Poemas neste tema
Outros
Charles Bukowski
Ai Disse a Vaca À Cerca Que Ligava
, esperneiam esses bebês idiotas,
os leprosos se embebedaram de leite
de coco
, o último sonho do pervertido foi
bacon misturado com torta
de anca
, morto é morto que chega
torto é torto que chega
e o cavalo falhou na
cara da rainha
e uma hora depois
ela estava com as bolas dele na mão
e a cabeça dele montada entre
as manoplas da motocicleta de
Hades
, as verdes florestas na minha mente
estão cegas
enquanto levo a mão ao rolo de papel
higiênico
o mundo late uma vez e
desaparece
, baunilha, baunilha, baunilha,
imagine você no bolso traseiro
de Prokofiev durante uma tempestade
de verão perante a casa de campo de um
comedor de cães bebedor de
vermute
, Paris é um lugar nas cercanias de
lugar nenhum que costumava
ser
, fico recebendo ligações telefônicas
de pessoas totalmente loucas que
me amam porque acreditam
que a minha loucura justifica a delas
o que é pior do que baixíssima
categoria
, a dor é como um foguete, sinta
o bastante
que ela te projeta através
e além de toda a baboseira
por um tempo
apenas
, a dama me trouxe uma bebida
e eu trouxe à dama uma bebida
e a dama me trouxe uma
bebida
e aí eu trouxe à dama uma
bebida
e aí o bartender
arrancou o olho esquerdo
enfiou na boca e
o cuspiu para o teto
enquanto um cara cruzava pela
porta e perguntava
“Godot está aqui?”
, a placenta é o hino da
ferida esquecida
e você não está me devendo 20
pratas que eu te emprestei durante
o
Mardi Gras?
, ah, que se danem todas as coisas e
os pássaros e os lagos e as cintas-
ligas
ah, por que somos tão estufados
dessa merda de hélio?
ah, quem roubou os olhos
e botou as tampas de garrafa na
bunda da Georgia?
, por que a porta abre
para trás?
, ei, a rançosa respiração
dos fedorentos tambores...
tais armas vêm dentro de quê?
peguem a calhandra bêbada!
, essa chicana de perfeição...
esse pelúcido bocejo de
incêndio...
, Cristo parou num tranco,
pneu estourou,
abri o porta-malas e
não achei o
macaco.
os leprosos se embebedaram de leite
de coco
, o último sonho do pervertido foi
bacon misturado com torta
de anca
, morto é morto que chega
torto é torto que chega
e o cavalo falhou na
cara da rainha
e uma hora depois
ela estava com as bolas dele na mão
e a cabeça dele montada entre
as manoplas da motocicleta de
Hades
, as verdes florestas na minha mente
estão cegas
enquanto levo a mão ao rolo de papel
higiênico
o mundo late uma vez e
desaparece
, baunilha, baunilha, baunilha,
imagine você no bolso traseiro
de Prokofiev durante uma tempestade
de verão perante a casa de campo de um
comedor de cães bebedor de
vermute
, Paris é um lugar nas cercanias de
lugar nenhum que costumava
ser
, fico recebendo ligações telefônicas
de pessoas totalmente loucas que
me amam porque acreditam
que a minha loucura justifica a delas
o que é pior do que baixíssima
categoria
, a dor é como um foguete, sinta
o bastante
que ela te projeta através
e além de toda a baboseira
por um tempo
apenas
, a dama me trouxe uma bebida
e eu trouxe à dama uma bebida
e a dama me trouxe uma
bebida
e aí eu trouxe à dama uma
bebida
e aí o bartender
arrancou o olho esquerdo
enfiou na boca e
o cuspiu para o teto
enquanto um cara cruzava pela
porta e perguntava
“Godot está aqui?”
, a placenta é o hino da
ferida esquecida
e você não está me devendo 20
pratas que eu te emprestei durante
o
Mardi Gras?
, ah, que se danem todas as coisas e
os pássaros e os lagos e as cintas-
ligas
ah, por que somos tão estufados
dessa merda de hélio?
ah, quem roubou os olhos
e botou as tampas de garrafa na
bunda da Georgia?
, por que a porta abre
para trás?
, ei, a rançosa respiração
dos fedorentos tambores...
tais armas vêm dentro de quê?
peguem a calhandra bêbada!
, essa chicana de perfeição...
esse pelúcido bocejo de
incêndio...
, Cristo parou num tranco,
pneu estourou,
abri o porta-malas e
não achei o
macaco.
1 005
Charles Bukowski
1813-1883
ouvindo Wagner
e lá fora no escuro o vento sopra uma chuva fria as
árvores oscilam e balançam luzes se
apagam e acendem as paredes rangem e os gatos correm para baixo da
cama...
Wagner enfrenta os tormentos, ele é sentimental mas
sólido, é o lutador supremo, gigante num mundo de
pigmeus, ele se joga de frente, rompe
barreiras
uma
espantosa FORÇA sonora enquanto
tudo aqui balança
treme
verga
estoura
em feroz aposta
sim, Wagner e a tempestade se misturam com o vinho quando
noites como esta sobem dos meus pulsos até a cabeça e
recaem nas
tripas
certos homens nunca
morrem
e certos homens nunca
vivem
mas estamos todos vivos
nesta noite.
e lá fora no escuro o vento sopra uma chuva fria as
árvores oscilam e balançam luzes se
apagam e acendem as paredes rangem e os gatos correm para baixo da
cama...
Wagner enfrenta os tormentos, ele é sentimental mas
sólido, é o lutador supremo, gigante num mundo de
pigmeus, ele se joga de frente, rompe
barreiras
uma
espantosa FORÇA sonora enquanto
tudo aqui balança
treme
verga
estoura
em feroz aposta
sim, Wagner e a tempestade se misturam com o vinho quando
noites como esta sobem dos meus pulsos até a cabeça e
recaem nas
tripas
certos homens nunca
morrem
e certos homens nunca
vivem
mas estamos todos vivos
nesta noite.
1 662
Charles Bukowski
O Trapézio Imóvel
Saroyan disse para sua esposa: “eu preciso
apostar para poder
escrever”. ela lhe disse para
ir em frente.
ele perdeu $350.000
quase tudo no hipódromo
mas mesmo assim não conseguiu escrever ou
pagar seus impostos.
ele fugiu do governo e se exilou
em Paris.
mais tarde voltou, se virou
como pôde
endividado até o
pescoço –
direitos autorais
definhando.
mesmo assim não conseguia escrever ou
o que escrevia não
funcionava porque o tremendo
e bravo otimismo
que tanto animou
todo mundo
durante a depressão
simplesmente virou
água com açúcar
durante
os bons tempos.
ele morreu
na condição de lenda minguante
com um vasto bigode
em forma de guidão
igualzinho ao que o pai dele
costumava usar
no velho estilo
armênio de Fresno
num mundo que já não podia
usar
Wiliam.
apostar para poder
escrever”. ela lhe disse para
ir em frente.
ele perdeu $350.000
quase tudo no hipódromo
mas mesmo assim não conseguiu escrever ou
pagar seus impostos.
ele fugiu do governo e se exilou
em Paris.
mais tarde voltou, se virou
como pôde
endividado até o
pescoço –
direitos autorais
definhando.
mesmo assim não conseguia escrever ou
o que escrevia não
funcionava porque o tremendo
e bravo otimismo
que tanto animou
todo mundo
durante a depressão
simplesmente virou
água com açúcar
durante
os bons tempos.
ele morreu
na condição de lenda minguante
com um vasto bigode
em forma de guidão
igualzinho ao que o pai dele
costumava usar
no velho estilo
armênio de Fresno
num mundo que já não podia
usar
Wiliam.
1 135
Charles Bukowski
O Trapézio Imóvel
Saroyan disse para sua esposa: “eu preciso
apostar para poder
escrever”. ela lhe disse para
ir em frente.
ele perdeu $350.000
quase tudo no hipódromo
mas mesmo assim não conseguiu escrever ou
pagar seus impostos.
ele fugiu do governo e se exilou
em Paris.
mais tarde voltou, se virou
como pôde
endividado até o
pescoço –
direitos autorais
definhando.
mesmo assim não conseguia escrever ou
o que escrevia não
funcionava porque o tremendo
e bravo otimismo
que tanto animou
todo mundo
durante a depressão
simplesmente virou
água com açúcar
durante
os bons tempos.
ele morreu
na condição de lenda minguante
com um vasto bigode
em forma de guidão
igualzinho ao que o pai dele
costumava usar
no velho estilo
armênio de Fresno
num mundo que já não podia
usar
Wiliam.
apostar para poder
escrever”. ela lhe disse para
ir em frente.
ele perdeu $350.000
quase tudo no hipódromo
mas mesmo assim não conseguiu escrever ou
pagar seus impostos.
ele fugiu do governo e se exilou
em Paris.
mais tarde voltou, se virou
como pôde
endividado até o
pescoço –
direitos autorais
definhando.
mesmo assim não conseguia escrever ou
o que escrevia não
funcionava porque o tremendo
e bravo otimismo
que tanto animou
todo mundo
durante a depressão
simplesmente virou
água com açúcar
durante
os bons tempos.
ele morreu
na condição de lenda minguante
com um vasto bigode
em forma de guidão
igualzinho ao que o pai dele
costumava usar
no velho estilo
armênio de Fresno
num mundo que já não podia
usar
Wiliam.
1 135
Charles Bukowski
Não Tem Remédio Pra Isso
há um lugar no coração que
nunca será preenchido
um espaço
e mesmo nos
melhores momentos
e
nos melhores
tempos
nós saberemos
nós saberemos
mais do que
nunca
há um lugar no coração que
nunca será preenchido
e
nós vamos esperar
e
esperar
nesse
espaço.
nunca será preenchido
um espaço
e mesmo nos
melhores momentos
e
nos melhores
tempos
nós saberemos
nós saberemos
mais do que
nunca
há um lugar no coração que
nunca será preenchido
e
nós vamos esperar
e
esperar
nesse
espaço.
2 530
Charles Bukowski
Escuridão
a escuridão cai sobre a Humanidade
e os rostos se tornam coisas
terríveis
que queriam mais do que
havia.
todos os nossos dias são marcados por
afrontas
inesperadas – algumas
desastrosas, outras
menos
mas o processo é
desgastante e
contínuo.
o atrito é a norma.
a maioria cede
o lugar
deixando
espaços vazios
onde deveriam existir
pessoas.
nossos progenitores, nossos
sistemas educacionais, a
terra, a mídia, o
modo
só
iludiram e desencaminharam as
massas: elas foram
derrotadas pela aridez do
sonho
efetivo.
elas
ignoravam que
a conquista ou a vitória ou
a sorte ou
seja lá como você
quiser chamar
por certo
tem
suas derrotas.
somente o reencontro e
o ir em frente
é que conferem substância
a qualquer magia
possivelmente
derivada.
e agora
quando estamos prontos para nos autodestruir
resta muito pouco para
matar
o que torna a tragédia
menor e maior
bem bem
maior.
e os rostos se tornam coisas
terríveis
que queriam mais do que
havia.
todos os nossos dias são marcados por
afrontas
inesperadas – algumas
desastrosas, outras
menos
mas o processo é
desgastante e
contínuo.
o atrito é a norma.
a maioria cede
o lugar
deixando
espaços vazios
onde deveriam existir
pessoas.
nossos progenitores, nossos
sistemas educacionais, a
terra, a mídia, o
modo
só
iludiram e desencaminharam as
massas: elas foram
derrotadas pela aridez do
sonho
efetivo.
elas
ignoravam que
a conquista ou a vitória ou
a sorte ou
seja lá como você
quiser chamar
por certo
tem
suas derrotas.
somente o reencontro e
o ir em frente
é que conferem substância
a qualquer magia
possivelmente
derivada.
e agora
quando estamos prontos para nos autodestruir
resta muito pouco para
matar
o que torna a tragédia
menor e maior
bem bem
maior.
851
Charles Bukowski
Parabéns, Chinaski
conforme me aproximo dos 70
recebo cartas, cartões, presentinhos
de pessoas estranhas.
felicitações, elas me
dizem,
felicitações.
sei o que querem dizer:
do jeito que vivi
eu deveria ter morrido em metade
do tempo.
empilhei sobre mim uma montanha de
grandioso abuso, fui
descuidado comigo mesmo
quase ao nível da
loucura,
ainda estou aqui
debruçado nesta máquina
nesta sala impregnada de fumaça,
a grande lata de lixo à minha
esquerda
cheia de embalagens
vazias.
os médicos não têm respostas
e os deuses estão
calados.
felicitações, morte,
por sua paciência.
eu te ajudei o máximo que
pude.
agora mais um poema
e uma volta na sacada,
que bela noite aqui.
estou usando cueca e meias,
coço suavemente minha velha
barriga,
olho lá fora
olho além do lá fora
onde o escuro encontra o escuro
tem sido uma loucura
esse jogo.
recebo cartas, cartões, presentinhos
de pessoas estranhas.
felicitações, elas me
dizem,
felicitações.
sei o que querem dizer:
do jeito que vivi
eu deveria ter morrido em metade
do tempo.
empilhei sobre mim uma montanha de
grandioso abuso, fui
descuidado comigo mesmo
quase ao nível da
loucura,
ainda estou aqui
debruçado nesta máquina
nesta sala impregnada de fumaça,
a grande lata de lixo à minha
esquerda
cheia de embalagens
vazias.
os médicos não têm respostas
e os deuses estão
calados.
felicitações, morte,
por sua paciência.
eu te ajudei o máximo que
pude.
agora mais um poema
e uma volta na sacada,
que bela noite aqui.
estou usando cueca e meias,
coço suavemente minha velha
barriga,
olho lá fora
olho além do lá fora
onde o escuro encontra o escuro
tem sido uma loucura
esse jogo.
1 109
Charles Bukowski
Janeiro
aqui
você vê esta
mão
aqui você vê este
céu
esta
ponte
ouve este
som
a agonia do
elefante
o pesadelo do
anão
enquanto
papagaios engaiolados
repousam num
floreio de
cor
enquanto pedaços de
pessoas
despencam pela
beira
como pedrinhas
como
rochas
manicômios gritando de
dor
enquanto a realeza do
mundo é
fotografada
digamos
a cavalo
ou
digamos
contemplando um desfile
em sua
honra
enquanto
os drogados se drogam
enquanto os bebuns bebem
enquanto as vadias vadiam
enquanto os matadores matam
o albatroz pisca seus
olhos
o clima continua
praticamente
o mesmo.
você vê esta
mão
aqui você vê este
céu
esta
ponte
ouve este
som
a agonia do
elefante
o pesadelo do
anão
enquanto
papagaios engaiolados
repousam num
floreio de
cor
enquanto pedaços de
pessoas
despencam pela
beira
como pedrinhas
como
rochas
manicômios gritando de
dor
enquanto a realeza do
mundo é
fotografada
digamos
a cavalo
ou
digamos
contemplando um desfile
em sua
honra
enquanto
os drogados se drogam
enquanto os bebuns bebem
enquanto as vadias vadiam
enquanto os matadores matam
o albatroz pisca seus
olhos
o clima continua
praticamente
o mesmo.
1 079
Charles Bukowski
Desculpa Para Uma Possível Imortalidade
se não conseguirmos fazer literatura com nossa
agonia
o que é que faremos com
ela?
mendigar nas ruas?
eu gosto dos meus pequenos confortos
igual a qualquer outro
filho da
puta.
agonia
o que é que faremos com
ela?
mendigar nas ruas?
eu gosto dos meus pequenos confortos
igual a qualquer outro
filho da
puta.
1 237
Charles Bukowski
Desculpa Para Uma Possível Imortalidade
se não conseguirmos fazer literatura com nossa
agonia
o que é que faremos com
ela?
mendigar nas ruas?
eu gosto dos meus pequenos confortos
igual a qualquer outro
filho da
puta.
agonia
o que é que faremos com
ela?
mendigar nas ruas?
eu gosto dos meus pequenos confortos
igual a qualquer outro
filho da
puta.
1 237
Charles Bukowski
Desculpa Para Uma Possível Imortalidade
se não conseguirmos fazer literatura com nossa
agonia
o que é que faremos com
ela?
mendigar nas ruas?
eu gosto dos meus pequenos confortos
igual a qualquer outro
filho da
puta.
agonia
o que é que faremos com
ela?
mendigar nas ruas?
eu gosto dos meus pequenos confortos
igual a qualquer outro
filho da
puta.
1 237
Charles Bukowski
Texsun
ela é do Texas e pesa
46 quilos
e fica parada diante do
espelho penteando fios e
mais fios de um cabelo avermelhado
que cai pelas
costas até a bunda.
o cabelo é mágico e dispara
faíscas e eu fico atirado na cama
e a observo penteando seu
cabelo. ela é como uma ninfa
de cinema mas ela está
realmente ali. fazemos amor
ao menos uma vez por dia e
ela consegue me fazer rir
com qualquer frase que decida
dizer. as mulheres do Texas sempre
foram absurdamente belas e
saudáveis, e além disso ela
limpou minha geladeira, minha pia,
o banheiro, e ela cozinha e me
serve comidas saudáveis
e lava os pratos ainda por
cima.
“Hank”, ela me disse,
segurando uma lata de suco de
toranja, “este é o melhor de
todos.”
a lata diz “Texsun – suco de toranja
rosa sem açúcar.”
ela tem o rosto que Katharine Hepburn
deve ter tido quando estava
na escola secundária, e eu olho aqueles
46 quilos
penteando quase um metro
de cintilante cabelo avermelhado
diante do espelho
e posso senti-la dentro dos meus
pulsos e atrás dos meus olhos,
e meus dedos dos pés e as pernas e a barriga
podem senti-la e
a outra parte também,
e Los Angeles toda desaba
e chora de alegria,
tremem as paredes dos salões do amor,
o mar vem com tudo e ela se vira
para mim e diz “que droga esse cabelo!”
e eu digo
“sim.”
46 quilos
e fica parada diante do
espelho penteando fios e
mais fios de um cabelo avermelhado
que cai pelas
costas até a bunda.
o cabelo é mágico e dispara
faíscas e eu fico atirado na cama
e a observo penteando seu
cabelo. ela é como uma ninfa
de cinema mas ela está
realmente ali. fazemos amor
ao menos uma vez por dia e
ela consegue me fazer rir
com qualquer frase que decida
dizer. as mulheres do Texas sempre
foram absurdamente belas e
saudáveis, e além disso ela
limpou minha geladeira, minha pia,
o banheiro, e ela cozinha e me
serve comidas saudáveis
e lava os pratos ainda por
cima.
“Hank”, ela me disse,
segurando uma lata de suco de
toranja, “este é o melhor de
todos.”
a lata diz “Texsun – suco de toranja
rosa sem açúcar.”
ela tem o rosto que Katharine Hepburn
deve ter tido quando estava
na escola secundária, e eu olho aqueles
46 quilos
penteando quase um metro
de cintilante cabelo avermelhado
diante do espelho
e posso senti-la dentro dos meus
pulsos e atrás dos meus olhos,
e meus dedos dos pés e as pernas e a barriga
podem senti-la e
a outra parte também,
e Los Angeles toda desaba
e chora de alegria,
tremem as paredes dos salões do amor,
o mar vem com tudo e ela se vira
para mim e diz “que droga esse cabelo!”
e eu digo
“sim.”
1 183
Charles Bukowski
Eu Tenho Um Quarto
eu tenho um quarto aqui em cima onde me sento sozinho e é bem
parecido com meus quartos do passado – garrafas e papéis, livros,
cintos, pentes, jornais velhos, lixo de todo tipo espalhado.
minha desordem jamais foi escolha, ela apenas chegou e
permaneceu.
no tempo de cada um não há nunca tempo suficiente para deixar
tudo arrumado – há sempre colapso, perda, a
dura matemática da
confusão e
do cansaço.
somos arengados por imensas e triviais tarefas
e chegam os momentos de estoicismo ou de horror quando fica
impossível pagar uma conta de gás ou até responder à ameaça da
Receita Federal ou de cupins ou da condenação papal de entregar
a alma para autovigilância.
tenho um quarto aqui em cima e é bem o mesmo de sempre:
o fracasso de viver grandiosamente com a mulher ou com o
universo, fica tão abafado, tudo em carne viva com auto-
acusação, atrito, re-
prises.
tenho um quarto aqui em cima e já tive este mesmo quarto em
tantas cidades – os anos subitamente remotos, sigo
sentado e o sentimento é igual ao da minha juventude.
o quarto sempre foi – ainda é – melhor à noite –
o amarelo da luz elétrica enquanto bebo
sentado – tudo de que precisamos era um pequeno retiro
de todo o irritante absurdo:
sempre poderíamos aguentar o pior se nos fosse permitido
às vezes o mais ínfimo despertar do pesadelo,
e os deuses, até aqui, nos permitiram
isso.
tenho um quarto aqui em cima e me sento sozinho nos extremos
flutuantes, batentes, loucos, e sou preguiçoso nestes campos da dor
e as minhas amigas, as paredes, apoiam essa aposta-única –
meu coração não consegue rir mas às vezes sorri
na luz elétrica amarela: ter chegado tão longe para
sentar sozinho
de novo
neste quarto aqui em cima.
parecido com meus quartos do passado – garrafas e papéis, livros,
cintos, pentes, jornais velhos, lixo de todo tipo espalhado.
minha desordem jamais foi escolha, ela apenas chegou e
permaneceu.
no tempo de cada um não há nunca tempo suficiente para deixar
tudo arrumado – há sempre colapso, perda, a
dura matemática da
confusão e
do cansaço.
somos arengados por imensas e triviais tarefas
e chegam os momentos de estoicismo ou de horror quando fica
impossível pagar uma conta de gás ou até responder à ameaça da
Receita Federal ou de cupins ou da condenação papal de entregar
a alma para autovigilância.
tenho um quarto aqui em cima e é bem o mesmo de sempre:
o fracasso de viver grandiosamente com a mulher ou com o
universo, fica tão abafado, tudo em carne viva com auto-
acusação, atrito, re-
prises.
tenho um quarto aqui em cima e já tive este mesmo quarto em
tantas cidades – os anos subitamente remotos, sigo
sentado e o sentimento é igual ao da minha juventude.
o quarto sempre foi – ainda é – melhor à noite –
o amarelo da luz elétrica enquanto bebo
sentado – tudo de que precisamos era um pequeno retiro
de todo o irritante absurdo:
sempre poderíamos aguentar o pior se nos fosse permitido
às vezes o mais ínfimo despertar do pesadelo,
e os deuses, até aqui, nos permitiram
isso.
tenho um quarto aqui em cima e me sento sozinho nos extremos
flutuantes, batentes, loucos, e sou preguiçoso nestes campos da dor
e as minhas amigas, as paredes, apoiam essa aposta-única –
meu coração não consegue rir mas às vezes sorri
na luz elétrica amarela: ter chegado tão longe para
sentar sozinho
de novo
neste quarto aqui em cima.
1 061
Charles Bukowski
Canção de Amor
eu comi a sua xota como um pêssego,
engoli a semente
a lanugem,
trancado entre as suas pernas
eu chupei e mastiguei e lambi e
engoli você,
senti o seu corpo todo se sacudindo e retorcendo como
um corpo
metralhado
e eu moldei minha língua numa ponta
e os sucos desceram escorrendo
e eu engoli
enlouquecido
e chupei suas entranhas todas para fora –
sua xota inteira chupada pra dentro da minha boca
eu mordi
eu mordi
e engoli
e você também
ficou louca
e me afastei e beijei
então sua barriga
seu umbigo
então deslizei de volta para dentro de suas pernas de flor branca
e beijei e mordi e
mordisquei,
o tempo todo
mais uma vez
os fabulosos pelos da xota
acenando e acenando
e fico afastado pelo máximo tempo suportável
então me joguei na coisa
chupando e lambendo,
pelos na minha alma
xota na minha alma
você na minha alma
numa cama milagrosa
com crianças gritando lá fora
enquanto andam de patins
bicicletas às
5 da tarde
nessa maravilhosa hora das
5 da tarde
todos os poemas de amor foram escritos:
minha língua penetrou sua xota e sua alma
e a colcha azul estava lá
e as crianças no beco
e aquilo cantava e cantava e cantava e
cantava.
engoli a semente
a lanugem,
trancado entre as suas pernas
eu chupei e mastiguei e lambi e
engoli você,
senti o seu corpo todo se sacudindo e retorcendo como
um corpo
metralhado
e eu moldei minha língua numa ponta
e os sucos desceram escorrendo
e eu engoli
enlouquecido
e chupei suas entranhas todas para fora –
sua xota inteira chupada pra dentro da minha boca
eu mordi
eu mordi
e engoli
e você também
ficou louca
e me afastei e beijei
então sua barriga
seu umbigo
então deslizei de volta para dentro de suas pernas de flor branca
e beijei e mordi e
mordisquei,
o tempo todo
mais uma vez
os fabulosos pelos da xota
acenando e acenando
e fico afastado pelo máximo tempo suportável
então me joguei na coisa
chupando e lambendo,
pelos na minha alma
xota na minha alma
você na minha alma
numa cama milagrosa
com crianças gritando lá fora
enquanto andam de patins
bicicletas às
5 da tarde
nessa maravilhosa hora das
5 da tarde
todos os poemas de amor foram escritos:
minha língua penetrou sua xota e sua alma
e a colcha azul estava lá
e as crianças no beco
e aquilo cantava e cantava e cantava e
cantava.
1 274
Charles Bukowski
Verrugas
eu me lembro melhor da minha vó
por causa de todas as verrugas dela
ela tinha 80 anos e as verrugas eram
enormes
eu não conseguia tirar os olhos de suas
verrugas
ela vinha para Los Angeles todos os domingos
de ônibus e bonde desde Pasadena
sua conversa era sempre a mesma
“eu vou enterrar todos vocês”
“você não vai me enterrar”,
meu pai dizia
“você não vai me enterrar”,
minha mãe dizia
então sentávamos para um jantar
dominical
depois da despedida minha mãe dizia
“eu acho terrível o jeito como ela fala
que vai enterrar todo mundo.”
mas eu até que gostava
dela sentada ali
coberta de verrugas
e ameaçando enterrar todos
nós
e quando ela comia o jantar
eu observava a comida entrando em sua boca
e olhava suas
verrugas
eu a imaginava indo ao banheiro
e limpando o traseiro
e pensando,
eu vou enterrar todo mundo
o fato de que ela não enterrou
foi até meio triste para
mim
certo domingo ela simplesmente não estava
lá, e foi um
domingo bem mais chato
outra pessoa teria que
nos enterrar
a comida mal tinha gosto
também
por causa de todas as verrugas dela
ela tinha 80 anos e as verrugas eram
enormes
eu não conseguia tirar os olhos de suas
verrugas
ela vinha para Los Angeles todos os domingos
de ônibus e bonde desde Pasadena
sua conversa era sempre a mesma
“eu vou enterrar todos vocês”
“você não vai me enterrar”,
meu pai dizia
“você não vai me enterrar”,
minha mãe dizia
então sentávamos para um jantar
dominical
depois da despedida minha mãe dizia
“eu acho terrível o jeito como ela fala
que vai enterrar todo mundo.”
mas eu até que gostava
dela sentada ali
coberta de verrugas
e ameaçando enterrar todos
nós
e quando ela comia o jantar
eu observava a comida entrando em sua boca
e olhava suas
verrugas
eu a imaginava indo ao banheiro
e limpando o traseiro
e pensando,
eu vou enterrar todo mundo
o fato de que ela não enterrou
foi até meio triste para
mim
certo domingo ela simplesmente não estava
lá, e foi um
domingo bem mais chato
outra pessoa teria que
nos enterrar
a comida mal tinha gosto
também
1 222
Charles Bukowski
Vá Para a Tumba Limpinho –
ninguém se importa
ninguém realmente se importa
você não sabia?
você não lembrava?
ninguém realmente se importa
até aqueles passos
caminhando para algum lugar
estão indo para lugar nenhum
você talvez se importe
mas ninguém se importa –
esse é o primeiro passo
na direção da sabedoria
aprenda
e ninguém precisa se importar
de ninguém é esperado que se importe
a sexualidade e o amor vão por água abaixo
como merda
ninguém se importa
aprenda
a crença no impossível é a
armadilha
a fé mata
ninguém se importa –
os suicidas, os mortos, os deuses
ou os vivos
pense no verde, pense nas árvores, pense
na água, pense na sorte e numa espécie de
glória
mas se liberte das amarras
rápida e finalmente
de depender do amor
ou esperar o amor de
alguém
ninguém se importa.
ninguém realmente se importa
você não sabia?
você não lembrava?
ninguém realmente se importa
até aqueles passos
caminhando para algum lugar
estão indo para lugar nenhum
você talvez se importe
mas ninguém se importa –
esse é o primeiro passo
na direção da sabedoria
aprenda
e ninguém precisa se importar
de ninguém é esperado que se importe
a sexualidade e o amor vão por água abaixo
como merda
ninguém se importa
aprenda
a crença no impossível é a
armadilha
a fé mata
ninguém se importa –
os suicidas, os mortos, os deuses
ou os vivos
pense no verde, pense nas árvores, pense
na água, pense na sorte e numa espécie de
glória
mas se liberte das amarras
rápida e finalmente
de depender do amor
ou esperar o amor de
alguém
ninguém se importa.
736
Charles Bukowski
Vá Para a Tumba Limpinho –
ninguém se importa
ninguém realmente se importa
você não sabia?
você não lembrava?
ninguém realmente se importa
até aqueles passos
caminhando para algum lugar
estão indo para lugar nenhum
você talvez se importe
mas ninguém se importa –
esse é o primeiro passo
na direção da sabedoria
aprenda
e ninguém precisa se importar
de ninguém é esperado que se importe
a sexualidade e o amor vão por água abaixo
como merda
ninguém se importa
aprenda
a crença no impossível é a
armadilha
a fé mata
ninguém se importa –
os suicidas, os mortos, os deuses
ou os vivos
pense no verde, pense nas árvores, pense
na água, pense na sorte e numa espécie de
glória
mas se liberte das amarras
rápida e finalmente
de depender do amor
ou esperar o amor de
alguém
ninguém se importa.
ninguém realmente se importa
você não sabia?
você não lembrava?
ninguém realmente se importa
até aqueles passos
caminhando para algum lugar
estão indo para lugar nenhum
você talvez se importe
mas ninguém se importa –
esse é o primeiro passo
na direção da sabedoria
aprenda
e ninguém precisa se importar
de ninguém é esperado que se importe
a sexualidade e o amor vão por água abaixo
como merda
ninguém se importa
aprenda
a crença no impossível é a
armadilha
a fé mata
ninguém se importa –
os suicidas, os mortos, os deuses
ou os vivos
pense no verde, pense nas árvores, pense
na água, pense na sorte e numa espécie de
glória
mas se liberte das amarras
rápida e finalmente
de depender do amor
ou esperar o amor de
alguém
ninguém se importa.
736
Charles Bukowski
Andei Trabalhando Na Ferrovia...
o Grande Editor disse que queria me encontrar
pessoalmente antes de publicar meu livro.
ele disse que os escritores eram na maioria filhos da puta
e ele só não queria lançar alguém
que fosse
então já que ele estava pagando a passagem de trem
fui lá para
Nova Orleans
onde morei perto dele dobrando a esquina
num quarto pequeno.
o Grande Editor morava num porão com uma
prensa, sua esposa e dois
cães.
o Grande Editor também publicava uma famosa
revista literária
mas meu planejado livro
seria sua primeira tentativa na
área.
ele sobrevivia com a revista, com a sorte, com
doações.
toda noite eu jantava com o Grande
Editor e sua esposa (minha única refeição e
provavelmente a deles também).
depois nós tomávamos cerveja até a meia-noite
quando eu ia para o meu quarto pequeno
abria uma garrafa de vinho e começava a
datilografar.
ele dizia que não tinha poemas
suficientes.
“preciso de mais poemas”, ele dizia.
ele tinha vencido meus poemas antigos
e conforme eu escrevia os novos poemas ele
os imprimia.
eu estava escrevendo diretamente para o
prelo.
pelo meio-dia todos os dias eu dobrava
a esquina
batia na janela
e via o Grande Editor
alimentando a prensa com
páginas dos meus poemas.
o Grande Editor era também o Grande
Empresário, o Grande Impressor e
Inúmeras Outras Grandes Coisas,
e eu era praticamente o poeta
desconhecido por isso tudo era bem
estranho.
de todo modo, eu acenava minhas páginas pra
ele e ele parava a prensa
e abria a porta pra mim.
ele sentava e lia os poemas:
“hmmm... bom... por que você não
vem jantar esta noite?”
aí eu ia embora.
certos meios-dias eu batia na
janela
sem quaisquer poemas
e o Grande Editor me encarava
como se eu fosse uma
barata gigante.
ele não abria a porta.
“vá embora!”, eu podia ouvi-lo gritar
através da janela, “vá embora e
não volte até ter
alguns poemas!”
ele ficava genuinamente zangado
e isso me intrigava: ele esperava
de mim 4 ou 5 poemas
por dia.
eu parava em algum lugar pra beber uma
dúzia de latinhas
voltava para o meu quarto
e começava a datilografar.
a cerveja da tarde sempre tinha um gosto
bom e me vinham
alguns poemas...
levava de volta
batia na janela
acenava as páginas.
o Grande Editor sorria
agradavelmente
abria a porta
pegava as páginas
sentava e lia:
“ãmm... ãmmm... estes estão
bons... por que você não aparece
pra jantar esta noite?”
e entre a tarde
e a noite
eu voltava para o meu quarto
e assinava mais e mais
colofões.
as páginas eram grossas, de alta
gramatura, caras,
criadas para durar
2.000 anos.
as assinaturas eram lentas e
trabalhosas
escritas com caneta
especial...
milhares de colofões
e conforme eu ficava mais bêbado
para tentar não ficar
completamente louco
eu começava a fazer desenhos
e
declarações...
quando eu terminava de assinar os
colos
a pilha de páginas alcançava
dois metros de altura
no meio do
quarto.
como falei,
era um tempo muito estranho
para um escritor desconhecido.
ele me disse uma
noite:
“Chinaski, você estragou
a poesia pra mim... desde que
passei a ler a sua eu simplesmente não consigo ler
mais nada...”
grande louvor, sem dúvida, mas eu
sabia o que ele queria dizer.
todos os dias sua esposa se postava
nas esquinas
tentando vender pinturas,
suas pinturas e as pinturas
de outros pintores.
ela era uma mulher belíssima e
fogosa.
finalmente o livro ficou pronto.
isto é, menos a encadernação;
o Grande Editor não conseguia fazer
a encadernação, tinha de pagar pela
parte da encadernação e isso o
deixava puto.
mas nosso trabalho estava pronto,
o dele e o meu,
e o Grande Editor e
sua esposa me puseram no trem
de volta para L.A.
ambos parados ali
na plataforma
olhando pra mim e sorrindo
enquanto eu olhava pra trás do
assento na janela.
foi algo...
constrangedor...
por fim o trem começou
a rodar lentamente
e eu acenei e eles
acenaram
e aí quando eu já estava
quase fora de vista
o Grande Editor
ficou dando vários saltos
como um garotinho,
acenando ainda...
fui até o vagão
do bar e decidi passar
minha viagem
ali.
algumas paradas e
algumas horas depois
o portador chegou
lá atrás:
“henry chinaski! tem
algum henry chinaski aqui?”
“aqui meu bom homem”,
falei.
“porra, cara”, ele disse, “eu
estava procurando você em tudo que é
canto desse trem!”
dei gorjeta e abri o
telegrama:
“você continua um f.d.p. mas
continuamos te amando...
Jon e Louise...”
fiz sinal para o portador se mandar
pedi um scotch duplo
com gelo
peguei o copo
e o ergui no ar por um instante
brindei a eles uma quase
lírica bênção
então bebi tudo
com o trem
rodando e balançando
balançando e rodando
levando-me para mais e mais
longe
daquelas mágicas
pessoas.
pessoalmente antes de publicar meu livro.
ele disse que os escritores eram na maioria filhos da puta
e ele só não queria lançar alguém
que fosse
então já que ele estava pagando a passagem de trem
fui lá para
Nova Orleans
onde morei perto dele dobrando a esquina
num quarto pequeno.
o Grande Editor morava num porão com uma
prensa, sua esposa e dois
cães.
o Grande Editor também publicava uma famosa
revista literária
mas meu planejado livro
seria sua primeira tentativa na
área.
ele sobrevivia com a revista, com a sorte, com
doações.
toda noite eu jantava com o Grande
Editor e sua esposa (minha única refeição e
provavelmente a deles também).
depois nós tomávamos cerveja até a meia-noite
quando eu ia para o meu quarto pequeno
abria uma garrafa de vinho e começava a
datilografar.
ele dizia que não tinha poemas
suficientes.
“preciso de mais poemas”, ele dizia.
ele tinha vencido meus poemas antigos
e conforme eu escrevia os novos poemas ele
os imprimia.
eu estava escrevendo diretamente para o
prelo.
pelo meio-dia todos os dias eu dobrava
a esquina
batia na janela
e via o Grande Editor
alimentando a prensa com
páginas dos meus poemas.
o Grande Editor era também o Grande
Empresário, o Grande Impressor e
Inúmeras Outras Grandes Coisas,
e eu era praticamente o poeta
desconhecido por isso tudo era bem
estranho.
de todo modo, eu acenava minhas páginas pra
ele e ele parava a prensa
e abria a porta pra mim.
ele sentava e lia os poemas:
“hmmm... bom... por que você não
vem jantar esta noite?”
aí eu ia embora.
certos meios-dias eu batia na
janela
sem quaisquer poemas
e o Grande Editor me encarava
como se eu fosse uma
barata gigante.
ele não abria a porta.
“vá embora!”, eu podia ouvi-lo gritar
através da janela, “vá embora e
não volte até ter
alguns poemas!”
ele ficava genuinamente zangado
e isso me intrigava: ele esperava
de mim 4 ou 5 poemas
por dia.
eu parava em algum lugar pra beber uma
dúzia de latinhas
voltava para o meu quarto
e começava a datilografar.
a cerveja da tarde sempre tinha um gosto
bom e me vinham
alguns poemas...
levava de volta
batia na janela
acenava as páginas.
o Grande Editor sorria
agradavelmente
abria a porta
pegava as páginas
sentava e lia:
“ãmm... ãmmm... estes estão
bons... por que você não aparece
pra jantar esta noite?”
e entre a tarde
e a noite
eu voltava para o meu quarto
e assinava mais e mais
colofões.
as páginas eram grossas, de alta
gramatura, caras,
criadas para durar
2.000 anos.
as assinaturas eram lentas e
trabalhosas
escritas com caneta
especial...
milhares de colofões
e conforme eu ficava mais bêbado
para tentar não ficar
completamente louco
eu começava a fazer desenhos
e
declarações...
quando eu terminava de assinar os
colos
a pilha de páginas alcançava
dois metros de altura
no meio do
quarto.
como falei,
era um tempo muito estranho
para um escritor desconhecido.
ele me disse uma
noite:
“Chinaski, você estragou
a poesia pra mim... desde que
passei a ler a sua eu simplesmente não consigo ler
mais nada...”
grande louvor, sem dúvida, mas eu
sabia o que ele queria dizer.
todos os dias sua esposa se postava
nas esquinas
tentando vender pinturas,
suas pinturas e as pinturas
de outros pintores.
ela era uma mulher belíssima e
fogosa.
finalmente o livro ficou pronto.
isto é, menos a encadernação;
o Grande Editor não conseguia fazer
a encadernação, tinha de pagar pela
parte da encadernação e isso o
deixava puto.
mas nosso trabalho estava pronto,
o dele e o meu,
e o Grande Editor e
sua esposa me puseram no trem
de volta para L.A.
ambos parados ali
na plataforma
olhando pra mim e sorrindo
enquanto eu olhava pra trás do
assento na janela.
foi algo...
constrangedor...
por fim o trem começou
a rodar lentamente
e eu acenei e eles
acenaram
e aí quando eu já estava
quase fora de vista
o Grande Editor
ficou dando vários saltos
como um garotinho,
acenando ainda...
fui até o vagão
do bar e decidi passar
minha viagem
ali.
algumas paradas e
algumas horas depois
o portador chegou
lá atrás:
“henry chinaski! tem
algum henry chinaski aqui?”
“aqui meu bom homem”,
falei.
“porra, cara”, ele disse, “eu
estava procurando você em tudo que é
canto desse trem!”
dei gorjeta e abri o
telegrama:
“você continua um f.d.p. mas
continuamos te amando...
Jon e Louise...”
fiz sinal para o portador se mandar
pedi um scotch duplo
com gelo
peguei o copo
e o ergui no ar por um instante
brindei a eles uma quase
lírica bênção
então bebi tudo
com o trem
rodando e balançando
balançando e rodando
levando-me para mais e mais
longe
daquelas mágicas
pessoas.
1 190
Charles Bukowski
Andei Trabalhando Na Ferrovia...
o Grande Editor disse que queria me encontrar
pessoalmente antes de publicar meu livro.
ele disse que os escritores eram na maioria filhos da puta
e ele só não queria lançar alguém
que fosse
então já que ele estava pagando a passagem de trem
fui lá para
Nova Orleans
onde morei perto dele dobrando a esquina
num quarto pequeno.
o Grande Editor morava num porão com uma
prensa, sua esposa e dois
cães.
o Grande Editor também publicava uma famosa
revista literária
mas meu planejado livro
seria sua primeira tentativa na
área.
ele sobrevivia com a revista, com a sorte, com
doações.
toda noite eu jantava com o Grande
Editor e sua esposa (minha única refeição e
provavelmente a deles também).
depois nós tomávamos cerveja até a meia-noite
quando eu ia para o meu quarto pequeno
abria uma garrafa de vinho e começava a
datilografar.
ele dizia que não tinha poemas
suficientes.
“preciso de mais poemas”, ele dizia.
ele tinha vencido meus poemas antigos
e conforme eu escrevia os novos poemas ele
os imprimia.
eu estava escrevendo diretamente para o
prelo.
pelo meio-dia todos os dias eu dobrava
a esquina
batia na janela
e via o Grande Editor
alimentando a prensa com
páginas dos meus poemas.
o Grande Editor era também o Grande
Empresário, o Grande Impressor e
Inúmeras Outras Grandes Coisas,
e eu era praticamente o poeta
desconhecido por isso tudo era bem
estranho.
de todo modo, eu acenava minhas páginas pra
ele e ele parava a prensa
e abria a porta pra mim.
ele sentava e lia os poemas:
“hmmm... bom... por que você não
vem jantar esta noite?”
aí eu ia embora.
certos meios-dias eu batia na
janela
sem quaisquer poemas
e o Grande Editor me encarava
como se eu fosse uma
barata gigante.
ele não abria a porta.
“vá embora!”, eu podia ouvi-lo gritar
através da janela, “vá embora e
não volte até ter
alguns poemas!”
ele ficava genuinamente zangado
e isso me intrigava: ele esperava
de mim 4 ou 5 poemas
por dia.
eu parava em algum lugar pra beber uma
dúzia de latinhas
voltava para o meu quarto
e começava a datilografar.
a cerveja da tarde sempre tinha um gosto
bom e me vinham
alguns poemas...
levava de volta
batia na janela
acenava as páginas.
o Grande Editor sorria
agradavelmente
abria a porta
pegava as páginas
sentava e lia:
“ãmm... ãmmm... estes estão
bons... por que você não aparece
pra jantar esta noite?”
e entre a tarde
e a noite
eu voltava para o meu quarto
e assinava mais e mais
colofões.
as páginas eram grossas, de alta
gramatura, caras,
criadas para durar
2.000 anos.
as assinaturas eram lentas e
trabalhosas
escritas com caneta
especial...
milhares de colofões
e conforme eu ficava mais bêbado
para tentar não ficar
completamente louco
eu começava a fazer desenhos
e
declarações...
quando eu terminava de assinar os
colos
a pilha de páginas alcançava
dois metros de altura
no meio do
quarto.
como falei,
era um tempo muito estranho
para um escritor desconhecido.
ele me disse uma
noite:
“Chinaski, você estragou
a poesia pra mim... desde que
passei a ler a sua eu simplesmente não consigo ler
mais nada...”
grande louvor, sem dúvida, mas eu
sabia o que ele queria dizer.
todos os dias sua esposa se postava
nas esquinas
tentando vender pinturas,
suas pinturas e as pinturas
de outros pintores.
ela era uma mulher belíssima e
fogosa.
finalmente o livro ficou pronto.
isto é, menos a encadernação;
o Grande Editor não conseguia fazer
a encadernação, tinha de pagar pela
parte da encadernação e isso o
deixava puto.
mas nosso trabalho estava pronto,
o dele e o meu,
e o Grande Editor e
sua esposa me puseram no trem
de volta para L.A.
ambos parados ali
na plataforma
olhando pra mim e sorrindo
enquanto eu olhava pra trás do
assento na janela.
foi algo...
constrangedor...
por fim o trem começou
a rodar lentamente
e eu acenei e eles
acenaram
e aí quando eu já estava
quase fora de vista
o Grande Editor
ficou dando vários saltos
como um garotinho,
acenando ainda...
fui até o vagão
do bar e decidi passar
minha viagem
ali.
algumas paradas e
algumas horas depois
o portador chegou
lá atrás:
“henry chinaski! tem
algum henry chinaski aqui?”
“aqui meu bom homem”,
falei.
“porra, cara”, ele disse, “eu
estava procurando você em tudo que é
canto desse trem!”
dei gorjeta e abri o
telegrama:
“você continua um f.d.p. mas
continuamos te amando...
Jon e Louise...”
fiz sinal para o portador se mandar
pedi um scotch duplo
com gelo
peguei o copo
e o ergui no ar por um instante
brindei a eles uma quase
lírica bênção
então bebi tudo
com o trem
rodando e balançando
balançando e rodando
levando-me para mais e mais
longe
daquelas mágicas
pessoas.
pessoalmente antes de publicar meu livro.
ele disse que os escritores eram na maioria filhos da puta
e ele só não queria lançar alguém
que fosse
então já que ele estava pagando a passagem de trem
fui lá para
Nova Orleans
onde morei perto dele dobrando a esquina
num quarto pequeno.
o Grande Editor morava num porão com uma
prensa, sua esposa e dois
cães.
o Grande Editor também publicava uma famosa
revista literária
mas meu planejado livro
seria sua primeira tentativa na
área.
ele sobrevivia com a revista, com a sorte, com
doações.
toda noite eu jantava com o Grande
Editor e sua esposa (minha única refeição e
provavelmente a deles também).
depois nós tomávamos cerveja até a meia-noite
quando eu ia para o meu quarto pequeno
abria uma garrafa de vinho e começava a
datilografar.
ele dizia que não tinha poemas
suficientes.
“preciso de mais poemas”, ele dizia.
ele tinha vencido meus poemas antigos
e conforme eu escrevia os novos poemas ele
os imprimia.
eu estava escrevendo diretamente para o
prelo.
pelo meio-dia todos os dias eu dobrava
a esquina
batia na janela
e via o Grande Editor
alimentando a prensa com
páginas dos meus poemas.
o Grande Editor era também o Grande
Empresário, o Grande Impressor e
Inúmeras Outras Grandes Coisas,
e eu era praticamente o poeta
desconhecido por isso tudo era bem
estranho.
de todo modo, eu acenava minhas páginas pra
ele e ele parava a prensa
e abria a porta pra mim.
ele sentava e lia os poemas:
“hmmm... bom... por que você não
vem jantar esta noite?”
aí eu ia embora.
certos meios-dias eu batia na
janela
sem quaisquer poemas
e o Grande Editor me encarava
como se eu fosse uma
barata gigante.
ele não abria a porta.
“vá embora!”, eu podia ouvi-lo gritar
através da janela, “vá embora e
não volte até ter
alguns poemas!”
ele ficava genuinamente zangado
e isso me intrigava: ele esperava
de mim 4 ou 5 poemas
por dia.
eu parava em algum lugar pra beber uma
dúzia de latinhas
voltava para o meu quarto
e começava a datilografar.
a cerveja da tarde sempre tinha um gosto
bom e me vinham
alguns poemas...
levava de volta
batia na janela
acenava as páginas.
o Grande Editor sorria
agradavelmente
abria a porta
pegava as páginas
sentava e lia:
“ãmm... ãmmm... estes estão
bons... por que você não aparece
pra jantar esta noite?”
e entre a tarde
e a noite
eu voltava para o meu quarto
e assinava mais e mais
colofões.
as páginas eram grossas, de alta
gramatura, caras,
criadas para durar
2.000 anos.
as assinaturas eram lentas e
trabalhosas
escritas com caneta
especial...
milhares de colofões
e conforme eu ficava mais bêbado
para tentar não ficar
completamente louco
eu começava a fazer desenhos
e
declarações...
quando eu terminava de assinar os
colos
a pilha de páginas alcançava
dois metros de altura
no meio do
quarto.
como falei,
era um tempo muito estranho
para um escritor desconhecido.
ele me disse uma
noite:
“Chinaski, você estragou
a poesia pra mim... desde que
passei a ler a sua eu simplesmente não consigo ler
mais nada...”
grande louvor, sem dúvida, mas eu
sabia o que ele queria dizer.
todos os dias sua esposa se postava
nas esquinas
tentando vender pinturas,
suas pinturas e as pinturas
de outros pintores.
ela era uma mulher belíssima e
fogosa.
finalmente o livro ficou pronto.
isto é, menos a encadernação;
o Grande Editor não conseguia fazer
a encadernação, tinha de pagar pela
parte da encadernação e isso o
deixava puto.
mas nosso trabalho estava pronto,
o dele e o meu,
e o Grande Editor e
sua esposa me puseram no trem
de volta para L.A.
ambos parados ali
na plataforma
olhando pra mim e sorrindo
enquanto eu olhava pra trás do
assento na janela.
foi algo...
constrangedor...
por fim o trem começou
a rodar lentamente
e eu acenei e eles
acenaram
e aí quando eu já estava
quase fora de vista
o Grande Editor
ficou dando vários saltos
como um garotinho,
acenando ainda...
fui até o vagão
do bar e decidi passar
minha viagem
ali.
algumas paradas e
algumas horas depois
o portador chegou
lá atrás:
“henry chinaski! tem
algum henry chinaski aqui?”
“aqui meu bom homem”,
falei.
“porra, cara”, ele disse, “eu
estava procurando você em tudo que é
canto desse trem!”
dei gorjeta e abri o
telegrama:
“você continua um f.d.p. mas
continuamos te amando...
Jon e Louise...”
fiz sinal para o portador se mandar
pedi um scotch duplo
com gelo
peguei o copo
e o ergui no ar por um instante
brindei a eles uma quase
lírica bênção
então bebi tudo
com o trem
rodando e balançando
balançando e rodando
levando-me para mais e mais
longe
daquelas mágicas
pessoas.
1 190
Charles Bukowski
Sozinho Num Tempo de Exércitos
eu tinha 22 anos naquela pensão na Filadélfia e eu estava faminto e
louco num próspero mundo em guerra
e certa noite sentado na minha janela vi no quarto do outro
lado em outra pensão da Filadélfia
uma jovem agarrar um jovem e beijá-lo com grande alegria e
paixão.
foi então que me dei conta do buraco depravado em que eu havia me
metido:
eu queria ser aquele jovem naquele momento
mas não queria fazer as muitas coisas que ele provavelmente fizera para ir
até onde havia chegado.
pior ainda, eu me dei conta de que poderia estar errado.
saí do meu quarto e comecei a percorrer as ruas.
segui caminhando muito embora eu não tivesse comido naquele
dia.
(o dia comeu você!, cantava o coro)
caminhei, caminhei.
devo ter caminhado 8 quilômetros, então
voltei.
as luzes no quarto do outro lado estavam
apagadas.
as minhas também.
tirei a roupa e me deitei.
eu não queria ser o que queriam que eu
fosse.
e então
como eles
eu dormi.
louco num próspero mundo em guerra
e certa noite sentado na minha janela vi no quarto do outro
lado em outra pensão da Filadélfia
uma jovem agarrar um jovem e beijá-lo com grande alegria e
paixão.
foi então que me dei conta do buraco depravado em que eu havia me
metido:
eu queria ser aquele jovem naquele momento
mas não queria fazer as muitas coisas que ele provavelmente fizera para ir
até onde havia chegado.
pior ainda, eu me dei conta de que poderia estar errado.
saí do meu quarto e comecei a percorrer as ruas.
segui caminhando muito embora eu não tivesse comido naquele
dia.
(o dia comeu você!, cantava o coro)
caminhei, caminhei.
devo ter caminhado 8 quilômetros, então
voltei.
as luzes no quarto do outro lado estavam
apagadas.
as minhas também.
tirei a roupa e me deitei.
eu não queria ser o que queriam que eu
fosse.
e então
como eles
eu dormi.
1 097
Charles Bukowski
Me Modernizando
bebi mais do que o normal esta noite, produzi com isso alguma
escrita mas eis ali minha máquina de escrever elétrica IBM e ambas
as fitas acabaram ao mesmo tempo: a fita de escrever e a fita apagadora
e geralmente consigo trocá-las
mas esta noite eu estava bêbado demais:
foi uma batalha da alma inserir a fita de escrever mas
no tocante à fita apagadora me faltou
alma: a fita grudenta grudava em coisas
indevidas, torcia-se como um pretzel, e a joguei fora e
tentei outra.
devem ter se passado dez minutos até que fiz
direito.
enquanto isso – eu já estava em outra garrafa, então olhei
a caixa no chão: restavam-me uma fita de escrever e uma
fita apagadora por isso recorri ao Manual de Instruções e disquei o
número 800 que acho que ficava em Maryland ou Dakota do Sul e
fiquei surpreso por ser atendido: eram 3:30 da manhã em
Los Angeles.
falei à mulher sobre a minha necessidade mas ela não entendia direito,
ficava exigindo um # do pedido.
eu estava com Richard Wagner no máximo volume no rádio e falei a ela
que eu não tinha um maldito # do pedido.
ela
desligou na minha cara e eu disquei de novo e dessa vez peguei um jovem
simpático e ele disse “que música maravilhosa o senhor está ouvindo...”, mas
o jovem simpático também exigiu um # do pedido.
sequei uma taça inteira de vinho, falei “escuta, eu não tinha um
# do pedido na primeira vez que liguei...”
“mas, senhor, na segunda vez que o senhor liga a regra é que deve ter
um # do pedido.”
“você quer dizer que não posso comprar minhas fitas? eu sou escritor, porra, como
vou fazer? você cortaria fora os chifres de um touro?”
“o senhor tem a sua última conta aí
consigo?”
“sim, sim...”
“o # do pedido deve estar na conta,
senhor...”
“estou dizendo, não tem nada aqui indicando um # do
pedido!”
“bem, senhor...”
“não, não, não!”
sequei outra taça de
vinho, “escuta, vamos fazer de conta que esta é a primeira vez que ligo
pra vocês e vamos começar pelo começo?”
“tudo bem, senhor... agora, o senhor pode listar pra mim o que
deseja?”
“obrigado! quero 18 fitas tira-tinta, item # 1136433 e quero 12
cartuchos de fita preta, item # 1299508.”
então li para ele o # do meu cartão American Express que não vou incluir
aqui.
“o senhor receberá todas as suas mercadorias dentro de 8 a dez dias, senhor...”
“obrigado!”
então, desligando, notei uma linha na minha conta anterior, ela dizia # de
pedido 11101 – isso e aquilo e traço isso e aquilo.
tinha estado ali o tempo
inteiro.
agora eu estava pronto para escrever de novo, o socorro já vinha, minha mente
livre, inclinei o corpo à frente e comecei a bater as teclas:
frsyj mrbrt ,syyrtrf sd ,ivj, sd yjsy dytuhhlr yo dysy
slibr s,pmh yjr %rp%;r smf om d%oyr pg yjs
%rp%;r.
frsyj eo%% mr yjr rsdody %sty.
escrita mas eis ali minha máquina de escrever elétrica IBM e ambas
as fitas acabaram ao mesmo tempo: a fita de escrever e a fita apagadora
e geralmente consigo trocá-las
mas esta noite eu estava bêbado demais:
foi uma batalha da alma inserir a fita de escrever mas
no tocante à fita apagadora me faltou
alma: a fita grudenta grudava em coisas
indevidas, torcia-se como um pretzel, e a joguei fora e
tentei outra.
devem ter se passado dez minutos até que fiz
direito.
enquanto isso – eu já estava em outra garrafa, então olhei
a caixa no chão: restavam-me uma fita de escrever e uma
fita apagadora por isso recorri ao Manual de Instruções e disquei o
número 800 que acho que ficava em Maryland ou Dakota do Sul e
fiquei surpreso por ser atendido: eram 3:30 da manhã em
Los Angeles.
falei à mulher sobre a minha necessidade mas ela não entendia direito,
ficava exigindo um # do pedido.
eu estava com Richard Wagner no máximo volume no rádio e falei a ela
que eu não tinha um maldito # do pedido.
ela
desligou na minha cara e eu disquei de novo e dessa vez peguei um jovem
simpático e ele disse “que música maravilhosa o senhor está ouvindo...”, mas
o jovem simpático também exigiu um # do pedido.
sequei uma taça inteira de vinho, falei “escuta, eu não tinha um
# do pedido na primeira vez que liguei...”
“mas, senhor, na segunda vez que o senhor liga a regra é que deve ter
um # do pedido.”
“você quer dizer que não posso comprar minhas fitas? eu sou escritor, porra, como
vou fazer? você cortaria fora os chifres de um touro?”
“o senhor tem a sua última conta aí
consigo?”
“sim, sim...”
“o # do pedido deve estar na conta,
senhor...”
“estou dizendo, não tem nada aqui indicando um # do
pedido!”
“bem, senhor...”
“não, não, não!”
sequei outra taça de
vinho, “escuta, vamos fazer de conta que esta é a primeira vez que ligo
pra vocês e vamos começar pelo começo?”
“tudo bem, senhor... agora, o senhor pode listar pra mim o que
deseja?”
“obrigado! quero 18 fitas tira-tinta, item # 1136433 e quero 12
cartuchos de fita preta, item # 1299508.”
então li para ele o # do meu cartão American Express que não vou incluir
aqui.
“o senhor receberá todas as suas mercadorias dentro de 8 a dez dias, senhor...”
“obrigado!”
então, desligando, notei uma linha na minha conta anterior, ela dizia # de
pedido 11101 – isso e aquilo e traço isso e aquilo.
tinha estado ali o tempo
inteiro.
agora eu estava pronto para escrever de novo, o socorro já vinha, minha mente
livre, inclinei o corpo à frente e comecei a bater as teclas:
frsyj mrbrt ,syyrtrf sd ,ivj, sd yjsy dytuhhlr yo dysy
slibr s,pmh yjr %rp%;r smf om d%oyr pg yjs
%rp%;r.
frsyj eo%% mr yjr rsdody %sty.
1 059
Charles Bukowski
Me Modernizando
bebi mais do que o normal esta noite, produzi com isso alguma
escrita mas eis ali minha máquina de escrever elétrica IBM e ambas
as fitas acabaram ao mesmo tempo: a fita de escrever e a fita apagadora
e geralmente consigo trocá-las
mas esta noite eu estava bêbado demais:
foi uma batalha da alma inserir a fita de escrever mas
no tocante à fita apagadora me faltou
alma: a fita grudenta grudava em coisas
indevidas, torcia-se como um pretzel, e a joguei fora e
tentei outra.
devem ter se passado dez minutos até que fiz
direito.
enquanto isso – eu já estava em outra garrafa, então olhei
a caixa no chão: restavam-me uma fita de escrever e uma
fita apagadora por isso recorri ao Manual de Instruções e disquei o
número 800 que acho que ficava em Maryland ou Dakota do Sul e
fiquei surpreso por ser atendido: eram 3:30 da manhã em
Los Angeles.
falei à mulher sobre a minha necessidade mas ela não entendia direito,
ficava exigindo um # do pedido.
eu estava com Richard Wagner no máximo volume no rádio e falei a ela
que eu não tinha um maldito # do pedido.
ela
desligou na minha cara e eu disquei de novo e dessa vez peguei um jovem
simpático e ele disse “que música maravilhosa o senhor está ouvindo...”, mas
o jovem simpático também exigiu um # do pedido.
sequei uma taça inteira de vinho, falei “escuta, eu não tinha um
# do pedido na primeira vez que liguei...”
“mas, senhor, na segunda vez que o senhor liga a regra é que deve ter
um # do pedido.”
“você quer dizer que não posso comprar minhas fitas? eu sou escritor, porra, como
vou fazer? você cortaria fora os chifres de um touro?”
“o senhor tem a sua última conta aí
consigo?”
“sim, sim...”
“o # do pedido deve estar na conta,
senhor...”
“estou dizendo, não tem nada aqui indicando um # do
pedido!”
“bem, senhor...”
“não, não, não!”
sequei outra taça de
vinho, “escuta, vamos fazer de conta que esta é a primeira vez que ligo
pra vocês e vamos começar pelo começo?”
“tudo bem, senhor... agora, o senhor pode listar pra mim o que
deseja?”
“obrigado! quero 18 fitas tira-tinta, item # 1136433 e quero 12
cartuchos de fita preta, item # 1299508.”
então li para ele o # do meu cartão American Express que não vou incluir
aqui.
“o senhor receberá todas as suas mercadorias dentro de 8 a dez dias, senhor...”
“obrigado!”
então, desligando, notei uma linha na minha conta anterior, ela dizia # de
pedido 11101 – isso e aquilo e traço isso e aquilo.
tinha estado ali o tempo
inteiro.
agora eu estava pronto para escrever de novo, o socorro já vinha, minha mente
livre, inclinei o corpo à frente e comecei a bater as teclas:
frsyj mrbrt ,syyrtrf sd ,ivj, sd yjsy dytuhhlr yo dysy
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escrita mas eis ali minha máquina de escrever elétrica IBM e ambas
as fitas acabaram ao mesmo tempo: a fita de escrever e a fita apagadora
e geralmente consigo trocá-las
mas esta noite eu estava bêbado demais:
foi uma batalha da alma inserir a fita de escrever mas
no tocante à fita apagadora me faltou
alma: a fita grudenta grudava em coisas
indevidas, torcia-se como um pretzel, e a joguei fora e
tentei outra.
devem ter se passado dez minutos até que fiz
direito.
enquanto isso – eu já estava em outra garrafa, então olhei
a caixa no chão: restavam-me uma fita de escrever e uma
fita apagadora por isso recorri ao Manual de Instruções e disquei o
número 800 que acho que ficava em Maryland ou Dakota do Sul e
fiquei surpreso por ser atendido: eram 3:30 da manhã em
Los Angeles.
falei à mulher sobre a minha necessidade mas ela não entendia direito,
ficava exigindo um # do pedido.
eu estava com Richard Wagner no máximo volume no rádio e falei a ela
que eu não tinha um maldito # do pedido.
ela
desligou na minha cara e eu disquei de novo e dessa vez peguei um jovem
simpático e ele disse “que música maravilhosa o senhor está ouvindo...”, mas
o jovem simpático também exigiu um # do pedido.
sequei uma taça inteira de vinho, falei “escuta, eu não tinha um
# do pedido na primeira vez que liguei...”
“mas, senhor, na segunda vez que o senhor liga a regra é que deve ter
um # do pedido.”
“você quer dizer que não posso comprar minhas fitas? eu sou escritor, porra, como
vou fazer? você cortaria fora os chifres de um touro?”
“o senhor tem a sua última conta aí
consigo?”
“sim, sim...”
“o # do pedido deve estar na conta,
senhor...”
“estou dizendo, não tem nada aqui indicando um # do
pedido!”
“bem, senhor...”
“não, não, não!”
sequei outra taça de
vinho, “escuta, vamos fazer de conta que esta é a primeira vez que ligo
pra vocês e vamos começar pelo começo?”
“tudo bem, senhor... agora, o senhor pode listar pra mim o que
deseja?”
“obrigado! quero 18 fitas tira-tinta, item # 1136433 e quero 12
cartuchos de fita preta, item # 1299508.”
então li para ele o # do meu cartão American Express que não vou incluir
aqui.
“o senhor receberá todas as suas mercadorias dentro de 8 a dez dias, senhor...”
“obrigado!”
então, desligando, notei uma linha na minha conta anterior, ela dizia # de
pedido 11101 – isso e aquilo e traço isso e aquilo.
tinha estado ali o tempo
inteiro.
agora eu estava pronto para escrever de novo, o socorro já vinha, minha mente
livre, inclinei o corpo à frente e comecei a bater as teclas:
frsyj mrbrt ,syyrtrf sd ,ivj, sd yjsy dytuhhlr yo dysy
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Charles Bukowski
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bebi mais do que o normal esta noite, produzi com isso alguma
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as fitas acabaram ao mesmo tempo: a fita de escrever e a fita apagadora
e geralmente consigo trocá-las
mas esta noite eu estava bêbado demais:
foi uma batalha da alma inserir a fita de escrever mas
no tocante à fita apagadora me faltou
alma: a fita grudenta grudava em coisas
indevidas, torcia-se como um pretzel, e a joguei fora e
tentei outra.
devem ter se passado dez minutos até que fiz
direito.
enquanto isso – eu já estava em outra garrafa, então olhei
a caixa no chão: restavam-me uma fita de escrever e uma
fita apagadora por isso recorri ao Manual de Instruções e disquei o
número 800 que acho que ficava em Maryland ou Dakota do Sul e
fiquei surpreso por ser atendido: eram 3:30 da manhã em
Los Angeles.
falei à mulher sobre a minha necessidade mas ela não entendia direito,
ficava exigindo um # do pedido.
eu estava com Richard Wagner no máximo volume no rádio e falei a ela
que eu não tinha um maldito # do pedido.
ela
desligou na minha cara e eu disquei de novo e dessa vez peguei um jovem
simpático e ele disse “que música maravilhosa o senhor está ouvindo...”, mas
o jovem simpático também exigiu um # do pedido.
sequei uma taça inteira de vinho, falei “escuta, eu não tinha um
# do pedido na primeira vez que liguei...”
“mas, senhor, na segunda vez que o senhor liga a regra é que deve ter
um # do pedido.”
“você quer dizer que não posso comprar minhas fitas? eu sou escritor, porra, como
vou fazer? você cortaria fora os chifres de um touro?”
“o senhor tem a sua última conta aí
consigo?”
“sim, sim...”
“o # do pedido deve estar na conta,
senhor...”
“estou dizendo, não tem nada aqui indicando um # do
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“bem, senhor...”
“não, não, não!”
sequei outra taça de
vinho, “escuta, vamos fazer de conta que esta é a primeira vez que ligo
pra vocês e vamos começar pelo começo?”
“tudo bem, senhor... agora, o senhor pode listar pra mim o que
deseja?”
“obrigado! quero 18 fitas tira-tinta, item # 1136433 e quero 12
cartuchos de fita preta, item # 1299508.”
então li para ele o # do meu cartão American Express que não vou incluir
aqui.
“o senhor receberá todas as suas mercadorias dentro de 8 a dez dias, senhor...”
“obrigado!”
então, desligando, notei uma linha na minha conta anterior, ela dizia # de
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tinha estado ali o tempo
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agora eu estava pronto para escrever de novo, o socorro já vinha, minha mente
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as fitas acabaram ao mesmo tempo: a fita de escrever e a fita apagadora
e geralmente consigo trocá-las
mas esta noite eu estava bêbado demais:
foi uma batalha da alma inserir a fita de escrever mas
no tocante à fita apagadora me faltou
alma: a fita grudenta grudava em coisas
indevidas, torcia-se como um pretzel, e a joguei fora e
tentei outra.
devem ter se passado dez minutos até que fiz
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enquanto isso – eu já estava em outra garrafa, então olhei
a caixa no chão: restavam-me uma fita de escrever e uma
fita apagadora por isso recorri ao Manual de Instruções e disquei o
número 800 que acho que ficava em Maryland ou Dakota do Sul e
fiquei surpreso por ser atendido: eram 3:30 da manhã em
Los Angeles.
falei à mulher sobre a minha necessidade mas ela não entendia direito,
ficava exigindo um # do pedido.
eu estava com Richard Wagner no máximo volume no rádio e falei a ela
que eu não tinha um maldito # do pedido.
ela
desligou na minha cara e eu disquei de novo e dessa vez peguei um jovem
simpático e ele disse “que música maravilhosa o senhor está ouvindo...”, mas
o jovem simpático também exigiu um # do pedido.
sequei uma taça inteira de vinho, falei “escuta, eu não tinha um
# do pedido na primeira vez que liguei...”
“mas, senhor, na segunda vez que o senhor liga a regra é que deve ter
um # do pedido.”
“você quer dizer que não posso comprar minhas fitas? eu sou escritor, porra, como
vou fazer? você cortaria fora os chifres de um touro?”
“o senhor tem a sua última conta aí
consigo?”
“sim, sim...”
“o # do pedido deve estar na conta,
senhor...”
“estou dizendo, não tem nada aqui indicando um # do
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“bem, senhor...”
“não, não, não!”
sequei outra taça de
vinho, “escuta, vamos fazer de conta que esta é a primeira vez que ligo
pra vocês e vamos começar pelo começo?”
“tudo bem, senhor... agora, o senhor pode listar pra mim o que
deseja?”
“obrigado! quero 18 fitas tira-tinta, item # 1136433 e quero 12
cartuchos de fita preta, item # 1299508.”
então li para ele o # do meu cartão American Express que não vou incluir
aqui.
“o senhor receberá todas as suas mercadorias dentro de 8 a dez dias, senhor...”
“obrigado!”
então, desligando, notei uma linha na minha conta anterior, ela dizia # de
pedido 11101 – isso e aquilo e traço isso e aquilo.
tinha estado ali o tempo
inteiro.
agora eu estava pronto para escrever de novo, o socorro já vinha, minha mente
livre, inclinei o corpo à frente e comecei a bater as teclas:
frsyj mrbrt ,syyrtrf sd ,ivj, sd yjsy dytuhhlr yo dysy
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frsyj eo%% mr yjr rsdody %sty.
1 059
Charles Bukowski
Um Homem Para Os Séculos
no todo, bebendo aqui rumo às primeiras horas da manhã e
absorvendo o que o rádio me dá: muitos dos compositores das
eras entraram, saíram, tudo no todo, sugando este
adorável vinho e ouvindo, me veio Bach: ele
saboreia a risada de júbilo antes da morte, cada nota como um feijão
selvagem, me entristece que ele tenha baseado sua vida em Deus,
embora eu entenda que isso seja às vezes necessário, mas
não importa tanto a crença de um homem e sim o que ele faz e
Bach o fez tão bem, e ao escutá-lo neste quarto pequeno eu
me sinto um herói só por estar vivo, por ter braços, pernas,
uma cabeça, todas as diversas peças enquanto fico escutando, ingerindo o
som e sugando este adorável vinho
um morto se tornou um amigo e tanto
espero que ele tenha encontrado Deus
ele merece Deus
e Deus
se Ele existir
merece
Bach
e nós também merecemos:
nós os bebuns
nós os agnósticos:
essas notas pulando como feijões
selvagens.
absorvendo o que o rádio me dá: muitos dos compositores das
eras entraram, saíram, tudo no todo, sugando este
adorável vinho e ouvindo, me veio Bach: ele
saboreia a risada de júbilo antes da morte, cada nota como um feijão
selvagem, me entristece que ele tenha baseado sua vida em Deus,
embora eu entenda que isso seja às vezes necessário, mas
não importa tanto a crença de um homem e sim o que ele faz e
Bach o fez tão bem, e ao escutá-lo neste quarto pequeno eu
me sinto um herói só por estar vivo, por ter braços, pernas,
uma cabeça, todas as diversas peças enquanto fico escutando, ingerindo o
som e sugando este adorável vinho
um morto se tornou um amigo e tanto
espero que ele tenha encontrado Deus
ele merece Deus
e Deus
se Ele existir
merece
Bach
e nós também merecemos:
nós os bebuns
nós os agnósticos:
essas notas pulando como feijões
selvagens.
978