para uma pista.
– Vá por ali. Estacione ali. Entramos por esse caminho.
– Sim, senhora – eu disse...
Ela estava num leito, num quarto dos fundos que dava para a rua. Seu rosto se contraía.
– Segure minha mão – ela disse.
Foi o que fiz.
– Está mesmo acontecendo? – perguntei.
– Sim.
– Você faz tudo parecer tão fácil – eu disse.
– Você é muito gentil. Isso ajuda.
– Gosto de ser gentil. É aquele maldito Correio...
– Eu sei. Eu sei.
Olhávamos pela janela dos fundos.
Eu disse:
– Olhe para aquelas pessoas lá embaixo. Não fazem ideia do que acontece aqui em cima. Apenas caminham pela calçada. Sim, isso é engraçado... uma vez eles também tiveram que nascer, cada um deles.
– Sim, é engraçado.
Podia sentir os movimentos do corpo dela através de sua mão.
– Segure mais forte – ela disse.
– Sim.
– Vou odiar quando você tiver que ir.
– Onde está o médico? Onde está todo mundo? Mas que merda!
– Eles logo aparecem.
Logo em seguida uma enfermeira entrou. Era um hospital católico e se tratava de uma enfermeira muito bonita, morena, espanhola ou portuguesa.
– O senhor... deve sair... agora – ela me disse.
Mostrei a Fay meus dedos cruzados e sorri um sorriso torto. Não creio que ela tenha visto. Peguei o elevador e desci.
Meu médico alemão me acordou. O mesmo que me havia feito os testes sanguíneos.
– Parabéns – ele disse, com um aperto de mão –, é uma menina. Quatro quilos.
– E a mãe?
– A mãe ficará bem. Não deu nenhum trabalho.
– Quando posso ver as duas?
– O senhor será avisado. Trate de sentar, eles virão chamá-lo. – E então ele se foi.
Olhei através do vidro. A enfermeira apontou para a minha filha. Seu rosto estava bem vermelho e ela chorava mais alto do que todos os outros bebês. A sala estava cheia de bebês, todos aos berros. Quantos nascimentos! A enfermeira parecia muito orgulhosa de meu bebê. Ao menos, esperava que aquela criança fosse a minha. Ela a ergueu de modo que eu pudesse vê-la melhor. Sorri através do vidro, não sabia como agir. Ela apenas berrou para mim. Pobrezinha, pensei, pobre criatura. Eu não sabia então que ela seria linda um dia, que se pareceria muito comigo, hahaha.
Gesticulei para a enfermeira que baixasse o bebê, então dei um tchauzinho para as duas. Era uma enfermeira bacana. Boas pernas, boas cadeiras. Seios fartos.
Fay tinha uma mancha de sangue no lado esquerdo de sua boca, e eu apanhei um lenço molhado e limpei a marca. As mulheres foram feitas para sofrer, não era à toa que estavam sempre pedindo declarações de amor.
– Queria que eles me deixassem com a nenê – disse Fay –, não está certo isso de nos separarem.
– Eu sei. Mas deve haver alguma razão de ordem médica.
– Sim, mas mesmo assim não parece certo.
– Não, não é mesmo. Mas a menina parece bem. Farei o que puder para que eles a tragam o quanto antes. Deve ter uns quarenta bebês por lá. Estão fazendo todas as mães esperarem. Acho que isso deve acontecer pra que elas tenham tempo de se recuperar. Nosso bebê parece muito forte, posso lhe garantir. Por favor, não se preocupe.
– Eu ficaria tão feliz com a minha nenê.
– Eu sei, eu sei. Não vai demorar.
– Senhor – uma enfermeira gorda, mexicana, se aproximou –, vou ter que pedir para o senhor sair agora.
– Mas eu sou o pai.
– Sim, nós sabemos. Mas sua esposa precisa descansar agora.
Apertei a mão de Fay, beijei-lhe a testa. Ela fechou os olhos e pareceu dormir. Não era uma mulher jovem. Talvez ela não tivesse salvado o mundo, mas tinha feito uma grande melhoria. Um brinde a Fay.
– Cartas na rua
1 319
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Garras do Paraíso

borboleta de madeira
sorriso de bicarbonato de sódio
mosca de serragem
amo minha pança
e o homem da loja de bebidas
me chama,
“sr. Schlitz.”
os caixas no hipódromo
gritam,
“O POETA SABE A VERDADE!”
quando desconto meus bilhetes.
as senhoras
dentro e fora da cama
dizem que me amam
e eu sigo por aí com pés
molhados e brancos.
albatrozes com olhos embriagados
as cuecas sujas do Popeye
percevejos de Paris,
já limpei as barricadas
dominei o
automóvel
a ressaca
as lágrimas
mas eu conheço
a condenação final
como qualquer garoto de escola que vê
o gato ser esmagado
pelo tráfego.
meu crânio tem uma fenda de
quatro centímetros bem no
topo.
a maioria dos meus dentes está
na frente. sinto
tonturas em supermercados
cuspo sangue quando bebo
uísque
e me entristeço
até a
aflição
quando penso em todas as
boas mulheres que conheci
que se
dissolveram
desapareceram
por trivialidades:
viagens a Pasadena,
piqueniques de criança,
tampas de pasta de dente
ralo abaixo.
não há nada a fazer
senão beber
jogar nos cavalos
apostar no poema
enquanto as jovens
se tornam mulheres
e as metralhadoras
apontam para mim
encolhidas
atrás de paredes mais finas
que pálpebras.
não há defesa
exceto em todos os erros
cometidos.
nesse meio-tempo
tomo banhos de chuveiro
atendo ao telefone
ponho ovos pra ferver
estudo o movimento e a perda
e me sinto tão bem
quanto o próximo instante
caminhando ao sol.

Fay estava indo bem com a gravidez. Para uma mulher madura, ela estava bem. Esperávamos em casa. Finalmente chegou a hora.
– Não vai levar muito tempo – ela disse. – Não quero chegar lá muito cedo.
Saí e dei uma verificada no carro. Retornei.
– Ooooh, oh – ela disse. – Não, espere.
Talvez ela pudesse salvar o mundo. Orgulhava-me sua calma. Perdoei-a a louça suja, a The New Yorker e a oficina de escritores. A velha era apenas mais uma criatura sozinha num mundo que não estava nem aí pra ela.
– É melhor irmos agora – eu disse.
– Não – disse Fay –, não quero fazer você esperar muito tempo. Sei que você não anda se sentindo bem.
– Fodam-se meus problemas. Vamos fazer isso duma vez.
– Não, por favor, Hank.
Ela simplesmente ficou ali sentada.
– Em que posso ajudar você? – perguntei.
– Nada.
Ficou onde estava por mais dez minutos. Fui até a cozinha atrás de um copo d’água. Quando voltei, ela disse:
– Você está pronto pra dirigir?
– Claro.
– Sabe onde fica o hospital?
– Claro.
Ajudei-a a entrar no carro. Havia percorrido duas vezes o trajeto na semana passada, como treinamento. Mas quando cheguei lá não fazia a mais vaga ideia de onde estacionar. Fay apontou para uma pista.
– Vá por ali. Estacione ali. Entramos por esse caminho.
– Sim, senhora – eu disse...
Ela estava num leito, num quarto dos fundos que dava para a rua. Seu rosto se contraía.
– Segure minha mão – ela disse.
Foi o que fiz.
– Está mesmo acontecendo? – perguntei.
– Sim.
– Você faz tudo parecer tão fácil – eu disse.
– Você é muito gentil. Isso ajuda.
– Gosto de ser gentil. É aquele maldito Correio...
– Eu sei. Eu sei.
Olhávamos pela janela dos fundos.
Eu disse:
– Olhe para aquelas pessoas lá embaixo. Não fazem ideia do que acontece aqui em cima. Apenas caminham pela calçada. Sim, isso é engraçado... uma vez eles também tiveram que nascer, cada um deles.
– Sim, é engraçado.
Podia sentir os movimentos do corpo dela através de sua mão.
– Segure mais forte – ela disse.
– Sim.
– Vou odiar quando você tiver que ir.
– Onde está o médico? Onde está todo mundo? Mas que merda!
– Eles logo aparecem.
Logo em seguida uma enfermeira entrou. Era um hospital católico e se tratava de uma enfermeira muito bonita, morena, espanhola ou portuguesa.
– O senhor... deve sair... agora – ela me disse.
Mostrei a Fay meus dedos cruzados e sorri um sorriso torto. Não creio que ela tenha visto. Peguei o elevador e desci.
Meu médico alemão me acordou. O mesmo que me havia feito os testes sanguíneos.
– Parabéns – ele disse, com um aperto de mão –, é uma menina. Quatro quilos.
– E a mãe?
– A mãe ficará bem. Não deu nenhum trabalho.
– Quando posso ver as duas?
– O senhor será avisado. Trate de sentar, eles virão chamá-lo. – E então ele se foi.
Olhei através do vidro. A enfermeira apontou para a minha filha. Seu rosto estava bem vermelho e ela chorava mais alto do que todos os outros bebês. A sala estava cheia de bebês, todos aos berros. Quantos nascimentos! A enfermeira parecia muito orgulhosa de meu bebê. Ao menos, esperava que aquela criança fosse a minha. Ela a ergueu de modo que eu pudesse vê-la melhor. Sorri através do vidro, não sabia como agir. Ela apenas berrou para mim. Pobrezinha, pensei, pobre criatura. Eu não sabia então que ela seria linda um dia, que se pareceria muito comigo, hahaha.
Gesticulei para a enfermeira que baixasse o bebê, então dei um tchauzinho para as duas. Era uma enfermeira bacana. Boas pernas, boas cadeiras. Seios fartos.
Fay tinha uma mancha de sangue no lado esquerdo de sua boca, e eu apanhei um lenço molhado e limpei a marca. As mulheres foram feitas para sofrer, não era à toa que estavam sempre pedindo declarações de amor.
– Queria que eles me deixassem com a nenê – disse Fay –, não está certo isso de nos separarem.
– Eu sei. Mas deve haver alguma razão de ordem médica.
– Sim, mas mesmo assim não parece certo.
– Não, não é mesmo. Mas a menina parece bem. Farei o que puder para que eles a tragam o quanto antes. Deve ter uns quarenta bebês por lá. Estão fazendo todas as mães esperarem. Acho que isso deve acontecer pra que elas tenham tempo de se recuperar. Nosso bebê parece muito forte, posso lhe garantir. Por favor, não se preocupe.
– Eu ficaria tão feliz com a minha nenê.
– Eu sei, eu sei. Não vai demorar.
– Senhor – uma enfermeira gorda, mexicana, se aproximou –, vou ter que pedir para o senhor sair agora.
– Mas eu sou o pai.
– Sim, nós sabemos. Mas sua esposa precisa descansar agora.
Apertei a mão de Fay, beijei-lhe a testa. Ela fechou os olhos e pareceu dormir. Não era uma mulher jovem. Talvez ela não tivesse salvado o mundo, mas tinha feito uma grande melhoria. Um brinde a Fay.
– Cartas na rua
1 319
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Jantar, 1933

quando meu pai comia
seus lábios ficam
gordurosos
de comida.
e quando ele comia
falava sobre como
a comida
estava boa
e como
a maioria das outras pessoas
não comia
tão bem
como
a gente.
gostava de
esfregar
o que sobrava
em seu prato
com um pedaço de
pão,
enquanto emitia
sons de apreciação
que estavam a meio caminho
entre o gemido e o
ronco.
sorvia o café fazendo
barulho
produzindo
um alto
gorgolejar.
então baixava
a xícara sobre a
mesa:
“sobremesa? é
gelatina?”
minha mãe lhe
traria o doce
numa enorme taça
e meu pai ali
meteria a
colher.
assim que ela
afundava
a gelatina produzia
sons estranhos,
quase como
o som de
peidos.
então vinha o
creme batido,
montanhas brancas
sobre a
gelatina.
“ah! gelatina e
creme batido!”
meu pai sugava a
gelatina e o creme
batido
de sua colher –
era como se ela
entrasse em
um túnel de
vento.
o doce
terminado
ele limparia a
boca
com um descomunal guardanapo
branco,
esfregando com força
num movimento
circular,
o guardanapo quase
escondendo
seu rosto
todo.
depois disso
vinham os
cigarros
Camel.
ele acendia um
com um fósforo
de cozinha,
que ele largava,
ainda em chamas,
no
cinzeiro.
então mais um gole barulhento de
café, a xícara novamente
sobre a mesa, uma boa
tragada no
Camel.
“ah, isso é o que eu chamo de uma
boa
refeição!”
um pouco mais tarde
em meu quarto
na minha cama
no escuro
a comida que eu
havia ingerido
e o que eu havia
visto
já começavam
a me revirar
o estômago.
a única coisa
boa
era
ouvir os
grilos
do lado de fora,
lá fora
num outro mundo
do qual eu não
fazia
parte.

Um dia, semelhante ao que acontecera na escola fundamental com David, um garoto se apegou a mim. Era pequeno e magro e não tinha quase nenhum fio de cabelo no topo da cabeça. Os caras o chamavam de Carequinha. Seu nome verdadeiro era Eli LaCrosse. Eu gostava de seu nome real, mas não gostava da sua pessoa. Ele se grudara em mim. Era uma figura tão lastimável que não podia dizer a ele simplesmente que sumisse. Era como um cachorro vira-lata, faminto, cansado de ser expulso a patadas. Ainda assim, era desagradável tê-lo à minha volta. Contudo, desde que eu percebera sua aura de vira-lata, deixei que ficasse por perto. Usava uma praga em quase todas as frases que saíam de sua boca, no mínimo uma praga, mas era tudo pose, estava longe de ser um cara durão, era medo puro. Eu não tinha medo, mas era um sujeito confuso. Assim, talvez formássemos um par adequado.
Acompanhava-o até em casa todos os dias depois das aulas. Vivia com sua mãe, seu pai e seu avô. Tinham uma casinha do lado de lá de um pequeno parque. Eu gostava do lugar, tinha grandes árvores que davam sombra, e, desde que algumas pessoas haviam me dito que eu era feio, sempre preferi a sombra ao sol, a escuridão à luz.
Durante nossas caminhadas para casa, Carequinha tinha me falado de seu pai. Ele fora médico, um cirurgião de sucesso, mas tinha perdido sua licença em função da bebida. Um dia conheci o pai do Carequinha. Estava sentado numa cadeira debaixo de uma árvore, sem fazer nada.
– Pai – ele disse –, esse é o Henry.
– Olá, Henry.
Lembrei-me de quando vira meu avô pela primeira vez, parado nos degraus em frente à sua casa. A diferença é que o pai do Carequinha tinha a barba e o cabelo pretos, mas seus olhos eram iguais – brilhantes e luminosos, tão estranhos. E ali estava Carequinha, o filho, sem qualquer tipo de brilho.
– Vamos – disse Carequinha –, venha comigo.
Entramos em uma adega, debaixo da casa. Era escura e úmida e ficamos parados até que nossos olhos se acostumassem à escuridão. Então pude ver uma porção de barris.
– Esses barris estão cheios de diferentes qualidades de vinho – disse Carequinha. – Cada barril tem uma torneira. Quer experimentar algum deles?
– Não.
– Vamos lá, apenas tome um maldito gole.
– Pra quê?
– Mas que maldição, você se considera um homem ou não?
– Sou durão – eu disse.
– Então experimenta, caralho!
Ali estava o Carequinha querendo me desafiar. Nenhum problema. Fui até um barril e abaixei a cabeça.
– Abra a maldita torneira! Abra essa maldita boca!
– Há alguma aranha por aqui?
– Vá em frente, desgraçado!
Abri a boca e a torneira. Um líquido malcheiroso jorrou para dentro da minha goela. Cuspi tudo.
– Não seja um veadinho! Engula, caralho!
Abri novamente a torneira e minha boca. O líquido malcheiroso entrou e eu o engoli. Fechei a torneira e fiquei ali parado. Pensei que fosse vomitar.
– Agora é a sua vez de beber um pouco – eu disse ao Carequinha.
– Claro – ele disse –, não estou me cagando de medo!
Abaixou-se na frente de um barril e deu uma boa golada. Um merdinha daqueles não ia me superar. Fui até outro barril, abri a torneira e dei um gole. Fiquei de pé. Começava a me sentir bem.
– Ei, Carequinha – eu disse –, gostei desse negócio.
– Então, caralho, beba um pouco mais.
E foi o que fiz. O gosto estava melhorando. Eu estava melhorando.
– Esse negócio é do seu pai, Carequinha. Eu não devia beber tudo.
– Ele não se importa. Parou de beber.
Nunca me sentira tão bem. Era melhor do que masturbação.
Fui de barril em barril. Era mágico. Por que ninguém havia me falado a respeito disso? Com a bebida, a vida era maravilhosa, um homem era perfeito, nada mais poderia feri-lo.
Fiquei de pé, ereto, e encarei o Carequinha.
– Onde está a sua mãe? Vou foder sua mãe!
– Mato você, seu filho da puta, fique longe da minha mãe!
– Você sabe que eu posso lhe dar uma surra, Carequinha?
– Sim.
– Tudo bem, vou deixar sua mãe em paz.
– Vamos embora então, Henry.
– Mais um trago...
Fui até um barril e dei uma longa talagada. Depois subimos a escada da adega. Quando saímos, o pai do Carequinha ainda estava sentado na sua cadeira.
– Vocês estavam na adega, não?
– Sim – respondeu o Carequinha.
– Começando um pouco cedo, não acham?
Não respondemos. Caminhamos até a avenida e Carequinha e eu fomos até uma loja que vendia chicletes. Compramos várias caixas e enfiamos todos os chicletes em nossas bocas. Ele estava preocupado que sua mãe descobrisse. Eu não me preocupava com nada. Sentamos num banco de parque e mascamos nossos chicletes. Pensei: bem, agora descobri alguma coisa, alguma coisa que irá me ajudar nos tantos dias que ainda hão de vir. A grama do parque parecia mais verde, os bancos do parque se tornaram mais bonitos, e as flores se esforçavam nesse sentido. Talvez essa coisa não fosse boa para cirurgiões, mas alguém que escolhia essa carreira já devia ter algo de errado na cabeça desde o princípio.
– Misto-quente
1 265
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Jovem Em Nova Orleans

morrendo de fome por ali, percorrendo os bares,
e à noite caminhando pelas ruas por
horas,
a luz do luar sempre me parecia
falsa, talvez fosse mesmo,
e no Bairro Francês eu via
passar os cavalos e as carroças,
todos sentados muito eretos nos carros
abertos, o motorista negro, e na
traseira o homem e a mulher,
frequentemente jovens e sempre brancos.
e eu estava sempre branco.
e muito pouco encantado com o
mundo.
Nova Orleans era um lugar onde se
esconder.
eu podia jogar fora a minha vida,
sem ser molestado.
exceto pelos ratos.
os ratos no meu quarto acanhado e escuro
profundamente ressentidos por terem de dividi-lo
comigo.
eles eram grandes e destemidos
e me encaravam com olhos
que comunicavam
sem pestanejar
uma ideia de morte.
as mulheres estavam fora do meu alcance.
viam em mim algo de
depravado.
havia uma garçonete
um pouco mais velha do que
eu, que esboçava um sorriso,
demorando-se ao me
trazer o
café.
aquilo me bastava,
era o
suficiente.
havia alguma coisa, porém,
naquela cidade:
ela não me deixava sentir culpa
por não ter sentimentos em relação às
coisas que tantos outros
precisavam.
ela me deixava em paz.
sentado em minha cama
as luzes apagadas,
ouvindo os sons que vinham
de fora,
erguendo a minha garrafa
de vinho barato,
deixando o calor
da uva
entrar
em mim
enquanto eu escutava os ratos
movendo-se ao redor do
quarto,
eu os preferia
aos
humanos.
estar perdido
quem sabe louco
não era tão mau
se você pudesse
ficar assim:
quieto no seu canto.
foi algo que Nova Orleans me
deu.
ninguém jamais chamou
meu nome.
nada de telefonemas,
nem carro,
nem emprego,
nada de
nada.
apenas eu e os
ratos
e minha juventude,
naquele tempo,
aquele tempo
eu sabia
mesmo através do
vazio,
era uma
celebração
não de algo a ser
feito
mas apenas
conhecido.
1 136
Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Noite Mais Estranha Que de Fato Você Já Viu

eu tinha esse quarto da frente na DeLongpre
e costumava me sentar por horas
durante o dia
olhando pela janela
da frente.
havia um número incontável de garotas que
passavam
rebolando;
aquilo salvava minhas tardes,
acrescentava algo à cerveja e aos
cigarros.
certo dia eu vi alguma coisa
a mais.
escutei primeiro o som.
“vamos lá, empurrem!”, ele disse.
era uma enorme tábua
com 1 metro de largura por
20 de comprimento;
com rodinhas atarraxadas às extremidades
e ao meio.
ele puxava pela frente
usando duas longas cordas presas à tábua
e ela ia atrás
controlando a direção e também empurrando.
todos os seus bens estavam atados àquela
tábua:
potes, panelas, colchas e tudo o mais
amarrado à tábua
bem preso;
e as rodinhas rangiam.
ele era branco, um colono, um
sulista –
magro, curvo, as calças a ponto
de cair e revelar
seu rabo –
o rosto rosado pelo sol e o
vinho barato,
e ela negra
caminhando aprumada
empurrando;
ela era simplesmente maravilhosa
de turbante
grandes brincos verdes
um vestido amarelo
que ia
do pescoço ao
tornozelo.
seu rosto estava gloriosamente
indiferente.
“não se preocupe!” ele gritou, voltando-se para
ela, “alguém vai
nos alugar um quarto!”
ela não respondeu.
então eles desapareceram
embora eu ainda ouvisse
as rodinhas.
eles iriam conseguir,
pensei.
tenho certeza que
sim.

Tudo começou com um equívoco.
Era época de Natal e soube através do bêbado que vivia colina acima, que fazia esse esquema todo Natal, que eles contratavam quase qualquer um, e então eu pintei lá e quando me dei conta eu já estava com essa mochila de couro nas costas, dando voltas por aí a meu bel-prazer. Que trabalho, pensei. Uma moleza! Eles lhe designavam apenas uma ou duas quadras e, se você conseguisse percorrê-las a tempo, o carregador regular designava mais uma quadra, ou talvez você pudesse retornar e o supervisor lhe indicava uma nova área, mas dava para fazer as coisas à sua maneira, ou seja, levar o tempo que fosse preciso para colocar os cartões de natal nas caixas postais.
Creio que foi no meu segundo dia como temporário que essa mulher enorme apareceu e passou a me acompanhar enquanto eu entregava as cartas. Quero dizer com esse enorme é que seu rabo era enorme e suas tetas eram enormes e que ela era enorme em todos os lugares certos. Ela parecia um pouco louca, mas segui olhando para seu corpo mesmo assim, sem me importar.
Ela falava e falava e falava. Então deixou escapar. Seu marido era um oficial servindo numa ilha distante e ela se sentia sozinha, sabe, e vivia naquela casinha dos fundos, por conta própria.
– Que casinha? – perguntei.
Escreveu o endereço num pedaço de papel.
– Também sou sozinho – eu disse –, mais tarde apareço por lá pra gente conversar.
Eu era comprometido, mas a minha parceira estava fora boa parte do tempo, em algum lugar, o que me fazia alguém sozinho de fato. Estava sozinho e pronto para ter aquele enorme rabo junto a mim.
– Está bem – ela disse –, vejo você de noite.
Ela era muito legal, era uma boa trepada, mas como todas as trepadas, depois da terceira ou quarta noite, comecei a perder o interesse e não voltei mais.
Mas eu não conseguia deixar de pensar, deus, tudo o que esses carteiros têm pra fazer é entregar suas cartas e trepar. Esse é o trabalho certo pra mim, oh, sim sim sim.
Então fiz o exame, passei, depois o teste físico, passei, e lá estava eu – um carteiro substituto. No começo foi moleza. Mandaram-me para a Estação West Avon e era como no Natal, exceto que eu não trepava com ninguém. Todo dia eu esperava dormir com alguém, mas não conseguia. Mas o supervisor era camarada e eu me arrastava pelas redondezas, uma quadra aqui outra ali. Não usava sequer um uniforme, apenas um boné. Usava minhas roupas de sempre. Do jeito que eu e minha parceira Betty bebíamos, mal sobrava dinheiro para roupas.
Então fui transferido para a Estação Oakford.
O supervisor era um tipo pescoçudo chamado Jonstone. Estavam precisando de ajuda por ali e entendi por quê. Jonstone gostava de vestir camisas vermelho-escuras – significando perigo e sangue. Havia sete substitutos – Tom Moto, Nick Pelligrini, Herman Stratford, Rosey Anderson, Bobby Hansen, Harold Wiley e eu, Henry Chinaski. O horário de chegada era às cinco da manhã e eu era o único bêbado por ali. Sempre bebia até depois da meia-noite, e lá ficávamos nós sentados, às cinco da manhã, esperando pelo turno, esperando que algum dos carteiros regulares ligasse dizendo estar doente. Isto normalmente ocorria em dias de chuva ou numa onda de calor ou nos dias depois de feriados, quando as cartas se acumulavam e o peso dobrava.
Havia quarenta ou cinquenta rotas diferentes, talvez mais, cada situação era diferente, não havia nunca como se familiarizar com elas, você precisava apanhar as cartas que lhe cabiam e estar pronto antes das oito para os despachos por caminhão, e Jonstone não aceitava desculpas. Os substitutos faziam entregas em qualquer canto, seguiam sem almoço e morriam pelas ruas. Jonstone nos mandava fazer as entregas já com trinta minutos de atraso – girando em sua cadeira em sua camisa vermelha:
– Chinaski, pegue a rota 539!
Começávamos meia hora atrasados, mas ainda assim tínhamos que fazer as entregas a tempo e voltar no horário. E uma ou duas vezes por semana, já combalidos, exaustos e fodidos, tínhamos que fazer as coletas noturnas, e o horário do cronograma era impossível de ser cumprido – o caminhão jamais seria tão rápido. Era preciso pular quatro ou cinco caixas na primeira corrida e na próxima volta elas já estavam entupidas de cartas e você fedia, corria com o suor invadindo os sacos. E eu, que só queria uma foda, acabei fodido. Com a cortesia de Jonstone.
Os próprios substitutos tornaram Jonstone possível ao obedecer suas ordens impossíveis. Não conseguia entender como um homem cuja crueldade era tão patente tinha permissão para ocupar sua posição. Os carteiros regulares não davam a mínima, o cara do sindicato era um inútil, então preenchi um relatório de trinta páginas num dos meus dias de folga, enviei uma cópia pelo correio para Jonstone e a outra levei pessoalmente ao Escritório Federal. O atendente me pediu para esperar. E assim esperei e esperei e esperei. Esperei por uma hora e meia, então fui conduzido à presença de um homenzinho de cabelos cinzentos, com olhos que pareciam cinza de cigarro. Não chegou nem a pedir que eu sentasse. Começou a gritar comigo mal eu passei pela porta.
– O senhor é um desses filhos da puta metidos a esperto, não é?
– Pediria que o senhor não me xingasse, senhor!
– Sim, um desses filhos da puta sabichões, com seu vocabulariozinho de filho da puta, que não perde uma chance de mostrar o quanto sabe!
Ele me estendeu os papéis. E gritou:
– O SR. JONSTONE É UM ÓTIMO HOMEM!
– Não seja tolo. O sujeito é obviamente um sádico – eu disse.
– Há quanto tempo o senhor está nos Correios?
– Três semanas.
– O SR. JONSTONE ESTÁ NOS CORREIOS HÁ TRINTA ANOS!
– Sim, e o que isso tem a ver com o assunto?
– Já disse, O SR. JONSTONE É UM ÓTIMO HOMEM!
Creio que o pobre sujeito tinha vontade mesmo de me matar. Ele e Jonstone deviam ter dormido juntos.
– Tudo bem – eu disse –, Jonstone é um ótimo homem. Esqueça essa porra toda.
Então me afastei e tirei o dia seguinte de folga. Sem remuneração, claro.
– Cartas na rua
1 126
Charles Bukowski

Charles Bukowski

22.000 Dólares Em 3 Meses

a noite chegou como um ser que se arrasta
corrimão acima, sibilando sua língua
de fogo, e me lembro dos
missionários com a lama até os joelhos
batendo em retirada através do belo rio azul
e as balas da metralhadora erguendo pequenas
fontes e Jones bêbado junto à margem
dizendo fodam-se esses selvagens
onde arrumaram armas de fogo?
e eu retorno pra ver Maria
e ela diz, você acha que eles vão atacar,
acha que eles vão atravessar o rio?
medo de morrer? lhe pergunto, e ela diz
quem não tem?
e eu fui até o armário de remédios
e me servi uma taça cheia, e disse
ganhamos 22.000 dólares em 3 meses construindo estradas
pro Jones e é preciso morrer um pouco
para fazer tudo mais depressa... Você acha que os comunistas
começaram com isso? ela perguntou, você acha que são os comunistas?
e eu disse, dá pra parar de ser uma vaca neurótica.
essas republiquetas crescem porque estão
enchendo os bolsos com dinheiro dos dois lados... e ela
me olhou com aquela linda estupidez das colegiais
e se afastou, escurecia mas eu a deixei partir,
precisamos saber quando é hora de deixar uma mulher ir a fim de mantê-la,
e se você não quer ficar com ela deixa-a ir de qualquer maneira,
assim que é sempre um processo de deixar partir, de um modo ou de outro,
então me sentei e terminei o drinque e preparei outro
e pensei, quem poderia imaginar que um curso de engenharia na Old Miss
poderia trazê-lo para onde as lâmpadas balançam devagar
no verde de certa noite distante?
e Jones apareceu com o braço ao redor de sua cintura azul
e ela também andara bebendo, e eu me aproximei e disse,
marido e mulher? e isso a deixou puta porque se uma mulher não pode
pegá-lo pelo cangote e fazê-lo de gato e sapato, está acabada,
e eu me servi mais uma dose caprichada, e
disse, vocês 2 podem não perceber
mas não vamos sair vivos daqui.
bebemos o resto da noite.
você poderia ouvir, se ficasse bem parado,
a água descendo através das árvores de deus,
e as estradas que havíamos construído
dava pra ouvir os animais a cruzá-las
e os selvagens, tolos bárbaros com alguma cruz bárbara para enterrar.
e finalmente o último olhar no espelho
enquanto os amantes embriagados se abraçam
e se afastam e erguem um pedaço de palha
do teto da cabana
então acendem o isqueiro, e eu
vejo as chamas se alastrarem, como ratos esfaimados
sobre as frágeis estruturas marrons, vagarosamente mas de modo
real, e logo irreal, algo que parecia uma ópera,
e então caminhei em direção ao som da metralha,
o mesmo rio, e a lua voltada para mim
e no caminho eu vi uma cobra, das pequenas,
mais parecendo uma cascavel, mas não poderia ser uma cascavel,
e se assustou ao me ver, e eu a agarrei atrás do pescoço
antes que pudesse se enrolar e então a segurei
seu pequeno corpo se enroscando ao redor do meu pulso
como um dedo amoroso e todas as árvores abriram seus olhos
e eu levei minha boca à sua
e o amor era iluminação e lembrança,
comunistas mortos, fascistas mortos, democratas mortos, deuses mortos e
ao retornar ao que restara da cabana de Jones
lá estava seu braço morto e carbonizado ao redor de sua cintura azul e morta.
1 013
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Saboreio As Cinzas de Tua Morte

as florações espargem
água inesperada
pela manga da minha camisa,
água inesperada
fresca e pura
como neve –
enquanto espadas
afiadas como talos
penetram
em seu peito
e as doces e selvagens
pedras
caem sobre nós
e
nos encerram.

Foi quando desenvolvi um novo sistema para usar no hipódromo. Eu tinha arrumado três mil dólares em um mês e meio, indo às corridas apenas duas ou três vezes por semana. Comecei a sonhar. Vi uma casinha à beira-mar. Vi-me vestido com roupas caras, calmo, levantando de manhã, entrando em meu carro importado, dirigindo com suavidade na saída da garagem. Vi jantares prazerosos com belos filés, precedidos e sucedidos por deliciosos drinques gelados em copos coloridos. A bela gorjeta. O charuto. E mulheres a mancheias. É fácil se deixar levar por esse tipo de pensamento quando os homens lhe entregam notas graúdas no guichê das apostas. Quando numa corrida de 1.200 m, que leva, digamos, um minuto e nove segundos, você ganha o equivalente a um mês de salário.
Então ali estava eu, de pé no escritório do superintendente. Lá estava ele atrás de sua mesa. Eu tinha um charuto na boca e uísque no meu hálito. Sentia-me endinheirado. Eu parecia endinheirado.
– Sr. Winters – eu disse –, os Correios sempre me trataram bem. Mas há interesses externos que simplesmente exigem minha atenção. Se o senhor não puder me dar uma licença, serei obrigado a me demitir.
– Já não lhe dei uma licença no início do ano, Chinaski?
– Não, sr. Winters, o senhor rejeitou o meu pedido de licença. Desta vez isto não será possível. Ou a licença ou a demissão.
– Tudo bem, preencha o formulário e eu o assinarei. Mas só posso lhe dar noventa dias de dispensa.
– Aceito – eu disse, exalando uma longa coluna de fumaça azul de meu charuto caro.
– Cartas na rua
1 103
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Dia Em Que Mandei Meu Pé-De-Meia Pro Espaço

e, eu disse, você pode pegar seus tios e tias ricos
e avós e pais
e todo o petróleo fétido deles
e seus sete lagos
e todos os seus perus
e búfalos
e o estado inteiro do Texas,
quer dizer, seus espantalhos
e suas caminhadas de sábado à noite no calçadão,
e sua biblioteca de 50 centavos
e seus vereadores corruptos
e seus artistas aveadados –
pode pegar tudo isso
e seu jornal semanal
e seus famosos tornados,
e suas nojentas enchentes
e todos os seus gatos miantes
e sua assinatura da Time,
e enfiar no rabo, baby,
bem no meio do rabo.
posso voltar a manusear uma picareta e um machado (acho)
e posso arranjar
25 pratas por uma luta de 4 assaltos (talvez);
claro, estou com 38
mas um pouco de tintura pode esconder os fios
grisalhos do meu cabelo;
e ainda posso escrever um poema (às vezes),
não se esqueça disso, e mesmo que
não rendam nada,
é melhor do que esperar por mortes e petróleo,
e dar tiros em perus selvagens,
e esperar que o mundo
comece a girar.
tudo bem, vagabundo, ela disse,
dê o fora.
o quê? eu disse
dê o fora. você teve seu
último acesso de fúria.
cansei dos seus acessos de fúria:
você sempre atua como um
personagem de uma peça de O’Neill.
mas eu sou diferente, baby,
não consigo
evitar.
você é diferente, essa é boa!
Nossa, quanta diferença!
não bata
a porta
quando sair.
mas, baby, eu amo o seu
dinheiro!
você nunca me disse
que me ama!
o que você quer afinal
um mentiroso ou um
amante?
de você não quero nada! se manda, vagabundo,
se manda!
... mas baby!
volta lá pro seu O’Neill!
fui até a porta,
fechei-a com cuidado e me afastei,
pensando: tudo o que elas querem
é um índio de madeira
que diga sim e não
e fique parado junto ao fogo e
não faça muito barulho;
mas acontece que você já não é mais
uma criança, rapaz;
da próxima vez jogue visando
o pé-de-
meia.

Passei o Natal com Betty. Ela assou um peru e nós bebemos. Betty sempre gostou de grandes árvores de Natal. Essa devia ter uns dois metros de altura por um de largura, coberta com luzes, lâmpadas elétricas, lantejoulas e outras porcarias. Bebemos várias doses de uísque, fizemos amor, comemos nosso peru, bebemos mais um pouco. O prego da base estava frouxo e a base não era grande o suficiente para dar suporte à árvore. Eu ficava tentando ajeitá-lo. Betty se esticou na cama e apagou. Eu bebia no chão, de cuecas. Então também me estiquei. Fechei os olhos. Alguma coisa me despertou. Abri os olhos. Bem a tempo de ver a enorme árvore coberta de luzes quentes se inclinar devagar em minha direção, a estrela pontuda descendo como uma adaga. Não consegui entender muito bem o que estava acontecendo. Parecia o fim do mundo. Não conseguia me mexer. Os galhos da árvore me impediam. Eu estava debaixo dela. As lâmpadas incandesciam.
– Oh, OH, JESUS CRISTO, TENHA PIEDADE! SENHOR, ME AJUDE! JESUS! JESUS! SOCORRO!
As lâmpadas me queimavam. Rolei para a esquerda, mas não consegui me libertar, depois rolei para a direita.
– AI!
Finalmente consegui escapar rolando de baixo da árvore. Betty estava de pé, parada.
– O que aconteceu? O que é isso?
– NÃO ESTÁ VENDO? ESSA MALDITA ÁRVORE TENTOU ME MATAR!
– O quê?
– SIM, OLHA PRA MIM!
Meu corpo estava coberto de marcas vermelhas.
– Oh, pobrezinho!
Segui até a parede e desliguei a árvore da tomada. As luzes se apagaram. A coisa estava morta.
– Oh, minha pobre arvorezinha!
– Pobre arvorezinha?
– É, me deu tanta pena!
– Amanhã de manhã eu boto ela de pé de novo. Não confio nela agora. Vou deixar que descanse durante a noite.
Ela não gostou da ideia. Senti que teria de enfrentar um bate-boca, então coloquei o negócio de pé, apoiado numa cadeira, e acendi as luzes outra vez. Se a coisa tivesse queimado seus peitos ou seu rabo, ela teria jogado o negócio pela janela. Aquilo me pareceu uma extrema gentileza da minha parte.
Alguns dias depois do Natal apareci na casa de Betti para vê-la. Ela estava sentada em seu quarto, bêbada, às 8h45 da manhã. Seu aspecto não era nada bom, o que também se poderia dizer de mim naquela ocasião. Era como se cada um dos pensionistas tivesse dado a ela um pouco de bebida. Havia de tudo: vinho, vodca, uísque, scotch. Das marcas mais baratas. As garrafas enchiam o quarto.
– Esses cretinos! Será que eles não conhecem ninguém melhor? Se você beber todo esse negócio é morte na certa!
Betty apenas me olhou. Pude perceber tudo naquele olhar.
Ela tinha um filho e uma filha que nunca vinham visitá-la, sequer lhe escreviam. Era uma faxineira num hotel barato. Quando a conheci, suas roupas eram caras, tornozelos bem torneados em sapatos de luxo. Era toda rija, quase bela. Olhos selvagens. Sorridente. Vinda de um marido rico, recém-divorciada, ele que logo morreria num acidente de carro, bêbado, queimado vivo em Connecticut.
– Você jamais irá domá-la – me diziam.
Ali estava ela. Mas eu tinha recebido alguma ajuda.
– Escute – eu disse –, tenho que levar uma parte desse negócio. Quero dizer, de vez em quando eu lhe entrego uma garrafa. Não vou bebê-las.
– Deixe as garrafas – disse Betty. Não me olhava. Seu quarto ficava no último andar e ela se sentava junto à janela, acompanhando o tráfego da manhã.
Me aproximei.
– Veja, estou acabado. Tenho que ir embora. Mas pelo amor de Deus, pegue leve com esse negócio!
– Claro – ela disse.
Inclinei-me e lhe dei um beijo de despedida.
Retornei cerca de uma semana e meia depois. Não houve qualquer resposta para as minhas batidas.
– Betty! Betty! Você está bem?
Girei a maçaneta. A porta estava aberta. A cama estava virada. Havia uma enorme mancha de sangue no lençol.
– Ah, caralho! – eu disse. Olhei em volta. Todas as garrafas tinham sumido.
Então olhei mais uma vez ao meu redor. Ali estava a francesa de meia-idade que era dona do lugar. Ficou junto à porta.
– Ela está no Hospital Geral do Condado. Estava muito doente. Chamei a ambulância na noite passada.
– Ela bebeu todo aquele negócio?
– Teve alguma ajuda.
Desci correndo as escadas e entrei no meu carro. Logo cheguei lá. Conhecia bem o lugar. Informaram-me o número do quarto.
Havia três ou quatro camas num quarto apertado. Uma mulher estava sentada sobre a sua no sentido cruzado, mastigando uma maçã e rindo com duas visitantes do sexo feminino. Puxei a cortina divisória que circundava a cama de Betty, sentei-me no banquinho e me inclinei sobre ela.
– Betty! Betty!
Toquei seu braço.
– Betty!
Seus olhos se abriram. Eram novamente belos. De um azul sereno e brilhante.
– Tinha certeza de que era você – ela disse.
Em seguida voltou a fechar os olhos. Seus lábios estavam ressecados. Restos de saliva amarelada haviam se acumulado no canto esquerdo de sua boca. Peguei um lenço e removi os resíduos. Limpei seu rosto, suas mãos, sua garganta. Peguei outro lenço e espremi um pouco de água em sua língua. Depois um pouco mais. Molhei seus lábios. Ajeitei seus cabelos. Podia ouvir as mulheres rindo através da cortina que nos separava.
– Betty, Betty, Betty. Por favor, quero que você beba um pouco de água, apenas um golinho, não precisa ser muito, só um gole.
Ela não respondeu. Tentei aquilo por uns dez minutos. Nada.
Mais restos de saliva se formaram em sua boca. Removi-os.
Então me levantei e fechei a cortina. Fiquei olhando para as três mulheres.
Me afastei e falei com a enfermeira encarregada.
– Escute, por que ninguém faz nada em relação à mulher do 45-c? Betty Williams.
– A gente faz o que pode, senhor.
– Mas não há ninguém ali.
– Fazemos nossas rondas regulares.
– Mas onde estão os médicos? Não vi nenhum médico.
– O doutor já a examinou, senhor.
– Como é que vocês a abandonam lá daquele jeito?
– A gente faz o que pode, senhor.
– SENHOR! SENHOR! SENHOR! ESQUEÇA ESSA PORRA DE “SENHOR”! Aposto que se fosse o presidente ou o governador ou o prefeito ou um filho da puta qualquer cheio da grana, então haveria um montão de médicos ao redor do quarto fazendo alguma coisa! Por que vocês simplesmente não deixam o pessoal morrer? Que pecado há em ser pobre?
– Já lhe disse, meu senhor, estamos fazendo TUDO ao nosso alcance.
– Voltarei em duas horas.
– O senhor é o marido?
– Eu vivia com ela em concubinato.
– Pode nos deixar seu nome e um número de telefone?
Passei-lhe as informações e saí apressado.
O funeral estava marcado para as dez e meia e já fazia calor. Eu vestia um terno preto barato, comprado e ajustado às pressas. Era o meu primeiro terno novo em anos. Conseguira localizar o filho. Seguimos em seu Mercedes-Benz novinho. Tinha conseguido localizá-lo com a ajuda de uma tira de papel com o endereço de seu sogro. Duas chamadas de longa distância e cheguei até ele. Quando finalmente conseguiu se deslocar até aqui, sua mãe já estava morta. Morreu enquanto eu fazia as ligações. O rapaz, Larry, jamais tinha se enquadrado nas normas da sociedade. Tinha o hábito de roubar os carros dos amigos, mas entre os amigos e o tribunal dava um jeito de resolver as coisas. Então o exército o apanhou, e, de alguma maneira, entrou para um programa de treinamento, o que fez com que, assim que saísse, arranjasse um emprego muito bem pago. Foi quando deixou de ver a mãe, quando conseguiu esse bom emprego.
– Onde está sua irmã? – perguntei.
– Não sei.
– É um carro bacana. Não dá nem pra ouvir o motor.
Larry sorriu. Gostou do comentário.
Havia apenas três pessoas acompanhando o funeral: o filho, o amante e a irmã retardada da dona do hotel. Seu nome era Marcia. Marcia nunca dizia nada. Ficava apenas sentada, com um sorriso vazio nos lábios. Sua pele era branca como esmalte. Tinha um cabelo armado, de um amarelo mortiço, e um chapéu que não assentava. Marcia havia sido mandada pela dona do hotel para representá-la. A dona não podia perder seu negócio de vista.
Claro, eu estava com uma ressaca dos diabos. Paramos para tomar um café.
Àquela altura, então, já tinham ocorrido alguns problemas com o funeral. Larry tivera uma discussão com o padre católico. O padre não queria realizar o serviço. Finalmente foi decidido que ele faria o serviço pela metade. Bem, metade era melhor do que nada.
Tivemos problemas até com as flores. Eu havia comprado uma coroa de rosas, rosas misturadas, que foram arranjadas de modo a compor uma coroa. A floricultura passou a tarde inteira em cima do arranjo. A dona da floricultura tinha conhecido Betty. Haviam tomado umas e outras na época em que Betty e eu, alguns anos antes, morávamos numa casa com cachorro. Seu nome era Delsie. Sempre desejara chegar ao que estava debaixo das calcinhas de Delsie, mas nunca tinha conseguido.
Delsie tinha me telefonado.
– Hank, qual é o problema com esses cretinos?
– Que cretinos?
– Esses caras da funerária.
– Qual é o problema?
– Bem, eu mandei um rapaz na caminhonete para entregar a coroa e eles não deixaram ele entrar. Disseram que estavam fechados. Você sabe, é uma distância enorme.
– E aí, Delsie?
– Bem, por fim os caras deixaram ele pôr as flores para dentro, mas não pôde colocá-las no refrigerador. Então o rapaz teve que deixar elas ali mesmo. Que diabos há com essas pessoas?
– Não sei. Que diabos há com todo mundo?
– Não conseguirei ir ao funeral. Você está bem, Hank?
– Por que você não vem me consolar?
– Teria que levar o Paul.
Paul era seu marido.
– Esqueça.
Então assim estávamos, a caminho de nosso meio-funeral.
Larry ergueu os olhos do café.
– Vou escrever para você mais tarde para a gente ver o negócio da lápide. Agora estou pelado.
– Tudo bem – eu disse.
Larry pagou os cafés, então nós saímos e embarcamos no Mercedes-Benz.
– Espere um minuto – eu disse.
– O que foi? – perguntou Larry.
– Acho que esquecemos alguma coisa.
Retornei ao café.
– Marcia.
Ela seguia sentada à mesa.
– Estamos indo, Marcia.
Ela se levantou e me seguiu até a rua.
– Cartas na rua
1 272
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Despachante de Nariz Vermelho

Quando conheci Randall Harris, ele estava com 42 anos e vivia com uma mulher de cabelo grisalho, uma tal de Margie Thompson. Margie estava com 45 e não era muito bonita. Naquela época, eu editava uma pequena revista chamada Mad Fly e tinha ido visitá-los numa tentativa de conseguir algum material de Randall.
Randall era conhecido por ser um solitário convicto, um bêbado, um homem bruto e amargo, mas seus poemas eram crus, crus e honestos, simples e selvagens. Estava escrevendo como ninguém mais fazia naquela época. Ele trabalhava como despachante em um depósito de autopeças.
Sentei de frente para Randall e Margie. Eram sete e quinze da noite e Harris já estava bêbado de cerveja. Pôs uma garrafa na minha frente. Eu tinha ouvido falar de Margie Thompson. Ela era uma comunista das antigas, uma salvadora do mundo, uma benfeitora. Alguém poderia se perguntar o que ela estava fazendo ao lado de Randall, que não se importava com nada e não fazia questão de escondê-lo.
– Gosto de fotografar merda – ele me disse –, essa é a minha arte.
Randall começou a escrever com 38 anos. Com 42, depois de três pequenos livros de contos (A morte é uma cadela mais suja que o meu país, Minha mãe trepou com um anjo e Os cavalos desenfreados da loucura), estava começando a receber o que se pode chamar de reconhecimento da crítica. Mas não ganhava grana com seus textos e disse:
– Não sou nada além de um despachante com uma depressão profunda.
Vivia em um velho casarão em Hollywood com Margie, e ele era estranho, de verdade.
– Apenas não gosto de gente – ele disse. – Sabe, Will Rogers disse uma vez: “Nunca encontrei um homem de quem não gostasse”. Comigo é o contrário, nunca encontrei um homem de quem gostasse.
Mas Randall tinha senso de humor, uma capacidade de rir da dor e de si mesmo. Não havia como não gostar dele. Era um homem feio com um cabeção e uma cara amassada... apenas o nariz parecia ter escapado do achatamento generalizado.
– Não tenho osso suficiente em meu nariz, é como se fosse de borracha – ele explicava. Seu nariz era longo e muito vermelho.
Eu já ouvira histórias sobre Randall. Dizia-se que era de quebrar janelas e jogar garrafas contra as paredes. Era um bêbado terrível. Também tinha períodos em que não atendia à porta nem ao telefone. Não tinha televisão, apenas um radinho e somente ouvia música sinfônica... algo estranho para um sujeito bruto como ele.
Randall também tinha períodos em que tirava a parte de baixo do telefone e enchia com papel higiênico ao redor da campainha para que não soasse. Ficava assim por meses. Alguém poderia se perguntar por que ele tinha um telefone, afinal. Sua educação era precária, mas ele evidentemente lia boa parte dos melhores escritores.
– Bem, seu merda – ele me disse –, imagino que você esteja se perguntando o que faço ao lado dela? – e apontou para Margie.
Não respondi.
– Ela é boa de cama – ele disse – e me dá as melhores fodas a oeste de Saint Louis.
Esse era o mesmo sujeito que tinha escrito quatro ou cinco excelentes poemas de amor para uma mulher chamada Annie. Era de se pensar como tudo isso funcionava.
Margie apenas ficava sentada ali, mostrando os dentes. Ela também escrevia poesia, mas não era muito boa. Frequentava dois workshops por semana, o que não ajudava muito.
– Então você quer alguns poemas? – ele me perguntou.
– Sim, gostaria de olhar alguns.
Harris foi até o armário, abriu a porta e pegou alguns papéis amassados e rasgados do fundo. Entregou-os para mim.
– Escrevi esses aí na noite passada.
Então ele foi até a cozinha e voltou com mais duas cervejas. Margie não bebia.
Comecei a ler os poemas. Eram todos poderosos. Ele datilografava com a mão muito pesada, e as palavras pareciam cinzeladas no papel. A força de sua escrita sempre me surpreendia. Parecia estar dizendo todas as coisas que deveríamos dizer, mas que nunca teríamos coragem de pronunciar.
– Vou levar esses poemas – eu disse.
– Ok – ele disse. – Beba.
Quando se visitava Harris, beber era uma obrigação. Ele fumava um cigarro atrás do outro. Usava calças marrons de algodão, folgadas, dois número acima do que seria o correto, e camisas velhas que estavam sempre em frangalhos. Tinha aproximadamente um metro e oitenta de altura e pesava uns cem quilos, em grande parte decorrentes da cerveja. Tinha os ombros caídos e nos espiava por trás das pálpebras semicerradas. Bebemos por cerca de duas horas e meia, o ar estava saturado pela fumaça. Subitamente Harris se levantou e disse:
– Dê o fora daqui, seu escroto, você me dá nojo!
– Calma, Harris, calma...
– Eu disse AGORA! Escroto!
Levantei e parti com os poemas.
Voltei àquele casarão dois meses mais tarde para entregar algumas cópias da Mad Fly para Harris. Tinha publicado todos os dez poemas dele. Margie me deixou entrar. Randall não estava lá.
– Ele está em Nova Orleans – disse Margie –, acho que ele está tirando uma folga. Jack Teller quer publicar seu próximo livro, mas ele quer conhecer Randall antes. Teller diz que não pode editar ninguém de quem não goste. Pagou a passagem área de ida e volta.
– Randall não é o que se poderia chamar de um sujeito cativante – eu disse.
– Veremos – disse Margie. – Teller é um bêbado e um ex-presidiário. Talvez formem uma bela dupla.
Teller publicava a revista Riftraff e tinha seu próprio prelo. Fazia um belo trabalho. A última edição de Riftraff tinha a cara feia de Harris na capa mamando em uma garrafa de cerveja e trazia alguns de seus poemas.
Riftraff era amplamente reconhecida como a revista literária número um da época. Harris estava começando a ganhar mais e mais destaque. Isso acabaria se tornando uma boa chance para ele, se não a estragasse com sua língua pérfida e seus modos de bêbado. Antes de partir, Margie me disse que estava grávida... de Harris. Como eu disse, ela tinha 45 anos.
– O que ele disse quando você lhe contou?
– Pareceu indiferente.
Parti.
O livro realmente foi publicado em uma edição de dois mil exemplares, muito bem impressos. A capa era feita de cortiça importada da Irlanda. As páginas eram multicoloridas e de um papel extremamente bom, impressas em um tipo exótico e entremeadas com alguns desenhos em nanquim que o próprio Harris havia feito. A edição foi aclamada, tanto pelo livro em si quanto pelo conteúdo. Mas Teller não podia pagar os royalties. Ele e sua esposa viviam com uma margem de lucro muito pequena. Em dez anos o livro passou a custar 75 dólares no mercado de livros raros. Enquanto isso Harris voltou para seu emprego de despachante no armazém de autopeças.
Quando fui visitá-lo novamente, quatro ou cinco meses depois, Margie se fora.
– Ela partiu há muito tempo – disse Harris. – Beba uma cerveja.
– O que aconteceu?
– Bem, depois que voltei de Nova Orleans, escrevi alguns contos. Enquanto eu estava no trabalho, ela revirou minhas gavetas. Leu algumas das minhas histórias e ficou alterada com o conteúdo delas.
– Sobre o que eram?
– Ah, sobre as minhas aventuras amorosas com algumas mulheres em Nova Orleans.
– As histórias eram verdadeiras? – perguntei.
– Como vai a Mad Fly? – perguntou.
A criança nasceu, uma menina, Naomi Louise Harris. Ela e a mãe viviam em Santa Mônica, e Harris dirigia até lá uma vez por semana para vê-las. Pagava pensão alimentícia e continuava bebendo sua cerveja. Depois disso, soube que ele mantinha uma coluna semanal no jornal de vanguarda Los Angeles Lifeline. Chamava suas colunas de Impressões de um Maníaco de Primeira Classe. Sua prosa era como sua poesia: indisciplinada, antissocial e preguiçosa.
Harris deixou crescer um cavanhaque e deixou seu cabelo mais comprido. Na próxima vez que o vi, estava vivendo com uma garota de 35 anos, uma ruiva bonita chamada Susan. Susan trabalhava em uma loja de material de desenho, pintava e tocava violão razoavelmente. Também bebia ocasionalmente uma cerveja com Randall, que era mais do que Margie fazia. O casarão parecia mais limpo. Quando Harris acabava uma garrafa, atirava-a numa sacola de papel, em vez de atirá-la no chão. Mas, ainda assim, era um bêbado terrível.
– Estou escrevendo um romance – ele me disse – e às vezes arranjo alguma leitura de poesia nas universidades da região. Também tenho uma leitura marcada em Michigan e outra no Novo México. As ofertas são bem boas. Não sinto vontade de ler, mas sou um bom leitor. Dou a eles um show e um pouco de boa poesia.
Harris também estava começando a pintar. Não pintava muito bem. Pintava como uma criança de cinco anos que tivesse enchido a cara de vodca, mas dava um jeito de vender um ou dois quadros por quarenta ou cinquenta dólares. Contou-me que estava pensando em abandonar seu emprego. Três semanas depois ele realmente largou o emprego para fazer a leitura em Michigan. Já tinha usado as férias a que tinha direto para fazer a viagem a Nova Orleans.
Lembrei de uma vez que em que ele me havia prometido:
– Jamais lerei diante daqueles sanguessugas, Chinaski. Vou pra cova sem nunca fazer uma leitura pública. É pura vaidade, é se vender.
Não o lembrei dessa afirmação.
Seu romance A morte na vida de todos os olhos sobre a face da Terra foi publicado por uma pequena porém prestigiada editora que pagava royalties regularmente. As críticas foram boas, incluindo uma na New York Review of Books. Mas ele ainda era um bêbado terrível e brigava constantemente com Susan por causa da bebida.
Finalmente, depois de um porre homérico, em que ele se enfureceu, amaldiçoou e gritou a noite toda, Susan o deixou. Vi Randall vários dias depois que ela partira. Harris estava estranhamente quieto, quase normal.
– Eu a amava, Chinaski – ele me disse. – Não vou conseguir superar essa, meu chapa.
– Você vai conseguir, Randall. Você vai ver. Vai conseguir. O ser humano é muito mais resistente do que você pensa.
– Merda – ele disse –, espero que você esteja certo. Estou com um buraco danado no peito. As mulheres já colocaram muitos homens bons embaixo da ponte. Elas não sentem isso da forma que nós sentimos.
– Elas sentem, sim. Ela só não conseguia mais suportar as suas bebedeiras.
– Porra, homem, escrevo a maioria dos meus textos quando estou bêbado.
– É esse o segredo?
– Merda, claro que é. Sóbrio, sou apenas um despachante, e não dos melhores...
Deixei-o lá agarrado em sua cerveja.
Voltei a visitá-lo três meses mais tarde. Harris ainda estava em seu casarão. Ele me apresentou Sandra, uma loira bonita de 27 anos. Seu pai era um juiz da Suprema Corte, e ela era uma estudante de graduação na Universidade do Sul da Califórnia. Além de ter um corpo bem-torneado, tinha certa sofisticação e classe, algo que faltara às outras mulheres de Randall. Estava bebendo uma garrafa de vinho italiano.
O cavanhaque de Randall tinha se transformado em uma barba e seu cabelo estava ainda mais comprido. Suas roupas eram novas e da última moda. Estava usando sapados de quarenta dólares, um relógio de pulso novo e seu rosto parecia mais magro, suas unhas, limpas... mas seu nariz ainda enrubescia à medida que ia bebendo o vinho.
– Randall e eu vamos nos mudar para West L.A. Este fim de semana – ela me disse. – Esse lugar é imundo.
– Escrevi muitas coisas boas aqui – ele disse.
– Randall, querido – ela disse –, não é o lugar que escreve, é você. Acho que podemos lhe arranjar um emprego de professor para lecionar três dias por semana.
– Não sei ensinar.
– Querido, você pode lhes ensinar tudo.
– Merda – ele disse.
– Estão pensando em fazer um filme baseado no livro de Randall. Vimos o roteiro. É um belo roteiro.
– Um filme? – perguntei.
– A probabilidade é baixa – disse Harris.
– Querido, estão trabalhando nele. Tenha um pouco de fé.
Bebi outro cálice de vinho com eles e então parti. Sandra era uma garota bonita.
Não recebi o endereço de Randall em West L.A. E não fiz nenhuma tentativa de localizá-lo. Cerca de um ano depois, li uma resenha do filme Flor no cu do inferno. Era baseado em seu romance. Era uma crítica favorável e Harris chegou mesmo a atuar em um pequeno papel.
Fui assistir. Tinham feito um bom trabalho em cima do livro. Harris parecia um pouco mais austero do que quando o havia visto pela última vez. Decidi encontrá-lo. Depois de um tempo dando uma de detetive, bati à porta de sua cabana em Malibu uma noite por volta das nove. Randall atendeu.
– Chinaski, seu cachorro velho – ele disse. – Entre.
Uma bela garota estava sentada no sofá. Parecia ter aproximadamente dezenove anos, simplesmente irradiava uma beleza natural.
– Essa é Karilla – ele disse.
Eles estavam bebendo uma garrafa de vinho francês, dos caros. Sentei com eles e bebi um cálice. Tomei vários cálices. Outra garrafa apareceu e conversamos calmamente. Harris não ficou bêbado e inoportuno e não pareceu fumar muito.
– Estou trabalhando numa peça para a Broadway – ele me disse. – Dizem que o teatro está morrendo, mas eu tenho algo para eles. Um dos principais produtores está interessado. Estou finalizando o último ato agora. É um gênero interessante. Sempre fui craque nos diálogos, você sabe.
– Sim – eu disse.
Fui embora lá pelas onze e meia naquela noite. A conversa tinha sido agradável... As têmporas de Harris começavam a exibir um respeitável tom grisalho, e ele não disse “merda” mais do que quatro ou cinco vezes.
A peça Atire em seu pai, atire em seu Deus, livre-se do desembaraço era um sucesso. Estava entre as peças recordistas em tempo de exibição na Broadway. Tinha de tudo: algo para os revolucionários, algo para os reacionários, algo para os que amavam comédia, para os que amavam drama, tinha até mesmo algo para os intelectuais e, ainda assim, fazia sentido. Randall Harris se mudou de Malibu para uma casa maior em Hollywood Hills. Agora é possível saber notícias dele pelos tabloides.
Após algumas dificuldades, encontrei a localização de sua casa em Hollywood Hills, uma mansão de três andares com vista para as luzes de Los Angeles e Hollywood.
Estacionei, saí do carro e caminhei pela passagem que levava até a porta da frente. Era perto das oito e meia da noite, a temperatura estava baixa, quase fazia frio; a lua estava cheia e o ar fresco e limpo.
Toquei a campainha. Pareceu-me uma longa espera. Finalmente a porta se abriu. Era o mordomo.
– Sim, senhor? – me perguntou.
– Vim para ver Randall Harris, da parte de Henry Chinaski – eu disse.
– Um momento, por favor, senhor.
Ele fechou a porta em silêncio e esperei. Mais uma vez, um longo intervalo. Então o mordomo voltou.
– Sinto muito, senhor, mas o sr. Harris não pode ser perturbado neste momento.
– Oh, tudo bem.
– Gostaria de deixar uma mensagem, senhor?
– Uma mensagem? Sim, dê-lhe os meus “parabéns”.
– “Parabéns”? Isso é tudo?
– Sim, isso é tudo.
– Boa noite, senhor.
– Boa noite.
Voltei para o meu carro, entrei. Dei a partida e comecei a longa viagem descendo as colinas. Tinha comigo aquela antiga cópia da Mad Fly que queria que ele autografasse. Era a cópia com dez poemas de Randall Harris. Ele provavelmente estava ocupado. Talvez, pensei, se eu mandasse pelo correio a revista com um envelope selado de resposta, ele assinasse.
Eram apenas nove da noite. Havia tempo para ir a um outro lugar.
– Ao sul de lugar nenhum
790
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Despachante de Nariz Vermelho

Quando conheci Randall Harris, ele estava com 42 anos e vivia com uma mulher de cabelo grisalho, uma tal de Margie Thompson. Margie estava com 45 e não era muito bonita. Naquela época, eu editava uma pequena revista chamada Mad Fly e tinha ido visitá-los numa tentativa de conseguir algum material de Randall.
Randall era conhecido por ser um solitário convicto, um bêbado, um homem bruto e amargo, mas seus poemas eram crus, crus e honestos, simples e selvagens. Estava escrevendo como ninguém mais fazia naquela época. Ele trabalhava como despachante em um depósito de autopeças.
Sentei de frente para Randall e Margie. Eram sete e quinze da noite e Harris já estava bêbado de cerveja. Pôs uma garrafa na minha frente. Eu tinha ouvido falar de Margie Thompson. Ela era uma comunista das antigas, uma salvadora do mundo, uma benfeitora. Alguém poderia se perguntar o que ela estava fazendo ao lado de Randall, que não se importava com nada e não fazia questão de escondê-lo.
– Gosto de fotografar merda – ele me disse –, essa é a minha arte.
Randall começou a escrever com 38 anos. Com 42, depois de três pequenos livros de contos (A morte é uma cadela mais suja que o meu país, Minha mãe trepou com um anjo e Os cavalos desenfreados da loucura), estava começando a receber o que se pode chamar de reconhecimento da crítica. Mas não ganhava grana com seus textos e disse:
– Não sou nada além de um despachante com uma depressão profunda.
Vivia em um velho casarão em Hollywood com Margie, e ele era estranho, de verdade.
– Apenas não gosto de gente – ele disse. – Sabe, Will Rogers disse uma vez: “Nunca encontrei um homem de quem não gostasse”. Comigo é o contrário, nunca encontrei um homem de quem gostasse.
Mas Randall tinha senso de humor, uma capacidade de rir da dor e de si mesmo. Não havia como não gostar dele. Era um homem feio com um cabeção e uma cara amassada... apenas o nariz parecia ter escapado do achatamento generalizado.
– Não tenho osso suficiente em meu nariz, é como se fosse de borracha – ele explicava. Seu nariz era longo e muito vermelho.
Eu já ouvira histórias sobre Randall. Dizia-se que era de quebrar janelas e jogar garrafas contra as paredes. Era um bêbado terrível. Também tinha períodos em que não atendia à porta nem ao telefone. Não tinha televisão, apenas um radinho e somente ouvia música sinfônica... algo estranho para um sujeito bruto como ele.
Randall também tinha períodos em que tirava a parte de baixo do telefone e enchia com papel higiênico ao redor da campainha para que não soasse. Ficava assim por meses. Alguém poderia se perguntar por que ele tinha um telefone, afinal. Sua educação era precária, mas ele evidentemente lia boa parte dos melhores escritores.
– Bem, seu merda – ele me disse –, imagino que você esteja se perguntando o que faço ao lado dela? – e apontou para Margie.
Não respondi.
– Ela é boa de cama – ele disse – e me dá as melhores fodas a oeste de Saint Louis.
Esse era o mesmo sujeito que tinha escrito quatro ou cinco excelentes poemas de amor para uma mulher chamada Annie. Era de se pensar como tudo isso funcionava.
Margie apenas ficava sentada ali, mostrando os dentes. Ela também escrevia poesia, mas não era muito boa. Frequentava dois workshops por semana, o que não ajudava muito.
– Então você quer alguns poemas? – ele me perguntou.
– Sim, gostaria de olhar alguns.
Harris foi até o armário, abriu a porta e pegou alguns papéis amassados e rasgados do fundo. Entregou-os para mim.
– Escrevi esses aí na noite passada.
Então ele foi até a cozinha e voltou com mais duas cervejas. Margie não bebia.
Comecei a ler os poemas. Eram todos poderosos. Ele datilografava com a mão muito pesada, e as palavras pareciam cinzeladas no papel. A força de sua escrita sempre me surpreendia. Parecia estar dizendo todas as coisas que deveríamos dizer, mas que nunca teríamos coragem de pronunciar.
– Vou levar esses poemas – eu disse.
– Ok – ele disse. – Beba.
Quando se visitava Harris, beber era uma obrigação. Ele fumava um cigarro atrás do outro. Usava calças marrons de algodão, folgadas, dois número acima do que seria o correto, e camisas velhas que estavam sempre em frangalhos. Tinha aproximadamente um metro e oitenta de altura e pesava uns cem quilos, em grande parte decorrentes da cerveja. Tinha os ombros caídos e nos espiava por trás das pálpebras semicerradas. Bebemos por cerca de duas horas e meia, o ar estava saturado pela fumaça. Subitamente Harris se levantou e disse:
– Dê o fora daqui, seu escroto, você me dá nojo!
– Calma, Harris, calma...
– Eu disse AGORA! Escroto!
Levantei e parti com os poemas.
Voltei àquele casarão dois meses mais tarde para entregar algumas cópias da Mad Fly para Harris. Tinha publicado todos os dez poemas dele. Margie me deixou entrar. Randall não estava lá.
– Ele está em Nova Orleans – disse Margie –, acho que ele está tirando uma folga. Jack Teller quer publicar seu próximo livro, mas ele quer conhecer Randall antes. Teller diz que não pode editar ninguém de quem não goste. Pagou a passagem área de ida e volta.
– Randall não é o que se poderia chamar de um sujeito cativante – eu disse.
– Veremos – disse Margie. – Teller é um bêbado e um ex-presidiário. Talvez formem uma bela dupla.
Teller publicava a revista Riftraff e tinha seu próprio prelo. Fazia um belo trabalho. A última edição de Riftraff tinha a cara feia de Harris na capa mamando em uma garrafa de cerveja e trazia alguns de seus poemas.
Riftraff era amplamente reconhecida como a revista literária número um da época. Harris estava começando a ganhar mais e mais destaque. Isso acabaria se tornando uma boa chance para ele, se não a estragasse com sua língua pérfida e seus modos de bêbado. Antes de partir, Margie me disse que estava grávida... de Harris. Como eu disse, ela tinha 45 anos.
– O que ele disse quando você lhe contou?
– Pareceu indiferente.
Parti.
O livro realmente foi publicado em uma edição de dois mil exemplares, muito bem impressos. A capa era feita de cortiça importada da Irlanda. As páginas eram multicoloridas e de um papel extremamente bom, impressas em um tipo exótico e entremeadas com alguns desenhos em nanquim que o próprio Harris havia feito. A edição foi aclamada, tanto pelo livro em si quanto pelo conteúdo. Mas Teller não podia pagar os royalties. Ele e sua esposa viviam com uma margem de lucro muito pequena. Em dez anos o livro passou a custar 75 dólares no mercado de livros raros. Enquanto isso Harris voltou para seu emprego de despachante no armazém de autopeças.
Quando fui visitá-lo novamente, quatro ou cinco meses depois, Margie se fora.
– Ela partiu há muito tempo – disse Harris. – Beba uma cerveja.
– O que aconteceu?
– Bem, depois que voltei de Nova Orleans, escrevi alguns contos. Enquanto eu estava no trabalho, ela revirou minhas gavetas. Leu algumas das minhas histórias e ficou alterada com o conteúdo delas.
– Sobre o que eram?
– Ah, sobre as minhas aventuras amorosas com algumas mulheres em Nova Orleans.
– As histórias eram verdadeiras? – perguntei.
– Como vai a Mad Fly? – perguntou.
A criança nasceu, uma menina, Naomi Louise Harris. Ela e a mãe viviam em Santa Mônica, e Harris dirigia até lá uma vez por semana para vê-las. Pagava pensão alimentícia e continuava bebendo sua cerveja. Depois disso, soube que ele mantinha uma coluna semanal no jornal de vanguarda Los Angeles Lifeline. Chamava suas colunas de Impressões de um Maníaco de Primeira Classe. Sua prosa era como sua poesia: indisciplinada, antissocial e preguiçosa.
Harris deixou crescer um cavanhaque e deixou seu cabelo mais comprido. Na próxima vez que o vi, estava vivendo com uma garota de 35 anos, uma ruiva bonita chamada Susan. Susan trabalhava em uma loja de material de desenho, pintava e tocava violão razoavelmente. Também bebia ocasionalmente uma cerveja com Randall, que era mais do que Margie fazia. O casarão parecia mais limpo. Quando Harris acabava uma garrafa, atirava-a numa sacola de papel, em vez de atirá-la no chão. Mas, ainda assim, era um bêbado terrível.
– Estou escrevendo um romance – ele me disse – e às vezes arranjo alguma leitura de poesia nas universidades da região. Também tenho uma leitura marcada em Michigan e outra no Novo México. As ofertas são bem boas. Não sinto vontade de ler, mas sou um bom leitor. Dou a eles um show e um pouco de boa poesia.
Harris também estava começando a pintar. Não pintava muito bem. Pintava como uma criança de cinco anos que tivesse enchido a cara de vodca, mas dava um jeito de vender um ou dois quadros por quarenta ou cinquenta dólares. Contou-me que estava pensando em abandonar seu emprego. Três semanas depois ele realmente largou o emprego para fazer a leitura em Michigan. Já tinha usado as férias a que tinha direto para fazer a viagem a Nova Orleans.
Lembrei de uma vez que em que ele me havia prometido:
– Jamais lerei diante daqueles sanguessugas, Chinaski. Vou pra cova sem nunca fazer uma leitura pública. É pura vaidade, é se vender.
Não o lembrei dessa afirmação.
Seu romance A morte na vida de todos os olhos sobre a face da Terra foi publicado por uma pequena porém prestigiada editora que pagava royalties regularmente. As críticas foram boas, incluindo uma na New York Review of Books. Mas ele ainda era um bêbado terrível e brigava constantemente com Susan por causa da bebida.
Finalmente, depois de um porre homérico, em que ele se enfureceu, amaldiçoou e gritou a noite toda, Susan o deixou. Vi Randall vários dias depois que ela partira. Harris estava estranhamente quieto, quase normal.
– Eu a amava, Chinaski – ele me disse. – Não vou conseguir superar essa, meu chapa.
– Você vai conseguir, Randall. Você vai ver. Vai conseguir. O ser humano é muito mais resistente do que você pensa.
– Merda – ele disse –, espero que você esteja certo. Estou com um buraco danado no peito. As mulheres já colocaram muitos homens bons embaixo da ponte. Elas não sentem isso da forma que nós sentimos.
– Elas sentem, sim. Ela só não conseguia mais suportar as suas bebedeiras.
– Porra, homem, escrevo a maioria dos meus textos quando estou bêbado.
– É esse o segredo?
– Merda, claro que é. Sóbrio, sou apenas um despachante, e não dos melhores...
Deixei-o lá agarrado em sua cerveja.
Voltei a visitá-lo três meses mais tarde. Harris ainda estava em seu casarão. Ele me apresentou Sandra, uma loira bonita de 27 anos. Seu pai era um juiz da Suprema Corte, e ela era uma estudante de graduação na Universidade do Sul da Califórnia. Além de ter um corpo bem-torneado, tinha certa sofisticação e classe, algo que faltara às outras mulheres de Randall. Estava bebendo uma garrafa de vinho italiano.
O cavanhaque de Randall tinha se transformado em uma barba e seu cabelo estava ainda mais comprido. Suas roupas eram novas e da última moda. Estava usando sapados de quarenta dólares, um relógio de pulso novo e seu rosto parecia mais magro, suas unhas, limpas... mas seu nariz ainda enrubescia à medida que ia bebendo o vinho.
– Randall e eu vamos nos mudar para West L.A. Este fim de semana – ela me disse. – Esse lugar é imundo.
– Escrevi muitas coisas boas aqui – ele disse.
– Randall, querido – ela disse –, não é o lugar que escreve, é você. Acho que podemos lhe arranjar um emprego de professor para lecionar três dias por semana.
– Não sei ensinar.
– Querido, você pode lhes ensinar tudo.
– Merda – ele disse.
– Estão pensando em fazer um filme baseado no livro de Randall. Vimos o roteiro. É um belo roteiro.
– Um filme? – perguntei.
– A probabilidade é baixa – disse Harris.
– Querido, estão trabalhando nele. Tenha um pouco de fé.
Bebi outro cálice de vinho com eles e então parti. Sandra era uma garota bonita.
Não recebi o endereço de Randall em West L.A. E não fiz nenhuma tentativa de localizá-lo. Cerca de um ano depois, li uma resenha do filme Flor no cu do inferno. Era baseado em seu romance. Era uma crítica favorável e Harris chegou mesmo a atuar em um pequeno papel.
Fui assistir. Tinham feito um bom trabalho em cima do livro. Harris parecia um pouco mais austero do que quando o havia visto pela última vez. Decidi encontrá-lo. Depois de um tempo dando uma de detetive, bati à porta de sua cabana em Malibu uma noite por volta das nove. Randall atendeu.
– Chinaski, seu cachorro velho – ele disse. – Entre.
Uma bela garota estava sentada no sofá. Parecia ter aproximadamente dezenove anos, simplesmente irradiava uma beleza natural.
– Essa é Karilla – ele disse.
Eles estavam bebendo uma garrafa de vinho francês, dos caros. Sentei com eles e bebi um cálice. Tomei vários cálices. Outra garrafa apareceu e conversamos calmamente. Harris não ficou bêbado e inoportuno e não pareceu fumar muito.
– Estou trabalhando numa peça para a Broadway – ele me disse. – Dizem que o teatro está morrendo, mas eu tenho algo para eles. Um dos principais produtores está interessado. Estou finalizando o último ato agora. É um gênero interessante. Sempre fui craque nos diálogos, você sabe.
– Sim – eu disse.
Fui embora lá pelas onze e meia naquela noite. A conversa tinha sido agradável... As têmporas de Harris começavam a exibir um respeitável tom grisalho, e ele não disse “merda” mais do que quatro ou cinco vezes.
A peça Atire em seu pai, atire em seu Deus, livre-se do desembaraço era um sucesso. Estava entre as peças recordistas em tempo de exibição na Broadway. Tinha de tudo: algo para os revolucionários, algo para os reacionários, algo para os que amavam comédia, para os que amavam drama, tinha até mesmo algo para os intelectuais e, ainda assim, fazia sentido. Randall Harris se mudou de Malibu para uma casa maior em Hollywood Hills. Agora é possível saber notícias dele pelos tabloides.
Após algumas dificuldades, encontrei a localização de sua casa em Hollywood Hills, uma mansão de três andares com vista para as luzes de Los Angeles e Hollywood.
Estacionei, saí do carro e caminhei pela passagem que levava até a porta da frente. Era perto das oito e meia da noite, a temperatura estava baixa, quase fazia frio; a lua estava cheia e o ar fresco e limpo.
Toquei a campainha. Pareceu-me uma longa espera. Finalmente a porta se abriu. Era o mordomo.
– Sim, senhor? – me perguntou.
– Vim para ver Randall Harris, da parte de Henry Chinaski – eu disse.
– Um momento, por favor, senhor.
Ele fechou a porta em silêncio e esperei. Mais uma vez, um longo intervalo. Então o mordomo voltou.
– Sinto muito, senhor, mas o sr. Harris não pode ser perturbado neste momento.
– Oh, tudo bem.
– Gostaria de deixar uma mensagem, senhor?
– Uma mensagem? Sim, dê-lhe os meus “parabéns”.
– “Parabéns”? Isso é tudo?
– Sim, isso é tudo.
– Boa noite, senhor.
– Boa noite.
Voltei para o meu carro, entrei. Dei a partida e comecei a longa viagem descendo as colinas. Tinha comigo aquela antiga cópia da Mad Fly que queria que ele autografasse. Era a cópia com dez poemas de Randall Harris. Ele provavelmente estava ocupado. Talvez, pensei, se eu mandasse pelo correio a revista com um envelope selado de resposta, ele assinasse.
Eram apenas nove da noite. Havia tempo para ir a um outro lugar.
– Ao sul de lugar nenhum
790
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Despachante de Nariz Vermelho

Quando conheci Randall Harris, ele estava com 42 anos e vivia com uma mulher de cabelo grisalho, uma tal de Margie Thompson. Margie estava com 45 e não era muito bonita. Naquela época, eu editava uma pequena revista chamada Mad Fly e tinha ido visitá-los numa tentativa de conseguir algum material de Randall.
Randall era conhecido por ser um solitário convicto, um bêbado, um homem bruto e amargo, mas seus poemas eram crus, crus e honestos, simples e selvagens. Estava escrevendo como ninguém mais fazia naquela época. Ele trabalhava como despachante em um depósito de autopeças.
Sentei de frente para Randall e Margie. Eram sete e quinze da noite e Harris já estava bêbado de cerveja. Pôs uma garrafa na minha frente. Eu tinha ouvido falar de Margie Thompson. Ela era uma comunista das antigas, uma salvadora do mundo, uma benfeitora. Alguém poderia se perguntar o que ela estava fazendo ao lado de Randall, que não se importava com nada e não fazia questão de escondê-lo.
– Gosto de fotografar merda – ele me disse –, essa é a minha arte.
Randall começou a escrever com 38 anos. Com 42, depois de três pequenos livros de contos (A morte é uma cadela mais suja que o meu país, Minha mãe trepou com um anjo e Os cavalos desenfreados da loucura), estava começando a receber o que se pode chamar de reconhecimento da crítica. Mas não ganhava grana com seus textos e disse:
– Não sou nada além de um despachante com uma depressão profunda.
Vivia em um velho casarão em Hollywood com Margie, e ele era estranho, de verdade.
– Apenas não gosto de gente – ele disse. – Sabe, Will Rogers disse uma vez: “Nunca encontrei um homem de quem não gostasse”. Comigo é o contrário, nunca encontrei um homem de quem gostasse.
Mas Randall tinha senso de humor, uma capacidade de rir da dor e de si mesmo. Não havia como não gostar dele. Era um homem feio com um cabeção e uma cara amassada... apenas o nariz parecia ter escapado do achatamento generalizado.
– Não tenho osso suficiente em meu nariz, é como se fosse de borracha – ele explicava. Seu nariz era longo e muito vermelho.
Eu já ouvira histórias sobre Randall. Dizia-se que era de quebrar janelas e jogar garrafas contra as paredes. Era um bêbado terrível. Também tinha períodos em que não atendia à porta nem ao telefone. Não tinha televisão, apenas um radinho e somente ouvia música sinfônica... algo estranho para um sujeito bruto como ele.
Randall também tinha períodos em que tirava a parte de baixo do telefone e enchia com papel higiênico ao redor da campainha para que não soasse. Ficava assim por meses. Alguém poderia se perguntar por que ele tinha um telefone, afinal. Sua educação era precária, mas ele evidentemente lia boa parte dos melhores escritores.
– Bem, seu merda – ele me disse –, imagino que você esteja se perguntando o que faço ao lado dela? – e apontou para Margie.
Não respondi.
– Ela é boa de cama – ele disse – e me dá as melhores fodas a oeste de Saint Louis.
Esse era o mesmo sujeito que tinha escrito quatro ou cinco excelentes poemas de amor para uma mulher chamada Annie. Era de se pensar como tudo isso funcionava.
Margie apenas ficava sentada ali, mostrando os dentes. Ela também escrevia poesia, mas não era muito boa. Frequentava dois workshops por semana, o que não ajudava muito.
– Então você quer alguns poemas? – ele me perguntou.
– Sim, gostaria de olhar alguns.
Harris foi até o armário, abriu a porta e pegou alguns papéis amassados e rasgados do fundo. Entregou-os para mim.
– Escrevi esses aí na noite passada.
Então ele foi até a cozinha e voltou com mais duas cervejas. Margie não bebia.
Comecei a ler os poemas. Eram todos poderosos. Ele datilografava com a mão muito pesada, e as palavras pareciam cinzeladas no papel. A força de sua escrita sempre me surpreendia. Parecia estar dizendo todas as coisas que deveríamos dizer, mas que nunca teríamos coragem de pronunciar.
– Vou levar esses poemas – eu disse.
– Ok – ele disse. – Beba.
Quando se visitava Harris, beber era uma obrigação. Ele fumava um cigarro atrás do outro. Usava calças marrons de algodão, folgadas, dois número acima do que seria o correto, e camisas velhas que estavam sempre em frangalhos. Tinha aproximadamente um metro e oitenta de altura e pesava uns cem quilos, em grande parte decorrentes da cerveja. Tinha os ombros caídos e nos espiava por trás das pálpebras semicerradas. Bebemos por cerca de duas horas e meia, o ar estava saturado pela fumaça. Subitamente Harris se levantou e disse:
– Dê o fora daqui, seu escroto, você me dá nojo!
– Calma, Harris, calma...
– Eu disse AGORA! Escroto!
Levantei e parti com os poemas.
Voltei àquele casarão dois meses mais tarde para entregar algumas cópias da Mad Fly para Harris. Tinha publicado todos os dez poemas dele. Margie me deixou entrar. Randall não estava lá.
– Ele está em Nova Orleans – disse Margie –, acho que ele está tirando uma folga. Jack Teller quer publicar seu próximo livro, mas ele quer conhecer Randall antes. Teller diz que não pode editar ninguém de quem não goste. Pagou a passagem área de ida e volta.
– Randall não é o que se poderia chamar de um sujeito cativante – eu disse.
– Veremos – disse Margie. – Teller é um bêbado e um ex-presidiário. Talvez formem uma bela dupla.
Teller publicava a revista Riftraff e tinha seu próprio prelo. Fazia um belo trabalho. A última edição de Riftraff tinha a cara feia de Harris na capa mamando em uma garrafa de cerveja e trazia alguns de seus poemas.
Riftraff era amplamente reconhecida como a revista literária número um da época. Harris estava começando a ganhar mais e mais destaque. Isso acabaria se tornando uma boa chance para ele, se não a estragasse com sua língua pérfida e seus modos de bêbado. Antes de partir, Margie me disse que estava grávida... de Harris. Como eu disse, ela tinha 45 anos.
– O que ele disse quando você lhe contou?
– Pareceu indiferente.
Parti.
O livro realmente foi publicado em uma edição de dois mil exemplares, muito bem impressos. A capa era feita de cortiça importada da Irlanda. As páginas eram multicoloridas e de um papel extremamente bom, impressas em um tipo exótico e entremeadas com alguns desenhos em nanquim que o próprio Harris havia feito. A edição foi aclamada, tanto pelo livro em si quanto pelo conteúdo. Mas Teller não podia pagar os royalties. Ele e sua esposa viviam com uma margem de lucro muito pequena. Em dez anos o livro passou a custar 75 dólares no mercado de livros raros. Enquanto isso Harris voltou para seu emprego de despachante no armazém de autopeças.
Quando fui visitá-lo novamente, quatro ou cinco meses depois, Margie se fora.
– Ela partiu há muito tempo – disse Harris. – Beba uma cerveja.
– O que aconteceu?
– Bem, depois que voltei de Nova Orleans, escrevi alguns contos. Enquanto eu estava no trabalho, ela revirou minhas gavetas. Leu algumas das minhas histórias e ficou alterada com o conteúdo delas.
– Sobre o que eram?
– Ah, sobre as minhas aventuras amorosas com algumas mulheres em Nova Orleans.
– As histórias eram verdadeiras? – perguntei.
– Como vai a Mad Fly? – perguntou.
A criança nasceu, uma menina, Naomi Louise Harris. Ela e a mãe viviam em Santa Mônica, e Harris dirigia até lá uma vez por semana para vê-las. Pagava pensão alimentícia e continuava bebendo sua cerveja. Depois disso, soube que ele mantinha uma coluna semanal no jornal de vanguarda Los Angeles Lifeline. Chamava suas colunas de Impressões de um Maníaco de Primeira Classe. Sua prosa era como sua poesia: indisciplinada, antissocial e preguiçosa.
Harris deixou crescer um cavanhaque e deixou seu cabelo mais comprido. Na próxima vez que o vi, estava vivendo com uma garota de 35 anos, uma ruiva bonita chamada Susan. Susan trabalhava em uma loja de material de desenho, pintava e tocava violão razoavelmente. Também bebia ocasionalmente uma cerveja com Randall, que era mais do que Margie fazia. O casarão parecia mais limpo. Quando Harris acabava uma garrafa, atirava-a numa sacola de papel, em vez de atirá-la no chão. Mas, ainda assim, era um bêbado terrível.
– Estou escrevendo um romance – ele me disse – e às vezes arranjo alguma leitura de poesia nas universidades da região. Também tenho uma leitura marcada em Michigan e outra no Novo México. As ofertas são bem boas. Não sinto vontade de ler, mas sou um bom leitor. Dou a eles um show e um pouco de boa poesia.
Harris também estava começando a pintar. Não pintava muito bem. Pintava como uma criança de cinco anos que tivesse enchido a cara de vodca, mas dava um jeito de vender um ou dois quadros por quarenta ou cinquenta dólares. Contou-me que estava pensando em abandonar seu emprego. Três semanas depois ele realmente largou o emprego para fazer a leitura em Michigan. Já tinha usado as férias a que tinha direto para fazer a viagem a Nova Orleans.
Lembrei de uma vez que em que ele me havia prometido:
– Jamais lerei diante daqueles sanguessugas, Chinaski. Vou pra cova sem nunca fazer uma leitura pública. É pura vaidade, é se vender.
Não o lembrei dessa afirmação.
Seu romance A morte na vida de todos os olhos sobre a face da Terra foi publicado por uma pequena porém prestigiada editora que pagava royalties regularmente. As críticas foram boas, incluindo uma na New York Review of Books. Mas ele ainda era um bêbado terrível e brigava constantemente com Susan por causa da bebida.
Finalmente, depois de um porre homérico, em que ele se enfureceu, amaldiçoou e gritou a noite toda, Susan o deixou. Vi Randall vários dias depois que ela partira. Harris estava estranhamente quieto, quase normal.
– Eu a amava, Chinaski – ele me disse. – Não vou conseguir superar essa, meu chapa.
– Você vai conseguir, Randall. Você vai ver. Vai conseguir. O ser humano é muito mais resistente do que você pensa.
– Merda – ele disse –, espero que você esteja certo. Estou com um buraco danado no peito. As mulheres já colocaram muitos homens bons embaixo da ponte. Elas não sentem isso da forma que nós sentimos.
– Elas sentem, sim. Ela só não conseguia mais suportar as suas bebedeiras.
– Porra, homem, escrevo a maioria dos meus textos quando estou bêbado.
– É esse o segredo?
– Merda, claro que é. Sóbrio, sou apenas um despachante, e não dos melhores...
Deixei-o lá agarrado em sua cerveja.
Voltei a visitá-lo três meses mais tarde. Harris ainda estava em seu casarão. Ele me apresentou Sandra, uma loira bonita de 27 anos. Seu pai era um juiz da Suprema Corte, e ela era uma estudante de graduação na Universidade do Sul da Califórnia. Além de ter um corpo bem-torneado, tinha certa sofisticação e classe, algo que faltara às outras mulheres de Randall. Estava bebendo uma garrafa de vinho italiano.
O cavanhaque de Randall tinha se transformado em uma barba e seu cabelo estava ainda mais comprido. Suas roupas eram novas e da última moda. Estava usando sapados de quarenta dólares, um relógio de pulso novo e seu rosto parecia mais magro, suas unhas, limpas... mas seu nariz ainda enrubescia à medida que ia bebendo o vinho.
– Randall e eu vamos nos mudar para West L.A. Este fim de semana – ela me disse. – Esse lugar é imundo.
– Escrevi muitas coisas boas aqui – ele disse.
– Randall, querido – ela disse –, não é o lugar que escreve, é você. Acho que podemos lhe arranjar um emprego de professor para lecionar três dias por semana.
– Não sei ensinar.
– Querido, você pode lhes ensinar tudo.
– Merda – ele disse.
– Estão pensando em fazer um filme baseado no livro de Randall. Vimos o roteiro. É um belo roteiro.
– Um filme? – perguntei.
– A probabilidade é baixa – disse Harris.
– Querido, estão trabalhando nele. Tenha um pouco de fé.
Bebi outro cálice de vinho com eles e então parti. Sandra era uma garota bonita.
Não recebi o endereço de Randall em West L.A. E não fiz nenhuma tentativa de localizá-lo. Cerca de um ano depois, li uma resenha do filme Flor no cu do inferno. Era baseado em seu romance. Era uma crítica favorável e Harris chegou mesmo a atuar em um pequeno papel.
Fui assistir. Tinham feito um bom trabalho em cima do livro. Harris parecia um pouco mais austero do que quando o havia visto pela última vez. Decidi encontrá-lo. Depois de um tempo dando uma de detetive, bati à porta de sua cabana em Malibu uma noite por volta das nove. Randall atendeu.
– Chinaski, seu cachorro velho – ele disse. – Entre.
Uma bela garota estava sentada no sofá. Parecia ter aproximadamente dezenove anos, simplesmente irradiava uma beleza natural.
– Essa é Karilla – ele disse.
Eles estavam bebendo uma garrafa de vinho francês, dos caros. Sentei com eles e bebi um cálice. Tomei vários cálices. Outra garrafa apareceu e conversamos calmamente. Harris não ficou bêbado e inoportuno e não pareceu fumar muito.
– Estou trabalhando numa peça para a Broadway – ele me disse. – Dizem que o teatro está morrendo, mas eu tenho algo para eles. Um dos principais produtores está interessado. Estou finalizando o último ato agora. É um gênero interessante. Sempre fui craque nos diálogos, você sabe.
– Sim – eu disse.
Fui embora lá pelas onze e meia naquela noite. A conversa tinha sido agradável... As têmporas de Harris começavam a exibir um respeitável tom grisalho, e ele não disse “merda” mais do que quatro ou cinco vezes.
A peça Atire em seu pai, atire em seu Deus, livre-se do desembaraço era um sucesso. Estava entre as peças recordistas em tempo de exibição na Broadway. Tinha de tudo: algo para os revolucionários, algo para os reacionários, algo para os que amavam comédia, para os que amavam drama, tinha até mesmo algo para os intelectuais e, ainda assim, fazia sentido. Randall Harris se mudou de Malibu para uma casa maior em Hollywood Hills. Agora é possível saber notícias dele pelos tabloides.
Após algumas dificuldades, encontrei a localização de sua casa em Hollywood Hills, uma mansão de três andares com vista para as luzes de Los Angeles e Hollywood.
Estacionei, saí do carro e caminhei pela passagem que levava até a porta da frente. Era perto das oito e meia da noite, a temperatura estava baixa, quase fazia frio; a lua estava cheia e o ar fresco e limpo.
Toquei a campainha. Pareceu-me uma longa espera. Finalmente a porta se abriu. Era o mordomo.
– Sim, senhor? – me perguntou.
– Vim para ver Randall Harris, da parte de Henry Chinaski – eu disse.
– Um momento, por favor, senhor.
Ele fechou a porta em silêncio e esperei. Mais uma vez, um longo intervalo. Então o mordomo voltou.
– Sinto muito, senhor, mas o sr. Harris não pode ser perturbado neste momento.
– Oh, tudo bem.
– Gostaria de deixar uma mensagem, senhor?
– Uma mensagem? Sim, dê-lhe os meus “parabéns”.
– “Parabéns”? Isso é tudo?
– Sim, isso é tudo.
– Boa noite, senhor.
– Boa noite.
Voltei para o meu carro, entrei. Dei a partida e comecei a longa viagem descendo as colinas. Tinha comigo aquela antiga cópia da Mad Fly que queria que ele autografasse. Era a cópia com dez poemas de Randall Harris. Ele provavelmente estava ocupado. Talvez, pensei, se eu mandasse pelo correio a revista com um envelope selado de resposta, ele assinasse.
Eram apenas nove da noite. Havia tempo para ir a um outro lugar.
– Ao sul de lugar nenhum
790
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Incêndio do Sonho

A velha Biblioteca Pública de L.A. pegou
fogo
aquela biblioteca do centro
e com ela se foi
uma grande parte da minha
juventude.
eu estava sentado num daqueles bancos de
pedra com meu amigo
Carequinha quando ele
perguntou,
“você vai se alistar na
brigada
Abraham Lincoln?”
“claro”, eu lhe
disse.
mas percebendo que eu não era nem
um intelectual nem um político
idealista
recuei na questão
mais
tarde.
eu era um leitor
então
indo de seção em
seção: literatura, filosofia,
religião, até medicina
e geologia.
desde cedo
decidi ser um escritor
pensei que esse seria o caminho mais fácil
para
escapar
e os grandes figurões do romance não me pareciam
páreo muito
duro.
eu tinha maiores dificuldades com
Hegel e Kant.
o que me incomodava
em
todos eles
é que levavam um tempo enorme
para finalmente dizer
alguma coisa viva e/
ou
interessante.
pensava então ter algo a dizer
mais do que todos
eles.
eu estava para descobrir duas
coisas:
a) a maioria dos editores pensava que tudo que fosse
chato tinha algo a ver com assuntos
profundos.
b) que levaria décadas de
vida e escrita
antes que eu fosse capaz de
colocar no papel
uma frase que estivesse
ao menos próxima
daquilo que eu realmente queria
dizer.
nesse meio-tempo
enquanto outros jovens corriam atrás de
mulheres
eu corria atrás dos velhos
livros.
eu era um bibliófilo, quem sabe um
sujeito
desencantado
e isto
e o mundo
me moldaram.
eu vivia numa cabana de madeira
atrás de uma pensão
a três dólares por
semana
sentindo-me como um
Chatterton
enfiado dentro de algo do
Thomas
Wolfe.
meus maiores problemas eram
selos, envelopes, papéis
e
vinho,
com o mundo no auge
da Segunda Guerra Mundial.
eu ainda não tinha sido
desconcertado pelas
mulheres, eu era virgem
e escrevia de 3 a
5 contos por semana
e todos retornavam
rejeitados
por The New Yorker, Harper’s,
The Atlantic Monthly.
eu tinha lido em algum lugar que
Ford Madox Ford costumava usar
como papel higiênico os pareceres
dos trabalhos rejeitados
mas eu não tinha
um banheiro de modo que os enfiava
numa gaveta
e quando não havia mais espaço
e eu mal conseguia
abri-la
eu retirava todos os pareceres
e os jogava fora
junto com os
contos.
enquanto isso
a velha Biblioteca Pública de L.A. seguia sendo
minha casa
e a casa de muitos outros
vagabundos.
discretamente usávamos os
banheiros
e os únicos entre nós que deveriam
ser
evitados eram aqueles que
pegavam no sono nas mesas da
biblioteca –
ninguém ronca como um
vagabundo
exceto alguém com quem você é
casado.
bem, eu não era propriamente um
vagabundo. eu tinha um cartão da biblioteca
e eu ia e voltava com os livros
uma
enorme
quantidade deles
sempre levando o limite
máximo
permitido:
Aldous Huxley, D. H. Lawrence,
e. e. cummings, Conrad Aiken, Fiodor
Dos, Dos Passos, Turguêniev, Górky,
H. D., Freddie Nietzsche,
Schopenhauer,
Steinbeck,
Hemingway,
e assim por
diante...
sempre esperava que a bibliotecária
dissesse: “você tem um gosto e tanto, meu
jovem...”
mas a puta velha e acabada
não sabia nem quem ela
era
que dirá de
mim.
mas aquelas estantes eram
tremendamente encantadoras: permitiam-me
descobrir
os primeiros poetas chineses
como Tu Fu e Li
Po
que podiam dizer mais em uma
linha do que a maioria em
trinta ou
cem.
Sherwood Anderson deve
tê-los
lido
também.
eu também levava os Cantos
pra lá e pra cá
e Ezra me ajudou
a fortalecer meus braços se não
meu cérebro.
aquele lugar fantástico
a Biblioteca Pública de L.A.
era um lar para uma pessoa que tinha tido
um
lar dos
infernos
CÓRREGOS AMPLOS DEMAIS PARA SALTAR
LONGE DA MULTIDÃO ESTULTA
CONTRAPONTO
O CORAÇÃO É UM CAÇADOR SOLITÁRIO
James Thurber
John Fante
Rabelais
Maupassant
alguns não funcionavam para
mim: Shakespeare, G. B. Shaw,
Tolstói, Robert Frost, F. Scott
Fitzgerald
Upton Sinclair funcionava melhor para
mim
que Sinclair Lewis
e eu considerava Gógol e
Dreiser completos
idiotas
mas tais juízos eram produto
mais da maneira
como um homem era forçado a viver do que de
sua razão.
a velha Biblioteca Pública
muito provavelmente evitou que eu me
tornasse um
suicida
um ladrão
de bancos
um
espancador
de mulheres
um carniceiro ou um
policial motorizado
e ainda que algumas dessas possibilidades
não sejam más
é
graças
à minha sorte
e a meu destino
que aquela biblioteca estava
lá quando eu era
jovem e procurava me
agarrar a
alguma coisa
quando parecia não haver quase
nada ao meu
redor.
e quando eu abri o
jornal
e soube do incêndio
que havia
destruído a
biblioteca e boa parte de
seu interior
eu disse à minha
esposa: “eu costumava passar
meu tempo
lá...”
O OFICIAL PRUSSIANO
O JOVEM AUDAZ NO TRAPÉZIO VOADOR
TER E NÃO TER
VOCÊ NÃO PODE VOLTAR PARA CASA.

Realizei várias incursões educativas pelos cortiços da cidade a fim de me preparar para o meu futuro. Não gostei nada do que vi por lá. Aqueles homens e aquelas mulheres não tinham qualquer tipo especial de ousadia ou brilho. Queriam apenas o que todo o resto do mundo queria. Havia também alguns desequilibrados mentais clássicos que podiam andar com tranquilidade naquelas redondezas. Eu tinha notado que em ambos os extremos da sociedade, tanto entre os ricos quanto entre os pobres, frequentemente se permitia que os loucos se misturassem livremente entre as pessoas. Eu sabia que não era inteiramente são. Também sabia, uma percepção que eu tinha desde a infância, que havia algo de estranho em mim. Era como se meu destino fosse ser um assassino, um ladrão de banco, um santo, um estuprador, um monge, um ermitão. Precisava de um lugar isolado para me esconder. Os cortiços eram lugares nojentos. A vida das pessoas sãs, dos homens comuns, era uma estupidez pior do que a morte. Parecia não haver alternativa possível. A educação também parecia uma armadilha. A pouca educação que eu tinha me permitido havia me tornado ainda mais desconfiado. O que eram médicos, advogados, cientistas? Apenas homens que tinham permitido que sua liberdade de pensamento e a capacidade de agir como indivíduos lhes fossem retiradas. Voltei para meu barracão e enchi a cara...
Sentado ali, bebendo, considerei a opção do suicídio, mas me senti estranhamente apaixonado pelo meu corpo, pela minha vida. Apesar das cicatrizes que marcavam meu corpo e minha existência, ambos eram propriedades minhas. Eu podia me levantar agora e sorrir com escárnio para meu reflexo no espelho da cômoda: se você tem que ir, que leve ao menos uns oito junto, uns dez, uns vinte...
Era uma noite de dezembro, um sábado. Estava no meu quarto e tinha bebido muito mais que o de costume, acendendo um cigarro no outro, pensando nas garotas e na cidade e nos empregos e nos anos que ainda viriam. Olhando para o devir, eu gostava muito pouco do que via. Eu não era um misantropo ou um misógino, mas gostava de estar sozinho. Era bom estar solitário num lugarzinho, sentado, fumando e bebendo. Sempre tinha sido uma boa companhia para mim mesmo.
Então escutei o som do rádio que vazava do quarto ao lado. O cara tinha posto o volume muito alto. Era uma canção de amor de embrulhar o estômago.
– Ei, camarada! – gritei. – Abaixa essa coisa!
Não houve resposta.
Fui até a parede e bati com força
– EU DISSE PARA ABAIXAR ESSA MÚSICA DE MERDA!
O volume continuou o mesmo.
Saí e fui até a porta vizinha. Eu estava só de cueca. Ergui minha perna e meti o pé na porta. Ela se escancarou. Havia duas pessoas na cama, um velho gordo e uma velha gorda. Eles estavam trepando. Havia uma pequena vela acesa. O velho estava por cima. Parou, voltou sua cabeça e me olhou. A velha também me deu uma olhada por sobre o ombro dele. O lugar era muito bem arrumado, com cortinas e um pequeno tapete.
– Oh, me desculpem...
Fechei a porta e voltei para o meu quarto. Senti-me péssimo. Os pobres tinham o direito de foder como quisessem para vencer seus pesadelos. Sexo e bebida, e talvez amor, era tudo o que eles tinham.
Sentei-me novamente e servi um copo de vinho. Deixei a minha porta aberta. A luz do luar entrou trazendo consigo os sons da cidade: vitrolas, automóveis, palavrões, latidos, rádios... Estávamos todos juntos nisso. Todos juntos num grande vaso cheio de merda. Não havia escapatória. Todos desceríamos juntos com a descarga.
Um gatinho que passava do lado de fora parou na frente da minha porta e olhou para dentro. Os olhos brilhavam sob a luz da lua: olhos de um vermelho vivo como fogo. Que olhos maravilhosos.
– Venha, gatinho...
Estiquei minha mão como se houvesse comida dentro dela.
– Gatinho, gatinho...
O gato seguiu adiante.
Ouvi o rádio na peça ao lado ser desligado.
Terminei meu vinho e fui até ali fora. Continuava só de cueca. Puxei e ajeitei minhas partes. Fiquei parado na frente da outra porta. Eu havia destruído o trinco. Podia ver a luz da vela lá dentro. Eles mantinham a porta fechada pela ação de algum móvel, provavelmente uma cadeira.
Bati discretamente.
Não houve resposta.
Bati outra vez.
Ouvi alguma coisa. Então a porta se abriu.
O velho gordo ficou ali plantado. Seu rosto era todo sulcado, transmitindo uma ideia de profunda amargura. Era todo sobrancelhas e bigode e dois olhos tristonhos.
– Ouça – eu disse –, sinto profundamente o que fiz. Você e sua garota não querem dar uma chegada no meu quarto para tomarmos alguma coisa?
– Não.
– Ou quem sabe eu possa trazer algo para vocês beberem?
– Não – ele disse –, apenas nos deixe em paz.
Ele fechou a porta.
Acordei com uma das minhas piores ressacas. Normalmente dormia até o meio-dia. Naquele dia não consegui. Pus uma roupa, fui até o banheiro na casa principal e fiz minha higiene. Voltei, saí pela ruela e tomei a escadaria, desci o barranco e segui pela rua de baixo.
Domingo, o pior, o mais desgraçado entre todos os dias da semana.
Caminhei pela rua Principal, passei pelos bares. As acompanhantes se sentavam perto da entrada, as saias bem erguidas, balançando as pernas, usando saltos altos.
– Ei, doçura, venha aqui!
Main Street, East 5th Street, Bunker Hill. Os cus da América.
Não havia lugar para ir. Entrei num fliperama. Andei entre as máquinas, olhando para os jogos, mas sem desejo algum de jogar. Então vi um marinheiro numa máquina de pinball. Suas duas mãos apertavam as laterais da máquina, enquanto ele tentava guiar a bolinha como se estivesse usando o próprio corpo para fazê-lo. Caminhei até ele e o agarrei pela parte de trás do colarinho e pelo cinto.
– Becker, eu exijo uma maldita duma revanche!
Soltei-o e ele se virou.
– Não, está fora de questão – ele disse.
– Uma melhor de três.
– Caralho – ele disse –, deixa eu te pagar uma bebida.
Saímos do fliperama e descemos a Main Street. Uma acompanhante gritou de um dos bares:
– Ei, marinheiro, venha cá!
Becker parou.
– Vou entrar – ele disse.
– Não faça isso – eu disse –, elas são baratas humanas.
– Acabei de receber.
– As garotas bebem chá, e eles põem água na sua bebida. Cada dose é o dobro do preço, e depois a garota desaparece.
– Estou entrando.
Becker entrou. Um dos melhores escritores inéditos da América, vestido para matar e morrer. Segui-o. Ele foi até uma das garotas e falou com ela. Ela puxou a saia mais para cima, girou em seus saltos altos e sorriu. Foram para um reservado no fundo. O atendente foi até lá pegar o pedido deles. A outra garota junto ao bar me olhou.
– Ei, doçura, quer brincar um pouquinho?
– Claro, desde que a gente brinque do meu jeito.
– Tem medo ou é veado?
– Os dois – eu disse, sentando no canto mais afastado do bar.
Havia um cara entre nós, a cabeça apoiada no balcão. Sua carteira já era. Quando ele acordasse e começasse a reclamar, das duas uma: ou seria jogado no meio da rua pelo atendente, ou seria entregue nas mãos da polícia.
Depois de servir Becker e a acompanhante, o atendente voltou para trás do balcão e caminhou em minha direção.
– Sim?
– Nada.
– É? Então o que cê tá fazendo aqui?
– Esperando por um amigo – gesticulei com a cabeça na direção do reservado.
– O negócio aqui é sentou pediu.
– Beleza. Uma água.
O atendente se afastou, voltou, deixou o copo d’água.
– Vinte e cinco centavos.
Paguei-o.
A garota junto ao bar disse ao atendente:
– Ele é veado ou medroso.
O atendente não disse nada. Então Becker lhe fez um sinal e ele foi lá pegar o pedido.
A garota olhou para mim.
– Como você não tá de uniforme?
– Não gosto de me vestir como todo mundo.
– Não existem outras razões?
– As outras razões só dizem respeito a mim.
– Então vá se foder – ela disse.
O atendente voltou.
– Você precisa de outro copo.
– Tá – eu disse, mandando outro quarto de dólar na sua direção.
Do lado de fora, Becker e eu seguimos pela Main Street.
– Como foi? – perguntei.
– Cobraram pelo uso da mesa, além dos dois drinques. Chegou a 32 pratas.
– Cristo. Eu podia ficar bêbado por duas semanas com essa grana.
– Ela agarrou meu pau debaixo da mesa, ficou tocando uma.
– O que ela disse?
– Nada. Apenas tocou uma punheta pra mim.
– Prefiro eu mesmo me bater uma punheta e ficar com os 32 contos.
– Mas ela era tão linda.
– Maldição, homem. Estou andando ao lado de um perfeito idiota.
– Algum dia vou escrever sobre essas coisas. Estarei nas prateleiras das bibliotecas: BECKER. Os “Bs” são muito fracos, precisam de ajuda.
– Você fala demais sobre escrever – eu disse.
Encontramos um outro bar perto do terminal de ônibus. Não era uma espelunca movimentada. Havia apenas o dono do bar e cinco ou seis viajantes, todos homens. Becker e eu nos sentamos.
– É por minha conta – disse Becker.
– Uma Eastside na garrafa.
Becker pediu duas. Olhou para mim.
– Vamos lá, seja homem, aliste-se. Seja um marinheiro.
– Não fico nem um pouco empolgado com essa coisa de ser machão.
– Nem parece o mesmo sujeito que está sempre trocando uns sopapos com alguém.
– Faço isso por puro entretenimento.
– Aliste-se. Isso vai lhe dar algo sobre o que escrever.
– Becker, sempre há algo sobre o que escrever.
– E o que você vai fazer, então?
Apontei para minha garrafa e a ergui.
– Como vai conseguir sobreviver? – Becker perguntou.
– Tenho a impressão de ter ouvido essa pergunta ao longo de toda minha vida.
– Bem, não sei quanto a você, mas vou tentar de tudo! Guerra, mulheres, viagens, casamento, os trabalhos. O primeiro carro que eu comprar quero desmontar completamente! Para depois remontá-lo! Quero entender as coisas, o que faz elas funcionarem! Gostaria de ser um correspondente na capital do país, Washington. Quero sempre estar onde as grandes coisas estão acontecendo.
– Washington é um lixo, Becker.
– E mulheres? Casamento? Crianças?
– Lixo.
– É? Mas o que você quer, afinal?
– Me esconder.
– Seu pobre fodido. Você precisa de outra cerveja.
– Tudo bem.
A cerveja chegou.
Ficamos sentados em silêncio. Pude perceber que Becker estava imerso em seus próprios pensamentos, pensando em ser marinheiro, em ser escritor, em trepar. Era provável que desse um bom escritor. Estava explodindo de entusiasmo. Provavelmente ele amava uma porção de coisas: um falcão em pleno voo, o maldito oceano, a lua cheia, Balzac, pontes, peças de teatro, o Prêmio Pulitzer, o piano, a maldita Bíblia.
Havia um pequeno rádio no bar. Uma canção popular estava tocando. Então, no meio da música houve uma interrupção. O locutor disse:
– Um boletim acaba de chegar. Os japoneses bombardearam Pearl Harbor. Repito: os japoneses acabam de bombardear Pearl Harbor. Todos os militares devem retornar imediatamente para suas bases!
Olhamos um para o outro, ainda aturdidos e sem o total entendimento do que acabávamos de ouvir.
– Bem – disse Becker em voz baixa –, é isso.
– Termine sua cerveja – eu falei.
Becker tomou tudo num só gole.
– Jesus, imagine se um filho da puta qualquer aponta uma metralhadora pra mim e resolve apertar o gatilho?
– Isso pode muito bem acontecer.
– Hank...
– Fala.
– Você me acompanha no ônibus até a base?
– Não posso fazer isso.
O dono do bar, um homem duns 45 anos, com uma barriga que parecia uma melancia e olhos miúdos, aproximou-se de nós. Olhou para Becker:
– Bem, marinheiro, parece que você tem que voltar para sua base, não?
Aquilo me deixou puto da cara.
– Ei, gordão, deixe-o terminar sua bebida, certo?
– Claro, claro... Quer uma por conta da casa, marinheiro? Que tal uma dose de um bom uísque?
– Não – disse Becker –, está tudo bem.
– Aceite – falei a Becker –, tome a dose. Ele pensa que você vai morrer para salvar o bar dele.
– Tudo bem – disse Becker –, vou aceitar seu uísque.
O dono do bar olhou para Becker.
– Você tem um amigo desprezível...
– Apenas sirva a bebida – eu disse.
Os outros poucos clientes tagarelavam freneticamente sobre Pearl Harbor. Antes, não tinham trocado uma palavra. Agora estavam mobilizados. A Tribo estava em perigo.
Becker pegou sua bebida. Era uma dose dupla de uísque. Tomou num talagaço.
– Nunca contei para você – ele disse –, mas sou órfão.
– Caralho – eu disse.
– Você vai comigo pelo menos até o terminal de ônibus?
– Claro.
Levantamos e fomos em direção à saída.
O dono do bar estava esfregando as mãos no avental. Trazia o avental todo amarrotado e não parava de esfregar as mãos nele, tomado de excitação.
– Boa sorte, marinheiro! – ele gritou.
Becker saiu. Fiquei ainda lá dentro e olhei para o dono do bar.
– Primeira Guerra Mundial, não?
– É, é... – ele disse, cheio de alegria.
Juntei-me a Becker. Nós meio que corremos até o terminal. Militares uniformizados já começavam a chegar. A euforia se espalhava no ar. Um marinheiro passou correndo.
– VOU MATAR UM JAPA COM MINHAS PRÓPRIAS MÃOS! – gritou.
Becker ficou na fila para comprar o bilhete. Um dos soldados tinha a namorada consigo. A garota falava, chorava, agarrada a ele, beijando-o sem parar. O pobre Becker só tinha a mim. Fiquei de lado, esperando. Foi uma espera longa. O mesmo marinheiro que antes passara gritando se aproximou de mim.
– Ei, companheiro, você não vai nos ajudar? Por que você está aí parado? Por que não se alista?
Seu hálito recendia a uísque. Ele tinha sardas e um nariz enorme.
– Você vai perder seu ônibus – eu falei.
Ele se afastou em direção ao terminal de saída.
– Fodam-se esses malditos japas fodidos! – ele disse.
Becker finalmente conseguiu comprar uma passagem. Caminhei com ele até o ônibus. Ele ficou numa outra fila.
– Algum conselho? – perguntou.
– Não.
A fila entrava devagar no ônibus. A garota estava chorando e falando rápido e baixinho com seu soldado.
Becker chegou à porta. Dei-lhe um soco no ombro.
– Você é o melhor que eu já conheci.
– Obrigado, Hank...
– Adeus...
– Misto-quente
1 765
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Incêndio do Sonho

A velha Biblioteca Pública de L.A. pegou
fogo
aquela biblioteca do centro
e com ela se foi
uma grande parte da minha
juventude.
eu estava sentado num daqueles bancos de
pedra com meu amigo
Carequinha quando ele
perguntou,
“você vai se alistar na
brigada
Abraham Lincoln?”
“claro”, eu lhe
disse.
mas percebendo que eu não era nem
um intelectual nem um político
idealista
recuei na questão
mais
tarde.
eu era um leitor
então
indo de seção em
seção: literatura, filosofia,
religião, até medicina
e geologia.
desde cedo
decidi ser um escritor
pensei que esse seria o caminho mais fácil
para
escapar
e os grandes figurões do romance não me pareciam
páreo muito
duro.
eu tinha maiores dificuldades com
Hegel e Kant.
o que me incomodava
em
todos eles
é que levavam um tempo enorme
para finalmente dizer
alguma coisa viva e/
ou
interessante.
pensava então ter algo a dizer
mais do que todos
eles.
eu estava para descobrir duas
coisas:
a) a maioria dos editores pensava que tudo que fosse
chato tinha algo a ver com assuntos
profundos.
b) que levaria décadas de
vida e escrita
antes que eu fosse capaz de
colocar no papel
uma frase que estivesse
ao menos próxima
daquilo que eu realmente queria
dizer.
nesse meio-tempo
enquanto outros jovens corriam atrás de
mulheres
eu corria atrás dos velhos
livros.
eu era um bibliófilo, quem sabe um
sujeito
desencantado
e isto
e o mundo
me moldaram.
eu vivia numa cabana de madeira
atrás de uma pensão
a três dólares por
semana
sentindo-me como um
Chatterton
enfiado dentro de algo do
Thomas
Wolfe.
meus maiores problemas eram
selos, envelopes, papéis
e
vinho,
com o mundo no auge
da Segunda Guerra Mundial.
eu ainda não tinha sido
desconcertado pelas
mulheres, eu era virgem
e escrevia de 3 a
5 contos por semana
e todos retornavam
rejeitados
por The New Yorker, Harper’s,
The Atlantic Monthly.
eu tinha lido em algum lugar que
Ford Madox Ford costumava usar
como papel higiênico os pareceres
dos trabalhos rejeitados
mas eu não tinha
um banheiro de modo que os enfiava
numa gaveta
e quando não havia mais espaço
e eu mal conseguia
abri-la
eu retirava todos os pareceres
e os jogava fora
junto com os
contos.
enquanto isso
a velha Biblioteca Pública de L.A. seguia sendo
minha casa
e a casa de muitos outros
vagabundos.
discretamente usávamos os
banheiros
e os únicos entre nós que deveriam
ser
evitados eram aqueles que
pegavam no sono nas mesas da
biblioteca –
ninguém ronca como um
vagabundo
exceto alguém com quem você é
casado.
bem, eu não era propriamente um
vagabundo. eu tinha um cartão da biblioteca
e eu ia e voltava com os livros
uma
enorme
quantidade deles
sempre levando o limite
máximo
permitido:
Aldous Huxley, D. H. Lawrence,
e. e. cummings, Conrad Aiken, Fiodor
Dos, Dos Passos, Turguêniev, Górky,
H. D., Freddie Nietzsche,
Schopenhauer,
Steinbeck,
Hemingway,
e assim por
diante...
sempre esperava que a bibliotecária
dissesse: “você tem um gosto e tanto, meu
jovem...”
mas a puta velha e acabada
não sabia nem quem ela
era
que dirá de
mim.
mas aquelas estantes eram
tremendamente encantadoras: permitiam-me
descobrir
os primeiros poetas chineses
como Tu Fu e Li
Po
que podiam dizer mais em uma
linha do que a maioria em
trinta ou
cem.
Sherwood Anderson deve
tê-los
lido
também.
eu também levava os Cantos
pra lá e pra cá
e Ezra me ajudou
a fortalecer meus braços se não
meu cérebro.
aquele lugar fantástico
a Biblioteca Pública de L.A.
era um lar para uma pessoa que tinha tido
um
lar dos
infernos
CÓRREGOS AMPLOS DEMAIS PARA SALTAR
LONGE DA MULTIDÃO ESTULTA
CONTRAPONTO
O CORAÇÃO É UM CAÇADOR SOLITÁRIO
James Thurber
John Fante
Rabelais
Maupassant
alguns não funcionavam para
mim: Shakespeare, G. B. Shaw,
Tolstói, Robert Frost, F. Scott
Fitzgerald
Upton Sinclair funcionava melhor para
mim
que Sinclair Lewis
e eu considerava Gógol e
Dreiser completos
idiotas
mas tais juízos eram produto
mais da maneira
como um homem era forçado a viver do que de
sua razão.
a velha Biblioteca Pública
muito provavelmente evitou que eu me
tornasse um
suicida
um ladrão
de bancos
um
espancador
de mulheres
um carniceiro ou um
policial motorizado
e ainda que algumas dessas possibilidades
não sejam más
é
graças
à minha sorte
e a meu destino
que aquela biblioteca estava
lá quando eu era
jovem e procurava me
agarrar a
alguma coisa
quando parecia não haver quase
nada ao meu
redor.
e quando eu abri o
jornal
e soube do incêndio
que havia
destruído a
biblioteca e boa parte de
seu interior
eu disse à minha
esposa: “eu costumava passar
meu tempo
lá...”
O OFICIAL PRUSSIANO
O JOVEM AUDAZ NO TRAPÉZIO VOADOR
TER E NÃO TER
VOCÊ NÃO PODE VOLTAR PARA CASA.

Realizei várias incursões educativas pelos cortiços da cidade a fim de me preparar para o meu futuro. Não gostei nada do que vi por lá. Aqueles homens e aquelas mulheres não tinham qualquer tipo especial de ousadia ou brilho. Queriam apenas o que todo o resto do mundo queria. Havia também alguns desequilibrados mentais clássicos que podiam andar com tranquilidade naquelas redondezas. Eu tinha notado que em ambos os extremos da sociedade, tanto entre os ricos quanto entre os pobres, frequentemente se permitia que os loucos se misturassem livremente entre as pessoas. Eu sabia que não era inteiramente são. Também sabia, uma percepção que eu tinha desde a infância, que havia algo de estranho em mim. Era como se meu destino fosse ser um assassino, um ladrão de banco, um santo, um estuprador, um monge, um ermitão. Precisava de um lugar isolado para me esconder. Os cortiços eram lugares nojentos. A vida das pessoas sãs, dos homens comuns, era uma estupidez pior do que a morte. Parecia não haver alternativa possível. A educação também parecia uma armadilha. A pouca educação que eu tinha me permitido havia me tornado ainda mais desconfiado. O que eram médicos, advogados, cientistas? Apenas homens que tinham permitido que sua liberdade de pensamento e a capacidade de agir como indivíduos lhes fossem retiradas. Voltei para meu barracão e enchi a cara...
Sentado ali, bebendo, considerei a opção do suicídio, mas me senti estranhamente apaixonado pelo meu corpo, pela minha vida. Apesar das cicatrizes que marcavam meu corpo e minha existência, ambos eram propriedades minhas. Eu podia me levantar agora e sorrir com escárnio para meu reflexo no espelho da cômoda: se você tem que ir, que leve ao menos uns oito junto, uns dez, uns vinte...
Era uma noite de dezembro, um sábado. Estava no meu quarto e tinha bebido muito mais que o de costume, acendendo um cigarro no outro, pensando nas garotas e na cidade e nos empregos e nos anos que ainda viriam. Olhando para o devir, eu gostava muito pouco do que via. Eu não era um misantropo ou um misógino, mas gostava de estar sozinho. Era bom estar solitário num lugarzinho, sentado, fumando e bebendo. Sempre tinha sido uma boa companhia para mim mesmo.
Então escutei o som do rádio que vazava do quarto ao lado. O cara tinha posto o volume muito alto. Era uma canção de amor de embrulhar o estômago.
– Ei, camarada! – gritei. – Abaixa essa coisa!
Não houve resposta.
Fui até a parede e bati com força
– EU DISSE PARA ABAIXAR ESSA MÚSICA DE MERDA!
O volume continuou o mesmo.
Saí e fui até a porta vizinha. Eu estava só de cueca. Ergui minha perna e meti o pé na porta. Ela se escancarou. Havia duas pessoas na cama, um velho gordo e uma velha gorda. Eles estavam trepando. Havia uma pequena vela acesa. O velho estava por cima. Parou, voltou sua cabeça e me olhou. A velha também me deu uma olhada por sobre o ombro dele. O lugar era muito bem arrumado, com cortinas e um pequeno tapete.
– Oh, me desculpem...
Fechei a porta e voltei para o meu quarto. Senti-me péssimo. Os pobres tinham o direito de foder como quisessem para vencer seus pesadelos. Sexo e bebida, e talvez amor, era tudo o que eles tinham.
Sentei-me novamente e servi um copo de vinho. Deixei a minha porta aberta. A luz do luar entrou trazendo consigo os sons da cidade: vitrolas, automóveis, palavrões, latidos, rádios... Estávamos todos juntos nisso. Todos juntos num grande vaso cheio de merda. Não havia escapatória. Todos desceríamos juntos com a descarga.
Um gatinho que passava do lado de fora parou na frente da minha porta e olhou para dentro. Os olhos brilhavam sob a luz da lua: olhos de um vermelho vivo como fogo. Que olhos maravilhosos.
– Venha, gatinho...
Estiquei minha mão como se houvesse comida dentro dela.
– Gatinho, gatinho...
O gato seguiu adiante.
Ouvi o rádio na peça ao lado ser desligado.
Terminei meu vinho e fui até ali fora. Continuava só de cueca. Puxei e ajeitei minhas partes. Fiquei parado na frente da outra porta. Eu havia destruído o trinco. Podia ver a luz da vela lá dentro. Eles mantinham a porta fechada pela ação de algum móvel, provavelmente uma cadeira.
Bati discretamente.
Não houve resposta.
Bati outra vez.
Ouvi alguma coisa. Então a porta se abriu.
O velho gordo ficou ali plantado. Seu rosto era todo sulcado, transmitindo uma ideia de profunda amargura. Era todo sobrancelhas e bigode e dois olhos tristonhos.
– Ouça – eu disse –, sinto profundamente o que fiz. Você e sua garota não querem dar uma chegada no meu quarto para tomarmos alguma coisa?
– Não.
– Ou quem sabe eu possa trazer algo para vocês beberem?
– Não – ele disse –, apenas nos deixe em paz.
Ele fechou a porta.
Acordei com uma das minhas piores ressacas. Normalmente dormia até o meio-dia. Naquele dia não consegui. Pus uma roupa, fui até o banheiro na casa principal e fiz minha higiene. Voltei, saí pela ruela e tomei a escadaria, desci o barranco e segui pela rua de baixo.
Domingo, o pior, o mais desgraçado entre todos os dias da semana.
Caminhei pela rua Principal, passei pelos bares. As acompanhantes se sentavam perto da entrada, as saias bem erguidas, balançando as pernas, usando saltos altos.
– Ei, doçura, venha aqui!
Main Street, East 5th Street, Bunker Hill. Os cus da América.
Não havia lugar para ir. Entrei num fliperama. Andei entre as máquinas, olhando para os jogos, mas sem desejo algum de jogar. Então vi um marinheiro numa máquina de pinball. Suas duas mãos apertavam as laterais da máquina, enquanto ele tentava guiar a bolinha como se estivesse usando o próprio corpo para fazê-lo. Caminhei até ele e o agarrei pela parte de trás do colarinho e pelo cinto.
– Becker, eu exijo uma maldita duma revanche!
Soltei-o e ele se virou.
– Não, está fora de questão – ele disse.
– Uma melhor de três.
– Caralho – ele disse –, deixa eu te pagar uma bebida.
Saímos do fliperama e descemos a Main Street. Uma acompanhante gritou de um dos bares:
– Ei, marinheiro, venha cá!
Becker parou.
– Vou entrar – ele disse.
– Não faça isso – eu disse –, elas são baratas humanas.
– Acabei de receber.
– As garotas bebem chá, e eles põem água na sua bebida. Cada dose é o dobro do preço, e depois a garota desaparece.
– Estou entrando.
Becker entrou. Um dos melhores escritores inéditos da América, vestido para matar e morrer. Segui-o. Ele foi até uma das garotas e falou com ela. Ela puxou a saia mais para cima, girou em seus saltos altos e sorriu. Foram para um reservado no fundo. O atendente foi até lá pegar o pedido deles. A outra garota junto ao bar me olhou.
– Ei, doçura, quer brincar um pouquinho?
– Claro, desde que a gente brinque do meu jeito.
– Tem medo ou é veado?
– Os dois – eu disse, sentando no canto mais afastado do bar.
Havia um cara entre nós, a cabeça apoiada no balcão. Sua carteira já era. Quando ele acordasse e começasse a reclamar, das duas uma: ou seria jogado no meio da rua pelo atendente, ou seria entregue nas mãos da polícia.
Depois de servir Becker e a acompanhante, o atendente voltou para trás do balcão e caminhou em minha direção.
– Sim?
– Nada.
– É? Então o que cê tá fazendo aqui?
– Esperando por um amigo – gesticulei com a cabeça na direção do reservado.
– O negócio aqui é sentou pediu.
– Beleza. Uma água.
O atendente se afastou, voltou, deixou o copo d’água.
– Vinte e cinco centavos.
Paguei-o.
A garota junto ao bar disse ao atendente:
– Ele é veado ou medroso.
O atendente não disse nada. Então Becker lhe fez um sinal e ele foi lá pegar o pedido.
A garota olhou para mim.
– Como você não tá de uniforme?
– Não gosto de me vestir como todo mundo.
– Não existem outras razões?
– As outras razões só dizem respeito a mim.
– Então vá se foder – ela disse.
O atendente voltou.
– Você precisa de outro copo.
– Tá – eu disse, mandando outro quarto de dólar na sua direção.
Do lado de fora, Becker e eu seguimos pela Main Street.
– Como foi? – perguntei.
– Cobraram pelo uso da mesa, além dos dois drinques. Chegou a 32 pratas.
– Cristo. Eu podia ficar bêbado por duas semanas com essa grana.
– Ela agarrou meu pau debaixo da mesa, ficou tocando uma.
– O que ela disse?
– Nada. Apenas tocou uma punheta pra mim.
– Prefiro eu mesmo me bater uma punheta e ficar com os 32 contos.
– Mas ela era tão linda.
– Maldição, homem. Estou andando ao lado de um perfeito idiota.
– Algum dia vou escrever sobre essas coisas. Estarei nas prateleiras das bibliotecas: BECKER. Os “Bs” são muito fracos, precisam de ajuda.
– Você fala demais sobre escrever – eu disse.
Encontramos um outro bar perto do terminal de ônibus. Não era uma espelunca movimentada. Havia apenas o dono do bar e cinco ou seis viajantes, todos homens. Becker e eu nos sentamos.
– É por minha conta – disse Becker.
– Uma Eastside na garrafa.
Becker pediu duas. Olhou para mim.
– Vamos lá, seja homem, aliste-se. Seja um marinheiro.
– Não fico nem um pouco empolgado com essa coisa de ser machão.
– Nem parece o mesmo sujeito que está sempre trocando uns sopapos com alguém.
– Faço isso por puro entretenimento.
– Aliste-se. Isso vai lhe dar algo sobre o que escrever.
– Becker, sempre há algo sobre o que escrever.
– E o que você vai fazer, então?
Apontei para minha garrafa e a ergui.
– Como vai conseguir sobreviver? – Becker perguntou.
– Tenho a impressão de ter ouvido essa pergunta ao longo de toda minha vida.
– Bem, não sei quanto a você, mas vou tentar de tudo! Guerra, mulheres, viagens, casamento, os trabalhos. O primeiro carro que eu comprar quero desmontar completamente! Para depois remontá-lo! Quero entender as coisas, o que faz elas funcionarem! Gostaria de ser um correspondente na capital do país, Washington. Quero sempre estar onde as grandes coisas estão acontecendo.
– Washington é um lixo, Becker.
– E mulheres? Casamento? Crianças?
– Lixo.
– É? Mas o que você quer, afinal?
– Me esconder.
– Seu pobre fodido. Você precisa de outra cerveja.
– Tudo bem.
A cerveja chegou.
Ficamos sentados em silêncio. Pude perceber que Becker estava imerso em seus próprios pensamentos, pensando em ser marinheiro, em ser escritor, em trepar. Era provável que desse um bom escritor. Estava explodindo de entusiasmo. Provavelmente ele amava uma porção de coisas: um falcão em pleno voo, o maldito oceano, a lua cheia, Balzac, pontes, peças de teatro, o Prêmio Pulitzer, o piano, a maldita Bíblia.
Havia um pequeno rádio no bar. Uma canção popular estava tocando. Então, no meio da música houve uma interrupção. O locutor disse:
– Um boletim acaba de chegar. Os japoneses bombardearam Pearl Harbor. Repito: os japoneses acabam de bombardear Pearl Harbor. Todos os militares devem retornar imediatamente para suas bases!
Olhamos um para o outro, ainda aturdidos e sem o total entendimento do que acabávamos de ouvir.
– Bem – disse Becker em voz baixa –, é isso.
– Termine sua cerveja – eu falei.
Becker tomou tudo num só gole.
– Jesus, imagine se um filho da puta qualquer aponta uma metralhadora pra mim e resolve apertar o gatilho?
– Isso pode muito bem acontecer.
– Hank...
– Fala.
– Você me acompanha no ônibus até a base?
– Não posso fazer isso.
O dono do bar, um homem duns 45 anos, com uma barriga que parecia uma melancia e olhos miúdos, aproximou-se de nós. Olhou para Becker:
– Bem, marinheiro, parece que você tem que voltar para sua base, não?
Aquilo me deixou puto da cara.
– Ei, gordão, deixe-o terminar sua bebida, certo?
– Claro, claro... Quer uma por conta da casa, marinheiro? Que tal uma dose de um bom uísque?
– Não – disse Becker –, está tudo bem.
– Aceite – falei a Becker –, tome a dose. Ele pensa que você vai morrer para salvar o bar dele.
– Tudo bem – disse Becker –, vou aceitar seu uísque.
O dono do bar olhou para Becker.
– Você tem um amigo desprezível...
– Apenas sirva a bebida – eu disse.
Os outros poucos clientes tagarelavam freneticamente sobre Pearl Harbor. Antes, não tinham trocado uma palavra. Agora estavam mobilizados. A Tribo estava em perigo.
Becker pegou sua bebida. Era uma dose dupla de uísque. Tomou num talagaço.
– Nunca contei para você – ele disse –, mas sou órfão.
– Caralho – eu disse.
– Você vai comigo pelo menos até o terminal de ônibus?
– Claro.
Levantamos e fomos em direção à saída.
O dono do bar estava esfregando as mãos no avental. Trazia o avental todo amarrotado e não parava de esfregar as mãos nele, tomado de excitação.
– Boa sorte, marinheiro! – ele gritou.
Becker saiu. Fiquei ainda lá dentro e olhei para o dono do bar.
– Primeira Guerra Mundial, não?
– É, é... – ele disse, cheio de alegria.
Juntei-me a Becker. Nós meio que corremos até o terminal. Militares uniformizados já começavam a chegar. A euforia se espalhava no ar. Um marinheiro passou correndo.
– VOU MATAR UM JAPA COM MINHAS PRÓPRIAS MÃOS! – gritou.
Becker ficou na fila para comprar o bilhete. Um dos soldados tinha a namorada consigo. A garota falava, chorava, agarrada a ele, beijando-o sem parar. O pobre Becker só tinha a mim. Fiquei de lado, esperando. Foi uma espera longa. O mesmo marinheiro que antes passara gritando se aproximou de mim.
– Ei, companheiro, você não vai nos ajudar? Por que você está aí parado? Por que não se alista?
Seu hálito recendia a uísque. Ele tinha sardas e um nariz enorme.
– Você vai perder seu ônibus – eu falei.
Ele se afastou em direção ao terminal de saída.
– Fodam-se esses malditos japas fodidos! – ele disse.
Becker finalmente conseguiu comprar uma passagem. Caminhei com ele até o ônibus. Ele ficou numa outra fila.
– Algum conselho? – perguntou.
– Não.
A fila entrava devagar no ônibus. A garota estava chorando e falando rápido e baixinho com seu soldado.
Becker chegou à porta. Dei-lhe um soco no ombro.
– Você é o melhor que eu já conheci.
– Obrigado, Hank...
– Adeus...
– Misto-quente
1 765