Poemas neste tema
Outros
Charles Bukowski
Fax
ganha do amor porque
não há quaisquer feridas
baqueando na carne. pela
manhã ela liga o
rádio com Brahms ou Ives
ou Stravinsky ou Mozart.
ela ferve os ovos con-
tando em voz alta os segundos:
56, 57, 58. descasca
os ovos, os traz para
mim na cama. depois do café
da manhã é o sofá, nós
colocamos os pés sobre a mesma
cadeira e ouvimos a
música clássica. ela
está em seu primeiro copo de
scotch e em seu terceiro
cigarro. digo-lhe que
preciso ir ao hipó-
dromo. ela está por aqui
faz 2 noites e 2 dias.
“quando vou ver você
de novo?”, pergunto. ela sugere
que isso dependeria de mim.
assinto com a cabeça e Mozart toca.
não há quaisquer feridas
baqueando na carne. pela
manhã ela liga o
rádio com Brahms ou Ives
ou Stravinsky ou Mozart.
ela ferve os ovos con-
tando em voz alta os segundos:
56, 57, 58. descasca
os ovos, os traz para
mim na cama. depois do café
da manhã é o sofá, nós
colocamos os pés sobre a mesma
cadeira e ouvimos a
música clássica. ela
está em seu primeiro copo de
scotch e em seu terceiro
cigarro. digo-lhe que
preciso ir ao hipó-
dromo. ela está por aqui
faz 2 noites e 2 dias.
“quando vou ver você
de novo?”, pergunto. ela sugere
que isso dependeria de mim.
assinto com a cabeça e Mozart toca.
1 093
Charles Bukowski
Morde Morde
ah, as mulheres sabem ser mordazes
enfiando as mãos na pia
puxando lençóis
esburacando a terra com suas espátulas
perto do canteiro de rabanetes
sentadas no carro com você
enquanto você vai dirigindo.
ah, as mulheres sabem ser mordazes
discutindo
Deus e os filmes
música e obras de arte
ou o que fazer quanto à infecção
do gato.
a mordacidade se espalha por
todas as áreas da conversação
o tom de voz permanece no
alto trinado.
o que aconteceu com as noites
junto ao fogo
quando elas eram só doçura
de tornozelo e joelho
puras de olho
cabelos compridos penteados?
claro, nós sabíamos que aquilo não era
real
mas a mordacidade é.
o amor também é
mas está emperrado em algum lugar
entre a macieira silvestre
e o esgoto.
o juiz está adormecido em seu
gabinete e
ninguém é culpado.
enfiando as mãos na pia
puxando lençóis
esburacando a terra com suas espátulas
perto do canteiro de rabanetes
sentadas no carro com você
enquanto você vai dirigindo.
ah, as mulheres sabem ser mordazes
discutindo
Deus e os filmes
música e obras de arte
ou o que fazer quanto à infecção
do gato.
a mordacidade se espalha por
todas as áreas da conversação
o tom de voz permanece no
alto trinado.
o que aconteceu com as noites
junto ao fogo
quando elas eram só doçura
de tornozelo e joelho
puras de olho
cabelos compridos penteados?
claro, nós sabíamos que aquilo não era
real
mas a mordacidade é.
o amor também é
mas está emperrado em algum lugar
entre a macieira silvestre
e o esgoto.
o juiz está adormecido em seu
gabinete e
ninguém é culpado.
1 090
Charles Bukowski
Morde Morde
ah, as mulheres sabem ser mordazes
enfiando as mãos na pia
puxando lençóis
esburacando a terra com suas espátulas
perto do canteiro de rabanetes
sentadas no carro com você
enquanto você vai dirigindo.
ah, as mulheres sabem ser mordazes
discutindo
Deus e os filmes
música e obras de arte
ou o que fazer quanto à infecção
do gato.
a mordacidade se espalha por
todas as áreas da conversação
o tom de voz permanece no
alto trinado.
o que aconteceu com as noites
junto ao fogo
quando elas eram só doçura
de tornozelo e joelho
puras de olho
cabelos compridos penteados?
claro, nós sabíamos que aquilo não era
real
mas a mordacidade é.
o amor também é
mas está emperrado em algum lugar
entre a macieira silvestre
e o esgoto.
o juiz está adormecido em seu
gabinete e
ninguém é culpado.
enfiando as mãos na pia
puxando lençóis
esburacando a terra com suas espátulas
perto do canteiro de rabanetes
sentadas no carro com você
enquanto você vai dirigindo.
ah, as mulheres sabem ser mordazes
discutindo
Deus e os filmes
música e obras de arte
ou o que fazer quanto à infecção
do gato.
a mordacidade se espalha por
todas as áreas da conversação
o tom de voz permanece no
alto trinado.
o que aconteceu com as noites
junto ao fogo
quando elas eram só doçura
de tornozelo e joelho
puras de olho
cabelos compridos penteados?
claro, nós sabíamos que aquilo não era
real
mas a mordacidade é.
o amor também é
mas está emperrado em algum lugar
entre a macieira silvestre
e o esgoto.
o juiz está adormecido em seu
gabinete e
ninguém é culpado.
1 090
Charles Bukowski
Um Poema de Amor Para Todas As Mulheres Que Eu Conheci
todas as mulheres
todos os seus beijos as
diferentes formas como amam e
falam e precisam.
suas orelhas todas elas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-
maridos.
na maioria
as mulheres são muito
calorosas elas me lembram
torrada amanteigada com a manteiga
derretida
nela.
há uma expressão no
olhar: elas foram
dominadas elas foram
enganadas. não sei direito o que
fazer por
elas.
eu sou
um cozinheiro razoável um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar – estava ocupado
então com coisas maiores.
mas desfrutei de suas diferentes
camas
fumando cigarros
olhando fixo para os
tetos. não fui nem perverso nem
injusto. apenas
um estudante.
sei que todas elas têm aqueles
pés e descalças elas atravessam o assoalho enquanto
observo suas nádegas acanhadas no
escuro. sei que elas gostam de mim, algumas até
me amam
mas eu amo bem
poucas.
algumas me dão laranjas e pílulas;
outras falam calmamente de
infância e pais e
paisagens; algumas são quase
loucas mas nenhuma delas é desprovida de
significado; algumas amam
bem, outras nem
tanto; as melhores no sexo nem sempre são as
melhores em outros
aspectos; cada uma tem limites como eu tenho
limites e aprendemos
um ao outro
depressa.
todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos
os tapetes as
fotos as
cortinas, é
meio como uma igreja só que
às vezes há
risos.
aquelas orelhas aqueles
braços aqueles
cotovelos aqueles olhos
fitando o carinho e
a espera eu fui
abraçado eu fui
abraçado.
todos os seus beijos as
diferentes formas como amam e
falam e precisam.
suas orelhas todas elas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-
maridos.
na maioria
as mulheres são muito
calorosas elas me lembram
torrada amanteigada com a manteiga
derretida
nela.
há uma expressão no
olhar: elas foram
dominadas elas foram
enganadas. não sei direito o que
fazer por
elas.
eu sou
um cozinheiro razoável um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar – estava ocupado
então com coisas maiores.
mas desfrutei de suas diferentes
camas
fumando cigarros
olhando fixo para os
tetos. não fui nem perverso nem
injusto. apenas
um estudante.
sei que todas elas têm aqueles
pés e descalças elas atravessam o assoalho enquanto
observo suas nádegas acanhadas no
escuro. sei que elas gostam de mim, algumas até
me amam
mas eu amo bem
poucas.
algumas me dão laranjas e pílulas;
outras falam calmamente de
infância e pais e
paisagens; algumas são quase
loucas mas nenhuma delas é desprovida de
significado; algumas amam
bem, outras nem
tanto; as melhores no sexo nem sempre são as
melhores em outros
aspectos; cada uma tem limites como eu tenho
limites e aprendemos
um ao outro
depressa.
todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos
os tapetes as
fotos as
cortinas, é
meio como uma igreja só que
às vezes há
risos.
aquelas orelhas aqueles
braços aqueles
cotovelos aqueles olhos
fitando o carinho e
a espera eu fui
abraçado eu fui
abraçado.
1 228
Charles Bukowski
Meu Verdadeiro Amor Em Atenas
e eu me lembro da faca,
do modo como você toca uma rosa
e sai com sangue
e como você toca o amor do mesmo modo,
e como quando você quer entrar na autoestrada
os caminhões encurralam você na pista interna
luar e rugindo
atropelando sua bravura,
fazendo você pisar no freio
e pequenas imagens surgem na sua cabeça:
imagens de Cristo pendurado lá
ou Hiroshima
ou sua última esposa
fritando um ovo.
o modo como você toca uma rosa
é o modo como você se encosta nas laterais dos caixões
dos mortos,
o modo como você toca uma rosa
e vê os mortos rodopiando de volta
por baixo das suas unhas;
a faca
Gettysburg, as Ardenas, Flandres,
Átila, Muss –
de que me serve a história
quando tudo se reduz
à sombra das três da tarde
embaixo de uma folha?
e se a mente fica atormentada
e a rosa morde
como um cão,
dizem
que temos amor...
mas de que me serve o amor
quando todos nascemos
em diferentes momentos e lugares
e só nos encontramos
através de um truque dos séculos
e três passos casuais
à esquerda?
você quer dizer que
um amor que não encontrei
é menos do que um egoísmo
que chamo de próximo?
posso dizer agora
com sangue de rosa no fundo da minha mente,
posso dizer agora enquanto rodopiam os planetas
e toneladas de força são disparadas dentro do fim do espaço
para fazer Colombo parecer uma criança idiota
posso dizer agora
que porque gritei dentro de uma noite
e não me ouviram,
posso dizer agora
que me lembro da faca
e fico sentado num quarto fresco
e esfrego meus dedos ao apito do relógio
e calmamente penso em
Ajax e escarro
e galinhas ferroviárias atravessando os trilhos dourados,
e meu verdadeiro amor está em Atenas
600
A ou D,
enquanto fora da minha janela
pombos tropeçam enquanto voam
e por uma porta
de longa espera para um quarto vazio
rosas não conseguem
entrar ou sair,
ou amor ou mariposas ou relâmpago –
eu não irromperia nem em suspiro
nem em sorriso; poderiam nadas
como mariposas ou homens
existir como luz solar laranja sobre papel
dividido por nove?
Atenas fica agora a muitas milhas
e uma morte de distância,
e as mesas estão sujas pra cacete
e os lençóis e os pratos,
mas estou rindo; isso não é real;
mas é, dividido por nove
ou cem;
roupa limpa é amor
que não se coça
e suspira.
do modo como você toca uma rosa
e sai com sangue
e como você toca o amor do mesmo modo,
e como quando você quer entrar na autoestrada
os caminhões encurralam você na pista interna
luar e rugindo
atropelando sua bravura,
fazendo você pisar no freio
e pequenas imagens surgem na sua cabeça:
imagens de Cristo pendurado lá
ou Hiroshima
ou sua última esposa
fritando um ovo.
o modo como você toca uma rosa
é o modo como você se encosta nas laterais dos caixões
dos mortos,
o modo como você toca uma rosa
e vê os mortos rodopiando de volta
por baixo das suas unhas;
a faca
Gettysburg, as Ardenas, Flandres,
Átila, Muss –
de que me serve a história
quando tudo se reduz
à sombra das três da tarde
embaixo de uma folha?
e se a mente fica atormentada
e a rosa morde
como um cão,
dizem
que temos amor...
mas de que me serve o amor
quando todos nascemos
em diferentes momentos e lugares
e só nos encontramos
através de um truque dos séculos
e três passos casuais
à esquerda?
você quer dizer que
um amor que não encontrei
é menos do que um egoísmo
que chamo de próximo?
posso dizer agora
com sangue de rosa no fundo da minha mente,
posso dizer agora enquanto rodopiam os planetas
e toneladas de força são disparadas dentro do fim do espaço
para fazer Colombo parecer uma criança idiota
posso dizer agora
que porque gritei dentro de uma noite
e não me ouviram,
posso dizer agora
que me lembro da faca
e fico sentado num quarto fresco
e esfrego meus dedos ao apito do relógio
e calmamente penso em
Ajax e escarro
e galinhas ferroviárias atravessando os trilhos dourados,
e meu verdadeiro amor está em Atenas
600
A ou D,
enquanto fora da minha janela
pombos tropeçam enquanto voam
e por uma porta
de longa espera para um quarto vazio
rosas não conseguem
entrar ou sair,
ou amor ou mariposas ou relâmpago –
eu não irromperia nem em suspiro
nem em sorriso; poderiam nadas
como mariposas ou homens
existir como luz solar laranja sobre papel
dividido por nove?
Atenas fica agora a muitas milhas
e uma morte de distância,
e as mesas estão sujas pra cacete
e os lençóis e os pratos,
mas estou rindo; isso não é real;
mas é, dividido por nove
ou cem;
roupa limpa é amor
que não se coça
e suspira.
746
Charles Bukowski
Todo o Meu Amor É Dedicado a Ela (Para A.M.)
astutamente armado com argumentos para o papa
abro meu caminho em meio às pessoas não elétricas
buscando razões para minha morte e meu viver;
é um dia encantador para aqueles que gostam dos dias –
para aqueles que aguardam a noite
como eu, aí o dia é uma merda e a merda é para
os esgotos,
e eu abro a porta de um minúsculo café
e uma garçonete vestindo azul-escuro
se aproxima como se o meu pedido fosse ela.
“3 pernas de faisão”, eu lhe digo,
“as costas de um frango e 2 garrafas de razoável vinho
francês.”
ela sai
contorcendo-se em seu azul
e todo o meu amor é dedicado a ela
mas não há jeito,
e fico sentado encarando as plantas
e falo às plantas, com minha mente:
não dá pra vocês me amarem?
não dá pra algo acontecer aqui?
precisam as calçadas ser sempre calçadas, precisam os generais
continuar rindo em seus sonhos,
precisa sempre continuar sendo
que nada é verdade?
eu olho à minha esquerda e vejo um homem enfiando o dedo no nariz;
ele esfrega o resíduo embaixo de uma
cadeira; é bem verdade, eu penso, eis a sua
verdade, e eis o seu amor:
ranho endurecendo embaixo de uma cadeira durante
noites quentes quando o inferno chega e simplesmente
cospe em cima de
você todo.
plantas, repito, vocês não podem?
e eu quebro parte de uma folha de alocásia
e o teto todo se racha e abre
o céu é uma escadaria para baixo,
a garçonete se aproxima e fala:
“isso é tudo, senhor?”
e eu falo “sim, obrigado, isso
basta”.
abro meu caminho em meio às pessoas não elétricas
buscando razões para minha morte e meu viver;
é um dia encantador para aqueles que gostam dos dias –
para aqueles que aguardam a noite
como eu, aí o dia é uma merda e a merda é para
os esgotos,
e eu abro a porta de um minúsculo café
e uma garçonete vestindo azul-escuro
se aproxima como se o meu pedido fosse ela.
“3 pernas de faisão”, eu lhe digo,
“as costas de um frango e 2 garrafas de razoável vinho
francês.”
ela sai
contorcendo-se em seu azul
e todo o meu amor é dedicado a ela
mas não há jeito,
e fico sentado encarando as plantas
e falo às plantas, com minha mente:
não dá pra vocês me amarem?
não dá pra algo acontecer aqui?
precisam as calçadas ser sempre calçadas, precisam os generais
continuar rindo em seus sonhos,
precisa sempre continuar sendo
que nada é verdade?
eu olho à minha esquerda e vejo um homem enfiando o dedo no nariz;
ele esfrega o resíduo embaixo de uma
cadeira; é bem verdade, eu penso, eis a sua
verdade, e eis o seu amor:
ranho endurecendo embaixo de uma cadeira durante
noites quentes quando o inferno chega e simplesmente
cospe em cima de
você todo.
plantas, repito, vocês não podem?
e eu quebro parte de uma folha de alocásia
e o teto todo se racha e abre
o céu é uma escadaria para baixo,
a garçonete se aproxima e fala:
“isso é tudo, senhor?”
e eu falo “sim, obrigado, isso
basta”.
980
Charles Bukowski
Garotas Quietas E Limpas Em Vestidos de Algodão
tudo que eu sempre conheci foram putas, ex-prostitutas,
loucas. vejo homens com mulheres quietas,
gentis – vejo-os nos supermercados,
vejo-os caminhando juntos pelas ruas,
vejo-os em seus apartamentos: pessoas em
paz, vivendo juntas. sei que sua
paz é apenas parcial, mas existe
paz, frequentes horas e dias de paz.
tudo que eu sempre conheci foram comedoras de comprimidos, alcoólatras,
putas, ex-prostitutas, loucas.
quando uma vai embora
chega outra
pior do que sua antecessora.
vejo tantos homens com garotas quietas e limpas em
vestidos de algodão
garotas com rostos que não são rapaces ou
predatórios.
“nunca traga uma puta com você,” eu digo para meus
poucos amigos, “eu vou me apaixonar por ela.”
“você não aguenta uma boa mulher, Bukowski.”
preciso de uma boa mulher. preciso de uma boa mulher
mais do que preciso desta máquina de escrever, mais do que
preciso do meu automóvel, mais do que preciso
de Mozart; preciso tanto de uma boa mulher que
posso sentir seu gosto no ar, posso senti-la
na ponta dos meus dedos, posso ver calçadas construídas
para seus pés caminharem,
posso ver travesseiros para sua cabeça,
posso sentir minha expectante risada de tranquilo júbilo,
posso vê-la acariciando um gato,
posso vê-la dormindo,
posso ver seus chinelos no chão.
eu sei que ela existe
mas onde está ela neste planeta
enquanto as putas continuam me encontrando?
ACORDO BEM A TEMPO
loucas. vejo homens com mulheres quietas,
gentis – vejo-os nos supermercados,
vejo-os caminhando juntos pelas ruas,
vejo-os em seus apartamentos: pessoas em
paz, vivendo juntas. sei que sua
paz é apenas parcial, mas existe
paz, frequentes horas e dias de paz.
tudo que eu sempre conheci foram comedoras de comprimidos, alcoólatras,
putas, ex-prostitutas, loucas.
quando uma vai embora
chega outra
pior do que sua antecessora.
vejo tantos homens com garotas quietas e limpas em
vestidos de algodão
garotas com rostos que não são rapaces ou
predatórios.
“nunca traga uma puta com você,” eu digo para meus
poucos amigos, “eu vou me apaixonar por ela.”
“você não aguenta uma boa mulher, Bukowski.”
preciso de uma boa mulher. preciso de uma boa mulher
mais do que preciso desta máquina de escrever, mais do que
preciso do meu automóvel, mais do que preciso
de Mozart; preciso tanto de uma boa mulher que
posso sentir seu gosto no ar, posso senti-la
na ponta dos meus dedos, posso ver calçadas construídas
para seus pés caminharem,
posso ver travesseiros para sua cabeça,
posso sentir minha expectante risada de tranquilo júbilo,
posso vê-la acariciando um gato,
posso vê-la dormindo,
posso ver seus chinelos no chão.
eu sei que ela existe
mas onde está ela neste planeta
enquanto as putas continuam me encontrando?
ACORDO BEM A TEMPO
1 765
Charles Bukowski
Um Lugar Pra Relaxar
ser um jovem tolo e pobre e feio
não dá um aspecto muito bom às paredes.
tantos fins de tarde, examinando as paredes
sem nada pra beber
nada pra fumar
nada pra comer
(nós bebíamos meus contracheques depressa).
ela sempre sabia o momento de ir embora.
ela me fez passar por sua faculdade –
ela me deu meu mestrado e meu doutorado,
e ela sempre voltava,
ela queria um lugar pra relaxar
um lugar pra pendurar suas roupas.
ela afirmava que eu era muito engraçado,
que eu a fazia rir
mas eu não estava tentando ser
engraçado.
ela tinha pernas lindas e era
inteligente mas simplesmente não se importava,
e toda a minha fúria e todo o meu humor e
toda a minha loucura eram mero entretenimento
para ela: eu estava atuando pra ela
como uma espécie de marionete numa espécie de inferno de mim mesmo.
algumas vezes quando ela ia embora eu tinha suficiente
vinho barato e suficientes cigarros
para ouvir o rádio e olhar as
paredes e ficar bêbado em grau suficiente para escapar
dela.
mas ela sempre voltava para me testar
mais uma vez.
eu me lembro dela em especial.
outras mulheres melhores fizeram com que eu me sentisse tão
mal
quanto naqueles fins de tarde
dando aquela caminhada de três quilômetros do trabalho para casa
dobrando no beco
olhando a janela no alto
e encontrando a cortina fechada.
ela me ensinou a agonia dos amaldiçoados
e dos inúteis.
todo mundo quer tempo bom, sorte boa, sonhos
bons.
para mim era um palpite arriscado numa pista comprida,
fazia frio e a impossível aposta não deu
em nada.
eu a enterrei cinco anos depois de a ter conhecido,
raramente a tendo visto nos últimos três.
só havia quatro pessoas diante da sepultura:
o padre
a senhoria dela
o filho dela e eu.
isso não importava:
todas aquelas caminhadas pelo beco
na esperança de uma luz por trás da cortina.
todas aquelas dúzias de homens que a tinham fodido
não estavam lá
e um dos homens que a tinham amado
estava: “Meu louco garoto do almoxarifado da
loja de departamentos”, ela me chamava.
não dá um aspecto muito bom às paredes.
tantos fins de tarde, examinando as paredes
sem nada pra beber
nada pra fumar
nada pra comer
(nós bebíamos meus contracheques depressa).
ela sempre sabia o momento de ir embora.
ela me fez passar por sua faculdade –
ela me deu meu mestrado e meu doutorado,
e ela sempre voltava,
ela queria um lugar pra relaxar
um lugar pra pendurar suas roupas.
ela afirmava que eu era muito engraçado,
que eu a fazia rir
mas eu não estava tentando ser
engraçado.
ela tinha pernas lindas e era
inteligente mas simplesmente não se importava,
e toda a minha fúria e todo o meu humor e
toda a minha loucura eram mero entretenimento
para ela: eu estava atuando pra ela
como uma espécie de marionete numa espécie de inferno de mim mesmo.
algumas vezes quando ela ia embora eu tinha suficiente
vinho barato e suficientes cigarros
para ouvir o rádio e olhar as
paredes e ficar bêbado em grau suficiente para escapar
dela.
mas ela sempre voltava para me testar
mais uma vez.
eu me lembro dela em especial.
outras mulheres melhores fizeram com que eu me sentisse tão
mal
quanto naqueles fins de tarde
dando aquela caminhada de três quilômetros do trabalho para casa
dobrando no beco
olhando a janela no alto
e encontrando a cortina fechada.
ela me ensinou a agonia dos amaldiçoados
e dos inúteis.
todo mundo quer tempo bom, sorte boa, sonhos
bons.
para mim era um palpite arriscado numa pista comprida,
fazia frio e a impossível aposta não deu
em nada.
eu a enterrei cinco anos depois de a ter conhecido,
raramente a tendo visto nos últimos três.
só havia quatro pessoas diante da sepultura:
o padre
a senhoria dela
o filho dela e eu.
isso não importava:
todas aquelas caminhadas pelo beco
na esperança de uma luz por trás da cortina.
todas aquelas dúzias de homens que a tinham fodido
não estavam lá
e um dos homens que a tinham amado
estava: “Meu louco garoto do almoxarifado da
loja de departamentos”, ela me chamava.
639
Charles Bukowski
Um Para o Engraxate
o equilíbrio está nas lesmas escalando as
falésias de Santa Monica;
a sorte está em descer a Western Avenue
e acontecer que uma das garotas de uma casa
de massagem grite pra você “Alô, Doçura!”
o milagre está em ter cinco mulheres apaixonadas
por você aos 55 anos de idade,
e o bom de tudo é que você só é capaz
de amar uma delas.
o dom está em ter uma filha mais delicada
do que você é, cuja risada é mais bela
do que a sua.
a placidez está em ser capaz de dirigir um
Fusca 67 azul pelas ruas como um
adolescente, o rádio sintonizado no Apresentador que Mais Ama
Você, sentindo o sol, sentindo o sólido ronco
do motor retificado
enquanto você costura o tráfego
e deixa os mortos putos da cara.
a graça está em ser capaz de gostar de rock,
música sinfônica, jazz...
tudo que contenha o júbilo da energia
original.
e a matemática que retorna
é o profundo baixo-astral sob
você estendido sobre você
entre as paredes de guilhotina –
furioso com o som do telefone
ou com os passos de qualquer um passando;
e a outra matemática:
a iminente animação que se segue
fazendo com que os caras sentados nos bancos
junto aos carrinhos de taco
pareçam gurus
fazendo com que a garota do caixa no
supermercado pareça
Marilyn
ou Zsa Zsa
ou Jackie antes de pegarem seu amante de Harvard
ou a garota do ensino médio que
todos nós garotos seguíamos até em casa.
e a pureza que ajuda você a crer
em algo além da morte
é Sandy Hawley montando
cinco vencedores no Hollywood Park, cavalos fora de forma,
nenhum deles favorito,
ou alguém num carro que se aproxima de você
numa rua estreita demais,
e ele ou ela desvia de lado pra deixar você
passar, ou o velho lutador Beau Jack
engraxando sapatos
após ter torrado seu pé-de-meia todo
com festas
com mulheres
com parasitas,
cantarolando, soprando no couro,
mandando ver com o trapo,
olhando pra cima e dizendo:
“Que diabo, por um momento
eu tive tudo. uma coisa ganha da
outra”.
por vezes me mostro muito amargo
mas o gosto tem sido com frequência
doce, é só que tive
medo de dizê-lo. é como
quando sua mulher diz
“fala que me ama”
e você não consegue dizer.
se você chegar a me ver sorrindo em
meu Fusca azul
cruzando um sinal amarelo
dirigindo direto rumo ao sol
sem óculos escuros
estarei apenas trancado na
tarde de uma
vida louca
pensando em trapezistas de circo
em anões com charutos enormes
num inverno russo no início dos anos 40
em Chopin com seu saco de terra polonesa
ou numa velha garçonete me trazendo uma xícara
extra de café e parecendo rir de mim
enquanto me serve.
do melhor de você
eu gosto mais do que você imagina.
os outros não contam
exceto que eles têm dedos e cabeças
e alguns deles olhos
e a maioria deles pernas
e todos eles
sonhos bons e ruins
e um caminho para seguir.
o equilíbrio está em toda parte e está funcionando
e as metralhadoras e as rãs
e as sebes podem lhe contar
isso.
falésias de Santa Monica;
a sorte está em descer a Western Avenue
e acontecer que uma das garotas de uma casa
de massagem grite pra você “Alô, Doçura!”
o milagre está em ter cinco mulheres apaixonadas
por você aos 55 anos de idade,
e o bom de tudo é que você só é capaz
de amar uma delas.
o dom está em ter uma filha mais delicada
do que você é, cuja risada é mais bela
do que a sua.
a placidez está em ser capaz de dirigir um
Fusca 67 azul pelas ruas como um
adolescente, o rádio sintonizado no Apresentador que Mais Ama
Você, sentindo o sol, sentindo o sólido ronco
do motor retificado
enquanto você costura o tráfego
e deixa os mortos putos da cara.
a graça está em ser capaz de gostar de rock,
música sinfônica, jazz...
tudo que contenha o júbilo da energia
original.
e a matemática que retorna
é o profundo baixo-astral sob
você estendido sobre você
entre as paredes de guilhotina –
furioso com o som do telefone
ou com os passos de qualquer um passando;
e a outra matemática:
a iminente animação que se segue
fazendo com que os caras sentados nos bancos
junto aos carrinhos de taco
pareçam gurus
fazendo com que a garota do caixa no
supermercado pareça
Marilyn
ou Zsa Zsa
ou Jackie antes de pegarem seu amante de Harvard
ou a garota do ensino médio que
todos nós garotos seguíamos até em casa.
e a pureza que ajuda você a crer
em algo além da morte
é Sandy Hawley montando
cinco vencedores no Hollywood Park, cavalos fora de forma,
nenhum deles favorito,
ou alguém num carro que se aproxima de você
numa rua estreita demais,
e ele ou ela desvia de lado pra deixar você
passar, ou o velho lutador Beau Jack
engraxando sapatos
após ter torrado seu pé-de-meia todo
com festas
com mulheres
com parasitas,
cantarolando, soprando no couro,
mandando ver com o trapo,
olhando pra cima e dizendo:
“Que diabo, por um momento
eu tive tudo. uma coisa ganha da
outra”.
por vezes me mostro muito amargo
mas o gosto tem sido com frequência
doce, é só que tive
medo de dizê-lo. é como
quando sua mulher diz
“fala que me ama”
e você não consegue dizer.
se você chegar a me ver sorrindo em
meu Fusca azul
cruzando um sinal amarelo
dirigindo direto rumo ao sol
sem óculos escuros
estarei apenas trancado na
tarde de uma
vida louca
pensando em trapezistas de circo
em anões com charutos enormes
num inverno russo no início dos anos 40
em Chopin com seu saco de terra polonesa
ou numa velha garçonete me trazendo uma xícara
extra de café e parecendo rir de mim
enquanto me serve.
do melhor de você
eu gosto mais do que você imagina.
os outros não contam
exceto que eles têm dedos e cabeças
e alguns deles olhos
e a maioria deles pernas
e todos eles
sonhos bons e ruins
e um caminho para seguir.
o equilíbrio está em toda parte e está funcionando
e as metralhadoras e as rãs
e as sebes podem lhe contar
isso.
722
Charles Bukowski
Um Para o Engraxate
o equilíbrio está nas lesmas escalando as
falésias de Santa Monica;
a sorte está em descer a Western Avenue
e acontecer que uma das garotas de uma casa
de massagem grite pra você “Alô, Doçura!”
o milagre está em ter cinco mulheres apaixonadas
por você aos 55 anos de idade,
e o bom de tudo é que você só é capaz
de amar uma delas.
o dom está em ter uma filha mais delicada
do que você é, cuja risada é mais bela
do que a sua.
a placidez está em ser capaz de dirigir um
Fusca 67 azul pelas ruas como um
adolescente, o rádio sintonizado no Apresentador que Mais Ama
Você, sentindo o sol, sentindo o sólido ronco
do motor retificado
enquanto você costura o tráfego
e deixa os mortos putos da cara.
a graça está em ser capaz de gostar de rock,
música sinfônica, jazz...
tudo que contenha o júbilo da energia
original.
e a matemática que retorna
é o profundo baixo-astral sob
você estendido sobre você
entre as paredes de guilhotina –
furioso com o som do telefone
ou com os passos de qualquer um passando;
e a outra matemática:
a iminente animação que se segue
fazendo com que os caras sentados nos bancos
junto aos carrinhos de taco
pareçam gurus
fazendo com que a garota do caixa no
supermercado pareça
Marilyn
ou Zsa Zsa
ou Jackie antes de pegarem seu amante de Harvard
ou a garota do ensino médio que
todos nós garotos seguíamos até em casa.
e a pureza que ajuda você a crer
em algo além da morte
é Sandy Hawley montando
cinco vencedores no Hollywood Park, cavalos fora de forma,
nenhum deles favorito,
ou alguém num carro que se aproxima de você
numa rua estreita demais,
e ele ou ela desvia de lado pra deixar você
passar, ou o velho lutador Beau Jack
engraxando sapatos
após ter torrado seu pé-de-meia todo
com festas
com mulheres
com parasitas,
cantarolando, soprando no couro,
mandando ver com o trapo,
olhando pra cima e dizendo:
“Que diabo, por um momento
eu tive tudo. uma coisa ganha da
outra”.
por vezes me mostro muito amargo
mas o gosto tem sido com frequência
doce, é só que tive
medo de dizê-lo. é como
quando sua mulher diz
“fala que me ama”
e você não consegue dizer.
se você chegar a me ver sorrindo em
meu Fusca azul
cruzando um sinal amarelo
dirigindo direto rumo ao sol
sem óculos escuros
estarei apenas trancado na
tarde de uma
vida louca
pensando em trapezistas de circo
em anões com charutos enormes
num inverno russo no início dos anos 40
em Chopin com seu saco de terra polonesa
ou numa velha garçonete me trazendo uma xícara
extra de café e parecendo rir de mim
enquanto me serve.
do melhor de você
eu gosto mais do que você imagina.
os outros não contam
exceto que eles têm dedos e cabeças
e alguns deles olhos
e a maioria deles pernas
e todos eles
sonhos bons e ruins
e um caminho para seguir.
o equilíbrio está em toda parte e está funcionando
e as metralhadoras e as rãs
e as sebes podem lhe contar
isso.
falésias de Santa Monica;
a sorte está em descer a Western Avenue
e acontecer que uma das garotas de uma casa
de massagem grite pra você “Alô, Doçura!”
o milagre está em ter cinco mulheres apaixonadas
por você aos 55 anos de idade,
e o bom de tudo é que você só é capaz
de amar uma delas.
o dom está em ter uma filha mais delicada
do que você é, cuja risada é mais bela
do que a sua.
a placidez está em ser capaz de dirigir um
Fusca 67 azul pelas ruas como um
adolescente, o rádio sintonizado no Apresentador que Mais Ama
Você, sentindo o sol, sentindo o sólido ronco
do motor retificado
enquanto você costura o tráfego
e deixa os mortos putos da cara.
a graça está em ser capaz de gostar de rock,
música sinfônica, jazz...
tudo que contenha o júbilo da energia
original.
e a matemática que retorna
é o profundo baixo-astral sob
você estendido sobre você
entre as paredes de guilhotina –
furioso com o som do telefone
ou com os passos de qualquer um passando;
e a outra matemática:
a iminente animação que se segue
fazendo com que os caras sentados nos bancos
junto aos carrinhos de taco
pareçam gurus
fazendo com que a garota do caixa no
supermercado pareça
Marilyn
ou Zsa Zsa
ou Jackie antes de pegarem seu amante de Harvard
ou a garota do ensino médio que
todos nós garotos seguíamos até em casa.
e a pureza que ajuda você a crer
em algo além da morte
é Sandy Hawley montando
cinco vencedores no Hollywood Park, cavalos fora de forma,
nenhum deles favorito,
ou alguém num carro que se aproxima de você
numa rua estreita demais,
e ele ou ela desvia de lado pra deixar você
passar, ou o velho lutador Beau Jack
engraxando sapatos
após ter torrado seu pé-de-meia todo
com festas
com mulheres
com parasitas,
cantarolando, soprando no couro,
mandando ver com o trapo,
olhando pra cima e dizendo:
“Que diabo, por um momento
eu tive tudo. uma coisa ganha da
outra”.
por vezes me mostro muito amargo
mas o gosto tem sido com frequência
doce, é só que tive
medo de dizê-lo. é como
quando sua mulher diz
“fala que me ama”
e você não consegue dizer.
se você chegar a me ver sorrindo em
meu Fusca azul
cruzando um sinal amarelo
dirigindo direto rumo ao sol
sem óculos escuros
estarei apenas trancado na
tarde de uma
vida louca
pensando em trapezistas de circo
em anões com charutos enormes
num inverno russo no início dos anos 40
em Chopin com seu saco de terra polonesa
ou numa velha garçonete me trazendo uma xícara
extra de café e parecendo rir de mim
enquanto me serve.
do melhor de você
eu gosto mais do que você imagina.
os outros não contam
exceto que eles têm dedos e cabeças
e alguns deles olhos
e a maioria deles pernas
e todos eles
sonhos bons e ruins
e um caminho para seguir.
o equilíbrio está em toda parte e está funcionando
e as metralhadoras e as rãs
e as sebes podem lhe contar
isso.
722
Charles Bukowski
2 Cravos
meu amor me trouxe 2 cravos
meu amor me trouxe vermelho
meu amor me trouxe ela
meu amor me pediu para eu não me preocupar
meu amor me pediu para não morrer
meu amor são 2 cravos sobre uma mesa
ouvindo Schoenberg
num entardecer escurecendo em noite
meu amor é jovem
os cravos ardem no escuro;
ela se foi deixando um gosto de amêndoas
seu corpo tem gosto de amêndoas
2 cravos ardendo vermelhos
enquanto ela fica parada na distância
agora sonhando com cães de porcelana
tinindo por entre seus dedos
meu amor são dez mil cravos ardendo
meu amor é um beija-flor parado naquele calmo momento
no galho
enquanto o mesmo gato
se agacha.
meu amor me trouxe vermelho
meu amor me trouxe ela
meu amor me pediu para eu não me preocupar
meu amor me pediu para não morrer
meu amor são 2 cravos sobre uma mesa
ouvindo Schoenberg
num entardecer escurecendo em noite
meu amor é jovem
os cravos ardem no escuro;
ela se foi deixando um gosto de amêndoas
seu corpo tem gosto de amêndoas
2 cravos ardendo vermelhos
enquanto ela fica parada na distância
agora sonhando com cães de porcelana
tinindo por entre seus dedos
meu amor são dez mil cravos ardendo
meu amor é um beija-flor parado naquele calmo momento
no galho
enquanto o mesmo gato
se agacha.
1 035
Charles Bukowski
2 Cravos
meu amor me trouxe 2 cravos
meu amor me trouxe vermelho
meu amor me trouxe ela
meu amor me pediu para eu não me preocupar
meu amor me pediu para não morrer
meu amor são 2 cravos sobre uma mesa
ouvindo Schoenberg
num entardecer escurecendo em noite
meu amor é jovem
os cravos ardem no escuro;
ela se foi deixando um gosto de amêndoas
seu corpo tem gosto de amêndoas
2 cravos ardendo vermelhos
enquanto ela fica parada na distância
agora sonhando com cães de porcelana
tinindo por entre seus dedos
meu amor são dez mil cravos ardendo
meu amor é um beija-flor parado naquele calmo momento
no galho
enquanto o mesmo gato
se agacha.
meu amor me trouxe vermelho
meu amor me trouxe ela
meu amor me pediu para eu não me preocupar
meu amor me pediu para não morrer
meu amor são 2 cravos sobre uma mesa
ouvindo Schoenberg
num entardecer escurecendo em noite
meu amor é jovem
os cravos ardem no escuro;
ela se foi deixando um gosto de amêndoas
seu corpo tem gosto de amêndoas
2 cravos ardendo vermelhos
enquanto ela fica parada na distância
agora sonhando com cães de porcelana
tinindo por entre seus dedos
meu amor são dez mil cravos ardendo
meu amor é um beija-flor parado naquele calmo momento
no galho
enquanto o mesmo gato
se agacha.
1 035
Charles Bukowski
O Banho
nós gostamos de tomar banho depois
(gosto da água mais quente do que ela)
e o rosto dela é sempre macio e calmo
e ela me lava primeiro
espalha espuma pelo meu saco
levanta o saco
aperta os colhões,
então lava o pau:
“ei, essa coisa ainda está dura!”
então pega os pelos todos ali embaixo –
a barriga, as costas, o pescoço, as pernas,
eu abro sorriso sorriso sorriso,
e então a lavo...
primeiro a xota, eu
fico atrás dela, meu pau em suas nádegas
vou ensaboando suavemente os pelos da xota,
lavo ali com um movimento relaxante,
me demoro talvez mais do que o necessário,
então pego a parte de trás das pernas, a bunda,
as costas, o pescoço, eu a viro, eu a beijo,
ensaboo os peitos, pego eles e a barriga, o pescoço,
a frente das pernas, os tornozelos, os pés,
e então a xota, mais uma vez, pra dar sorte...
outro beijo, e ela sai primeiro,
atoalhada, às vezes cantando enquanto eu permaneço
ligando a água no mais quente
sentindo os bons momentos do milagre do amor
e então saio...
geralmente é a calmaria do meio da tarde,
e nos vestindo nós conversamos sobre o que mais
pode haver para fazer,
mas estarmos juntos resolve a maior parte,
na verdade, resolve tudo
pois enquanto essas coisas permanecerem resolvidas
na história da mulher e do
homem, é diferente para cada um
melhor e pior para cada um –
para mim, já é bastante esplêndido recordar
a passagem dos exércitos em marcha
e os cavalos que percorrem as ruas lá fora
a passagem das memórias de dor e derrota e infelicidade:
Linda, você o trouxe para mim,
quando levá-lo embora
faça-o devagar e sem esforço
faça-o como se eu estivesse morrendo no meu sono em vez de na
minha vida, amém.
(gosto da água mais quente do que ela)
e o rosto dela é sempre macio e calmo
e ela me lava primeiro
espalha espuma pelo meu saco
levanta o saco
aperta os colhões,
então lava o pau:
“ei, essa coisa ainda está dura!”
então pega os pelos todos ali embaixo –
a barriga, as costas, o pescoço, as pernas,
eu abro sorriso sorriso sorriso,
e então a lavo...
primeiro a xota, eu
fico atrás dela, meu pau em suas nádegas
vou ensaboando suavemente os pelos da xota,
lavo ali com um movimento relaxante,
me demoro talvez mais do que o necessário,
então pego a parte de trás das pernas, a bunda,
as costas, o pescoço, eu a viro, eu a beijo,
ensaboo os peitos, pego eles e a barriga, o pescoço,
a frente das pernas, os tornozelos, os pés,
e então a xota, mais uma vez, pra dar sorte...
outro beijo, e ela sai primeiro,
atoalhada, às vezes cantando enquanto eu permaneço
ligando a água no mais quente
sentindo os bons momentos do milagre do amor
e então saio...
geralmente é a calmaria do meio da tarde,
e nos vestindo nós conversamos sobre o que mais
pode haver para fazer,
mas estarmos juntos resolve a maior parte,
na verdade, resolve tudo
pois enquanto essas coisas permanecerem resolvidas
na história da mulher e do
homem, é diferente para cada um
melhor e pior para cada um –
para mim, já é bastante esplêndido recordar
a passagem dos exércitos em marcha
e os cavalos que percorrem as ruas lá fora
a passagem das memórias de dor e derrota e infelicidade:
Linda, você o trouxe para mim,
quando levá-lo embora
faça-o devagar e sem esforço
faça-o como se eu estivesse morrendo no meu sono em vez de na
minha vida, amém.
1 768
Charles Bukowski
Sorrindo, Brilhando, Cantando
minha filha parecia uma Katharine Hepburn muito jovem
na apresentação de Natal da escola primária.
estava lá com os outros
sorrindo, brilhando, cantando
no vestido longo que eu tinha comprado pra ela.
ela parece a Katharine Hepburn, falei à mãe dela
que estava sentada à minha esquerda.
ela parece a Katharine Hepburn, falei à minha namorada
que estava sentada à minha direita.
a vó da minha filha estava a dois assentos de mim;
não falei nada pra ela.
nunca gostei das atuações de Katharine Hepburn,
mas sempre gostei de sua aparência,
de sua classe, sabe,
alguém com quem você podia conversar na cama
por uma hora e meia antes de pegar no
sono.
posso ver que minha filha vai ser uma
mulher belíssima.
um dia quando eu estiver bastante velho
ela provavelmente vai me trazer o urinol com um sorriso
dos mais amáveis.
e ela provavelmente vai se casar com um caminhoneiro que
caminha pesadão
e joga boliche todas as quintas à noite
com a rapaziada.
bem, nada disso importa.
o que importa é o agora.
sua avó é uma grande mulher de rapina.
sua mãe é uma liberal psicótica e amante da vida.
seu pai é um bêbado.
minha filha parecia uma Katharine Hepburn muito jovem.
depois da apresentação de Natal
nós fomos ao McDonald’s e comemos, e alimentamos os pardais.
faltava uma semana para o Natal.
estávamos menos preocupados com isso do que nove décimos da cidade.
isso é classe, nós dois temos classe.
ignorar a vida no momento certo exige uma sabedoria especial:
como um Feliz Ano-Novo para
todos vocês.
na apresentação de Natal da escola primária.
estava lá com os outros
sorrindo, brilhando, cantando
no vestido longo que eu tinha comprado pra ela.
ela parece a Katharine Hepburn, falei à mãe dela
que estava sentada à minha esquerda.
ela parece a Katharine Hepburn, falei à minha namorada
que estava sentada à minha direita.
a vó da minha filha estava a dois assentos de mim;
não falei nada pra ela.
nunca gostei das atuações de Katharine Hepburn,
mas sempre gostei de sua aparência,
de sua classe, sabe,
alguém com quem você podia conversar na cama
por uma hora e meia antes de pegar no
sono.
posso ver que minha filha vai ser uma
mulher belíssima.
um dia quando eu estiver bastante velho
ela provavelmente vai me trazer o urinol com um sorriso
dos mais amáveis.
e ela provavelmente vai se casar com um caminhoneiro que
caminha pesadão
e joga boliche todas as quintas à noite
com a rapaziada.
bem, nada disso importa.
o que importa é o agora.
sua avó é uma grande mulher de rapina.
sua mãe é uma liberal psicótica e amante da vida.
seu pai é um bêbado.
minha filha parecia uma Katharine Hepburn muito jovem.
depois da apresentação de Natal
nós fomos ao McDonald’s e comemos, e alimentamos os pardais.
faltava uma semana para o Natal.
estávamos menos preocupados com isso do que nove décimos da cidade.
isso é classe, nós dois temos classe.
ignorar a vida no momento certo exige uma sabedoria especial:
como um Feliz Ano-Novo para
todos vocês.
1 034
Charles Bukowski
Jane E Droll
estávamos num barraco apertado na
região central de L.A.
havia uma mulher na cama
comigo
e havia um enorme
cão
ao pé da cama
e enquanto os dois dormiam
fiquei escutando suas
respirações
e pensei: eles dependem
de mim.
absurdamente curioso.
esse pensamento continuou comigo
pela manhã
depois do nosso café
dando a ré com o carro
na saída da garagem
a mulher e o cão
no degrau da frente
sentados e me
observando
enquanto eu ria e acenava
e ela sorria e
acenava
e o cão olhava
enquanto eu recuava até a
rua e desaparecia
cidade adentro.
agora nesta noite
ainda penso neles
sentados naquele
degrau da frente
é como um filme
antigo – de 35 anos
atrás – que ninguém jamais
viu ou entendeu
exceto eu
e muito embora os
críticos possam rotulá-lo de
ordinário
eu gosto dele
bastante.
região central de L.A.
havia uma mulher na cama
comigo
e havia um enorme
cão
ao pé da cama
e enquanto os dois dormiam
fiquei escutando suas
respirações
e pensei: eles dependem
de mim.
absurdamente curioso.
esse pensamento continuou comigo
pela manhã
depois do nosso café
dando a ré com o carro
na saída da garagem
a mulher e o cão
no degrau da frente
sentados e me
observando
enquanto eu ria e acenava
e ela sorria e
acenava
e o cão olhava
enquanto eu recuava até a
rua e desaparecia
cidade adentro.
agora nesta noite
ainda penso neles
sentados naquele
degrau da frente
é como um filme
antigo – de 35 anos
atrás – que ninguém jamais
viu ou entendeu
exceto eu
e muito embora os
críticos possam rotulá-lo de
ordinário
eu gosto dele
bastante.
1 024
Charles Bukowski
Até Que Foi Bom
ela é agora uma boa e velha garota.
ela ficou gorda e grisalha.
fomos amantes muitos anos
atrás,
houve uma criança,
há uma criança,
hoje uma mulher.
essa mulher me deu
uma fita
com sua mãe
falando sobre poesia
e sua vida e
lendo seus
poemas.
uma fita com uma hora de gravação.
ouvi a fita.
infelizmente
a poesia não era
muito boa
mas quase toda poesia
não é.
ela seguia falando
sobre
oficinas de poesia,
diversas influências –
família, amigos, seu
marido (não
era eu), que não
parecia gostar do fato de
ela escrever poesia.
ela mantinha um caderninho
perto da cama
e outro em sua
bolsa.
falava sobre
isso e aquilo.
fiquei feliz por ela
que tenham lhe dado espaço
numa rádio
por uma hora.
eu já tinha ouvido coisas piores
de professores que
haviam assumido
a literatura
como ofício.
e conforme fui escutando
sua voz
era a
mesma voz
que eu escutara
20 anos atrás
quando apareci
na casa dela
na Vermont Avenue
e a encontrei
alimentando formigas
com açúcar
em seu quarto
e havia
várias formigas
lá
mas ela tinha
um corpo fantástico
na época
e eu estava
duro que nem
o diabo.
foi uma
boa hora,
Fran.
ela ficou gorda e grisalha.
fomos amantes muitos anos
atrás,
houve uma criança,
há uma criança,
hoje uma mulher.
essa mulher me deu
uma fita
com sua mãe
falando sobre poesia
e sua vida e
lendo seus
poemas.
uma fita com uma hora de gravação.
ouvi a fita.
infelizmente
a poesia não era
muito boa
mas quase toda poesia
não é.
ela seguia falando
sobre
oficinas de poesia,
diversas influências –
família, amigos, seu
marido (não
era eu), que não
parecia gostar do fato de
ela escrever poesia.
ela mantinha um caderninho
perto da cama
e outro em sua
bolsa.
falava sobre
isso e aquilo.
fiquei feliz por ela
que tenham lhe dado espaço
numa rádio
por uma hora.
eu já tinha ouvido coisas piores
de professores que
haviam assumido
a literatura
como ofício.
e conforme fui escutando
sua voz
era a
mesma voz
que eu escutara
20 anos atrás
quando apareci
na casa dela
na Vermont Avenue
e a encontrei
alimentando formigas
com açúcar
em seu quarto
e havia
várias formigas
lá
mas ela tinha
um corpo fantástico
na época
e eu estava
duro que nem
o diabo.
foi uma
boa hora,
Fran.
1 115
Charles Bukowski
Até Que Foi Bom
ela é agora uma boa e velha garota.
ela ficou gorda e grisalha.
fomos amantes muitos anos
atrás,
houve uma criança,
há uma criança,
hoje uma mulher.
essa mulher me deu
uma fita
com sua mãe
falando sobre poesia
e sua vida e
lendo seus
poemas.
uma fita com uma hora de gravação.
ouvi a fita.
infelizmente
a poesia não era
muito boa
mas quase toda poesia
não é.
ela seguia falando
sobre
oficinas de poesia,
diversas influências –
família, amigos, seu
marido (não
era eu), que não
parecia gostar do fato de
ela escrever poesia.
ela mantinha um caderninho
perto da cama
e outro em sua
bolsa.
falava sobre
isso e aquilo.
fiquei feliz por ela
que tenham lhe dado espaço
numa rádio
por uma hora.
eu já tinha ouvido coisas piores
de professores que
haviam assumido
a literatura
como ofício.
e conforme fui escutando
sua voz
era a
mesma voz
que eu escutara
20 anos atrás
quando apareci
na casa dela
na Vermont Avenue
e a encontrei
alimentando formigas
com açúcar
em seu quarto
e havia
várias formigas
lá
mas ela tinha
um corpo fantástico
na época
e eu estava
duro que nem
o diabo.
foi uma
boa hora,
Fran.
ela ficou gorda e grisalha.
fomos amantes muitos anos
atrás,
houve uma criança,
há uma criança,
hoje uma mulher.
essa mulher me deu
uma fita
com sua mãe
falando sobre poesia
e sua vida e
lendo seus
poemas.
uma fita com uma hora de gravação.
ouvi a fita.
infelizmente
a poesia não era
muito boa
mas quase toda poesia
não é.
ela seguia falando
sobre
oficinas de poesia,
diversas influências –
família, amigos, seu
marido (não
era eu), que não
parecia gostar do fato de
ela escrever poesia.
ela mantinha um caderninho
perto da cama
e outro em sua
bolsa.
falava sobre
isso e aquilo.
fiquei feliz por ela
que tenham lhe dado espaço
numa rádio
por uma hora.
eu já tinha ouvido coisas piores
de professores que
haviam assumido
a literatura
como ofício.
e conforme fui escutando
sua voz
era a
mesma voz
que eu escutara
20 anos atrás
quando apareci
na casa dela
na Vermont Avenue
e a encontrei
alimentando formigas
com açúcar
em seu quarto
e havia
várias formigas
lá
mas ela tinha
um corpo fantástico
na época
e eu estava
duro que nem
o diabo.
foi uma
boa hora,
Fran.
1 115
Charles Bukowski
Mulher Adormecida
fico sentado na cama à noite e ouço você
roncar
conheci você numa estação rodoviária
e agora fico viajando nas suas costas
de um branco doentio e manchadas por
sardas de criança
enquanto a lâmpada desnuda a insolúvel
tristeza do mundo
sobre o seu corpo.
não consigo ver seus pés
mas só posso deduzir que sejam
os mais encantadores pés.
a quem você pertence?
você é real?
eu penso em flores, animais, pássaros
todos eles parecem mais do que bons
e tão claramente
reais.
mas você não consegue evitar ser uma
mulher. cada um de nós é selecionado para ser
algo. a aranha, o cozinheiro.
o elefante. é como se fôssemos cada um
uma pintura pendurada em alguma
parede de galeria.
– e agora a pintura se vira
de costas, e por cima de um cotovelo curvado
consigo ver ½ boca, um olho e
quase um nariz.
o resto de você está escondido
fora de vista
mas sei que você é uma
obra
contemporânea, moderna e viva
talvez não imortal
mas nós já
amamos.
por favor continue a
roncar.
roncar
conheci você numa estação rodoviária
e agora fico viajando nas suas costas
de um branco doentio e manchadas por
sardas de criança
enquanto a lâmpada desnuda a insolúvel
tristeza do mundo
sobre o seu corpo.
não consigo ver seus pés
mas só posso deduzir que sejam
os mais encantadores pés.
a quem você pertence?
você é real?
eu penso em flores, animais, pássaros
todos eles parecem mais do que bons
e tão claramente
reais.
mas você não consegue evitar ser uma
mulher. cada um de nós é selecionado para ser
algo. a aranha, o cozinheiro.
o elefante. é como se fôssemos cada um
uma pintura pendurada em alguma
parede de galeria.
– e agora a pintura se vira
de costas, e por cima de um cotovelo curvado
consigo ver ½ boca, um olho e
quase um nariz.
o resto de você está escondido
fora de vista
mas sei que você é uma
obra
contemporânea, moderna e viva
talvez não imortal
mas nós já
amamos.
por favor continue a
roncar.
742
Charles Bukowski
Mulher Adormecida
fico sentado na cama à noite e ouço você
roncar
conheci você numa estação rodoviária
e agora fico viajando nas suas costas
de um branco doentio e manchadas por
sardas de criança
enquanto a lâmpada desnuda a insolúvel
tristeza do mundo
sobre o seu corpo.
não consigo ver seus pés
mas só posso deduzir que sejam
os mais encantadores pés.
a quem você pertence?
você é real?
eu penso em flores, animais, pássaros
todos eles parecem mais do que bons
e tão claramente
reais.
mas você não consegue evitar ser uma
mulher. cada um de nós é selecionado para ser
algo. a aranha, o cozinheiro.
o elefante. é como se fôssemos cada um
uma pintura pendurada em alguma
parede de galeria.
– e agora a pintura se vira
de costas, e por cima de um cotovelo curvado
consigo ver ½ boca, um olho e
quase um nariz.
o resto de você está escondido
fora de vista
mas sei que você é uma
obra
contemporânea, moderna e viva
talvez não imortal
mas nós já
amamos.
por favor continue a
roncar.
roncar
conheci você numa estação rodoviária
e agora fico viajando nas suas costas
de um branco doentio e manchadas por
sardas de criança
enquanto a lâmpada desnuda a insolúvel
tristeza do mundo
sobre o seu corpo.
não consigo ver seus pés
mas só posso deduzir que sejam
os mais encantadores pés.
a quem você pertence?
você é real?
eu penso em flores, animais, pássaros
todos eles parecem mais do que bons
e tão claramente
reais.
mas você não consegue evitar ser uma
mulher. cada um de nós é selecionado para ser
algo. a aranha, o cozinheiro.
o elefante. é como se fôssemos cada um
uma pintura pendurada em alguma
parede de galeria.
– e agora a pintura se vira
de costas, e por cima de um cotovelo curvado
consigo ver ½ boca, um olho e
quase um nariz.
o resto de você está escondido
fora de vista
mas sei que você é uma
obra
contemporânea, moderna e viva
talvez não imortal
mas nós já
amamos.
por favor continue a
roncar.
742
Charles Bukowski
Para a Pequena
ela está no andar de baixo cantando, tocando seu
violão, acho que ela está mais feliz do que
de costume e eu fico contente. às vezes minha
mente adoece e sou cruel com ela.
ela pesa quarenta e cinco
quilos
tem pulsos finos e
seus olhos
se mostram com frequência puramente tristes.
às vezes minhas necessidades
me tornam egoísta
uma contracorrente afeta meu
cérebro
e nunca fui
bom
em pedir desculpas.
eu a escuto cantando
agora é
bem tarde da noite
e daqui
consigo ver as
luzes da cidade
e elas são tão doces como
maduras frutas de quintal
e este quarto está
calmo
tão estranho
como se a magia tivesse
virado algo normal.
violão, acho que ela está mais feliz do que
de costume e eu fico contente. às vezes minha
mente adoece e sou cruel com ela.
ela pesa quarenta e cinco
quilos
tem pulsos finos e
seus olhos
se mostram com frequência puramente tristes.
às vezes minhas necessidades
me tornam egoísta
uma contracorrente afeta meu
cérebro
e nunca fui
bom
em pedir desculpas.
eu a escuto cantando
agora é
bem tarde da noite
e daqui
consigo ver as
luzes da cidade
e elas são tão doces como
maduras frutas de quintal
e este quarto está
calmo
tão estranho
como se a magia tivesse
virado algo normal.
1 091
Charles Bukowski
Para a Pequena
ela está no andar de baixo cantando, tocando seu
violão, acho que ela está mais feliz do que
de costume e eu fico contente. às vezes minha
mente adoece e sou cruel com ela.
ela pesa quarenta e cinco
quilos
tem pulsos finos e
seus olhos
se mostram com frequência puramente tristes.
às vezes minhas necessidades
me tornam egoísta
uma contracorrente afeta meu
cérebro
e nunca fui
bom
em pedir desculpas.
eu a escuto cantando
agora é
bem tarde da noite
e daqui
consigo ver as
luzes da cidade
e elas são tão doces como
maduras frutas de quintal
e este quarto está
calmo
tão estranho
como se a magia tivesse
virado algo normal.
violão, acho que ela está mais feliz do que
de costume e eu fico contente. às vezes minha
mente adoece e sou cruel com ela.
ela pesa quarenta e cinco
quilos
tem pulsos finos e
seus olhos
se mostram com frequência puramente tristes.
às vezes minhas necessidades
me tornam egoísta
uma contracorrente afeta meu
cérebro
e nunca fui
bom
em pedir desculpas.
eu a escuto cantando
agora é
bem tarde da noite
e daqui
consigo ver as
luzes da cidade
e elas são tão doces como
maduras frutas de quintal
e este quarto está
calmo
tão estranho
como se a magia tivesse
virado algo normal.
1 091
Charles Bukowski
Quieto
sentado esta noite
a esta
mesa
junto à
janela
a mulher está
acabrunhada
no
quarto
ela está em seus
dias especialmente
ruins.
bem, eu tenho
os meus
então
em deferência
a ela
a máquina de escrever
está
parada.
é esquisito
imprimir este troço
à
mão
me faz lembrar os
tempos
passados
quando as coisas
não
iam bem
de outra
maneira.
agora
o gato vem
me
ver
ele desaba
sob a mesa
entre os meus
pés
estamos ambos
derretendo
no mesmo
fogo.
e, querido
gato, ainda estamos
trabalhando com o
poema
e alguns
notaram
que há certa
“derrapagem”
aqui.
bem, aos 65
anos de idade eu posso
“derrapar”
à vontade e mesmo assim
deixar esses
críticos piegas
comendo
poeira.
Li Po sabia
o que fazer:
beber mais uma
garrafa e
enfrentar
as consequências.
eu me viro à minha
direita, vejo uma cabeça
enorme (refletida na
janela) sugando
um cigarro
e
nós arreganhamos os dentes
um para o
outro.
aí
me viro
de volta
fico aqui sentado
e
imprimo mais palavras sobre este
papel
não há nunca
uma derradeira
declaração
grandiosa
e esse é o
dilema
o embuste
que trabalha
contra
nós
mas
eu queria que você pudesse ver
o meu
gato
ele tem uma
pincelada
de branco em seu
rosto
contra um
fundo
amarelo-laranja
e aí
eu levanto a cabeça
e olho cozinha
adentro
vejo uma porção
brilhante
sob a luz
no alto
que se dissolve aos poucos em
escuridão
e depois numa escuridão
mais escura e
mais além não consigo
ver
nada.
a esta
mesa
junto à
janela
a mulher está
acabrunhada
no
quarto
ela está em seus
dias especialmente
ruins.
bem, eu tenho
os meus
então
em deferência
a ela
a máquina de escrever
está
parada.
é esquisito
imprimir este troço
à
mão
me faz lembrar os
tempos
passados
quando as coisas
não
iam bem
de outra
maneira.
agora
o gato vem
me
ver
ele desaba
sob a mesa
entre os meus
pés
estamos ambos
derretendo
no mesmo
fogo.
e, querido
gato, ainda estamos
trabalhando com o
poema
e alguns
notaram
que há certa
“derrapagem”
aqui.
bem, aos 65
anos de idade eu posso
“derrapar”
à vontade e mesmo assim
deixar esses
críticos piegas
comendo
poeira.
Li Po sabia
o que fazer:
beber mais uma
garrafa e
enfrentar
as consequências.
eu me viro à minha
direita, vejo uma cabeça
enorme (refletida na
janela) sugando
um cigarro
e
nós arreganhamos os dentes
um para o
outro.
aí
me viro
de volta
fico aqui sentado
e
imprimo mais palavras sobre este
papel
não há nunca
uma derradeira
declaração
grandiosa
e esse é o
dilema
o embuste
que trabalha
contra
nós
mas
eu queria que você pudesse ver
o meu
gato
ele tem uma
pincelada
de branco em seu
rosto
contra um
fundo
amarelo-laranja
e aí
eu levanto a cabeça
e olho cozinha
adentro
vejo uma porção
brilhante
sob a luz
no alto
que se dissolve aos poucos em
escuridão
e depois numa escuridão
mais escura e
mais além não consigo
ver
nada.
1 140
Charles Bukowski
Quieto
sentado esta noite
a esta
mesa
junto à
janela
a mulher está
acabrunhada
no
quarto
ela está em seus
dias especialmente
ruins.
bem, eu tenho
os meus
então
em deferência
a ela
a máquina de escrever
está
parada.
é esquisito
imprimir este troço
à
mão
me faz lembrar os
tempos
passados
quando as coisas
não
iam bem
de outra
maneira.
agora
o gato vem
me
ver
ele desaba
sob a mesa
entre os meus
pés
estamos ambos
derretendo
no mesmo
fogo.
e, querido
gato, ainda estamos
trabalhando com o
poema
e alguns
notaram
que há certa
“derrapagem”
aqui.
bem, aos 65
anos de idade eu posso
“derrapar”
à vontade e mesmo assim
deixar esses
críticos piegas
comendo
poeira.
Li Po sabia
o que fazer:
beber mais uma
garrafa e
enfrentar
as consequências.
eu me viro à minha
direita, vejo uma cabeça
enorme (refletida na
janela) sugando
um cigarro
e
nós arreganhamos os dentes
um para o
outro.
aí
me viro
de volta
fico aqui sentado
e
imprimo mais palavras sobre este
papel
não há nunca
uma derradeira
declaração
grandiosa
e esse é o
dilema
o embuste
que trabalha
contra
nós
mas
eu queria que você pudesse ver
o meu
gato
ele tem uma
pincelada
de branco em seu
rosto
contra um
fundo
amarelo-laranja
e aí
eu levanto a cabeça
e olho cozinha
adentro
vejo uma porção
brilhante
sob a luz
no alto
que se dissolve aos poucos em
escuridão
e depois numa escuridão
mais escura e
mais além não consigo
ver
nada.
a esta
mesa
junto à
janela
a mulher está
acabrunhada
no
quarto
ela está em seus
dias especialmente
ruins.
bem, eu tenho
os meus
então
em deferência
a ela
a máquina de escrever
está
parada.
é esquisito
imprimir este troço
à
mão
me faz lembrar os
tempos
passados
quando as coisas
não
iam bem
de outra
maneira.
agora
o gato vem
me
ver
ele desaba
sob a mesa
entre os meus
pés
estamos ambos
derretendo
no mesmo
fogo.
e, querido
gato, ainda estamos
trabalhando com o
poema
e alguns
notaram
que há certa
“derrapagem”
aqui.
bem, aos 65
anos de idade eu posso
“derrapar”
à vontade e mesmo assim
deixar esses
críticos piegas
comendo
poeira.
Li Po sabia
o que fazer:
beber mais uma
garrafa e
enfrentar
as consequências.
eu me viro à minha
direita, vejo uma cabeça
enorme (refletida na
janela) sugando
um cigarro
e
nós arreganhamos os dentes
um para o
outro.
aí
me viro
de volta
fico aqui sentado
e
imprimo mais palavras sobre este
papel
não há nunca
uma derradeira
declaração
grandiosa
e esse é o
dilema
o embuste
que trabalha
contra
nós
mas
eu queria que você pudesse ver
o meu
gato
ele tem uma
pincelada
de branco em seu
rosto
contra um
fundo
amarelo-laranja
e aí
eu levanto a cabeça
e olho cozinha
adentro
vejo uma porção
brilhante
sob a luz
no alto
que se dissolve aos poucos em
escuridão
e depois numa escuridão
mais escura e
mais além não consigo
ver
nada.
1 140
Charles Bukowski
Procura-Se Ajuda
eu era um jovem demente e aí encontrei certo livro escrito por um
homem mais velho demente e me senti melhor porque ele era
capaz de botar no papel
e aí encontrei um livro de uma fase posterior desse mesmo homem mais velho
demente
só que a mim
ele já não parecia demente ele só parecia ser
maçante –
todos nós aguentamos bem por um tempo, aí com defeitos e
lapsos e erros inerentes
na maioria de nós
tão frequentemente nos deterioramos da noite para o dia
chegando a um estado tão próximo da defecação
que o resultado final é quase insuportável para os
sentidos.
por sorte, encontrei alguns outros homens dementes que quase permaneceram do
mesmo jeito até que
morreram.
isso é mais digno, sabe, e beneficia um pouco mais as nossas
vidas
conforme desempenhamos as nossas –
umbrosas –
tarefas.
homem mais velho demente e me senti melhor porque ele era
capaz de botar no papel
e aí encontrei um livro de uma fase posterior desse mesmo homem mais velho
demente
só que a mim
ele já não parecia demente ele só parecia ser
maçante –
todos nós aguentamos bem por um tempo, aí com defeitos e
lapsos e erros inerentes
na maioria de nós
tão frequentemente nos deterioramos da noite para o dia
chegando a um estado tão próximo da defecação
que o resultado final é quase insuportável para os
sentidos.
por sorte, encontrei alguns outros homens dementes que quase permaneceram do
mesmo jeito até que
morreram.
isso é mais digno, sabe, e beneficia um pouco mais as nossas
vidas
conforme desempenhamos as nossas –
umbrosas –
tarefas.
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