Poemas neste tema
Outros
Charles Bukowski
Um Leitor Escreve
“Caro sr. Chinaski:
Ainda gosto da sua escrita mas gostava
mais nos bons tempos, quero dizer, quando você
escrevia coisas como ‘quando ela se curvou eu
vi aquela bunda toda’. Ou
você escrevia sobre as detenções de bêbados e os ratos
e as baratas e os camundongos.
Eu gostava de todos os seus problemas com mulheres, eu tenho
problemas com mulheres também e realmente curtia o que
você estava nos passando.
Eu gostava da loucura toda, das brigas no
beco, das batidas da polícia.
Seria bom se houvesse mais disso, me dá energia.
Sei que você vai cagar pra isso mas vou
lhe contar mesmo assim.
Temos um grupo, a gente toma umas,
bota uns discos do Frank Sinatra e lê os seus textos
em voz alta.
Queira nos dar mais daquilo de
antigamente.
é isso aí!”
Caro Leitor:
Sobre o sr. Sinatra vamos esquecer, mas
devo lhe dizer que tenho hoje 70 anos de idade e é
uma surpresa para mim também mas se eu continuasse escrevendo sobre
espiar as bundas das mulheres eu não teria tempo de
escrever sobre como meu gato atravessa a sala enquanto
transmite os segredos da Eternidade para o meu cérebro, quero dizer,
olha, dá pra escrever sobre algo até a morte, a maioria faz isso ao
descobrir que faz vender livros mas não escrevo para vender
livros eu escrevo para impedir que as entranhas da minha psique se afoguem
nas águas cheias de bosta desta assim chamada Existência.
Pegue Hemingway, ele foi escrevendo cada vez mais pra dentro do mesmo
círculo apertado que afinal se fechou e o espremeu até a
morte.
Pegue J.D. Salinger, ele escreveu histórias vívidas e
envolventes da juventude etílica mas quando ficou mais velho não
havia mais nada parecido para escrever.
A especialização é a morte, um doce ruim apodrecido.
A jogatina é a única saída, você precisa ficar lançando
novos dados.
Quanto às mulheres, elas são superestimadas porque nós as
superestimamos.
Você realmente não pode esperar de mim que eu continue escrevendo sobre as
bundas grandes de certas mulheres.
Mas tive de fato alguns problemas, algumas dúvidas sobre
abandonar essa vasta e lucrativa área – pois eu estava ganhando
mais do que o aluguel fazendo aquilo e então por que correr o risco
de escrever sobre, digamos, um azulão de uma só asa se debatendo
num montinho de folhas podres?
Eu precisava, é por isso, e se tirarem o aluguel e mais
ainda vou precisar.
Não invento pretextos para o meu assunto e ele não
inventa pretextos para mim.
Por exemplo, certa vez conheci um popular compositor que tinha um
problema – ele tinha ficado famoso escrevendo canções
sobre a vida dura nos motéis de Hollywood e ele morava
num e ficou rico e famoso e continuava
morando lá, temendo que caso se mudasse
perderia sua imagem pública e sua popularidade.
Na verdade, porém, não faz nenhum sentido um homem rico ficar
morando num motel barato hollywoodiano porque simplesmente
não é a mesma coisa que um homem pobre morando ali.
Para sorte dele o lugar foi fechado e ele
não precisou fingir mais.
Assim como as minhas histórias sobre pensões baratas eram
escritas porque eu morava nelas.
Nós tocamos a vida em frente e se tivermos sorte encontramos material
novo.
O assombro, a novidade e o inferno estão por toda parte.
Frank Sinatra canta suas mesmas velhas canções sem jamais
parar.
É porque está preso àquilo que o tornou
famoso.
A fama não tem nada a ver com nada.
Tocar a vida em frente tem.
Vou morrer em breve, não há nada de extraordinário nisso
mas não serei capaz de escrever a respeito
e ficarei contente por não ter continuado escrevendo sobre
aquilo que você considera interessante e eu
não.
Cara, meu Deus, não quero assumir um tom sagrado
nisso tudo, não tem nada de sagrado no ato de escrever
mas é a maior encenação bêbada de que eu
tenho conhecimento.
Foi no passado e é agora.
As bundas das mulheres e tudo mais.
Estou rindo da escuridão que nem você.
Da próxima vez que vocês tomarem umas, botem um
Sibelius.
claro,
Henry Chinaski
Ainda gosto da sua escrita mas gostava
mais nos bons tempos, quero dizer, quando você
escrevia coisas como ‘quando ela se curvou eu
vi aquela bunda toda’. Ou
você escrevia sobre as detenções de bêbados e os ratos
e as baratas e os camundongos.
Eu gostava de todos os seus problemas com mulheres, eu tenho
problemas com mulheres também e realmente curtia o que
você estava nos passando.
Eu gostava da loucura toda, das brigas no
beco, das batidas da polícia.
Seria bom se houvesse mais disso, me dá energia.
Sei que você vai cagar pra isso mas vou
lhe contar mesmo assim.
Temos um grupo, a gente toma umas,
bota uns discos do Frank Sinatra e lê os seus textos
em voz alta.
Queira nos dar mais daquilo de
antigamente.
é isso aí!”
Caro Leitor:
Sobre o sr. Sinatra vamos esquecer, mas
devo lhe dizer que tenho hoje 70 anos de idade e é
uma surpresa para mim também mas se eu continuasse escrevendo sobre
espiar as bundas das mulheres eu não teria tempo de
escrever sobre como meu gato atravessa a sala enquanto
transmite os segredos da Eternidade para o meu cérebro, quero dizer,
olha, dá pra escrever sobre algo até a morte, a maioria faz isso ao
descobrir que faz vender livros mas não escrevo para vender
livros eu escrevo para impedir que as entranhas da minha psique se afoguem
nas águas cheias de bosta desta assim chamada Existência.
Pegue Hemingway, ele foi escrevendo cada vez mais pra dentro do mesmo
círculo apertado que afinal se fechou e o espremeu até a
morte.
Pegue J.D. Salinger, ele escreveu histórias vívidas e
envolventes da juventude etílica mas quando ficou mais velho não
havia mais nada parecido para escrever.
A especialização é a morte, um doce ruim apodrecido.
A jogatina é a única saída, você precisa ficar lançando
novos dados.
Quanto às mulheres, elas são superestimadas porque nós as
superestimamos.
Você realmente não pode esperar de mim que eu continue escrevendo sobre as
bundas grandes de certas mulheres.
Mas tive de fato alguns problemas, algumas dúvidas sobre
abandonar essa vasta e lucrativa área – pois eu estava ganhando
mais do que o aluguel fazendo aquilo e então por que correr o risco
de escrever sobre, digamos, um azulão de uma só asa se debatendo
num montinho de folhas podres?
Eu precisava, é por isso, e se tirarem o aluguel e mais
ainda vou precisar.
Não invento pretextos para o meu assunto e ele não
inventa pretextos para mim.
Por exemplo, certa vez conheci um popular compositor que tinha um
problema – ele tinha ficado famoso escrevendo canções
sobre a vida dura nos motéis de Hollywood e ele morava
num e ficou rico e famoso e continuava
morando lá, temendo que caso se mudasse
perderia sua imagem pública e sua popularidade.
Na verdade, porém, não faz nenhum sentido um homem rico ficar
morando num motel barato hollywoodiano porque simplesmente
não é a mesma coisa que um homem pobre morando ali.
Para sorte dele o lugar foi fechado e ele
não precisou fingir mais.
Assim como as minhas histórias sobre pensões baratas eram
escritas porque eu morava nelas.
Nós tocamos a vida em frente e se tivermos sorte encontramos material
novo.
O assombro, a novidade e o inferno estão por toda parte.
Frank Sinatra canta suas mesmas velhas canções sem jamais
parar.
É porque está preso àquilo que o tornou
famoso.
A fama não tem nada a ver com nada.
Tocar a vida em frente tem.
Vou morrer em breve, não há nada de extraordinário nisso
mas não serei capaz de escrever a respeito
e ficarei contente por não ter continuado escrevendo sobre
aquilo que você considera interessante e eu
não.
Cara, meu Deus, não quero assumir um tom sagrado
nisso tudo, não tem nada de sagrado no ato de escrever
mas é a maior encenação bêbada de que eu
tenho conhecimento.
Foi no passado e é agora.
As bundas das mulheres e tudo mais.
Estou rindo da escuridão que nem você.
Da próxima vez que vocês tomarem umas, botem um
Sibelius.
claro,
Henry Chinaski
651
Charles Bukowski
Um Leitor Escreve
“Caro sr. Chinaski:
Ainda gosto da sua escrita mas gostava
mais nos bons tempos, quero dizer, quando você
escrevia coisas como ‘quando ela se curvou eu
vi aquela bunda toda’. Ou
você escrevia sobre as detenções de bêbados e os ratos
e as baratas e os camundongos.
Eu gostava de todos os seus problemas com mulheres, eu tenho
problemas com mulheres também e realmente curtia o que
você estava nos passando.
Eu gostava da loucura toda, das brigas no
beco, das batidas da polícia.
Seria bom se houvesse mais disso, me dá energia.
Sei que você vai cagar pra isso mas vou
lhe contar mesmo assim.
Temos um grupo, a gente toma umas,
bota uns discos do Frank Sinatra e lê os seus textos
em voz alta.
Queira nos dar mais daquilo de
antigamente.
é isso aí!”
Caro Leitor:
Sobre o sr. Sinatra vamos esquecer, mas
devo lhe dizer que tenho hoje 70 anos de idade e é
uma surpresa para mim também mas se eu continuasse escrevendo sobre
espiar as bundas das mulheres eu não teria tempo de
escrever sobre como meu gato atravessa a sala enquanto
transmite os segredos da Eternidade para o meu cérebro, quero dizer,
olha, dá pra escrever sobre algo até a morte, a maioria faz isso ao
descobrir que faz vender livros mas não escrevo para vender
livros eu escrevo para impedir que as entranhas da minha psique se afoguem
nas águas cheias de bosta desta assim chamada Existência.
Pegue Hemingway, ele foi escrevendo cada vez mais pra dentro do mesmo
círculo apertado que afinal se fechou e o espremeu até a
morte.
Pegue J.D. Salinger, ele escreveu histórias vívidas e
envolventes da juventude etílica mas quando ficou mais velho não
havia mais nada parecido para escrever.
A especialização é a morte, um doce ruim apodrecido.
A jogatina é a única saída, você precisa ficar lançando
novos dados.
Quanto às mulheres, elas são superestimadas porque nós as
superestimamos.
Você realmente não pode esperar de mim que eu continue escrevendo sobre as
bundas grandes de certas mulheres.
Mas tive de fato alguns problemas, algumas dúvidas sobre
abandonar essa vasta e lucrativa área – pois eu estava ganhando
mais do que o aluguel fazendo aquilo e então por que correr o risco
de escrever sobre, digamos, um azulão de uma só asa se debatendo
num montinho de folhas podres?
Eu precisava, é por isso, e se tirarem o aluguel e mais
ainda vou precisar.
Não invento pretextos para o meu assunto e ele não
inventa pretextos para mim.
Por exemplo, certa vez conheci um popular compositor que tinha um
problema – ele tinha ficado famoso escrevendo canções
sobre a vida dura nos motéis de Hollywood e ele morava
num e ficou rico e famoso e continuava
morando lá, temendo que caso se mudasse
perderia sua imagem pública e sua popularidade.
Na verdade, porém, não faz nenhum sentido um homem rico ficar
morando num motel barato hollywoodiano porque simplesmente
não é a mesma coisa que um homem pobre morando ali.
Para sorte dele o lugar foi fechado e ele
não precisou fingir mais.
Assim como as minhas histórias sobre pensões baratas eram
escritas porque eu morava nelas.
Nós tocamos a vida em frente e se tivermos sorte encontramos material
novo.
O assombro, a novidade e o inferno estão por toda parte.
Frank Sinatra canta suas mesmas velhas canções sem jamais
parar.
É porque está preso àquilo que o tornou
famoso.
A fama não tem nada a ver com nada.
Tocar a vida em frente tem.
Vou morrer em breve, não há nada de extraordinário nisso
mas não serei capaz de escrever a respeito
e ficarei contente por não ter continuado escrevendo sobre
aquilo que você considera interessante e eu
não.
Cara, meu Deus, não quero assumir um tom sagrado
nisso tudo, não tem nada de sagrado no ato de escrever
mas é a maior encenação bêbada de que eu
tenho conhecimento.
Foi no passado e é agora.
As bundas das mulheres e tudo mais.
Estou rindo da escuridão que nem você.
Da próxima vez que vocês tomarem umas, botem um
Sibelius.
claro,
Henry Chinaski
Ainda gosto da sua escrita mas gostava
mais nos bons tempos, quero dizer, quando você
escrevia coisas como ‘quando ela se curvou eu
vi aquela bunda toda’. Ou
você escrevia sobre as detenções de bêbados e os ratos
e as baratas e os camundongos.
Eu gostava de todos os seus problemas com mulheres, eu tenho
problemas com mulheres também e realmente curtia o que
você estava nos passando.
Eu gostava da loucura toda, das brigas no
beco, das batidas da polícia.
Seria bom se houvesse mais disso, me dá energia.
Sei que você vai cagar pra isso mas vou
lhe contar mesmo assim.
Temos um grupo, a gente toma umas,
bota uns discos do Frank Sinatra e lê os seus textos
em voz alta.
Queira nos dar mais daquilo de
antigamente.
é isso aí!”
Caro Leitor:
Sobre o sr. Sinatra vamos esquecer, mas
devo lhe dizer que tenho hoje 70 anos de idade e é
uma surpresa para mim também mas se eu continuasse escrevendo sobre
espiar as bundas das mulheres eu não teria tempo de
escrever sobre como meu gato atravessa a sala enquanto
transmite os segredos da Eternidade para o meu cérebro, quero dizer,
olha, dá pra escrever sobre algo até a morte, a maioria faz isso ao
descobrir que faz vender livros mas não escrevo para vender
livros eu escrevo para impedir que as entranhas da minha psique se afoguem
nas águas cheias de bosta desta assim chamada Existência.
Pegue Hemingway, ele foi escrevendo cada vez mais pra dentro do mesmo
círculo apertado que afinal se fechou e o espremeu até a
morte.
Pegue J.D. Salinger, ele escreveu histórias vívidas e
envolventes da juventude etílica mas quando ficou mais velho não
havia mais nada parecido para escrever.
A especialização é a morte, um doce ruim apodrecido.
A jogatina é a única saída, você precisa ficar lançando
novos dados.
Quanto às mulheres, elas são superestimadas porque nós as
superestimamos.
Você realmente não pode esperar de mim que eu continue escrevendo sobre as
bundas grandes de certas mulheres.
Mas tive de fato alguns problemas, algumas dúvidas sobre
abandonar essa vasta e lucrativa área – pois eu estava ganhando
mais do que o aluguel fazendo aquilo e então por que correr o risco
de escrever sobre, digamos, um azulão de uma só asa se debatendo
num montinho de folhas podres?
Eu precisava, é por isso, e se tirarem o aluguel e mais
ainda vou precisar.
Não invento pretextos para o meu assunto e ele não
inventa pretextos para mim.
Por exemplo, certa vez conheci um popular compositor que tinha um
problema – ele tinha ficado famoso escrevendo canções
sobre a vida dura nos motéis de Hollywood e ele morava
num e ficou rico e famoso e continuava
morando lá, temendo que caso se mudasse
perderia sua imagem pública e sua popularidade.
Na verdade, porém, não faz nenhum sentido um homem rico ficar
morando num motel barato hollywoodiano porque simplesmente
não é a mesma coisa que um homem pobre morando ali.
Para sorte dele o lugar foi fechado e ele
não precisou fingir mais.
Assim como as minhas histórias sobre pensões baratas eram
escritas porque eu morava nelas.
Nós tocamos a vida em frente e se tivermos sorte encontramos material
novo.
O assombro, a novidade e o inferno estão por toda parte.
Frank Sinatra canta suas mesmas velhas canções sem jamais
parar.
É porque está preso àquilo que o tornou
famoso.
A fama não tem nada a ver com nada.
Tocar a vida em frente tem.
Vou morrer em breve, não há nada de extraordinário nisso
mas não serei capaz de escrever a respeito
e ficarei contente por não ter continuado escrevendo sobre
aquilo que você considera interessante e eu
não.
Cara, meu Deus, não quero assumir um tom sagrado
nisso tudo, não tem nada de sagrado no ato de escrever
mas é a maior encenação bêbada de que eu
tenho conhecimento.
Foi no passado e é agora.
As bundas das mulheres e tudo mais.
Estou rindo da escuridão que nem você.
Da próxima vez que vocês tomarem umas, botem um
Sibelius.
claro,
Henry Chinaski
651
Charles Bukowski
Um Leitor Escreve
“Caro sr. Chinaski:
Ainda gosto da sua escrita mas gostava
mais nos bons tempos, quero dizer, quando você
escrevia coisas como ‘quando ela se curvou eu
vi aquela bunda toda’. Ou
você escrevia sobre as detenções de bêbados e os ratos
e as baratas e os camundongos.
Eu gostava de todos os seus problemas com mulheres, eu tenho
problemas com mulheres também e realmente curtia o que
você estava nos passando.
Eu gostava da loucura toda, das brigas no
beco, das batidas da polícia.
Seria bom se houvesse mais disso, me dá energia.
Sei que você vai cagar pra isso mas vou
lhe contar mesmo assim.
Temos um grupo, a gente toma umas,
bota uns discos do Frank Sinatra e lê os seus textos
em voz alta.
Queira nos dar mais daquilo de
antigamente.
é isso aí!”
Caro Leitor:
Sobre o sr. Sinatra vamos esquecer, mas
devo lhe dizer que tenho hoje 70 anos de idade e é
uma surpresa para mim também mas se eu continuasse escrevendo sobre
espiar as bundas das mulheres eu não teria tempo de
escrever sobre como meu gato atravessa a sala enquanto
transmite os segredos da Eternidade para o meu cérebro, quero dizer,
olha, dá pra escrever sobre algo até a morte, a maioria faz isso ao
descobrir que faz vender livros mas não escrevo para vender
livros eu escrevo para impedir que as entranhas da minha psique se afoguem
nas águas cheias de bosta desta assim chamada Existência.
Pegue Hemingway, ele foi escrevendo cada vez mais pra dentro do mesmo
círculo apertado que afinal se fechou e o espremeu até a
morte.
Pegue J.D. Salinger, ele escreveu histórias vívidas e
envolventes da juventude etílica mas quando ficou mais velho não
havia mais nada parecido para escrever.
A especialização é a morte, um doce ruim apodrecido.
A jogatina é a única saída, você precisa ficar lançando
novos dados.
Quanto às mulheres, elas são superestimadas porque nós as
superestimamos.
Você realmente não pode esperar de mim que eu continue escrevendo sobre as
bundas grandes de certas mulheres.
Mas tive de fato alguns problemas, algumas dúvidas sobre
abandonar essa vasta e lucrativa área – pois eu estava ganhando
mais do que o aluguel fazendo aquilo e então por que correr o risco
de escrever sobre, digamos, um azulão de uma só asa se debatendo
num montinho de folhas podres?
Eu precisava, é por isso, e se tirarem o aluguel e mais
ainda vou precisar.
Não invento pretextos para o meu assunto e ele não
inventa pretextos para mim.
Por exemplo, certa vez conheci um popular compositor que tinha um
problema – ele tinha ficado famoso escrevendo canções
sobre a vida dura nos motéis de Hollywood e ele morava
num e ficou rico e famoso e continuava
morando lá, temendo que caso se mudasse
perderia sua imagem pública e sua popularidade.
Na verdade, porém, não faz nenhum sentido um homem rico ficar
morando num motel barato hollywoodiano porque simplesmente
não é a mesma coisa que um homem pobre morando ali.
Para sorte dele o lugar foi fechado e ele
não precisou fingir mais.
Assim como as minhas histórias sobre pensões baratas eram
escritas porque eu morava nelas.
Nós tocamos a vida em frente e se tivermos sorte encontramos material
novo.
O assombro, a novidade e o inferno estão por toda parte.
Frank Sinatra canta suas mesmas velhas canções sem jamais
parar.
É porque está preso àquilo que o tornou
famoso.
A fama não tem nada a ver com nada.
Tocar a vida em frente tem.
Vou morrer em breve, não há nada de extraordinário nisso
mas não serei capaz de escrever a respeito
e ficarei contente por não ter continuado escrevendo sobre
aquilo que você considera interessante e eu
não.
Cara, meu Deus, não quero assumir um tom sagrado
nisso tudo, não tem nada de sagrado no ato de escrever
mas é a maior encenação bêbada de que eu
tenho conhecimento.
Foi no passado e é agora.
As bundas das mulheres e tudo mais.
Estou rindo da escuridão que nem você.
Da próxima vez que vocês tomarem umas, botem um
Sibelius.
claro,
Henry Chinaski
Ainda gosto da sua escrita mas gostava
mais nos bons tempos, quero dizer, quando você
escrevia coisas como ‘quando ela se curvou eu
vi aquela bunda toda’. Ou
você escrevia sobre as detenções de bêbados e os ratos
e as baratas e os camundongos.
Eu gostava de todos os seus problemas com mulheres, eu tenho
problemas com mulheres também e realmente curtia o que
você estava nos passando.
Eu gostava da loucura toda, das brigas no
beco, das batidas da polícia.
Seria bom se houvesse mais disso, me dá energia.
Sei que você vai cagar pra isso mas vou
lhe contar mesmo assim.
Temos um grupo, a gente toma umas,
bota uns discos do Frank Sinatra e lê os seus textos
em voz alta.
Queira nos dar mais daquilo de
antigamente.
é isso aí!”
Caro Leitor:
Sobre o sr. Sinatra vamos esquecer, mas
devo lhe dizer que tenho hoje 70 anos de idade e é
uma surpresa para mim também mas se eu continuasse escrevendo sobre
espiar as bundas das mulheres eu não teria tempo de
escrever sobre como meu gato atravessa a sala enquanto
transmite os segredos da Eternidade para o meu cérebro, quero dizer,
olha, dá pra escrever sobre algo até a morte, a maioria faz isso ao
descobrir que faz vender livros mas não escrevo para vender
livros eu escrevo para impedir que as entranhas da minha psique se afoguem
nas águas cheias de bosta desta assim chamada Existência.
Pegue Hemingway, ele foi escrevendo cada vez mais pra dentro do mesmo
círculo apertado que afinal se fechou e o espremeu até a
morte.
Pegue J.D. Salinger, ele escreveu histórias vívidas e
envolventes da juventude etílica mas quando ficou mais velho não
havia mais nada parecido para escrever.
A especialização é a morte, um doce ruim apodrecido.
A jogatina é a única saída, você precisa ficar lançando
novos dados.
Quanto às mulheres, elas são superestimadas porque nós as
superestimamos.
Você realmente não pode esperar de mim que eu continue escrevendo sobre as
bundas grandes de certas mulheres.
Mas tive de fato alguns problemas, algumas dúvidas sobre
abandonar essa vasta e lucrativa área – pois eu estava ganhando
mais do que o aluguel fazendo aquilo e então por que correr o risco
de escrever sobre, digamos, um azulão de uma só asa se debatendo
num montinho de folhas podres?
Eu precisava, é por isso, e se tirarem o aluguel e mais
ainda vou precisar.
Não invento pretextos para o meu assunto e ele não
inventa pretextos para mim.
Por exemplo, certa vez conheci um popular compositor que tinha um
problema – ele tinha ficado famoso escrevendo canções
sobre a vida dura nos motéis de Hollywood e ele morava
num e ficou rico e famoso e continuava
morando lá, temendo que caso se mudasse
perderia sua imagem pública e sua popularidade.
Na verdade, porém, não faz nenhum sentido um homem rico ficar
morando num motel barato hollywoodiano porque simplesmente
não é a mesma coisa que um homem pobre morando ali.
Para sorte dele o lugar foi fechado e ele
não precisou fingir mais.
Assim como as minhas histórias sobre pensões baratas eram
escritas porque eu morava nelas.
Nós tocamos a vida em frente e se tivermos sorte encontramos material
novo.
O assombro, a novidade e o inferno estão por toda parte.
Frank Sinatra canta suas mesmas velhas canções sem jamais
parar.
É porque está preso àquilo que o tornou
famoso.
A fama não tem nada a ver com nada.
Tocar a vida em frente tem.
Vou morrer em breve, não há nada de extraordinário nisso
mas não serei capaz de escrever a respeito
e ficarei contente por não ter continuado escrevendo sobre
aquilo que você considera interessante e eu
não.
Cara, meu Deus, não quero assumir um tom sagrado
nisso tudo, não tem nada de sagrado no ato de escrever
mas é a maior encenação bêbada de que eu
tenho conhecimento.
Foi no passado e é agora.
As bundas das mulheres e tudo mais.
Estou rindo da escuridão que nem você.
Da próxima vez que vocês tomarem umas, botem um
Sibelius.
claro,
Henry Chinaski
651
Charles Bukowski
Desculpa Para Uma Possível Imortalidade
se não conseguirmos fazer literatura com nossa
agonia
o que é que faremos com
ela?
mendigar nas ruas?
eu gosto dos meus pequenos confortos
igual a qualquer outro
filho da
puta.
agonia
o que é que faremos com
ela?
mendigar nas ruas?
eu gosto dos meus pequenos confortos
igual a qualquer outro
filho da
puta.
1 239
Charles Bukowski
Desculpa Para Uma Possível Imortalidade
se não conseguirmos fazer literatura com nossa
agonia
o que é que faremos com
ela?
mendigar nas ruas?
eu gosto dos meus pequenos confortos
igual a qualquer outro
filho da
puta.
agonia
o que é que faremos com
ela?
mendigar nas ruas?
eu gosto dos meus pequenos confortos
igual a qualquer outro
filho da
puta.
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Charles Bukowski
Desculpa Para Uma Possível Imortalidade
se não conseguirmos fazer literatura com nossa
agonia
o que é que faremos com
ela?
mendigar nas ruas?
eu gosto dos meus pequenos confortos
igual a qualquer outro
filho da
puta.
agonia
o que é que faremos com
ela?
mendigar nas ruas?
eu gosto dos meus pequenos confortos
igual a qualquer outro
filho da
puta.
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Charles Bukowski
Verrugas
eu me lembro melhor da minha vó
por causa de todas as verrugas dela
ela tinha 80 anos e as verrugas eram
enormes
eu não conseguia tirar os olhos de suas
verrugas
ela vinha para Los Angeles todos os domingos
de ônibus e bonde desde Pasadena
sua conversa era sempre a mesma
“eu vou enterrar todos vocês”
“você não vai me enterrar”,
meu pai dizia
“você não vai me enterrar”,
minha mãe dizia
então sentávamos para um jantar
dominical
depois da despedida minha mãe dizia
“eu acho terrível o jeito como ela fala
que vai enterrar todo mundo.”
mas eu até que gostava
dela sentada ali
coberta de verrugas
e ameaçando enterrar todos
nós
e quando ela comia o jantar
eu observava a comida entrando em sua boca
e olhava suas
verrugas
eu a imaginava indo ao banheiro
e limpando o traseiro
e pensando,
eu vou enterrar todo mundo
o fato de que ela não enterrou
foi até meio triste para
mim
certo domingo ela simplesmente não estava
lá, e foi um
domingo bem mais chato
outra pessoa teria que
nos enterrar
a comida mal tinha gosto
também
por causa de todas as verrugas dela
ela tinha 80 anos e as verrugas eram
enormes
eu não conseguia tirar os olhos de suas
verrugas
ela vinha para Los Angeles todos os domingos
de ônibus e bonde desde Pasadena
sua conversa era sempre a mesma
“eu vou enterrar todos vocês”
“você não vai me enterrar”,
meu pai dizia
“você não vai me enterrar”,
minha mãe dizia
então sentávamos para um jantar
dominical
depois da despedida minha mãe dizia
“eu acho terrível o jeito como ela fala
que vai enterrar todo mundo.”
mas eu até que gostava
dela sentada ali
coberta de verrugas
e ameaçando enterrar todos
nós
e quando ela comia o jantar
eu observava a comida entrando em sua boca
e olhava suas
verrugas
eu a imaginava indo ao banheiro
e limpando o traseiro
e pensando,
eu vou enterrar todo mundo
o fato de que ela não enterrou
foi até meio triste para
mim
certo domingo ela simplesmente não estava
lá, e foi um
domingo bem mais chato
outra pessoa teria que
nos enterrar
a comida mal tinha gosto
também
1 223
Charles Bukowski
29 Uvas Geladas
o processo de aprender é tortuoso
todos esses moinhos de vento
toda essa transição sangrenta
pias tampadas
mentes de papel higiênico
a mentira do amor, aquela puta pelada
cães com mais almas do que aqueles milionários de Pittsburgh
homens arruinados que achavam a graça mais eterna do que astuciosa
o processo de viver é curto demais e longo demais
longo demais para os velhos que nunca descobrem
curto demais para os velhos que descobriram
prematuro demais para os jovens que nunca sabem
excessivo demais para os jovens que descobrem
o processo de continuar é possível
com ajuda de álcool ou droga ou sexo
ou ouro ou golfe ou música sinfônica,
ou caça de cervos ou aprender a dançar a galinha maluca
ou ver um jogo de beisebol ou apostar num cavalo
ou tomar 6 banhos quentes por dia
ou insistir na ioga
ou virar um batista ou um violonista
ou ganhar uma massagem ou ler os quadrinhos
ou se masturbar ou comer 29 uvas geladas
ou discutir sobre John Cage ou ir ao zoológico
ou fumar charutos ou mostrar seu peru para garotinhas no parque
ou ser negro e comer uma garota branca
ou ser branco e comer uma garota negra
ou passear com um cão ou alimentar um gato ou xingar aos gritos uma criança
ou fazer as palavras cruzadas ou sentar no parque
ou frequentar faculdade ou pedalar uma bicicleta ou comer espaguete
ou ir a leituras de poesia ou ler poesia em público
ou ir ao cinema ou votar ou viajar à Índia ou
Nova York ou surrar alguém
ou polir prataria ou lustrar os sapatos
ou escrever uma carta ou encerar o carro
ou comprar um carro novo ou um tapetinho
ou uma camisa vermelha com bolinhas brancas
ou deixar crescer a barba ou cortar rente o cabelo
ou ficar parado na esquina suando com cara de inteligente
o processo de continuar é possível.
o processo de aprender é tortuoso
todas as pessoas sem esperança
e sem jamais saber
a flor silvestre é o tigre que comanda o universo
o tigre é a flor silvestre que comanda o universo
e as loucas e incomparáveis criaturas humanas com almas de barata
que sou chamado a amar e odiar e ter em convívio,
essas deverão verdadeiramente um dia sumir
na força de dinossauro de sua feiura
para que o sol não se sinta tão mal assim
para que o mar possa expelir os navios e o óleo e a merda
para que o céu possa se limpar da mesquinha cobiça delas
para que a noite possa se distinguir do dia
para que a traição possa virar o mais ínfimo dos anacronismos
para que o amor, provável iniciador de tudo, possa ter outro início
e durar e durar e durar e durar e durar e durar e
durar e durar e durar e durar
todos esses moinhos de vento
toda essa transição sangrenta
pias tampadas
mentes de papel higiênico
a mentira do amor, aquela puta pelada
cães com mais almas do que aqueles milionários de Pittsburgh
homens arruinados que achavam a graça mais eterna do que astuciosa
o processo de viver é curto demais e longo demais
longo demais para os velhos que nunca descobrem
curto demais para os velhos que descobriram
prematuro demais para os jovens que nunca sabem
excessivo demais para os jovens que descobrem
o processo de continuar é possível
com ajuda de álcool ou droga ou sexo
ou ouro ou golfe ou música sinfônica,
ou caça de cervos ou aprender a dançar a galinha maluca
ou ver um jogo de beisebol ou apostar num cavalo
ou tomar 6 banhos quentes por dia
ou insistir na ioga
ou virar um batista ou um violonista
ou ganhar uma massagem ou ler os quadrinhos
ou se masturbar ou comer 29 uvas geladas
ou discutir sobre John Cage ou ir ao zoológico
ou fumar charutos ou mostrar seu peru para garotinhas no parque
ou ser negro e comer uma garota branca
ou ser branco e comer uma garota negra
ou passear com um cão ou alimentar um gato ou xingar aos gritos uma criança
ou fazer as palavras cruzadas ou sentar no parque
ou frequentar faculdade ou pedalar uma bicicleta ou comer espaguete
ou ir a leituras de poesia ou ler poesia em público
ou ir ao cinema ou votar ou viajar à Índia ou
Nova York ou surrar alguém
ou polir prataria ou lustrar os sapatos
ou escrever uma carta ou encerar o carro
ou comprar um carro novo ou um tapetinho
ou uma camisa vermelha com bolinhas brancas
ou deixar crescer a barba ou cortar rente o cabelo
ou ficar parado na esquina suando com cara de inteligente
o processo de continuar é possível.
o processo de aprender é tortuoso
todas as pessoas sem esperança
e sem jamais saber
a flor silvestre é o tigre que comanda o universo
o tigre é a flor silvestre que comanda o universo
e as loucas e incomparáveis criaturas humanas com almas de barata
que sou chamado a amar e odiar e ter em convívio,
essas deverão verdadeiramente um dia sumir
na força de dinossauro de sua feiura
para que o sol não se sinta tão mal assim
para que o mar possa expelir os navios e o óleo e a merda
para que o céu possa se limpar da mesquinha cobiça delas
para que a noite possa se distinguir do dia
para que a traição possa virar o mais ínfimo dos anacronismos
para que o amor, provável iniciador de tudo, possa ter outro início
e durar e durar e durar e durar e durar e durar e
durar e durar e durar e durar
672
Charles Bukowski
29 Uvas Geladas
o processo de aprender é tortuoso
todos esses moinhos de vento
toda essa transição sangrenta
pias tampadas
mentes de papel higiênico
a mentira do amor, aquela puta pelada
cães com mais almas do que aqueles milionários de Pittsburgh
homens arruinados que achavam a graça mais eterna do que astuciosa
o processo de viver é curto demais e longo demais
longo demais para os velhos que nunca descobrem
curto demais para os velhos que descobriram
prematuro demais para os jovens que nunca sabem
excessivo demais para os jovens que descobrem
o processo de continuar é possível
com ajuda de álcool ou droga ou sexo
ou ouro ou golfe ou música sinfônica,
ou caça de cervos ou aprender a dançar a galinha maluca
ou ver um jogo de beisebol ou apostar num cavalo
ou tomar 6 banhos quentes por dia
ou insistir na ioga
ou virar um batista ou um violonista
ou ganhar uma massagem ou ler os quadrinhos
ou se masturbar ou comer 29 uvas geladas
ou discutir sobre John Cage ou ir ao zoológico
ou fumar charutos ou mostrar seu peru para garotinhas no parque
ou ser negro e comer uma garota branca
ou ser branco e comer uma garota negra
ou passear com um cão ou alimentar um gato ou xingar aos gritos uma criança
ou fazer as palavras cruzadas ou sentar no parque
ou frequentar faculdade ou pedalar uma bicicleta ou comer espaguete
ou ir a leituras de poesia ou ler poesia em público
ou ir ao cinema ou votar ou viajar à Índia ou
Nova York ou surrar alguém
ou polir prataria ou lustrar os sapatos
ou escrever uma carta ou encerar o carro
ou comprar um carro novo ou um tapetinho
ou uma camisa vermelha com bolinhas brancas
ou deixar crescer a barba ou cortar rente o cabelo
ou ficar parado na esquina suando com cara de inteligente
o processo de continuar é possível.
o processo de aprender é tortuoso
todas as pessoas sem esperança
e sem jamais saber
a flor silvestre é o tigre que comanda o universo
o tigre é a flor silvestre que comanda o universo
e as loucas e incomparáveis criaturas humanas com almas de barata
que sou chamado a amar e odiar e ter em convívio,
essas deverão verdadeiramente um dia sumir
na força de dinossauro de sua feiura
para que o sol não se sinta tão mal assim
para que o mar possa expelir os navios e o óleo e a merda
para que o céu possa se limpar da mesquinha cobiça delas
para que a noite possa se distinguir do dia
para que a traição possa virar o mais ínfimo dos anacronismos
para que o amor, provável iniciador de tudo, possa ter outro início
e durar e durar e durar e durar e durar e durar e
durar e durar e durar e durar
todos esses moinhos de vento
toda essa transição sangrenta
pias tampadas
mentes de papel higiênico
a mentira do amor, aquela puta pelada
cães com mais almas do que aqueles milionários de Pittsburgh
homens arruinados que achavam a graça mais eterna do que astuciosa
o processo de viver é curto demais e longo demais
longo demais para os velhos que nunca descobrem
curto demais para os velhos que descobriram
prematuro demais para os jovens que nunca sabem
excessivo demais para os jovens que descobrem
o processo de continuar é possível
com ajuda de álcool ou droga ou sexo
ou ouro ou golfe ou música sinfônica,
ou caça de cervos ou aprender a dançar a galinha maluca
ou ver um jogo de beisebol ou apostar num cavalo
ou tomar 6 banhos quentes por dia
ou insistir na ioga
ou virar um batista ou um violonista
ou ganhar uma massagem ou ler os quadrinhos
ou se masturbar ou comer 29 uvas geladas
ou discutir sobre John Cage ou ir ao zoológico
ou fumar charutos ou mostrar seu peru para garotinhas no parque
ou ser negro e comer uma garota branca
ou ser branco e comer uma garota negra
ou passear com um cão ou alimentar um gato ou xingar aos gritos uma criança
ou fazer as palavras cruzadas ou sentar no parque
ou frequentar faculdade ou pedalar uma bicicleta ou comer espaguete
ou ir a leituras de poesia ou ler poesia em público
ou ir ao cinema ou votar ou viajar à Índia ou
Nova York ou surrar alguém
ou polir prataria ou lustrar os sapatos
ou escrever uma carta ou encerar o carro
ou comprar um carro novo ou um tapetinho
ou uma camisa vermelha com bolinhas brancas
ou deixar crescer a barba ou cortar rente o cabelo
ou ficar parado na esquina suando com cara de inteligente
o processo de continuar é possível.
o processo de aprender é tortuoso
todas as pessoas sem esperança
e sem jamais saber
a flor silvestre é o tigre que comanda o universo
o tigre é a flor silvestre que comanda o universo
e as loucas e incomparáveis criaturas humanas com almas de barata
que sou chamado a amar e odiar e ter em convívio,
essas deverão verdadeiramente um dia sumir
na força de dinossauro de sua feiura
para que o sol não se sinta tão mal assim
para que o mar possa expelir os navios e o óleo e a merda
para que o céu possa se limpar da mesquinha cobiça delas
para que a noite possa se distinguir do dia
para que a traição possa virar o mais ínfimo dos anacronismos
para que o amor, provável iniciador de tudo, possa ter outro início
e durar e durar e durar e durar e durar e durar e
durar e durar e durar e durar
672
Charles Bukowski
Queimando Na Água, Afogando-Se Na Chama
pessoas copiadas em carbono
escolhendo roupas e sapatos e objetos
pessoas copiadas em carbono
entrando em edifícios e saindo deles,
vendo o mesmo sol
a mesma lua,
lendo o mesmo jornal
olhando os mesmos programas
tendo as mesmas ideias,
dormindo ao mesmo tempo,
levantando ao mesmo tempo,
comendo a mesma comida,
dirigindo os mesmos carros pelas mesmas autoestradas
pessoas copiadas em carbono
com filhos copiados em carbono
em casas copiadas em carbono
com Natais e Anos Novos copiados em carbono
e aniversários e vidas e
mortes
e gramados e lava-louças e tapetes
e vasos e amores e cópulas, e
elas têm dentistas copiados em carbono e
prefeitos e governadores e presidentes copiados em carbono
todas vendo o mesmo sol e a mesma lua,
ó caixões copiados em carbono
ó túmulos copiados em carbono
ó enterros copiados em carbono
sob a mesma lua,
a grama copiada em carbono a geada
as lápides copiadas em carbono,
a risada copiada em carbono
os gritos copiados em carbono
as piadas copiadas em carbono
os poemas copiados em carbono
a cópia em carbono copiada em carbono
loucos e bêbados e drogados e estupradores
e cães e gatos e pássaros e cobras e aranhas,
há um excesso de todas as coisas tudo parecido,
eu tenho dedos e há dedos em todos os lugares,
se eu entro por uma porta devo sair por uma porta,
faço cocô e há cocô em todos os lugares,
tenho olhos e há olhos em todos os lugares.
tenho pesadelos e há pesadelos em todos os lugares,
se durmo devo acordar,
se trepo devo parar de trepar,
se como devo parar de comer,
não posso fazer nada que quero,
estou trancado numa repetição de mesmice...
estou queimando na água
estou me afogando na chama
sou lançado em nuvens de açúcar que mijam vinagre,
mas você também e eles também e nós também,
e pensamentos e lutas
contra um dínamo de similares contorções,
ajuda ajuda ajuda ajuda ajuda ajuda ajuda
eu dou o grito de ajuda copiado em carbono contra o céu copiado em carbono,
que todo esse carbono e papelão contêm sangue e dor,
até mesmo amor e história e esperança,
esse é o empecilho, ou esse é o truque?
como poderemos saber? os psiquiatras e pregadores e filósofos
copiados em carbono nos dizem coisas copiadas em carbono...
morte? existe morte? talvez o portão se abra
e nós seremos acolhidos por anjos torrados e torturados
onde seremos afinal trapaceados numa insuficiente Eternidade,
uma piada pior do que a Vida...
não seria uma merda?
escapar de homens como alavancas de câmbio e mulheres como
carne de cavalo, apenas para
despontar em algo pior? ah,
pense então nos irritados suicídios
nos heróis mortos de guerras mortas...
nas crianças atropeladas,
nos santos queimados na fogueira –
todos eles defraudados, enrolados, dopados,
vendidos a uma escravidão pior do que ranho
cante as suas mortes cante as suas mortes cante as suas
mortes, cante a sua vida, cante
a vida, isso não é nada
bom, isso não é nada
bom. meu deus, esqueci de botar um
papel-carbono embaixo desta
folha...
escolhendo roupas e sapatos e objetos
pessoas copiadas em carbono
entrando em edifícios e saindo deles,
vendo o mesmo sol
a mesma lua,
lendo o mesmo jornal
olhando os mesmos programas
tendo as mesmas ideias,
dormindo ao mesmo tempo,
levantando ao mesmo tempo,
comendo a mesma comida,
dirigindo os mesmos carros pelas mesmas autoestradas
pessoas copiadas em carbono
com filhos copiados em carbono
em casas copiadas em carbono
com Natais e Anos Novos copiados em carbono
e aniversários e vidas e
mortes
e gramados e lava-louças e tapetes
e vasos e amores e cópulas, e
elas têm dentistas copiados em carbono e
prefeitos e governadores e presidentes copiados em carbono
todas vendo o mesmo sol e a mesma lua,
ó caixões copiados em carbono
ó túmulos copiados em carbono
ó enterros copiados em carbono
sob a mesma lua,
a grama copiada em carbono a geada
as lápides copiadas em carbono,
a risada copiada em carbono
os gritos copiados em carbono
as piadas copiadas em carbono
os poemas copiados em carbono
a cópia em carbono copiada em carbono
loucos e bêbados e drogados e estupradores
e cães e gatos e pássaros e cobras e aranhas,
há um excesso de todas as coisas tudo parecido,
eu tenho dedos e há dedos em todos os lugares,
se eu entro por uma porta devo sair por uma porta,
faço cocô e há cocô em todos os lugares,
tenho olhos e há olhos em todos os lugares.
tenho pesadelos e há pesadelos em todos os lugares,
se durmo devo acordar,
se trepo devo parar de trepar,
se como devo parar de comer,
não posso fazer nada que quero,
estou trancado numa repetição de mesmice...
estou queimando na água
estou me afogando na chama
sou lançado em nuvens de açúcar que mijam vinagre,
mas você também e eles também e nós também,
e pensamentos e lutas
contra um dínamo de similares contorções,
ajuda ajuda ajuda ajuda ajuda ajuda ajuda
eu dou o grito de ajuda copiado em carbono contra o céu copiado em carbono,
que todo esse carbono e papelão contêm sangue e dor,
até mesmo amor e história e esperança,
esse é o empecilho, ou esse é o truque?
como poderemos saber? os psiquiatras e pregadores e filósofos
copiados em carbono nos dizem coisas copiadas em carbono...
morte? existe morte? talvez o portão se abra
e nós seremos acolhidos por anjos torrados e torturados
onde seremos afinal trapaceados numa insuficiente Eternidade,
uma piada pior do que a Vida...
não seria uma merda?
escapar de homens como alavancas de câmbio e mulheres como
carne de cavalo, apenas para
despontar em algo pior? ah,
pense então nos irritados suicídios
nos heróis mortos de guerras mortas...
nas crianças atropeladas,
nos santos queimados na fogueira –
todos eles defraudados, enrolados, dopados,
vendidos a uma escravidão pior do que ranho
cante as suas mortes cante as suas mortes cante as suas
mortes, cante a sua vida, cante
a vida, isso não é nada
bom, isso não é nada
bom. meu deus, esqueci de botar um
papel-carbono embaixo desta
folha...
1 020
Charles Bukowski
Vivo Para Escrever E Agora Estou Morrendo
já contei antes e nunca foi publicado então
talvez eu não tenha contado direito, então
é assim: eu estava em Atlanta, morando num barraco
por $1.25 por semana.
sem luz.
sem aquecimento.
um frio de rachar, estou sem dinheiro mas tenho
selos
envelopes
papel.
mando cartas pedindo socorro, só que não conheço
ninguém.
tem os meus pais mas sei que eles não vão estar
nem aí.
escrevo uma pra eles
mesmo assim.
depois
pra quem mais?
o editor da New Yorker, ele deve me conhecer, eu
enviei um conto por semana pra ele por
anos.
e o editor da Esquire
e a Atlantic Monthly
e Harper’s.
“não estou submetendo texto”, eu
escrevia, “ou talvez esteja... de todo modo...”
e aí vinha a proposta: “só um dólar, vai
salvar a minha vida...” e etc. e etc...
e por algum motivo
eu tinha os endereços de Kay Boyle e Caresse
Crosby
e
escrevi para elas.
pelo menos Caresse tinha me publicado em sua
Portfolio...
levei todas as cartas até a caixa de correio
larguei lá dentro e
esperei.
pensei, alguém ficará com pena do escritor
faminto, sou um homem
dedicado:
vivo para escrever e agora estou
morrendo.
e
cada dia
eu achava que seria
meu último.
eu atrasava o aluguel, encontrava pedaços de comida
nas ruas, geralmente
congelados.
eu levava pra casa e descongelava
embaixo da colcha.
eu pensava no Fome de Hamsun
e
ria.
um dia frio era seguido por outro,
lentamente.
a primeira carta foi do meu pai,
seis páginas, e sacudi as páginas
repetidas vezes
mas não havia dinheiro
algum
só
conselhos,
o principal sendo
este: “você nunca será um
escritor! o que você escreve é feio
demais! ninguém quer ler essa
bosta!”
então chegou o
dia!
uma carta de Caresse
Crosby!
eu abri.
nada de dinheiro
mas
texto datilografado bonitinho:
“Caro Charles,
foi bom receber notícias
suas. desisti da
revista. moro agora num
castelo na Itália. é
no alto de uma montanha mas
embaixo há um vilarejo
com frequência desço lá
para ajudar os pobres. sinto
que é a minha missão.
com amor,
Caresse...”
ela não tinha lido minha carta?
eu
era o pobre!
eu precisava ser um camponês
italiano para me
qualificar?
e os editores das revistas nunca
responderam e tampouco
Kay Boyle
mas nunca gostei do que ela escrevia
de qualquer maneira.
e nunca esperei grande coisa
dos editores das
revistas.
mas Caresse
Crosby?
black sun press?
eu agora até lembro como
afinal saí de
Atlanta.
eu estava simplesmente vagando pelas
ruas e cheguei a uma
pequena área
arborizada.
havia uma cabana de zinco ali
e um grande letreiro vermelho
dizendo: “vagas de trabalho!”
dentro havia um homem com
agradáveis olhos azuis e ele era
bastante cordial
e assinei pra me juntar aos
operários de uma ferrovia:
“em algum ponto a oeste de
Sacramento.”
no caminho de volta
naquele vagão empoeirado de cem anos de idade com
os assentos rasgados e os ratos e
as latas de feijão com carne de porco
nenhum dos caras sabia que eu tinha sido
publicado na Portfolio junto com
Sartre, Henry Miller, Genet e
etc.
junto com reproduções de pinturas de
Picasso e etc. e etc.
e se tivessem ficado sabendo estariam
cagando e andando
e francamente
eu mesmo estava.
só algumas décadas depois
quando eu me via em circunstâncias ligeiramente melhores
que me aconteceu de ler sobre a morte de
Caresse Crosby
e outra vez fiquei desconcertado
por sua recusa em
mandar uma reles notinha para um
gênio americano faminto.
é isso
esta é a última vez que vou escrever essa
história.
ela deveria ser
publicada...
e se for vou receber centenas
de cartas
de gênios americanos famintos
pedindo uma prata, cinco pratas, dez ou
mais.
não vou lhes dizer que estou ajudando os
pobres, à la Caresse.
vou mandá-los ler
os Poemas reunidos de
Kay Boyle.
talvez eu não tenha contado direito, então
é assim: eu estava em Atlanta, morando num barraco
por $1.25 por semana.
sem luz.
sem aquecimento.
um frio de rachar, estou sem dinheiro mas tenho
selos
envelopes
papel.
mando cartas pedindo socorro, só que não conheço
ninguém.
tem os meus pais mas sei que eles não vão estar
nem aí.
escrevo uma pra eles
mesmo assim.
depois
pra quem mais?
o editor da New Yorker, ele deve me conhecer, eu
enviei um conto por semana pra ele por
anos.
e o editor da Esquire
e a Atlantic Monthly
e Harper’s.
“não estou submetendo texto”, eu
escrevia, “ou talvez esteja... de todo modo...”
e aí vinha a proposta: “só um dólar, vai
salvar a minha vida...” e etc. e etc...
e por algum motivo
eu tinha os endereços de Kay Boyle e Caresse
Crosby
e
escrevi para elas.
pelo menos Caresse tinha me publicado em sua
Portfolio...
levei todas as cartas até a caixa de correio
larguei lá dentro e
esperei.
pensei, alguém ficará com pena do escritor
faminto, sou um homem
dedicado:
vivo para escrever e agora estou
morrendo.
e
cada dia
eu achava que seria
meu último.
eu atrasava o aluguel, encontrava pedaços de comida
nas ruas, geralmente
congelados.
eu levava pra casa e descongelava
embaixo da colcha.
eu pensava no Fome de Hamsun
e
ria.
um dia frio era seguido por outro,
lentamente.
a primeira carta foi do meu pai,
seis páginas, e sacudi as páginas
repetidas vezes
mas não havia dinheiro
algum
só
conselhos,
o principal sendo
este: “você nunca será um
escritor! o que você escreve é feio
demais! ninguém quer ler essa
bosta!”
então chegou o
dia!
uma carta de Caresse
Crosby!
eu abri.
nada de dinheiro
mas
texto datilografado bonitinho:
“Caro Charles,
foi bom receber notícias
suas. desisti da
revista. moro agora num
castelo na Itália. é
no alto de uma montanha mas
embaixo há um vilarejo
com frequência desço lá
para ajudar os pobres. sinto
que é a minha missão.
com amor,
Caresse...”
ela não tinha lido minha carta?
eu
era o pobre!
eu precisava ser um camponês
italiano para me
qualificar?
e os editores das revistas nunca
responderam e tampouco
Kay Boyle
mas nunca gostei do que ela escrevia
de qualquer maneira.
e nunca esperei grande coisa
dos editores das
revistas.
mas Caresse
Crosby?
black sun press?
eu agora até lembro como
afinal saí de
Atlanta.
eu estava simplesmente vagando pelas
ruas e cheguei a uma
pequena área
arborizada.
havia uma cabana de zinco ali
e um grande letreiro vermelho
dizendo: “vagas de trabalho!”
dentro havia um homem com
agradáveis olhos azuis e ele era
bastante cordial
e assinei pra me juntar aos
operários de uma ferrovia:
“em algum ponto a oeste de
Sacramento.”
no caminho de volta
naquele vagão empoeirado de cem anos de idade com
os assentos rasgados e os ratos e
as latas de feijão com carne de porco
nenhum dos caras sabia que eu tinha sido
publicado na Portfolio junto com
Sartre, Henry Miller, Genet e
etc.
junto com reproduções de pinturas de
Picasso e etc. e etc.
e se tivessem ficado sabendo estariam
cagando e andando
e francamente
eu mesmo estava.
só algumas décadas depois
quando eu me via em circunstâncias ligeiramente melhores
que me aconteceu de ler sobre a morte de
Caresse Crosby
e outra vez fiquei desconcertado
por sua recusa em
mandar uma reles notinha para um
gênio americano faminto.
é isso
esta é a última vez que vou escrever essa
história.
ela deveria ser
publicada...
e se for vou receber centenas
de cartas
de gênios americanos famintos
pedindo uma prata, cinco pratas, dez ou
mais.
não vou lhes dizer que estou ajudando os
pobres, à la Caresse.
vou mandá-los ler
os Poemas reunidos de
Kay Boyle.
1 264
Charles Bukowski
Paz E Amor
nos anos 60
escrevi uma coluna para um jornal
hippie.
eu não era um hippie (já tinha
40 e poucos) mas achei
legal que o jornal
me permitisse expor minhas
errantes
visões
uma vez por
semana.
para cada uma daquelas obras
geniais
eu ganhava
$10 (às vezes).
agora
havia outro jornal
hippie
querendo comprar meus
serviços.
estavam me oferecendo
$15 para cada
coluna.
não querendo parecer um
desertor
eu estava pedindo
$20.
então
eu visitava o outro
jornal
com bastante frequência
negociando com o
editor
a diferença de
5 pratas
enquanto esvaziávamos uma
dúzia de latinhas.
uma coisa legal desse
jornal hippie é que
quando eu entrava
todo mundo começava
a gritar meu
nome:
“Ei, Chinaski!”
“Chinaski!”
eu gostava,
ficava me sentindo uma
estrela.
e eles também
gritavam
“paz e amor!”
“paz e amor!”
várias gatinhas
gritavam isso pra
mim
e eu gostava
disso
embora eu nunca tenha
respondido às
saudações
exceto por um leve
sorriso
e um quase
invisível
aceno da mão
esquerda
eu ia falar com o
editor e dizia
pra ele “escuta, legal o
ambiente de vocês aqui, a gente
precisa bolar
algo...”
no entanto
nunca bolávamos
nada
mas decidi
continuar
insistindo...
então
houve a semana
em que fui
lá
e o lugar todo estava
fechado: ninguém, na-
da
lá
dentro...
bem, pensei, quem sabe
se mudaram, quem sabe acharam
um
lugar mais barato.
então
me afastei de lá
e segui caminhando
e no meu caminho
olhei para dentro de um café
e a mais estranha das
improbabilidades
aconteceu:
lá estava o editor
sentado a uma
mesa
então
entrei
e ele me viu
chegando
e falou “senta aqui,
Chinaski.”
eu sentei
e perguntei
a ele:
“o que aconteceu?”
“é triste, tivemos que
fechar justo quando estávamos
crescendo em circulação
e
anúncios.”
“ah é? e?”
“bem, 4 ou 5 deles
não tinham onde dormir então
falei que podiam
dormir no escritório à
noite desde que não fizessem
barulho e desligassem as luzes... então
eles trouxeram seus colchões
d’água, seus cachimbos, seu ácido,
seus violões, sua erva, seus
discos do Bobby Dylan e
parecia correr tudo
bem...”
“ah é? e??...”
“eles usavam os telefones de
noite. longa distância pra vários lugares,
alguns deles pra
França, Índia ou China
mas
na maioria
pra
lugares nos E.U.A.
mas pra onde quer que ligassem
era sempre por um longo
tempo, algo entre 45
minutos e 3 horas e
meia...”
“Jesus...”
“é, não conseguimos pagar a conta,
portanto adeus ligações, cobradores
atrás da gente, tivemos que
fechar...”
“sinto muito, cara...”
“tá tudo
bem...”
“eu tenho umas
verdinhas”, falei, “vamos
achar um
bar...”
bem, achamos
um e ele pediu um
scotch & soda e eu
pedi um whiskey
sour
e ficamos ali sentados
olhando reto
pra frente
realmente
sem ter muito a
dizer
exceto que
algum tempo depois
nós dois ainda ali
bebendo mais do
mesmo
ele me contou
que sua esposa o tinha
trocado
por um corretor
de imóveis
que trabalhava baseado no
Arizona e no
Novo México
onde as coisas estavam
indo
incrivelmente bem
sobretudo na área de
Santa
Fé.
escrevi uma coluna para um jornal
hippie.
eu não era um hippie (já tinha
40 e poucos) mas achei
legal que o jornal
me permitisse expor minhas
errantes
visões
uma vez por
semana.
para cada uma daquelas obras
geniais
eu ganhava
$10 (às vezes).
agora
havia outro jornal
hippie
querendo comprar meus
serviços.
estavam me oferecendo
$15 para cada
coluna.
não querendo parecer um
desertor
eu estava pedindo
$20.
então
eu visitava o outro
jornal
com bastante frequência
negociando com o
editor
a diferença de
5 pratas
enquanto esvaziávamos uma
dúzia de latinhas.
uma coisa legal desse
jornal hippie é que
quando eu entrava
todo mundo começava
a gritar meu
nome:
“Ei, Chinaski!”
“Chinaski!”
eu gostava,
ficava me sentindo uma
estrela.
e eles também
gritavam
“paz e amor!”
“paz e amor!”
várias gatinhas
gritavam isso pra
mim
e eu gostava
disso
embora eu nunca tenha
respondido às
saudações
exceto por um leve
sorriso
e um quase
invisível
aceno da mão
esquerda
eu ia falar com o
editor e dizia
pra ele “escuta, legal o
ambiente de vocês aqui, a gente
precisa bolar
algo...”
no entanto
nunca bolávamos
nada
mas decidi
continuar
insistindo...
então
houve a semana
em que fui
lá
e o lugar todo estava
fechado: ninguém, na-
da
lá
dentro...
bem, pensei, quem sabe
se mudaram, quem sabe acharam
um
lugar mais barato.
então
me afastei de lá
e segui caminhando
e no meu caminho
olhei para dentro de um café
e a mais estranha das
improbabilidades
aconteceu:
lá estava o editor
sentado a uma
mesa
então
entrei
e ele me viu
chegando
e falou “senta aqui,
Chinaski.”
eu sentei
e perguntei
a ele:
“o que aconteceu?”
“é triste, tivemos que
fechar justo quando estávamos
crescendo em circulação
e
anúncios.”
“ah é? e?”
“bem, 4 ou 5 deles
não tinham onde dormir então
falei que podiam
dormir no escritório à
noite desde que não fizessem
barulho e desligassem as luzes... então
eles trouxeram seus colchões
d’água, seus cachimbos, seu ácido,
seus violões, sua erva, seus
discos do Bobby Dylan e
parecia correr tudo
bem...”
“ah é? e??...”
“eles usavam os telefones de
noite. longa distância pra vários lugares,
alguns deles pra
França, Índia ou China
mas
na maioria
pra
lugares nos E.U.A.
mas pra onde quer que ligassem
era sempre por um longo
tempo, algo entre 45
minutos e 3 horas e
meia...”
“Jesus...”
“é, não conseguimos pagar a conta,
portanto adeus ligações, cobradores
atrás da gente, tivemos que
fechar...”
“sinto muito, cara...”
“tá tudo
bem...”
“eu tenho umas
verdinhas”, falei, “vamos
achar um
bar...”
bem, achamos
um e ele pediu um
scotch & soda e eu
pedi um whiskey
sour
e ficamos ali sentados
olhando reto
pra frente
realmente
sem ter muito a
dizer
exceto que
algum tempo depois
nós dois ainda ali
bebendo mais do
mesmo
ele me contou
que sua esposa o tinha
trocado
por um corretor
de imóveis
que trabalhava baseado no
Arizona e no
Novo México
onde as coisas estavam
indo
incrivelmente bem
sobretudo na área de
Santa
Fé.
1 110
Charles Bukowski
Eu Estava Feliz
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
ressaca de sexta-feira à tarde
eu não tinha um emprego
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
eu não sabia tocar violão
ressaca de sexta-feira à tarde
ressaca de sexta-feira à tarde
do outro lado da rua do Norm’s
do outro lado da rua do Red Fez
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
rompido com minha namorada e deprimido e demente
eu estava feliz por ter minha caderneta de poupança e ficar na fila
eu via os ônibus seguirem até Vermont
eu estava louco demais para trabalhar como motorista de ônibus
e eu sequer olhava para as jovens garotas
fiquei tonto esperando na fila mas eu
apenas seguia pensando que eu tenho dinheiro neste prédio
ressaca de sexta-feira à tarde
eu não sabia como tocar piano
ou mesmo tocar a merda de um emprego num lava-jato
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
finalmente cheguei até o guichê
era a minha garota japonesa
ela me sorriu como se eu fosse algum deus espetacular
de volta, hein? ela disse e sorriu
quando mostrei a ela meu comprovante e minha caderneta
enquanto os ônibus aceleravam em direção a Vermont
os camelos trotavam através do Saara
ela me alcançou o dinheiro e eu peguei o dinheiro
ressaca de sexta-feira à tarde
segui para o mercado e peguei um carrinho
e joguei salsichas e ovos e bacon e pão para dentro
joguei cerveja e salame e tempero e picles e mostarda para dentro
eu olhava para as jovens donas de casa em seu rebolado natural
joguei costeletas e bifes e palitos de carne para dentro
e tomates e pepinos e laranjas para dentro do carrinho
ressaca de sexta-feira à tarde
rompido com minha namorada e deprimido e demente
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
ressaca de sexta-feira à tarde
eu não tinha um emprego
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
eu não sabia tocar violão
ressaca de sexta-feira à tarde
ressaca de sexta-feira à tarde
do outro lado da rua do Norm’s
do outro lado da rua do Red Fez
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
rompido com minha namorada e deprimido e demente
eu estava feliz por ter minha caderneta de poupança e ficar na fila
eu via os ônibus seguirem até Vermont
eu estava louco demais para trabalhar como motorista de ônibus
e eu sequer olhava para as jovens garotas
fiquei tonto esperando na fila mas eu
apenas seguia pensando que eu tenho dinheiro neste prédio
ressaca de sexta-feira à tarde
eu não sabia como tocar piano
ou mesmo tocar a merda de um emprego num lava-jato
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
finalmente cheguei até o guichê
era a minha garota japonesa
ela me sorriu como se eu fosse algum deus espetacular
de volta, hein? ela disse e sorriu
quando mostrei a ela meu comprovante e minha caderneta
enquanto os ônibus aceleravam em direção a Vermont
os camelos trotavam através do Saara
ela me alcançou o dinheiro e eu peguei o dinheiro
ressaca de sexta-feira à tarde
segui para o mercado e peguei um carrinho
e joguei salsichas e ovos e bacon e pão para dentro
joguei cerveja e salame e tempero e picles e mostarda para dentro
eu olhava para as jovens donas de casa em seu rebolado natural
joguei costeletas e bifes e palitos de carne para dentro
e tomates e pepinos e laranjas para dentro do carrinho
ressaca de sexta-feira à tarde
rompido com minha namorada e deprimido e demente
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
1 179
Charles Bukowski
Canção de Blues
perdão pelo território do meu pranto –
é impróprio, eu sei,
talvez até
hostil
mas o bacon está queimando
o bacon está queimando
noites altas
armadas com metralhadoras
circundam minha tonta e covarde
cama
o bacon
está
queimando
então limpemos nossos tolos
traseiros
finjamos que somos coisas
agradáveis e significativas
não é esse o som
para tentar lograr
o truque mais sujo de
todos?
é impróprio, eu sei,
talvez até
hostil
mas o bacon está queimando
o bacon está queimando
noites altas
armadas com metralhadoras
circundam minha tonta e covarde
cama
o bacon
está
queimando
então limpemos nossos tolos
traseiros
finjamos que somos coisas
agradáveis e significativas
não é esse o som
para tentar lograr
o truque mais sujo de
todos?
1 056
Charles Bukowski
Poema Para Dante
Dante, bebê, o Inferno
é aqui agora.
eu queria que você pudesse
ver. por certo tempo
tivemos o poder de
explodir a terra
e agora estamos descobrindo
o poder de abandoná-
la. mas a maioria terá de
ficar e
morrer. ou pela Bomba
ou então pelo refugo de ossos
empilhados
e outros recipientes vazios,
e merda e vidro e fumaça,
Dante, bebê, o Inferno
é aqui agora.
e as pessoas ainda contemplam rosas
pedalam bicicletas
batem relógio de ponto
compram casas e pinturas e carros;
as pessoas continuam a
copular
em todos os lugares, e os jovens olham em volta
e gritam
que este deveria ser um lugar melhor,
como sempre fizeram,
e aí ficaram velhos
e entraram no mesmo jogo sujo.
só que agora
todos os jogos sujos dos séculos
se somaram a um placar que parece quase
impossível de reverter.
alguns ainda tentam –
nós os chamamos de santos, poetas, loucos, tolos.
Dante, bebê, ó Dante, bebê,
você devia ver a gente
agora.
é aqui agora.
eu queria que você pudesse
ver. por certo tempo
tivemos o poder de
explodir a terra
e agora estamos descobrindo
o poder de abandoná-
la. mas a maioria terá de
ficar e
morrer. ou pela Bomba
ou então pelo refugo de ossos
empilhados
e outros recipientes vazios,
e merda e vidro e fumaça,
Dante, bebê, o Inferno
é aqui agora.
e as pessoas ainda contemplam rosas
pedalam bicicletas
batem relógio de ponto
compram casas e pinturas e carros;
as pessoas continuam a
copular
em todos os lugares, e os jovens olham em volta
e gritam
que este deveria ser um lugar melhor,
como sempre fizeram,
e aí ficaram velhos
e entraram no mesmo jogo sujo.
só que agora
todos os jogos sujos dos séculos
se somaram a um placar que parece quase
impossível de reverter.
alguns ainda tentam –
nós os chamamos de santos, poetas, loucos, tolos.
Dante, bebê, ó Dante, bebê,
você devia ver a gente
agora.
1 547
Charles Bukowski
Puxe Uma Corda, a Marionete Se Move...
cada homem deve perceber
que tudo pode desaparecer depressa
demais:
o gato, a mulher, o emprego,
o pneu da frente,
a cama, as paredes, o
quarto; todas as nossas necessidades
incluindo o amor,
apoiam-se sobre fundações de areia –
e qualquer causa,
não importa o quão aleatória:
a morte de um garoto em Hong Kong
ou uma nevasca em Omaha...
pode estar no lugar do que você não fez.
toda sua porcelana se espatifando no
chão da cozinha, sua garota entrará
e você estará ali parado, bêbado,
no meio de tudo e ela vai perguntar:
meu deus, o que está acontecendo?
e você responderá: eu não sei,
eu não sei...
que tudo pode desaparecer depressa
demais:
o gato, a mulher, o emprego,
o pneu da frente,
a cama, as paredes, o
quarto; todas as nossas necessidades
incluindo o amor,
apoiam-se sobre fundações de areia –
e qualquer causa,
não importa o quão aleatória:
a morte de um garoto em Hong Kong
ou uma nevasca em Omaha...
pode estar no lugar do que você não fez.
toda sua porcelana se espatifando no
chão da cozinha, sua garota entrará
e você estará ali parado, bêbado,
no meio de tudo e ela vai perguntar:
meu deus, o que está acontecendo?
e você responderá: eu não sei,
eu não sei...
1 172
Charles Bukowski
Penso Em Hemingway
penso em Hemingway sentado
numa cadeira, ele tinha uma máquina de escrever
e agora já não toca
sua máquina de escrever, não tem mais
o que dizer.
e agora Belmonte não tem mais
touros para matar, às vezes penso que
não tenho mais poemas para escrever
nem mais mulheres para amar.
penso na forma do poema
mas meus pés doem, há sujeira
nas janelas.
os touros dormem noites inteiras nos
campos, eles dormem bem sem
Belmonte.
Belmonte dorme bem sem
Belmonte mas eu não durmo
tão bem.
não tenho criado tampouco
amado faz um tempo, golpeio
uma mosca e erro, sou um
velho cão cinzento ficando des-
dentado.
eu tenho uma máquina de escrever e agora
minha máquina de escrever já não tem
coisa alguma para dizer.
vou beber até que a manhã
me descubra na cama com a
maior puta de todas:
eu mesmo.
Belmonte & Papa,
entendo, é assim que
funciona, de verdade.
eu os observei trazendo
a terra durante a manhã toda
para preencher os buracos nas
ruas. eu os observei
instalando cabos novos nos
postes, choveu
ontem à noite, uma chuva
muito seca, não foi
um bombardeio, só que o
mundo está acabando e eu sou
incapaz de escrever
a respeito.
numa cadeira, ele tinha uma máquina de escrever
e agora já não toca
sua máquina de escrever, não tem mais
o que dizer.
e agora Belmonte não tem mais
touros para matar, às vezes penso que
não tenho mais poemas para escrever
nem mais mulheres para amar.
penso na forma do poema
mas meus pés doem, há sujeira
nas janelas.
os touros dormem noites inteiras nos
campos, eles dormem bem sem
Belmonte.
Belmonte dorme bem sem
Belmonte mas eu não durmo
tão bem.
não tenho criado tampouco
amado faz um tempo, golpeio
uma mosca e erro, sou um
velho cão cinzento ficando des-
dentado.
eu tenho uma máquina de escrever e agora
minha máquina de escrever já não tem
coisa alguma para dizer.
vou beber até que a manhã
me descubra na cama com a
maior puta de todas:
eu mesmo.
Belmonte & Papa,
entendo, é assim que
funciona, de verdade.
eu os observei trazendo
a terra durante a manhã toda
para preencher os buracos nas
ruas. eu os observei
instalando cabos novos nos
postes, choveu
ontem à noite, uma chuva
muito seca, não foi
um bombardeio, só que o
mundo está acabando e eu sou
incapaz de escrever
a respeito.
1 523
Charles Bukowski
2 Poemas Imortais
uns 2 poemas imortais por noite
são mais ou menos tudo que me permito
escrever.
é razoável – não há muita competição.
além disso, é mais prazeroso
ficar bêbado
do que durar
para sempre.
é por isso que as pessoas
compram mais bebida alcoólica
do que Shakespeare...
quem não preferiria aprender a
escapar pelo gargalo de uma
garrafa
ou por uma cigarrilha Zig-Zag
perfeitamente enrolada
em vez de um livro?
2 poemas imortais por noite são
suficientes...
quando ouço aqueles saltos altos
estalando pelos degraus da minha
porta...
eu sei que a vida não é feita de papel
e imortalidade
mas daquilo que somos
agora; e enquanto
o corpo dela, os olhos, a alma
vão entrando no
quarto
a máquina de escrever se senta como um mimado e
acabado, muito bem alimentado
cachorro...
nós nos abraçamos
no interior do minúsculo lampejo
de nossas
vidas
enquanto a máquina de escrever
uiva
silenciosamente.
são mais ou menos tudo que me permito
escrever.
é razoável – não há muita competição.
além disso, é mais prazeroso
ficar bêbado
do que durar
para sempre.
é por isso que as pessoas
compram mais bebida alcoólica
do que Shakespeare...
quem não preferiria aprender a
escapar pelo gargalo de uma
garrafa
ou por uma cigarrilha Zig-Zag
perfeitamente enrolada
em vez de um livro?
2 poemas imortais por noite são
suficientes...
quando ouço aqueles saltos altos
estalando pelos degraus da minha
porta...
eu sei que a vida não é feita de papel
e imortalidade
mas daquilo que somos
agora; e enquanto
o corpo dela, os olhos, a alma
vão entrando no
quarto
a máquina de escrever se senta como um mimado e
acabado, muito bem alimentado
cachorro...
nós nos abraçamos
no interior do minúsculo lampejo
de nossas
vidas
enquanto a máquina de escrever
uiva
silenciosamente.
1 360
Charles Bukowski
2 Poemas Imortais
uns 2 poemas imortais por noite
são mais ou menos tudo que me permito
escrever.
é razoável – não há muita competição.
além disso, é mais prazeroso
ficar bêbado
do que durar
para sempre.
é por isso que as pessoas
compram mais bebida alcoólica
do que Shakespeare...
quem não preferiria aprender a
escapar pelo gargalo de uma
garrafa
ou por uma cigarrilha Zig-Zag
perfeitamente enrolada
em vez de um livro?
2 poemas imortais por noite são
suficientes...
quando ouço aqueles saltos altos
estalando pelos degraus da minha
porta...
eu sei que a vida não é feita de papel
e imortalidade
mas daquilo que somos
agora; e enquanto
o corpo dela, os olhos, a alma
vão entrando no
quarto
a máquina de escrever se senta como um mimado e
acabado, muito bem alimentado
cachorro...
nós nos abraçamos
no interior do minúsculo lampejo
de nossas
vidas
enquanto a máquina de escrever
uiva
silenciosamente.
são mais ou menos tudo que me permito
escrever.
é razoável – não há muita competição.
além disso, é mais prazeroso
ficar bêbado
do que durar
para sempre.
é por isso que as pessoas
compram mais bebida alcoólica
do que Shakespeare...
quem não preferiria aprender a
escapar pelo gargalo de uma
garrafa
ou por uma cigarrilha Zig-Zag
perfeitamente enrolada
em vez de um livro?
2 poemas imortais por noite são
suficientes...
quando ouço aqueles saltos altos
estalando pelos degraus da minha
porta...
eu sei que a vida não é feita de papel
e imortalidade
mas daquilo que somos
agora; e enquanto
o corpo dela, os olhos, a alma
vão entrando no
quarto
a máquina de escrever se senta como um mimado e
acabado, muito bem alimentado
cachorro...
nós nos abraçamos
no interior do minúsculo lampejo
de nossas
vidas
enquanto a máquina de escrever
uiva
silenciosamente.
1 360
Charles Bukowski
Eu Era Merda
pesar, as paredes sangram de tanto pesar e quem se importa?
um pardal, uma princesa, uma puta, um cão de caça?
meu deus, a sujeira se importa, sujeira, e sujeira eu serei,
vou soprar um clarim de herói onde os heróis são todos iguais:
Ezra metido junto com o menino de recados que nem eu,
que nem eu, débil chuva chapinhando no cérebro vazio,
ah meu deus, as nobres intenções, as vidas, os esgotos,
as mesas em Paris
pairando pavoneadas em nossas memórias suínas,
Havana, Cuba, Hemingway
caindo no chão
sangue chapinhado em todas as saídas.
se Hemingway se mata
eu sou o quê?
se Cummings morre por cima da máquina de escrever,
se Faulkner agarra o coração e se vai,
eu sou o quê?
eu sou o quê? eu era o que
quando Jeffers morreu em sua tumba,
seu casulo de pedra?
eu era merda, merda, merda, merda.
eu agora caio no chão e levanto meus últimos pedaços
o que resta de mim
prometo grais cheios de palavras bem como de vinho,
e o verde, e a sombra que adeja,
tudo isso é nada,
Deus se barbeando no meu banheiro,
aluguel atrasado,
relâmpago quebrando as costas das formigas,
preciso me aproximar de mim mesmo,
preciso parar de fazer truques pois
bem lá dentro
em algum lugar
acima das bolas ou
abaixo ou naquela cabeça
ainda não esmagada
olhos espiando para fora como fogos impossíveis e amaldiçoados,
vejo a fenda que devo pular, e serei forte
e serei gentil, sempre fui gentil,
os animais me amam como se eu fosse uma criança pintando com giz
as bordas do mundo,
pardais passam andando, moscas rastejam sob minhas pálpebras,
não consigo machucar nada
que não seja eu mesmo,
não consigo nem mesmo no pesar sangrento
dar um grito;
isso é mais do que uma escritura no interior do meu cérebro –
sou impelido ao longo das avenidas de progresso e processo
como dados
os deuses abocanhando seus fogos de força
e eu
não devo morrer,
ainda.
um pardal, uma princesa, uma puta, um cão de caça?
meu deus, a sujeira se importa, sujeira, e sujeira eu serei,
vou soprar um clarim de herói onde os heróis são todos iguais:
Ezra metido junto com o menino de recados que nem eu,
que nem eu, débil chuva chapinhando no cérebro vazio,
ah meu deus, as nobres intenções, as vidas, os esgotos,
as mesas em Paris
pairando pavoneadas em nossas memórias suínas,
Havana, Cuba, Hemingway
caindo no chão
sangue chapinhado em todas as saídas.
se Hemingway se mata
eu sou o quê?
se Cummings morre por cima da máquina de escrever,
se Faulkner agarra o coração e se vai,
eu sou o quê?
eu sou o quê? eu era o que
quando Jeffers morreu em sua tumba,
seu casulo de pedra?
eu era merda, merda, merda, merda.
eu agora caio no chão e levanto meus últimos pedaços
o que resta de mim
prometo grais cheios de palavras bem como de vinho,
e o verde, e a sombra que adeja,
tudo isso é nada,
Deus se barbeando no meu banheiro,
aluguel atrasado,
relâmpago quebrando as costas das formigas,
preciso me aproximar de mim mesmo,
preciso parar de fazer truques pois
bem lá dentro
em algum lugar
acima das bolas ou
abaixo ou naquela cabeça
ainda não esmagada
olhos espiando para fora como fogos impossíveis e amaldiçoados,
vejo a fenda que devo pular, e serei forte
e serei gentil, sempre fui gentil,
os animais me amam como se eu fosse uma criança pintando com giz
as bordas do mundo,
pardais passam andando, moscas rastejam sob minhas pálpebras,
não consigo machucar nada
que não seja eu mesmo,
não consigo nem mesmo no pesar sangrento
dar um grito;
isso é mais do que uma escritura no interior do meu cérebro –
sou impelido ao longo das avenidas de progresso e processo
como dados
os deuses abocanhando seus fogos de força
e eu
não devo morrer,
ainda.
1 429
Charles Bukowski
Eu Era Merda
pesar, as paredes sangram de tanto pesar e quem se importa?
um pardal, uma princesa, uma puta, um cão de caça?
meu deus, a sujeira se importa, sujeira, e sujeira eu serei,
vou soprar um clarim de herói onde os heróis são todos iguais:
Ezra metido junto com o menino de recados que nem eu,
que nem eu, débil chuva chapinhando no cérebro vazio,
ah meu deus, as nobres intenções, as vidas, os esgotos,
as mesas em Paris
pairando pavoneadas em nossas memórias suínas,
Havana, Cuba, Hemingway
caindo no chão
sangue chapinhado em todas as saídas.
se Hemingway se mata
eu sou o quê?
se Cummings morre por cima da máquina de escrever,
se Faulkner agarra o coração e se vai,
eu sou o quê?
eu sou o quê? eu era o que
quando Jeffers morreu em sua tumba,
seu casulo de pedra?
eu era merda, merda, merda, merda.
eu agora caio no chão e levanto meus últimos pedaços
o que resta de mim
prometo grais cheios de palavras bem como de vinho,
e o verde, e a sombra que adeja,
tudo isso é nada,
Deus se barbeando no meu banheiro,
aluguel atrasado,
relâmpago quebrando as costas das formigas,
preciso me aproximar de mim mesmo,
preciso parar de fazer truques pois
bem lá dentro
em algum lugar
acima das bolas ou
abaixo ou naquela cabeça
ainda não esmagada
olhos espiando para fora como fogos impossíveis e amaldiçoados,
vejo a fenda que devo pular, e serei forte
e serei gentil, sempre fui gentil,
os animais me amam como se eu fosse uma criança pintando com giz
as bordas do mundo,
pardais passam andando, moscas rastejam sob minhas pálpebras,
não consigo machucar nada
que não seja eu mesmo,
não consigo nem mesmo no pesar sangrento
dar um grito;
isso é mais do que uma escritura no interior do meu cérebro –
sou impelido ao longo das avenidas de progresso e processo
como dados
os deuses abocanhando seus fogos de força
e eu
não devo morrer,
ainda.
um pardal, uma princesa, uma puta, um cão de caça?
meu deus, a sujeira se importa, sujeira, e sujeira eu serei,
vou soprar um clarim de herói onde os heróis são todos iguais:
Ezra metido junto com o menino de recados que nem eu,
que nem eu, débil chuva chapinhando no cérebro vazio,
ah meu deus, as nobres intenções, as vidas, os esgotos,
as mesas em Paris
pairando pavoneadas em nossas memórias suínas,
Havana, Cuba, Hemingway
caindo no chão
sangue chapinhado em todas as saídas.
se Hemingway se mata
eu sou o quê?
se Cummings morre por cima da máquina de escrever,
se Faulkner agarra o coração e se vai,
eu sou o quê?
eu sou o quê? eu era o que
quando Jeffers morreu em sua tumba,
seu casulo de pedra?
eu era merda, merda, merda, merda.
eu agora caio no chão e levanto meus últimos pedaços
o que resta de mim
prometo grais cheios de palavras bem como de vinho,
e o verde, e a sombra que adeja,
tudo isso é nada,
Deus se barbeando no meu banheiro,
aluguel atrasado,
relâmpago quebrando as costas das formigas,
preciso me aproximar de mim mesmo,
preciso parar de fazer truques pois
bem lá dentro
em algum lugar
acima das bolas ou
abaixo ou naquela cabeça
ainda não esmagada
olhos espiando para fora como fogos impossíveis e amaldiçoados,
vejo a fenda que devo pular, e serei forte
e serei gentil, sempre fui gentil,
os animais me amam como se eu fosse uma criança pintando com giz
as bordas do mundo,
pardais passam andando, moscas rastejam sob minhas pálpebras,
não consigo machucar nada
que não seja eu mesmo,
não consigo nem mesmo no pesar sangrento
dar um grito;
isso é mais do que uma escritura no interior do meu cérebro –
sou impelido ao longo das avenidas de progresso e processo
como dados
os deuses abocanhando seus fogos de força
e eu
não devo morrer,
ainda.
1 429
Charles Bukowski
Folhas Das Palmeiras
exatamente à meia-noite
1973-74
Los Angeles
começou a chover nas
folhas das palmeiras para além de minha janela
as buzinas e os foguetes
se ergueram
e então trovejou.
eu tinha ido para cama às 9 da noite
apaguei as luzes
puxei as cobertas –
sua satisfação, sua felicidade,
seus gritos, seus chapéus de papelão,
seus automóveis, suas mulheres,
seus porres de amador...
a noite de Ano-Novo sempre me
aterroriza
a vida não sabe nada sobre os anos.
agora as buzinas pararam e
os foguetes e os trovões...
tudo se acaba em cinco minutos...
tudo o que ouço é a chuva
nas folhas das palmeiras,
e penso,
nunca entenderei os homens,
mas consegui
sobreviver.
1973-74
Los Angeles
começou a chover nas
folhas das palmeiras para além de minha janela
as buzinas e os foguetes
se ergueram
e então trovejou.
eu tinha ido para cama às 9 da noite
apaguei as luzes
puxei as cobertas –
sua satisfação, sua felicidade,
seus gritos, seus chapéus de papelão,
seus automóveis, suas mulheres,
seus porres de amador...
a noite de Ano-Novo sempre me
aterroriza
a vida não sabe nada sobre os anos.
agora as buzinas pararam e
os foguetes e os trovões...
tudo se acaba em cinco minutos...
tudo o que ouço é a chuva
nas folhas das palmeiras,
e penso,
nunca entenderei os homens,
mas consegui
sobreviver.
1 198
Charles Bukowski
Nisto –
nisto, cresce a palavra de flecha;
nos dói dos pés à cabeça um simples terror
conforme andamos por uma simples rua
e vemos onde os tanques o empilharam:
rostos passam correndo, maçãs vivem com larvas
por um abraço de amor; ou lá fora –
onde os marinheiros se afogaram, e o mar
o lançou à praia, e o seu cão farejou
e correu como se o traseiro tivesse sido mordido
pelo diabo.
nisto, digamos que Dylan chorou
ou Ezra rastejou com Muss
por tênues horas italianas
enquanto meu belo cão marrom
esquecia o diabo
ou catedrais balançando no tiroteio da luz solar,
e encontrava o amor facilmente
na rua lá fora.
nisto, é verdade: aquilo que cria o ferro
cria rosas cria santos cria estupradores
cria o apodrecimento de um dente e uma nação.
nisto, um poema poderia ser ausência de palavra
a fumaça que outrora subiu para empurrar dez toneladas de aço
jaz agora rasa e calada na mão de um engenheiro.
nisto, eu vejo o Brasil no fundo do meu copo.
eu vejo beija-flores – como moscas, dezenas deles –
presos numa rede dourada. diabo!!! – eu morri em Palavras
como um homem sob um narcótico de ralo néctar!
nisto, como azul através de azul sem sonhos de bacanal
onde os tanques o empilharam, garotões jogam bilhar,
olhos de elfo através da fumaça e na espera:
racha e bolas, isso é tudo, não é?
e cursos sobre literatura definitiva.
nos dói dos pés à cabeça um simples terror
conforme andamos por uma simples rua
e vemos onde os tanques o empilharam:
rostos passam correndo, maçãs vivem com larvas
por um abraço de amor; ou lá fora –
onde os marinheiros se afogaram, e o mar
o lançou à praia, e o seu cão farejou
e correu como se o traseiro tivesse sido mordido
pelo diabo.
nisto, digamos que Dylan chorou
ou Ezra rastejou com Muss
por tênues horas italianas
enquanto meu belo cão marrom
esquecia o diabo
ou catedrais balançando no tiroteio da luz solar,
e encontrava o amor facilmente
na rua lá fora.
nisto, é verdade: aquilo que cria o ferro
cria rosas cria santos cria estupradores
cria o apodrecimento de um dente e uma nação.
nisto, um poema poderia ser ausência de palavra
a fumaça que outrora subiu para empurrar dez toneladas de aço
jaz agora rasa e calada na mão de um engenheiro.
nisto, eu vejo o Brasil no fundo do meu copo.
eu vejo beija-flores – como moscas, dezenas deles –
presos numa rede dourada. diabo!!! – eu morri em Palavras
como um homem sob um narcótico de ralo néctar!
nisto, como azul através de azul sem sonhos de bacanal
onde os tanques o empilharam, garotões jogam bilhar,
olhos de elfo através da fumaça e na espera:
racha e bolas, isso é tudo, não é?
e cursos sobre literatura definitiva.
1 107
Charles Bukowski
Às Vezes Quando Fico Triste Eu Ouço Mahler
nada disso de creme, Harry,
um Moisés peludo como eu só quer procurar abrigo agora
como um retrato de St. Louis na neve, mas não, está quente:
óleo suficiente no ventilador, e
preguiçoso demais pra trocar os lençóis sujos,
louco demais pra dar importância.
eu costumava escrever à minha mãe sobre lâminas de barbear na minha garganta
sobre o aspecto medonho dos rostos nas pessoas
como seus corpos pareciam alcatrão endurecido
mas a querida mamãe velha morreu de câncer enquanto eu me deitava com
uma puta de 130 quilos que veio nadando toda a distância desde a
Costa Rica
e precisei arranjar emprego nos pátios ferroviários,
isso mesmo porra, e fico pensando que a última navalha na minha garganta
vai entender a divindade do aço e
a não divindade da
espera.
não tenho escrito, Harry, nada de creme,
porque tenho um lugar nos fundos, eu me refiro a uma
janela dos fundos neste quarto
e eu olho lá fora e tem uma mulher toda hora pendurando roupa
tem uns 35
e quando ela se curva pra pegar suas calcinhas e sutiãs e lençóis
e náilons da cesta,
ah –
está tudo lá, Harry,
e eu estou olhando
olhos pulando através das vidraças sujas
e fico que nem um colegial espinhento de novo
nunca peguei um rabo como esse,
ali está ela no guingão engomado,
quadrados vermelhos e brancos
e aquela bunda do tamanho do Empire State Building
me olhando na boca
e o sol se atirando sobre tudo
e no canto do meu quarto
um quadrado de manteiga derretendo num prato
um naco de pão seco
e uma aranha no canto
sugando Pepsi-Cola de uma mosca –
creme, Harry, creme!
e
às vezes quando fico triste eu ouço Mahler
ou leio um pouco de Artaud
ou saio no pátio onde cuidam de uma tartaruga
e quando ninguém está olhando
eu queimo o pescoço dela com meu charuto
e quando a cabeça entra no casco eu meto o charuto no
buraco que nem uma pica
quente, mas você sabe, mesmo, não tem nada sendo escrito,
porém sigo recebendo rejeições,
e eu escrevo coisa boa, Harry, nada de creme –
só que o verdadeiro gênio não costuma ser reconhecido
em vida
e por isso não perco meu ânimo –
neste momento estou ouvindo “A marcha dos contrabandistas”
da Suíte Carmen de Bizet,
que bosta mais melosa,
acho que vou tentar aquele macaco Malone
da Wormwood – ele publica Bukowski
portanto publicaria qualquer um. a propósito, Bukowski mora no quarto
do outro lado do corredor,
um babaca, outro dia estávamos todos no quarto da Jane Suja,
bebendo vinho do porto
e Bukowski arranca as ceroulas da Jane Suja do nada
e manda bala
bem na frente de
todo mundo. sério, ele caiu
de boca. se ele pode
eu também posso. e ele teve a cara de pau de me dizer
“a próxima vez que eu te ver queimando aquela tartaruga
eu te mato!”
e ele estava tão bêbado que eu poderia ter derrubado ele no chão com um
mata-moscas.
nada disso de creme, Harry, eu não escrevo faz meses
mas a próxima coisa que eu escrever precisa dar
certo, posso sentir as palavras inchando em mim como as penas na pica de um gato
entalada no cu de um peru.
o sol está invadindo meus templos
e o papel de parede dança com garotas nuas depois da uma da
manhã
eu vejo modos cada vez melhores de lançar um verso sólido lá
nas alturas, sem brincadeira, rapaz, agora é a
hora, minha máquina de escrever é minha metralhadora
e rá tá tá tá rá
o céu todo vai despencar e belas garotas
com olhos de explosão celestial
vão pegar na minha banana; está tudo aqui –
os resíduos do esgoto, as montanhas obtusas,
equidade,
1690 pés cúbicos, anorexia, a sombra de
Marcus Junius Brutus &
uma fita nova na máquina de escrever.
uma foto de Hemingway colada no meu
banheiro.
cristo deus, Harry, eu sou um escritor,
e não é fácil quando sou o único que sabe disso,
com exceção talvez da Jane Suja,
mas vou provavelmente acabar tão famoso um dia
que não serei capaz de me aguentar
e aí vai ser a navalha.
de todo modo, estranho fim
para o mesmo jogo sujo.
Bukowski acabou de passar pra pedir emprestada uma lâmina de barbear –
por que será que ele precisa
com aquela
barba toda?
um Moisés peludo como eu só quer procurar abrigo agora
como um retrato de St. Louis na neve, mas não, está quente:
óleo suficiente no ventilador, e
preguiçoso demais pra trocar os lençóis sujos,
louco demais pra dar importância.
eu costumava escrever à minha mãe sobre lâminas de barbear na minha garganta
sobre o aspecto medonho dos rostos nas pessoas
como seus corpos pareciam alcatrão endurecido
mas a querida mamãe velha morreu de câncer enquanto eu me deitava com
uma puta de 130 quilos que veio nadando toda a distância desde a
Costa Rica
e precisei arranjar emprego nos pátios ferroviários,
isso mesmo porra, e fico pensando que a última navalha na minha garganta
vai entender a divindade do aço e
a não divindade da
espera.
não tenho escrito, Harry, nada de creme,
porque tenho um lugar nos fundos, eu me refiro a uma
janela dos fundos neste quarto
e eu olho lá fora e tem uma mulher toda hora pendurando roupa
tem uns 35
e quando ela se curva pra pegar suas calcinhas e sutiãs e lençóis
e náilons da cesta,
ah –
está tudo lá, Harry,
e eu estou olhando
olhos pulando através das vidraças sujas
e fico que nem um colegial espinhento de novo
nunca peguei um rabo como esse,
ali está ela no guingão engomado,
quadrados vermelhos e brancos
e aquela bunda do tamanho do Empire State Building
me olhando na boca
e o sol se atirando sobre tudo
e no canto do meu quarto
um quadrado de manteiga derretendo num prato
um naco de pão seco
e uma aranha no canto
sugando Pepsi-Cola de uma mosca –
creme, Harry, creme!
e
às vezes quando fico triste eu ouço Mahler
ou leio um pouco de Artaud
ou saio no pátio onde cuidam de uma tartaruga
e quando ninguém está olhando
eu queimo o pescoço dela com meu charuto
e quando a cabeça entra no casco eu meto o charuto no
buraco que nem uma pica
quente, mas você sabe, mesmo, não tem nada sendo escrito,
porém sigo recebendo rejeições,
e eu escrevo coisa boa, Harry, nada de creme –
só que o verdadeiro gênio não costuma ser reconhecido
em vida
e por isso não perco meu ânimo –
neste momento estou ouvindo “A marcha dos contrabandistas”
da Suíte Carmen de Bizet,
que bosta mais melosa,
acho que vou tentar aquele macaco Malone
da Wormwood – ele publica Bukowski
portanto publicaria qualquer um. a propósito, Bukowski mora no quarto
do outro lado do corredor,
um babaca, outro dia estávamos todos no quarto da Jane Suja,
bebendo vinho do porto
e Bukowski arranca as ceroulas da Jane Suja do nada
e manda bala
bem na frente de
todo mundo. sério, ele caiu
de boca. se ele pode
eu também posso. e ele teve a cara de pau de me dizer
“a próxima vez que eu te ver queimando aquela tartaruga
eu te mato!”
e ele estava tão bêbado que eu poderia ter derrubado ele no chão com um
mata-moscas.
nada disso de creme, Harry, eu não escrevo faz meses
mas a próxima coisa que eu escrever precisa dar
certo, posso sentir as palavras inchando em mim como as penas na pica de um gato
entalada no cu de um peru.
o sol está invadindo meus templos
e o papel de parede dança com garotas nuas depois da uma da
manhã
eu vejo modos cada vez melhores de lançar um verso sólido lá
nas alturas, sem brincadeira, rapaz, agora é a
hora, minha máquina de escrever é minha metralhadora
e rá tá tá tá rá
o céu todo vai despencar e belas garotas
com olhos de explosão celestial
vão pegar na minha banana; está tudo aqui –
os resíduos do esgoto, as montanhas obtusas,
equidade,
1690 pés cúbicos, anorexia, a sombra de
Marcus Junius Brutus &
uma fita nova na máquina de escrever.
uma foto de Hemingway colada no meu
banheiro.
cristo deus, Harry, eu sou um escritor,
e não é fácil quando sou o único que sabe disso,
com exceção talvez da Jane Suja,
mas vou provavelmente acabar tão famoso um dia
que não serei capaz de me aguentar
e aí vai ser a navalha.
de todo modo, estranho fim
para o mesmo jogo sujo.
Bukowski acabou de passar pra pedir emprestada uma lâmina de barbear –
por que será que ele precisa
com aquela
barba toda?
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