Poemas neste tema
Outros
Charles Bukowski
Incapazes de Sonhar
velhas e grisalhas garçonetes
à noite nos cafés
já desistiram,
e enquanto eu avanço por calçadas
luminosas e olho através das janelas
das casas de repouso
posso ver que alguma coisa não está mais
com eles.
vejo pessoas sentadas nos bancos dos parques
e posso ver pelo modo como
sentam e olham
que essa coisa se foi.
vejo pessoas dirigindo carros
e vejo pelo modo como
dirigem seus carros
que eles não amam nem sequer são
amados –
nem levam o sexo em
consideração. está tudo apagado
feito um filme antigo.
vejo pessoas em lojas de departamento e
supermercados
caminhando pelos corredores
comprando coisas
e posso ver pelo jeito como vestem suas
roupas e pelo modo como caminham
e por seus rostos e olhos
que não se importam com nada
e que nada se importa
com eles.
posso ver umas cem pessoas por dia
que desistiram de tudo
completamente.
se vou até o hipódromo
ou a um evento esportivo
posso ver milhares
que não têm apreço por nada ou
ninguém
e não obtêm nenhum sentimento
em troca.
em toda parte eu vejo aqueles
implorando por nada além de
comida, abrigo, e
roupas; eles se concentram
nisso,
incapazes de sonhar.
não consigo entender por que essas pessoas não
desaparecem
não consigo entender por que essas pessoas não
expiram
por que as nuvens
não os assassinam
ou por que os cães
não os assassinam
ou por que as flores e as crianças
não os assassinam,
não consigo entender.
suponho que eles sejam assassinados
ainda que não consiga me adequar
ao fato deles
porque eles são
muitos.
a cada dia,
a cada noite,
há mais deles
nos metrôs e
nos prédios e
nos parques
eles não sentem nenhum terror
por não amarem
ou não
serem amados
tantos tantos tantos
de meus camaradas
humanos.
à noite nos cafés
já desistiram,
e enquanto eu avanço por calçadas
luminosas e olho através das janelas
das casas de repouso
posso ver que alguma coisa não está mais
com eles.
vejo pessoas sentadas nos bancos dos parques
e posso ver pelo modo como
sentam e olham
que essa coisa se foi.
vejo pessoas dirigindo carros
e vejo pelo modo como
dirigem seus carros
que eles não amam nem sequer são
amados –
nem levam o sexo em
consideração. está tudo apagado
feito um filme antigo.
vejo pessoas em lojas de departamento e
supermercados
caminhando pelos corredores
comprando coisas
e posso ver pelo jeito como vestem suas
roupas e pelo modo como caminham
e por seus rostos e olhos
que não se importam com nada
e que nada se importa
com eles.
posso ver umas cem pessoas por dia
que desistiram de tudo
completamente.
se vou até o hipódromo
ou a um evento esportivo
posso ver milhares
que não têm apreço por nada ou
ninguém
e não obtêm nenhum sentimento
em troca.
em toda parte eu vejo aqueles
implorando por nada além de
comida, abrigo, e
roupas; eles se concentram
nisso,
incapazes de sonhar.
não consigo entender por que essas pessoas não
desaparecem
não consigo entender por que essas pessoas não
expiram
por que as nuvens
não os assassinam
ou por que os cães
não os assassinam
ou por que as flores e as crianças
não os assassinam,
não consigo entender.
suponho que eles sejam assassinados
ainda que não consiga me adequar
ao fato deles
porque eles são
muitos.
a cada dia,
a cada noite,
há mais deles
nos metrôs e
nos prédios e
nos parques
eles não sentem nenhum terror
por não amarem
ou não
serem amados
tantos tantos tantos
de meus camaradas
humanos.
1 106
Charles Bukowski
Direto Sem Parar
eu estou
suspenso por um prego
o sol derrete meu coração
eu estou
irmanado com a serpente
e tenho medo de quedas d’água
eu tenho
medo de mulheres e cercas vivas
a polícia me para e
me diz
enquanto as árvores se curvam ao vento
(estou de ressaca) que meu escapamento está furado e
minha ventarola não abre
e o farol da luz de ré está quebrado.
eu não tenho luz de ré,
assino a multa e me sinto grato,
já dentro,
que eles não tenham feito o que estou
pensando
a tristeza pinga como grandes gotas de água
num poço envenenado até a metade,
sei que minhas chances se afunilaram a ponto de chegar a
quase nada –
sou como um inseto no banheiro quando você acende o
interruptor às 3 da manhã.
o amor, por fim, como um pano de chão enfiado goela
abaixo, retratos de alegria
convertidos em clipes para papel, você
sabe você sabe você sabe.
uma vez que você tenha entendido este processo (o que você
precisa entender
é
que a maior parte das coisas
simplesmente não funciona, então
você não deve tentar
salvá-las, e ao tempo em que você aprender isto
seus anos já terão
rareado) – uma que tenha entendido este processo
você precisa ser queimado apenas 2 ou 3 vezes mais
antes que eles o transformem em entulho, e
é importante saber isso –
pare de ser tão fodidamente rápido com suas
respostinhas e relaxe –
você está prestes a ser liquidado, também, assim
como eu. não há motivo para
vergonha. posso entrar em qualquer bar e
pedir um uísque e água,
pagar,
e colocar a mão em volta do copo,
eles não sabem, eles não sabem,
nada sobre você nem sobre mim,
estarão todos falando sobre futebol e
sobre o tempo e sobre a crise energética,
e nossas mãos buscarão
o espelho observando as mãos
e então beberemos tudo –
Jane, Barbara, Frances, Linda, Liza, Stella,
o chinelo de couro marrom do pai
virado para baixo no banheiro,
cachorros mortos e sem nome,
o jornal de amanhã,
a água fervendo para fora do radiador numa
tarde de quinta-feira, queimando seu braço
até metade da distância do cotovelo, e sem ser sequer
capaz de se irritar com a dor,
arreganhando os dentes para os vencedores
arreganhando os dentes para o cara que trepa com sua garota
enquanto você está bêbado ou longe
e arreganhando os dentes para a garota que permite isso.
as rosas uivam
ao vento ameno,
já dissemos
as coisas necessárias, e
sair é a próxima, mas eu só gostaria
de dizer
não importa o que eles tenham dito
eu nunca me emputeci
com nada.
suspenso por um prego
o sol derrete meu coração
eu estou
irmanado com a serpente
e tenho medo de quedas d’água
eu tenho
medo de mulheres e cercas vivas
a polícia me para e
me diz
enquanto as árvores se curvam ao vento
(estou de ressaca) que meu escapamento está furado e
minha ventarola não abre
e o farol da luz de ré está quebrado.
eu não tenho luz de ré,
assino a multa e me sinto grato,
já dentro,
que eles não tenham feito o que estou
pensando
a tristeza pinga como grandes gotas de água
num poço envenenado até a metade,
sei que minhas chances se afunilaram a ponto de chegar a
quase nada –
sou como um inseto no banheiro quando você acende o
interruptor às 3 da manhã.
o amor, por fim, como um pano de chão enfiado goela
abaixo, retratos de alegria
convertidos em clipes para papel, você
sabe você sabe você sabe.
uma vez que você tenha entendido este processo (o que você
precisa entender
é
que a maior parte das coisas
simplesmente não funciona, então
você não deve tentar
salvá-las, e ao tempo em que você aprender isto
seus anos já terão
rareado) – uma que tenha entendido este processo
você precisa ser queimado apenas 2 ou 3 vezes mais
antes que eles o transformem em entulho, e
é importante saber isso –
pare de ser tão fodidamente rápido com suas
respostinhas e relaxe –
você está prestes a ser liquidado, também, assim
como eu. não há motivo para
vergonha. posso entrar em qualquer bar e
pedir um uísque e água,
pagar,
e colocar a mão em volta do copo,
eles não sabem, eles não sabem,
nada sobre você nem sobre mim,
estarão todos falando sobre futebol e
sobre o tempo e sobre a crise energética,
e nossas mãos buscarão
o espelho observando as mãos
e então beberemos tudo –
Jane, Barbara, Frances, Linda, Liza, Stella,
o chinelo de couro marrom do pai
virado para baixo no banheiro,
cachorros mortos e sem nome,
o jornal de amanhã,
a água fervendo para fora do radiador numa
tarde de quinta-feira, queimando seu braço
até metade da distância do cotovelo, e sem ser sequer
capaz de se irritar com a dor,
arreganhando os dentes para os vencedores
arreganhando os dentes para o cara que trepa com sua garota
enquanto você está bêbado ou longe
e arreganhando os dentes para a garota que permite isso.
as rosas uivam
ao vento ameno,
já dissemos
as coisas necessárias, e
sair é a próxima, mas eu só gostaria
de dizer
não importa o que eles tenham dito
eu nunca me emputeci
com nada.
1 100
Charles Bukowski
Abundância Sobre a Terra
todos esses aí,
abundância sobre a terra,
dando aula de inglês nas universidades
e escrevendo
poesia
sem perna
sem cabeça
sem umbigo
sabendo onde se candidatar para
bolsas e
ganhando as bolsas e
mais bolsas
e escrevendo mais
poesia
sem mão
sem cabelo
sem olho
todos esses aí,
abundância sobre a terra,
encontraram um esconderijo
e conquistaram até mesmo esposas para
atrelar a suas bobas
almas
esses aí
fazem viagens pagas
às ilhas
à Europa
Paris
qualquer lugar
com o propósito
segundo se diz
de colher
material
(para o México eles simplesmente correm por conta própria)
enquanto as cadeias estão superlotadas com os
inocentes extraviados
enquanto os trabalhadores braçais descem
nas minas
enquanto filhos idiotas dos pobres
são demitidos de empregos nos quais
esses aí
jamais sujariam suas mãos e
almas
esses aí,
abundância sobre a terra,
se juntam nas universidades
leem seus poemas uns
para os outros
leem seus poemas para
os estudantes
esses aí
fingem sabedoria e
imortalidade
controlam as publicações
abundância sobre a terra
enquanto se formam as filas nas prisões para semijantares
enquanto 34 trabalhadores braçais estão presos numa
mina
esses aí
embarcam num navio para uma ilha do mar do sul
para compilar uma antologia
poética dos
amigos
e/ou
aparecem em manifestações antiguerra
sem sequer fazer ideia
do significado de qualquer espécie
de guerra
abundância sobre a terra
eles estão desenhando um mapa da nossa
cultura –
uma divisão do zero,
uma multiplicação de
despropositada
graça
“Robert Hunkerford dá aula de inglês na
S.U. Casado. 2 filhos, cão de estimação.
Esta é sua primeira coletânea de
versos. Trabalha atualmente numa
tradução dos poemas de
Vallejo. O sr. Hunkerford foi agraciado
com um Sol Stein no ano passado.”
esses aí,
abundância sobre a terra,
dando aula de inglês nas universidades
e escrevendo
poesia
sem pescoço
sem mão
sem colhões
esse é o modo e o costume
e o motivo pelo qual as pessoas
não entendem
as ruas
o verso
a guerra
ou
suas mãos sobre a
mesa
nossa cultura está escondida nos sonhos rendados de
nossas aulas de inglês
nos vestidos rendados de nossas aulas
de inglês
aulas americanas,
é disso que precisamos,
e poetas americanos
das minas
das docas
das fábricas
das cadeias
dos hospitais
dos bares
dos navios
das usinas siderúrgicas.
poetas americanos,
desertores de exércitos
desertores de manicômios
desertores de esposas e vidas sufocantes;
poetas americanos:
sorveteiros, vendedores de gravata, jornaleiros de esquina,
armazenistas, estoquistas, mensageiros,
cafetões, operadores de elevador, encanadores, dentistas, palhaços, passeadores
de cavalos, jóqueis, assassinos (temos ouvido falar dos
assassinados), barbeiros, mecânicos, garçons, carregadores de hotel,
traficantes, pugilistas, bartenders, outros outros
outros
até que estes apareçam
nossa terra permanecerá
morta e envergonhada
a cabeça guilhotinada
e falando aos estudantes
na aula de Inglês II
essa é a sua cultura
mas não a
minha.
abundância sobre a terra,
dando aula de inglês nas universidades
e escrevendo
poesia
sem perna
sem cabeça
sem umbigo
sabendo onde se candidatar para
bolsas e
ganhando as bolsas e
mais bolsas
e escrevendo mais
poesia
sem mão
sem cabelo
sem olho
todos esses aí,
abundância sobre a terra,
encontraram um esconderijo
e conquistaram até mesmo esposas para
atrelar a suas bobas
almas
esses aí
fazem viagens pagas
às ilhas
à Europa
Paris
qualquer lugar
com o propósito
segundo se diz
de colher
material
(para o México eles simplesmente correm por conta própria)
enquanto as cadeias estão superlotadas com os
inocentes extraviados
enquanto os trabalhadores braçais descem
nas minas
enquanto filhos idiotas dos pobres
são demitidos de empregos nos quais
esses aí
jamais sujariam suas mãos e
almas
esses aí,
abundância sobre a terra,
se juntam nas universidades
leem seus poemas uns
para os outros
leem seus poemas para
os estudantes
esses aí
fingem sabedoria e
imortalidade
controlam as publicações
abundância sobre a terra
enquanto se formam as filas nas prisões para semijantares
enquanto 34 trabalhadores braçais estão presos numa
mina
esses aí
embarcam num navio para uma ilha do mar do sul
para compilar uma antologia
poética dos
amigos
e/ou
aparecem em manifestações antiguerra
sem sequer fazer ideia
do significado de qualquer espécie
de guerra
abundância sobre a terra
eles estão desenhando um mapa da nossa
cultura –
uma divisão do zero,
uma multiplicação de
despropositada
graça
“Robert Hunkerford dá aula de inglês na
S.U. Casado. 2 filhos, cão de estimação.
Esta é sua primeira coletânea de
versos. Trabalha atualmente numa
tradução dos poemas de
Vallejo. O sr. Hunkerford foi agraciado
com um Sol Stein no ano passado.”
esses aí,
abundância sobre a terra,
dando aula de inglês nas universidades
e escrevendo
poesia
sem pescoço
sem mão
sem colhões
esse é o modo e o costume
e o motivo pelo qual as pessoas
não entendem
as ruas
o verso
a guerra
ou
suas mãos sobre a
mesa
nossa cultura está escondida nos sonhos rendados de
nossas aulas de inglês
nos vestidos rendados de nossas aulas
de inglês
aulas americanas,
é disso que precisamos,
e poetas americanos
das minas
das docas
das fábricas
das cadeias
dos hospitais
dos bares
dos navios
das usinas siderúrgicas.
poetas americanos,
desertores de exércitos
desertores de manicômios
desertores de esposas e vidas sufocantes;
poetas americanos:
sorveteiros, vendedores de gravata, jornaleiros de esquina,
armazenistas, estoquistas, mensageiros,
cafetões, operadores de elevador, encanadores, dentistas, palhaços, passeadores
de cavalos, jóqueis, assassinos (temos ouvido falar dos
assassinados), barbeiros, mecânicos, garçons, carregadores de hotel,
traficantes, pugilistas, bartenders, outros outros
outros
até que estes apareçam
nossa terra permanecerá
morta e envergonhada
a cabeça guilhotinada
e falando aos estudantes
na aula de Inglês II
essa é a sua cultura
mas não a
minha.
737
Charles Bukowski
Abundância Sobre a Terra
todos esses aí,
abundância sobre a terra,
dando aula de inglês nas universidades
e escrevendo
poesia
sem perna
sem cabeça
sem umbigo
sabendo onde se candidatar para
bolsas e
ganhando as bolsas e
mais bolsas
e escrevendo mais
poesia
sem mão
sem cabelo
sem olho
todos esses aí,
abundância sobre a terra,
encontraram um esconderijo
e conquistaram até mesmo esposas para
atrelar a suas bobas
almas
esses aí
fazem viagens pagas
às ilhas
à Europa
Paris
qualquer lugar
com o propósito
segundo se diz
de colher
material
(para o México eles simplesmente correm por conta própria)
enquanto as cadeias estão superlotadas com os
inocentes extraviados
enquanto os trabalhadores braçais descem
nas minas
enquanto filhos idiotas dos pobres
são demitidos de empregos nos quais
esses aí
jamais sujariam suas mãos e
almas
esses aí,
abundância sobre a terra,
se juntam nas universidades
leem seus poemas uns
para os outros
leem seus poemas para
os estudantes
esses aí
fingem sabedoria e
imortalidade
controlam as publicações
abundância sobre a terra
enquanto se formam as filas nas prisões para semijantares
enquanto 34 trabalhadores braçais estão presos numa
mina
esses aí
embarcam num navio para uma ilha do mar do sul
para compilar uma antologia
poética dos
amigos
e/ou
aparecem em manifestações antiguerra
sem sequer fazer ideia
do significado de qualquer espécie
de guerra
abundância sobre a terra
eles estão desenhando um mapa da nossa
cultura –
uma divisão do zero,
uma multiplicação de
despropositada
graça
“Robert Hunkerford dá aula de inglês na
S.U. Casado. 2 filhos, cão de estimação.
Esta é sua primeira coletânea de
versos. Trabalha atualmente numa
tradução dos poemas de
Vallejo. O sr. Hunkerford foi agraciado
com um Sol Stein no ano passado.”
esses aí,
abundância sobre a terra,
dando aula de inglês nas universidades
e escrevendo
poesia
sem pescoço
sem mão
sem colhões
esse é o modo e o costume
e o motivo pelo qual as pessoas
não entendem
as ruas
o verso
a guerra
ou
suas mãos sobre a
mesa
nossa cultura está escondida nos sonhos rendados de
nossas aulas de inglês
nos vestidos rendados de nossas aulas
de inglês
aulas americanas,
é disso que precisamos,
e poetas americanos
das minas
das docas
das fábricas
das cadeias
dos hospitais
dos bares
dos navios
das usinas siderúrgicas.
poetas americanos,
desertores de exércitos
desertores de manicômios
desertores de esposas e vidas sufocantes;
poetas americanos:
sorveteiros, vendedores de gravata, jornaleiros de esquina,
armazenistas, estoquistas, mensageiros,
cafetões, operadores de elevador, encanadores, dentistas, palhaços, passeadores
de cavalos, jóqueis, assassinos (temos ouvido falar dos
assassinados), barbeiros, mecânicos, garçons, carregadores de hotel,
traficantes, pugilistas, bartenders, outros outros
outros
até que estes apareçam
nossa terra permanecerá
morta e envergonhada
a cabeça guilhotinada
e falando aos estudantes
na aula de Inglês II
essa é a sua cultura
mas não a
minha.
abundância sobre a terra,
dando aula de inglês nas universidades
e escrevendo
poesia
sem perna
sem cabeça
sem umbigo
sabendo onde se candidatar para
bolsas e
ganhando as bolsas e
mais bolsas
e escrevendo mais
poesia
sem mão
sem cabelo
sem olho
todos esses aí,
abundância sobre a terra,
encontraram um esconderijo
e conquistaram até mesmo esposas para
atrelar a suas bobas
almas
esses aí
fazem viagens pagas
às ilhas
à Europa
Paris
qualquer lugar
com o propósito
segundo se diz
de colher
material
(para o México eles simplesmente correm por conta própria)
enquanto as cadeias estão superlotadas com os
inocentes extraviados
enquanto os trabalhadores braçais descem
nas minas
enquanto filhos idiotas dos pobres
são demitidos de empregos nos quais
esses aí
jamais sujariam suas mãos e
almas
esses aí,
abundância sobre a terra,
se juntam nas universidades
leem seus poemas uns
para os outros
leem seus poemas para
os estudantes
esses aí
fingem sabedoria e
imortalidade
controlam as publicações
abundância sobre a terra
enquanto se formam as filas nas prisões para semijantares
enquanto 34 trabalhadores braçais estão presos numa
mina
esses aí
embarcam num navio para uma ilha do mar do sul
para compilar uma antologia
poética dos
amigos
e/ou
aparecem em manifestações antiguerra
sem sequer fazer ideia
do significado de qualquer espécie
de guerra
abundância sobre a terra
eles estão desenhando um mapa da nossa
cultura –
uma divisão do zero,
uma multiplicação de
despropositada
graça
“Robert Hunkerford dá aula de inglês na
S.U. Casado. 2 filhos, cão de estimação.
Esta é sua primeira coletânea de
versos. Trabalha atualmente numa
tradução dos poemas de
Vallejo. O sr. Hunkerford foi agraciado
com um Sol Stein no ano passado.”
esses aí,
abundância sobre a terra,
dando aula de inglês nas universidades
e escrevendo
poesia
sem pescoço
sem mão
sem colhões
esse é o modo e o costume
e o motivo pelo qual as pessoas
não entendem
as ruas
o verso
a guerra
ou
suas mãos sobre a
mesa
nossa cultura está escondida nos sonhos rendados de
nossas aulas de inglês
nos vestidos rendados de nossas aulas
de inglês
aulas americanas,
é disso que precisamos,
e poetas americanos
das minas
das docas
das fábricas
das cadeias
dos hospitais
dos bares
dos navios
das usinas siderúrgicas.
poetas americanos,
desertores de exércitos
desertores de manicômios
desertores de esposas e vidas sufocantes;
poetas americanos:
sorveteiros, vendedores de gravata, jornaleiros de esquina,
armazenistas, estoquistas, mensageiros,
cafetões, operadores de elevador, encanadores, dentistas, palhaços, passeadores
de cavalos, jóqueis, assassinos (temos ouvido falar dos
assassinados), barbeiros, mecânicos, garçons, carregadores de hotel,
traficantes, pugilistas, bartenders, outros outros
outros
até que estes apareçam
nossa terra permanecerá
morta e envergonhada
a cabeça guilhotinada
e falando aos estudantes
na aula de Inglês II
essa é a sua cultura
mas não a
minha.
737
Charles Bukowski
Carisma
esta mulher não para de me telefonar
mesmo eu já tendo dito que vivo com uma mulher que
eu amo.
eu sigo ouvindo barulhos ao meu redor,
ela telefona,
pensei que era você.
eu? não bebo nada há vários
dias.
bem, talvez não tenha sido você, mas senti que era
alguém que estava tentando me
ajudar.
talvez fosse Deus. você acha que poderia ser Ele?
sim, ele é um gancho no teto.
foi o que pensei.
estou plantando tomates no meu porão,
ela diz.
isso é sensato.
quero me mudar. para onde devo ir?
norte é o óbvio. a oeste está o oceano. a leste o
passado. o sul é a única saída.
o sul?
sim, mas não cruze a fronteira. é a morte para os
gringos.
como é Salinas? ela pergunta.
se você gosta de alface
vá para Salinas.
de súbito ela desliga. ela sempre faz isso. e ela
sempre volta a ligar em um dia ou em uma semana ou em
um mês. ela estará em meu funeral com tomates e com as
páginas amareladas da lista telefônica enfiadas nos bolsos de
seu sobretudo cor de carne apesar dos 36°C,
tenho jeito com as mulheres.
mesmo eu já tendo dito que vivo com uma mulher que
eu amo.
eu sigo ouvindo barulhos ao meu redor,
ela telefona,
pensei que era você.
eu? não bebo nada há vários
dias.
bem, talvez não tenha sido você, mas senti que era
alguém que estava tentando me
ajudar.
talvez fosse Deus. você acha que poderia ser Ele?
sim, ele é um gancho no teto.
foi o que pensei.
estou plantando tomates no meu porão,
ela diz.
isso é sensato.
quero me mudar. para onde devo ir?
norte é o óbvio. a oeste está o oceano. a leste o
passado. o sul é a única saída.
o sul?
sim, mas não cruze a fronteira. é a morte para os
gringos.
como é Salinas? ela pergunta.
se você gosta de alface
vá para Salinas.
de súbito ela desliga. ela sempre faz isso. e ela
sempre volta a ligar em um dia ou em uma semana ou em
um mês. ela estará em meu funeral com tomates e com as
páginas amareladas da lista telefônica enfiadas nos bolsos de
seu sobretudo cor de carne apesar dos 36°C,
tenho jeito com as mulheres.
996
Charles Bukowski
Não Posso Ficar No Mesmo Quarto Com Essa Mulher Por Cinco Minutos
dias atrás fui
pegar minha filha.
a mãe dela apareceu com um macacão
de trabalho.
alcancei a ela o dinheiro da pensão
e ela me deitou um maço de poemas de um
Manfred Anderson.
eu os li
ele é ótimo, ela disse.
ele despacha esta merda? perguntei.
ah, não, ela disse, Manfred não faria isso.
por quê?
bem, não sei ao certo a razão.
escute, eu disse, você conhece todos os poetas que
não despacham suas merdas.
as revistas não estão prontas para eles, ela disse,
eles estão muito à frente das publicações.
ah, pelo amor de deus, eu disse, você realmente
acredita nisso?
sim, sim, acredito nisso, ela
respondeu.
veja, eu disse, você não foi capaz nem de deixar a menina
pronta. ela está descalça. será que não pode
calçar os sapatos nela?
sua filha tem 8 anos, ela disse,
já pode calçar os próprios sapatos.
escute, eu disse a minha filha, você pode pelo amor
de deus calçar os sapatos?
Manfred nunca grita, disse a mãe.
PELO AMOR DE DEUS! gritei
está vendo, está vendo? ela disse, você não mudou nada.
que horas são? perguntei.
4:30. uma vez Manfred enviou alguns poemas, ela disse,
mas eles mandaram de volta e ele ficou terrivelmente
chateado.
você já calçou os sapatos, eu disse a minha filha,
vamos.
a mãe dela nos acompanhou até a porta.
tenham um bom dia, ela disse.
foda-se, eu disse.
quando ela fechou a porta havia uma plaqueta presa no
lado de fora. dizia:
SORRIA.
não sorri.
em nosso caminho seguimos pela Pico.
parei em frente ao Red Ox.
já volto, eu disse a minha filha.
entrei, me sentei, e pedi um uísque e
uma água. no outro lado do bar havia um nanico entrando e
saindo de uma porta segurando um pênis curvo e bastante vermelho
na mão.
você não pode
não pode mandar ele parar? perguntei ao atendente.
você não pode fechar essa porra?
qual é o seu problema, meu chapa? ele perguntou.
eu envio meus poemas para as revistas, eu disse.
você envia seus poemas para as revistas? ele perguntou.
pode ter certeza de que mando, eu disse.
terminei minha bebida e voltei para o carro.
segui por Pico Boulevard.
o resto do dia estava condenado a ser melhor.
pegar minha filha.
a mãe dela apareceu com um macacão
de trabalho.
alcancei a ela o dinheiro da pensão
e ela me deitou um maço de poemas de um
Manfred Anderson.
eu os li
ele é ótimo, ela disse.
ele despacha esta merda? perguntei.
ah, não, ela disse, Manfred não faria isso.
por quê?
bem, não sei ao certo a razão.
escute, eu disse, você conhece todos os poetas que
não despacham suas merdas.
as revistas não estão prontas para eles, ela disse,
eles estão muito à frente das publicações.
ah, pelo amor de deus, eu disse, você realmente
acredita nisso?
sim, sim, acredito nisso, ela
respondeu.
veja, eu disse, você não foi capaz nem de deixar a menina
pronta. ela está descalça. será que não pode
calçar os sapatos nela?
sua filha tem 8 anos, ela disse,
já pode calçar os próprios sapatos.
escute, eu disse a minha filha, você pode pelo amor
de deus calçar os sapatos?
Manfred nunca grita, disse a mãe.
PELO AMOR DE DEUS! gritei
está vendo, está vendo? ela disse, você não mudou nada.
que horas são? perguntei.
4:30. uma vez Manfred enviou alguns poemas, ela disse,
mas eles mandaram de volta e ele ficou terrivelmente
chateado.
você já calçou os sapatos, eu disse a minha filha,
vamos.
a mãe dela nos acompanhou até a porta.
tenham um bom dia, ela disse.
foda-se, eu disse.
quando ela fechou a porta havia uma plaqueta presa no
lado de fora. dizia:
SORRIA.
não sorri.
em nosso caminho seguimos pela Pico.
parei em frente ao Red Ox.
já volto, eu disse a minha filha.
entrei, me sentei, e pedi um uísque e
uma água. no outro lado do bar havia um nanico entrando e
saindo de uma porta segurando um pênis curvo e bastante vermelho
na mão.
você não pode
não pode mandar ele parar? perguntei ao atendente.
você não pode fechar essa porra?
qual é o seu problema, meu chapa? ele perguntou.
eu envio meus poemas para as revistas, eu disse.
você envia seus poemas para as revistas? ele perguntou.
pode ter certeza de que mando, eu disse.
terminei minha bebida e voltei para o carro.
segui por Pico Boulevard.
o resto do dia estava condenado a ser melhor.
1 164
Charles Bukowski
Não Posso Ficar No Mesmo Quarto Com Essa Mulher Por Cinco Minutos
dias atrás fui
pegar minha filha.
a mãe dela apareceu com um macacão
de trabalho.
alcancei a ela o dinheiro da pensão
e ela me deitou um maço de poemas de um
Manfred Anderson.
eu os li
ele é ótimo, ela disse.
ele despacha esta merda? perguntei.
ah, não, ela disse, Manfred não faria isso.
por quê?
bem, não sei ao certo a razão.
escute, eu disse, você conhece todos os poetas que
não despacham suas merdas.
as revistas não estão prontas para eles, ela disse,
eles estão muito à frente das publicações.
ah, pelo amor de deus, eu disse, você realmente
acredita nisso?
sim, sim, acredito nisso, ela
respondeu.
veja, eu disse, você não foi capaz nem de deixar a menina
pronta. ela está descalça. será que não pode
calçar os sapatos nela?
sua filha tem 8 anos, ela disse,
já pode calçar os próprios sapatos.
escute, eu disse a minha filha, você pode pelo amor
de deus calçar os sapatos?
Manfred nunca grita, disse a mãe.
PELO AMOR DE DEUS! gritei
está vendo, está vendo? ela disse, você não mudou nada.
que horas são? perguntei.
4:30. uma vez Manfred enviou alguns poemas, ela disse,
mas eles mandaram de volta e ele ficou terrivelmente
chateado.
você já calçou os sapatos, eu disse a minha filha,
vamos.
a mãe dela nos acompanhou até a porta.
tenham um bom dia, ela disse.
foda-se, eu disse.
quando ela fechou a porta havia uma plaqueta presa no
lado de fora. dizia:
SORRIA.
não sorri.
em nosso caminho seguimos pela Pico.
parei em frente ao Red Ox.
já volto, eu disse a minha filha.
entrei, me sentei, e pedi um uísque e
uma água. no outro lado do bar havia um nanico entrando e
saindo de uma porta segurando um pênis curvo e bastante vermelho
na mão.
você não pode
não pode mandar ele parar? perguntei ao atendente.
você não pode fechar essa porra?
qual é o seu problema, meu chapa? ele perguntou.
eu envio meus poemas para as revistas, eu disse.
você envia seus poemas para as revistas? ele perguntou.
pode ter certeza de que mando, eu disse.
terminei minha bebida e voltei para o carro.
segui por Pico Boulevard.
o resto do dia estava condenado a ser melhor.
pegar minha filha.
a mãe dela apareceu com um macacão
de trabalho.
alcancei a ela o dinheiro da pensão
e ela me deitou um maço de poemas de um
Manfred Anderson.
eu os li
ele é ótimo, ela disse.
ele despacha esta merda? perguntei.
ah, não, ela disse, Manfred não faria isso.
por quê?
bem, não sei ao certo a razão.
escute, eu disse, você conhece todos os poetas que
não despacham suas merdas.
as revistas não estão prontas para eles, ela disse,
eles estão muito à frente das publicações.
ah, pelo amor de deus, eu disse, você realmente
acredita nisso?
sim, sim, acredito nisso, ela
respondeu.
veja, eu disse, você não foi capaz nem de deixar a menina
pronta. ela está descalça. será que não pode
calçar os sapatos nela?
sua filha tem 8 anos, ela disse,
já pode calçar os próprios sapatos.
escute, eu disse a minha filha, você pode pelo amor
de deus calçar os sapatos?
Manfred nunca grita, disse a mãe.
PELO AMOR DE DEUS! gritei
está vendo, está vendo? ela disse, você não mudou nada.
que horas são? perguntei.
4:30. uma vez Manfred enviou alguns poemas, ela disse,
mas eles mandaram de volta e ele ficou terrivelmente
chateado.
você já calçou os sapatos, eu disse a minha filha,
vamos.
a mãe dela nos acompanhou até a porta.
tenham um bom dia, ela disse.
foda-se, eu disse.
quando ela fechou a porta havia uma plaqueta presa no
lado de fora. dizia:
SORRIA.
não sorri.
em nosso caminho seguimos pela Pico.
parei em frente ao Red Ox.
já volto, eu disse a minha filha.
entrei, me sentei, e pedi um uísque e
uma água. no outro lado do bar havia um nanico entrando e
saindo de uma porta segurando um pênis curvo e bastante vermelho
na mão.
você não pode
não pode mandar ele parar? perguntei ao atendente.
você não pode fechar essa porra?
qual é o seu problema, meu chapa? ele perguntou.
eu envio meus poemas para as revistas, eu disse.
você envia seus poemas para as revistas? ele perguntou.
pode ter certeza de que mando, eu disse.
terminei minha bebida e voltei para o carro.
segui por Pico Boulevard.
o resto do dia estava condenado a ser melhor.
1 164
Charles Bukowski
As Condições
atualmente, sob as condições do sol
meu mundo está terminando.
marcado pelo verme,
contestado por uma população mundial
que a mim não tem referência.
atualmente, sob as condições do sol
meu mundo está terminando.
meus amigos, quase nunca houve
um tempo amável.
demonstrei coragem, bebedeira e
medo.
o coração segue funcionando
em meio ao terror inquestionável.
sob as condições do sol
preparo-me para largar
o labor, a dor e qualquer
honra que reste.
meu mundo está terminando.
marcado pelo verme,
contestado por uma população mundial
que a mim não tem referência.
atualmente, sob as condições do sol
meu mundo está terminando.
meus amigos, quase nunca houve
um tempo amável.
demonstrei coragem, bebedeira e
medo.
o coração segue funcionando
em meio ao terror inquestionável.
sob as condições do sol
preparo-me para largar
o labor, a dor e qualquer
honra que reste.
1 192
Charles Bukowski
O.C.E.U.C.S.
em piedade nanica as armas se direcionam para casa,
e as latas de café desejam o verso do século 18;
o tabloide é sombrio com tiras de quadrinhos e
estatísticas de beisebol –
enquanto os egípcios cospem em cães e o esquisitão
engole lâmpadas no Metropolitan Museum of
Art; é embornal e propaganda barulhenta,
a pontuação é regular
o linho está enjoado no encouraçado
e o Capitão Claypool vomita sempre à meia-noite
com asseio;
o destino é a caixa de sapatos e o prêmio é
bala puxa-puxa
com cem anos de idade, e ninguém diz
que os animais roxos e verdes
lá atrás junto às latas de lixo vão
determinar para que lado o vapor vai
soprar;
retratos de Dempsey e Tunney
rastejam pelo cérebro como
lesmas; e o éter é o cheiro da sua psique
morta;
então, só pode ser isso:
tirar os seus sapatos
durante tardes doentias
permite aventuras que rasgariam o crânio como um
dente de leão, e a sra. Carson McCullers está
morta faz muito tempo agora
de
bebida e
grandeza, e o coração ainda singra como um
bumerangue.
e as latas de café desejam o verso do século 18;
o tabloide é sombrio com tiras de quadrinhos e
estatísticas de beisebol –
enquanto os egípcios cospem em cães e o esquisitão
engole lâmpadas no Metropolitan Museum of
Art; é embornal e propaganda barulhenta,
a pontuação é regular
o linho está enjoado no encouraçado
e o Capitão Claypool vomita sempre à meia-noite
com asseio;
o destino é a caixa de sapatos e o prêmio é
bala puxa-puxa
com cem anos de idade, e ninguém diz
que os animais roxos e verdes
lá atrás junto às latas de lixo vão
determinar para que lado o vapor vai
soprar;
retratos de Dempsey e Tunney
rastejam pelo cérebro como
lesmas; e o éter é o cheiro da sua psique
morta;
então, só pode ser isso:
tirar os seus sapatos
durante tardes doentias
permite aventuras que rasgariam o crânio como um
dente de leão, e a sra. Carson McCullers está
morta faz muito tempo agora
de
bebida e
grandeza, e o coração ainda singra como um
bumerangue.
1 038
Charles Bukowski
O.C.E.U.C.S.
em piedade nanica as armas se direcionam para casa,
e as latas de café desejam o verso do século 18;
o tabloide é sombrio com tiras de quadrinhos e
estatísticas de beisebol –
enquanto os egípcios cospem em cães e o esquisitão
engole lâmpadas no Metropolitan Museum of
Art; é embornal e propaganda barulhenta,
a pontuação é regular
o linho está enjoado no encouraçado
e o Capitão Claypool vomita sempre à meia-noite
com asseio;
o destino é a caixa de sapatos e o prêmio é
bala puxa-puxa
com cem anos de idade, e ninguém diz
que os animais roxos e verdes
lá atrás junto às latas de lixo vão
determinar para que lado o vapor vai
soprar;
retratos de Dempsey e Tunney
rastejam pelo cérebro como
lesmas; e o éter é o cheiro da sua psique
morta;
então, só pode ser isso:
tirar os seus sapatos
durante tardes doentias
permite aventuras que rasgariam o crânio como um
dente de leão, e a sra. Carson McCullers está
morta faz muito tempo agora
de
bebida e
grandeza, e o coração ainda singra como um
bumerangue.
e as latas de café desejam o verso do século 18;
o tabloide é sombrio com tiras de quadrinhos e
estatísticas de beisebol –
enquanto os egípcios cospem em cães e o esquisitão
engole lâmpadas no Metropolitan Museum of
Art; é embornal e propaganda barulhenta,
a pontuação é regular
o linho está enjoado no encouraçado
e o Capitão Claypool vomita sempre à meia-noite
com asseio;
o destino é a caixa de sapatos e o prêmio é
bala puxa-puxa
com cem anos de idade, e ninguém diz
que os animais roxos e verdes
lá atrás junto às latas de lixo vão
determinar para que lado o vapor vai
soprar;
retratos de Dempsey e Tunney
rastejam pelo cérebro como
lesmas; e o éter é o cheiro da sua psique
morta;
então, só pode ser isso:
tirar os seus sapatos
durante tardes doentias
permite aventuras que rasgariam o crânio como um
dente de leão, e a sra. Carson McCullers está
morta faz muito tempo agora
de
bebida e
grandeza, e o coração ainda singra como um
bumerangue.
1 038
Charles Bukowski
Zoo
os elefantes estão empanados com lama e cansados
e os rinocerontes não se movem
as zebras são estúpidos caules mortos
e os leões não rugem
os leões não se importam
os abutres estão empanturrados
os crocodilos não se movem
e havia um tipo estranho de macaco,
me esqueço o nome,
estava num compartimento lá em cima, este macho,
cobriu a fêmea e fez o serviço,
terminou,
deitou-se sobre as costas e arreganhou os dentes,
e eu disse à minha namorada,
vamos lá, pelo menos alguma coisa aconteceu.
de volta ao lar falamos sobre isso.
o zoo é um lugar triste, eu disse,
tirando a minha roupa.
apenas aqueles 2 macacos pareciam felizes, ela disse,
tirando também ela as
roupas.
você viu aquela expressão no rosto do macaco macho?
perguntei.
depois de tudo você fica bem parecido, ela
disse.
mais tarde no espelho eu vi
um estranho tipo de macaco. e
me perguntei sobre as girafas e sobre os
rinocerontes, e sobre os elefantes, especialmente sobre os
elefantes.
teremos de ir ao zoológico mais uma
vez.
e os rinocerontes não se movem
as zebras são estúpidos caules mortos
e os leões não rugem
os leões não se importam
os abutres estão empanturrados
os crocodilos não se movem
e havia um tipo estranho de macaco,
me esqueço o nome,
estava num compartimento lá em cima, este macho,
cobriu a fêmea e fez o serviço,
terminou,
deitou-se sobre as costas e arreganhou os dentes,
e eu disse à minha namorada,
vamos lá, pelo menos alguma coisa aconteceu.
de volta ao lar falamos sobre isso.
o zoo é um lugar triste, eu disse,
tirando a minha roupa.
apenas aqueles 2 macacos pareciam felizes, ela disse,
tirando também ela as
roupas.
você viu aquela expressão no rosto do macaco macho?
perguntei.
depois de tudo você fica bem parecido, ela
disse.
mais tarde no espelho eu vi
um estranho tipo de macaco. e
me perguntei sobre as girafas e sobre os
rinocerontes, e sobre os elefantes, especialmente sobre os
elefantes.
teremos de ir ao zoológico mais uma
vez.
1 176
Charles Bukowski
Rabos Quentes
na sexta à noite
as garotas mexicanas na quermesse católica
ficam especialmente atraentes
seus maridos estão nos bares
e as garotas mexicanas parecem jovens
os narizes aquilinos e os olhos fortes e cruéis
rabos quentes em jeans apertados
de algum modo tinham sido apanhadas,
seus maridos estão cansados de seus rabos quentes
e as jovens garotas mexicanas caminham com seus filhos,
há sofrimento verdadeiro em seus olhos fortes e cruéis,
enquanto elas se lembram das noites em que seus belos homens –
agora já há muito nada belos –
diziam-lhes coisas tão bonitas
coisas tão bonitas que elas jamais voltarão a ouvir,
e sob a lua e sob os lampejos das
luzes da quermesse
vejo tudo e me mantenho calado em luto por elas.
elas me veem olhar –
o bode velho está olhando para a gente
ele nos olha nos olhos;
elas riem umas para as outras, falam, se afastam juntas,
gargalham, me olham por sobre os ombros.
caminho até uma tenda
coloco uma moeda no número onze e ganho um bolo de chocolate
com 13 chupetas coloridas enfiadas na
cobertura.
isto é justo o bastante para um ex-católico
e um admirador dos quentes rabos mexicanos
e jovens e dignos de luto
e há tanto tempo abandonados.
as garotas mexicanas na quermesse católica
ficam especialmente atraentes
seus maridos estão nos bares
e as garotas mexicanas parecem jovens
os narizes aquilinos e os olhos fortes e cruéis
rabos quentes em jeans apertados
de algum modo tinham sido apanhadas,
seus maridos estão cansados de seus rabos quentes
e as jovens garotas mexicanas caminham com seus filhos,
há sofrimento verdadeiro em seus olhos fortes e cruéis,
enquanto elas se lembram das noites em que seus belos homens –
agora já há muito nada belos –
diziam-lhes coisas tão bonitas
coisas tão bonitas que elas jamais voltarão a ouvir,
e sob a lua e sob os lampejos das
luzes da quermesse
vejo tudo e me mantenho calado em luto por elas.
elas me veem olhar –
o bode velho está olhando para a gente
ele nos olha nos olhos;
elas riem umas para as outras, falam, se afastam juntas,
gargalham, me olham por sobre os ombros.
caminho até uma tenda
coloco uma moeda no número onze e ganho um bolo de chocolate
com 13 chupetas coloridas enfiadas na
cobertura.
isto é justo o bastante para um ex-católico
e um admirador dos quentes rabos mexicanos
e jovens e dignos de luto
e há tanto tempo abandonados.
1 037
Charles Bukowski
Rabos Quentes
na sexta à noite
as garotas mexicanas na quermesse católica
ficam especialmente atraentes
seus maridos estão nos bares
e as garotas mexicanas parecem jovens
os narizes aquilinos e os olhos fortes e cruéis
rabos quentes em jeans apertados
de algum modo tinham sido apanhadas,
seus maridos estão cansados de seus rabos quentes
e as jovens garotas mexicanas caminham com seus filhos,
há sofrimento verdadeiro em seus olhos fortes e cruéis,
enquanto elas se lembram das noites em que seus belos homens –
agora já há muito nada belos –
diziam-lhes coisas tão bonitas
coisas tão bonitas que elas jamais voltarão a ouvir,
e sob a lua e sob os lampejos das
luzes da quermesse
vejo tudo e me mantenho calado em luto por elas.
elas me veem olhar –
o bode velho está olhando para a gente
ele nos olha nos olhos;
elas riem umas para as outras, falam, se afastam juntas,
gargalham, me olham por sobre os ombros.
caminho até uma tenda
coloco uma moeda no número onze e ganho um bolo de chocolate
com 13 chupetas coloridas enfiadas na
cobertura.
isto é justo o bastante para um ex-católico
e um admirador dos quentes rabos mexicanos
e jovens e dignos de luto
e há tanto tempo abandonados.
as garotas mexicanas na quermesse católica
ficam especialmente atraentes
seus maridos estão nos bares
e as garotas mexicanas parecem jovens
os narizes aquilinos e os olhos fortes e cruéis
rabos quentes em jeans apertados
de algum modo tinham sido apanhadas,
seus maridos estão cansados de seus rabos quentes
e as jovens garotas mexicanas caminham com seus filhos,
há sofrimento verdadeiro em seus olhos fortes e cruéis,
enquanto elas se lembram das noites em que seus belos homens –
agora já há muito nada belos –
diziam-lhes coisas tão bonitas
coisas tão bonitas que elas jamais voltarão a ouvir,
e sob a lua e sob os lampejos das
luzes da quermesse
vejo tudo e me mantenho calado em luto por elas.
elas me veem olhar –
o bode velho está olhando para a gente
ele nos olha nos olhos;
elas riem umas para as outras, falam, se afastam juntas,
gargalham, me olham por sobre os ombros.
caminho até uma tenda
coloco uma moeda no número onze e ganho um bolo de chocolate
com 13 chupetas coloridas enfiadas na
cobertura.
isto é justo o bastante para um ex-católico
e um admirador dos quentes rabos mexicanos
e jovens e dignos de luto
e há tanto tempo abandonados.
1 037
Charles Bukowski
Blues do Leito de Morte
se você não consegue suportar o calor, ele diz, saia da
cozinha. sabe quem falou isso?
Harry Truman.
não estou na cozinha, eu digo, estou no
forno.
meu editor é um cara difícil.
às vezes eu ligo pra ele em momentos de dúvida.
veja, ele responde, você estará acendendo charutos com notas de dez
dólares, você terá um ruiva num dos braços e uma loira
no outro.
outras vezes ele dirá, veja, acho que vou contratar
V.K. como meu editor associado. temos de cortar
5 poetas aqui do catálogo. vou deixar que ele
decida. (V.K. é um poeta com uma imaginação muito fértil e que crê
que eu o esfaqueei de N.Y. até a costa do Havaí.)
escute, garoto, liguei para meu editor, você sabe falar alemão?
não, ele respondeu.
bem, seja como for, preciso de uns pneus novos, baratos.
sabe onde eu poderia conseguir uns pneus novos, baratos?
ligo para você em meia hora, ele diz, estará por aí
em meia hora?
não estou em condições de ir para nenhum lugar, eu digo.
ele diz, disseram que você estava bêbado na leitura
em Oregon.
difamação imunda, eu respondo.
você estava?
não consigo
lembrar.
um dia ele me liga:
você já não está acertando a tacada. só está acertando a
garrafa e brigando com todas essas
mulheres. você sabe que temos um bom garoto no banco de reservas,
ele está louco para entrar
sabe rebater em qualquer uma das bases
consegue apanhar qualquer bola que não vá por cima da murada
é treinado por Duncan, Creeley, Wakoski
e ele sabe rimar, conhece
imagens, símiles, metáforas, figuras, conceitos,
assonâncias, aliterações, métricas, sim
todos os tipos de métrica, você sabe –
iâmbica, trocaica, anapéstica, espondaica,
conhece cesura, denotação, conotação, personificação,
dicção, voz, paradoxo, retórica, tom e
coalescência...
puta que pariu, eu digo, desligo e tomo um bom gole de
Old Grandad. Harry continua vivo
de acordo com os jornais. mas decido que em vez
de conseguir pneus novos é melhor
arrumar um jogo de recauchutados.
cozinha. sabe quem falou isso?
Harry Truman.
não estou na cozinha, eu digo, estou no
forno.
meu editor é um cara difícil.
às vezes eu ligo pra ele em momentos de dúvida.
veja, ele responde, você estará acendendo charutos com notas de dez
dólares, você terá um ruiva num dos braços e uma loira
no outro.
outras vezes ele dirá, veja, acho que vou contratar
V.K. como meu editor associado. temos de cortar
5 poetas aqui do catálogo. vou deixar que ele
decida. (V.K. é um poeta com uma imaginação muito fértil e que crê
que eu o esfaqueei de N.Y. até a costa do Havaí.)
escute, garoto, liguei para meu editor, você sabe falar alemão?
não, ele respondeu.
bem, seja como for, preciso de uns pneus novos, baratos.
sabe onde eu poderia conseguir uns pneus novos, baratos?
ligo para você em meia hora, ele diz, estará por aí
em meia hora?
não estou em condições de ir para nenhum lugar, eu digo.
ele diz, disseram que você estava bêbado na leitura
em Oregon.
difamação imunda, eu respondo.
você estava?
não consigo
lembrar.
um dia ele me liga:
você já não está acertando a tacada. só está acertando a
garrafa e brigando com todas essas
mulheres. você sabe que temos um bom garoto no banco de reservas,
ele está louco para entrar
sabe rebater em qualquer uma das bases
consegue apanhar qualquer bola que não vá por cima da murada
é treinado por Duncan, Creeley, Wakoski
e ele sabe rimar, conhece
imagens, símiles, metáforas, figuras, conceitos,
assonâncias, aliterações, métricas, sim
todos os tipos de métrica, você sabe –
iâmbica, trocaica, anapéstica, espondaica,
conhece cesura, denotação, conotação, personificação,
dicção, voz, paradoxo, retórica, tom e
coalescência...
puta que pariu, eu digo, desligo e tomo um bom gole de
Old Grandad. Harry continua vivo
de acordo com os jornais. mas decido que em vez
de conseguir pneus novos é melhor
arrumar um jogo de recauchutados.
1 171
Charles Bukowski
Blues do Leito de Morte
se você não consegue suportar o calor, ele diz, saia da
cozinha. sabe quem falou isso?
Harry Truman.
não estou na cozinha, eu digo, estou no
forno.
meu editor é um cara difícil.
às vezes eu ligo pra ele em momentos de dúvida.
veja, ele responde, você estará acendendo charutos com notas de dez
dólares, você terá um ruiva num dos braços e uma loira
no outro.
outras vezes ele dirá, veja, acho que vou contratar
V.K. como meu editor associado. temos de cortar
5 poetas aqui do catálogo. vou deixar que ele
decida. (V.K. é um poeta com uma imaginação muito fértil e que crê
que eu o esfaqueei de N.Y. até a costa do Havaí.)
escute, garoto, liguei para meu editor, você sabe falar alemão?
não, ele respondeu.
bem, seja como for, preciso de uns pneus novos, baratos.
sabe onde eu poderia conseguir uns pneus novos, baratos?
ligo para você em meia hora, ele diz, estará por aí
em meia hora?
não estou em condições de ir para nenhum lugar, eu digo.
ele diz, disseram que você estava bêbado na leitura
em Oregon.
difamação imunda, eu respondo.
você estava?
não consigo
lembrar.
um dia ele me liga:
você já não está acertando a tacada. só está acertando a
garrafa e brigando com todas essas
mulheres. você sabe que temos um bom garoto no banco de reservas,
ele está louco para entrar
sabe rebater em qualquer uma das bases
consegue apanhar qualquer bola que não vá por cima da murada
é treinado por Duncan, Creeley, Wakoski
e ele sabe rimar, conhece
imagens, símiles, metáforas, figuras, conceitos,
assonâncias, aliterações, métricas, sim
todos os tipos de métrica, você sabe –
iâmbica, trocaica, anapéstica, espondaica,
conhece cesura, denotação, conotação, personificação,
dicção, voz, paradoxo, retórica, tom e
coalescência...
puta que pariu, eu digo, desligo e tomo um bom gole de
Old Grandad. Harry continua vivo
de acordo com os jornais. mas decido que em vez
de conseguir pneus novos é melhor
arrumar um jogo de recauchutados.
cozinha. sabe quem falou isso?
Harry Truman.
não estou na cozinha, eu digo, estou no
forno.
meu editor é um cara difícil.
às vezes eu ligo pra ele em momentos de dúvida.
veja, ele responde, você estará acendendo charutos com notas de dez
dólares, você terá um ruiva num dos braços e uma loira
no outro.
outras vezes ele dirá, veja, acho que vou contratar
V.K. como meu editor associado. temos de cortar
5 poetas aqui do catálogo. vou deixar que ele
decida. (V.K. é um poeta com uma imaginação muito fértil e que crê
que eu o esfaqueei de N.Y. até a costa do Havaí.)
escute, garoto, liguei para meu editor, você sabe falar alemão?
não, ele respondeu.
bem, seja como for, preciso de uns pneus novos, baratos.
sabe onde eu poderia conseguir uns pneus novos, baratos?
ligo para você em meia hora, ele diz, estará por aí
em meia hora?
não estou em condições de ir para nenhum lugar, eu digo.
ele diz, disseram que você estava bêbado na leitura
em Oregon.
difamação imunda, eu respondo.
você estava?
não consigo
lembrar.
um dia ele me liga:
você já não está acertando a tacada. só está acertando a
garrafa e brigando com todas essas
mulheres. você sabe que temos um bom garoto no banco de reservas,
ele está louco para entrar
sabe rebater em qualquer uma das bases
consegue apanhar qualquer bola que não vá por cima da murada
é treinado por Duncan, Creeley, Wakoski
e ele sabe rimar, conhece
imagens, símiles, metáforas, figuras, conceitos,
assonâncias, aliterações, métricas, sim
todos os tipos de métrica, você sabe –
iâmbica, trocaica, anapéstica, espondaica,
conhece cesura, denotação, conotação, personificação,
dicção, voz, paradoxo, retórica, tom e
coalescência...
puta que pariu, eu digo, desligo e tomo um bom gole de
Old Grandad. Harry continua vivo
de acordo com os jornais. mas decido que em vez
de conseguir pneus novos é melhor
arrumar um jogo de recauchutados.
1 171
Charles Bukowski
Blues do Leito de Morte
se você não consegue suportar o calor, ele diz, saia da
cozinha. sabe quem falou isso?
Harry Truman.
não estou na cozinha, eu digo, estou no
forno.
meu editor é um cara difícil.
às vezes eu ligo pra ele em momentos de dúvida.
veja, ele responde, você estará acendendo charutos com notas de dez
dólares, você terá um ruiva num dos braços e uma loira
no outro.
outras vezes ele dirá, veja, acho que vou contratar
V.K. como meu editor associado. temos de cortar
5 poetas aqui do catálogo. vou deixar que ele
decida. (V.K. é um poeta com uma imaginação muito fértil e que crê
que eu o esfaqueei de N.Y. até a costa do Havaí.)
escute, garoto, liguei para meu editor, você sabe falar alemão?
não, ele respondeu.
bem, seja como for, preciso de uns pneus novos, baratos.
sabe onde eu poderia conseguir uns pneus novos, baratos?
ligo para você em meia hora, ele diz, estará por aí
em meia hora?
não estou em condições de ir para nenhum lugar, eu digo.
ele diz, disseram que você estava bêbado na leitura
em Oregon.
difamação imunda, eu respondo.
você estava?
não consigo
lembrar.
um dia ele me liga:
você já não está acertando a tacada. só está acertando a
garrafa e brigando com todas essas
mulheres. você sabe que temos um bom garoto no banco de reservas,
ele está louco para entrar
sabe rebater em qualquer uma das bases
consegue apanhar qualquer bola que não vá por cima da murada
é treinado por Duncan, Creeley, Wakoski
e ele sabe rimar, conhece
imagens, símiles, metáforas, figuras, conceitos,
assonâncias, aliterações, métricas, sim
todos os tipos de métrica, você sabe –
iâmbica, trocaica, anapéstica, espondaica,
conhece cesura, denotação, conotação, personificação,
dicção, voz, paradoxo, retórica, tom e
coalescência...
puta que pariu, eu digo, desligo e tomo um bom gole de
Old Grandad. Harry continua vivo
de acordo com os jornais. mas decido que em vez
de conseguir pneus novos é melhor
arrumar um jogo de recauchutados.
cozinha. sabe quem falou isso?
Harry Truman.
não estou na cozinha, eu digo, estou no
forno.
meu editor é um cara difícil.
às vezes eu ligo pra ele em momentos de dúvida.
veja, ele responde, você estará acendendo charutos com notas de dez
dólares, você terá um ruiva num dos braços e uma loira
no outro.
outras vezes ele dirá, veja, acho que vou contratar
V.K. como meu editor associado. temos de cortar
5 poetas aqui do catálogo. vou deixar que ele
decida. (V.K. é um poeta com uma imaginação muito fértil e que crê
que eu o esfaqueei de N.Y. até a costa do Havaí.)
escute, garoto, liguei para meu editor, você sabe falar alemão?
não, ele respondeu.
bem, seja como for, preciso de uns pneus novos, baratos.
sabe onde eu poderia conseguir uns pneus novos, baratos?
ligo para você em meia hora, ele diz, estará por aí
em meia hora?
não estou em condições de ir para nenhum lugar, eu digo.
ele diz, disseram que você estava bêbado na leitura
em Oregon.
difamação imunda, eu respondo.
você estava?
não consigo
lembrar.
um dia ele me liga:
você já não está acertando a tacada. só está acertando a
garrafa e brigando com todas essas
mulheres. você sabe que temos um bom garoto no banco de reservas,
ele está louco para entrar
sabe rebater em qualquer uma das bases
consegue apanhar qualquer bola que não vá por cima da murada
é treinado por Duncan, Creeley, Wakoski
e ele sabe rimar, conhece
imagens, símiles, metáforas, figuras, conceitos,
assonâncias, aliterações, métricas, sim
todos os tipos de métrica, você sabe –
iâmbica, trocaica, anapéstica, espondaica,
conhece cesura, denotação, conotação, personificação,
dicção, voz, paradoxo, retórica, tom e
coalescência...
puta que pariu, eu digo, desligo e tomo um bom gole de
Old Grandad. Harry continua vivo
de acordo com os jornais. mas decido que em vez
de conseguir pneus novos é melhor
arrumar um jogo de recauchutados.
1 171
Charles Bukowski
Pobreza
é o homem que você nunca viu que
o mantém em movimento,
aquele que deve chegar
num dia incerto.
ele não vaga pelas ruas ou
pelos apartamentos ou
pelos estádios,
ou se ele andou por aí
de algum modo nos desencontramos.
ele não é um de nossos presidentes
não está entre os estadistas e os atores.
me pergunto se ele está por aí.
caminho pelas ruas
passo por lojas de conveniência e hospitais e
teatros e cafés
e me pergunto se ele não está ali.
já faz quase meio século que procuro
e ele ainda não foi visto.
um homem vivo, vivo de verdade,
revela quando traz suas mãos pendidas
por ter acendido um cigarro
você vê seus olhos
como os olhos de um tigre mirando o passado
enquanto o vento passa.
mas quando as mãos pendem
trata-se sempre dos
outros olhos
que estão lá
sempre sempre lá.
e logo será tarde demais para mim
e eu terei vivido uma vida
entre lojas de conveniência, gatos, lençóis, saliva,
jornais, mulheres, portas e outros penduricalhos,
mas em nenhum lugar
um homem vivo.
o mantém em movimento,
aquele que deve chegar
num dia incerto.
ele não vaga pelas ruas ou
pelos apartamentos ou
pelos estádios,
ou se ele andou por aí
de algum modo nos desencontramos.
ele não é um de nossos presidentes
não está entre os estadistas e os atores.
me pergunto se ele está por aí.
caminho pelas ruas
passo por lojas de conveniência e hospitais e
teatros e cafés
e me pergunto se ele não está ali.
já faz quase meio século que procuro
e ele ainda não foi visto.
um homem vivo, vivo de verdade,
revela quando traz suas mãos pendidas
por ter acendido um cigarro
você vê seus olhos
como os olhos de um tigre mirando o passado
enquanto o vento passa.
mas quando as mãos pendem
trata-se sempre dos
outros olhos
que estão lá
sempre sempre lá.
e logo será tarde demais para mim
e eu terei vivido uma vida
entre lojas de conveniência, gatos, lençóis, saliva,
jornais, mulheres, portas e outros penduricalhos,
mas em nenhum lugar
um homem vivo.
1 152
Charles Bukowski
Cartas
ela se senta no chão
revirando uma caixa de papelão
lendo-me cartas de amor que escrevi para ela
enquanto sua filha de 4 anos se deita no chão
enrolada em um cobertor rosa e
três quartos encaminhada no sono
havíamos voltado a nos ver depois de uma separação
estou sentado em sua casa numa
noite de domingo
os carros vão e vêm na colina lá fora
quando formos dormir juntos
ouviremos os grilos
onde estão os trouxas que não vivem tão bem
quanto eu?
amo suas paredes
amo suas crianças
amo seu cachorro
ouviremos os grilos
meu braço a lhe envolver os quadris
meus dedos postos em sua barriga
uma noite como esta vence a vida,
o que transborda dá conta da morte
gosto de minhas cartas de amor
elas são verdadeiras
ah, ela tem uma bunda tão linda!
ah, ela tem uma alma tão linda!
revirando uma caixa de papelão
lendo-me cartas de amor que escrevi para ela
enquanto sua filha de 4 anos se deita no chão
enrolada em um cobertor rosa e
três quartos encaminhada no sono
havíamos voltado a nos ver depois de uma separação
estou sentado em sua casa numa
noite de domingo
os carros vão e vêm na colina lá fora
quando formos dormir juntos
ouviremos os grilos
onde estão os trouxas que não vivem tão bem
quanto eu?
amo suas paredes
amo suas crianças
amo seu cachorro
ouviremos os grilos
meu braço a lhe envolver os quadris
meus dedos postos em sua barriga
uma noite como esta vence a vida,
o que transborda dá conta da morte
gosto de minhas cartas de amor
elas são verdadeiras
ah, ela tem uma bunda tão linda!
ah, ela tem uma alma tão linda!
1 251
Charles Bukowski
Uma Soneca E a Paz do Sossego
se você é um homem, Los Angeles é onde você deixa de sê-lo e
luta; ou se você é uma mulher, e tem pernas o bastante e também
o resto, você as veleja até uma encosta de morro para
quando os cabelos ficarem grisalhos você se esconder em Beverly Hills
numa mansão em que ninguém poderá ver como você decaiu.
então nos mudamos para cá – e com o que deparamos
senão um maníaco religioso no muquifo ao lado que
bebe vinho barato e tem visões e liga seu rádio
o mais alto possível, meu deus!
já conheço agora todos os hinos!
já sei o quanto pequei e percebo que haverei de morrer
e que tenho de estar preparado...
mas antes eu bem podia tirar um cochilo
apenas uma soneca e a paz do silêncio.
abro a janela e lá está ele
no gramado
dançando um hino
um cântico
um seja lá o que for.
ele usa uma bermuda vermelha
ele é bem bronzeado e está bêbado de vinho
mas seus movimentos são duros e canhestros –
ele é muito gordo
um homem-noz, deformado e disforme aos
55.
e ele balança seus braços ao sol e os pássaros revoam
assustados
e então ele faz um giro em direção à porta de casa.
mas a vista da rua aqui é boa –
há japoneses e velhas senhoras e jovens garotas e
pedintes.
temos grandes palmeiras
cheias de pássaros
e o estacionamento não é dos piores...
mas nosso maníaco religioso não trabalha
ele é esperto demais para trabalhar
então nós dois ficamos por aqui de bobeira
escutamos rádio
bebemos
e eu me pergunto qual de nós chegará primeiro ao inferno –
ele com sua bíblia ou eu com os Programas do Jóquei
mas se eu tiver de ouvi-lo lá em baixo eu sei que terei de contar
com alguma ajuda, e que a próxima dança será minha.
agora mesmo queria ter algo para vender para poder me esconder num
lugar
com muros de quatro metros
com fossos
e potentes cadeiras elétricas.
mas isso parece estar a longos dias e longas noites,
como sempre.
por ora só posso desejar no mínimo o enfraquecimento da
válvula do rádio,
e no máximo sua morte,
pela qual ambos rezamos e
já fizemos nossas disposições.
luta; ou se você é uma mulher, e tem pernas o bastante e também
o resto, você as veleja até uma encosta de morro para
quando os cabelos ficarem grisalhos você se esconder em Beverly Hills
numa mansão em que ninguém poderá ver como você decaiu.
então nos mudamos para cá – e com o que deparamos
senão um maníaco religioso no muquifo ao lado que
bebe vinho barato e tem visões e liga seu rádio
o mais alto possível, meu deus!
já conheço agora todos os hinos!
já sei o quanto pequei e percebo que haverei de morrer
e que tenho de estar preparado...
mas antes eu bem podia tirar um cochilo
apenas uma soneca e a paz do silêncio.
abro a janela e lá está ele
no gramado
dançando um hino
um cântico
um seja lá o que for.
ele usa uma bermuda vermelha
ele é bem bronzeado e está bêbado de vinho
mas seus movimentos são duros e canhestros –
ele é muito gordo
um homem-noz, deformado e disforme aos
55.
e ele balança seus braços ao sol e os pássaros revoam
assustados
e então ele faz um giro em direção à porta de casa.
mas a vista da rua aqui é boa –
há japoneses e velhas senhoras e jovens garotas e
pedintes.
temos grandes palmeiras
cheias de pássaros
e o estacionamento não é dos piores...
mas nosso maníaco religioso não trabalha
ele é esperto demais para trabalhar
então nós dois ficamos por aqui de bobeira
escutamos rádio
bebemos
e eu me pergunto qual de nós chegará primeiro ao inferno –
ele com sua bíblia ou eu com os Programas do Jóquei
mas se eu tiver de ouvi-lo lá em baixo eu sei que terei de contar
com alguma ajuda, e que a próxima dança será minha.
agora mesmo queria ter algo para vender para poder me esconder num
lugar
com muros de quatro metros
com fossos
e potentes cadeiras elétricas.
mas isso parece estar a longos dias e longas noites,
como sempre.
por ora só posso desejar no mínimo o enfraquecimento da
válvula do rádio,
e no máximo sua morte,
pela qual ambos rezamos e
já fizemos nossas disposições.
1 079
Charles Bukowski
Perdido
não
não temos não temos como vencer
decidimos que não podemos vencer
apenas por um instante pensávamos poder
mas foi por apenas um instante
agora sabemos que não podemos vencer
não podemos ficar parados e vencer
ou correr e vencer
ou fazer certo e vencer
ou fazer errado e vencer
alguma outra pessoa vai vencer
é por isso que essa pessoa está lá e
nós estamos aqui
é terrível ser derrotado
naquilo que realmente importa
isto acontecerá
aceitar isso é impossível
saber isso é mais importante
que pombas ou rebimbocas ou
amor.
não temos não temos como vencer
decidimos que não podemos vencer
apenas por um instante pensávamos poder
mas foi por apenas um instante
agora sabemos que não podemos vencer
não podemos ficar parados e vencer
ou correr e vencer
ou fazer certo e vencer
ou fazer errado e vencer
alguma outra pessoa vai vencer
é por isso que essa pessoa está lá e
nós estamos aqui
é terrível ser derrotado
naquilo que realmente importa
isto acontecerá
aceitar isso é impossível
saber isso é mais importante
que pombas ou rebimbocas ou
amor.
1 266
Charles Bukowski
Risada Literária
escute, cara, não fale sobre os poemas que você
mandou, a gente não recebeu nada,
somos muito cuidadosos com manuscritos
nós os assamos
queimamos
rimos deles
vomitamos neles
derrubamos cerveja sobre eles
mas geralmente os
devolvemos
eles são
tão
inanes.
ah, nós acreditamos na Arte,
precisamos dela
com certeza,
mas, você sabe, há muita gente
(a maioria das pessoas)
brincando e fornicando com as
Artes
que apenas superlotam o palco
com sua generosa e implacável
e vigorosa
mediocridade.
nossa assinatura é de $4 ao ano.
por favor, leia nossa revista antes de enviar qualquer
material.
mandou, a gente não recebeu nada,
somos muito cuidadosos com manuscritos
nós os assamos
queimamos
rimos deles
vomitamos neles
derrubamos cerveja sobre eles
mas geralmente os
devolvemos
eles são
tão
inanes.
ah, nós acreditamos na Arte,
precisamos dela
com certeza,
mas, você sabe, há muita gente
(a maioria das pessoas)
brincando e fornicando com as
Artes
que apenas superlotam o palco
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1 076
Charles Bukowski
Risada Literária
escute, cara, não fale sobre os poemas que você
mandou, a gente não recebeu nada,
somos muito cuidadosos com manuscritos
nós os assamos
queimamos
rimos deles
vomitamos neles
derrubamos cerveja sobre eles
mas geralmente os
devolvemos
eles são
tão
inanes.
ah, nós acreditamos na Arte,
precisamos dela
com certeza,
mas, você sabe, há muita gente
(a maioria das pessoas)
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mandou, a gente não recebeu nada,
somos muito cuidadosos com manuscritos
nós os assamos
queimamos
rimos deles
vomitamos neles
derrubamos cerveja sobre eles
mas geralmente os
devolvemos
eles são
tão
inanes.
ah, nós acreditamos na Arte,
precisamos dela
com certeza,
mas, você sabe, há muita gente
(a maioria das pessoas)
brincando e fornicando com as
Artes
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1 076
Charles Bukowski
O Tempo Está Quente Na Parte de Trás do Meu Relógio
o tempo está quente na parte de trás do meu relógio
que está no Finkelstein
que foi premiado com 3 bolas
mas nenhum coração, mas você precisa entender
quando o touro ataca
ou a puta, o coração é posto de lado por alguma outra coisa,
e não vamos supervalorizar a óbvia decência
porque num jogo de merda você pode estar liquidando
algum rei vacilante de 6 crianças
e uma hemorroida em seu último cheque do seguro desemprego,
e quem pode dizer que a rosa é maior do que o espinho?
eu não, Henry,
e quando seu amor fica com os joelhos frouxos e prefere rasteirinhas,
talvez você devesse ter se enfiado em alguma coisa diferente
como um poço de petróleo
ou uma manada de vacas.
estou velho demais para discutir,
me acabei com o poema
e fui nocauteado pelo velho golpe de surpresa
assalto depois de assalto,
mas às vezes eu gosto de pensar no Kaiser
ou em qualquer outro imbecil cheio de medalhas e nada mais,
ou na primeira vez que lemos o Dos
ou o Eliot com as calças enroladas;
o tempo está quente na parte de trás do meu relógio
que está no Finkelstein,
mas você sabe o que eles dizem: as coisas são duras em toda a parte,
e eu me lembro de uma vez vagabundeando no Texas
ter assistido a uma caça aos corvos, cem fazendeiros com cem espingardas
batendo uma punheta no céu com um pênis gigante de ódio
e os corvos caíam semimortos, semivivos,
e eles os matavam a pauladas para economizar as balas
mas ficaram sem balas antes de ficar sem corvos
e os corvos retornaram e caminharam em torno dos projéteis e
projetaram suas línguas
e fizeram luto por seus mortos e elegeram novos líderes
e depois de uma vez só voaram para casa para foder e preencher o vazio.
você só pode matar o que não deveria estar lá,
e Finkelstein deveria estar lá e meu relógio
e talvez eu mesmo, e eu percebo que se os poemas são ruins
é esperado que sejam ruins e se eles são bons
é esperado também que assim o sejam – embora haja uma luta
menor a ser lutada,
mas ainda assim sigo triste
porque estou nesta pequena cidade em algum lugar de uma terra má,
completamente fora de mão, sem ao menos querer estar aqui,
dois dólares na carteira, e um agricultor se voltou para mim
e me perguntou que horas eram
e eu não pude lhe dizer,
e mais tarde eles reuniram os bichos para fazer uma fogueira
como se não fossem melhores do que estrume com penas,
penas e um pouco de gasolina,
e do topo de uma das pilhas
um corvo não bem morto me sorriu.
eram 16:35.
que está no Finkelstein
que foi premiado com 3 bolas
mas nenhum coração, mas você precisa entender
quando o touro ataca
ou a puta, o coração é posto de lado por alguma outra coisa,
e não vamos supervalorizar a óbvia decência
porque num jogo de merda você pode estar liquidando
algum rei vacilante de 6 crianças
e uma hemorroida em seu último cheque do seguro desemprego,
e quem pode dizer que a rosa é maior do que o espinho?
eu não, Henry,
e quando seu amor fica com os joelhos frouxos e prefere rasteirinhas,
talvez você devesse ter se enfiado em alguma coisa diferente
como um poço de petróleo
ou uma manada de vacas.
estou velho demais para discutir,
me acabei com o poema
e fui nocauteado pelo velho golpe de surpresa
assalto depois de assalto,
mas às vezes eu gosto de pensar no Kaiser
ou em qualquer outro imbecil cheio de medalhas e nada mais,
ou na primeira vez que lemos o Dos
ou o Eliot com as calças enroladas;
o tempo está quente na parte de trás do meu relógio
que está no Finkelstein,
mas você sabe o que eles dizem: as coisas são duras em toda a parte,
e eu me lembro de uma vez vagabundeando no Texas
ter assistido a uma caça aos corvos, cem fazendeiros com cem espingardas
batendo uma punheta no céu com um pênis gigante de ódio
e os corvos caíam semimortos, semivivos,
e eles os matavam a pauladas para economizar as balas
mas ficaram sem balas antes de ficar sem corvos
e os corvos retornaram e caminharam em torno dos projéteis e
projetaram suas línguas
e fizeram luto por seus mortos e elegeram novos líderes
e depois de uma vez só voaram para casa para foder e preencher o vazio.
você só pode matar o que não deveria estar lá,
e Finkelstein deveria estar lá e meu relógio
e talvez eu mesmo, e eu percebo que se os poemas são ruins
é esperado que sejam ruins e se eles são bons
é esperado também que assim o sejam – embora haja uma luta
menor a ser lutada,
mas ainda assim sigo triste
porque estou nesta pequena cidade em algum lugar de uma terra má,
completamente fora de mão, sem ao menos querer estar aqui,
dois dólares na carteira, e um agricultor se voltou para mim
e me perguntou que horas eram
e eu não pude lhe dizer,
e mais tarde eles reuniram os bichos para fazer uma fogueira
como se não fossem melhores do que estrume com penas,
penas e um pouco de gasolina,
e do topo de uma das pilhas
um corvo não bem morto me sorriu.
eram 16:35.
1 009
Charles Bukowski
O Tempo Está Quente Na Parte de Trás do Meu Relógio
o tempo está quente na parte de trás do meu relógio
que está no Finkelstein
que foi premiado com 3 bolas
mas nenhum coração, mas você precisa entender
quando o touro ataca
ou a puta, o coração é posto de lado por alguma outra coisa,
e não vamos supervalorizar a óbvia decência
porque num jogo de merda você pode estar liquidando
algum rei vacilante de 6 crianças
e uma hemorroida em seu último cheque do seguro desemprego,
e quem pode dizer que a rosa é maior do que o espinho?
eu não, Henry,
e quando seu amor fica com os joelhos frouxos e prefere rasteirinhas,
talvez você devesse ter se enfiado em alguma coisa diferente
como um poço de petróleo
ou uma manada de vacas.
estou velho demais para discutir,
me acabei com o poema
e fui nocauteado pelo velho golpe de surpresa
assalto depois de assalto,
mas às vezes eu gosto de pensar no Kaiser
ou em qualquer outro imbecil cheio de medalhas e nada mais,
ou na primeira vez que lemos o Dos
ou o Eliot com as calças enroladas;
o tempo está quente na parte de trás do meu relógio
que está no Finkelstein,
mas você sabe o que eles dizem: as coisas são duras em toda a parte,
e eu me lembro de uma vez vagabundeando no Texas
ter assistido a uma caça aos corvos, cem fazendeiros com cem espingardas
batendo uma punheta no céu com um pênis gigante de ódio
e os corvos caíam semimortos, semivivos,
e eles os matavam a pauladas para economizar as balas
mas ficaram sem balas antes de ficar sem corvos
e os corvos retornaram e caminharam em torno dos projéteis e
projetaram suas línguas
e fizeram luto por seus mortos e elegeram novos líderes
e depois de uma vez só voaram para casa para foder e preencher o vazio.
você só pode matar o que não deveria estar lá,
e Finkelstein deveria estar lá e meu relógio
e talvez eu mesmo, e eu percebo que se os poemas são ruins
é esperado que sejam ruins e se eles são bons
é esperado também que assim o sejam – embora haja uma luta
menor a ser lutada,
mas ainda assim sigo triste
porque estou nesta pequena cidade em algum lugar de uma terra má,
completamente fora de mão, sem ao menos querer estar aqui,
dois dólares na carteira, e um agricultor se voltou para mim
e me perguntou que horas eram
e eu não pude lhe dizer,
e mais tarde eles reuniram os bichos para fazer uma fogueira
como se não fossem melhores do que estrume com penas,
penas e um pouco de gasolina,
e do topo de uma das pilhas
um corvo não bem morto me sorriu.
eram 16:35.
que está no Finkelstein
que foi premiado com 3 bolas
mas nenhum coração, mas você precisa entender
quando o touro ataca
ou a puta, o coração é posto de lado por alguma outra coisa,
e não vamos supervalorizar a óbvia decência
porque num jogo de merda você pode estar liquidando
algum rei vacilante de 6 crianças
e uma hemorroida em seu último cheque do seguro desemprego,
e quem pode dizer que a rosa é maior do que o espinho?
eu não, Henry,
e quando seu amor fica com os joelhos frouxos e prefere rasteirinhas,
talvez você devesse ter se enfiado em alguma coisa diferente
como um poço de petróleo
ou uma manada de vacas.
estou velho demais para discutir,
me acabei com o poema
e fui nocauteado pelo velho golpe de surpresa
assalto depois de assalto,
mas às vezes eu gosto de pensar no Kaiser
ou em qualquer outro imbecil cheio de medalhas e nada mais,
ou na primeira vez que lemos o Dos
ou o Eliot com as calças enroladas;
o tempo está quente na parte de trás do meu relógio
que está no Finkelstein,
mas você sabe o que eles dizem: as coisas são duras em toda a parte,
e eu me lembro de uma vez vagabundeando no Texas
ter assistido a uma caça aos corvos, cem fazendeiros com cem espingardas
batendo uma punheta no céu com um pênis gigante de ódio
e os corvos caíam semimortos, semivivos,
e eles os matavam a pauladas para economizar as balas
mas ficaram sem balas antes de ficar sem corvos
e os corvos retornaram e caminharam em torno dos projéteis e
projetaram suas línguas
e fizeram luto por seus mortos e elegeram novos líderes
e depois de uma vez só voaram para casa para foder e preencher o vazio.
você só pode matar o que não deveria estar lá,
e Finkelstein deveria estar lá e meu relógio
e talvez eu mesmo, e eu percebo que se os poemas são ruins
é esperado que sejam ruins e se eles são bons
é esperado também que assim o sejam – embora haja uma luta
menor a ser lutada,
mas ainda assim sigo triste
porque estou nesta pequena cidade em algum lugar de uma terra má,
completamente fora de mão, sem ao menos querer estar aqui,
dois dólares na carteira, e um agricultor se voltou para mim
e me perguntou que horas eram
e eu não pude lhe dizer,
e mais tarde eles reuniram os bichos para fazer uma fogueira
como se não fossem melhores do que estrume com penas,
penas e um pouco de gasolina,
e do topo de uma das pilhas
um corvo não bem morto me sorriu.
eram 16:35.
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