Poemas neste tema
Outros
Charles Bukowski
Às Vezes Quando Fico Triste Eu Ouço Mahler
nada disso de creme, Harry,
um Moisés peludo como eu só quer procurar abrigo agora
como um retrato de St. Louis na neve, mas não, está quente:
óleo suficiente no ventilador, e
preguiçoso demais pra trocar os lençóis sujos,
louco demais pra dar importância.
eu costumava escrever à minha mãe sobre lâminas de barbear na minha garganta
sobre o aspecto medonho dos rostos nas pessoas
como seus corpos pareciam alcatrão endurecido
mas a querida mamãe velha morreu de câncer enquanto eu me deitava com
uma puta de 130 quilos que veio nadando toda a distância desde a
Costa Rica
e precisei arranjar emprego nos pátios ferroviários,
isso mesmo porra, e fico pensando que a última navalha na minha garganta
vai entender a divindade do aço e
a não divindade da
espera.
não tenho escrito, Harry, nada de creme,
porque tenho um lugar nos fundos, eu me refiro a uma
janela dos fundos neste quarto
e eu olho lá fora e tem uma mulher toda hora pendurando roupa
tem uns 35
e quando ela se curva pra pegar suas calcinhas e sutiãs e lençóis
e náilons da cesta,
ah –
está tudo lá, Harry,
e eu estou olhando
olhos pulando através das vidraças sujas
e fico que nem um colegial espinhento de novo
nunca peguei um rabo como esse,
ali está ela no guingão engomado,
quadrados vermelhos e brancos
e aquela bunda do tamanho do Empire State Building
me olhando na boca
e o sol se atirando sobre tudo
e no canto do meu quarto
um quadrado de manteiga derretendo num prato
um naco de pão seco
e uma aranha no canto
sugando Pepsi-Cola de uma mosca –
creme, Harry, creme!
e
às vezes quando fico triste eu ouço Mahler
ou leio um pouco de Artaud
ou saio no pátio onde cuidam de uma tartaruga
e quando ninguém está olhando
eu queimo o pescoço dela com meu charuto
e quando a cabeça entra no casco eu meto o charuto no
buraco que nem uma pica
quente, mas você sabe, mesmo, não tem nada sendo escrito,
porém sigo recebendo rejeições,
e eu escrevo coisa boa, Harry, nada de creme –
só que o verdadeiro gênio não costuma ser reconhecido
em vida
e por isso não perco meu ânimo –
neste momento estou ouvindo “A marcha dos contrabandistas”
da Suíte Carmen de Bizet,
que bosta mais melosa,
acho que vou tentar aquele macaco Malone
da Wormwood – ele publica Bukowski
portanto publicaria qualquer um. a propósito, Bukowski mora no quarto
do outro lado do corredor,
um babaca, outro dia estávamos todos no quarto da Jane Suja,
bebendo vinho do porto
e Bukowski arranca as ceroulas da Jane Suja do nada
e manda bala
bem na frente de
todo mundo. sério, ele caiu
de boca. se ele pode
eu também posso. e ele teve a cara de pau de me dizer
“a próxima vez que eu te ver queimando aquela tartaruga
eu te mato!”
e ele estava tão bêbado que eu poderia ter derrubado ele no chão com um
mata-moscas.
nada disso de creme, Harry, eu não escrevo faz meses
mas a próxima coisa que eu escrever precisa dar
certo, posso sentir as palavras inchando em mim como as penas na pica de um gato
entalada no cu de um peru.
o sol está invadindo meus templos
e o papel de parede dança com garotas nuas depois da uma da
manhã
eu vejo modos cada vez melhores de lançar um verso sólido lá
nas alturas, sem brincadeira, rapaz, agora é a
hora, minha máquina de escrever é minha metralhadora
e rá tá tá tá rá
o céu todo vai despencar e belas garotas
com olhos de explosão celestial
vão pegar na minha banana; está tudo aqui –
os resíduos do esgoto, as montanhas obtusas,
equidade,
1690 pés cúbicos, anorexia, a sombra de
Marcus Junius Brutus &
uma fita nova na máquina de escrever.
uma foto de Hemingway colada no meu
banheiro.
cristo deus, Harry, eu sou um escritor,
e não é fácil quando sou o único que sabe disso,
com exceção talvez da Jane Suja,
mas vou provavelmente acabar tão famoso um dia
que não serei capaz de me aguentar
e aí vai ser a navalha.
de todo modo, estranho fim
para o mesmo jogo sujo.
Bukowski acabou de passar pra pedir emprestada uma lâmina de barbear –
por que será que ele precisa
com aquela
barba toda?
um Moisés peludo como eu só quer procurar abrigo agora
como um retrato de St. Louis na neve, mas não, está quente:
óleo suficiente no ventilador, e
preguiçoso demais pra trocar os lençóis sujos,
louco demais pra dar importância.
eu costumava escrever à minha mãe sobre lâminas de barbear na minha garganta
sobre o aspecto medonho dos rostos nas pessoas
como seus corpos pareciam alcatrão endurecido
mas a querida mamãe velha morreu de câncer enquanto eu me deitava com
uma puta de 130 quilos que veio nadando toda a distância desde a
Costa Rica
e precisei arranjar emprego nos pátios ferroviários,
isso mesmo porra, e fico pensando que a última navalha na minha garganta
vai entender a divindade do aço e
a não divindade da
espera.
não tenho escrito, Harry, nada de creme,
porque tenho um lugar nos fundos, eu me refiro a uma
janela dos fundos neste quarto
e eu olho lá fora e tem uma mulher toda hora pendurando roupa
tem uns 35
e quando ela se curva pra pegar suas calcinhas e sutiãs e lençóis
e náilons da cesta,
ah –
está tudo lá, Harry,
e eu estou olhando
olhos pulando através das vidraças sujas
e fico que nem um colegial espinhento de novo
nunca peguei um rabo como esse,
ali está ela no guingão engomado,
quadrados vermelhos e brancos
e aquela bunda do tamanho do Empire State Building
me olhando na boca
e o sol se atirando sobre tudo
e no canto do meu quarto
um quadrado de manteiga derretendo num prato
um naco de pão seco
e uma aranha no canto
sugando Pepsi-Cola de uma mosca –
creme, Harry, creme!
e
às vezes quando fico triste eu ouço Mahler
ou leio um pouco de Artaud
ou saio no pátio onde cuidam de uma tartaruga
e quando ninguém está olhando
eu queimo o pescoço dela com meu charuto
e quando a cabeça entra no casco eu meto o charuto no
buraco que nem uma pica
quente, mas você sabe, mesmo, não tem nada sendo escrito,
porém sigo recebendo rejeições,
e eu escrevo coisa boa, Harry, nada de creme –
só que o verdadeiro gênio não costuma ser reconhecido
em vida
e por isso não perco meu ânimo –
neste momento estou ouvindo “A marcha dos contrabandistas”
da Suíte Carmen de Bizet,
que bosta mais melosa,
acho que vou tentar aquele macaco Malone
da Wormwood – ele publica Bukowski
portanto publicaria qualquer um. a propósito, Bukowski mora no quarto
do outro lado do corredor,
um babaca, outro dia estávamos todos no quarto da Jane Suja,
bebendo vinho do porto
e Bukowski arranca as ceroulas da Jane Suja do nada
e manda bala
bem na frente de
todo mundo. sério, ele caiu
de boca. se ele pode
eu também posso. e ele teve a cara de pau de me dizer
“a próxima vez que eu te ver queimando aquela tartaruga
eu te mato!”
e ele estava tão bêbado que eu poderia ter derrubado ele no chão com um
mata-moscas.
nada disso de creme, Harry, eu não escrevo faz meses
mas a próxima coisa que eu escrever precisa dar
certo, posso sentir as palavras inchando em mim como as penas na pica de um gato
entalada no cu de um peru.
o sol está invadindo meus templos
e o papel de parede dança com garotas nuas depois da uma da
manhã
eu vejo modos cada vez melhores de lançar um verso sólido lá
nas alturas, sem brincadeira, rapaz, agora é a
hora, minha máquina de escrever é minha metralhadora
e rá tá tá tá rá
o céu todo vai despencar e belas garotas
com olhos de explosão celestial
vão pegar na minha banana; está tudo aqui –
os resíduos do esgoto, as montanhas obtusas,
equidade,
1690 pés cúbicos, anorexia, a sombra de
Marcus Junius Brutus &
uma fita nova na máquina de escrever.
uma foto de Hemingway colada no meu
banheiro.
cristo deus, Harry, eu sou um escritor,
e não é fácil quando sou o único que sabe disso,
com exceção talvez da Jane Suja,
mas vou provavelmente acabar tão famoso um dia
que não serei capaz de me aguentar
e aí vai ser a navalha.
de todo modo, estranho fim
para o mesmo jogo sujo.
Bukowski acabou de passar pra pedir emprestada uma lâmina de barbear –
por que será que ele precisa
com aquela
barba toda?
1 200
Charles Bukowski
Noite Úmida
a sobra.
ela se sentou ali, entristecida.
eu não podia fazer nada com ela.
estava chovendo.
ela se levantou e se foi.
bem, foda-se, mais uma vez isso, pensei
apanhei minha bebida e liguei o rádio,
tirei a pantalha do abajur
e fumei um charuto barato, negro e amargo
importado da Alemanha.
uma batida veio da porta
e eu abri a porta
um homenzinho estava na chuva
e ele disse,
você não viu por acaso um pombo na sua varanda?
eu lhe disse que não tinha visto um pombo na minha varanda
e ele me disse que se eu visse um pombo na minha varanda
que o avisasse.
fechei a porta
me sentei
e então um gato preto saltou através da
janela e pulou no meu
colo e ronronou, era um belo animal
e eu o levei até a cozinha e nós dois comemos uma
fatia de presunto.
então apaguei todas as luzes
e fui para a cama
e o gato preto foi para a cama comigo
e ronronou
e eu pensei, bem, alguém gosta de mim,
então o gato começou a mijar,
ele me mijou todo e também todo o lençol,
o mijo escorreu por minha barriga e desceu pelos lados
e eu disse: ei, o que há de errado com você?
apanhei o gato e o levei na direção da porta
e o joguei de volta no meio da chuva
e pensei, isso é muito estranho, esse gato
mijando em mim
seu mijo era gelado como a chuva.
então liguei para ela
e eu disse, veja, o que há de errado com você? você perdeu
a porra da sua cabeça?
desliguei e puxei os lençóis da cama
deitei e fiquei ali ouvindo a chuva.
às vezes um homem não sabe o que fazer com as coisas
e às vezes o melhor a fazer é ficar deitado sem se mexer
e tentar simplesmente não pensar
não pensar em nada.
o gato pertencia a alguém
ele tinha uma coleira antipulgas.
nada sei sobre a
mulher.
ela se sentou ali, entristecida.
eu não podia fazer nada com ela.
estava chovendo.
ela se levantou e se foi.
bem, foda-se, mais uma vez isso, pensei
apanhei minha bebida e liguei o rádio,
tirei a pantalha do abajur
e fumei um charuto barato, negro e amargo
importado da Alemanha.
uma batida veio da porta
e eu abri a porta
um homenzinho estava na chuva
e ele disse,
você não viu por acaso um pombo na sua varanda?
eu lhe disse que não tinha visto um pombo na minha varanda
e ele me disse que se eu visse um pombo na minha varanda
que o avisasse.
fechei a porta
me sentei
e então um gato preto saltou através da
janela e pulou no meu
colo e ronronou, era um belo animal
e eu o levei até a cozinha e nós dois comemos uma
fatia de presunto.
então apaguei todas as luzes
e fui para a cama
e o gato preto foi para a cama comigo
e ronronou
e eu pensei, bem, alguém gosta de mim,
então o gato começou a mijar,
ele me mijou todo e também todo o lençol,
o mijo escorreu por minha barriga e desceu pelos lados
e eu disse: ei, o que há de errado com você?
apanhei o gato e o levei na direção da porta
e o joguei de volta no meio da chuva
e pensei, isso é muito estranho, esse gato
mijando em mim
seu mijo era gelado como a chuva.
então liguei para ela
e eu disse, veja, o que há de errado com você? você perdeu
a porra da sua cabeça?
desliguei e puxei os lençóis da cama
deitei e fiquei ali ouvindo a chuva.
às vezes um homem não sabe o que fazer com as coisas
e às vezes o melhor a fazer é ficar deitado sem se mexer
e tentar simplesmente não pensar
não pensar em nada.
o gato pertencia a alguém
ele tinha uma coleira antipulgas.
nada sei sobre a
mulher.
1 170
Charles Bukowski
Correções de Mim Mesmo, Sobretudo Segundo Whitman:
eu quebraria os bulevares como palhas
e jogaria os velhos poetas confusos que sorvem leite
e levantam pesos
nas detenções de bêbados de Iowa
até San Diego;
eu anunciaria minha própria firme reivindicação de imortalidade
bem quieto
já que ninguém escutaria mesmo,
e eu quebraria a Vitrola
eu quebraria a alma de Caruso
numa noite quente cheia de moscas;
eu sairia empinando uma bunda judaica
requebrando pelos bulevares
numa velha bicicleta italiana de corrida,
lançando olhares para trás
sempre sabendo
como boas-noites na Alemanha
ou luvas atiradas ao chão,
acontece.
eu choraria pelos exércitos da Espanha,
eu choraria pelos índios viciados em vinho,
eu choraria, inclusive, por Gable morto
se conseguisse achar uma lágrima;
eu escreveria introduções para livros de poesia
de rapazes que já perderam metade da audição
devido à palavra;
eu mataria um elefante com um facão de caça
para ver sua tromba cair
feito uma meia vazia.
eu encontraria coisas na areia e coisas
embaixo da minha cama: marcas de dentes, marcas de braço, sinais,
pontas, manchas de tinta, manchas de amor, rabiscos
de Swinburne...
eu derrubaria as montanhas por seus caroços de azeitona,
eu prantearia mergulhadores de narizes mortos
com isso aís,
e por falar nisso
eu esmagaria e mataria mais uma mosca
ou escreveria
mais um poema inútil.
e jogaria os velhos poetas confusos que sorvem leite
e levantam pesos
nas detenções de bêbados de Iowa
até San Diego;
eu anunciaria minha própria firme reivindicação de imortalidade
bem quieto
já que ninguém escutaria mesmo,
e eu quebraria a Vitrola
eu quebraria a alma de Caruso
numa noite quente cheia de moscas;
eu sairia empinando uma bunda judaica
requebrando pelos bulevares
numa velha bicicleta italiana de corrida,
lançando olhares para trás
sempre sabendo
como boas-noites na Alemanha
ou luvas atiradas ao chão,
acontece.
eu choraria pelos exércitos da Espanha,
eu choraria pelos índios viciados em vinho,
eu choraria, inclusive, por Gable morto
se conseguisse achar uma lágrima;
eu escreveria introduções para livros de poesia
de rapazes que já perderam metade da audição
devido à palavra;
eu mataria um elefante com um facão de caça
para ver sua tromba cair
feito uma meia vazia.
eu encontraria coisas na areia e coisas
embaixo da minha cama: marcas de dentes, marcas de braço, sinais,
pontas, manchas de tinta, manchas de amor, rabiscos
de Swinburne...
eu derrubaria as montanhas por seus caroços de azeitona,
eu prantearia mergulhadores de narizes mortos
com isso aís,
e por falar nisso
eu esmagaria e mataria mais uma mosca
ou escreveria
mais um poema inútil.
947
Charles Bukowski
Correções de Mim Mesmo, Sobretudo Segundo Whitman:
eu quebraria os bulevares como palhas
e jogaria os velhos poetas confusos que sorvem leite
e levantam pesos
nas detenções de bêbados de Iowa
até San Diego;
eu anunciaria minha própria firme reivindicação de imortalidade
bem quieto
já que ninguém escutaria mesmo,
e eu quebraria a Vitrola
eu quebraria a alma de Caruso
numa noite quente cheia de moscas;
eu sairia empinando uma bunda judaica
requebrando pelos bulevares
numa velha bicicleta italiana de corrida,
lançando olhares para trás
sempre sabendo
como boas-noites na Alemanha
ou luvas atiradas ao chão,
acontece.
eu choraria pelos exércitos da Espanha,
eu choraria pelos índios viciados em vinho,
eu choraria, inclusive, por Gable morto
se conseguisse achar uma lágrima;
eu escreveria introduções para livros de poesia
de rapazes que já perderam metade da audição
devido à palavra;
eu mataria um elefante com um facão de caça
para ver sua tromba cair
feito uma meia vazia.
eu encontraria coisas na areia e coisas
embaixo da minha cama: marcas de dentes, marcas de braço, sinais,
pontas, manchas de tinta, manchas de amor, rabiscos
de Swinburne...
eu derrubaria as montanhas por seus caroços de azeitona,
eu prantearia mergulhadores de narizes mortos
com isso aís,
e por falar nisso
eu esmagaria e mataria mais uma mosca
ou escreveria
mais um poema inútil.
e jogaria os velhos poetas confusos que sorvem leite
e levantam pesos
nas detenções de bêbados de Iowa
até San Diego;
eu anunciaria minha própria firme reivindicação de imortalidade
bem quieto
já que ninguém escutaria mesmo,
e eu quebraria a Vitrola
eu quebraria a alma de Caruso
numa noite quente cheia de moscas;
eu sairia empinando uma bunda judaica
requebrando pelos bulevares
numa velha bicicleta italiana de corrida,
lançando olhares para trás
sempre sabendo
como boas-noites na Alemanha
ou luvas atiradas ao chão,
acontece.
eu choraria pelos exércitos da Espanha,
eu choraria pelos índios viciados em vinho,
eu choraria, inclusive, por Gable morto
se conseguisse achar uma lágrima;
eu escreveria introduções para livros de poesia
de rapazes que já perderam metade da audição
devido à palavra;
eu mataria um elefante com um facão de caça
para ver sua tromba cair
feito uma meia vazia.
eu encontraria coisas na areia e coisas
embaixo da minha cama: marcas de dentes, marcas de braço, sinais,
pontas, manchas de tinta, manchas de amor, rabiscos
de Swinburne...
eu derrubaria as montanhas por seus caroços de azeitona,
eu prantearia mergulhadores de narizes mortos
com isso aís,
e por falar nisso
eu esmagaria e mataria mais uma mosca
ou escreveria
mais um poema inútil.
947
Charles Bukowski
Salve o Píer
você devia ter ido nessa festa,
eu sei que você odeia festas
mas você ia se enturmar.
seja como for, levei minha garota, você conhece
ela –
Java Jane?
sim, essa festa foi no parquinho
onde eles estão tentando derrubar o píer, você
sabe onde fica?
sim, com a pintura vermelha, as janelas
quebradas –
sim, bem, minha garota vive num quarto logo acima do
parquinho. era uma
festa de aniversário da mulher que é dona do
parquinho.
ela está tentando salvar o píer
está tentando salvar o parquinho –
bebida de montão para todo mundo, minha garota vive no
quarto logo acima do
parquinho.
parece ótimo.
liguei. mas você não
estava.
tudo bem.
bem, havia um montão de coisas para beber e eles acionaram o
carrossel, era de graça, música e tudo
mais.
parece ótimo.
minha garota e eu começamos a
brigar, toda aquela bebida –
claro.
evito ficar perto dela
ela evita ficar perto de mim.
ela estava com um copo de vinho na mão.
lanço para ela um daqueles olhares mortíferos,
ela sente o poder
ela recua
a coisa está girando
o casco de um cavalo acerta o rabo dela.
ela cai sobre a base rodopiante.
tudo acontece muito rápido –
mas eu percebo
que durante todo o tempo em que ela está girando
ao som da música debaixo daqueles cavalos
ela segura seu copo de vinho de pé
para não deixar cair nem uma
gota.
bravura.
claro. acontece que o tempo inteiro ela ficou pagando
calcinha. brilhante e cintilante.
rosa.
maravilha. como eles ficam?
eles conspiram.
o rosa cintilante?
sim. então as calcinhas dela estão aparecendo e eu penso
bem, está tudo bem mas é provável que pareça
infinitamente melhor para eles do que para
mim, então eu avancei um passo e disse,
Jane.
o que aconteceu?
ela seguiu girando e segurando sua bebida
mostrando seu traseiro rosa... parecia haver alguma coisa
frágil nisso, deliciosamente inútil...
a pequena glória chega e avança aos gritos afinal...
exatamente. ela seguia girando e girando
as pernas escancaradas –
mareada com a vida –
vingativa –
ela devia ter pensado em mim antes de mostrar
a calcinha para todas aquelas
pessoas. seja como for, ela seguia dando voltas
até que sua perna acertou a perna de um cara –
ele se aproximou para ver melhor.
ele tinha 67 anos e estava com a esposa
e os dois comiam
espaguete em pratos de papelão, enfim,
a perna da minha garota acertou a dele
ela seguiu se equilibrando sobre a bunda
segurando ainda o copo de vinho na posição vertical.
me aproximei e a juntei da base
e ela continuou mantendo o copo
nivelado. então ela o ergueu e
bebeu tudo.
me parece que foi uma
ótima festa.
eu liguei. você não estava
em casa.
teias de aranha de sexo gotejante
e orvalhado como
sonhos de halitose.
exatamente. você deveria estar
lá.
desculpa.
eu sei que você odeia festas
mas você ia se enturmar.
seja como for, levei minha garota, você conhece
ela –
Java Jane?
sim, essa festa foi no parquinho
onde eles estão tentando derrubar o píer, você
sabe onde fica?
sim, com a pintura vermelha, as janelas
quebradas –
sim, bem, minha garota vive num quarto logo acima do
parquinho. era uma
festa de aniversário da mulher que é dona do
parquinho.
ela está tentando salvar o píer
está tentando salvar o parquinho –
bebida de montão para todo mundo, minha garota vive no
quarto logo acima do
parquinho.
parece ótimo.
liguei. mas você não
estava.
tudo bem.
bem, havia um montão de coisas para beber e eles acionaram o
carrossel, era de graça, música e tudo
mais.
parece ótimo.
minha garota e eu começamos a
brigar, toda aquela bebida –
claro.
evito ficar perto dela
ela evita ficar perto de mim.
ela estava com um copo de vinho na mão.
lanço para ela um daqueles olhares mortíferos,
ela sente o poder
ela recua
a coisa está girando
o casco de um cavalo acerta o rabo dela.
ela cai sobre a base rodopiante.
tudo acontece muito rápido –
mas eu percebo
que durante todo o tempo em que ela está girando
ao som da música debaixo daqueles cavalos
ela segura seu copo de vinho de pé
para não deixar cair nem uma
gota.
bravura.
claro. acontece que o tempo inteiro ela ficou pagando
calcinha. brilhante e cintilante.
rosa.
maravilha. como eles ficam?
eles conspiram.
o rosa cintilante?
sim. então as calcinhas dela estão aparecendo e eu penso
bem, está tudo bem mas é provável que pareça
infinitamente melhor para eles do que para
mim, então eu avancei um passo e disse,
Jane.
o que aconteceu?
ela seguiu girando e segurando sua bebida
mostrando seu traseiro rosa... parecia haver alguma coisa
frágil nisso, deliciosamente inútil...
a pequena glória chega e avança aos gritos afinal...
exatamente. ela seguia girando e girando
as pernas escancaradas –
mareada com a vida –
vingativa –
ela devia ter pensado em mim antes de mostrar
a calcinha para todas aquelas
pessoas. seja como for, ela seguia dando voltas
até que sua perna acertou a perna de um cara –
ele se aproximou para ver melhor.
ele tinha 67 anos e estava com a esposa
e os dois comiam
espaguete em pratos de papelão, enfim,
a perna da minha garota acertou a dele
ela seguiu se equilibrando sobre a bunda
segurando ainda o copo de vinho na posição vertical.
me aproximei e a juntei da base
e ela continuou mantendo o copo
nivelado. então ela o ergueu e
bebeu tudo.
me parece que foi uma
ótima festa.
eu liguei. você não estava
em casa.
teias de aranha de sexo gotejante
e orvalhado como
sonhos de halitose.
exatamente. você deveria estar
lá.
desculpa.
1 191
Charles Bukowski
Por Que Todos Os Seus Poemas São Pessoais?
por que todos os seus poemas são pessoais?, ela
falou, não admira que ela te odiasse...
qual?, falei. você sabe
qual... e nunca mais deixe
água na sua pia, e você não sabe
nem grelhar uma carne; minha senhoria disse
que você é bonitão e queria saber
por que não voltei a ficar com
você...
você contou pra ela?
daria pra contar que você é presunçoso
e alcoólatra? daria pra contar sobre
o dia em que precisei te recolher
caído de costas no chão
quando você brigou?
daria pra contar
que você bate uma toda hora?
daria pra contar
que você se acha
um sr. Vanbilderass?
por que você não vai pra casa?
eu sempre te amei, você sabe,
eu sempre te amei!
ótimo. um dia eu escrevo um poema sobre
isso. um poema bem
pessoal.
falou, não admira que ela te odiasse...
qual?, falei. você sabe
qual... e nunca mais deixe
água na sua pia, e você não sabe
nem grelhar uma carne; minha senhoria disse
que você é bonitão e queria saber
por que não voltei a ficar com
você...
você contou pra ela?
daria pra contar que você é presunçoso
e alcoólatra? daria pra contar sobre
o dia em que precisei te recolher
caído de costas no chão
quando você brigou?
daria pra contar
que você bate uma toda hora?
daria pra contar
que você se acha
um sr. Vanbilderass?
por que você não vai pra casa?
eu sempre te amei, você sabe,
eu sempre te amei!
ótimo. um dia eu escrevo um poema sobre
isso. um poema bem
pessoal.
1 166
Charles Bukowski
Um Poema Para Mim Mesmo
Charles Bukowski contesta o incontestável
trabalhava nos Correios
assusta pessoas nas ruas
é um neurótico
inventa as merdas que escreve
principalmente as partes sobre sexo
Charles Bukowski é o Rei dos Poetas Teimosos
Charles Bukowski trabalhava nos Correios
Charles Bukowski escreve com dureza e age com medo
age com medo e escreve com dureza
inventa as merdas que escreve
principalmente as partes sobre sexo
Charles Bukowski tem $90.000 no banco e está
preocupado
Charles Bukowski vai ganhar $20.000 por ano nos
próximos 4 anos e
está preocupado
Charles Bukowski é um bêbado
Charles Bukowski ama sua filha
Charles Bukowski trabalhava nos Correios
Charles Bukowski diz que odeia leituras de poesia em público
faz leituras de poesia em público
e tem chiliques quando o cachê é inferior a
$50
Charles Bukowski ganhou uma crítica boa na Der Spiegel
Charles Bukowski foi publicado na Penguin Poetry Series #13
Charles Bukowski acabou de escrever seu primeiro romance
tem dois pares velhos de sapato – um preto, outro marrom
Charles Bukowski foi certa vez casado com uma milionária
Charles Bukowski é conhecido no underground
Charles Bukowski dorme até o meio-dia e sempre acorda de
ressaca
Charles Bukowski foi louvado por Genet e Henry Miller
muita gente rica e bem-sucedida gostaria de ser
Charles Bukowski
Charles Bukowski bebe e conversa com fascistas, revolucionários,
babacas, putas e loucos
Charles Bukowski não gosta de poesia
parece um lutador mas apanha todas as vezes
ele bebe scotch ou vinho
Charles Bukowski foi funcionário dos Correios por onze anos
Charles Bukowski foi carteiro nos Correios por 3 anos
escreveu Notas de um velho safado
que está em livrarias do Canal do Panamá até
Amsterdã
Charles Bukowski se embebeda com professores universitários e os manda
chupar merda;
certa vez bebeu meio litro de uísque num só gole numa festa
para caretas, e o que é que
Charles Bukowski estava fazendo lá?
Charles Bukowski está nos arquivos da Universidade de Santa Barbara
foi o que provocou os tumultos em Isla Vista
Charles Bukowski se deu bem – ele pode foder um gambá numa cloaca
e se sair com um royal flush num furacão texano
quase todo mundo quer ser
Charles Bukowski
se embebedar com
Charles Bukowski
todas as garotas de cabelos pretos com bocetas apertadinhas querem
dar para
Charles Bukowski
até quando ele fala de suicídio
Charles Bukowski sorri e às vezes ri
e quando seus editores lhe dizem
mal chegamos no adiantamento ainda
ou nós não fizemos a nossa tabulação bianual
mas você se deu bem
Charles Bukowski
não se preocupe
e a Penguin Books cobra de
Charles Bukowski 2 libras devidas depois que
a primeira edição se esgotou, mas não se preocupe, nós
faremos uma segunda
edição,
e quando o bebum no sofá cai de cara
e Charles Bukowski tenta botá-lo de volta no sofá
o bebum lhe dá um soco no nariz
Charles Bukowski já teve até uma bibliografia escrita a seu respeito
ou tabulada a seu respeito
ele simplesmente não erra
seu mijo não fede
tudo está ótimo,
ele se embebeda até com seu senhorio e sua
senhoria, todo mundo gosta dele, acha que ele é
só só só...
Charles Bukowski tem ombros caídos
ele dá bicadas em teclas que não respondem ao chamado
sabendo que se deu bem
sabendo que ele é excelente
Charles Bukowski está indo à falência
está falindo
num período de aclamação
num período de professores e editores e boceta
ninguém poderá entender que suas últimas cédulas
estão queimando mais rápido do que
cocô de cachorro encharcado de gasolina F-310
e Marina precisa de sapatos
novos.
claro, ele não entende o
intangível, mas
entende.
Charles Bukowski não tem noção
ele se debruça sobre uma máquina de escrever
bêbado às 3:30 da manhã
que outra pessoa leve a bola
ele está machucado e sua bunda foi
chutada
já era
a noite está se mostrando
Charles Bukowski, querido garoto,
o jogo está terminando e você
jamais passou
do meio-campo,
seu imprestável.
trabalhava nos Correios
assusta pessoas nas ruas
é um neurótico
inventa as merdas que escreve
principalmente as partes sobre sexo
Charles Bukowski é o Rei dos Poetas Teimosos
Charles Bukowski trabalhava nos Correios
Charles Bukowski escreve com dureza e age com medo
age com medo e escreve com dureza
inventa as merdas que escreve
principalmente as partes sobre sexo
Charles Bukowski tem $90.000 no banco e está
preocupado
Charles Bukowski vai ganhar $20.000 por ano nos
próximos 4 anos e
está preocupado
Charles Bukowski é um bêbado
Charles Bukowski ama sua filha
Charles Bukowski trabalhava nos Correios
Charles Bukowski diz que odeia leituras de poesia em público
faz leituras de poesia em público
e tem chiliques quando o cachê é inferior a
$50
Charles Bukowski ganhou uma crítica boa na Der Spiegel
Charles Bukowski foi publicado na Penguin Poetry Series #13
Charles Bukowski acabou de escrever seu primeiro romance
tem dois pares velhos de sapato – um preto, outro marrom
Charles Bukowski foi certa vez casado com uma milionária
Charles Bukowski é conhecido no underground
Charles Bukowski dorme até o meio-dia e sempre acorda de
ressaca
Charles Bukowski foi louvado por Genet e Henry Miller
muita gente rica e bem-sucedida gostaria de ser
Charles Bukowski
Charles Bukowski bebe e conversa com fascistas, revolucionários,
babacas, putas e loucos
Charles Bukowski não gosta de poesia
parece um lutador mas apanha todas as vezes
ele bebe scotch ou vinho
Charles Bukowski foi funcionário dos Correios por onze anos
Charles Bukowski foi carteiro nos Correios por 3 anos
escreveu Notas de um velho safado
que está em livrarias do Canal do Panamá até
Amsterdã
Charles Bukowski se embebeda com professores universitários e os manda
chupar merda;
certa vez bebeu meio litro de uísque num só gole numa festa
para caretas, e o que é que
Charles Bukowski estava fazendo lá?
Charles Bukowski está nos arquivos da Universidade de Santa Barbara
foi o que provocou os tumultos em Isla Vista
Charles Bukowski se deu bem – ele pode foder um gambá numa cloaca
e se sair com um royal flush num furacão texano
quase todo mundo quer ser
Charles Bukowski
se embebedar com
Charles Bukowski
todas as garotas de cabelos pretos com bocetas apertadinhas querem
dar para
Charles Bukowski
até quando ele fala de suicídio
Charles Bukowski sorri e às vezes ri
e quando seus editores lhe dizem
mal chegamos no adiantamento ainda
ou nós não fizemos a nossa tabulação bianual
mas você se deu bem
Charles Bukowski
não se preocupe
e a Penguin Books cobra de
Charles Bukowski 2 libras devidas depois que
a primeira edição se esgotou, mas não se preocupe, nós
faremos uma segunda
edição,
e quando o bebum no sofá cai de cara
e Charles Bukowski tenta botá-lo de volta no sofá
o bebum lhe dá um soco no nariz
Charles Bukowski já teve até uma bibliografia escrita a seu respeito
ou tabulada a seu respeito
ele simplesmente não erra
seu mijo não fede
tudo está ótimo,
ele se embebeda até com seu senhorio e sua
senhoria, todo mundo gosta dele, acha que ele é
só só só...
Charles Bukowski tem ombros caídos
ele dá bicadas em teclas que não respondem ao chamado
sabendo que se deu bem
sabendo que ele é excelente
Charles Bukowski está indo à falência
está falindo
num período de aclamação
num período de professores e editores e boceta
ninguém poderá entender que suas últimas cédulas
estão queimando mais rápido do que
cocô de cachorro encharcado de gasolina F-310
e Marina precisa de sapatos
novos.
claro, ele não entende o
intangível, mas
entende.
Charles Bukowski não tem noção
ele se debruça sobre uma máquina de escrever
bêbado às 3:30 da manhã
que outra pessoa leve a bola
ele está machucado e sua bunda foi
chutada
já era
a noite está se mostrando
Charles Bukowski, querido garoto,
o jogo está terminando e você
jamais passou
do meio-campo,
seu imprestável.
1 051
Charles Bukowski
Queimado
o garoto voltou para Nova York para viver com uma mulher
que ele conhecera num kibutz.
ele deixou a mãe aos 32
anos, um camarada bem cuidado, bom senso de humor e
nunca usava o mesmo par de cuecas
por mais de um dia, lá estava ele
na zona porto-riquenha, ela tinha um
emprego. ele queria barras de ferro nas janelas e
comia muito frango frito às 10
da manhã depois que ela saía para
trabalhar. ele tinha algum dinheiro guardado ao longo dos
anos e ele trepava mas sentia um medo
tremendo de
boceta.
eu estava sentado com Eileen em Hollywood
e disse:
preciso alertar o garoto
de modo que quando ela vier para cima
ele esteja
preparado.
não, ela disse, deixe-o ser feliz.
eu deixei-o ser
feliz.
agora ele voltou a morar com a
mãe, ele pesa cento e quarenta quilos
e come o tempo inteiro
e ri o tempo inteiro
mas você precisa ver os olhos
dele...
os olhos estão assentados no meio de toda aquela
carne...
ele morde uma coxinha de galinha:
eu amei aquela mulher, ele me diz.
eu amei.
que ele conhecera num kibutz.
ele deixou a mãe aos 32
anos, um camarada bem cuidado, bom senso de humor e
nunca usava o mesmo par de cuecas
por mais de um dia, lá estava ele
na zona porto-riquenha, ela tinha um
emprego. ele queria barras de ferro nas janelas e
comia muito frango frito às 10
da manhã depois que ela saía para
trabalhar. ele tinha algum dinheiro guardado ao longo dos
anos e ele trepava mas sentia um medo
tremendo de
boceta.
eu estava sentado com Eileen em Hollywood
e disse:
preciso alertar o garoto
de modo que quando ela vier para cima
ele esteja
preparado.
não, ela disse, deixe-o ser feliz.
eu deixei-o ser
feliz.
agora ele voltou a morar com a
mãe, ele pesa cento e quarenta quilos
e come o tempo inteiro
e ri o tempo inteiro
mas você precisa ver os olhos
dele...
os olhos estão assentados no meio de toda aquela
carne...
ele morde uma coxinha de galinha:
eu amei aquela mulher, ele me diz.
eu amei.
1 131
Charles Bukowski
O Som Das Vidas Humanas
estranho calor, mulheres quentes e frias,
eu faço bem o amor, mas o amor não é apenas
sexo. grande parte das mulheres que conheci é
ambiciosa, e eu gosto de ficar deitado
sobre grandes e confortáveis travesseiros até as 3
da tarde. gosto de ficar olhando o sol
através das folhas de um arbusto lá fora
enquanto o mundo para além se mantém
afastado de mim. conheço tudo isso muito bem, todas
as páginas sujas, e gosto de ficar deitado
minha barriga voltada para o teto depois de fazer amor
tudo seguindo seu fluxo:
é tão bom ficar numa boa – se você deixar acontecer, não
faltará mais nada.
mas a mulher é estranha, ela é muito
ambiciosa – merda! eu não posso ficar o dia inteiro dormindo!
só o que fazemos é comer! fazer amor! dormir! comer! fazer amor!
minha querida, eu digo, há homens agora lá fora
colhendo tomates, alface, até mesmo algodão,
há homens e mulheres lá fora morrendo debaixo do sol,
há homens e mulheres lá fora morrendo em fábricas
por nada, por uma ninharia...
posso ouvir o som das vidas humanas sendo rasgadas em
pedaços...
você não tem ideia de como somos
abençoados...
mas você já deu um jeito, ela diz,
seus poemas...
meu amor se levanta da cama
escuto-a na peça ao lado.
a máquina de escrever está em movimento.
não sei por que as pessoas pensam que esforço e energia
têm alguma coisa a ver com a
criação.
creio que em coisas como política, medicina,
história e religião
eles também estão
enganados.
deito-me de bruços e logo adormeço com meu
cu voltado para o teto só para dar uma variada.
eu faço bem o amor, mas o amor não é apenas
sexo. grande parte das mulheres que conheci é
ambiciosa, e eu gosto de ficar deitado
sobre grandes e confortáveis travesseiros até as 3
da tarde. gosto de ficar olhando o sol
através das folhas de um arbusto lá fora
enquanto o mundo para além se mantém
afastado de mim. conheço tudo isso muito bem, todas
as páginas sujas, e gosto de ficar deitado
minha barriga voltada para o teto depois de fazer amor
tudo seguindo seu fluxo:
é tão bom ficar numa boa – se você deixar acontecer, não
faltará mais nada.
mas a mulher é estranha, ela é muito
ambiciosa – merda! eu não posso ficar o dia inteiro dormindo!
só o que fazemos é comer! fazer amor! dormir! comer! fazer amor!
minha querida, eu digo, há homens agora lá fora
colhendo tomates, alface, até mesmo algodão,
há homens e mulheres lá fora morrendo debaixo do sol,
há homens e mulheres lá fora morrendo em fábricas
por nada, por uma ninharia...
posso ouvir o som das vidas humanas sendo rasgadas em
pedaços...
você não tem ideia de como somos
abençoados...
mas você já deu um jeito, ela diz,
seus poemas...
meu amor se levanta da cama
escuto-a na peça ao lado.
a máquina de escrever está em movimento.
não sei por que as pessoas pensam que esforço e energia
têm alguma coisa a ver com a
criação.
creio que em coisas como política, medicina,
história e religião
eles também estão
enganados.
deito-me de bruços e logo adormeço com meu
cu voltado para o teto só para dar uma variada.
1 184
Charles Bukowski
O Som Das Vidas Humanas
estranho calor, mulheres quentes e frias,
eu faço bem o amor, mas o amor não é apenas
sexo. grande parte das mulheres que conheci é
ambiciosa, e eu gosto de ficar deitado
sobre grandes e confortáveis travesseiros até as 3
da tarde. gosto de ficar olhando o sol
através das folhas de um arbusto lá fora
enquanto o mundo para além se mantém
afastado de mim. conheço tudo isso muito bem, todas
as páginas sujas, e gosto de ficar deitado
minha barriga voltada para o teto depois de fazer amor
tudo seguindo seu fluxo:
é tão bom ficar numa boa – se você deixar acontecer, não
faltará mais nada.
mas a mulher é estranha, ela é muito
ambiciosa – merda! eu não posso ficar o dia inteiro dormindo!
só o que fazemos é comer! fazer amor! dormir! comer! fazer amor!
minha querida, eu digo, há homens agora lá fora
colhendo tomates, alface, até mesmo algodão,
há homens e mulheres lá fora morrendo debaixo do sol,
há homens e mulheres lá fora morrendo em fábricas
por nada, por uma ninharia...
posso ouvir o som das vidas humanas sendo rasgadas em
pedaços...
você não tem ideia de como somos
abençoados...
mas você já deu um jeito, ela diz,
seus poemas...
meu amor se levanta da cama
escuto-a na peça ao lado.
a máquina de escrever está em movimento.
não sei por que as pessoas pensam que esforço e energia
têm alguma coisa a ver com a
criação.
creio que em coisas como política, medicina,
história e religião
eles também estão
enganados.
deito-me de bruços e logo adormeço com meu
cu voltado para o teto só para dar uma variada.
eu faço bem o amor, mas o amor não é apenas
sexo. grande parte das mulheres que conheci é
ambiciosa, e eu gosto de ficar deitado
sobre grandes e confortáveis travesseiros até as 3
da tarde. gosto de ficar olhando o sol
através das folhas de um arbusto lá fora
enquanto o mundo para além se mantém
afastado de mim. conheço tudo isso muito bem, todas
as páginas sujas, e gosto de ficar deitado
minha barriga voltada para o teto depois de fazer amor
tudo seguindo seu fluxo:
é tão bom ficar numa boa – se você deixar acontecer, não
faltará mais nada.
mas a mulher é estranha, ela é muito
ambiciosa – merda! eu não posso ficar o dia inteiro dormindo!
só o que fazemos é comer! fazer amor! dormir! comer! fazer amor!
minha querida, eu digo, há homens agora lá fora
colhendo tomates, alface, até mesmo algodão,
há homens e mulheres lá fora morrendo debaixo do sol,
há homens e mulheres lá fora morrendo em fábricas
por nada, por uma ninharia...
posso ouvir o som das vidas humanas sendo rasgadas em
pedaços...
você não tem ideia de como somos
abençoados...
mas você já deu um jeito, ela diz,
seus poemas...
meu amor se levanta da cama
escuto-a na peça ao lado.
a máquina de escrever está em movimento.
não sei por que as pessoas pensam que esforço e energia
têm alguma coisa a ver com a
criação.
creio que em coisas como política, medicina,
história e religião
eles também estão
enganados.
deito-me de bruços e logo adormeço com meu
cu voltado para o teto só para dar uma variada.
1 184
Charles Bukowski
Simples Assim
uma das mais lindas loiras do cinema
inacreditáveis seios quadris pernas cintura
tudo,
naquele acidente de carro
a cabeça dela instantaneamente arrancada do
corpo –
simples assim –
lá se foi a cabeça rolando pelo acostamento da
estrada,
batom nos lábios, sobrancelhas delineadas, pó bronzeador aplicado,
bandana nos cabelos, ela foi rolando
como uma bola de vôlei
e o corpo ficou sentado no carro
com aqueles seios quadris pernas cintura,
tudo,
e no necrotério eles juntaram a cabeça de novo,
costuraram a cabeça
de volta,
deus do céu, disse o cara com a linha,
que desperdício.
aí ele saiu e foi pedir um hambúrguer, batata frita
e 2 xícaras de café,
preto.
inacreditáveis seios quadris pernas cintura
tudo,
naquele acidente de carro
a cabeça dela instantaneamente arrancada do
corpo –
simples assim –
lá se foi a cabeça rolando pelo acostamento da
estrada,
batom nos lábios, sobrancelhas delineadas, pó bronzeador aplicado,
bandana nos cabelos, ela foi rolando
como uma bola de vôlei
e o corpo ficou sentado no carro
com aqueles seios quadris pernas cintura,
tudo,
e no necrotério eles juntaram a cabeça de novo,
costuraram a cabeça
de volta,
deus do céu, disse o cara com a linha,
que desperdício.
aí ele saiu e foi pedir um hambúrguer, batata frita
e 2 xícaras de café,
preto.
1 193
Charles Bukowski
Nós, Os Artistas –
em São Francisco a senhoria, 80, me ajudou a arrastar a Vitrola
verde escada acima e eu toquei a 5ª do Beethoven
até que batessem nas paredes.
havia um balde enorme no meio do quarto
cheio de garrafas de cerveja e de vinho;
então, pode ter sido o delirium tremens, certa tarde
ouvi o som de algo como um sino
só que o sino estava zunindo ao invés de bater,
e logo uma luz dourada apareceu no canto do quarto
bem perto do teto
e através do som e da luz
brilhou a face de uma mulher, envelhecida mas bonita,
e ela me olhou voltando os olhos para baixo
e então uma face masculina apareceu ao seu lado,
a luz se tornou mais forte e o homem disse:
nós, os artistas, estamos orgulhosos de você!
então a mulher disse: o pobrezinho está assustado,
e eu estava, e então eles desapareceram.
levantei, me vesti, e fui até o bar
me perguntando quem eram os artistas e por que razão estariam
orgulhosos de mim. havia umas vivas almas no bar
e consegui algumas bebidas de graça, coloquei fogo nas calças graças
às brasas do meu cachimbo de sabugo, quebrei um copo deliberadamente,
não me sentia incomodado, conheci um homem que dizia ser William
Saroyan, e bebemos até que uma mulher entrou e
puxou-o para fora pela orelha e pensei, não, esse não pode ser o
William, e um outro cara apareceu e disse: velho, você fala
grosso, bem, escute, há pouco saí por assalto e
agressão, então não se meta comigo! fomos para fora do
bar, ele era um bom garoto, sabia como usar os punhos, e aquilo seguiu
bastante parelho, até que eles nos separaram e voltamos
a entrar e bebemos por mais um par de horas. voltei
para o meu quarto, coloquei a 5a de Beethoven e
quando bateram nas paredes eu bati de
volta.
continuo pensando em mim mesmo jovem, lá, o jeito que eu era,
e mal posso acreditar nisso mas não importa.
espero que os artistas sigam orgulhosos de mim
mas eles nunca mais
retornaram.
a guerra atropelou tudo e quando me dei conta
estava em Nova Orleans
caminhando bêbado até um bar
depois de cair no meio da lama numa noite chuvosa.
vi um homem esfaquear outro e fui até uma juke box
colocar uma moeda.
aquilo era um começo. São
Francisco e Nova Orleans eram duas das minhas
cidades favoritas.
verde escada acima e eu toquei a 5ª do Beethoven
até que batessem nas paredes.
havia um balde enorme no meio do quarto
cheio de garrafas de cerveja e de vinho;
então, pode ter sido o delirium tremens, certa tarde
ouvi o som de algo como um sino
só que o sino estava zunindo ao invés de bater,
e logo uma luz dourada apareceu no canto do quarto
bem perto do teto
e através do som e da luz
brilhou a face de uma mulher, envelhecida mas bonita,
e ela me olhou voltando os olhos para baixo
e então uma face masculina apareceu ao seu lado,
a luz se tornou mais forte e o homem disse:
nós, os artistas, estamos orgulhosos de você!
então a mulher disse: o pobrezinho está assustado,
e eu estava, e então eles desapareceram.
levantei, me vesti, e fui até o bar
me perguntando quem eram os artistas e por que razão estariam
orgulhosos de mim. havia umas vivas almas no bar
e consegui algumas bebidas de graça, coloquei fogo nas calças graças
às brasas do meu cachimbo de sabugo, quebrei um copo deliberadamente,
não me sentia incomodado, conheci um homem que dizia ser William
Saroyan, e bebemos até que uma mulher entrou e
puxou-o para fora pela orelha e pensei, não, esse não pode ser o
William, e um outro cara apareceu e disse: velho, você fala
grosso, bem, escute, há pouco saí por assalto e
agressão, então não se meta comigo! fomos para fora do
bar, ele era um bom garoto, sabia como usar os punhos, e aquilo seguiu
bastante parelho, até que eles nos separaram e voltamos
a entrar e bebemos por mais um par de horas. voltei
para o meu quarto, coloquei a 5a de Beethoven e
quando bateram nas paredes eu bati de
volta.
continuo pensando em mim mesmo jovem, lá, o jeito que eu era,
e mal posso acreditar nisso mas não importa.
espero que os artistas sigam orgulhosos de mim
mas eles nunca mais
retornaram.
a guerra atropelou tudo e quando me dei conta
estava em Nova Orleans
caminhando bêbado até um bar
depois de cair no meio da lama numa noite chuvosa.
vi um homem esfaquear outro e fui até uma juke box
colocar uma moeda.
aquilo era um começo. São
Francisco e Nova Orleans eram duas das minhas
cidades favoritas.
1 184
Charles Bukowski
Nós, Os Artistas –
em São Francisco a senhoria, 80, me ajudou a arrastar a Vitrola
verde escada acima e eu toquei a 5ª do Beethoven
até que batessem nas paredes.
havia um balde enorme no meio do quarto
cheio de garrafas de cerveja e de vinho;
então, pode ter sido o delirium tremens, certa tarde
ouvi o som de algo como um sino
só que o sino estava zunindo ao invés de bater,
e logo uma luz dourada apareceu no canto do quarto
bem perto do teto
e através do som e da luz
brilhou a face de uma mulher, envelhecida mas bonita,
e ela me olhou voltando os olhos para baixo
e então uma face masculina apareceu ao seu lado,
a luz se tornou mais forte e o homem disse:
nós, os artistas, estamos orgulhosos de você!
então a mulher disse: o pobrezinho está assustado,
e eu estava, e então eles desapareceram.
levantei, me vesti, e fui até o bar
me perguntando quem eram os artistas e por que razão estariam
orgulhosos de mim. havia umas vivas almas no bar
e consegui algumas bebidas de graça, coloquei fogo nas calças graças
às brasas do meu cachimbo de sabugo, quebrei um copo deliberadamente,
não me sentia incomodado, conheci um homem que dizia ser William
Saroyan, e bebemos até que uma mulher entrou e
puxou-o para fora pela orelha e pensei, não, esse não pode ser o
William, e um outro cara apareceu e disse: velho, você fala
grosso, bem, escute, há pouco saí por assalto e
agressão, então não se meta comigo! fomos para fora do
bar, ele era um bom garoto, sabia como usar os punhos, e aquilo seguiu
bastante parelho, até que eles nos separaram e voltamos
a entrar e bebemos por mais um par de horas. voltei
para o meu quarto, coloquei a 5a de Beethoven e
quando bateram nas paredes eu bati de
volta.
continuo pensando em mim mesmo jovem, lá, o jeito que eu era,
e mal posso acreditar nisso mas não importa.
espero que os artistas sigam orgulhosos de mim
mas eles nunca mais
retornaram.
a guerra atropelou tudo e quando me dei conta
estava em Nova Orleans
caminhando bêbado até um bar
depois de cair no meio da lama numa noite chuvosa.
vi um homem esfaquear outro e fui até uma juke box
colocar uma moeda.
aquilo era um começo. São
Francisco e Nova Orleans eram duas das minhas
cidades favoritas.
verde escada acima e eu toquei a 5ª do Beethoven
até que batessem nas paredes.
havia um balde enorme no meio do quarto
cheio de garrafas de cerveja e de vinho;
então, pode ter sido o delirium tremens, certa tarde
ouvi o som de algo como um sino
só que o sino estava zunindo ao invés de bater,
e logo uma luz dourada apareceu no canto do quarto
bem perto do teto
e através do som e da luz
brilhou a face de uma mulher, envelhecida mas bonita,
e ela me olhou voltando os olhos para baixo
e então uma face masculina apareceu ao seu lado,
a luz se tornou mais forte e o homem disse:
nós, os artistas, estamos orgulhosos de você!
então a mulher disse: o pobrezinho está assustado,
e eu estava, e então eles desapareceram.
levantei, me vesti, e fui até o bar
me perguntando quem eram os artistas e por que razão estariam
orgulhosos de mim. havia umas vivas almas no bar
e consegui algumas bebidas de graça, coloquei fogo nas calças graças
às brasas do meu cachimbo de sabugo, quebrei um copo deliberadamente,
não me sentia incomodado, conheci um homem que dizia ser William
Saroyan, e bebemos até que uma mulher entrou e
puxou-o para fora pela orelha e pensei, não, esse não pode ser o
William, e um outro cara apareceu e disse: velho, você fala
grosso, bem, escute, há pouco saí por assalto e
agressão, então não se meta comigo! fomos para fora do
bar, ele era um bom garoto, sabia como usar os punhos, e aquilo seguiu
bastante parelho, até que eles nos separaram e voltamos
a entrar e bebemos por mais um par de horas. voltei
para o meu quarto, coloquei a 5a de Beethoven e
quando bateram nas paredes eu bati de
volta.
continuo pensando em mim mesmo jovem, lá, o jeito que eu era,
e mal posso acreditar nisso mas não importa.
espero que os artistas sigam orgulhosos de mim
mas eles nunca mais
retornaram.
a guerra atropelou tudo e quando me dei conta
estava em Nova Orleans
caminhando bêbado até um bar
depois de cair no meio da lama numa noite chuvosa.
vi um homem esfaquear outro e fui até uma juke box
colocar uma moeda.
aquilo era um começo. São
Francisco e Nova Orleans eram duas das minhas
cidades favoritas.
1 184
Charles Bukowski
Nós, Os Artistas –
em São Francisco a senhoria, 80, me ajudou a arrastar a Vitrola
verde escada acima e eu toquei a 5ª do Beethoven
até que batessem nas paredes.
havia um balde enorme no meio do quarto
cheio de garrafas de cerveja e de vinho;
então, pode ter sido o delirium tremens, certa tarde
ouvi o som de algo como um sino
só que o sino estava zunindo ao invés de bater,
e logo uma luz dourada apareceu no canto do quarto
bem perto do teto
e através do som e da luz
brilhou a face de uma mulher, envelhecida mas bonita,
e ela me olhou voltando os olhos para baixo
e então uma face masculina apareceu ao seu lado,
a luz se tornou mais forte e o homem disse:
nós, os artistas, estamos orgulhosos de você!
então a mulher disse: o pobrezinho está assustado,
e eu estava, e então eles desapareceram.
levantei, me vesti, e fui até o bar
me perguntando quem eram os artistas e por que razão estariam
orgulhosos de mim. havia umas vivas almas no bar
e consegui algumas bebidas de graça, coloquei fogo nas calças graças
às brasas do meu cachimbo de sabugo, quebrei um copo deliberadamente,
não me sentia incomodado, conheci um homem que dizia ser William
Saroyan, e bebemos até que uma mulher entrou e
puxou-o para fora pela orelha e pensei, não, esse não pode ser o
William, e um outro cara apareceu e disse: velho, você fala
grosso, bem, escute, há pouco saí por assalto e
agressão, então não se meta comigo! fomos para fora do
bar, ele era um bom garoto, sabia como usar os punhos, e aquilo seguiu
bastante parelho, até que eles nos separaram e voltamos
a entrar e bebemos por mais um par de horas. voltei
para o meu quarto, coloquei a 5a de Beethoven e
quando bateram nas paredes eu bati de
volta.
continuo pensando em mim mesmo jovem, lá, o jeito que eu era,
e mal posso acreditar nisso mas não importa.
espero que os artistas sigam orgulhosos de mim
mas eles nunca mais
retornaram.
a guerra atropelou tudo e quando me dei conta
estava em Nova Orleans
caminhando bêbado até um bar
depois de cair no meio da lama numa noite chuvosa.
vi um homem esfaquear outro e fui até uma juke box
colocar uma moeda.
aquilo era um começo. São
Francisco e Nova Orleans eram duas das minhas
cidades favoritas.
verde escada acima e eu toquei a 5ª do Beethoven
até que batessem nas paredes.
havia um balde enorme no meio do quarto
cheio de garrafas de cerveja e de vinho;
então, pode ter sido o delirium tremens, certa tarde
ouvi o som de algo como um sino
só que o sino estava zunindo ao invés de bater,
e logo uma luz dourada apareceu no canto do quarto
bem perto do teto
e através do som e da luz
brilhou a face de uma mulher, envelhecida mas bonita,
e ela me olhou voltando os olhos para baixo
e então uma face masculina apareceu ao seu lado,
a luz se tornou mais forte e o homem disse:
nós, os artistas, estamos orgulhosos de você!
então a mulher disse: o pobrezinho está assustado,
e eu estava, e então eles desapareceram.
levantei, me vesti, e fui até o bar
me perguntando quem eram os artistas e por que razão estariam
orgulhosos de mim. havia umas vivas almas no bar
e consegui algumas bebidas de graça, coloquei fogo nas calças graças
às brasas do meu cachimbo de sabugo, quebrei um copo deliberadamente,
não me sentia incomodado, conheci um homem que dizia ser William
Saroyan, e bebemos até que uma mulher entrou e
puxou-o para fora pela orelha e pensei, não, esse não pode ser o
William, e um outro cara apareceu e disse: velho, você fala
grosso, bem, escute, há pouco saí por assalto e
agressão, então não se meta comigo! fomos para fora do
bar, ele era um bom garoto, sabia como usar os punhos, e aquilo seguiu
bastante parelho, até que eles nos separaram e voltamos
a entrar e bebemos por mais um par de horas. voltei
para o meu quarto, coloquei a 5a de Beethoven e
quando bateram nas paredes eu bati de
volta.
continuo pensando em mim mesmo jovem, lá, o jeito que eu era,
e mal posso acreditar nisso mas não importa.
espero que os artistas sigam orgulhosos de mim
mas eles nunca mais
retornaram.
a guerra atropelou tudo e quando me dei conta
estava em Nova Orleans
caminhando bêbado até um bar
depois de cair no meio da lama numa noite chuvosa.
vi um homem esfaquear outro e fui até uma juke box
colocar uma moeda.
aquilo era um começo. São
Francisco e Nova Orleans eram duas das minhas
cidades favoritas.
1 184
Charles Bukowski
Fato
eu tenho 90 mil dólares
no banco
tenho 50 anos de idade
peso 130 quilos
nunca acordo com despertador
e estou mais próximo de Deus
do que o
pardal.
no banco
tenho 50 anos de idade
peso 130 quilos
nunca acordo com despertador
e estou mais próximo de Deus
do que o
pardal.
1 128
Charles Bukowski
Mais Potente do Que de Carne Moída Com Batata –
o movimento do coração humano:
estrangulado no Missouri;
recoberto por cera quente em Boston;
assado feito batata em Norfolk;
perdido nas Montanhas Allegheny;
encontrado mais uma vez numa cama de mogno com dossel
em Nova Orleans;
ensopado e moído com feijões-rajados
em El Paso;
suspenso numa cruz como um cão embriagado
em Denver;
cortado ao meio e tostado em
Kalamazoo;
tomado de câncer num barco pesqueiro
para além da costa do México;
enganado e encurralado em Daytona Beach;
chutado por uma babá
usando um vestido verde e branco de algodão,
que atende mesas numa rodoviária
da Carolina do Norte;
besuntado em azeite e mijo de cabra
por uma puta enxadrista no East Village;
pintado de vermelho, branco e azul
por um ato do Congresso;
torpedeado por uma loira aguada
com o maior rabo em Kansas;
estripado e barbarizado por uma mulher
com a alma de um touro
em East Lansing;
petrificado por uma garota de dedos minúsculos,
faltava a ela um dente,
um da frente na arcada superior, e bombeando gás
em Mesa;
o movimento do coração humano segue
e segue
e segue e segue
por algum tempo.
estrangulado no Missouri;
recoberto por cera quente em Boston;
assado feito batata em Norfolk;
perdido nas Montanhas Allegheny;
encontrado mais uma vez numa cama de mogno com dossel
em Nova Orleans;
ensopado e moído com feijões-rajados
em El Paso;
suspenso numa cruz como um cão embriagado
em Denver;
cortado ao meio e tostado em
Kalamazoo;
tomado de câncer num barco pesqueiro
para além da costa do México;
enganado e encurralado em Daytona Beach;
chutado por uma babá
usando um vestido verde e branco de algodão,
que atende mesas numa rodoviária
da Carolina do Norte;
besuntado em azeite e mijo de cabra
por uma puta enxadrista no East Village;
pintado de vermelho, branco e azul
por um ato do Congresso;
torpedeado por uma loira aguada
com o maior rabo em Kansas;
estripado e barbarizado por uma mulher
com a alma de um touro
em East Lansing;
petrificado por uma garota de dedos minúsculos,
faltava a ela um dente,
um da frente na arcada superior, e bombeando gás
em Mesa;
o movimento do coração humano segue
e segue
e segue e segue
por algum tempo.
669
Charles Bukowski
Eu Achei Que Ia Me Dar Bem
eu tinha acabado de vomitar fora da porta do meu carro
misturas vermelhas, vinho, cerveja e uísque.
tarde da noite no sábado
não, cedo na manhã de domingo;
eu não aguentaria muito mais; eu estava sempre
me matando
indo parar em cadeias, hospitais, soleiras de porta, pisos...
traduzido para 7 línguas
tema de meia dúzia de cursos de lit. moderna,
eu ainda não sabia nada,
não queria saber;
forcei o último jato
fechei a porta
e rodei a leste pelo Sunset –
quando vi uma coisa com longos cabelos loiros
vomitando, realmente botando pra
fora – expelindo a vida podre o trago podre –
as calças femininas caídas e arrastadas no chão,
bunda nua sob o luar hollywoodiano de cartolina –
a coisa estava realmente passando mal:
ela arfava, então andava um pouquinho,
arfava, aquela bunda branca toda,
e eu pensei, caralho, vou me dar bem –
já faz uns 2 anos e estou cansado de escrever sobre
punhetas –
mas quando me aproximei
percebi que não eram calças femininas e sim masculinas;
era só um garoto de cabelo comprido com uma grande bunda pelada,
mas ora, como dizia o meu amigão Benny –
“qual diabo é a diferença?”
e eu estava prestes a parar junto dele
quando a viatura o viu
e se intrometeu entre nós
e os dois tiras saltaram
bem felizes e empolgados com seu achado –
“ei, mãe, quê que cê tá fazendo com o furo
de fora?”
o garoto afastou as pernas, jogou os braços para o ar.
“ei, você!”, um dos tiras gritou para mim.
desliguei meus faróis e caí fora devagar como se eu não tivesse
escutado. aí pisei fundo na primeira
à direita. na Gramercy Place com Hollywood Blvd. eu parei
abri a porta e
vomitei de novo.
pobre filho da puta, pensei, em vez de
levá-lo pra casa ou para um hospital
vão levá-lo pra cadeia – aquela bunda branca toda.
talvez eles se aproveitem um pouco. bem, era tarde demais para
mim.
fechei a porta, liguei os faróis, rodei em frente,
tentando lembrar onde eu
morava.
misturas vermelhas, vinho, cerveja e uísque.
tarde da noite no sábado
não, cedo na manhã de domingo;
eu não aguentaria muito mais; eu estava sempre
me matando
indo parar em cadeias, hospitais, soleiras de porta, pisos...
traduzido para 7 línguas
tema de meia dúzia de cursos de lit. moderna,
eu ainda não sabia nada,
não queria saber;
forcei o último jato
fechei a porta
e rodei a leste pelo Sunset –
quando vi uma coisa com longos cabelos loiros
vomitando, realmente botando pra
fora – expelindo a vida podre o trago podre –
as calças femininas caídas e arrastadas no chão,
bunda nua sob o luar hollywoodiano de cartolina –
a coisa estava realmente passando mal:
ela arfava, então andava um pouquinho,
arfava, aquela bunda branca toda,
e eu pensei, caralho, vou me dar bem –
já faz uns 2 anos e estou cansado de escrever sobre
punhetas –
mas quando me aproximei
percebi que não eram calças femininas e sim masculinas;
era só um garoto de cabelo comprido com uma grande bunda pelada,
mas ora, como dizia o meu amigão Benny –
“qual diabo é a diferença?”
e eu estava prestes a parar junto dele
quando a viatura o viu
e se intrometeu entre nós
e os dois tiras saltaram
bem felizes e empolgados com seu achado –
“ei, mãe, quê que cê tá fazendo com o furo
de fora?”
o garoto afastou as pernas, jogou os braços para o ar.
“ei, você!”, um dos tiras gritou para mim.
desliguei meus faróis e caí fora devagar como se eu não tivesse
escutado. aí pisei fundo na primeira
à direita. na Gramercy Place com Hollywood Blvd. eu parei
abri a porta e
vomitei de novo.
pobre filho da puta, pensei, em vez de
levá-lo pra casa ou para um hospital
vão levá-lo pra cadeia – aquela bunda branca toda.
talvez eles se aproveitem um pouco. bem, era tarde demais para
mim.
fechei a porta, liguei os faróis, rodei em frente,
tentando lembrar onde eu
morava.
1 122
Charles Bukowski
Problema Com Espanha
entrei no chuveiro
e queimei meus bagos
na última quarta-feira.
conheci este pintor chamado Espanha,
não, ele era um cartunista,
bem, conheci-o numa festa
e todos ficaram putos comigo
por eu não saber quem ele era
ou o que ele fazia.
ele era um cara bem bonito
e suponho que ele tenha ficado com ciúmes
por eu ser tão feio.
eles me disseram seu nome
e ele estava encostado contra a parede
parecendo bonito, e eu disse:
ei, Espanha, gosto desse nome: Espanha.
mas não gosto de você. por que não vamos
até o jardim para eu dar uma bica nesse seu
rabo?
isto deixou a anfitriã irritada
e ela foi em sua direção e lhe esfregou o pau
enquanto eu ia até o banheiro
e me aliviava.
mas todos estão brabos comigo
Bukowski, ele já não sabe escrever, está acabado.
vazio. vejam como ele bebe.
nunca teve o hábito de ir a festas.
agora vem às festas e bebe todas
e insulta aqueles que têm talento de verdade.
eu costumava ter admiração por ele quando cortou os pulsos
ou quando tentou se matar com
gás. olhem para ele agora secando aquela garota de 19
anos, e vocês sabem que ele
já não levanta.
eu não apenas queimei meus bagos naquele chuveiro
na última quarta-feira, eu me virei para escapar daquela água
fervente e queimei também o olho do
cu.
e queimei meus bagos
na última quarta-feira.
conheci este pintor chamado Espanha,
não, ele era um cartunista,
bem, conheci-o numa festa
e todos ficaram putos comigo
por eu não saber quem ele era
ou o que ele fazia.
ele era um cara bem bonito
e suponho que ele tenha ficado com ciúmes
por eu ser tão feio.
eles me disseram seu nome
e ele estava encostado contra a parede
parecendo bonito, e eu disse:
ei, Espanha, gosto desse nome: Espanha.
mas não gosto de você. por que não vamos
até o jardim para eu dar uma bica nesse seu
rabo?
isto deixou a anfitriã irritada
e ela foi em sua direção e lhe esfregou o pau
enquanto eu ia até o banheiro
e me aliviava.
mas todos estão brabos comigo
Bukowski, ele já não sabe escrever, está acabado.
vazio. vejam como ele bebe.
nunca teve o hábito de ir a festas.
agora vem às festas e bebe todas
e insulta aqueles que têm talento de verdade.
eu costumava ter admiração por ele quando cortou os pulsos
ou quando tentou se matar com
gás. olhem para ele agora secando aquela garota de 19
anos, e vocês sabem que ele
já não levanta.
eu não apenas queimei meus bagos naquele chuveiro
na última quarta-feira, eu me virei para escapar daquela água
fervente e queimei também o olho do
cu.
1 052
Charles Bukowski
Problema Com Espanha
entrei no chuveiro
e queimei meus bagos
na última quarta-feira.
conheci este pintor chamado Espanha,
não, ele era um cartunista,
bem, conheci-o numa festa
e todos ficaram putos comigo
por eu não saber quem ele era
ou o que ele fazia.
ele era um cara bem bonito
e suponho que ele tenha ficado com ciúmes
por eu ser tão feio.
eles me disseram seu nome
e ele estava encostado contra a parede
parecendo bonito, e eu disse:
ei, Espanha, gosto desse nome: Espanha.
mas não gosto de você. por que não vamos
até o jardim para eu dar uma bica nesse seu
rabo?
isto deixou a anfitriã irritada
e ela foi em sua direção e lhe esfregou o pau
enquanto eu ia até o banheiro
e me aliviava.
mas todos estão brabos comigo
Bukowski, ele já não sabe escrever, está acabado.
vazio. vejam como ele bebe.
nunca teve o hábito de ir a festas.
agora vem às festas e bebe todas
e insulta aqueles que têm talento de verdade.
eu costumava ter admiração por ele quando cortou os pulsos
ou quando tentou se matar com
gás. olhem para ele agora secando aquela garota de 19
anos, e vocês sabem que ele
já não levanta.
eu não apenas queimei meus bagos naquele chuveiro
na última quarta-feira, eu me virei para escapar daquela água
fervente e queimei também o olho do
cu.
e queimei meus bagos
na última quarta-feira.
conheci este pintor chamado Espanha,
não, ele era um cartunista,
bem, conheci-o numa festa
e todos ficaram putos comigo
por eu não saber quem ele era
ou o que ele fazia.
ele era um cara bem bonito
e suponho que ele tenha ficado com ciúmes
por eu ser tão feio.
eles me disseram seu nome
e ele estava encostado contra a parede
parecendo bonito, e eu disse:
ei, Espanha, gosto desse nome: Espanha.
mas não gosto de você. por que não vamos
até o jardim para eu dar uma bica nesse seu
rabo?
isto deixou a anfitriã irritada
e ela foi em sua direção e lhe esfregou o pau
enquanto eu ia até o banheiro
e me aliviava.
mas todos estão brabos comigo
Bukowski, ele já não sabe escrever, está acabado.
vazio. vejam como ele bebe.
nunca teve o hábito de ir a festas.
agora vem às festas e bebe todas
e insulta aqueles que têm talento de verdade.
eu costumava ter admiração por ele quando cortou os pulsos
ou quando tentou se matar com
gás. olhem para ele agora secando aquela garota de 19
anos, e vocês sabem que ele
já não levanta.
eu não apenas queimei meus bagos naquele chuveiro
na última quarta-feira, eu me virei para escapar daquela água
fervente e queimei também o olho do
cu.
1 052
Charles Bukowski
Vozes
1.
meu bigode está engomado
assim como minha peruca e minhas sobrancelhas
e até mesmo meus olhos...
então alguma coisa me atordoa...
o balanço da pantalha, escuto
borbulhos e mágica e
sons incríveis.
2.
sei que enlouqueci, quase como
um ato de teoria:
o perdido é encontrado
o doente se põe saudável
os não-criadores são os
criadores.
3.
mesmo que eu fosse um ser sofisticado, confortável
e domesticado jamais poderia beber o
sangue das massas e
chamá-lo de vinho.
4.
por que eu tinha que erguer o carro daquela
bela garota pelo para-choque porque o macaco emperrou?
fiquei entrevado
e eles me levaram como se eu fosse um pretzel e me ajeitaram
mas ainda assim não conseguia me mexer...
a culpa era do hospital, dos médicos.
então aqueles dois rapazes me largaram a caminho da
sala de raio X... eu gritei PROCESSO!
mas acho que a culpa era daquela garota –
ela não devia ter me mostrado toda aquela perna
e aquela bunda.
5.
escute, escute, BARROESPACIAL DO AMOR, DESPEDACE PINGUE,
BARROESPACIAL DO AMOR, AMOR, AMOR; MATE APRENDA A USAR UMA
ARMA; ÁREAS ABERTAS, PERCEBA, SEJA DIVINA, BARROESPACIAL
DO AMOR, ESTÁ SE aproximando...
6.
decolei de E.H. no meu primeiro romance,
tenho vivido numa boa desde então. é provável
que seja o melhor jornalista que a América já teve, posso
enrolar sobre qualquer assunto, e isso tem lá
seu valor. você me admira muito mais do que
o primeiro homem que encontra na rua
pela manhã. basicamente, no entanto, é um
fato, vivi durante uma era em que não há
escritores, então ganhei destaque
porque nada mais apareceu. ok,
é uma época ruim. suponho que eu seja o número
um. mas é um pouco diferente do tempo em que tínhamos
os gigantes a nos estimular. esqueça:
estou numa boa.
7.
eu era um mau escritor, matei N.C. porque fiz
dele mais do que ele era, e então os descolados
fizeram dos meus livros mais do que eles eram. havia
até então apenas 3 maus escritores na literatura americana
aceitável. Drieser, claro, foi o pior.
então tivemos Thomas Wolfe, e depois tivemos a mim. mas
quando tento escolher entre mim e Wolfe, tenho
que escolher Wolfe. digo, como o pior. gosto
de pensar no que Capote, outro mau escritor, disse
sobre mim: ele apenas datilografa. às vezes mesmo
maus escritores dizem a verdade.
8.
meu problema, como o da maioria, é o preciosismo artístico. eu
existo, cheio de batatas fritas e glória
e então eu olho em volta, vejo a forma da Arte, mergulho
nela e digo o quão excelente eu sou e o que penso.
este é o mesmo aborrecimento que quase des-
truiu a arte ao longo dos séculos. fiz uma vez uma gravação
de minha leitura dos meus poemas para um leão no zoológico. ele realmente
rugiu, como se estivesse sentindo dor. todos os poetas tocam
essa gravação e riem quando ficam bêbados.
9.
lembra-se do meu romance sobre a cadeia em que
fotos de heróis e de amantes flutuavam contra as
paredes de pedra?
eu me tornei famoso. cheguei até aqui.
me aborreço com os motociclistas negros do Valley
West e Bakersfield
que me tomaram a fama e a esmagaram
e me fizeram sorver sua demência e sua solidão
e seus sonhos de Cadillac alma branca e
Cadillac alma negra
e eles encheram meu rabo de creme
e minhas narinas e meus ouvidos
enquanto eu dizia, Comunismo, Comunismo
e eles escarneciam e sabiam que eu não falava a sério.
meu bigode está engomado
assim como minha peruca e minhas sobrancelhas
e até mesmo meus olhos...
então alguma coisa me atordoa...
o balanço da pantalha, escuto
borbulhos e mágica e
sons incríveis.
2.
sei que enlouqueci, quase como
um ato de teoria:
o perdido é encontrado
o doente se põe saudável
os não-criadores são os
criadores.
3.
mesmo que eu fosse um ser sofisticado, confortável
e domesticado jamais poderia beber o
sangue das massas e
chamá-lo de vinho.
4.
por que eu tinha que erguer o carro daquela
bela garota pelo para-choque porque o macaco emperrou?
fiquei entrevado
e eles me levaram como se eu fosse um pretzel e me ajeitaram
mas ainda assim não conseguia me mexer...
a culpa era do hospital, dos médicos.
então aqueles dois rapazes me largaram a caminho da
sala de raio X... eu gritei PROCESSO!
mas acho que a culpa era daquela garota –
ela não devia ter me mostrado toda aquela perna
e aquela bunda.
5.
escute, escute, BARROESPACIAL DO AMOR, DESPEDACE PINGUE,
BARROESPACIAL DO AMOR, AMOR, AMOR; MATE APRENDA A USAR UMA
ARMA; ÁREAS ABERTAS, PERCEBA, SEJA DIVINA, BARROESPACIAL
DO AMOR, ESTÁ SE aproximando...
6.
decolei de E.H. no meu primeiro romance,
tenho vivido numa boa desde então. é provável
que seja o melhor jornalista que a América já teve, posso
enrolar sobre qualquer assunto, e isso tem lá
seu valor. você me admira muito mais do que
o primeiro homem que encontra na rua
pela manhã. basicamente, no entanto, é um
fato, vivi durante uma era em que não há
escritores, então ganhei destaque
porque nada mais apareceu. ok,
é uma época ruim. suponho que eu seja o número
um. mas é um pouco diferente do tempo em que tínhamos
os gigantes a nos estimular. esqueça:
estou numa boa.
7.
eu era um mau escritor, matei N.C. porque fiz
dele mais do que ele era, e então os descolados
fizeram dos meus livros mais do que eles eram. havia
até então apenas 3 maus escritores na literatura americana
aceitável. Drieser, claro, foi o pior.
então tivemos Thomas Wolfe, e depois tivemos a mim. mas
quando tento escolher entre mim e Wolfe, tenho
que escolher Wolfe. digo, como o pior. gosto
de pensar no que Capote, outro mau escritor, disse
sobre mim: ele apenas datilografa. às vezes mesmo
maus escritores dizem a verdade.
8.
meu problema, como o da maioria, é o preciosismo artístico. eu
existo, cheio de batatas fritas e glória
e então eu olho em volta, vejo a forma da Arte, mergulho
nela e digo o quão excelente eu sou e o que penso.
este é o mesmo aborrecimento que quase des-
truiu a arte ao longo dos séculos. fiz uma vez uma gravação
de minha leitura dos meus poemas para um leão no zoológico. ele realmente
rugiu, como se estivesse sentindo dor. todos os poetas tocam
essa gravação e riem quando ficam bêbados.
9.
lembra-se do meu romance sobre a cadeia em que
fotos de heróis e de amantes flutuavam contra as
paredes de pedra?
eu me tornei famoso. cheguei até aqui.
me aborreço com os motociclistas negros do Valley
West e Bakersfield
que me tomaram a fama e a esmagaram
e me fizeram sorver sua demência e sua solidão
e seus sonhos de Cadillac alma branca e
Cadillac alma negra
e eles encheram meu rabo de creme
e minhas narinas e meus ouvidos
enquanto eu dizia, Comunismo, Comunismo
e eles escarneciam e sabiam que eu não falava a sério.
861
Charles Bukowski
Vozes
1.
meu bigode está engomado
assim como minha peruca e minhas sobrancelhas
e até mesmo meus olhos...
então alguma coisa me atordoa...
o balanço da pantalha, escuto
borbulhos e mágica e
sons incríveis.
2.
sei que enlouqueci, quase como
um ato de teoria:
o perdido é encontrado
o doente se põe saudável
os não-criadores são os
criadores.
3.
mesmo que eu fosse um ser sofisticado, confortável
e domesticado jamais poderia beber o
sangue das massas e
chamá-lo de vinho.
4.
por que eu tinha que erguer o carro daquela
bela garota pelo para-choque porque o macaco emperrou?
fiquei entrevado
e eles me levaram como se eu fosse um pretzel e me ajeitaram
mas ainda assim não conseguia me mexer...
a culpa era do hospital, dos médicos.
então aqueles dois rapazes me largaram a caminho da
sala de raio X... eu gritei PROCESSO!
mas acho que a culpa era daquela garota –
ela não devia ter me mostrado toda aquela perna
e aquela bunda.
5.
escute, escute, BARROESPACIAL DO AMOR, DESPEDACE PINGUE,
BARROESPACIAL DO AMOR, AMOR, AMOR; MATE APRENDA A USAR UMA
ARMA; ÁREAS ABERTAS, PERCEBA, SEJA DIVINA, BARROESPACIAL
DO AMOR, ESTÁ SE aproximando...
6.
decolei de E.H. no meu primeiro romance,
tenho vivido numa boa desde então. é provável
que seja o melhor jornalista que a América já teve, posso
enrolar sobre qualquer assunto, e isso tem lá
seu valor. você me admira muito mais do que
o primeiro homem que encontra na rua
pela manhã. basicamente, no entanto, é um
fato, vivi durante uma era em que não há
escritores, então ganhei destaque
porque nada mais apareceu. ok,
é uma época ruim. suponho que eu seja o número
um. mas é um pouco diferente do tempo em que tínhamos
os gigantes a nos estimular. esqueça:
estou numa boa.
7.
eu era um mau escritor, matei N.C. porque fiz
dele mais do que ele era, e então os descolados
fizeram dos meus livros mais do que eles eram. havia
até então apenas 3 maus escritores na literatura americana
aceitável. Drieser, claro, foi o pior.
então tivemos Thomas Wolfe, e depois tivemos a mim. mas
quando tento escolher entre mim e Wolfe, tenho
que escolher Wolfe. digo, como o pior. gosto
de pensar no que Capote, outro mau escritor, disse
sobre mim: ele apenas datilografa. às vezes mesmo
maus escritores dizem a verdade.
8.
meu problema, como o da maioria, é o preciosismo artístico. eu
existo, cheio de batatas fritas e glória
e então eu olho em volta, vejo a forma da Arte, mergulho
nela e digo o quão excelente eu sou e o que penso.
este é o mesmo aborrecimento que quase des-
truiu a arte ao longo dos séculos. fiz uma vez uma gravação
de minha leitura dos meus poemas para um leão no zoológico. ele realmente
rugiu, como se estivesse sentindo dor. todos os poetas tocam
essa gravação e riem quando ficam bêbados.
9.
lembra-se do meu romance sobre a cadeia em que
fotos de heróis e de amantes flutuavam contra as
paredes de pedra?
eu me tornei famoso. cheguei até aqui.
me aborreço com os motociclistas negros do Valley
West e Bakersfield
que me tomaram a fama e a esmagaram
e me fizeram sorver sua demência e sua solidão
e seus sonhos de Cadillac alma branca e
Cadillac alma negra
e eles encheram meu rabo de creme
e minhas narinas e meus ouvidos
enquanto eu dizia, Comunismo, Comunismo
e eles escarneciam e sabiam que eu não falava a sério.
meu bigode está engomado
assim como minha peruca e minhas sobrancelhas
e até mesmo meus olhos...
então alguma coisa me atordoa...
o balanço da pantalha, escuto
borbulhos e mágica e
sons incríveis.
2.
sei que enlouqueci, quase como
um ato de teoria:
o perdido é encontrado
o doente se põe saudável
os não-criadores são os
criadores.
3.
mesmo que eu fosse um ser sofisticado, confortável
e domesticado jamais poderia beber o
sangue das massas e
chamá-lo de vinho.
4.
por que eu tinha que erguer o carro daquela
bela garota pelo para-choque porque o macaco emperrou?
fiquei entrevado
e eles me levaram como se eu fosse um pretzel e me ajeitaram
mas ainda assim não conseguia me mexer...
a culpa era do hospital, dos médicos.
então aqueles dois rapazes me largaram a caminho da
sala de raio X... eu gritei PROCESSO!
mas acho que a culpa era daquela garota –
ela não devia ter me mostrado toda aquela perna
e aquela bunda.
5.
escute, escute, BARROESPACIAL DO AMOR, DESPEDACE PINGUE,
BARROESPACIAL DO AMOR, AMOR, AMOR; MATE APRENDA A USAR UMA
ARMA; ÁREAS ABERTAS, PERCEBA, SEJA DIVINA, BARROESPACIAL
DO AMOR, ESTÁ SE aproximando...
6.
decolei de E.H. no meu primeiro romance,
tenho vivido numa boa desde então. é provável
que seja o melhor jornalista que a América já teve, posso
enrolar sobre qualquer assunto, e isso tem lá
seu valor. você me admira muito mais do que
o primeiro homem que encontra na rua
pela manhã. basicamente, no entanto, é um
fato, vivi durante uma era em que não há
escritores, então ganhei destaque
porque nada mais apareceu. ok,
é uma época ruim. suponho que eu seja o número
um. mas é um pouco diferente do tempo em que tínhamos
os gigantes a nos estimular. esqueça:
estou numa boa.
7.
eu era um mau escritor, matei N.C. porque fiz
dele mais do que ele era, e então os descolados
fizeram dos meus livros mais do que eles eram. havia
até então apenas 3 maus escritores na literatura americana
aceitável. Drieser, claro, foi o pior.
então tivemos Thomas Wolfe, e depois tivemos a mim. mas
quando tento escolher entre mim e Wolfe, tenho
que escolher Wolfe. digo, como o pior. gosto
de pensar no que Capote, outro mau escritor, disse
sobre mim: ele apenas datilografa. às vezes mesmo
maus escritores dizem a verdade.
8.
meu problema, como o da maioria, é o preciosismo artístico. eu
existo, cheio de batatas fritas e glória
e então eu olho em volta, vejo a forma da Arte, mergulho
nela e digo o quão excelente eu sou e o que penso.
este é o mesmo aborrecimento que quase des-
truiu a arte ao longo dos séculos. fiz uma vez uma gravação
de minha leitura dos meus poemas para um leão no zoológico. ele realmente
rugiu, como se estivesse sentindo dor. todos os poetas tocam
essa gravação e riem quando ficam bêbados.
9.
lembra-se do meu romance sobre a cadeia em que
fotos de heróis e de amantes flutuavam contra as
paredes de pedra?
eu me tornei famoso. cheguei até aqui.
me aborreço com os motociclistas negros do Valley
West e Bakersfield
que me tomaram a fama e a esmagaram
e me fizeram sorver sua demência e sua solidão
e seus sonhos de Cadillac alma branca e
Cadillac alma negra
e eles encheram meu rabo de creme
e minhas narinas e meus ouvidos
enquanto eu dizia, Comunismo, Comunismo
e eles escarneciam e sabiam que eu não falava a sério.
861
Charles Bukowski
Vozes
1.
meu bigode está engomado
assim como minha peruca e minhas sobrancelhas
e até mesmo meus olhos...
então alguma coisa me atordoa...
o balanço da pantalha, escuto
borbulhos e mágica e
sons incríveis.
2.
sei que enlouqueci, quase como
um ato de teoria:
o perdido é encontrado
o doente se põe saudável
os não-criadores são os
criadores.
3.
mesmo que eu fosse um ser sofisticado, confortável
e domesticado jamais poderia beber o
sangue das massas e
chamá-lo de vinho.
4.
por que eu tinha que erguer o carro daquela
bela garota pelo para-choque porque o macaco emperrou?
fiquei entrevado
e eles me levaram como se eu fosse um pretzel e me ajeitaram
mas ainda assim não conseguia me mexer...
a culpa era do hospital, dos médicos.
então aqueles dois rapazes me largaram a caminho da
sala de raio X... eu gritei PROCESSO!
mas acho que a culpa era daquela garota –
ela não devia ter me mostrado toda aquela perna
e aquela bunda.
5.
escute, escute, BARROESPACIAL DO AMOR, DESPEDACE PINGUE,
BARROESPACIAL DO AMOR, AMOR, AMOR; MATE APRENDA A USAR UMA
ARMA; ÁREAS ABERTAS, PERCEBA, SEJA DIVINA, BARROESPACIAL
DO AMOR, ESTÁ SE aproximando...
6.
decolei de E.H. no meu primeiro romance,
tenho vivido numa boa desde então. é provável
que seja o melhor jornalista que a América já teve, posso
enrolar sobre qualquer assunto, e isso tem lá
seu valor. você me admira muito mais do que
o primeiro homem que encontra na rua
pela manhã. basicamente, no entanto, é um
fato, vivi durante uma era em que não há
escritores, então ganhei destaque
porque nada mais apareceu. ok,
é uma época ruim. suponho que eu seja o número
um. mas é um pouco diferente do tempo em que tínhamos
os gigantes a nos estimular. esqueça:
estou numa boa.
7.
eu era um mau escritor, matei N.C. porque fiz
dele mais do que ele era, e então os descolados
fizeram dos meus livros mais do que eles eram. havia
até então apenas 3 maus escritores na literatura americana
aceitável. Drieser, claro, foi o pior.
então tivemos Thomas Wolfe, e depois tivemos a mim. mas
quando tento escolher entre mim e Wolfe, tenho
que escolher Wolfe. digo, como o pior. gosto
de pensar no que Capote, outro mau escritor, disse
sobre mim: ele apenas datilografa. às vezes mesmo
maus escritores dizem a verdade.
8.
meu problema, como o da maioria, é o preciosismo artístico. eu
existo, cheio de batatas fritas e glória
e então eu olho em volta, vejo a forma da Arte, mergulho
nela e digo o quão excelente eu sou e o que penso.
este é o mesmo aborrecimento que quase des-
truiu a arte ao longo dos séculos. fiz uma vez uma gravação
de minha leitura dos meus poemas para um leão no zoológico. ele realmente
rugiu, como se estivesse sentindo dor. todos os poetas tocam
essa gravação e riem quando ficam bêbados.
9.
lembra-se do meu romance sobre a cadeia em que
fotos de heróis e de amantes flutuavam contra as
paredes de pedra?
eu me tornei famoso. cheguei até aqui.
me aborreço com os motociclistas negros do Valley
West e Bakersfield
que me tomaram a fama e a esmagaram
e me fizeram sorver sua demência e sua solidão
e seus sonhos de Cadillac alma branca e
Cadillac alma negra
e eles encheram meu rabo de creme
e minhas narinas e meus ouvidos
enquanto eu dizia, Comunismo, Comunismo
e eles escarneciam e sabiam que eu não falava a sério.
meu bigode está engomado
assim como minha peruca e minhas sobrancelhas
e até mesmo meus olhos...
então alguma coisa me atordoa...
o balanço da pantalha, escuto
borbulhos e mágica e
sons incríveis.
2.
sei que enlouqueci, quase como
um ato de teoria:
o perdido é encontrado
o doente se põe saudável
os não-criadores são os
criadores.
3.
mesmo que eu fosse um ser sofisticado, confortável
e domesticado jamais poderia beber o
sangue das massas e
chamá-lo de vinho.
4.
por que eu tinha que erguer o carro daquela
bela garota pelo para-choque porque o macaco emperrou?
fiquei entrevado
e eles me levaram como se eu fosse um pretzel e me ajeitaram
mas ainda assim não conseguia me mexer...
a culpa era do hospital, dos médicos.
então aqueles dois rapazes me largaram a caminho da
sala de raio X... eu gritei PROCESSO!
mas acho que a culpa era daquela garota –
ela não devia ter me mostrado toda aquela perna
e aquela bunda.
5.
escute, escute, BARROESPACIAL DO AMOR, DESPEDACE PINGUE,
BARROESPACIAL DO AMOR, AMOR, AMOR; MATE APRENDA A USAR UMA
ARMA; ÁREAS ABERTAS, PERCEBA, SEJA DIVINA, BARROESPACIAL
DO AMOR, ESTÁ SE aproximando...
6.
decolei de E.H. no meu primeiro romance,
tenho vivido numa boa desde então. é provável
que seja o melhor jornalista que a América já teve, posso
enrolar sobre qualquer assunto, e isso tem lá
seu valor. você me admira muito mais do que
o primeiro homem que encontra na rua
pela manhã. basicamente, no entanto, é um
fato, vivi durante uma era em que não há
escritores, então ganhei destaque
porque nada mais apareceu. ok,
é uma época ruim. suponho que eu seja o número
um. mas é um pouco diferente do tempo em que tínhamos
os gigantes a nos estimular. esqueça:
estou numa boa.
7.
eu era um mau escritor, matei N.C. porque fiz
dele mais do que ele era, e então os descolados
fizeram dos meus livros mais do que eles eram. havia
até então apenas 3 maus escritores na literatura americana
aceitável. Drieser, claro, foi o pior.
então tivemos Thomas Wolfe, e depois tivemos a mim. mas
quando tento escolher entre mim e Wolfe, tenho
que escolher Wolfe. digo, como o pior. gosto
de pensar no que Capote, outro mau escritor, disse
sobre mim: ele apenas datilografa. às vezes mesmo
maus escritores dizem a verdade.
8.
meu problema, como o da maioria, é o preciosismo artístico. eu
existo, cheio de batatas fritas e glória
e então eu olho em volta, vejo a forma da Arte, mergulho
nela e digo o quão excelente eu sou e o que penso.
este é o mesmo aborrecimento que quase des-
truiu a arte ao longo dos séculos. fiz uma vez uma gravação
de minha leitura dos meus poemas para um leão no zoológico. ele realmente
rugiu, como se estivesse sentindo dor. todos os poetas tocam
essa gravação e riem quando ficam bêbados.
9.
lembra-se do meu romance sobre a cadeia em que
fotos de heróis e de amantes flutuavam contra as
paredes de pedra?
eu me tornei famoso. cheguei até aqui.
me aborreço com os motociclistas negros do Valley
West e Bakersfield
que me tomaram a fama e a esmagaram
e me fizeram sorver sua demência e sua solidão
e seus sonhos de Cadillac alma branca e
Cadillac alma negra
e eles encheram meu rabo de creme
e minhas narinas e meus ouvidos
enquanto eu dizia, Comunismo, Comunismo
e eles escarneciam e sabiam que eu não falava a sério.
861
Charles Bukowski
A Massa Solar: Alma: Gênese E Geotropismo:
permitam-me agora tentar
atenuar a grandeza laríngea de Veechy:
pois que homem do tempo poderia ter
dito:
“Espiões, Espadas, Espinhos – externo extrapsino.
Oósporo aguilhão do ofito opino.”
Bigorna!
e isso foi antes de
Pound, Olson, Williams, John
Muir.
“Planos planímetros planifólios!”, certa vez ele me
escreveu.
“Pelas barbas da rocha quinquangular”, retorqui
eu, “acertou em cheio!”
eu o visitei na Itália no Dia de Todos os Tolos
e sua autoridade nos pulvilos pontilhados
nunca me deixou em dúvida
umbrosa.
“Trépano”, ele disse, “ode – uíste! – fragrantes astrágalos.”
foi a última vez. que. o vi. Veechy tinha
embocaduras brasonadas, criptônimos, drosômetros;
que o favoso favor dele
ressoe pela ruma,
rubefaciente, causando também o ruído na
rutabaga.
atenuar a grandeza laríngea de Veechy:
pois que homem do tempo poderia ter
dito:
“Espiões, Espadas, Espinhos – externo extrapsino.
Oósporo aguilhão do ofito opino.”
Bigorna!
e isso foi antes de
Pound, Olson, Williams, John
Muir.
“Planos planímetros planifólios!”, certa vez ele me
escreveu.
“Pelas barbas da rocha quinquangular”, retorqui
eu, “acertou em cheio!”
eu o visitei na Itália no Dia de Todos os Tolos
e sua autoridade nos pulvilos pontilhados
nunca me deixou em dúvida
umbrosa.
“Trépano”, ele disse, “ode – uíste! – fragrantes astrágalos.”
foi a última vez. que. o vi. Veechy tinha
embocaduras brasonadas, criptônimos, drosômetros;
que o favoso favor dele
ressoe pela ruma,
rubefaciente, causando também o ruído na
rutabaga.
715
Charles Bukowski
Canção de Amor
eu comi a sua xota como um pêssego,
engoli a semente
a lanugem,
trancado entre as suas pernas
eu chupei e mastiguei e lambi e
engoli você,
senti o seu corpo todo se sacudindo e retorcendo como
um corpo
metralhado
e eu moldei minha língua numa ponta
e os sucos desceram escorrendo
e eu engoli
enlouquecido
e chupei suas entranhas todas para fora –
sua xota inteira chupada pra dentro da minha boca
eu mordi
eu mordi
e engoli
e você também
ficou louca
e me afastei e beijei
então sua barriga
seu umbigo
então deslizei de volta para dentro de suas pernas de flor branca
e beijei e mordi e
mordisquei,
o tempo todo
mais uma vez
os fabulosos pelos da xota
acenando e acenando
e fico afastado pelo máximo tempo suportável
então me joguei na coisa
chupando e lambendo,
pelos na minha alma
xota na minha alma
você na minha alma
numa cama milagrosa
com crianças gritando lá fora
enquanto andam de patins
bicicletas às
5 da tarde
nessa maravilhosa hora das
5 da tarde
todos os poemas de amor foram escritos:
minha língua penetrou sua xota e sua alma
e a colcha azul estava lá
e as crianças no beco
e aquilo cantava e cantava e cantava e
cantava.
engoli a semente
a lanugem,
trancado entre as suas pernas
eu chupei e mastiguei e lambi e
engoli você,
senti o seu corpo todo se sacudindo e retorcendo como
um corpo
metralhado
e eu moldei minha língua numa ponta
e os sucos desceram escorrendo
e eu engoli
enlouquecido
e chupei suas entranhas todas para fora –
sua xota inteira chupada pra dentro da minha boca
eu mordi
eu mordi
e engoli
e você também
ficou louca
e me afastei e beijei
então sua barriga
seu umbigo
então deslizei de volta para dentro de suas pernas de flor branca
e beijei e mordi e
mordisquei,
o tempo todo
mais uma vez
os fabulosos pelos da xota
acenando e acenando
e fico afastado pelo máximo tempo suportável
então me joguei na coisa
chupando e lambendo,
pelos na minha alma
xota na minha alma
você na minha alma
numa cama milagrosa
com crianças gritando lá fora
enquanto andam de patins
bicicletas às
5 da tarde
nessa maravilhosa hora das
5 da tarde
todos os poemas de amor foram escritos:
minha língua penetrou sua xota e sua alma
e a colcha azul estava lá
e as crianças no beco
e aquilo cantava e cantava e cantava e
cantava.
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