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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Me Modernizando

bebi mais do que o normal esta noite, produzi com isso alguma
escrita mas eis ali minha máquina de escrever elétrica IBM e ambas
as fitas acabaram ao mesmo tempo: a fita de escrever e a fita apagadora
e geralmente consigo trocá-las
mas esta noite eu estava bêbado demais:

foi uma batalha da alma inserir a fita de escrever mas
no tocante à fita apagadora me faltou
alma: a fita grudenta grudava em coisas
indevidas, torcia-se como um pretzel, e a joguei fora e
tentei outra.
devem ter se passado dez minutos até que fiz
direito.
enquanto isso – eu já estava em outra garrafa, então olhei
a caixa no chão: restavam-me uma fita de escrever e uma
fita apagadora por isso recorri ao Manual de Instruções e disquei o
número 800 que acho que ficava em Maryland ou Dakota do Sul e
fiquei surpreso por ser atendido: eram 3:30 da manhã em
Los Angeles.

falei à mulher sobre a minha necessidade mas ela não entendia direito,
ficava exigindo um # do pedido.
eu estava com Richard Wagner no máximo volume no rádio e falei a ela
que eu não tinha um maldito # do pedido.
ela
desligou na minha cara e eu disquei de novo e dessa vez peguei um jovem
simpático e ele disse “que música maravilhosa o senhor está ouvindo...”, mas
o jovem simpático também exigiu um # do pedido.
sequei uma taça inteira de vinho, falei “escuta, eu não tinha um
# do pedido na primeira vez que liguei...”

“mas, senhor, na segunda vez que o senhor liga a regra é que deve ter
um # do pedido.”

“você quer dizer que não posso comprar minhas fitas? eu sou escritor, porra, como
vou fazer? você cortaria fora os chifres de um touro?”

“o senhor tem a sua última conta aí
consigo?”

“sim, sim...”

“o # do pedido deve estar na conta,
senhor...”

“estou dizendo, não tem nada aqui indicando um # do
pedido!”

“bem, senhor...”

“não, não, não!”

sequei outra taça de
vinho, “escuta, vamos fazer de conta que esta é a primeira vez que ligo
pra vocês e vamos começar pelo começo?”

“tudo bem, senhor... agora, o senhor pode listar pra mim o que
deseja?”

“obrigado! quero 18 fitas tira-tinta, item # 1136433 e quero 12
cartuchos de fita preta, item # 1299508.”

então li para ele o # do meu cartão American Express que não vou incluir
aqui.

“o senhor receberá todas as suas mercadorias dentro de 8 a dez dias, senhor...”
“obrigado!”

então, desligando, notei uma linha na minha conta anterior, ela dizia # de
pedido 11101 – isso e aquilo e traço isso e aquilo.
tinha estado ali o tempo
inteiro.

agora eu estava pronto para escrever de novo, o socorro já vinha, minha mente
livre, inclinei o corpo à frente e comecei a bater as teclas:
frsyj mrbrt ,syyrtrf sd ,ivj, sd yjsy dytuhhlr yo dysy
slibr s,pmh yjr %rp%;r smf om d%oyr pg yjs
%rp%;r.
frsyj eo%% mr yjr rsdody %sty.
1 059
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Porq Tud Se Sgota

abatido do lado de fora do Seaside Motel e fico olha
ndo a lagosta viva na peixaria do píer de Redondo
Beach a ruiva partiu para torturar outros machos
está chovendo de novo está chovendo de novo e de novo às vez
es penso em Bogart e não gosto mais de Bogart hoj
e em dia porq tud se sgota – quando entra um dinheirin
ho na sua conta você pode rabiscar qualquer coisa na p
ágina chamar de Arte e passar a perna abatido num
mercado de peixes as lagostas que você vê elas são apanhadas com
o nós somos apanhados. pense em Gertie S. sentada lá
contando aos rapazes como aprimorar. ela era um tran
satlântico eu prefiro trens puxando vagões cheios de arma
s roupa íntima pretzels fotos de Mao Tsé-Tung haltere
s porq tud se sgota – (escrever mãe) quando você florar
minha pedra note a mosca na sua manga e pense
num violino pendurado numa casa de penhores. em muitas casas de penhores fiq
uei eu abatido na melhor em L.A. eles puxam
uma pequena cortina em volta daquele que quer penhorar e d
aquele que poderia pagar algo. é uma Arte casas de penhores s
ão necessárias como F. Scott Fitz era necessário o que nos
faz hesitar neste momento: eu gosto de olhar lagostas viva
s elas são fogo embaixo d’água hemorroidas – grossa outr
a mágica – colhões!: elas são lagostas mas gosto de o
lhá-las quando eu se eu ficar rico vou comprar um
grande tanque de vidro digamos três metros por um e v
ou sentar e olhá-las por horas enquanto bebo meu
mosele branco que estou bebendo agora e quando as pessoas apar
ecerem vou escorraçá-las como faço agora. quero dizer,
alguns dizem que mudança quer dizer crescimento bem certos at
os permanentes também previnem decadência como passar fio dental fode
r esgrimir engordar arrotar e sangrar sob uma lâmp
ada General Electric de cem watts. romances são legais c
amundongos são irrequietos e meu advogado me diz que Abraham L
incoln fez uma merda que nunca entrou nos livr
os de história – o muro é o mesmo por onde quer que se olhe.
nunca peça desculpa. entenda o pesar do erro. m
as nunca. não peça desculpa para ovo serpente ou am
ante. abatido num táxi verde perto de Santa Cru
z com um AE-I no meu colo trambicado na mão d
o punguista pendurado como um presunto. por acaso foi Ginsberg que
dançou no poste em maio na Iugoslávia para celebrar o Dia de M
aio se me pegarem fazendo isso podem arrancar meus dois
bolsos de trás. sabe eu nunca escutei minha mãe mijar
. escutei muitas mulheres mijando mas agora que penso
nisso não consigo lembrar de jamais ter escutado minha mãe mijar.
não sou grande fã de planetas não que me desagrad
em quero dizer tipo cascas de amendoim num cinzeiro isso são
planetas. às vezes a cada 3 ou 4 anos você vê um ro
sto geralmente não é um rosto de criança mas esse r
osto rende um dia espantoso muito embora a luz
esteja de certo modo ou você estava dirigindo um a
utomóvel ou você estava caminhando e o rosto estava passa
ndo num ônibus ou num carro isso faz daquele dia do
momento como que um sacolejo cerebral algo pra lhe dizer é
sempre solitário você estar abatido enquanto tira um
chiclete da embalagem na frente do salão de bilhar
mais antigo de Hollywood no lado oeste da Western embaix
o do bulevar. o bruto é líquido e o líquido é b
ruto e Gertie S. nunca mostrou seu joelho aos ra
pazes e Van Gogh era uma lagosta um amendoim torrado. eu
acho que “guinada” é uma palavra esplêndida e ainda está
chovendo abatido em sacos d’água com água para focinho
s de porco astutamente como cigarros para homens e para
mulheres eu me importo o bastante para proclamar liberdade em toda
a terra depois me pergunto por que freiras são freiras açougueiros iss
o e homens gordos me remetem a coisas gloriosas respirand
o pó por seus pigarros. se eu abatesse Bogar
t ele cuspiria seu cigarro agarraria seu flanco esquerdo na
camisa de listras pretas e brancas me olharia com
olho de nata e cairia. se significado é o que fazemos n
ós fazemos bastante se significado não é o que fazemos marque o qu
adrado #9 provavelmente cai bem a meio caminho o que mant
ém equilíbrio e a pobreza dos pobres e hidrantes
visco grandes cães em grandes gramados atrás de cercas
de ferro. Gertie S., claro, se interessava mais
pela palavra do que pelo sentimento e isso é claramente just
o porque homens de sentimento (ou mulheres) (ou) (veja)
(que legal) (eu sou) geralmente se tornam criaturas de Açã
o que fracassam (em certo sentido) e são registrados pelas pess
oas de palavras cujas obras geralmente fracassam não importa. (
que legal). rola e rola e rola continua chovendo
abatido num mercado de peixes por um italiano com mau
hálito que não fazia ideia de que eu alimentava meu gato duas vezes por dia e
nunca me masturbava quando ele estava no mesmo aposento. Agor
a você sabe neste ano de 1978 paguei $8441,32 para
o governo e $2419,84 para o estado da Califór
nia porque sento perante esta máquina de escrever geralmente b
êbado depois das corridas de cavalo e não uso sequer uma gr
ande editora comercial e já vivi à base de
uma barra de chocolate vagabundo por dia máquina de escrever penhorada imp
rimindo meu material à caneta e o material voltava. quero dizer,
camarada cão, os homens às vezes viram filmes. e às v
ezes acontece que os filmes não são tão bons. reze por
mim. não peço desculpa. astúcia não é a saída
persistência ajuda se você conseguir acertar o ferrão externo
às 5:32 crepúsculo – bum! os irmãos Waner costumavam
bater dois três para os Pirates agora somente 182 pessoas e
m Pittsburgh se lembram deles e isso é exatamente correto
. o que me desagradava naquela turma de Paris era qu
e eles exageravam demais o valor da escrita mas ninguém pode dizer
que não fizeram o maior esforço possível qu
ando todas as cabeças e olhos pareciam estar voltados para outro
lugar é por isso que apesar de todo o romantismo ass
ociado eu embarco não pela propaganda mas pel
as razões mais tolas da sorte e do caminho. minhas lagostas
cavalos e lagostas e o mosele branco e há uma
boa mulher perto de mim depois de todas as ruins ou ap
arentemente ruins. Rachmaninoff está tocando agora no rádio e
termino minha segunda garrafa de mosele. que adorável
caçador emotivo ele era meu gato preto gigante estirado
no tapete o aluguel está pago a chuva paro
u há um fedor nos meus dedos minhas costas doem abat
ido eu caio rolo aquelas lagostas examiná-las ex
iste um segredo ali elas contêm pirâmides derrubá-las tod
as as mulheres do passado todas as avenidas maçanetas bot
ões caindo da camiseta nunca escutei minha mãe mij
ar e nunca conheci seu pai acho que teríam
os bebido que chega, corretamente.
1 059
Charles Bukowski

Charles Bukowski

As Damas da Tarde

não há mais damas batendo à minha porta
às 3 da manhã
com garrafa à mão e corpo à mão;
elas chegam às 2:30 da tarde
e falam sobre a alma,
e são mais atraentes do que as de
antes, mas o acordo é claro –
nada de sexo casual,
devo comprar o pacote completo;
elas distinguem Manet de Mozart, conhecem todos os
Millers, e até tomam um gole de vinho
mas só um gole, e seus seios são vastos e
firmes
e suas bundas são esculpidas por
demônios do sexo;
conhecem os filósofos, os políticos e
os truques;
elas têm mentes e corpos,
e sentam e olham pra mim e dizem
“você parece um pouco nervoso. está tudo
bem?”
“ah sim”, eu digo, “ótimo”, pensando que porra é
essa?
não vou perder um mês todo pra descolar um
traseiro;
e olhões tão absurdamente lindos, sim,
as bruxas!
como sorriem, sabendo aquilo que você está
pensando –
botá-las numa cama e acabar logo com isso –
caralho! –
mas esta é uma época inflacionária
e com elas
você precisa pagar primeiro, durante e
depois. é
a mulher emancipada, e já não sou um
garotinho, e lhes permito que saiam
intocadas, quase todas tendo um ou dois homens arrasados
pelas costas,
e ainda na casa dos 20, e um encontro é combinado para outro
dia na semana, e elas saem
balançando seu eterno preço
pelas costas
como suas belas bundas,
mas me vejo escrevendo,
no dia seguinte,
“Querida K...: Sua beleza e sua juventude são simplesmente
demais para mim. não mereço
você, portanto peço que terminemos nosso relacionamento,
por pequeno que possa ter
sido...
seu,
...”
então sorrio, dobro a carta, boto no envelope, lambo
pra fechar, colo selo
e desço a rua
até a caixa de correio mais próxima
deixando a mulher emancipada tão livre quanto
deveria ser, e não agindo tão mal assim
comigo mesmo
tampouco.
1 094
Charles Bukowski

Charles Bukowski

As Damas da Tarde

não há mais damas batendo à minha porta
às 3 da manhã
com garrafa à mão e corpo à mão;
elas chegam às 2:30 da tarde
e falam sobre a alma,
e são mais atraentes do que as de
antes, mas o acordo é claro –
nada de sexo casual,
devo comprar o pacote completo;
elas distinguem Manet de Mozart, conhecem todos os
Millers, e até tomam um gole de vinho
mas só um gole, e seus seios são vastos e
firmes
e suas bundas são esculpidas por
demônios do sexo;
conhecem os filósofos, os políticos e
os truques;
elas têm mentes e corpos,
e sentam e olham pra mim e dizem
“você parece um pouco nervoso. está tudo
bem?”
“ah sim”, eu digo, “ótimo”, pensando que porra é
essa?
não vou perder um mês todo pra descolar um
traseiro;
e olhões tão absurdamente lindos, sim,
as bruxas!
como sorriem, sabendo aquilo que você está
pensando –
botá-las numa cama e acabar logo com isso –
caralho! –
mas esta é uma época inflacionária
e com elas
você precisa pagar primeiro, durante e
depois. é
a mulher emancipada, e já não sou um
garotinho, e lhes permito que saiam
intocadas, quase todas tendo um ou dois homens arrasados
pelas costas,
e ainda na casa dos 20, e um encontro é combinado para outro
dia na semana, e elas saem
balançando seu eterno preço
pelas costas
como suas belas bundas,
mas me vejo escrevendo,
no dia seguinte,
“Querida K...: Sua beleza e sua juventude são simplesmente
demais para mim. não mereço
você, portanto peço que terminemos nosso relacionamento,
por pequeno que possa ter
sido...
seu,
...”
então sorrio, dobro a carta, boto no envelope, lambo
pra fechar, colo selo
e desço a rua
até a caixa de correio mais próxima
deixando a mulher emancipada tão livre quanto
deveria ser, e não agindo tão mal assim
comigo mesmo
tampouco.
1 094
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Eu Achei Que Ia Me Dar Bem

eu tinha acabado de vomitar fora da porta do meu carro
misturas vermelhas, vinho, cerveja e uísque.
tarde da noite no sábado
não, cedo na manhã de domingo;
eu não aguentaria muito mais; eu estava sempre
me matando
indo parar em cadeias, hospitais, soleiras de porta, pisos...
traduzido para 7 línguas
tema de meia dúzia de cursos de lit. moderna,
eu ainda não sabia nada,
não queria saber;
forcei o último jato
fechei a porta
e rodei a leste pelo Sunset –
quando vi uma coisa com longos cabelos loiros
vomitando, realmente botando pra
fora – expelindo a vida podre o trago podre –
as calças femininas caídas e arrastadas no chão,
bunda nua sob o luar hollywoodiano de cartolina –
a coisa estava realmente passando mal:
ela arfava, então andava um pouquinho,
arfava, aquela bunda branca toda,
e eu pensei, caralho, vou me dar bem –
já faz uns 2 anos e estou cansado de escrever sobre
punhetas –
mas quando me aproximei
percebi que não eram calças femininas e sim masculinas;
era só um garoto de cabelo comprido com uma grande bunda pelada,
mas ora, como dizia o meu amigão Benny –
“qual diabo é a diferença?”
e eu estava prestes a parar junto dele
quando a viatura o viu
e se intrometeu entre nós
e os dois tiras saltaram
bem felizes e empolgados com seu achado –
“ei, mãe, quê que cê tá fazendo com o furo
de fora?”
o garoto afastou as pernas, jogou os braços para o ar.
“ei, você!”, um dos tiras gritou para mim.
desliguei meus faróis e caí fora devagar como se eu não tivesse
escutado. aí pisei fundo na primeira
à direita. na Gramercy Place com Hollywood Blvd. eu parei
abri a porta e
vomitei de novo.
pobre filho da puta, pensei, em vez de
levá-lo pra casa ou para um hospital
vão levá-lo pra cadeia – aquela bunda branca toda.
talvez eles se aproveitem um pouco. bem, era tarde demais para
mim.
fechei a porta, liguei os faróis, rodei em frente,
tentando lembrar onde eu
morava.
1 121
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Som Das Vidas Humanas

estranho calor, mulheres quentes e frias,
eu faço bem o amor, mas o amor não é apenas
sexo. grande parte das mulheres que conheci é
ambiciosa, e eu gosto de ficar deitado
sobre grandes e confortáveis travesseiros até as 3
da tarde. gosto de ficar olhando o sol
através das folhas de um arbusto lá fora
enquanto o mundo para além se mantém
afastado de mim. conheço tudo isso muito bem, todas
as páginas sujas, e gosto de ficar deitado
minha barriga voltada para o teto depois de fazer amor
tudo seguindo seu fluxo:
é tão bom ficar numa boa – se você deixar acontecer, não
faltará mais nada.
mas a mulher é estranha, ela é muito
ambiciosa – merda! eu não posso ficar o dia inteiro dormindo!
só o que fazemos é comer! fazer amor! dormir! comer! fazer amor!
minha querida, eu digo, há homens agora lá fora
colhendo tomates, alface, até mesmo algodão,
há homens e mulheres lá fora morrendo debaixo do sol,
há homens e mulheres lá fora morrendo em fábricas
por nada, por uma ninharia...
posso ouvir o som das vidas humanas sendo rasgadas em
pedaços...
você não tem ideia de como somos
abençoados...
mas você já deu um jeito, ela diz,
seus poemas...
meu amor se levanta da cama
escuto-a na peça ao lado.
a máquina de escrever está em movimento.
não sei por que as pessoas pensam que esforço e energia
têm alguma coisa a ver com a
criação.
creio que em coisas como política, medicina,
história e religião
eles também estão
enganados.
deito-me de bruços e logo adormeço com meu
cu voltado para o teto só para dar uma variada.
1 183
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Som Das Vidas Humanas

estranho calor, mulheres quentes e frias,
eu faço bem o amor, mas o amor não é apenas
sexo. grande parte das mulheres que conheci é
ambiciosa, e eu gosto de ficar deitado
sobre grandes e confortáveis travesseiros até as 3
da tarde. gosto de ficar olhando o sol
através das folhas de um arbusto lá fora
enquanto o mundo para além se mantém
afastado de mim. conheço tudo isso muito bem, todas
as páginas sujas, e gosto de ficar deitado
minha barriga voltada para o teto depois de fazer amor
tudo seguindo seu fluxo:
é tão bom ficar numa boa – se você deixar acontecer, não
faltará mais nada.
mas a mulher é estranha, ela é muito
ambiciosa – merda! eu não posso ficar o dia inteiro dormindo!
só o que fazemos é comer! fazer amor! dormir! comer! fazer amor!
minha querida, eu digo, há homens agora lá fora
colhendo tomates, alface, até mesmo algodão,
há homens e mulheres lá fora morrendo debaixo do sol,
há homens e mulheres lá fora morrendo em fábricas
por nada, por uma ninharia...
posso ouvir o som das vidas humanas sendo rasgadas em
pedaços...
você não tem ideia de como somos
abençoados...
mas você já deu um jeito, ela diz,
seus poemas...
meu amor se levanta da cama
escuto-a na peça ao lado.
a máquina de escrever está em movimento.
não sei por que as pessoas pensam que esforço e energia
têm alguma coisa a ver com a
criação.
creio que em coisas como política, medicina,
história e religião
eles também estão
enganados.
deito-me de bruços e logo adormeço com meu
cu voltado para o teto só para dar uma variada.
1 183
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Nós, Os Artistas –

em São Francisco a senhoria, 80, me ajudou a arrastar a Vitrola
verde escada acima e eu toquei a 5ª do Beethoven
até que batessem nas paredes.
havia um balde enorme no meio do quarto
cheio de garrafas de cerveja e de vinho;
então, pode ter sido o delirium tremens, certa tarde
ouvi o som de algo como um sino
só que o sino estava zunindo ao invés de bater,
e logo uma luz dourada apareceu no canto do quarto
bem perto do teto
e através do som e da luz
brilhou a face de uma mulher, envelhecida mas bonita,
e ela me olhou voltando os olhos para baixo
e então uma face masculina apareceu ao seu lado,
a luz se tornou mais forte e o homem disse:
nós, os artistas, estamos orgulhosos de você!
então a mulher disse: o pobrezinho está assustado,
e eu estava, e então eles desapareceram.
levantei, me vesti, e fui até o bar
me perguntando quem eram os artistas e por que razão estariam
orgulhosos de mim. havia umas vivas almas no bar
e consegui algumas bebidas de graça, coloquei fogo nas calças graças
às brasas do meu cachimbo de sabugo, quebrei um copo deliberadamente,
não me sentia incomodado, conheci um homem que dizia ser William
Saroyan, e bebemos até que uma mulher entrou e
puxou-o para fora pela orelha e pensei, não, esse não pode ser o
William, e um outro cara apareceu e disse: velho, você fala
grosso, bem, escute, há pouco saí por assalto e
agressão, então não se meta comigo! fomos para fora do
bar, ele era um bom garoto, sabia como usar os punhos, e aquilo seguiu
bastante parelho, até que eles nos separaram e voltamos
a entrar e bebemos por mais um par de horas. voltei
para o meu quarto, coloquei a 5a de Beethoven e
quando bateram nas paredes eu bati de
volta.
continuo pensando em mim mesmo jovem, lá, o jeito que eu era,
e mal posso acreditar nisso mas não importa.
espero que os artistas sigam orgulhosos de mim
mas eles nunca mais
retornaram.
a guerra atropelou tudo e quando me dei conta
estava em Nova Orleans
caminhando bêbado até um bar
depois de cair no meio da lama numa noite chuvosa.
vi um homem esfaquear outro e fui até uma juke box
colocar uma moeda.
aquilo era um começo. São
Francisco e Nova Orleans eram duas das minhas
cidades favoritas.
1 181
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Nós, Os Artistas –

em São Francisco a senhoria, 80, me ajudou a arrastar a Vitrola
verde escada acima e eu toquei a 5ª do Beethoven
até que batessem nas paredes.
havia um balde enorme no meio do quarto
cheio de garrafas de cerveja e de vinho;
então, pode ter sido o delirium tremens, certa tarde
ouvi o som de algo como um sino
só que o sino estava zunindo ao invés de bater,
e logo uma luz dourada apareceu no canto do quarto
bem perto do teto
e através do som e da luz
brilhou a face de uma mulher, envelhecida mas bonita,
e ela me olhou voltando os olhos para baixo
e então uma face masculina apareceu ao seu lado,
a luz se tornou mais forte e o homem disse:
nós, os artistas, estamos orgulhosos de você!
então a mulher disse: o pobrezinho está assustado,
e eu estava, e então eles desapareceram.
levantei, me vesti, e fui até o bar
me perguntando quem eram os artistas e por que razão estariam
orgulhosos de mim. havia umas vivas almas no bar
e consegui algumas bebidas de graça, coloquei fogo nas calças graças
às brasas do meu cachimbo de sabugo, quebrei um copo deliberadamente,
não me sentia incomodado, conheci um homem que dizia ser William
Saroyan, e bebemos até que uma mulher entrou e
puxou-o para fora pela orelha e pensei, não, esse não pode ser o
William, e um outro cara apareceu e disse: velho, você fala
grosso, bem, escute, há pouco saí por assalto e
agressão, então não se meta comigo! fomos para fora do
bar, ele era um bom garoto, sabia como usar os punhos, e aquilo seguiu
bastante parelho, até que eles nos separaram e voltamos
a entrar e bebemos por mais um par de horas. voltei
para o meu quarto, coloquei a 5a de Beethoven e
quando bateram nas paredes eu bati de
volta.
continuo pensando em mim mesmo jovem, lá, o jeito que eu era,
e mal posso acreditar nisso mas não importa.
espero que os artistas sigam orgulhosos de mim
mas eles nunca mais
retornaram.
a guerra atropelou tudo e quando me dei conta
estava em Nova Orleans
caminhando bêbado até um bar
depois de cair no meio da lama numa noite chuvosa.
vi um homem esfaquear outro e fui até uma juke box
colocar uma moeda.
aquilo era um começo. São
Francisco e Nova Orleans eram duas das minhas
cidades favoritas.
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Charles Bukowski

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Nós, Os Artistas –

em São Francisco a senhoria, 80, me ajudou a arrastar a Vitrola
verde escada acima e eu toquei a 5ª do Beethoven
até que batessem nas paredes.
havia um balde enorme no meio do quarto
cheio de garrafas de cerveja e de vinho;
então, pode ter sido o delirium tremens, certa tarde
ouvi o som de algo como um sino
só que o sino estava zunindo ao invés de bater,
e logo uma luz dourada apareceu no canto do quarto
bem perto do teto
e através do som e da luz
brilhou a face de uma mulher, envelhecida mas bonita,
e ela me olhou voltando os olhos para baixo
e então uma face masculina apareceu ao seu lado,
a luz se tornou mais forte e o homem disse:
nós, os artistas, estamos orgulhosos de você!
então a mulher disse: o pobrezinho está assustado,
e eu estava, e então eles desapareceram.
levantei, me vesti, e fui até o bar
me perguntando quem eram os artistas e por que razão estariam
orgulhosos de mim. havia umas vivas almas no bar
e consegui algumas bebidas de graça, coloquei fogo nas calças graças
às brasas do meu cachimbo de sabugo, quebrei um copo deliberadamente,
não me sentia incomodado, conheci um homem que dizia ser William
Saroyan, e bebemos até que uma mulher entrou e
puxou-o para fora pela orelha e pensei, não, esse não pode ser o
William, e um outro cara apareceu e disse: velho, você fala
grosso, bem, escute, há pouco saí por assalto e
agressão, então não se meta comigo! fomos para fora do
bar, ele era um bom garoto, sabia como usar os punhos, e aquilo seguiu
bastante parelho, até que eles nos separaram e voltamos
a entrar e bebemos por mais um par de horas. voltei
para o meu quarto, coloquei a 5a de Beethoven e
quando bateram nas paredes eu bati de
volta.
continuo pensando em mim mesmo jovem, lá, o jeito que eu era,
e mal posso acreditar nisso mas não importa.
espero que os artistas sigam orgulhosos de mim
mas eles nunca mais
retornaram.
a guerra atropelou tudo e quando me dei conta
estava em Nova Orleans
caminhando bêbado até um bar
depois de cair no meio da lama numa noite chuvosa.
vi um homem esfaquear outro e fui até uma juke box
colocar uma moeda.
aquilo era um começo. São
Francisco e Nova Orleans eram duas das minhas
cidades favoritas.
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