Poemas neste tema
Outros
Charles Bukowski
Treinando para Kid Aztec
eu era um cara moço em Los Angeles.
havia uns bares pequenos
em torno do Plaza, pequenos bares
mexicanos, e havia um
grande, bem-freqüentado, e eu
comecei a noite por ele
mas ele estava muito comportado
cheio de trabalhadores decentes
e aí eu saí
e encontrei um beco pequeno e torto,
escuro,
e segui por ele
com meu canivete no bolso até
que encontrei esse pequeno bar
lá no fim
e entrei
sentei num banco e pedi
uma garrafa de cerveja.
havia quatro mexicanos lá dentro
incluindo o cara do balcão
e eu sentei olhando firme
para a frente
tomando um gole do meu copo
de quando em quando.
eu estava um filho-da-puta muito louco
pronto para ir até o fim
melhor não me
sacanear...
acabei a garrafa
pedi outra.
"onde diabos
estão as mulheres?" perguntei.
nenhuma resposta.
"eu não devia estar aqui",
eu disse, "estou treinando para uma
luta no Olímpico, uma de
quatro rounds, contra o Kid
Aztec..."
silêncio.
desci do meu banco, fiquei
de pé, escarneci: "alguém aqui topa
treinar um pouquinho, hã?"
nenhuma resposta.
botei uma moeda na
vitrola de ficha.
a música começou e comecei
a fazer boxe-sombra
com ela.
quando acabou
eu sentei e
pedi outra cerveja.
"sou um matador", eu disse
ao dono do bar, "um matador
nato... tenho pena
do Kid Aztec..."
o homem recebeu meu
dinheiro, e guardou
na registradora tilitante
de costas para mim.
eu disse para as costas
dele: "e acima de tudo
eu sou um escritor.
escrevo contos,
romances, poemas,
ensaios..."
"Señor, escreve
poemas?", perguntou um
mexicano grandão lá do fim
do bar.
"pô, claro..."
"e sobre que são
esses' poemas?"
"o amor..."
"oh, o amor, Señor?"
"poemas de amor para a
Morte..."
esvaziei minha garrafa
e pedi outra.
"eu também escrevo,
Señor..."
"ah, é?”
"oh, sim, eu meto minha caneta
nas mulheres e escrevo
lá dentro delas."
os outros mexicanos
riram.
esperei até que
parassem.
"vocês são uns idiotas, vocês
riem como uns idiotas!"
"talvez, Señor, mas até idiotas
têm direito de rir,
não?"
tirei o rótulo da cerveja,
colei-o no tampo
do bar, terminei
a garrafa.
"outra cerveja, Señor?", perguntou
o dono do bar.
"nah, já chega, tenho que
descansar..."
caminhei para a
saída.
"boa sorte na sua luta com
Kid Aztec, Senör", disse
alguém.
caminhei de volta pelo
pequeno beco, parei para vomitar num
canto escuro, terminei e alcancei
a rua,
procurando um poema, um bar
melhor, alguma coisa,
qualquer coisa.
eu só tinha enchido o saco deles com
minha periculosidade.
toda noite era a
mesma coisa e de dia era ainda
pior.
parei numa árvore na
esquina do Plaza
para acender um cigarro
e para tentar parecer com
um matador
ninguém notou.
talvez não viessem
a notar nunca.
segurei o fósforo aceso
por tempo demais, ele queimou meus
dedos.
praguejei alto, dei partida e
comecei a caminhar
para a estação de
trem
alguém tinha me avisado
que as putas estavam
chupando bem, lá,
nas escuras rampas de acesso...
havia uns bares pequenos
em torno do Plaza, pequenos bares
mexicanos, e havia um
grande, bem-freqüentado, e eu
comecei a noite por ele
mas ele estava muito comportado
cheio de trabalhadores decentes
e aí eu saí
e encontrei um beco pequeno e torto,
escuro,
e segui por ele
com meu canivete no bolso até
que encontrei esse pequeno bar
lá no fim
e entrei
sentei num banco e pedi
uma garrafa de cerveja.
havia quatro mexicanos lá dentro
incluindo o cara do balcão
e eu sentei olhando firme
para a frente
tomando um gole do meu copo
de quando em quando.
eu estava um filho-da-puta muito louco
pronto para ir até o fim
melhor não me
sacanear...
acabei a garrafa
pedi outra.
"onde diabos
estão as mulheres?" perguntei.
nenhuma resposta.
"eu não devia estar aqui",
eu disse, "estou treinando para uma
luta no Olímpico, uma de
quatro rounds, contra o Kid
Aztec..."
silêncio.
desci do meu banco, fiquei
de pé, escarneci: "alguém aqui topa
treinar um pouquinho, hã?"
nenhuma resposta.
botei uma moeda na
vitrola de ficha.
a música começou e comecei
a fazer boxe-sombra
com ela.
quando acabou
eu sentei e
pedi outra cerveja.
"sou um matador", eu disse
ao dono do bar, "um matador
nato... tenho pena
do Kid Aztec..."
o homem recebeu meu
dinheiro, e guardou
na registradora tilitante
de costas para mim.
eu disse para as costas
dele: "e acima de tudo
eu sou um escritor.
escrevo contos,
romances, poemas,
ensaios..."
"Señor, escreve
poemas?", perguntou um
mexicano grandão lá do fim
do bar.
"pô, claro..."
"e sobre que são
esses' poemas?"
"o amor..."
"oh, o amor, Señor?"
"poemas de amor para a
Morte..."
esvaziei minha garrafa
e pedi outra.
"eu também escrevo,
Señor..."
"ah, é?”
"oh, sim, eu meto minha caneta
nas mulheres e escrevo
lá dentro delas."
os outros mexicanos
riram.
esperei até que
parassem.
"vocês são uns idiotas, vocês
riem como uns idiotas!"
"talvez, Señor, mas até idiotas
têm direito de rir,
não?"
tirei o rótulo da cerveja,
colei-o no tampo
do bar, terminei
a garrafa.
"outra cerveja, Señor?", perguntou
o dono do bar.
"nah, já chega, tenho que
descansar..."
caminhei para a
saída.
"boa sorte na sua luta com
Kid Aztec, Senör", disse
alguém.
caminhei de volta pelo
pequeno beco, parei para vomitar num
canto escuro, terminei e alcancei
a rua,
procurando um poema, um bar
melhor, alguma coisa,
qualquer coisa.
eu só tinha enchido o saco deles com
minha periculosidade.
toda noite era a
mesma coisa e de dia era ainda
pior.
parei numa árvore na
esquina do Plaza
para acender um cigarro
e para tentar parecer com
um matador
ninguém notou.
talvez não viessem
a notar nunca.
segurei o fósforo aceso
por tempo demais, ele queimou meus
dedos.
praguejei alto, dei partida e
comecei a caminhar
para a estação de
trem
alguém tinha me avisado
que as putas estavam
chupando bem, lá,
nas escuras rampas de acesso...
1 121
Charles Bukowski
Treinando para Kid Aztec
eu era um cara moço em Los Angeles.
havia uns bares pequenos
em torno do Plaza, pequenos bares
mexicanos, e havia um
grande, bem-freqüentado, e eu
comecei a noite por ele
mas ele estava muito comportado
cheio de trabalhadores decentes
e aí eu saí
e encontrei um beco pequeno e torto,
escuro,
e segui por ele
com meu canivete no bolso até
que encontrei esse pequeno bar
lá no fim
e entrei
sentei num banco e pedi
uma garrafa de cerveja.
havia quatro mexicanos lá dentro
incluindo o cara do balcão
e eu sentei olhando firme
para a frente
tomando um gole do meu copo
de quando em quando.
eu estava um filho-da-puta muito louco
pronto para ir até o fim
melhor não me
sacanear...
acabei a garrafa
pedi outra.
"onde diabos
estão as mulheres?" perguntei.
nenhuma resposta.
"eu não devia estar aqui",
eu disse, "estou treinando para uma
luta no Olímpico, uma de
quatro rounds, contra o Kid
Aztec..."
silêncio.
desci do meu banco, fiquei
de pé, escarneci: "alguém aqui topa
treinar um pouquinho, hã?"
nenhuma resposta.
botei uma moeda na
vitrola de ficha.
a música começou e comecei
a fazer boxe-sombra
com ela.
quando acabou
eu sentei e
pedi outra cerveja.
"sou um matador", eu disse
ao dono do bar, "um matador
nato... tenho pena
do Kid Aztec..."
o homem recebeu meu
dinheiro, e guardou
na registradora tilitante
de costas para mim.
eu disse para as costas
dele: "e acima de tudo
eu sou um escritor.
escrevo contos,
romances, poemas,
ensaios..."
"Señor, escreve
poemas?", perguntou um
mexicano grandão lá do fim
do bar.
"pô, claro..."
"e sobre que são
esses' poemas?"
"o amor..."
"oh, o amor, Señor?"
"poemas de amor para a
Morte..."
esvaziei minha garrafa
e pedi outra.
"eu também escrevo,
Señor..."
"ah, é?”
"oh, sim, eu meto minha caneta
nas mulheres e escrevo
lá dentro delas."
os outros mexicanos
riram.
esperei até que
parassem.
"vocês são uns idiotas, vocês
riem como uns idiotas!"
"talvez, Señor, mas até idiotas
têm direito de rir,
não?"
tirei o rótulo da cerveja,
colei-o no tampo
do bar, terminei
a garrafa.
"outra cerveja, Señor?", perguntou
o dono do bar.
"nah, já chega, tenho que
descansar..."
caminhei para a
saída.
"boa sorte na sua luta com
Kid Aztec, Senör", disse
alguém.
caminhei de volta pelo
pequeno beco, parei para vomitar num
canto escuro, terminei e alcancei
a rua,
procurando um poema, um bar
melhor, alguma coisa,
qualquer coisa.
eu só tinha enchido o saco deles com
minha periculosidade.
toda noite era a
mesma coisa e de dia era ainda
pior.
parei numa árvore na
esquina do Plaza
para acender um cigarro
e para tentar parecer com
um matador
ninguém notou.
talvez não viessem
a notar nunca.
segurei o fósforo aceso
por tempo demais, ele queimou meus
dedos.
praguejei alto, dei partida e
comecei a caminhar
para a estação de
trem
alguém tinha me avisado
que as putas estavam
chupando bem, lá,
nas escuras rampas de acesso...
havia uns bares pequenos
em torno do Plaza, pequenos bares
mexicanos, e havia um
grande, bem-freqüentado, e eu
comecei a noite por ele
mas ele estava muito comportado
cheio de trabalhadores decentes
e aí eu saí
e encontrei um beco pequeno e torto,
escuro,
e segui por ele
com meu canivete no bolso até
que encontrei esse pequeno bar
lá no fim
e entrei
sentei num banco e pedi
uma garrafa de cerveja.
havia quatro mexicanos lá dentro
incluindo o cara do balcão
e eu sentei olhando firme
para a frente
tomando um gole do meu copo
de quando em quando.
eu estava um filho-da-puta muito louco
pronto para ir até o fim
melhor não me
sacanear...
acabei a garrafa
pedi outra.
"onde diabos
estão as mulheres?" perguntei.
nenhuma resposta.
"eu não devia estar aqui",
eu disse, "estou treinando para uma
luta no Olímpico, uma de
quatro rounds, contra o Kid
Aztec..."
silêncio.
desci do meu banco, fiquei
de pé, escarneci: "alguém aqui topa
treinar um pouquinho, hã?"
nenhuma resposta.
botei uma moeda na
vitrola de ficha.
a música começou e comecei
a fazer boxe-sombra
com ela.
quando acabou
eu sentei e
pedi outra cerveja.
"sou um matador", eu disse
ao dono do bar, "um matador
nato... tenho pena
do Kid Aztec..."
o homem recebeu meu
dinheiro, e guardou
na registradora tilitante
de costas para mim.
eu disse para as costas
dele: "e acima de tudo
eu sou um escritor.
escrevo contos,
romances, poemas,
ensaios..."
"Señor, escreve
poemas?", perguntou um
mexicano grandão lá do fim
do bar.
"pô, claro..."
"e sobre que são
esses' poemas?"
"o amor..."
"oh, o amor, Señor?"
"poemas de amor para a
Morte..."
esvaziei minha garrafa
e pedi outra.
"eu também escrevo,
Señor..."
"ah, é?”
"oh, sim, eu meto minha caneta
nas mulheres e escrevo
lá dentro delas."
os outros mexicanos
riram.
esperei até que
parassem.
"vocês são uns idiotas, vocês
riem como uns idiotas!"
"talvez, Señor, mas até idiotas
têm direito de rir,
não?"
tirei o rótulo da cerveja,
colei-o no tampo
do bar, terminei
a garrafa.
"outra cerveja, Señor?", perguntou
o dono do bar.
"nah, já chega, tenho que
descansar..."
caminhei para a
saída.
"boa sorte na sua luta com
Kid Aztec, Senör", disse
alguém.
caminhei de volta pelo
pequeno beco, parei para vomitar num
canto escuro, terminei e alcancei
a rua,
procurando um poema, um bar
melhor, alguma coisa,
qualquer coisa.
eu só tinha enchido o saco deles com
minha periculosidade.
toda noite era a
mesma coisa e de dia era ainda
pior.
parei numa árvore na
esquina do Plaza
para acender um cigarro
e para tentar parecer com
um matador
ninguém notou.
talvez não viessem
a notar nunca.
segurei o fósforo aceso
por tempo demais, ele queimou meus
dedos.
praguejei alto, dei partida e
comecei a caminhar
para a estação de
trem
alguém tinha me avisado
que as putas estavam
chupando bem, lá,
nas escuras rampas de acesso...
1 121
Charles Bukowski
Que Fazer com os Exemplares do Autor?
(Prezado Senhor: Embora reconheçamos que seja pagamento insuficiente por seus poemas, o senhor receberá 4 exemplares diutor que lhe serão enviados pessoalmente ou para quem o senhor queira. - Nota do Editor.)
bem, é melhor mandar um para M.S. ou então ela provavelmente vai
meter o rabo no forno, ela pensa que é durona, e provavelmente é, com os diabos, nem quero saber
e depois vem C. W, que não responde sua correspondência mas está muito ocupado ensinando aos rapazes como escrever e eu sei que ele tem andado por lugares importantes e sendo assim
mandem um para ele...
Palm Springs
e depois tem a minha velha tia lá em
só dinheiro
e eu tenho tudo menos dinheiro... talento, uma boa voz para cantar, uma esquerda que vai lá dentro das tripas... mandem um exemplar pra ela,
ela desligou na minha cara na última vez que liguei pra ela de porre,
e dizendo que estava com problemas, ela desligou na minha cara...
e aí tem aquela menina em Sacramento que me escreve essas cartinhas... puta muito deprimida, batida e mexida como massa de bolo, expondo grandes lances de abertura intelectual que eu ignoro, mas mandem uma revista pra ela,
en lieu de um vibrador.
já são 4?
espero mandar pra vocês mais alguns poemas logo, porque acho que as pessoas que publicam meus poemas são meio loucas, mas tudo bem, eu também sou
seja como for ---
Espero,
nesse interim
que vocês não desistam
antes
que eu
desista.
c.b.
bem, é melhor mandar um para M.S. ou então ela provavelmente vai
meter o rabo no forno, ela pensa que é durona, e provavelmente é, com os diabos, nem quero saber
e depois vem C. W, que não responde sua correspondência mas está muito ocupado ensinando aos rapazes como escrever e eu sei que ele tem andado por lugares importantes e sendo assim
mandem um para ele...
Palm Springs
e depois tem a minha velha tia lá em
só dinheiro
e eu tenho tudo menos dinheiro... talento, uma boa voz para cantar, uma esquerda que vai lá dentro das tripas... mandem um exemplar pra ela,
ela desligou na minha cara na última vez que liguei pra ela de porre,
e dizendo que estava com problemas, ela desligou na minha cara...
e aí tem aquela menina em Sacramento que me escreve essas cartinhas... puta muito deprimida, batida e mexida como massa de bolo, expondo grandes lances de abertura intelectual que eu ignoro, mas mandem uma revista pra ela,
en lieu de um vibrador.
já são 4?
espero mandar pra vocês mais alguns poemas logo, porque acho que as pessoas que publicam meus poemas são meio loucas, mas tudo bem, eu também sou
seja como for ---
Espero,
nesse interim
que vocês não desistam
antes
que eu
desista.
c.b.
1 064
Charles Bukowski
Os Cisnes Passeiam por Meu Cérebro em Abril Chove
você quer que eu descasque uma laranja e
fale do Saavedra (Miguel de) Cervantes?
cai fora! você é como aquela mosca na
cortina.
não gostam de mim no supermercado.
eu não dou risinhos para as crianças.
não me interesso pelo que fazem
os funcionários.
eu uso os bebedouros até que os meus olhos
saltem para fora como morangos maduros.
eu tenho mau cheiro e não dou brilho
nos sapatos.
eu não possuo nada.
nada entendo além
de estar fora da cravação.
só entendo o horror e
mais horror.
não sei rimar.
estou cansado demais para
roubar.
eu ouço Segovia
sorrir.
eu olho para uma cabeça de porco
e logo estou
apaixonado.
eu ando eu ando
uma himenotomia de
homem - ó
coisas suaves deste tempo,
onde estão vocês?
vocês precisam me encontrar agora, porque
eu estou horrorizado com o que
vejo!
a prisão varre o passado iluminado por
olhos, olhos? magma!
entro numa loja e compro bebida a um
homem morto
depois saio sob um céu transbordante
de pus. os caçadores tossem
nos bancos do parque.
eu sigo...
fale do Saavedra (Miguel de) Cervantes?
cai fora! você é como aquela mosca na
cortina.
não gostam de mim no supermercado.
eu não dou risinhos para as crianças.
não me interesso pelo que fazem
os funcionários.
eu uso os bebedouros até que os meus olhos
saltem para fora como morangos maduros.
eu tenho mau cheiro e não dou brilho
nos sapatos.
eu não possuo nada.
nada entendo além
de estar fora da cravação.
só entendo o horror e
mais horror.
não sei rimar.
estou cansado demais para
roubar.
eu ouço Segovia
sorrir.
eu olho para uma cabeça de porco
e logo estou
apaixonado.
eu ando eu ando
uma himenotomia de
homem - ó
coisas suaves deste tempo,
onde estão vocês?
vocês precisam me encontrar agora, porque
eu estou horrorizado com o que
vejo!
a prisão varre o passado iluminado por
olhos, olhos? magma!
entro numa loja e compro bebida a um
homem morto
depois saio sob um céu transbordante
de pus. os caçadores tossem
nos bancos do parque.
eu sigo...
530
Charles Bukowski
Carta do Norte
meu amigo escreve falando de rejeições e editores,
e conta sua visita a K.,ou R., ou W,
e pergunta se estou na S., número 12, que ele
tem um poema nela
e T. escreveu da Flórida
mas recusou seus poemas, R. dorme na tipografia
e T. o criticou impiedosamente....
encontrou o editor da Revista X. na rua,
e o editor parecia que tinha levado um chute nos colhões
no momento em que ele o identificou
e pediu sua opinião sobre os poemas,
é bom imprensar esses caras de vez em quando,
dar uma escovadela neles;
as agências de publicidade esqueceram dele, e W. está
demorando demais para ler o seu livro, ganhou só cinco
pratas para ler no Unicorn,
telefonou a K., da Revista W., parece um bom sujeito,
e acha à que acabou com R.,
manda uns recortes para que eu me divirta:
seu nome numa coluna de jornal, vai ter que telefonar para R. de novo: S. está lecionando
na universidade
e ele não aguenta ir, M. é homo,
C. não é capaz de se decidir e P. está louco com ele
porque ele bebeu cerveja na frente de N.
só cartas de recusa, mas ele sabe que sua produção é boa.
L. esteve lá para pegar um maço de Pall Malls emprestado, o puto o deixa
doente, sempre se lamentando...
B. escreve dizendo que P está com problemas, é preciso esquematizar
uma ajuda,
terrivelmente desanimado. dinheiro nem para os selos.
morto sem selos, escreva-me, ele diz,
estou na baixa.
escrever para você? meu amigo, sobre o quê?
eu só me interesso
por poesia.
e conta sua visita a K.,ou R., ou W,
e pergunta se estou na S., número 12, que ele
tem um poema nela
e T. escreveu da Flórida
mas recusou seus poemas, R. dorme na tipografia
e T. o criticou impiedosamente....
encontrou o editor da Revista X. na rua,
e o editor parecia que tinha levado um chute nos colhões
no momento em que ele o identificou
e pediu sua opinião sobre os poemas,
é bom imprensar esses caras de vez em quando,
dar uma escovadela neles;
as agências de publicidade esqueceram dele, e W. está
demorando demais para ler o seu livro, ganhou só cinco
pratas para ler no Unicorn,
telefonou a K., da Revista W., parece um bom sujeito,
e acha à que acabou com R.,
manda uns recortes para que eu me divirta:
seu nome numa coluna de jornal, vai ter que telefonar para R. de novo: S. está lecionando
na universidade
e ele não aguenta ir, M. é homo,
C. não é capaz de se decidir e P. está louco com ele
porque ele bebeu cerveja na frente de N.
só cartas de recusa, mas ele sabe que sua produção é boa.
L. esteve lá para pegar um maço de Pall Malls emprestado, o puto o deixa
doente, sempre se lamentando...
B. escreve dizendo que P está com problemas, é preciso esquematizar
uma ajuda,
terrivelmente desanimado. dinheiro nem para os selos.
morto sem selos, escreva-me, ele diz,
estou na baixa.
escrever para você? meu amigo, sobre o quê?
eu só me interesso
por poesia.
1 094
Charles Bukowski
Poema nos Meus 43 Anos
Terminar sozinho
no túmulo de um quarto
sem cigarros
nem bebida ---
careca como uma lâmpada,
barrigudo,
grisalho,
e feliz por ter
um quarto.
...de manhã
eles estão lá fora
ganhando dinheiro:
juízes, carpinteiros,
encanadores, médicos,
jornaleiros, guardas,
barbeiros, lavadores de carro,
dentistas, floristas,
garçonetes, cozinheiros,
motoristas de táxi...
e você se vira
para o lado esquerdo
pra pegar o sol
nas costas
e não
direto nos olhos.
no túmulo de um quarto
sem cigarros
nem bebida ---
careca como uma lâmpada,
barrigudo,
grisalho,
e feliz por ter
um quarto.
...de manhã
eles estão lá fora
ganhando dinheiro:
juízes, carpinteiros,
encanadores, médicos,
jornaleiros, guardas,
barbeiros, lavadores de carro,
dentistas, floristas,
garçonetes, cozinheiros,
motoristas de táxi...
e você se vira
para o lado esquerdo
pra pegar o sol
nas costas
e não
direto nos olhos.
1 203
Charles Bukowski
a gata
essa gata relaxa nos ferros da saída de incêndio
e é amarela como um sol
e nunca viu um cão naquela área
da cidade, e, cara, como é gorda,
cheia de ratos e petiscos do HARVEY'S BAR
e eu tenho subido pela saída de incêndio
pra visitar certa dama no hotel
e ela me mostra cartas do filho
na França, e é um quarto muito pequeno
cheio de garrafas de vinho e tristeza,
e às vezes lhe deixo um dinheirinho,
e quando desço pela saída de incêndio,
lá está de novo a gata e
ela se esfrega nas minhas pernas e
enquanto vou até O carro
ela me segue, e preciso ter cuidado
quando dou a partida, mas não muito:
ela é bem esperta, sabe
que o carro não é seu amigo.
e um dia fui visitar a dama
e ela estava morta. quer dizer, ela não estava lá,
o quarto estava vazio. tinha sido uma hemorragia,
me disseram. e agora iam alugar o quarto.
bem, ficar triste não adianta. desci
os degraus de ferro e eis ali a gata. eu
a peguei e fiz carinho nela, mas, estranho,
não era a mesma gata. o pelo era áspero
e os olhos, malignos. joguei-a no chão
e observei sua fuga, olhar raivoso em cima de mim.
então entrei no carro
e fui embora.
e é amarela como um sol
e nunca viu um cão naquela área
da cidade, e, cara, como é gorda,
cheia de ratos e petiscos do HARVEY'S BAR
e eu tenho subido pela saída de incêndio
pra visitar certa dama no hotel
e ela me mostra cartas do filho
na França, e é um quarto muito pequeno
cheio de garrafas de vinho e tristeza,
e às vezes lhe deixo um dinheirinho,
e quando desço pela saída de incêndio,
lá está de novo a gata e
ela se esfrega nas minhas pernas e
enquanto vou até O carro
ela me segue, e preciso ter cuidado
quando dou a partida, mas não muito:
ela é bem esperta, sabe
que o carro não é seu amigo.
e um dia fui visitar a dama
e ela estava morta. quer dizer, ela não estava lá,
o quarto estava vazio. tinha sido uma hemorragia,
me disseram. e agora iam alugar o quarto.
bem, ficar triste não adianta. desci
os degraus de ferro e eis ali a gata. eu
a peguei e fiz carinho nela, mas, estranho,
não era a mesma gata. o pelo era áspero
e os olhos, malignos. joguei-a no chão
e observei sua fuga, olhar raivoso em cima de mim.
então entrei no carro
e fui embora.
936
Charles Bukowski
Entrevistado por um Ganhador do Guggenheim
esse sul-americano ganhador de um Gugg
entrou aqui com a prostituta dele
e ela sentou na beira da minha cama e
cruzou suas pernas ótimas
e eu fiquei olhando para as pernas dela
e ele apertou o nó da gravata
e eu estava de ressaca
e ele me perguntou
QUE PENSA VOCÊ DOS POETAS
AMERICANOS?
e eu disse que não pensava muita coisa
dos poetas americanos
e aí ele foi em frente e perguntou alguma
outra coisa bem idiota
(enquanto as pernas da puta se estendiam ao longo
do meu cérebro) como por exemplo
BEM, VOCÊ NÃO SE INCOMODA COM NADA,
MAS SE VOCÊ ESTIVESSE DANDO UMA AULA E UM DOS
ALUNOS PERGUNTASSE QUAIS OS POETAS AMERICANOS QUE
ELE DEVERIA LER,
O QUE VOCÊ RESPONDERIA?
ela cruzava as pernas enquanto eu olhava e pensei
que podia botar ele a nocaute com um direto só
estuprar a mulher em 4 minutos
pegar um trem para LA
saltar no Arizona e caminhar para o deserto
e poderia dizer a ele que eu nunca ensinaria a uma
turma
que além de não gostar da poesia americana
eu também não gostava de alunos americanos
nem do trabalho que eles esperariam que
eu fizesse,
então eu disse
Whitman, T. S.Eliot, D. H. Lawrence nos poemas sobre
cobras e bichos, Auden. e aí
constatei que Whitman era o único americano verdadeiro,
que Eliot de certo modo não era americano e os
outros também não, e
ele também sabia disso
ele sabia que eu estava cagando
mas não me desculpei
pensei um pouco mais sobre o estupro
quase amei a mulher mas sabia que quando ela se mandasse
nunca mais a vería de novo
e apertamos as mãos e o Gugg disse
que mandaria o artigo quando fosse publicado
mas eu sabia que ele não conseguira um artigo
e ele também sabia
e então ele disse
vou lhe mandar alguns dos meus poemas traduzidos
para o inglês
e eu disse ótimo
e fiquei vendo eles irem embora
os saltos altos dela batendo
nos degraus verdes
e logo tinham ido
mas eu fiquei me lembrando do vestido dela deslizando sobre tudo nela
como uma segunda pele
e fiquei furioso me lamentando e com amor e tristeza
e por ser um imbecil incapaz de
comunicar
nada
e entrei e terminei aquela cerveja
abri outra
vesti meu velho manto real
e saí para a rua de New Orleans
e nessa mesma noite
sentei com meus amigos e fui cafajeste e
um cretino
todo cheio de bravata e maldade
e eles nunca
e crueldade
souberam por quê.
entrou aqui com a prostituta dele
e ela sentou na beira da minha cama e
cruzou suas pernas ótimas
e eu fiquei olhando para as pernas dela
e ele apertou o nó da gravata
e eu estava de ressaca
e ele me perguntou
QUE PENSA VOCÊ DOS POETAS
AMERICANOS?
e eu disse que não pensava muita coisa
dos poetas americanos
e aí ele foi em frente e perguntou alguma
outra coisa bem idiota
(enquanto as pernas da puta se estendiam ao longo
do meu cérebro) como por exemplo
BEM, VOCÊ NÃO SE INCOMODA COM NADA,
MAS SE VOCÊ ESTIVESSE DANDO UMA AULA E UM DOS
ALUNOS PERGUNTASSE QUAIS OS POETAS AMERICANOS QUE
ELE DEVERIA LER,
O QUE VOCÊ RESPONDERIA?
ela cruzava as pernas enquanto eu olhava e pensei
que podia botar ele a nocaute com um direto só
estuprar a mulher em 4 minutos
pegar um trem para LA
saltar no Arizona e caminhar para o deserto
e poderia dizer a ele que eu nunca ensinaria a uma
turma
que além de não gostar da poesia americana
eu também não gostava de alunos americanos
nem do trabalho que eles esperariam que
eu fizesse,
então eu disse
Whitman, T. S.Eliot, D. H. Lawrence nos poemas sobre
cobras e bichos, Auden. e aí
constatei que Whitman era o único americano verdadeiro,
que Eliot de certo modo não era americano e os
outros também não, e
ele também sabia disso
ele sabia que eu estava cagando
mas não me desculpei
pensei um pouco mais sobre o estupro
quase amei a mulher mas sabia que quando ela se mandasse
nunca mais a vería de novo
e apertamos as mãos e o Gugg disse
que mandaria o artigo quando fosse publicado
mas eu sabia que ele não conseguira um artigo
e ele também sabia
e então ele disse
vou lhe mandar alguns dos meus poemas traduzidos
para o inglês
e eu disse ótimo
e fiquei vendo eles irem embora
os saltos altos dela batendo
nos degraus verdes
e logo tinham ido
mas eu fiquei me lembrando do vestido dela deslizando sobre tudo nela
como uma segunda pele
e fiquei furioso me lamentando e com amor e tristeza
e por ser um imbecil incapaz de
comunicar
nada
e entrei e terminei aquela cerveja
abri outra
vesti meu velho manto real
e saí para a rua de New Orleans
e nessa mesma noite
sentei com meus amigos e fui cafajeste e
um cretino
todo cheio de bravata e maldade
e eles nunca
e crueldade
souberam por quê.
1 110
Charles Bukowski
Entrevistado por um Ganhador do Guggenheim
esse sul-americano ganhador de um Gugg
entrou aqui com a prostituta dele
e ela sentou na beira da minha cama e
cruzou suas pernas ótimas
e eu fiquei olhando para as pernas dela
e ele apertou o nó da gravata
e eu estava de ressaca
e ele me perguntou
QUE PENSA VOCÊ DOS POETAS
AMERICANOS?
e eu disse que não pensava muita coisa
dos poetas americanos
e aí ele foi em frente e perguntou alguma
outra coisa bem idiota
(enquanto as pernas da puta se estendiam ao longo
do meu cérebro) como por exemplo
BEM, VOCÊ NÃO SE INCOMODA COM NADA,
MAS SE VOCÊ ESTIVESSE DANDO UMA AULA E UM DOS
ALUNOS PERGUNTASSE QUAIS OS POETAS AMERICANOS QUE
ELE DEVERIA LER,
O QUE VOCÊ RESPONDERIA?
ela cruzava as pernas enquanto eu olhava e pensei
que podia botar ele a nocaute com um direto só
estuprar a mulher em 4 minutos
pegar um trem para LA
saltar no Arizona e caminhar para o deserto
e poderia dizer a ele que eu nunca ensinaria a uma
turma
que além de não gostar da poesia americana
eu também não gostava de alunos americanos
nem do trabalho que eles esperariam que
eu fizesse,
então eu disse
Whitman, T. S.Eliot, D. H. Lawrence nos poemas sobre
cobras e bichos, Auden. e aí
constatei que Whitman era o único americano verdadeiro,
que Eliot de certo modo não era americano e os
outros também não, e
ele também sabia disso
ele sabia que eu estava cagando
mas não me desculpei
pensei um pouco mais sobre o estupro
quase amei a mulher mas sabia que quando ela se mandasse
nunca mais a vería de novo
e apertamos as mãos e o Gugg disse
que mandaria o artigo quando fosse publicado
mas eu sabia que ele não conseguira um artigo
e ele também sabia
e então ele disse
vou lhe mandar alguns dos meus poemas traduzidos
para o inglês
e eu disse ótimo
e fiquei vendo eles irem embora
os saltos altos dela batendo
nos degraus verdes
e logo tinham ido
mas eu fiquei me lembrando do vestido dela deslizando sobre tudo nela
como uma segunda pele
e fiquei furioso me lamentando e com amor e tristeza
e por ser um imbecil incapaz de
comunicar
nada
e entrei e terminei aquela cerveja
abri outra
vesti meu velho manto real
e saí para a rua de New Orleans
e nessa mesma noite
sentei com meus amigos e fui cafajeste e
um cretino
todo cheio de bravata e maldade
e eles nunca
e crueldade
souberam por quê.
entrou aqui com a prostituta dele
e ela sentou na beira da minha cama e
cruzou suas pernas ótimas
e eu fiquei olhando para as pernas dela
e ele apertou o nó da gravata
e eu estava de ressaca
e ele me perguntou
QUE PENSA VOCÊ DOS POETAS
AMERICANOS?
e eu disse que não pensava muita coisa
dos poetas americanos
e aí ele foi em frente e perguntou alguma
outra coisa bem idiota
(enquanto as pernas da puta se estendiam ao longo
do meu cérebro) como por exemplo
BEM, VOCÊ NÃO SE INCOMODA COM NADA,
MAS SE VOCÊ ESTIVESSE DANDO UMA AULA E UM DOS
ALUNOS PERGUNTASSE QUAIS OS POETAS AMERICANOS QUE
ELE DEVERIA LER,
O QUE VOCÊ RESPONDERIA?
ela cruzava as pernas enquanto eu olhava e pensei
que podia botar ele a nocaute com um direto só
estuprar a mulher em 4 minutos
pegar um trem para LA
saltar no Arizona e caminhar para o deserto
e poderia dizer a ele que eu nunca ensinaria a uma
turma
que além de não gostar da poesia americana
eu também não gostava de alunos americanos
nem do trabalho que eles esperariam que
eu fizesse,
então eu disse
Whitman, T. S.Eliot, D. H. Lawrence nos poemas sobre
cobras e bichos, Auden. e aí
constatei que Whitman era o único americano verdadeiro,
que Eliot de certo modo não era americano e os
outros também não, e
ele também sabia disso
ele sabia que eu estava cagando
mas não me desculpei
pensei um pouco mais sobre o estupro
quase amei a mulher mas sabia que quando ela se mandasse
nunca mais a vería de novo
e apertamos as mãos e o Gugg disse
que mandaria o artigo quando fosse publicado
mas eu sabia que ele não conseguira um artigo
e ele também sabia
e então ele disse
vou lhe mandar alguns dos meus poemas traduzidos
para o inglês
e eu disse ótimo
e fiquei vendo eles irem embora
os saltos altos dela batendo
nos degraus verdes
e logo tinham ido
mas eu fiquei me lembrando do vestido dela deslizando sobre tudo nela
como uma segunda pele
e fiquei furioso me lamentando e com amor e tristeza
e por ser um imbecil incapaz de
comunicar
nada
e entrei e terminei aquela cerveja
abri outra
vesti meu velho manto real
e saí para a rua de New Orleans
e nessa mesma noite
sentei com meus amigos e fui cafajeste e
um cretino
todo cheio de bravata e maldade
e eles nunca
e crueldade
souberam por quê.
1 110
Charles Bukowski
Vacas na Aula de Arte
bom tempo
é como
boas mulheres -
não acontece sempre
e quando acontece
não dura para sempre.
um homem é
mais estável: se ele é ruim
é mais provável
que continue assim,
ou se ele é bom
ele pode
se fixar,
mas a mulher
se modifica para sempre
pelos filhos
pela idade
pela dieta
pela conversação
pelo sexo
pela lua
por haver ou não haver sol
ou bom tempo. uma mulher tem que ser ninada
para subsistir
pelo amor
onde um homem pode se tornar
mais forte
por ser odiado
estou bebendo esta noite no Spangler's
e me lembro das vacas
que pintei certa vez na aula de Arte
e pareciam bem
pareciam estar melhor do que tudo
ali, estou bebendo no Spangler's
pensando em qual amar e qual
odiar, mas já não há regras:
amo e odeio somente
a mim mesmo -
os outros ficam além de mim
como laranjas caídas da mesa
e rolando para longe, é o que devo
decidir:
matar-me, ou
me amar?
qual é a traição?
de onde vem a informação?
livros... como vidro quebrado:
eu não limparia a bunda com eles
e está ficando
mais escuro, está vendo?
(bebemos aqui e falamos uns
com os outros e parecemos saber.)
pinte a vaca com as maiores
tetas
pinte a vaca com a maior
garupa.
o cara do balcão faz deslizar uma cerveja pra mim
e ela percorre o trajeto
como um corredor olímpico
e o alicate que é minha mão
segura, levanta o copo
dourado, plena tentação,
eu bebo
e fico ali
mau tempo para vacas
mas meu pincel está pronto
para atingir
o olho de palha da grama verde
a tristeza me recobre
e mando a cerveja goela abaixo
peço uma bebida forte
rápido
para adquirir a garra e o amor de
continuar.
é como
boas mulheres -
não acontece sempre
e quando acontece
não dura para sempre.
um homem é
mais estável: se ele é ruim
é mais provável
que continue assim,
ou se ele é bom
ele pode
se fixar,
mas a mulher
se modifica para sempre
pelos filhos
pela idade
pela dieta
pela conversação
pelo sexo
pela lua
por haver ou não haver sol
ou bom tempo. uma mulher tem que ser ninada
para subsistir
pelo amor
onde um homem pode se tornar
mais forte
por ser odiado
estou bebendo esta noite no Spangler's
e me lembro das vacas
que pintei certa vez na aula de Arte
e pareciam bem
pareciam estar melhor do que tudo
ali, estou bebendo no Spangler's
pensando em qual amar e qual
odiar, mas já não há regras:
amo e odeio somente
a mim mesmo -
os outros ficam além de mim
como laranjas caídas da mesa
e rolando para longe, é o que devo
decidir:
matar-me, ou
me amar?
qual é a traição?
de onde vem a informação?
livros... como vidro quebrado:
eu não limparia a bunda com eles
e está ficando
mais escuro, está vendo?
(bebemos aqui e falamos uns
com os outros e parecemos saber.)
pinte a vaca com as maiores
tetas
pinte a vaca com a maior
garupa.
o cara do balcão faz deslizar uma cerveja pra mim
e ela percorre o trajeto
como um corredor olímpico
e o alicate que é minha mão
segura, levanta o copo
dourado, plena tentação,
eu bebo
e fico ali
mau tempo para vacas
mas meu pincel está pronto
para atingir
o olho de palha da grama verde
a tristeza me recobre
e mando a cerveja goela abaixo
peço uma bebida forte
rápido
para adquirir a garra e o amor de
continuar.
1 300
Charles Bukowski
Vacas na Aula de Arte
bom tempo
é como
boas mulheres -
não acontece sempre
e quando acontece
não dura para sempre.
um homem é
mais estável: se ele é ruim
é mais provável
que continue assim,
ou se ele é bom
ele pode
se fixar,
mas a mulher
se modifica para sempre
pelos filhos
pela idade
pela dieta
pela conversação
pelo sexo
pela lua
por haver ou não haver sol
ou bom tempo. uma mulher tem que ser ninada
para subsistir
pelo amor
onde um homem pode se tornar
mais forte
por ser odiado
estou bebendo esta noite no Spangler's
e me lembro das vacas
que pintei certa vez na aula de Arte
e pareciam bem
pareciam estar melhor do que tudo
ali, estou bebendo no Spangler's
pensando em qual amar e qual
odiar, mas já não há regras:
amo e odeio somente
a mim mesmo -
os outros ficam além de mim
como laranjas caídas da mesa
e rolando para longe, é o que devo
decidir:
matar-me, ou
me amar?
qual é a traição?
de onde vem a informação?
livros... como vidro quebrado:
eu não limparia a bunda com eles
e está ficando
mais escuro, está vendo?
(bebemos aqui e falamos uns
com os outros e parecemos saber.)
pinte a vaca com as maiores
tetas
pinte a vaca com a maior
garupa.
o cara do balcão faz deslizar uma cerveja pra mim
e ela percorre o trajeto
como um corredor olímpico
e o alicate que é minha mão
segura, levanta o copo
dourado, plena tentação,
eu bebo
e fico ali
mau tempo para vacas
mas meu pincel está pronto
para atingir
o olho de palha da grama verde
a tristeza me recobre
e mando a cerveja goela abaixo
peço uma bebida forte
rápido
para adquirir a garra e o amor de
continuar.
é como
boas mulheres -
não acontece sempre
e quando acontece
não dura para sempre.
um homem é
mais estável: se ele é ruim
é mais provável
que continue assim,
ou se ele é bom
ele pode
se fixar,
mas a mulher
se modifica para sempre
pelos filhos
pela idade
pela dieta
pela conversação
pelo sexo
pela lua
por haver ou não haver sol
ou bom tempo. uma mulher tem que ser ninada
para subsistir
pelo amor
onde um homem pode se tornar
mais forte
por ser odiado
estou bebendo esta noite no Spangler's
e me lembro das vacas
que pintei certa vez na aula de Arte
e pareciam bem
pareciam estar melhor do que tudo
ali, estou bebendo no Spangler's
pensando em qual amar e qual
odiar, mas já não há regras:
amo e odeio somente
a mim mesmo -
os outros ficam além de mim
como laranjas caídas da mesa
e rolando para longe, é o que devo
decidir:
matar-me, ou
me amar?
qual é a traição?
de onde vem a informação?
livros... como vidro quebrado:
eu não limparia a bunda com eles
e está ficando
mais escuro, está vendo?
(bebemos aqui e falamos uns
com os outros e parecemos saber.)
pinte a vaca com as maiores
tetas
pinte a vaca com a maior
garupa.
o cara do balcão faz deslizar uma cerveja pra mim
e ela percorre o trajeto
como um corredor olímpico
e o alicate que é minha mão
segura, levanta o copo
dourado, plena tentação,
eu bebo
e fico ali
mau tempo para vacas
mas meu pincel está pronto
para atingir
o olho de palha da grama verde
a tristeza me recobre
e mando a cerveja goela abaixo
peço uma bebida forte
rápido
para adquirir a garra e o amor de
continuar.
1 300
Charles Bukowski
O Tordo Azul
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou duro demais com ele,
eu digo: fique aí, não vou
deixar que ninguém veja
você.
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os bartenders
e os balconistas de mercearia
nunca sabem que
ele está
ali dentro.
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou duro demais com ele,
eu digo:
fique quieto, você quer
me ferrar?
quer foder com a minha
situação?
quer detonar as minhas vendas de livros na
Europa?
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou esperto demais, só o deixo sair
em algumas noites
quando todo mundo está dormindo.
eu digo: sei que você está aí,
então não fique
triste.
depois o coloco de volta,
mas ele está cantando um pouco
ali dentro, não o deixei morrer
completamente
e nós dormimos juntos
assim
com nosso
pacto secreto
e é bom o bastante para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?
quer sair
mas eu sou duro demais com ele,
eu digo: fique aí, não vou
deixar que ninguém veja
você.
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os bartenders
e os balconistas de mercearia
nunca sabem que
ele está
ali dentro.
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou duro demais com ele,
eu digo:
fique quieto, você quer
me ferrar?
quer foder com a minha
situação?
quer detonar as minhas vendas de livros na
Europa?
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou esperto demais, só o deixo sair
em algumas noites
quando todo mundo está dormindo.
eu digo: sei que você está aí,
então não fique
triste.
depois o coloco de volta,
mas ele está cantando um pouco
ali dentro, não o deixei morrer
completamente
e nós dormimos juntos
assim
com nosso
pacto secreto
e é bom o bastante para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?
1 245
Charles Bukowski
eu nem sempre odeio o gato que mata o pássaro, só o gato que me mata...
amiga lua, amigo gato, vocês não pedem nada de misericórdia ou
espetáculos ou presentes,
apenas calmaria e lavanda. e casas. moita. movimento
como numa tigela.
ah rapazes de Princeton baforando cachimbos
ah jovens de Harvard baforando
rabiscando livros em nome da segurança,
pois amiga lua, amigo gato,
vocês não têm justificativa
vocês não passam de baforadas rosa e nuvens
pastel
inúteis como as calcinhas da minha namorada no chão
ou a minha namorada no chão
baforando para explodir
como os Pinheiros de Roma de Ottorino Respighi.
... árvore cheia de pássaro tem justiça.
ou terra cheia de minhoca.
ou gente cheia de terra.
justificativa.
andamos sobre um tapete da meia-noite
nem drogados nem sonhados nem embriagados.
e quando a janela cai num estrondo
com altivez e peido de canhão
ou a buzina bafora corneta como um falo
ou o rinoceronte ruge em seu sonho de sorvete,
ruge como os pelos do seu braço
ao deitar agulha nos Comediantes de Kabalevsky
enquanto moedinhas começam a respirar
e a coitada da Dolores Costello
é enrolada em bobina velha dentro do armário
como linha de peixe.
estou com vocês... amigos lua e gato:
nós apuramos um ouvido, um olho,
calmos no patamar deles, e aí
vamos em frente, lua e gato
passando
pelo incêndio da solteirona
passando por Van Goghs e Rembrandts
pendurados como folhas...
rumo ao topo do telhado, esta noite;
a continentes de exatidão,
ao som que faz girar o mundo.
espetáculos ou presentes,
apenas calmaria e lavanda. e casas. moita. movimento
como numa tigela.
ah rapazes de Princeton baforando cachimbos
ah jovens de Harvard baforando
rabiscando livros em nome da segurança,
pois amiga lua, amigo gato,
vocês não têm justificativa
vocês não passam de baforadas rosa e nuvens
pastel
inúteis como as calcinhas da minha namorada no chão
ou a minha namorada no chão
baforando para explodir
como os Pinheiros de Roma de Ottorino Respighi.
... árvore cheia de pássaro tem justiça.
ou terra cheia de minhoca.
ou gente cheia de terra.
justificativa.
andamos sobre um tapete da meia-noite
nem drogados nem sonhados nem embriagados.
e quando a janela cai num estrondo
com altivez e peido de canhão
ou a buzina bafora corneta como um falo
ou o rinoceronte ruge em seu sonho de sorvete,
ruge como os pelos do seu braço
ao deitar agulha nos Comediantes de Kabalevsky
enquanto moedinhas começam a respirar
e a coitada da Dolores Costello
é enrolada em bobina velha dentro do armário
como linha de peixe.
estou com vocês... amigos lua e gato:
nós apuramos um ouvido, um olho,
calmos no patamar deles, e aí
vamos em frente, lua e gato
passando
pelo incêndio da solteirona
passando por Van Goghs e Rembrandts
pendurados como folhas...
rumo ao topo do telhado, esta noite;
a continentes de exatidão,
ao som que faz girar o mundo.
1 073
Charles Bukowski
eu nem sempre odeio o gato que mata o pássaro, só o gato que me mata...
amiga lua, amigo gato, vocês não pedem nada de misericórdia ou
espetáculos ou presentes,
apenas calmaria e lavanda. e casas. moita. movimento
como numa tigela.
ah rapazes de Princeton baforando cachimbos
ah jovens de Harvard baforando
rabiscando livros em nome da segurança,
pois amiga lua, amigo gato,
vocês não têm justificativa
vocês não passam de baforadas rosa e nuvens
pastel
inúteis como as calcinhas da minha namorada no chão
ou a minha namorada no chão
baforando para explodir
como os Pinheiros de Roma de Ottorino Respighi.
... árvore cheia de pássaro tem justiça.
ou terra cheia de minhoca.
ou gente cheia de terra.
justificativa.
andamos sobre um tapete da meia-noite
nem drogados nem sonhados nem embriagados.
e quando a janela cai num estrondo
com altivez e peido de canhão
ou a buzina bafora corneta como um falo
ou o rinoceronte ruge em seu sonho de sorvete,
ruge como os pelos do seu braço
ao deitar agulha nos Comediantes de Kabalevsky
enquanto moedinhas começam a respirar
e a coitada da Dolores Costello
é enrolada em bobina velha dentro do armário
como linha de peixe.
estou com vocês... amigos lua e gato:
nós apuramos um ouvido, um olho,
calmos no patamar deles, e aí
vamos em frente, lua e gato
passando
pelo incêndio da solteirona
passando por Van Goghs e Rembrandts
pendurados como folhas...
rumo ao topo do telhado, esta noite;
a continentes de exatidão,
ao som que faz girar o mundo.
espetáculos ou presentes,
apenas calmaria e lavanda. e casas. moita. movimento
como numa tigela.
ah rapazes de Princeton baforando cachimbos
ah jovens de Harvard baforando
rabiscando livros em nome da segurança,
pois amiga lua, amigo gato,
vocês não têm justificativa
vocês não passam de baforadas rosa e nuvens
pastel
inúteis como as calcinhas da minha namorada no chão
ou a minha namorada no chão
baforando para explodir
como os Pinheiros de Roma de Ottorino Respighi.
... árvore cheia de pássaro tem justiça.
ou terra cheia de minhoca.
ou gente cheia de terra.
justificativa.
andamos sobre um tapete da meia-noite
nem drogados nem sonhados nem embriagados.
e quando a janela cai num estrondo
com altivez e peido de canhão
ou a buzina bafora corneta como um falo
ou o rinoceronte ruge em seu sonho de sorvete,
ruge como os pelos do seu braço
ao deitar agulha nos Comediantes de Kabalevsky
enquanto moedinhas começam a respirar
e a coitada da Dolores Costello
é enrolada em bobina velha dentro do armário
como linha de peixe.
estou com vocês... amigos lua e gato:
nós apuramos um ouvido, um olho,
calmos no patamar deles, e aí
vamos em frente, lua e gato
passando
pelo incêndio da solteirona
passando por Van Goghs e Rembrandts
pendurados como folhas...
rumo ao topo do telhado, esta noite;
a continentes de exatidão,
ao som que faz girar o mundo.
1 073
Charles Bukowski
aula noturna, 20 anos depois
a pressão famélica de ser tarde demais;
teias de agulhas,
as mesmas árvores estão aqui;
e grama crescida sobre a grama
mas os rostos agora são jovens
e enquanto você caminha pelo campus pensando
"memória é uma pobre desculpa para o presente"
as pernas querem deixar que o corpo caia enquanto
velhas imagens grudam em você como moluscos
e as garotas que agora se foram e que antes
pediam por sua substância
agora pendem como cortinas rasgadas
pelas janelas da sua mente;
- houve um tempo aqui
em que tudo era meu -
agora jovens leões reivindicam o território
e olham distraidamente
suas patas frouxas
e resolvem
misericordiosamente
deixar essa pobre presa passar. ele, é claro,
não é páreo para as jovens leoas,
ou a primavera no céu matinal.
uma vez aqui -
uma vez -
eu entro na sala e fico em pé contra a parede
e ouço meu nome ser lido, e
não, não é a mesma coisa:
meu velho professor parecia um leão-marinho
quando escarrava meu nome
na escarradeira do mundo
e eu dizia PRESENTE! enquanto
sentia o sol a escorrer
pelos cabelos da minha cabeça
como fios alimentando vida com vida:
chuva branca, mar bravo;
mas esse novo sussurra meu nome (e está escuro);
e como uma garra pegando algo profundo em mim,
rodeado por paredes como túmulos eu respondo de modo dócil:
presente,
e ele passa para outro nome.
sou mais velho que ele
e certamente não tão afortunado
enquanto as leoas se enrodilham a seus pés e ronronam prazerosamente,
e um velho gato cinza
vira O pescoço
e me pergunta: você já esteve aqui antes?
sim, sim, sim, sim
eu já
estive aqui
antes.
teias de agulhas,
as mesmas árvores estão aqui;
e grama crescida sobre a grama
mas os rostos agora são jovens
e enquanto você caminha pelo campus pensando
"memória é uma pobre desculpa para o presente"
as pernas querem deixar que o corpo caia enquanto
velhas imagens grudam em você como moluscos
e as garotas que agora se foram e que antes
pediam por sua substância
agora pendem como cortinas rasgadas
pelas janelas da sua mente;
- houve um tempo aqui
em que tudo era meu -
agora jovens leões reivindicam o território
e olham distraidamente
suas patas frouxas
e resolvem
misericordiosamente
deixar essa pobre presa passar. ele, é claro,
não é páreo para as jovens leoas,
ou a primavera no céu matinal.
uma vez aqui -
uma vez -
eu entro na sala e fico em pé contra a parede
e ouço meu nome ser lido, e
não, não é a mesma coisa:
meu velho professor parecia um leão-marinho
quando escarrava meu nome
na escarradeira do mundo
e eu dizia PRESENTE! enquanto
sentia o sol a escorrer
pelos cabelos da minha cabeça
como fios alimentando vida com vida:
chuva branca, mar bravo;
mas esse novo sussurra meu nome (e está escuro);
e como uma garra pegando algo profundo em mim,
rodeado por paredes como túmulos eu respondo de modo dócil:
presente,
e ele passa para outro nome.
sou mais velho que ele
e certamente não tão afortunado
enquanto as leoas se enrodilham a seus pés e ronronam prazerosamente,
e um velho gato cinza
vira O pescoço
e me pergunta: você já esteve aqui antes?
sim, sim, sim, sim
eu já
estive aqui
antes.
1 323
Charles Bukowski
Todas as Perdas...
eu disse a ela na cama então
depois de voar toda a descida
até ali
eu disse a ela na cama
depois
"não tem volta,
cê sabe, é danado
de ruim demais..."
e era, embora eu
ficasse 2 ou
3 dias
e aí ela me levou
até o aeroporto
cachorro no
banco traseiro
aquele cachorro que tinha vivido
conosco
naqueles poucos
anos.
eu saí
disse a ela
"não entre",
o cachorro pulou pra cima
e pra baixo,
ele sabia que eu estava indo embora
assanhei o pêlo dele,
ele lambeu meu rosto
de volta.
que fracasso.
inclinado para dentro
segurava minha mala,
ela me deu um pequeno
beijo de adeus,
e então eu me virei e
caminhei para
o guichê do aeroporto
e o cara do controle
destacou fora
a outra metade do bilhete de ida
e volta.
"fumante ou
não-fumante?", o funcionário
perguntou.
"bebedor", eu
respondi.
recebi meu bilhete de embarque
e caminhei até
o portão
me sentindo mal
porque todo mundo
que eu sabia
que não sabia
ia ficar
sabendo.
depois de voar toda a descida
até ali
eu disse a ela na cama
depois
"não tem volta,
cê sabe, é danado
de ruim demais..."
e era, embora eu
ficasse 2 ou
3 dias
e aí ela me levou
até o aeroporto
cachorro no
banco traseiro
aquele cachorro que tinha vivido
conosco
naqueles poucos
anos.
eu saí
disse a ela
"não entre",
o cachorro pulou pra cima
e pra baixo,
ele sabia que eu estava indo embora
assanhei o pêlo dele,
ele lambeu meu rosto
de volta.
que fracasso.
inclinado para dentro
segurava minha mala,
ela me deu um pequeno
beijo de adeus,
e então eu me virei e
caminhei para
o guichê do aeroporto
e o cara do controle
destacou fora
a outra metade do bilhete de ida
e volta.
"fumante ou
não-fumante?", o funcionário
perguntou.
"bebedor", eu
respondi.
recebi meu bilhete de embarque
e caminhei até
o portão
me sentindo mal
porque todo mundo
que eu sabia
que não sabia
ia ficar
sabendo.
1 218
Charles Bukowski
Rua 2, Perto de Hollister, Em Santa Monica
minha filha tem 13 anos de idade
e uma tarde dessas
dirigi até sua quadra para almoçarmos
juntos
e havia uma linda mulher
sentada na varanda
e pensei, bem, ela vai
se levantar e dizer para Marina que
eu estou aqui.
e a linda mulher se ergueu
e caminhou na minha direção.
era a minha filha.
ela disse: “Oi!”
eu respondi como se tudo fosse
corriqueiro e nós saímos
juntos.
e uma tarde dessas
dirigi até sua quadra para almoçarmos
juntos
e havia uma linda mulher
sentada na varanda
e pensei, bem, ela vai
se levantar e dizer para Marina que
eu estou aqui.
e a linda mulher se ergueu
e caminhou na minha direção.
era a minha filha.
ela disse: “Oi!”
eu respondi como se tudo fosse
corriqueiro e nós saímos
juntos.
1 145
Charles Bukowski
Um Bilhete de Aceitação
16 anos de idade
durante a Depressão
eu voltava pra casa bêbado
e todas as minhas roupas –
calções, camisas, meias,
maleta e páginas de
contos
estavam jogadas no
gramado da frente e pela
rua.
minha mãe me esperava
atrás de uma árvore:
“Henry, Henry, não
entre... ele vai
matar você, ele leu
as suas histórias...”
“eu posso arrebentar
o traseiro dele...”
“Henry, por favor pegue
isso... e
encontre um quarto pra você”.
mas o preocupava
que eu não conseguisse
terminar o ensino médio
então eu voltava pra casa
outra vez.
certa noite ele entrou
com as páginas de
um dos meus contos
(que eu nunca tinha lhe
mostrado)
e disse: “este é
um grande conto!”
e eu falei “o.k.”,
e ele o devolveu pra mim
e eu o li.
era uma história sobre
um homem rico
que brigara com
a esposa e tinha
saído pela noite
para tomar um café
e tinha notado
a garçonete e as colheres
e os garfos e os
saleiros e pimenteiros
e o letreiro de neon
na janela
e então tinha voltado
até seu estábulo
para ver e tocar seu
cavalo favorito
que então
lhe deu um coice na cabeça
e o matou.
de algum modo
a história fazia
sentido pra ele
se bem que
ao escrevê-la
nem me passara pela cabeça
sobre o que eu
estava escrevendo.
então eu lhe falei:
“o.k., velho, você pode
ficar com ele”.
e ele o pegou
e saiu
e fechou a porta.
acho que isso foi
o mais perto
que já chegamos.
durante a Depressão
eu voltava pra casa bêbado
e todas as minhas roupas –
calções, camisas, meias,
maleta e páginas de
contos
estavam jogadas no
gramado da frente e pela
rua.
minha mãe me esperava
atrás de uma árvore:
“Henry, Henry, não
entre... ele vai
matar você, ele leu
as suas histórias...”
“eu posso arrebentar
o traseiro dele...”
“Henry, por favor pegue
isso... e
encontre um quarto pra você”.
mas o preocupava
que eu não conseguisse
terminar o ensino médio
então eu voltava pra casa
outra vez.
certa noite ele entrou
com as páginas de
um dos meus contos
(que eu nunca tinha lhe
mostrado)
e disse: “este é
um grande conto!”
e eu falei “o.k.”,
e ele o devolveu pra mim
e eu o li.
era uma história sobre
um homem rico
que brigara com
a esposa e tinha
saído pela noite
para tomar um café
e tinha notado
a garçonete e as colheres
e os garfos e os
saleiros e pimenteiros
e o letreiro de neon
na janela
e então tinha voltado
até seu estábulo
para ver e tocar seu
cavalo favorito
que então
lhe deu um coice na cabeça
e o matou.
de algum modo
a história fazia
sentido pra ele
se bem que
ao escrevê-la
nem me passara pela cabeça
sobre o que eu
estava escrevendo.
então eu lhe falei:
“o.k., velho, você pode
ficar com ele”.
e ele o pegou
e saiu
e fechou a porta.
acho que isso foi
o mais perto
que já chegamos.
1 048
Charles Bukowski
Um Bilhete de Aceitação
16 anos de idade
durante a Depressão
eu voltava pra casa bêbado
e todas as minhas roupas –
calções, camisas, meias,
maleta e páginas de
contos
estavam jogadas no
gramado da frente e pela
rua.
minha mãe me esperava
atrás de uma árvore:
“Henry, Henry, não
entre... ele vai
matar você, ele leu
as suas histórias...”
“eu posso arrebentar
o traseiro dele...”
“Henry, por favor pegue
isso... e
encontre um quarto pra você”.
mas o preocupava
que eu não conseguisse
terminar o ensino médio
então eu voltava pra casa
outra vez.
certa noite ele entrou
com as páginas de
um dos meus contos
(que eu nunca tinha lhe
mostrado)
e disse: “este é
um grande conto!”
e eu falei “o.k.”,
e ele o devolveu pra mim
e eu o li.
era uma história sobre
um homem rico
que brigara com
a esposa e tinha
saído pela noite
para tomar um café
e tinha notado
a garçonete e as colheres
e os garfos e os
saleiros e pimenteiros
e o letreiro de neon
na janela
e então tinha voltado
até seu estábulo
para ver e tocar seu
cavalo favorito
que então
lhe deu um coice na cabeça
e o matou.
de algum modo
a história fazia
sentido pra ele
se bem que
ao escrevê-la
nem me passara pela cabeça
sobre o que eu
estava escrevendo.
então eu lhe falei:
“o.k., velho, você pode
ficar com ele”.
e ele o pegou
e saiu
e fechou a porta.
acho que isso foi
o mais perto
que já chegamos.
durante a Depressão
eu voltava pra casa bêbado
e todas as minhas roupas –
calções, camisas, meias,
maleta e páginas de
contos
estavam jogadas no
gramado da frente e pela
rua.
minha mãe me esperava
atrás de uma árvore:
“Henry, Henry, não
entre... ele vai
matar você, ele leu
as suas histórias...”
“eu posso arrebentar
o traseiro dele...”
“Henry, por favor pegue
isso... e
encontre um quarto pra você”.
mas o preocupava
que eu não conseguisse
terminar o ensino médio
então eu voltava pra casa
outra vez.
certa noite ele entrou
com as páginas de
um dos meus contos
(que eu nunca tinha lhe
mostrado)
e disse: “este é
um grande conto!”
e eu falei “o.k.”,
e ele o devolveu pra mim
e eu o li.
era uma história sobre
um homem rico
que brigara com
a esposa e tinha
saído pela noite
para tomar um café
e tinha notado
a garçonete e as colheres
e os garfos e os
saleiros e pimenteiros
e o letreiro de neon
na janela
e então tinha voltado
até seu estábulo
para ver e tocar seu
cavalo favorito
que então
lhe deu um coice na cabeça
e o matou.
de algum modo
a história fazia
sentido pra ele
se bem que
ao escrevê-la
nem me passara pela cabeça
sobre o que eu
estava escrevendo.
então eu lhe falei:
“o.k., velho, você pode
ficar com ele”.
e ele o pegou
e saiu
e fechou a porta.
acho que isso foi
o mais perto
que já chegamos.
1 048
Charles Bukowski
Inflamados de Amor (Para N.W.)
pequena garota morena de
bondade
quando chegar a hora de
enfiar a faca
não vou culpar
você.
e quando eu passar de carro pela praia
e as palmeiras acenarem,
as palmeiras feias e pesadas
e os vivos não chegarem
e os mortos não partirem,
não vou culpar você.
vou lembrar as horas de beijos
nossos lábios inflamados de amor
e como você me ofereceu
sua boceta sua alma suas entranhas
e como eu respondi
oferecendo-lhe o pouco que restava de
mim,
e vou lembrar os contornos do seu quarto
os contornos do seu corpo
seus discos
suas paredes
suas xícaras de café
suas manhãs e seus meios-dias e suas noites
e sua privada e sua
banheira.
nossos corpos derramados juntos
dormindo
aquelas minúsculas correntes fluindo
imediatas e eternas
cruzando
entrecruzando
sem parar.
sua perna minha perna
seu braço meu braço
sua tristeza e perda e calor
também meus,
memorizei você
cada formato seu
a sensação dos pelos da sua boceta nos meus dentes
em repuxo suave, e
você
que me fez rir nos
momentos apropriados
sempre.
pequena garota morena de bondade
você não tem nenhuma
faca. é
minha e não quero usá-la
ainda.
ENTÃO VEIO O AMOR
bondade
quando chegar a hora de
enfiar a faca
não vou culpar
você.
e quando eu passar de carro pela praia
e as palmeiras acenarem,
as palmeiras feias e pesadas
e os vivos não chegarem
e os mortos não partirem,
não vou culpar você.
vou lembrar as horas de beijos
nossos lábios inflamados de amor
e como você me ofereceu
sua boceta sua alma suas entranhas
e como eu respondi
oferecendo-lhe o pouco que restava de
mim,
e vou lembrar os contornos do seu quarto
os contornos do seu corpo
seus discos
suas paredes
suas xícaras de café
suas manhãs e seus meios-dias e suas noites
e sua privada e sua
banheira.
nossos corpos derramados juntos
dormindo
aquelas minúsculas correntes fluindo
imediatas e eternas
cruzando
entrecruzando
sem parar.
sua perna minha perna
seu braço meu braço
sua tristeza e perda e calor
também meus,
memorizei você
cada formato seu
a sensação dos pelos da sua boceta nos meus dentes
em repuxo suave, e
você
que me fez rir nos
momentos apropriados
sempre.
pequena garota morena de bondade
você não tem nenhuma
faca. é
minha e não quero usá-la
ainda.
ENTÃO VEIO O AMOR
1 224
Charles Bukowski
O Primeiro Amor
certa vez
quanto eu tinha 14 anos
os criadores me trouxeram
meu único sentimento de
chance.
meu pai não gostava
de livros e
minha mãe não gostava
de livros (porque meu pai
não gostava de livros)
sobretudo aqueles que eu trazia
da biblioteca:
D.H. Lawrence
Dostoiévski
Turguêniev
Górki
A. Huxley
Sinclair Lewis
outros.
eu tinha meu próprio quarto
mas às 8 da noite
devíamos estar todos indo dormir:
“Cedo na cama e cedo desperto:
o homem fica saudável, rico e esperto”,
meu pai costumava dizer.
“LUZES DESLIGADAS!”, ele gritava.
então eu pegava o abajur de cabeceira
colocava embaixo das cobertas
e com o calor e a luz escondida
eu continuava lendo:
Ibsen
Shakespeare
Tchékhov
Jeffers
Thurber
Conrad Aiken
outros.
eles me trouxeram chance e esperança e
sentimento num lugar sem chance,
sem esperança, sem sentimento.
eu trabalhei duro.
ficava quente embaixo das cobertas.
às vezes o abajur começava a soltar fumaça
ou os lençóis – começavam a
pegar fogo;
aí eu desligava o abajur,
segurava fora da janela para
esfriar.
sem esses livros
não tenho bem certeza
no que teria dado a minha
vida:
desvario; o
assassinato do pai;
idiotismo; imbecilidade;
insípida desesperança.
quando meu pai gritava
“LUZES DESLIGADAS!”
tenho certeza de que ele temia
a palavra bem escrita
que aparecia com suavidade
e razoabilidade
em nossa melhor e
mais interessante
literatura.
e foi ali
perto de mim
embaixo das cobertas
mais mulher do que mulher
mais homem do que homem.
eu tinha tudo
e
não deixei escapar.
quanto eu tinha 14 anos
os criadores me trouxeram
meu único sentimento de
chance.
meu pai não gostava
de livros e
minha mãe não gostava
de livros (porque meu pai
não gostava de livros)
sobretudo aqueles que eu trazia
da biblioteca:
D.H. Lawrence
Dostoiévski
Turguêniev
Górki
A. Huxley
Sinclair Lewis
outros.
eu tinha meu próprio quarto
mas às 8 da noite
devíamos estar todos indo dormir:
“Cedo na cama e cedo desperto:
o homem fica saudável, rico e esperto”,
meu pai costumava dizer.
“LUZES DESLIGADAS!”, ele gritava.
então eu pegava o abajur de cabeceira
colocava embaixo das cobertas
e com o calor e a luz escondida
eu continuava lendo:
Ibsen
Shakespeare
Tchékhov
Jeffers
Thurber
Conrad Aiken
outros.
eles me trouxeram chance e esperança e
sentimento num lugar sem chance,
sem esperança, sem sentimento.
eu trabalhei duro.
ficava quente embaixo das cobertas.
às vezes o abajur começava a soltar fumaça
ou os lençóis – começavam a
pegar fogo;
aí eu desligava o abajur,
segurava fora da janela para
esfriar.
sem esses livros
não tenho bem certeza
no que teria dado a minha
vida:
desvario; o
assassinato do pai;
idiotismo; imbecilidade;
insípida desesperança.
quando meu pai gritava
“LUZES DESLIGADAS!”
tenho certeza de que ele temia
a palavra bem escrita
que aparecia com suavidade
e razoabilidade
em nossa melhor e
mais interessante
literatura.
e foi ali
perto de mim
embaixo das cobertas
mais mulher do que mulher
mais homem do que homem.
eu tinha tudo
e
não deixei escapar.
825
Charles Bukowski
O Primeiro Amor
certa vez
quanto eu tinha 14 anos
os criadores me trouxeram
meu único sentimento de
chance.
meu pai não gostava
de livros e
minha mãe não gostava
de livros (porque meu pai
não gostava de livros)
sobretudo aqueles que eu trazia
da biblioteca:
D.H. Lawrence
Dostoiévski
Turguêniev
Górki
A. Huxley
Sinclair Lewis
outros.
eu tinha meu próprio quarto
mas às 8 da noite
devíamos estar todos indo dormir:
“Cedo na cama e cedo desperto:
o homem fica saudável, rico e esperto”,
meu pai costumava dizer.
“LUZES DESLIGADAS!”, ele gritava.
então eu pegava o abajur de cabeceira
colocava embaixo das cobertas
e com o calor e a luz escondida
eu continuava lendo:
Ibsen
Shakespeare
Tchékhov
Jeffers
Thurber
Conrad Aiken
outros.
eles me trouxeram chance e esperança e
sentimento num lugar sem chance,
sem esperança, sem sentimento.
eu trabalhei duro.
ficava quente embaixo das cobertas.
às vezes o abajur começava a soltar fumaça
ou os lençóis – começavam a
pegar fogo;
aí eu desligava o abajur,
segurava fora da janela para
esfriar.
sem esses livros
não tenho bem certeza
no que teria dado a minha
vida:
desvario; o
assassinato do pai;
idiotismo; imbecilidade;
insípida desesperança.
quando meu pai gritava
“LUZES DESLIGADAS!”
tenho certeza de que ele temia
a palavra bem escrita
que aparecia com suavidade
e razoabilidade
em nossa melhor e
mais interessante
literatura.
e foi ali
perto de mim
embaixo das cobertas
mais mulher do que mulher
mais homem do que homem.
eu tinha tudo
e
não deixei escapar.
quanto eu tinha 14 anos
os criadores me trouxeram
meu único sentimento de
chance.
meu pai não gostava
de livros e
minha mãe não gostava
de livros (porque meu pai
não gostava de livros)
sobretudo aqueles que eu trazia
da biblioteca:
D.H. Lawrence
Dostoiévski
Turguêniev
Górki
A. Huxley
Sinclair Lewis
outros.
eu tinha meu próprio quarto
mas às 8 da noite
devíamos estar todos indo dormir:
“Cedo na cama e cedo desperto:
o homem fica saudável, rico e esperto”,
meu pai costumava dizer.
“LUZES DESLIGADAS!”, ele gritava.
então eu pegava o abajur de cabeceira
colocava embaixo das cobertas
e com o calor e a luz escondida
eu continuava lendo:
Ibsen
Shakespeare
Tchékhov
Jeffers
Thurber
Conrad Aiken
outros.
eles me trouxeram chance e esperança e
sentimento num lugar sem chance,
sem esperança, sem sentimento.
eu trabalhei duro.
ficava quente embaixo das cobertas.
às vezes o abajur começava a soltar fumaça
ou os lençóis – começavam a
pegar fogo;
aí eu desligava o abajur,
segurava fora da janela para
esfriar.
sem esses livros
não tenho bem certeza
no que teria dado a minha
vida:
desvario; o
assassinato do pai;
idiotismo; imbecilidade;
insípida desesperança.
quando meu pai gritava
“LUZES DESLIGADAS!”
tenho certeza de que ele temia
a palavra bem escrita
que aparecia com suavidade
e razoabilidade
em nossa melhor e
mais interessante
literatura.
e foi ali
perto de mim
embaixo das cobertas
mais mulher do que mulher
mais homem do que homem.
eu tinha tudo
e
não deixei escapar.
825
Charles Bukowski
Resposta a Um Bilhete Encontrado Na Caixa de Correio
“o amor é como um sino
me diga, você já
o escutou na voz dela?”
o amor não é como um sino
isso é poético, verdade,
mas escutei algo na voz dela
que no vômito do meu tormento
que na caveira pousada na janela
arreganhando os dentes amarelos quebrados
me alçou a um clima que raras vezes
conheci –
“aqui, uma flor. eu trago flor.”
escuto algo na voz dela
que nada tem a ver com suados e traiçoeiros
e sangrantes exércitos
que nada tem a ver com o chefe da fábrica com olhos
quebrados
não estou implicando com as suas palavras:
você tem o seu sino
eu tenho isso e talvez você tenha isso também:
“eu trago sapatos. sapato. sapato. aqui um
sapato!”
é mais do que aprender o que é um sapato
é mais do que aprender o que sou ou o que ela
é
é outra coisa
que talvez nós que vivemos há muito tempo já quase
esquecemos
que uma criança venha dos pântanos da minha dor
carregando flores, efetivamente carregando flores,
jesus, isso é quase demais
que me seja permitido ver com olhos e tocar e
rir,
essa besta informada em mim
faz careta no íntimo
mas logo constata que o esforço é grande demais para se esconder
atrás
e essa pequena criatura que me conhece tão bem
rasteja por tudo através e em cima de mim
Lázaro Lázaro
e não sinto vergonha
guerreiro espancado por horas e anos de
desperdício
o amor é como um sino
o amor é como uma montanha púrpura
o amor é como um copo de vinagre
o amor são todas as sepulturas
o amor é uma janela de trem
ela sabe o meu nome.
me diga, você já
o escutou na voz dela?”
o amor não é como um sino
isso é poético, verdade,
mas escutei algo na voz dela
que no vômito do meu tormento
que na caveira pousada na janela
arreganhando os dentes amarelos quebrados
me alçou a um clima que raras vezes
conheci –
“aqui, uma flor. eu trago flor.”
escuto algo na voz dela
que nada tem a ver com suados e traiçoeiros
e sangrantes exércitos
que nada tem a ver com o chefe da fábrica com olhos
quebrados
não estou implicando com as suas palavras:
você tem o seu sino
eu tenho isso e talvez você tenha isso também:
“eu trago sapatos. sapato. sapato. aqui um
sapato!”
é mais do que aprender o que é um sapato
é mais do que aprender o que sou ou o que ela
é
é outra coisa
que talvez nós que vivemos há muito tempo já quase
esquecemos
que uma criança venha dos pântanos da minha dor
carregando flores, efetivamente carregando flores,
jesus, isso é quase demais
que me seja permitido ver com olhos e tocar e
rir,
essa besta informada em mim
faz careta no íntimo
mas logo constata que o esforço é grande demais para se esconder
atrás
e essa pequena criatura que me conhece tão bem
rasteja por tudo através e em cima de mim
Lázaro Lázaro
e não sinto vergonha
guerreiro espancado por horas e anos de
desperdício
o amor é como um sino
o amor é como uma montanha púrpura
o amor é como um copo de vinagre
o amor são todas as sepulturas
o amor é uma janela de trem
ela sabe o meu nome.
1 021
Charles Bukowski
Minhas Paredes do Amor
em noites como esta, recupero o que
posso.
a vida é dura, a escrita é livre.
se as mulheres pudessem ser tão fáceis
mas elas eram sempre quase a mesma coisa:
gostavam da minha escrita em formato de livro
finalizado
mas havia sempre algo em relação ao efetivo
ato de datilografar
de trabalhar em direção ao novo
que as incomodava...
eu não estava competindo com elas
mas elas se mostravam competitivas comigo
em formas e estilos que eu não considerava
nem originais nem criativos
se bem que para mim
eram sem dúvida
assombrosos o bastante.
agora estão libertadas
consigo mesmas e com os outros
e têm novos problemas
de outra maneira.
todas aquelas gracinhas:
fico contente por estar com elas em espírito
e não em carne
pois agora posso martelar a porra desta máquina
sem preocupação.
posso.
a vida é dura, a escrita é livre.
se as mulheres pudessem ser tão fáceis
mas elas eram sempre quase a mesma coisa:
gostavam da minha escrita em formato de livro
finalizado
mas havia sempre algo em relação ao efetivo
ato de datilografar
de trabalhar em direção ao novo
que as incomodava...
eu não estava competindo com elas
mas elas se mostravam competitivas comigo
em formas e estilos que eu não considerava
nem originais nem criativos
se bem que para mim
eram sem dúvida
assombrosos o bastante.
agora estão libertadas
consigo mesmas e com os outros
e têm novos problemas
de outra maneira.
todas aquelas gracinhas:
fico contente por estar com elas em espírito
e não em carne
pois agora posso martelar a porra desta máquina
sem preocupação.
688