Poemas neste tema
Outros
Charles Bukowski
Quente
há fogo nos dedos e há fogo nos sapatos e há
fogo em atravessar uma sala
há fogo nos olhos do gato e há fogo nas bolas
do gato
e o relógio de pulso rasteja como cobra pela parte de trás da
cômoda
e a geladeira contém 9.000 sonhos congelados e picantes
e enquanto ouço as sinfonias de compositores mortos
sou consumido por uma alegre tristeza
há fogo nas paredes
e as lesmas no jardim só querem amor
e há fogo nas pragas daninhas
estamos ardendo ardendo ardendo
há fogo num copo d’água
os túmulos da Índia sorriem como enamorados filhos da mãe
as fiscais de estacionamento choram sozinhas à uma da manhã nas noites chuvosas
há fogo nas rachaduras das calçadas
e
durante a noite toda enquanto fiquei bebendo e datilografando estes
onze ou doze poemas
a energia elétrica ficou caindo e voltando
tem um vento feroz lá fora
e entre as quedas e as voltas
fiquei sentado aqui no escuro
máquina elétrica (haha) desligada luzes apagadas rádio desligado
bebendo no escuro
acendendo cigarros no escuro
saía fogo dos fósforos
estamos todos ardendo juntos
irmãos e irmãs ardentes
eu gosto eu gosto eu gosto
disso.
fogo em atravessar uma sala
há fogo nos olhos do gato e há fogo nas bolas
do gato
e o relógio de pulso rasteja como cobra pela parte de trás da
cômoda
e a geladeira contém 9.000 sonhos congelados e picantes
e enquanto ouço as sinfonias de compositores mortos
sou consumido por uma alegre tristeza
há fogo nas paredes
e as lesmas no jardim só querem amor
e há fogo nas pragas daninhas
estamos ardendo ardendo ardendo
há fogo num copo d’água
os túmulos da Índia sorriem como enamorados filhos da mãe
as fiscais de estacionamento choram sozinhas à uma da manhã nas noites chuvosas
há fogo nas rachaduras das calçadas
e
durante a noite toda enquanto fiquei bebendo e datilografando estes
onze ou doze poemas
a energia elétrica ficou caindo e voltando
tem um vento feroz lá fora
e entre as quedas e as voltas
fiquei sentado aqui no escuro
máquina elétrica (haha) desligada luzes apagadas rádio desligado
bebendo no escuro
acendendo cigarros no escuro
saía fogo dos fósforos
estamos todos ardendo juntos
irmãos e irmãs ardentes
eu gosto eu gosto eu gosto
disso.
1 223
Charles Bukowski
Quente
há fogo nos dedos e há fogo nos sapatos e há
fogo em atravessar uma sala
há fogo nos olhos do gato e há fogo nas bolas
do gato
e o relógio de pulso rasteja como cobra pela parte de trás da
cômoda
e a geladeira contém 9.000 sonhos congelados e picantes
e enquanto ouço as sinfonias de compositores mortos
sou consumido por uma alegre tristeza
há fogo nas paredes
e as lesmas no jardim só querem amor
e há fogo nas pragas daninhas
estamos ardendo ardendo ardendo
há fogo num copo d’água
os túmulos da Índia sorriem como enamorados filhos da mãe
as fiscais de estacionamento choram sozinhas à uma da manhã nas noites chuvosas
há fogo nas rachaduras das calçadas
e
durante a noite toda enquanto fiquei bebendo e datilografando estes
onze ou doze poemas
a energia elétrica ficou caindo e voltando
tem um vento feroz lá fora
e entre as quedas e as voltas
fiquei sentado aqui no escuro
máquina elétrica (haha) desligada luzes apagadas rádio desligado
bebendo no escuro
acendendo cigarros no escuro
saía fogo dos fósforos
estamos todos ardendo juntos
irmãos e irmãs ardentes
eu gosto eu gosto eu gosto
disso.
fogo em atravessar uma sala
há fogo nos olhos do gato e há fogo nas bolas
do gato
e o relógio de pulso rasteja como cobra pela parte de trás da
cômoda
e a geladeira contém 9.000 sonhos congelados e picantes
e enquanto ouço as sinfonias de compositores mortos
sou consumido por uma alegre tristeza
há fogo nas paredes
e as lesmas no jardim só querem amor
e há fogo nas pragas daninhas
estamos ardendo ardendo ardendo
há fogo num copo d’água
os túmulos da Índia sorriem como enamorados filhos da mãe
as fiscais de estacionamento choram sozinhas à uma da manhã nas noites chuvosas
há fogo nas rachaduras das calçadas
e
durante a noite toda enquanto fiquei bebendo e datilografando estes
onze ou doze poemas
a energia elétrica ficou caindo e voltando
tem um vento feroz lá fora
e entre as quedas e as voltas
fiquei sentado aqui no escuro
máquina elétrica (haha) desligada luzes apagadas rádio desligado
bebendo no escuro
acendendo cigarros no escuro
saía fogo dos fósforos
estamos todos ardendo juntos
irmãos e irmãs ardentes
eu gosto eu gosto eu gosto
disso.
1 223
Charles Bukowski
Quente
há fogo nos dedos e há fogo nos sapatos e há
fogo em atravessar uma sala
há fogo nos olhos do gato e há fogo nas bolas
do gato
e o relógio de pulso rasteja como cobra pela parte de trás da
cômoda
e a geladeira contém 9.000 sonhos congelados e picantes
e enquanto ouço as sinfonias de compositores mortos
sou consumido por uma alegre tristeza
há fogo nas paredes
e as lesmas no jardim só querem amor
e há fogo nas pragas daninhas
estamos ardendo ardendo ardendo
há fogo num copo d’água
os túmulos da Índia sorriem como enamorados filhos da mãe
as fiscais de estacionamento choram sozinhas à uma da manhã nas noites chuvosas
há fogo nas rachaduras das calçadas
e
durante a noite toda enquanto fiquei bebendo e datilografando estes
onze ou doze poemas
a energia elétrica ficou caindo e voltando
tem um vento feroz lá fora
e entre as quedas e as voltas
fiquei sentado aqui no escuro
máquina elétrica (haha) desligada luzes apagadas rádio desligado
bebendo no escuro
acendendo cigarros no escuro
saía fogo dos fósforos
estamos todos ardendo juntos
irmãos e irmãs ardentes
eu gosto eu gosto eu gosto
disso.
fogo em atravessar uma sala
há fogo nos olhos do gato e há fogo nas bolas
do gato
e o relógio de pulso rasteja como cobra pela parte de trás da
cômoda
e a geladeira contém 9.000 sonhos congelados e picantes
e enquanto ouço as sinfonias de compositores mortos
sou consumido por uma alegre tristeza
há fogo nas paredes
e as lesmas no jardim só querem amor
e há fogo nas pragas daninhas
estamos ardendo ardendo ardendo
há fogo num copo d’água
os túmulos da Índia sorriem como enamorados filhos da mãe
as fiscais de estacionamento choram sozinhas à uma da manhã nas noites chuvosas
há fogo nas rachaduras das calçadas
e
durante a noite toda enquanto fiquei bebendo e datilografando estes
onze ou doze poemas
a energia elétrica ficou caindo e voltando
tem um vento feroz lá fora
e entre as quedas e as voltas
fiquei sentado aqui no escuro
máquina elétrica (haha) desligada luzes apagadas rádio desligado
bebendo no escuro
acendendo cigarros no escuro
saía fogo dos fósforos
estamos todos ardendo juntos
irmãos e irmãs ardentes
eu gosto eu gosto eu gosto
disso.
1 223
Charles Bukowski
Quieto
sentado esta noite
a esta
mesa
junto à
janela
a mulher está
acabrunhada
no
quarto
ela está em seus
dias especialmente
ruins.
bem, eu tenho
os meus
então
em deferência
a ela
a máquina de escrever
está
parada.
é esquisito
imprimir este troço
à
mão
me faz lembrar os
tempos
passados
quando as coisas
não
iam bem
de outra
maneira.
agora
o gato vem
me
ver
ele desaba
sob a mesa
entre os meus
pés
estamos ambos
derretendo
no mesmo
fogo.
e, querido
gato, ainda estamos
trabalhando com o
poema
e alguns
notaram
que há certa
“derrapagem”
aqui.
bem, aos 65
anos de idade eu posso
“derrapar”
à vontade e mesmo assim
deixar esses
críticos piegas
comendo
poeira.
Li Po sabia
o que fazer:
beber mais uma
garrafa e
enfrentar
as consequências.
eu me viro à minha
direita, vejo uma cabeça
enorme (refletida na
janela) sugando
um cigarro
e
nós arreganhamos os dentes
um para o
outro.
aí
me viro
de volta
fico aqui sentado
e
imprimo mais palavras sobre este
papel
não há nunca
uma derradeira
declaração
grandiosa
e esse é o
dilema
o embuste
que trabalha
contra
nós
mas
eu queria que você pudesse ver
o meu
gato
ele tem uma
pincelada
de branco em seu
rosto
contra um
fundo
amarelo-laranja
e aí
eu levanto a cabeça
e olho cozinha
adentro
vejo uma porção
brilhante
sob a luz
no alto
que se dissolve aos poucos em
escuridão
e depois numa escuridão
mais escura e
mais além não consigo
ver
nada.
a esta
mesa
junto à
janela
a mulher está
acabrunhada
no
quarto
ela está em seus
dias especialmente
ruins.
bem, eu tenho
os meus
então
em deferência
a ela
a máquina de escrever
está
parada.
é esquisito
imprimir este troço
à
mão
me faz lembrar os
tempos
passados
quando as coisas
não
iam bem
de outra
maneira.
agora
o gato vem
me
ver
ele desaba
sob a mesa
entre os meus
pés
estamos ambos
derretendo
no mesmo
fogo.
e, querido
gato, ainda estamos
trabalhando com o
poema
e alguns
notaram
que há certa
“derrapagem”
aqui.
bem, aos 65
anos de idade eu posso
“derrapar”
à vontade e mesmo assim
deixar esses
críticos piegas
comendo
poeira.
Li Po sabia
o que fazer:
beber mais uma
garrafa e
enfrentar
as consequências.
eu me viro à minha
direita, vejo uma cabeça
enorme (refletida na
janela) sugando
um cigarro
e
nós arreganhamos os dentes
um para o
outro.
aí
me viro
de volta
fico aqui sentado
e
imprimo mais palavras sobre este
papel
não há nunca
uma derradeira
declaração
grandiosa
e esse é o
dilema
o embuste
que trabalha
contra
nós
mas
eu queria que você pudesse ver
o meu
gato
ele tem uma
pincelada
de branco em seu
rosto
contra um
fundo
amarelo-laranja
e aí
eu levanto a cabeça
e olho cozinha
adentro
vejo uma porção
brilhante
sob a luz
no alto
que se dissolve aos poucos em
escuridão
e depois numa escuridão
mais escura e
mais além não consigo
ver
nada.
1 140
Charles Bukowski
Quieto
sentado esta noite
a esta
mesa
junto à
janela
a mulher está
acabrunhada
no
quarto
ela está em seus
dias especialmente
ruins.
bem, eu tenho
os meus
então
em deferência
a ela
a máquina de escrever
está
parada.
é esquisito
imprimir este troço
à
mão
me faz lembrar os
tempos
passados
quando as coisas
não
iam bem
de outra
maneira.
agora
o gato vem
me
ver
ele desaba
sob a mesa
entre os meus
pés
estamos ambos
derretendo
no mesmo
fogo.
e, querido
gato, ainda estamos
trabalhando com o
poema
e alguns
notaram
que há certa
“derrapagem”
aqui.
bem, aos 65
anos de idade eu posso
“derrapar”
à vontade e mesmo assim
deixar esses
críticos piegas
comendo
poeira.
Li Po sabia
o que fazer:
beber mais uma
garrafa e
enfrentar
as consequências.
eu me viro à minha
direita, vejo uma cabeça
enorme (refletida na
janela) sugando
um cigarro
e
nós arreganhamos os dentes
um para o
outro.
aí
me viro
de volta
fico aqui sentado
e
imprimo mais palavras sobre este
papel
não há nunca
uma derradeira
declaração
grandiosa
e esse é o
dilema
o embuste
que trabalha
contra
nós
mas
eu queria que você pudesse ver
o meu
gato
ele tem uma
pincelada
de branco em seu
rosto
contra um
fundo
amarelo-laranja
e aí
eu levanto a cabeça
e olho cozinha
adentro
vejo uma porção
brilhante
sob a luz
no alto
que se dissolve aos poucos em
escuridão
e depois numa escuridão
mais escura e
mais além não consigo
ver
nada.
a esta
mesa
junto à
janela
a mulher está
acabrunhada
no
quarto
ela está em seus
dias especialmente
ruins.
bem, eu tenho
os meus
então
em deferência
a ela
a máquina de escrever
está
parada.
é esquisito
imprimir este troço
à
mão
me faz lembrar os
tempos
passados
quando as coisas
não
iam bem
de outra
maneira.
agora
o gato vem
me
ver
ele desaba
sob a mesa
entre os meus
pés
estamos ambos
derretendo
no mesmo
fogo.
e, querido
gato, ainda estamos
trabalhando com o
poema
e alguns
notaram
que há certa
“derrapagem”
aqui.
bem, aos 65
anos de idade eu posso
“derrapar”
à vontade e mesmo assim
deixar esses
críticos piegas
comendo
poeira.
Li Po sabia
o que fazer:
beber mais uma
garrafa e
enfrentar
as consequências.
eu me viro à minha
direita, vejo uma cabeça
enorme (refletida na
janela) sugando
um cigarro
e
nós arreganhamos os dentes
um para o
outro.
aí
me viro
de volta
fico aqui sentado
e
imprimo mais palavras sobre este
papel
não há nunca
uma derradeira
declaração
grandiosa
e esse é o
dilema
o embuste
que trabalha
contra
nós
mas
eu queria que você pudesse ver
o meu
gato
ele tem uma
pincelada
de branco em seu
rosto
contra um
fundo
amarelo-laranja
e aí
eu levanto a cabeça
e olho cozinha
adentro
vejo uma porção
brilhante
sob a luz
no alto
que se dissolve aos poucos em
escuridão
e depois numa escuridão
mais escura e
mais além não consigo
ver
nada.
1 140
Charles Bukowski
Apenas Uma Noite
a mais recente aparelhagem pendendo sobre meu travesseiro recebe
luz da rua pela janela por entre a névoa do álcool
eu era o filhote de uma puritana que me surrava quando
o vento agitava folhas de relva que os olhos conseguiam ver
se mexendo e
você era uma
menina do convento observando as freiras espanarem
a areia de Las Cruces dos mantos de Deus.
você é
o ramalhete
de ontem tão tristemente
invadido. eu beijo seus pobres
seios enquanto minhas mãos tateiam em busca do amor
neste apartamento barato em Hollywood cheirando a
pão e gás e tristeza.
avançamos por rotas lembradas
os mesmos degraus velhos de guerra lisinhos com centenas de
passos, 50 amores, 20 anos.
e nos concedem um verão muito pequeno, e
aí já é
inverno de novo
e você está arrastando pelo piso
uma coisa pesada e embaraçosa
e a descarga soa no banheiro, um cão late
a porta de um carro é batida com força...
algo nos fugiu inescapavelmente, tudo,
ao que parece, e eu acendo um cigarro e
aguardo a mais velha maldição
de todas.
luz da rua pela janela por entre a névoa do álcool
eu era o filhote de uma puritana que me surrava quando
o vento agitava folhas de relva que os olhos conseguiam ver
se mexendo e
você era uma
menina do convento observando as freiras espanarem
a areia de Las Cruces dos mantos de Deus.
você é
o ramalhete
de ontem tão tristemente
invadido. eu beijo seus pobres
seios enquanto minhas mãos tateiam em busca do amor
neste apartamento barato em Hollywood cheirando a
pão e gás e tristeza.
avançamos por rotas lembradas
os mesmos degraus velhos de guerra lisinhos com centenas de
passos, 50 amores, 20 anos.
e nos concedem um verão muito pequeno, e
aí já é
inverno de novo
e você está arrastando pelo piso
uma coisa pesada e embaraçosa
e a descarga soa no banheiro, um cão late
a porta de um carro é batida com força...
algo nos fugiu inescapavelmente, tudo,
ao que parece, e eu acendo um cigarro e
aguardo a mais velha maldição
de todas.
1 030
Charles Bukowski
Poema Bem Bem Bem Tardio
você pensa sobre aquela vez em
Malibu
depois de ter levado a garota alta
pra jantar e beber
vocês saíram e foram até o Fusca
e a embreagem estava
ferrada
(sem cartão de seguradora)
nada ao redor a não ser o
oceano e
40 quilômetros até o
quarto onde você mora
(a mala dela ali
por ter chegado de avião de algum lugar
do Texas)
e você diz pra ela “bem,
quem sabe a gente volta nadando”, e
ela esquece de
sorrir.
e o problema em
escrever estes poemas
quando você chega ao número 7 ou
8 ou 9
já na segunda garrafa perto
das 3 da manhã
tentando acender o seu
cigarro com uma cartela de
selos
depois de já ter botado
fogo na
lixeira
é
que existe ainda um pouco de
aventura e júbilo
em bater à máquina
enquanto o rádio ruge sua
música clássica
mas o conteúdo
começa a
escassear.
Malibu
depois de ter levado a garota alta
pra jantar e beber
vocês saíram e foram até o Fusca
e a embreagem estava
ferrada
(sem cartão de seguradora)
nada ao redor a não ser o
oceano e
40 quilômetros até o
quarto onde você mora
(a mala dela ali
por ter chegado de avião de algum lugar
do Texas)
e você diz pra ela “bem,
quem sabe a gente volta nadando”, e
ela esquece de
sorrir.
e o problema em
escrever estes poemas
quando você chega ao número 7 ou
8 ou 9
já na segunda garrafa perto
das 3 da manhã
tentando acender o seu
cigarro com uma cartela de
selos
depois de já ter botado
fogo na
lixeira
é
que existe ainda um pouco de
aventura e júbilo
em bater à máquina
enquanto o rádio ruge sua
música clássica
mas o conteúdo
começa a
escassear.
1 244
Charles Bukowski
Poema Bem Bem Bem Tardio
você pensa sobre aquela vez em
Malibu
depois de ter levado a garota alta
pra jantar e beber
vocês saíram e foram até o Fusca
e a embreagem estava
ferrada
(sem cartão de seguradora)
nada ao redor a não ser o
oceano e
40 quilômetros até o
quarto onde você mora
(a mala dela ali
por ter chegado de avião de algum lugar
do Texas)
e você diz pra ela “bem,
quem sabe a gente volta nadando”, e
ela esquece de
sorrir.
e o problema em
escrever estes poemas
quando você chega ao número 7 ou
8 ou 9
já na segunda garrafa perto
das 3 da manhã
tentando acender o seu
cigarro com uma cartela de
selos
depois de já ter botado
fogo na
lixeira
é
que existe ainda um pouco de
aventura e júbilo
em bater à máquina
enquanto o rádio ruge sua
música clássica
mas o conteúdo
começa a
escassear.
Malibu
depois de ter levado a garota alta
pra jantar e beber
vocês saíram e foram até o Fusca
e a embreagem estava
ferrada
(sem cartão de seguradora)
nada ao redor a não ser o
oceano e
40 quilômetros até o
quarto onde você mora
(a mala dela ali
por ter chegado de avião de algum lugar
do Texas)
e você diz pra ela “bem,
quem sabe a gente volta nadando”, e
ela esquece de
sorrir.
e o problema em
escrever estes poemas
quando você chega ao número 7 ou
8 ou 9
já na segunda garrafa perto
das 3 da manhã
tentando acender o seu
cigarro com uma cartela de
selos
depois de já ter botado
fogo na
lixeira
é
que existe ainda um pouco de
aventura e júbilo
em bater à máquina
enquanto o rádio ruge sua
música clássica
mas o conteúdo
começa a
escassear.
1 244
Charles Bukowski
Um Poema Ordinário
já que vocês sempre quiseram
saber vou admitir que nunca gostei de Shakespeare, Browning, das
irmãs Brontë,
de Tolstói, beisebol, verões no litoral, queda
de braço, hóquei, Thomas Mann, Vivaldi, Winston Churchill, Dudley
Moore, verso livre,
pizza, boliche, os Jogos Olímpicos, os Três Patetas, os Irmãos
Marx, Ives, Al Jolson, Bob Hope, Frank Sinatra, Mickey
Mouse, basquete,
pais, mães, primos, esposas, morar junto (embora preferível à
opção anterior),
e não gosto da Suíte do Quebra-Nozes, da entrega do Oscar, de Hawthorne,
Melville, torta de abóbora, véspera de Ano-Novo, Natal, Dia do Trabalho,
Quatro de Julho, Ação de Graças, Sexta-feira Santa, The Who,
Bacon, Dr. Spock, Blackstone e Berlioz, Franz
Liszt, meia-calça,
piolhos, pulgas, peixe-dourado, caranguejos, aranhas, guerra
heróis, voos espaciais, camelos (não confio em camelos) ou da
Bíblia,
Updike, Erica Jong, Corso, bartenders, moscas-das-frutas, Jane
Fonda,
igrejas, casamentos, nascimentos, noticiários, cães
de guarda, rifles .22, Henry
Fonda
e todas as mulheres que deveriam ter me amado mas
não amaram e
o primeiro dia da primavera e o
último
e o primeiro verso deste poema
e este aqui
que você está lendo
agora.
saber vou admitir que nunca gostei de Shakespeare, Browning, das
irmãs Brontë,
de Tolstói, beisebol, verões no litoral, queda
de braço, hóquei, Thomas Mann, Vivaldi, Winston Churchill, Dudley
Moore, verso livre,
pizza, boliche, os Jogos Olímpicos, os Três Patetas, os Irmãos
Marx, Ives, Al Jolson, Bob Hope, Frank Sinatra, Mickey
Mouse, basquete,
pais, mães, primos, esposas, morar junto (embora preferível à
opção anterior),
e não gosto da Suíte do Quebra-Nozes, da entrega do Oscar, de Hawthorne,
Melville, torta de abóbora, véspera de Ano-Novo, Natal, Dia do Trabalho,
Quatro de Julho, Ação de Graças, Sexta-feira Santa, The Who,
Bacon, Dr. Spock, Blackstone e Berlioz, Franz
Liszt, meia-calça,
piolhos, pulgas, peixe-dourado, caranguejos, aranhas, guerra
heróis, voos espaciais, camelos (não confio em camelos) ou da
Bíblia,
Updike, Erica Jong, Corso, bartenders, moscas-das-frutas, Jane
Fonda,
igrejas, casamentos, nascimentos, noticiários, cães
de guarda, rifles .22, Henry
Fonda
e todas as mulheres que deveriam ter me amado mas
não amaram e
o primeiro dia da primavera e o
último
e o primeiro verso deste poema
e este aqui
que você está lendo
agora.
1 143
Charles Bukowski
Como Está o Seu Coração?
durante os meus piores momentos
nos bancos de praça
nas cadeias
ou morando com
putas
sempre senti certo
contentamento –
eu não chamaria de
felicidade –
era mais um equilíbrio
íntimo
que se acomodava com
qualquer coisa que estivesse ocorrendo
e isso ajudou nas
fábricas
e quando relacionamentos
davam errado
com as
garotas.
ajudou
ao longo das
guerras e das
ressacas
das lutas nos becos
dos hospitais.
despertar num quarto barato
numa cidade estranha e
levantar a cortina –
esse era o tipo mais louco de
contentamento
e atravessar o piso
até uma velha cômoda com um
espelho rachado –
ver meu reflexo, feio,
sorrindo perante tudo.
o mais importante é
você saber
caminhar através do
fogo.
nos bancos de praça
nas cadeias
ou morando com
putas
sempre senti certo
contentamento –
eu não chamaria de
felicidade –
era mais um equilíbrio
íntimo
que se acomodava com
qualquer coisa que estivesse ocorrendo
e isso ajudou nas
fábricas
e quando relacionamentos
davam errado
com as
garotas.
ajudou
ao longo das
guerras e das
ressacas
das lutas nos becos
dos hospitais.
despertar num quarto barato
numa cidade estranha e
levantar a cortina –
esse era o tipo mais louco de
contentamento
e atravessar o piso
até uma velha cômoda com um
espelho rachado –
ver meu reflexo, feio,
sorrindo perante tudo.
o mais importante é
você saber
caminhar através do
fogo.
1 163
Charles Bukowski
Aquelas Garotas Que Seguimos No Caminho de Casa
na escola intermediária as duas garotas mais bonitas eram
Irene e Louise,
elas eram irmãs;
Irene era um ano mais velha, um pouco mais alta
mas era difícil escolher entre
as duas;
elas não eram apenas bonitas, eram
espantosamente lindas
tão lindas
que os garotos mantinham distância delas;
ficavam aterrorizados diante de Irene e
Louise
que não eram nem um pouco reservadas,
eram inclusive mais amigáveis do que a maioria
mas
pareciam se vestir com certa
diferença em relação às outras
garotas:
elas sempre usavam salto alto,
meias de seda,
blusas,
saias,
trajes novos
todos os dias;
e
certa tarde
meu amigo Carequinha e eu as seguimos
na volta da escola para casa;
é que nós éramos meio que
os malvadões do pedaço
então isso era
mais ou menos
de se esperar,
e
foi uma coisa de louco:
íamos caminhando três ou quatro metros atrás delas;
não dizíamos nada
apenas seguíamos
observando
o bamboleio voluptuoso,
o balançar das
ancas.
gostamos tanto que as
seguimos da escola para casa
todos os
dias.
quando elas entravam em casa
nós ficávamos parados na calçada
fumando cigarros e conversando.
“um dia”, eu disse ao Carequinha,
“elas vão nos convidar pra entrar em
casa e elas vão
dar pra nós.”
“você acha mesmo?”
“claro.”
agora
50 anos depois
eu posso lhes dizer
que elas nunca deram
– esqueçam todas as histórias que
contamos aos caras;
sim, é o sonho que
nos faz ir em frente
naquele tempo e
agora.
Irene e Louise,
elas eram irmãs;
Irene era um ano mais velha, um pouco mais alta
mas era difícil escolher entre
as duas;
elas não eram apenas bonitas, eram
espantosamente lindas
tão lindas
que os garotos mantinham distância delas;
ficavam aterrorizados diante de Irene e
Louise
que não eram nem um pouco reservadas,
eram inclusive mais amigáveis do que a maioria
mas
pareciam se vestir com certa
diferença em relação às outras
garotas:
elas sempre usavam salto alto,
meias de seda,
blusas,
saias,
trajes novos
todos os dias;
e
certa tarde
meu amigo Carequinha e eu as seguimos
na volta da escola para casa;
é que nós éramos meio que
os malvadões do pedaço
então isso era
mais ou menos
de se esperar,
e
foi uma coisa de louco:
íamos caminhando três ou quatro metros atrás delas;
não dizíamos nada
apenas seguíamos
observando
o bamboleio voluptuoso,
o balançar das
ancas.
gostamos tanto que as
seguimos da escola para casa
todos os
dias.
quando elas entravam em casa
nós ficávamos parados na calçada
fumando cigarros e conversando.
“um dia”, eu disse ao Carequinha,
“elas vão nos convidar pra entrar em
casa e elas vão
dar pra nós.”
“você acha mesmo?”
“claro.”
agora
50 anos depois
eu posso lhes dizer
que elas nunca deram
– esqueçam todas as histórias que
contamos aos caras;
sim, é o sonho que
nos faz ir em frente
naquele tempo e
agora.
1 203
Charles Bukowski
Para a Puta Que Levou Meus Poemas
alguns dizem que deveríamos evitar remorsos particulares no
poema,
manter a abstração, e há certa razão nisso,
mas jezus:
lá se foram 12 poemas e eu nunca uso papel-carbono e você está com
minhas
pinturas também, minhas melhores; é sufocante:
você está tentando me triturar como todos os outros?
por que não leva meu dinheiro? é o que costumam tirar
das calças bêbadas e adormecidas passando mal na esquina.
da próxima vez leve meu braço esquerdo ou uma nota de cinquenta
mas não meus poemas:
não sou Shakespeare
mas um dia simplesmente
não haverá mais nenhum, abstrato ou seja o que for;
sempre haverá dinheiro e putas e bêbados
até a última bomba,
mas como Deus disse,
cruzando as pernas:
percebo que fiz poetas de sobra
mas não muita
poesia.
poema,
manter a abstração, e há certa razão nisso,
mas jezus:
lá se foram 12 poemas e eu nunca uso papel-carbono e você está com
minhas
pinturas também, minhas melhores; é sufocante:
você está tentando me triturar como todos os outros?
por que não leva meu dinheiro? é o que costumam tirar
das calças bêbadas e adormecidas passando mal na esquina.
da próxima vez leve meu braço esquerdo ou uma nota de cinquenta
mas não meus poemas:
não sou Shakespeare
mas um dia simplesmente
não haverá mais nenhum, abstrato ou seja o que for;
sempre haverá dinheiro e putas e bêbados
até a última bomba,
mas como Deus disse,
cruzando as pernas:
percebo que fiz poetas de sobra
mas não muita
poesia.
1 156
Charles Bukowski
Para a Puta Que Levou Meus Poemas
alguns dizem que deveríamos evitar remorsos particulares no
poema,
manter a abstração, e há certa razão nisso,
mas jezus:
lá se foram 12 poemas e eu nunca uso papel-carbono e você está com
minhas
pinturas também, minhas melhores; é sufocante:
você está tentando me triturar como todos os outros?
por que não leva meu dinheiro? é o que costumam tirar
das calças bêbadas e adormecidas passando mal na esquina.
da próxima vez leve meu braço esquerdo ou uma nota de cinquenta
mas não meus poemas:
não sou Shakespeare
mas um dia simplesmente
não haverá mais nenhum, abstrato ou seja o que for;
sempre haverá dinheiro e putas e bêbados
até a última bomba,
mas como Deus disse,
cruzando as pernas:
percebo que fiz poetas de sobra
mas não muita
poesia.
poema,
manter a abstração, e há certa razão nisso,
mas jezus:
lá se foram 12 poemas e eu nunca uso papel-carbono e você está com
minhas
pinturas também, minhas melhores; é sufocante:
você está tentando me triturar como todos os outros?
por que não leva meu dinheiro? é o que costumam tirar
das calças bêbadas e adormecidas passando mal na esquina.
da próxima vez leve meu braço esquerdo ou uma nota de cinquenta
mas não meus poemas:
não sou Shakespeare
mas um dia simplesmente
não haverá mais nenhum, abstrato ou seja o que for;
sempre haverá dinheiro e putas e bêbados
até a última bomba,
mas como Deus disse,
cruzando as pernas:
percebo que fiz poetas de sobra
mas não muita
poesia.
1 156
Charles Bukowski
Para a Puta Que Levou Meus Poemas
alguns dizem que deveríamos evitar remorsos particulares no
poema,
manter a abstração, e há certa razão nisso,
mas jezus:
lá se foram 12 poemas e eu nunca uso papel-carbono e você está com
minhas
pinturas também, minhas melhores; é sufocante:
você está tentando me triturar como todos os outros?
por que não leva meu dinheiro? é o que costumam tirar
das calças bêbadas e adormecidas passando mal na esquina.
da próxima vez leve meu braço esquerdo ou uma nota de cinquenta
mas não meus poemas:
não sou Shakespeare
mas um dia simplesmente
não haverá mais nenhum, abstrato ou seja o que for;
sempre haverá dinheiro e putas e bêbados
até a última bomba,
mas como Deus disse,
cruzando as pernas:
percebo que fiz poetas de sobra
mas não muita
poesia.
poema,
manter a abstração, e há certa razão nisso,
mas jezus:
lá se foram 12 poemas e eu nunca uso papel-carbono e você está com
minhas
pinturas também, minhas melhores; é sufocante:
você está tentando me triturar como todos os outros?
por que não leva meu dinheiro? é o que costumam tirar
das calças bêbadas e adormecidas passando mal na esquina.
da próxima vez leve meu braço esquerdo ou uma nota de cinquenta
mas não meus poemas:
não sou Shakespeare
mas um dia simplesmente
não haverá mais nenhum, abstrato ou seja o que for;
sempre haverá dinheiro e putas e bêbados
até a última bomba,
mas como Deus disse,
cruzando as pernas:
percebo que fiz poetas de sobra
mas não muita
poesia.
1 156
Charles Bukowski
Se Foi
foi embora como as damas de antigamente
enquanto eu abria a porta
para o quarto
cama
travesseiros
paredes
eu o perdi
eu o perdi em algum lugar
enquanto caminhava pela rua
ou enquanto levantava pesos
ou enquanto olhava um desfile
eu o perdi
enquanto olhava luta livre
ou enquanto esperava no sinal vermelho
ao meio-dia em certo dia poluído
eu o perdi enquanto inseria uma moeda
num parquímetro
eu o perdi
enquanto os cães selvagens dormiam.
enquanto eu abria a porta
para o quarto
cama
travesseiros
paredes
eu o perdi
eu o perdi em algum lugar
enquanto caminhava pela rua
ou enquanto levantava pesos
ou enquanto olhava um desfile
eu o perdi
enquanto olhava luta livre
ou enquanto esperava no sinal vermelho
ao meio-dia em certo dia poluído
eu o perdi enquanto inseria uma moeda
num parquímetro
eu o perdi
enquanto os cães selvagens dormiam.
1 302
Charles Bukowski
O Dia Em Que Joguei Pela Janela Uma Grana Preta
e, eu disse, você pode pegar seus ricos tios e tias
e avós e pais
e todo aquele petróleo escroto deles
e seus sete lagos
e seus selvagens perus
e búfalos
e o estado inteiro do Texas,
quer dizer, seus fuzilamentos de corvos
e seus calçadões de sábado à noite,
e sua biblioteca de meia-tigela
e seus vereadores corruptos
e seus artistas veadinhos –
você pode pegar tudo isso
e o seu jornal semanal
e os seus famosos tornados
e as suas enchentes imundas
e todos os seus gatos uivantes
e a sua assinatura da Time,
e enfiar lá, bebê,
enfiar lá.
posso empunhar de novo a picareta e o machado (acho)
e posso descolar
25 pratas por uma luta de 4 assaltos (talvez);
claro, estou com 38
mas um pouco de tintura pode tirar o grisalho
do meu cabelo;
e ainda consigo escrever poemas (às vezes),
não se esqueça disso, e mesmo que
não rendam nada,
é melhor do que esperar por mortes e petróleo,
e atirar em perus selvagens,
e esperar que o mundo
comece.
tá bom, vagabundo, ela disse,
cai fora.
o quê?, eu disse
cai fora. você teve o seu último
acesso de fúria.
cansei dos seus malditos acessos de fúria:
você está sempre agindo como um
personagem
de uma peça de O’Neill.
mas eu sou diferente, bebê,
não consigo
evitar.
você é diferente, tá bom!
meu Deus, quanta diferença!
não bata
a porta
quando sair.
mas, bebê, eu amo o seu
dinheiro!
você nunca me disse
que me ama!
o que você quer
um mentiroso ou um
amante?
você não é nenhum dos dois! fora, vagabundo,
fora!
...mas bebê!
volte pro O’Neill!
fui até a porta,
fechei-a sem barulho e fui embora,
pensando: tudo que elas querem
é um índio de madeira
que diga sim e não
e fique parado acima do fogo e
não infernize demais;
mas você já está ficando
velho, garoto;
da próxima vez não abra
tanto
o jogo.
e avós e pais
e todo aquele petróleo escroto deles
e seus sete lagos
e seus selvagens perus
e búfalos
e o estado inteiro do Texas,
quer dizer, seus fuzilamentos de corvos
e seus calçadões de sábado à noite,
e sua biblioteca de meia-tigela
e seus vereadores corruptos
e seus artistas veadinhos –
você pode pegar tudo isso
e o seu jornal semanal
e os seus famosos tornados
e as suas enchentes imundas
e todos os seus gatos uivantes
e a sua assinatura da Time,
e enfiar lá, bebê,
enfiar lá.
posso empunhar de novo a picareta e o machado (acho)
e posso descolar
25 pratas por uma luta de 4 assaltos (talvez);
claro, estou com 38
mas um pouco de tintura pode tirar o grisalho
do meu cabelo;
e ainda consigo escrever poemas (às vezes),
não se esqueça disso, e mesmo que
não rendam nada,
é melhor do que esperar por mortes e petróleo,
e atirar em perus selvagens,
e esperar que o mundo
comece.
tá bom, vagabundo, ela disse,
cai fora.
o quê?, eu disse
cai fora. você teve o seu último
acesso de fúria.
cansei dos seus malditos acessos de fúria:
você está sempre agindo como um
personagem
de uma peça de O’Neill.
mas eu sou diferente, bebê,
não consigo
evitar.
você é diferente, tá bom!
meu Deus, quanta diferença!
não bata
a porta
quando sair.
mas, bebê, eu amo o seu
dinheiro!
você nunca me disse
que me ama!
o que você quer
um mentiroso ou um
amante?
você não é nenhum dos dois! fora, vagabundo,
fora!
...mas bebê!
volte pro O’Neill!
fui até a porta,
fechei-a sem barulho e fui embora,
pensando: tudo que elas querem
é um índio de madeira
que diga sim e não
e fique parado acima do fogo e
não infernize demais;
mas você já está ficando
velho, garoto;
da próxima vez não abra
tanto
o jogo.
1 179
Charles Bukowski
Para Jane: Com Todo o Amor Que Eu Tinha, Que Não Foi Suficiente
eu pego a saia,
eu pego as contas cintilantes
em preto,
essa coisa que se movia outrora
em volta de carne,
e chamo Deus de mentiroso,
repito qualquer coisa que se movesse
daquele jeito
ou soubesse
meu nome
jamais poderia morrer
na veracidade comum da morte,
e eu pego
seu gracioso
vestido,
sua graciosidade toda se foi,
e falo
a todos os deuses,
deuses judeus, deuses de Cristo,
lascas de coisas piscantes,
ídolos, pílulas, pão,
profundidades, riscos,
rendição experiente,
ratos no molho de 2 totalmente enlouquecidos
sem chance,
conhecimento de beija-flor, chance de beija-flor,
eu me apoio nisso,
eu me apoio em tudo isso
e sei:
seu vestido em meu braço:
mas
não querem
devolvê-la pra mim.
eu pego as contas cintilantes
em preto,
essa coisa que se movia outrora
em volta de carne,
e chamo Deus de mentiroso,
repito qualquer coisa que se movesse
daquele jeito
ou soubesse
meu nome
jamais poderia morrer
na veracidade comum da morte,
e eu pego
seu gracioso
vestido,
sua graciosidade toda se foi,
e falo
a todos os deuses,
deuses judeus, deuses de Cristo,
lascas de coisas piscantes,
ídolos, pílulas, pão,
profundidades, riscos,
rendição experiente,
ratos no molho de 2 totalmente enlouquecidos
sem chance,
conhecimento de beija-flor, chance de beija-flor,
eu me apoio nisso,
eu me apoio em tudo isso
e sei:
seu vestido em meu braço:
mas
não querem
devolvê-la pra mim.
922
Charles Bukowski
Uma Turma Boa, No Fim Das Contas
tenho sempre notícias dos cães velhos,
homens que estão escrevendo há
décadas,
poetas todos,
ainda estão diante de suas
máquinas
escrevendo melhor do que
nunca
tendo superado esposas e guerras e
empregos
e todas as coisas que
acontecem.
de muitos eu não gostava por razões
pessoais
e artísticas...
mas o que eu deixei de ver foi
a persistência deles e
sua capacidade de
aprimoramento.
esses cães velhos
vivendo em quartos enfumaçados
entornando a
garrafa...
eles vergastam as
fitas das máquinas: eles vieram
para
lutar.
homens que estão escrevendo há
décadas,
poetas todos,
ainda estão diante de suas
máquinas
escrevendo melhor do que
nunca
tendo superado esposas e guerras e
empregos
e todas as coisas que
acontecem.
de muitos eu não gostava por razões
pessoais
e artísticas...
mas o que eu deixei de ver foi
a persistência deles e
sua capacidade de
aprimoramento.
esses cães velhos
vivendo em quartos enfumaçados
entornando a
garrafa...
eles vergastam as
fitas das máquinas: eles vieram
para
lutar.
1 146
Charles Bukowski
A Travessura da Expiração
eu sou, quando muito, delicado pensamento de delicada mão
que extingue pela corda de mistura, e quando
por baixo do amor das flores estou calmo,
e a aranha bebe a hora verdejante –
batem sinos cinzentos de bebida,
que uma rã diga
uma voz morreu,
que as bestas da despensa
e os dias que odiaram isso,
as esposas contrariadas que pranteiam sem piscar,
planícies da pequena rendição
entre Mexicali e Tampa;
galinhas abatidas, cigarros fumados, pães fatiados,
e não tomem isso por tristeza torta:
coloquem a aranha no vinho,
batam nos finos lados do crânio dotados de fraco relâmpago,
façam disso menos do que um beijo traiçoeiro,
inscrevam-me na dança
vocês bem mais mortos,
sou um prato para suas cinzas,
sou um punho para seu ar.
a coisa mais imensa sobre a beleza
é vê-la desaparecida.
que extingue pela corda de mistura, e quando
por baixo do amor das flores estou calmo,
e a aranha bebe a hora verdejante –
batem sinos cinzentos de bebida,
que uma rã diga
uma voz morreu,
que as bestas da despensa
e os dias que odiaram isso,
as esposas contrariadas que pranteiam sem piscar,
planícies da pequena rendição
entre Mexicali e Tampa;
galinhas abatidas, cigarros fumados, pães fatiados,
e não tomem isso por tristeza torta:
coloquem a aranha no vinho,
batam nos finos lados do crânio dotados de fraco relâmpago,
façam disso menos do que um beijo traiçoeiro,
inscrevam-me na dança
vocês bem mais mortos,
sou um prato para suas cinzas,
sou um punho para seu ar.
a coisa mais imensa sobre a beleza
é vê-la desaparecida.
1 093
Charles Bukowski
A Travessura da Expiração
eu sou, quando muito, delicado pensamento de delicada mão
que extingue pela corda de mistura, e quando
por baixo do amor das flores estou calmo,
e a aranha bebe a hora verdejante –
batem sinos cinzentos de bebida,
que uma rã diga
uma voz morreu,
que as bestas da despensa
e os dias que odiaram isso,
as esposas contrariadas que pranteiam sem piscar,
planícies da pequena rendição
entre Mexicali e Tampa;
galinhas abatidas, cigarros fumados, pães fatiados,
e não tomem isso por tristeza torta:
coloquem a aranha no vinho,
batam nos finos lados do crânio dotados de fraco relâmpago,
façam disso menos do que um beijo traiçoeiro,
inscrevam-me na dança
vocês bem mais mortos,
sou um prato para suas cinzas,
sou um punho para seu ar.
a coisa mais imensa sobre a beleza
é vê-la desaparecida.
que extingue pela corda de mistura, e quando
por baixo do amor das flores estou calmo,
e a aranha bebe a hora verdejante –
batem sinos cinzentos de bebida,
que uma rã diga
uma voz morreu,
que as bestas da despensa
e os dias que odiaram isso,
as esposas contrariadas que pranteiam sem piscar,
planícies da pequena rendição
entre Mexicali e Tampa;
galinhas abatidas, cigarros fumados, pães fatiados,
e não tomem isso por tristeza torta:
coloquem a aranha no vinho,
batam nos finos lados do crânio dotados de fraco relâmpago,
façam disso menos do que um beijo traiçoeiro,
inscrevam-me na dança
vocês bem mais mortos,
sou um prato para suas cinzas,
sou um punho para seu ar.
a coisa mais imensa sobre a beleza
é vê-la desaparecida.
1 093
Charles Bukowski
Máquina Mágica
eu gostava dos discos velhos que
arranhavam
conforme a agulha deslizava por
sulcos bastante
gastos
você ouvia a voz
saindo do
alto-falante
como se houvesse uma pessoa
dentro daquela
caixa
de mogno
mas você só escutava enquanto
seus pais não estavam
em casa.
e se você não desse corda
na vitrola
ela desacelerava gradualmente e
parava.
era melhor nos fins de
tarde
e os discos falavam
de
amor.
amor, amor, amor.
alguns dos discos tinham
lindos rótulos
roxos,
outros eram laranja, verdes,
amarelos, vermelhos, azuis.
a vitrola tinha pertencido ao
meu avô
e ele tinha escutado aqueles
mesmos
discos.
e agora eu era um garoto
e
os escutava.
e nada em que eu conseguisse pensar
na minha vida naquele tempo
parecia ser melhor do que ouvir
aquela
vitrola
quando meus pais não estavam
em casa.
arranhavam
conforme a agulha deslizava por
sulcos bastante
gastos
você ouvia a voz
saindo do
alto-falante
como se houvesse uma pessoa
dentro daquela
caixa
de mogno
mas você só escutava enquanto
seus pais não estavam
em casa.
e se você não desse corda
na vitrola
ela desacelerava gradualmente e
parava.
era melhor nos fins de
tarde
e os discos falavam
de
amor.
amor, amor, amor.
alguns dos discos tinham
lindos rótulos
roxos,
outros eram laranja, verdes,
amarelos, vermelhos, azuis.
a vitrola tinha pertencido ao
meu avô
e ele tinha escutado aqueles
mesmos
discos.
e agora eu era um garoto
e
os escutava.
e nada em que eu conseguisse pensar
na minha vida naquele tempo
parecia ser melhor do que ouvir
aquela
vitrola
quando meus pais não estavam
em casa.
1 164
Charles Bukowski
O Que Não Mata...
a queixa é muitas vezes o resultado de uma insuficiente
capacidade
de viver dentro
das óbvias restrições desta
maldita gaiola.
a queixa é uma deficiência comum
mais prevalente do que as
hemorroidas
e quando as escritoras atiram seus sapatos pontudos
em mim
choramingando que
seus poemas jamais serão
promulgados
tudo que posso lhes dizer
é
me mostrem mais perna
me mostrem mais bunda –
isso é tudo que vocês têm (ou eu tenho)
enquanto
dura
e por causa dessa comum e óbvia verdade
elas berram na minha cara:
SEXISTA PORCO FILHO DA PUTA!
como se isso fosse mudar o modo como as árvores frutíferas
deixam cair suas frutas
ou o oceano traz à praia o pó e
os esporos mortos do Império
Greciano
mas não sinto mágoa nenhuma por ser chamado de algo
que
não sou;
na verdade, é arrebatador, de certo modo, como uma boa
massagem nas costas
numa noite congelante
atrás do teleférico de esqui em
Aspen.
capacidade
de viver dentro
das óbvias restrições desta
maldita gaiola.
a queixa é uma deficiência comum
mais prevalente do que as
hemorroidas
e quando as escritoras atiram seus sapatos pontudos
em mim
choramingando que
seus poemas jamais serão
promulgados
tudo que posso lhes dizer
é
me mostrem mais perna
me mostrem mais bunda –
isso é tudo que vocês têm (ou eu tenho)
enquanto
dura
e por causa dessa comum e óbvia verdade
elas berram na minha cara:
SEXISTA PORCO FILHO DA PUTA!
como se isso fosse mudar o modo como as árvores frutíferas
deixam cair suas frutas
ou o oceano traz à praia o pó e
os esporos mortos do Império
Greciano
mas não sinto mágoa nenhuma por ser chamado de algo
que
não sou;
na verdade, é arrebatador, de certo modo, como uma boa
massagem nas costas
numa noite congelante
atrás do teleférico de esqui em
Aspen.
686
Charles Bukowski
Seguidores
o telefone tocou à 1:30 da manhã
e era um homem de Denver:
“Chinaski, você tem seguidores em
Denver...”
“é?”
“é, eu tenho uma revista e quero uns
poemas seus...”
“VAI SE FODER, CHINASKI!”, ouvi uma voz
no fundo...
“pelo visto você tem um amigo aí”,
eu disse.
“é”, ele respondeu, “pois então, eu quero
seis poemas...”
“O CHINASKI É UMA PORCARIA! O CHINASKI É UM BABACA!”,
ouvi a outra
voz.
“vocês andaram bebendo?”,
eu perguntei.
“e daí?”, ele respondeu. “você bebe.”
“é verdade...”
“O CHINASKI É UM IMBECIL!”
então
o editor da revista me deu o
endereço e eu o anotei no verso
de um envelope.
“manda uns poemas pra gente agora...”
“vou ver o que posso fazer...”
“O CHINASKI SÓ ESCREVE MERDA!”
“tchau”, eu disse.
“tchau”, disse o
editor.
eu desliguei.
há certamente uma grande quantidade de pessoas
solitárias sem muito o que fazer com
suas noites.
e era um homem de Denver:
“Chinaski, você tem seguidores em
Denver...”
“é?”
“é, eu tenho uma revista e quero uns
poemas seus...”
“VAI SE FODER, CHINASKI!”, ouvi uma voz
no fundo...
“pelo visto você tem um amigo aí”,
eu disse.
“é”, ele respondeu, “pois então, eu quero
seis poemas...”
“O CHINASKI É UMA PORCARIA! O CHINASKI É UM BABACA!”,
ouvi a outra
voz.
“vocês andaram bebendo?”,
eu perguntei.
“e daí?”, ele respondeu. “você bebe.”
“é verdade...”
“O CHINASKI É UM IMBECIL!”
então
o editor da revista me deu o
endereço e eu o anotei no verso
de um envelope.
“manda uns poemas pra gente agora...”
“vou ver o que posso fazer...”
“O CHINASKI SÓ ESCREVE MERDA!”
“tchau”, eu disse.
“tchau”, disse o
editor.
eu desliguei.
há certamente uma grande quantidade de pessoas
solitárias sem muito o que fazer com
suas noites.
1 121
Charles Bukowski
Não Sou Misógino
cada vez mais
recebo cartas de
jovens damas:
“tenho 19 anos e corpo bem-feito
estou sem emprego no momento e
sua escrita me
excita
sou boa dona de casa
e secretária e
eu jamais o
atrapalharia
e
eu poderia mandar uma
foto mas isso é
tão cafona...”
“tenho 21 anos
alta e atraente
li os seus livros
trabalho para um
advogado e
quando você passar pela
cidade
por favor me ligue.”
“nós nos conhecemos
depois da sua leitura
no Troubadour
passamos uma noite
juntos
você se lembra?
eu me casei
com aquele homem
que segundo você tinha uma
voz maldosa
quando você ligou e
ele atendeu
estamos divorciados agora
eu tenho uma
garotinha
de 2 anos
não trabalho mais no
ramo da
música mas
sinto falta
gostaria de
ver você
outra vez...”
“eu li
todos os seus livros
tenho 23 anos
não muito
seio
mas tenho ótimas
pernas
e
bem poucas
palavras
suas
seriam
tão importantes
para mim...”
garotas
por favor deem seus
corpos e suas
vidas
para os jovens rapazes
que
os merecem
além do mais
em hipótese
alguma
eu acolheria de bom grado
o
intolerável
maçante
e disparatado inferno
que vocês criariam
aqui
e
lhes desejo
sorte
na cama
e
fora dela
mas não
na
minha
muito
obrigado.
recebo cartas de
jovens damas:
“tenho 19 anos e corpo bem-feito
estou sem emprego no momento e
sua escrita me
excita
sou boa dona de casa
e secretária e
eu jamais o
atrapalharia
e
eu poderia mandar uma
foto mas isso é
tão cafona...”
“tenho 21 anos
alta e atraente
li os seus livros
trabalho para um
advogado e
quando você passar pela
cidade
por favor me ligue.”
“nós nos conhecemos
depois da sua leitura
no Troubadour
passamos uma noite
juntos
você se lembra?
eu me casei
com aquele homem
que segundo você tinha uma
voz maldosa
quando você ligou e
ele atendeu
estamos divorciados agora
eu tenho uma
garotinha
de 2 anos
não trabalho mais no
ramo da
música mas
sinto falta
gostaria de
ver você
outra vez...”
“eu li
todos os seus livros
tenho 23 anos
não muito
seio
mas tenho ótimas
pernas
e
bem poucas
palavras
suas
seriam
tão importantes
para mim...”
garotas
por favor deem seus
corpos e suas
vidas
para os jovens rapazes
que
os merecem
além do mais
em hipótese
alguma
eu acolheria de bom grado
o
intolerável
maçante
e disparatado inferno
que vocês criariam
aqui
e
lhes desejo
sorte
na cama
e
fora dela
mas não
na
minha
muito
obrigado.
1 296