Temas
Poemas neste tema

Outros

Charles Bukowski

Charles Bukowski

Às Vezes Quando Fico Triste Eu Ouço Mahler

nada disso de creme, Harry,
um Moisés peludo como eu só quer procurar abrigo agora
como um retrato de St. Louis na neve, mas não, está quente:
óleo suficiente no ventilador, e
preguiçoso demais pra trocar os lençóis sujos,
louco demais pra dar importância.

eu costumava escrever à minha mãe sobre lâminas de barbear na minha garganta
sobre o aspecto medonho dos rostos nas pessoas
como seus corpos pareciam alcatrão endurecido
mas a querida mamãe velha morreu de câncer enquanto eu me deitava com
uma puta de 130 quilos que veio nadando toda a distância desde a
Costa Rica
e precisei arranjar emprego nos pátios ferroviários,
isso mesmo porra, e fico pensando que a última navalha na minha garganta
vai entender a divindade do aço e
a não divindade da
espera.

não tenho escrito, Harry, nada de creme,

porque tenho um lugar nos fundos, eu me refiro a uma
janela dos fundos neste quarto
e eu olho lá fora e tem uma mulher toda hora pendurando roupa
tem uns 35
e quando ela se curva pra pegar suas calcinhas e sutiãs e lençóis
e náilons da cesta,
ah –
está tudo lá, Harry,
e eu estou olhando
olhos pulando através das vidraças sujas
e fico que nem um colegial espinhento de novo
nunca peguei um rabo como esse,
ali está ela no guingão engomado,
quadrados vermelhos e brancos
e aquela bunda do tamanho do Empire State Building
me olhando na boca
e o sol se atirando sobre tudo
e no canto do meu quarto
um quadrado de manteiga derretendo num prato
um naco de pão seco
e uma aranha no canto
sugando Pepsi-Cola de uma mosca –
creme, Harry, creme!
e
às vezes quando fico triste eu ouço Mahler
ou leio um pouco de Artaud
ou saio no pátio onde cuidam de uma tartaruga
e quando ninguém está olhando
eu queimo o pescoço dela com meu charuto
e quando a cabeça entra no casco eu meto o charuto no
buraco que nem uma pica
quente, mas você sabe, mesmo, não tem nada sendo escrito,
porém sigo recebendo rejeições,
e eu escrevo coisa boa, Harry, nada de creme –
só que o verdadeiro gênio não costuma ser reconhecido
em vida
e por isso não perco meu ânimo –
neste momento estou ouvindo “A marcha dos contrabandistas”
da Suíte Carmen de Bizet,
que bosta mais melosa,
acho que vou tentar aquele macaco Malone
da Wormwood – ele publica Bukowski
portanto publicaria qualquer um. a propósito, Bukowski mora no quarto
do outro lado do corredor,
um babaca, outro dia estávamos todos no quarto da Jane Suja,
bebendo vinho do porto
e Bukowski arranca as ceroulas da Jane Suja do nada
e manda bala
bem na frente de
todo mundo. sério, ele caiu
de boca. se ele pode
eu também posso. e ele teve a cara de pau de me dizer
“a próxima vez que eu te ver queimando aquela tartaruga
eu te mato!”
e ele estava tão bêbado que eu poderia ter derrubado ele no chão com um
mata-moscas.
nada disso de creme, Harry, eu não escrevo faz meses
mas a próxima coisa que eu escrever precisa dar
certo, posso sentir as palavras inchando em mim como as penas na pica de um gato
entalada no cu de um peru.
o sol está invadindo meus templos
e o papel de parede dança com garotas nuas depois da uma da
manhã
eu vejo modos cada vez melhores de lançar um verso sólido lá
nas alturas, sem brincadeira, rapaz, agora é a
hora, minha máquina de escrever é minha metralhadora
e rá tá tá tá rá
o céu todo vai despencar e belas garotas
com olhos de explosão celestial
vão pegar na minha banana; está tudo aqui –
os resíduos do esgoto, as montanhas obtusas,
equidade,
1690 pés cúbicos, anorexia, a sombra de
Marcus Junius Brutus &
uma fita nova na máquina de escrever.
uma foto de Hemingway colada no meu
banheiro.

cristo deus, Harry, eu sou um escritor,
e não é fácil quando sou o único que sabe disso,
com exceção talvez da Jane Suja,
mas vou provavelmente acabar tão famoso um dia
que não serei capaz de me aguentar
e aí vai ser a navalha.
de todo modo, estranho fim
para o mesmo jogo sujo.
Bukowski acabou de passar pra pedir emprestada uma lâmina de barbear –
por que será que ele precisa
com aquela
barba toda?
1 200
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Noite Úmida

a sobra.
ela se sentou ali, entristecida.
eu não podia fazer nada com ela.
estava chovendo.
ela se levantou e se foi.
bem, foda-se, mais uma vez isso, pensei
apanhei minha bebida e liguei o rádio,
tirei a pantalha do abajur
e fumei um charuto barato, negro e amargo
importado da Alemanha.
uma batida veio da porta
e eu abri a porta
um homenzinho estava na chuva
e ele disse,
você não viu por acaso um pombo na sua varanda?
eu lhe disse que não tinha visto um pombo na minha varanda
e ele me disse que se eu visse um pombo na minha varanda
que o avisasse.
fechei a porta
me sentei
e então um gato preto saltou através da
janela e pulou no meu
colo e ronronou, era um belo animal
e eu o levei até a cozinha e nós dois comemos uma
fatia de presunto.
então apaguei todas as luzes
e fui para a cama
e o gato preto foi para a cama comigo
e ronronou
e eu pensei, bem, alguém gosta de mim,
então o gato começou a mijar,
ele me mijou todo e também todo o lençol,
o mijo escorreu por minha barriga e desceu pelos lados
e eu disse: ei, o que há de errado com você?
apanhei o gato e o levei na direção da porta
e o joguei de volta no meio da chuva
e pensei, isso é muito estranho, esse gato
mijando em mim
seu mijo era gelado como a chuva.
então liguei para ela
e eu disse, veja, o que há de errado com você? você perdeu
a porra da sua cabeça?
desliguei e puxei os lençóis da cama
deitei e fiquei ali ouvindo a chuva.
às vezes um homem não sabe o que fazer com as coisas
e às vezes o melhor a fazer é ficar deitado sem se mexer
e tentar simplesmente não pensar
não pensar em nada.
o gato pertencia a alguém
ele tinha uma coleira antipulgas.
nada sei sobre a
mulher.
1 170
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Salve o Píer

você devia ter ido nessa festa,
eu sei que você odeia festas
mas você ia se enturmar.
seja como for, levei minha garota, você conhece
ela –
Java Jane?
sim, essa festa foi no parquinho
onde eles estão tentando derrubar o píer, você
sabe onde fica?
sim, com a pintura vermelha, as janelas
quebradas –
sim, bem, minha garota vive num quarto logo acima do
parquinho. era uma
festa de aniversário da mulher que é dona do
parquinho.
ela está tentando salvar o píer
está tentando salvar o parquinho –
bebida de montão para todo mundo, minha garota vive no
quarto logo acima do
parquinho.
parece ótimo.
liguei. mas você não
estava.
tudo bem.
bem, havia um montão de coisas para beber e eles acionaram o
carrossel, era de graça, música e tudo
mais.
parece ótimo.
minha garota e eu começamos a
brigar, toda aquela bebida –
claro.
evito ficar perto dela
ela evita ficar perto de mim.
ela estava com um copo de vinho na mão.
lanço para ela um daqueles olhares mortíferos,
ela sente o poder
ela recua
a coisa está girando
o casco de um cavalo acerta o rabo dela.
ela cai sobre a base rodopiante.
tudo acontece muito rápido –
mas eu percebo
que durante todo o tempo em que ela está girando
ao som da música debaixo daqueles cavalos
ela segura seu copo de vinho de pé
para não deixar cair nem uma
gota.
bravura.
claro. acontece que o tempo inteiro ela ficou pagando
calcinha. brilhante e cintilante.
rosa.
maravilha. como eles ficam?
eles conspiram.
o rosa cintilante?
sim. então as calcinhas dela estão aparecendo e eu penso
bem, está tudo bem mas é provável que pareça
infinitamente melhor para eles do que para
mim, então eu avancei um passo e disse,
Jane.
o que aconteceu?
ela seguiu girando e segurando sua bebida
mostrando seu traseiro rosa... parecia haver alguma coisa
frágil nisso, deliciosamente inútil...
a pequena glória chega e avança aos gritos afinal...
exatamente. ela seguia girando e girando
as pernas escancaradas –
mareada com a vida –
vingativa –
ela devia ter pensado em mim antes de mostrar
a calcinha para todas aquelas
pessoas. seja como for, ela seguia dando voltas
até que sua perna acertou a perna de um cara –
ele se aproximou para ver melhor.
ele tinha 67 anos e estava com a esposa
e os dois comiam
espaguete em pratos de papelão, enfim,
a perna da minha garota acertou a dele
ela seguiu se equilibrando sobre a bunda
segurando ainda o copo de vinho na posição vertical.
me aproximei e a juntei da base
e ela continuou mantendo o copo
nivelado. então ela o ergueu e
bebeu tudo.
me parece que foi uma
ótima festa.
eu liguei. você não estava
em casa.
teias de aranha de sexo gotejante
e orvalhado como
sonhos de halitose.
exatamente. você deveria estar
lá.
desculpa.
1 191
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Poema Para Mim Mesmo

Charles Bukowski contesta o incontestável
trabalhava nos Correios
assusta pessoas nas ruas
é um neurótico
inventa as merdas que escreve
principalmente as partes sobre sexo

Charles Bukowski é o Rei dos Poetas Teimosos
Charles Bukowski trabalhava nos Correios
Charles Bukowski escreve com dureza e age com medo
age com medo e escreve com dureza
inventa as merdas que escreve
principalmente as partes sobre sexo

Charles Bukowski tem $90.000 no banco e está
preocupado
Charles Bukowski vai ganhar $20.000 por ano nos
próximos 4 anos e
está preocupado

Charles Bukowski é um bêbado
Charles Bukowski ama sua filha
Charles Bukowski trabalhava nos Correios

Charles Bukowski diz que odeia leituras de poesia em público
faz leituras de poesia em público
e tem chiliques quando o cachê é inferior a
$50

Charles Bukowski ganhou uma crítica boa na Der Spiegel
Charles Bukowski foi publicado na Penguin Poetry Series #13
Charles Bukowski acabou de escrever seu primeiro romance
tem dois pares velhos de sapato – um preto, outro marrom
Charles Bukowski foi certa vez casado com uma milionária
Charles Bukowski é conhecido no underground

Charles Bukowski dorme até o meio-dia e sempre acorda de
ressaca
Charles Bukowski foi louvado por Genet e Henry Miller
muita gente rica e bem-sucedida gostaria de ser
Charles Bukowski

Charles Bukowski bebe e conversa com fascistas, revolucionários,
babacas, putas e loucos
Charles Bukowski não gosta de poesia
parece um lutador mas apanha todas as vezes
ele bebe scotch ou vinho

Charles Bukowski foi funcionário dos Correios por onze anos
Charles Bukowski foi carteiro nos Correios por 3 anos
escreveu Notas de um velho safado
que está em livrarias do Canal do Panamá até
Amsterdã

Charles Bukowski se embebeda com professores universitários e os manda
chupar merda;
certa vez bebeu meio litro de uísque num só gole numa festa
para caretas, e o que é que

Charles Bukowski estava fazendo lá?

Charles Bukowski está nos arquivos da Universidade de Santa Barbara
foi o que provocou os tumultos em Isla Vista

Charles Bukowski se deu bem – ele pode foder um gambá numa cloaca
e se sair com um royal flush num furacão texano

quase todo mundo quer ser
Charles Bukowski
se embebedar com
Charles Bukowski
todas as garotas de cabelos pretos com bocetas apertadinhas querem
dar para
Charles Bukowski
até quando ele fala de suicídio
Charles Bukowski sorri e às vezes ri

e quando seus editores lhe dizem
mal chegamos no adiantamento ainda
ou nós não fizemos a nossa tabulação bianual
mas você se deu bem
Charles Bukowski
não se preocupe

e a Penguin Books cobra de
Charles Bukowski 2 libras devidas depois que
a primeira edição se esgotou, mas não se preocupe, nós
faremos uma segunda
edição,
e quando o bebum no sofá cai de cara
e Charles Bukowski tenta botá-lo de volta no sofá
o bebum lhe dá um soco no nariz

Charles Bukowski já teve até uma bibliografia escrita a seu respeito
ou tabulada a seu respeito
ele simplesmente não erra
seu mijo não fede
tudo está ótimo,
ele se embebeda até com seu senhorio e sua
senhoria, todo mundo gosta dele, acha que ele é
só só só...

Charles Bukowski tem ombros caídos
ele dá bicadas em teclas que não respondem ao chamado
sabendo que se deu bem
sabendo que ele é excelente
Charles Bukowski está indo à falência
está falindo
num período de aclamação
num período de professores e editores e boceta
ninguém poderá entender que suas últimas cédulas
estão queimando mais rápido do que
cocô de cachorro encharcado de gasolina F-310
e Marina precisa de sapatos
novos.
claro, ele não entende o
intangível, mas
entende.

Charles Bukowski não tem noção
ele se debruça sobre uma máquina de escrever
bêbado às 3:30 da manhã
que outra pessoa leve a bola
ele está machucado e sua bunda foi
chutada

já era
a noite está se mostrando

Charles Bukowski, querido garoto,
o jogo está terminando e você
jamais passou
do meio-campo,
seu imprestável.
1 051
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Som Das Vidas Humanas

estranho calor, mulheres quentes e frias,
eu faço bem o amor, mas o amor não é apenas
sexo. grande parte das mulheres que conheci é
ambiciosa, e eu gosto de ficar deitado
sobre grandes e confortáveis travesseiros até as 3
da tarde. gosto de ficar olhando o sol
através das folhas de um arbusto lá fora
enquanto o mundo para além se mantém
afastado de mim. conheço tudo isso muito bem, todas
as páginas sujas, e gosto de ficar deitado
minha barriga voltada para o teto depois de fazer amor
tudo seguindo seu fluxo:
é tão bom ficar numa boa – se você deixar acontecer, não
faltará mais nada.
mas a mulher é estranha, ela é muito
ambiciosa – merda! eu não posso ficar o dia inteiro dormindo!
só o que fazemos é comer! fazer amor! dormir! comer! fazer amor!
minha querida, eu digo, há homens agora lá fora
colhendo tomates, alface, até mesmo algodão,
há homens e mulheres lá fora morrendo debaixo do sol,
há homens e mulheres lá fora morrendo em fábricas
por nada, por uma ninharia...
posso ouvir o som das vidas humanas sendo rasgadas em
pedaços...
você não tem ideia de como somos
abençoados...
mas você já deu um jeito, ela diz,
seus poemas...
meu amor se levanta da cama
escuto-a na peça ao lado.
a máquina de escrever está em movimento.
não sei por que as pessoas pensam que esforço e energia
têm alguma coisa a ver com a
criação.
creio que em coisas como política, medicina,
história e religião
eles também estão
enganados.
deito-me de bruços e logo adormeço com meu
cu voltado para o teto só para dar uma variada.
1 184
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Som Das Vidas Humanas

estranho calor, mulheres quentes e frias,
eu faço bem o amor, mas o amor não é apenas
sexo. grande parte das mulheres que conheci é
ambiciosa, e eu gosto de ficar deitado
sobre grandes e confortáveis travesseiros até as 3
da tarde. gosto de ficar olhando o sol
através das folhas de um arbusto lá fora
enquanto o mundo para além se mantém
afastado de mim. conheço tudo isso muito bem, todas
as páginas sujas, e gosto de ficar deitado
minha barriga voltada para o teto depois de fazer amor
tudo seguindo seu fluxo:
é tão bom ficar numa boa – se você deixar acontecer, não
faltará mais nada.
mas a mulher é estranha, ela é muito
ambiciosa – merda! eu não posso ficar o dia inteiro dormindo!
só o que fazemos é comer! fazer amor! dormir! comer! fazer amor!
minha querida, eu digo, há homens agora lá fora
colhendo tomates, alface, até mesmo algodão,
há homens e mulheres lá fora morrendo debaixo do sol,
há homens e mulheres lá fora morrendo em fábricas
por nada, por uma ninharia...
posso ouvir o som das vidas humanas sendo rasgadas em
pedaços...
você não tem ideia de como somos
abençoados...
mas você já deu um jeito, ela diz,
seus poemas...
meu amor se levanta da cama
escuto-a na peça ao lado.
a máquina de escrever está em movimento.
não sei por que as pessoas pensam que esforço e energia
têm alguma coisa a ver com a
criação.
creio que em coisas como política, medicina,
história e religião
eles também estão
enganados.
deito-me de bruços e logo adormeço com meu
cu voltado para o teto só para dar uma variada.
1 184
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Nós, Os Artistas –

em São Francisco a senhoria, 80, me ajudou a arrastar a Vitrola
verde escada acima e eu toquei a 5ª do Beethoven
até que batessem nas paredes.
havia um balde enorme no meio do quarto
cheio de garrafas de cerveja e de vinho;
então, pode ter sido o delirium tremens, certa tarde
ouvi o som de algo como um sino
só que o sino estava zunindo ao invés de bater,
e logo uma luz dourada apareceu no canto do quarto
bem perto do teto
e através do som e da luz
brilhou a face de uma mulher, envelhecida mas bonita,
e ela me olhou voltando os olhos para baixo
e então uma face masculina apareceu ao seu lado,
a luz se tornou mais forte e o homem disse:
nós, os artistas, estamos orgulhosos de você!
então a mulher disse: o pobrezinho está assustado,
e eu estava, e então eles desapareceram.
levantei, me vesti, e fui até o bar
me perguntando quem eram os artistas e por que razão estariam
orgulhosos de mim. havia umas vivas almas no bar
e consegui algumas bebidas de graça, coloquei fogo nas calças graças
às brasas do meu cachimbo de sabugo, quebrei um copo deliberadamente,
não me sentia incomodado, conheci um homem que dizia ser William
Saroyan, e bebemos até que uma mulher entrou e
puxou-o para fora pela orelha e pensei, não, esse não pode ser o
William, e um outro cara apareceu e disse: velho, você fala
grosso, bem, escute, há pouco saí por assalto e
agressão, então não se meta comigo! fomos para fora do
bar, ele era um bom garoto, sabia como usar os punhos, e aquilo seguiu
bastante parelho, até que eles nos separaram e voltamos
a entrar e bebemos por mais um par de horas. voltei
para o meu quarto, coloquei a 5a de Beethoven e
quando bateram nas paredes eu bati de
volta.
continuo pensando em mim mesmo jovem, lá, o jeito que eu era,
e mal posso acreditar nisso mas não importa.
espero que os artistas sigam orgulhosos de mim
mas eles nunca mais
retornaram.
a guerra atropelou tudo e quando me dei conta
estava em Nova Orleans
caminhando bêbado até um bar
depois de cair no meio da lama numa noite chuvosa.
vi um homem esfaquear outro e fui até uma juke box
colocar uma moeda.
aquilo era um começo. São
Francisco e Nova Orleans eram duas das minhas
cidades favoritas.
1 184
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Nós, Os Artistas –

em São Francisco a senhoria, 80, me ajudou a arrastar a Vitrola
verde escada acima e eu toquei a 5ª do Beethoven
até que batessem nas paredes.
havia um balde enorme no meio do quarto
cheio de garrafas de cerveja e de vinho;
então, pode ter sido o delirium tremens, certa tarde
ouvi o som de algo como um sino
só que o sino estava zunindo ao invés de bater,
e logo uma luz dourada apareceu no canto do quarto
bem perto do teto
e através do som e da luz
brilhou a face de uma mulher, envelhecida mas bonita,
e ela me olhou voltando os olhos para baixo
e então uma face masculina apareceu ao seu lado,
a luz se tornou mais forte e o homem disse:
nós, os artistas, estamos orgulhosos de você!
então a mulher disse: o pobrezinho está assustado,
e eu estava, e então eles desapareceram.
levantei, me vesti, e fui até o bar
me perguntando quem eram os artistas e por que razão estariam
orgulhosos de mim. havia umas vivas almas no bar
e consegui algumas bebidas de graça, coloquei fogo nas calças graças
às brasas do meu cachimbo de sabugo, quebrei um copo deliberadamente,
não me sentia incomodado, conheci um homem que dizia ser William
Saroyan, e bebemos até que uma mulher entrou e
puxou-o para fora pela orelha e pensei, não, esse não pode ser o
William, e um outro cara apareceu e disse: velho, você fala
grosso, bem, escute, há pouco saí por assalto e
agressão, então não se meta comigo! fomos para fora do
bar, ele era um bom garoto, sabia como usar os punhos, e aquilo seguiu
bastante parelho, até que eles nos separaram e voltamos
a entrar e bebemos por mais um par de horas. voltei
para o meu quarto, coloquei a 5a de Beethoven e
quando bateram nas paredes eu bati de
volta.
continuo pensando em mim mesmo jovem, lá, o jeito que eu era,
e mal posso acreditar nisso mas não importa.
espero que os artistas sigam orgulhosos de mim
mas eles nunca mais
retornaram.
a guerra atropelou tudo e quando me dei conta
estava em Nova Orleans
caminhando bêbado até um bar
depois de cair no meio da lama numa noite chuvosa.
vi um homem esfaquear outro e fui até uma juke box
colocar uma moeda.
aquilo era um começo. São
Francisco e Nova Orleans eram duas das minhas
cidades favoritas.
1 184
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Nós, Os Artistas –

em São Francisco a senhoria, 80, me ajudou a arrastar a Vitrola
verde escada acima e eu toquei a 5ª do Beethoven
até que batessem nas paredes.
havia um balde enorme no meio do quarto
cheio de garrafas de cerveja e de vinho;
então, pode ter sido o delirium tremens, certa tarde
ouvi o som de algo como um sino
só que o sino estava zunindo ao invés de bater,
e logo uma luz dourada apareceu no canto do quarto
bem perto do teto
e através do som e da luz
brilhou a face de uma mulher, envelhecida mas bonita,
e ela me olhou voltando os olhos para baixo
e então uma face masculina apareceu ao seu lado,
a luz se tornou mais forte e o homem disse:
nós, os artistas, estamos orgulhosos de você!
então a mulher disse: o pobrezinho está assustado,
e eu estava, e então eles desapareceram.
levantei, me vesti, e fui até o bar
me perguntando quem eram os artistas e por que razão estariam
orgulhosos de mim. havia umas vivas almas no bar
e consegui algumas bebidas de graça, coloquei fogo nas calças graças
às brasas do meu cachimbo de sabugo, quebrei um copo deliberadamente,
não me sentia incomodado, conheci um homem que dizia ser William
Saroyan, e bebemos até que uma mulher entrou e
puxou-o para fora pela orelha e pensei, não, esse não pode ser o
William, e um outro cara apareceu e disse: velho, você fala
grosso, bem, escute, há pouco saí por assalto e
agressão, então não se meta comigo! fomos para fora do
bar, ele era um bom garoto, sabia como usar os punhos, e aquilo seguiu
bastante parelho, até que eles nos separaram e voltamos
a entrar e bebemos por mais um par de horas. voltei
para o meu quarto, coloquei a 5a de Beethoven e
quando bateram nas paredes eu bati de
volta.
continuo pensando em mim mesmo jovem, lá, o jeito que eu era,
e mal posso acreditar nisso mas não importa.
espero que os artistas sigam orgulhosos de mim
mas eles nunca mais
retornaram.
a guerra atropelou tudo e quando me dei conta
estava em Nova Orleans
caminhando bêbado até um bar
depois de cair no meio da lama numa noite chuvosa.
vi um homem esfaquear outro e fui até uma juke box
colocar uma moeda.
aquilo era um começo. São
Francisco e Nova Orleans eram duas das minhas
cidades favoritas.
1 184
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Eu Achei Que Ia Me Dar Bem

eu tinha acabado de vomitar fora da porta do meu carro
misturas vermelhas, vinho, cerveja e uísque.
tarde da noite no sábado
não, cedo na manhã de domingo;
eu não aguentaria muito mais; eu estava sempre
me matando
indo parar em cadeias, hospitais, soleiras de porta, pisos...
traduzido para 7 línguas
tema de meia dúzia de cursos de lit. moderna,
eu ainda não sabia nada,
não queria saber;
forcei o último jato
fechei a porta
e rodei a leste pelo Sunset –
quando vi uma coisa com longos cabelos loiros
vomitando, realmente botando pra
fora – expelindo a vida podre o trago podre –
as calças femininas caídas e arrastadas no chão,
bunda nua sob o luar hollywoodiano de cartolina –
a coisa estava realmente passando mal:
ela arfava, então andava um pouquinho,
arfava, aquela bunda branca toda,
e eu pensei, caralho, vou me dar bem –
já faz uns 2 anos e estou cansado de escrever sobre
punhetas –
mas quando me aproximei
percebi que não eram calças femininas e sim masculinas;
era só um garoto de cabelo comprido com uma grande bunda pelada,
mas ora, como dizia o meu amigão Benny –
“qual diabo é a diferença?”
e eu estava prestes a parar junto dele
quando a viatura o viu
e se intrometeu entre nós
e os dois tiras saltaram
bem felizes e empolgados com seu achado –
“ei, mãe, quê que cê tá fazendo com o furo
de fora?”
o garoto afastou as pernas, jogou os braços para o ar.
“ei, você!”, um dos tiras gritou para mim.
desliguei meus faróis e caí fora devagar como se eu não tivesse
escutado. aí pisei fundo na primeira
à direita. na Gramercy Place com Hollywood Blvd. eu parei
abri a porta e
vomitei de novo.
pobre filho da puta, pensei, em vez de
levá-lo pra casa ou para um hospital
vão levá-lo pra cadeia – aquela bunda branca toda.
talvez eles se aproveitem um pouco. bem, era tarde demais para
mim.
fechei a porta, liguei os faróis, rodei em frente,
tentando lembrar onde eu
morava.
1 122
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Vozes

1.
meu bigode está engomado
assim como minha peruca e minhas sobrancelhas
e até mesmo meus olhos...
então alguma coisa me atordoa...
o balanço da pantalha, escuto
borbulhos e mágica e
sons incríveis.
2.
sei que enlouqueci, quase como
um ato de teoria:
o perdido é encontrado
o doente se põe saudável
os não-criadores são os
criadores.
3.
mesmo que eu fosse um ser sofisticado, confortável
e domesticado jamais poderia beber o
sangue das massas e
chamá-lo de vinho.
4.
por que eu tinha que erguer o carro daquela
bela garota pelo para-choque porque o macaco emperrou?
fiquei entrevado
e eles me levaram como se eu fosse um pretzel e me ajeitaram
mas ainda assim não conseguia me mexer...
a culpa era do hospital, dos médicos.
então aqueles dois rapazes me largaram a caminho da
sala de raio X... eu gritei PROCESSO!
mas acho que a culpa era daquela garota –
ela não devia ter me mostrado toda aquela perna
e aquela bunda.
5.
escute, escute, BARROESPACIAL DO AMOR, DESPEDACE PINGUE,
BARROESPACIAL DO AMOR, AMOR, AMOR; MATE APRENDA A USAR UMA
ARMA; ÁREAS ABERTAS, PERCEBA, SEJA DIVINA, BARROESPACIAL
DO AMOR, ESTÁ SE aproximando...
6.
decolei de E.H. no meu primeiro romance,
tenho vivido numa boa desde então. é provável
que seja o melhor jornalista que a América já teve, posso
enrolar sobre qualquer assunto, e isso tem lá
seu valor. você me admira muito mais do que
o primeiro homem que encontra na rua
pela manhã. basicamente, no entanto, é um
fato, vivi durante uma era em que não há
escritores, então ganhei destaque
porque nada mais apareceu. ok,
é uma época ruim. suponho que eu seja o número
um. mas é um pouco diferente do tempo em que tínhamos
os gigantes a nos estimular. esqueça:
estou numa boa.
7.
eu era um mau escritor, matei N.C. porque fiz
dele mais do que ele era, e então os descolados
fizeram dos meus livros mais do que eles eram. havia
até então apenas 3 maus escritores na literatura americana
aceitável. Drieser, claro, foi o pior.
então tivemos Thomas Wolfe, e depois tivemos a mim. mas
quando tento escolher entre mim e Wolfe, tenho
que escolher Wolfe. digo, como o pior. gosto
de pensar no que Capote, outro mau escritor, disse
sobre mim: ele apenas datilografa. às vezes mesmo
maus escritores dizem a verdade.
8.
meu problema, como o da maioria, é o preciosismo artístico. eu
existo, cheio de batatas fritas e glória
e então eu olho em volta, vejo a forma da Arte, mergulho
nela e digo o quão excelente eu sou e o que penso.
este é o mesmo aborrecimento que quase des-
truiu a arte ao longo dos séculos. fiz uma vez uma gravação
de minha leitura dos meus poemas para um leão no zoológico. ele realmente
rugiu, como se estivesse sentindo dor. todos os poetas tocam
essa gravação e riem quando ficam bêbados.
9.
lembra-se do meu romance sobre a cadeia em que
fotos de heróis e de amantes flutuavam contra as
paredes de pedra?
eu me tornei famoso. cheguei até aqui.
me aborreço com os motociclistas negros do Valley
West e Bakersfield
que me tomaram a fama e a esmagaram
e me fizeram sorver sua demência e sua solidão
e seus sonhos de Cadillac alma branca e
Cadillac alma negra
e eles encheram meu rabo de creme
e minhas narinas e meus ouvidos
enquanto eu dizia, Comunismo, Comunismo
e eles escarneciam e sabiam que eu não falava a sério.
861
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Vozes

1.
meu bigode está engomado
assim como minha peruca e minhas sobrancelhas
e até mesmo meus olhos...
então alguma coisa me atordoa...
o balanço da pantalha, escuto
borbulhos e mágica e
sons incríveis.
2.
sei que enlouqueci, quase como
um ato de teoria:
o perdido é encontrado
o doente se põe saudável
os não-criadores são os
criadores.
3.
mesmo que eu fosse um ser sofisticado, confortável
e domesticado jamais poderia beber o
sangue das massas e
chamá-lo de vinho.
4.
por que eu tinha que erguer o carro daquela
bela garota pelo para-choque porque o macaco emperrou?
fiquei entrevado
e eles me levaram como se eu fosse um pretzel e me ajeitaram
mas ainda assim não conseguia me mexer...
a culpa era do hospital, dos médicos.
então aqueles dois rapazes me largaram a caminho da
sala de raio X... eu gritei PROCESSO!
mas acho que a culpa era daquela garota –
ela não devia ter me mostrado toda aquela perna
e aquela bunda.
5.
escute, escute, BARROESPACIAL DO AMOR, DESPEDACE PINGUE,
BARROESPACIAL DO AMOR, AMOR, AMOR; MATE APRENDA A USAR UMA
ARMA; ÁREAS ABERTAS, PERCEBA, SEJA DIVINA, BARROESPACIAL
DO AMOR, ESTÁ SE aproximando...
6.
decolei de E.H. no meu primeiro romance,
tenho vivido numa boa desde então. é provável
que seja o melhor jornalista que a América já teve, posso
enrolar sobre qualquer assunto, e isso tem lá
seu valor. você me admira muito mais do que
o primeiro homem que encontra na rua
pela manhã. basicamente, no entanto, é um
fato, vivi durante uma era em que não há
escritores, então ganhei destaque
porque nada mais apareceu. ok,
é uma época ruim. suponho que eu seja o número
um. mas é um pouco diferente do tempo em que tínhamos
os gigantes a nos estimular. esqueça:
estou numa boa.
7.
eu era um mau escritor, matei N.C. porque fiz
dele mais do que ele era, e então os descolados
fizeram dos meus livros mais do que eles eram. havia
até então apenas 3 maus escritores na literatura americana
aceitável. Drieser, claro, foi o pior.
então tivemos Thomas Wolfe, e depois tivemos a mim. mas
quando tento escolher entre mim e Wolfe, tenho
que escolher Wolfe. digo, como o pior. gosto
de pensar no que Capote, outro mau escritor, disse
sobre mim: ele apenas datilografa. às vezes mesmo
maus escritores dizem a verdade.
8.
meu problema, como o da maioria, é o preciosismo artístico. eu
existo, cheio de batatas fritas e glória
e então eu olho em volta, vejo a forma da Arte, mergulho
nela e digo o quão excelente eu sou e o que penso.
este é o mesmo aborrecimento que quase des-
truiu a arte ao longo dos séculos. fiz uma vez uma gravação
de minha leitura dos meus poemas para um leão no zoológico. ele realmente
rugiu, como se estivesse sentindo dor. todos os poetas tocam
essa gravação e riem quando ficam bêbados.
9.
lembra-se do meu romance sobre a cadeia em que
fotos de heróis e de amantes flutuavam contra as
paredes de pedra?
eu me tornei famoso. cheguei até aqui.
me aborreço com os motociclistas negros do Valley
West e Bakersfield
que me tomaram a fama e a esmagaram
e me fizeram sorver sua demência e sua solidão
e seus sonhos de Cadillac alma branca e
Cadillac alma negra
e eles encheram meu rabo de creme
e minhas narinas e meus ouvidos
enquanto eu dizia, Comunismo, Comunismo
e eles escarneciam e sabiam que eu não falava a sério.
861
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Vozes

1.
meu bigode está engomado
assim como minha peruca e minhas sobrancelhas
e até mesmo meus olhos...
então alguma coisa me atordoa...
o balanço da pantalha, escuto
borbulhos e mágica e
sons incríveis.
2.
sei que enlouqueci, quase como
um ato de teoria:
o perdido é encontrado
o doente se põe saudável
os não-criadores são os
criadores.
3.
mesmo que eu fosse um ser sofisticado, confortável
e domesticado jamais poderia beber o
sangue das massas e
chamá-lo de vinho.
4.
por que eu tinha que erguer o carro daquela
bela garota pelo para-choque porque o macaco emperrou?
fiquei entrevado
e eles me levaram como se eu fosse um pretzel e me ajeitaram
mas ainda assim não conseguia me mexer...
a culpa era do hospital, dos médicos.
então aqueles dois rapazes me largaram a caminho da
sala de raio X... eu gritei PROCESSO!
mas acho que a culpa era daquela garota –
ela não devia ter me mostrado toda aquela perna
e aquela bunda.
5.
escute, escute, BARROESPACIAL DO AMOR, DESPEDACE PINGUE,
BARROESPACIAL DO AMOR, AMOR, AMOR; MATE APRENDA A USAR UMA
ARMA; ÁREAS ABERTAS, PERCEBA, SEJA DIVINA, BARROESPACIAL
DO AMOR, ESTÁ SE aproximando...
6.
decolei de E.H. no meu primeiro romance,
tenho vivido numa boa desde então. é provável
que seja o melhor jornalista que a América já teve, posso
enrolar sobre qualquer assunto, e isso tem lá
seu valor. você me admira muito mais do que
o primeiro homem que encontra na rua
pela manhã. basicamente, no entanto, é um
fato, vivi durante uma era em que não há
escritores, então ganhei destaque
porque nada mais apareceu. ok,
é uma época ruim. suponho que eu seja o número
um. mas é um pouco diferente do tempo em que tínhamos
os gigantes a nos estimular. esqueça:
estou numa boa.
7.
eu era um mau escritor, matei N.C. porque fiz
dele mais do que ele era, e então os descolados
fizeram dos meus livros mais do que eles eram. havia
até então apenas 3 maus escritores na literatura americana
aceitável. Drieser, claro, foi o pior.
então tivemos Thomas Wolfe, e depois tivemos a mim. mas
quando tento escolher entre mim e Wolfe, tenho
que escolher Wolfe. digo, como o pior. gosto
de pensar no que Capote, outro mau escritor, disse
sobre mim: ele apenas datilografa. às vezes mesmo
maus escritores dizem a verdade.
8.
meu problema, como o da maioria, é o preciosismo artístico. eu
existo, cheio de batatas fritas e glória
e então eu olho em volta, vejo a forma da Arte, mergulho
nela e digo o quão excelente eu sou e o que penso.
este é o mesmo aborrecimento que quase des-
truiu a arte ao longo dos séculos. fiz uma vez uma gravação
de minha leitura dos meus poemas para um leão no zoológico. ele realmente
rugiu, como se estivesse sentindo dor. todos os poetas tocam
essa gravação e riem quando ficam bêbados.
9.
lembra-se do meu romance sobre a cadeia em que
fotos de heróis e de amantes flutuavam contra as
paredes de pedra?
eu me tornei famoso. cheguei até aqui.
me aborreço com os motociclistas negros do Valley
West e Bakersfield
que me tomaram a fama e a esmagaram
e me fizeram sorver sua demência e sua solidão
e seus sonhos de Cadillac alma branca e
Cadillac alma negra
e eles encheram meu rabo de creme
e minhas narinas e meus ouvidos
enquanto eu dizia, Comunismo, Comunismo
e eles escarneciam e sabiam que eu não falava a sério.
861