Poemas neste tema
Outros
Charles Bukowski
Nota Para Uma Senhora Que Esperava Rupert Brooke
quê, o que você esperava? um colegial ceceando Donne? ou
um amante mais prático enchendo-a com o fedor da Vida?
sou um tolo não um cavalheiro: cruzo a Brooklyn Bridge
com Crane de pijama, mas o suicídio não funciona quando se fica velho:
há cada vez menos a matar.
então entre a pele e as costeletas de cordeiro, as enfermas gravatas
de outros armários, eu tramo tramas redondas como laranjas
preenchidas com a música de meu habilidoso resmungar.
Brooke? não. sou um macaco com uma azeitona perdida no
circo de areia de sua risada, primatas de circo, tigres de circo,
dementes financistas de circo trepando com suas secretárias antes
das 5:15... e o que você esperava?
uma face rosada driblando as cores de Picasso em seu cérebro seco?
então, o quarto estava azul com a fumaça de minha fervura, diabos,
um mar insensível
e eu sinto dedos baratinados até a última parte de seu suco,
sinto através de vinhas espinhentas amaldiçoando seu nome,
nenhum cavalheiro
nenhum cavalheiro,
o amor rejeitado como mordida de cobra,
a varanda zunindo de moscas, zunindo de moscas
e mentiras, e sua boca vermelha que gritava,
suas lâmpadas que gritavam
quebrando como contas em atraso:
BÊBADO! BÊBADO DE NOVO!
AH, SEU IDIOTA!
então, Yeats, Keats, bicos de seios... nada além de um damasco!
o que, o que houve com a Espanha? meu bom Lorca?
a revolução? é preciso juntar-se à brigada!
deixe-me sair daqui!
um amante mais prático enchendo-a com o fedor da Vida?
sou um tolo não um cavalheiro: cruzo a Brooklyn Bridge
com Crane de pijama, mas o suicídio não funciona quando se fica velho:
há cada vez menos a matar.
então entre a pele e as costeletas de cordeiro, as enfermas gravatas
de outros armários, eu tramo tramas redondas como laranjas
preenchidas com a música de meu habilidoso resmungar.
Brooke? não. sou um macaco com uma azeitona perdida no
circo de areia de sua risada, primatas de circo, tigres de circo,
dementes financistas de circo trepando com suas secretárias antes
das 5:15... e o que você esperava?
uma face rosada driblando as cores de Picasso em seu cérebro seco?
então, o quarto estava azul com a fumaça de minha fervura, diabos,
um mar insensível
e eu sinto dedos baratinados até a última parte de seu suco,
sinto através de vinhas espinhentas amaldiçoando seu nome,
nenhum cavalheiro
nenhum cavalheiro,
o amor rejeitado como mordida de cobra,
a varanda zunindo de moscas, zunindo de moscas
e mentiras, e sua boca vermelha que gritava,
suas lâmpadas que gritavam
quebrando como contas em atraso:
BÊBADO! BÊBADO DE NOVO!
AH, SEU IDIOTA!
então, Yeats, Keats, bicos de seios... nada além de um damasco!
o que, o que houve com a Espanha? meu bom Lorca?
a revolução? é preciso juntar-se à brigada!
deixe-me sair daqui!
1 009
Charles Bukowski
Amor
amor, ele disse, gás
me beije todo
beije meus lábios
beije meus cabelos
meus dedos
meus olhos meu cérebro
faça-me esquecer
amor, ele disse, gás
ele tinha um quarto no terceiro andar,
rejeitado por uma dúzia de mulheres
35 editores
e por meia dúzia de agências de serviços,
agora eu não estou dizendo que ele valesse alguma
coisa
ele abriu todas as bocas
sem acendê-las
e foi para a cama
algumas horas depois um cara a caminho
do quarto 309
acendeu um charuto no
corredor
e um sofá voou pela janela
uma parede chacoalhou feito areia molhada
uma chama púrpura bailou doze metros no ar
o cara na cama
não se importou ou deu bola pra isso
mas eu precisava dizer
que ele esteve muito bem
naquele dia
me beije todo
beije meus lábios
beije meus cabelos
meus dedos
meus olhos meu cérebro
faça-me esquecer
amor, ele disse, gás
ele tinha um quarto no terceiro andar,
rejeitado por uma dúzia de mulheres
35 editores
e por meia dúzia de agências de serviços,
agora eu não estou dizendo que ele valesse alguma
coisa
ele abriu todas as bocas
sem acendê-las
e foi para a cama
algumas horas depois um cara a caminho
do quarto 309
acendeu um charuto no
corredor
e um sofá voou pela janela
uma parede chacoalhou feito areia molhada
uma chama púrpura bailou doze metros no ar
o cara na cama
não se importou ou deu bola pra isso
mas eu precisava dizer
que ele esteve muito bem
naquele dia
1 252
Charles Bukowski
O Caminho
assassinado nos becos da terra
congelado à morte contra mastros de bandeiras
penhorado por mulheres
educado na escuridão para a escuridão
vomitando em privadas entupidas
em quartos de aluguel tomados por ratos e baratas
não surpreende que raramente cantemos
dia ou tarde ou noite
as guerras inúteis
os anos inúteis
os amores inúteis
e eles nos perguntam,
por que você bebe tanto?
bem, suponho que os dias sejam feitos
para serem desperdiçados
os anos e os amores são feitos
para serem desperdiçados.
não podemos chorar, e ajuda sorrir –
é como deixar brotar
sonhos, ideais
venenos
não nos peça para cantar,
as risadas cantam por nós,
você percebe, era uma piada de mau gosto
Cristo deveria ter rido na cruz
isto teria petrificado seus assassinos
agora há mais assassinos do que nunca
e eu escrevo poemas para eles.
congelado à morte contra mastros de bandeiras
penhorado por mulheres
educado na escuridão para a escuridão
vomitando em privadas entupidas
em quartos de aluguel tomados por ratos e baratas
não surpreende que raramente cantemos
dia ou tarde ou noite
as guerras inúteis
os anos inúteis
os amores inúteis
e eles nos perguntam,
por que você bebe tanto?
bem, suponho que os dias sejam feitos
para serem desperdiçados
os anos e os amores são feitos
para serem desperdiçados.
não podemos chorar, e ajuda sorrir –
é como deixar brotar
sonhos, ideais
venenos
não nos peça para cantar,
as risadas cantam por nós,
você percebe, era uma piada de mau gosto
Cristo deveria ter rido na cruz
isto teria petrificado seus assassinos
agora há mais assassinos do que nunca
e eu escrevo poemas para eles.
1 192
Charles Bukowski
Tevê
fui a este lugar para ver um filme
na tevê
Alexandre, o Grande
e aí vêm os exércitos
ta ta ta
cavalos, lanças, facas, espadas, escudos,
homens caindo...
então uma troca para um campeonato de patinação –
eis uma garota estrangulando a outra,
então de volta a Alexandre –
um cara salta e mata o pai do Alex,
Alex mata o cara, Alex é rei,
de volta ao campeonato de patinação –
um homem caiu atravessado na pista e outro homem lhe golpeia a cabeça
com os patins –
e aí vêm os exércitos
eles parecem combater numa caverna, há fumaça e
chamas, espadas,
homens cadentes –
os Thunderbirds estão atrás,
uma garota mergulha debaixo do rabo de outra garota,
joga-a contra a guarda –
Alexandre fica ali parado ouvindo um cara que segura
uma taça de vinho na mão, e este rapaz está realmente dizendo a
Alex como e onde, você sabe, e ele lhe dá as costas para se afastar
e Alex o atravessa com uma lança –
os Thunderbirds estão atrás, eles preparam
Big John –
ta ta ta, aí vêm os exércitos
eles se movem com espalhafato através das águas
através das florestas, eles vêm para tomar
tudo
ta ta ta –
Big John não conseguiu,
as garotas estão soltas mais uma vez –
Alexandre está morrendo
e eles passam por seu pálio ao ar livre
ele está vestido com um refinado uniforme negro e se parece com
Richard Burton
os garotos retiravam os elmos ao passar
e lá estava o amor de Alex ao pé do pálio, e então
Alex começa a partir, alguns homens se agitam,
alguém pergunta, Alex, quem você nomeará seu sucessor?
quem vai nos comandar?
eles esperam.
ele diz, o mais forte, e ele morre
deixam-nos ver as nuvens, os céus,
a imensidade, e –
os Thunderbirds conseguem dar um jeito
nos últimos 12 segundos, vencem por
112 a 110,
a multidão se deixa levar pela Alegria,
mercúrio sangra em direção à luz,
boa noite, doce príncipe,
ave Maria,
Jesus Cristo, que
noite.
na tevê
Alexandre, o Grande
e aí vêm os exércitos
ta ta ta
cavalos, lanças, facas, espadas, escudos,
homens caindo...
então uma troca para um campeonato de patinação –
eis uma garota estrangulando a outra,
então de volta a Alexandre –
um cara salta e mata o pai do Alex,
Alex mata o cara, Alex é rei,
de volta ao campeonato de patinação –
um homem caiu atravessado na pista e outro homem lhe golpeia a cabeça
com os patins –
e aí vêm os exércitos
eles parecem combater numa caverna, há fumaça e
chamas, espadas,
homens cadentes –
os Thunderbirds estão atrás,
uma garota mergulha debaixo do rabo de outra garota,
joga-a contra a guarda –
Alexandre fica ali parado ouvindo um cara que segura
uma taça de vinho na mão, e este rapaz está realmente dizendo a
Alex como e onde, você sabe, e ele lhe dá as costas para se afastar
e Alex o atravessa com uma lança –
os Thunderbirds estão atrás, eles preparam
Big John –
ta ta ta, aí vêm os exércitos
eles se movem com espalhafato através das águas
através das florestas, eles vêm para tomar
tudo
ta ta ta –
Big John não conseguiu,
as garotas estão soltas mais uma vez –
Alexandre está morrendo
e eles passam por seu pálio ao ar livre
ele está vestido com um refinado uniforme negro e se parece com
Richard Burton
os garotos retiravam os elmos ao passar
e lá estava o amor de Alex ao pé do pálio, e então
Alex começa a partir, alguns homens se agitam,
alguém pergunta, Alex, quem você nomeará seu sucessor?
quem vai nos comandar?
eles esperam.
ele diz, o mais forte, e ele morre
deixam-nos ver as nuvens, os céus,
a imensidade, e –
os Thunderbirds conseguem dar um jeito
nos últimos 12 segundos, vencem por
112 a 110,
a multidão se deixa levar pela Alegria,
mercúrio sangra em direção à luz,
boa noite, doce príncipe,
ave Maria,
Jesus Cristo, que
noite.
1 134
Charles Bukowski
Nervos
contorcendo-se nos lençóis –
para encarar a luz do sol mais uma vez,
isso é problema
na certa.
gosto bem mais da cidade quando as
luzes de neon cintilam e
os corpos nus dançam sobre o balcão de um
bar
ao som da música violenta.
estou aqui debaixo deste lençol
pensando.
meus nervos estão entorpecidos pela
história –
a preocupação mais memorável da humanidade
é a coragem necessária para
encarar a luz do sol mais uma vez.
o amor começa com o encontro de dois
estranhos. amor ao mundo é
impossível. prefiro ficar na cama
e dormir.
desnorteado pelos dias e pelas ruas e pelos anos
puxo as cobertas até o pescoço.
viro minha bunda para a parede.
odeio as manhãs mais do que a
qualquer homem.
para encarar a luz do sol mais uma vez,
isso é problema
na certa.
gosto bem mais da cidade quando as
luzes de neon cintilam e
os corpos nus dançam sobre o balcão de um
bar
ao som da música violenta.
estou aqui debaixo deste lençol
pensando.
meus nervos estão entorpecidos pela
história –
a preocupação mais memorável da humanidade
é a coragem necessária para
encarar a luz do sol mais uma vez.
o amor começa com o encontro de dois
estranhos. amor ao mundo é
impossível. prefiro ficar na cama
e dormir.
desnorteado pelos dias e pelas ruas e pelos anos
puxo as cobertas até o pescoço.
viro minha bunda para a parede.
odeio as manhãs mais do que a
qualquer homem.
777
Charles Bukowski
Crianças No Céu
os garotos aparecem
os garotos escalam o
poste marrom
enquanto os aquecedores borbulham
na Espanha
os garotos escalam o
poste marrom –
Carlos Magno lutou por isto
Il Duce foi arrancado de seu carro
a pele arrancada feito um urso
e enforcado
de cabeça para baixo
por isto –
os meninos escalam
o poste marrom
3 ou 4
deles;
recém nos mudamos para
este prédio,
as pinturas ainda
guardadas, as cartas da
Inglaterra e de Chicago e
Cheyenne e
Nova Orleans,
mas a cerveja já acondicionada
e há 5 laranjas
e 4 peras sobre a mesa
então a vida não é tão
ruim
exceto pelo fato de que alguém quer
$15 para
ligar o gás;
os garotos sobem no poste de telefone
para pular sobre os tetos
azul-esverdeados
das garagens
e eu fico parado e nu
atrás de uma cortina,
fumando um charuto,
e impressionado,
impressionado como ficaria
se
a Virgem Maria
estivesse dançando
lá fora;
e através da janela
para o norte
posso ver 2 homens
alimentando
45 pombos
e os pombos
caminham em círculos separados
de 8 ou 10
como se estivessem atados uns aos outros
por uma corda girante,
e são três horas
da tarde e também
um bom charuto.
Cícero lutou por isto,
Jake LaMotta e
Waslaw Nijinsky,
mas alguém roubou
nosso violão
e eu não tomei minhas
vitaminas
por semanas.
os garotos correm pelos
telhados azul-esverdeados
enquanto ao norte os
pombos voam;
é desesperadoramente
sagrado
e eu exalo
uma fumaça cinzenta e
silenciosa.
então uma mulher num casaco vermelho,
evidentemente uma oficial,
alguma matrona do
aprendizado
decide que
o céu precisa de
limpeza:
Ei!!! garotos
desçam DAÍ
de uma vez!
é um belíssimo
cervo
correndo de um
caçador.
Agrippina lutou por isto,
até mesmo Mithridates,
até mesmo William Hazlitt.
não há nada mais a fazer
agora
senão desempacotar.
os garotos escalam o
poste marrom
enquanto os aquecedores borbulham
na Espanha
os garotos escalam o
poste marrom –
Carlos Magno lutou por isto
Il Duce foi arrancado de seu carro
a pele arrancada feito um urso
e enforcado
de cabeça para baixo
por isto –
os meninos escalam
o poste marrom
3 ou 4
deles;
recém nos mudamos para
este prédio,
as pinturas ainda
guardadas, as cartas da
Inglaterra e de Chicago e
Cheyenne e
Nova Orleans,
mas a cerveja já acondicionada
e há 5 laranjas
e 4 peras sobre a mesa
então a vida não é tão
ruim
exceto pelo fato de que alguém quer
$15 para
ligar o gás;
os garotos sobem no poste de telefone
para pular sobre os tetos
azul-esverdeados
das garagens
e eu fico parado e nu
atrás de uma cortina,
fumando um charuto,
e impressionado,
impressionado como ficaria
se
a Virgem Maria
estivesse dançando
lá fora;
e através da janela
para o norte
posso ver 2 homens
alimentando
45 pombos
e os pombos
caminham em círculos separados
de 8 ou 10
como se estivessem atados uns aos outros
por uma corda girante,
e são três horas
da tarde e também
um bom charuto.
Cícero lutou por isto,
Jake LaMotta e
Waslaw Nijinsky,
mas alguém roubou
nosso violão
e eu não tomei minhas
vitaminas
por semanas.
os garotos correm pelos
telhados azul-esverdeados
enquanto ao norte os
pombos voam;
é desesperadoramente
sagrado
e eu exalo
uma fumaça cinzenta e
silenciosa.
então uma mulher num casaco vermelho,
evidentemente uma oficial,
alguma matrona do
aprendizado
decide que
o céu precisa de
limpeza:
Ei!!! garotos
desçam DAÍ
de uma vez!
é um belíssimo
cervo
correndo de um
caçador.
Agrippina lutou por isto,
até mesmo Mithridates,
até mesmo William Hazlitt.
não há nada mais a fazer
agora
senão desempacotar.
650
Charles Bukowski
Uma Dose de Uísque Barato
eu costumava segurar meu cartão da previdência
alto no ar,
ele me disse,
mas eu era tão pequeno,
eles não podiam me ver,
todos aqueles grandalhões
a minha volta.
você está falando daquele lugar
com a grande tela verde?
perguntei.
sim. bem, não importa, eu finalmente consegui entrar
dias atrás
para colher tomates, e Jesus Cristo,
eu não conseguia ir a lugar nenhum
fazia um calor dos diabos, muito calor
e eu não conseguia colocar nenhum no saco
então me deitei debaixo do caminhão
na sombra e fiquei bebendo
vinho. Não consegui ganhar
dez centavos.
tome uma bebida, eu disse.
claro, ele disse.
duas mulheres enormes entraram e
eu digo ENORMES
e elas se sentaram junto
a nós.
uma dose de uísque barato, uma delas
disse ao atendente.
pra mim também, disse a outra.
elas fizeram subir os vestidos
em volta dos quadris e
cruzaram as pernas.
ai, ai. acho que vou pirar, eu disse
a meu amigo que colhia tomates.
Jesus, ele disse, Jesus Cristinho, não
acredito no que estou vendo.
está tudo
ali, eu disse.
você é um lutador? a mais próxima de mim
perguntou.
não, eu disse.
o que aconteceu com seu
rosto?
um acidente de automóvel na autoestrada de
San Berdoo. um bêbado passou por cima da mureta. eu
era o bêbado.
quantos anos você tem, papi?
sou velho o bastante para saber uns truques, eu disse,
despejando as cinzas de meu charuto na cerveja para me dar
força.
sabe mesmo uns truques? ela perguntou.
você já foi perseguida pelo Mojave e
estuprada?
não, ela disse.
puxei minha última nota de 20 e com o abandono
de um velho homem viril pedi
quatro bebidas.
as duas garotas sorriram e ergueram ainda mais
seus vestidos, como se isso fosse possível.
quem é seu amigo? elas perguntaram.
este é o Lord Chesterfield, eu disse a elas.
prazer em conhecer você, elas
ecoaram.
olá, vadias, ele respondeu.
atravessamos o túnel da rua 3 até chegarmos
a um hotel verde. as garotas tinham uma
chave.
havia apenas uma cama e todos deitamos
nela. não sei quem pegou
quem.
na manhã seguinte meu amigo e eu
acabamos no Mercado dos Trabalhadores Rurais
na rua San Pedro
segurando e balançando nossos
cartões da previdência.
eles não conseguiram ver o
dele.
fui o último a entrar no caminhão. uma mulher grande ficou
grudada em mim. ela cheirava a
vinho do Porto.
doçura, o que diabos aconteceu com a sua
cara?
numa feira, um urso dançarino que não
dançou.
mentira, ela disse.
talvez, eu disse, mas mantenha suas mãos
longe dos meus
bagos. está todo mundo olhando.
quando chegamos à
plantação o sol ia
já alto
e o mundo
parecia
horrível.
alto no ar,
ele me disse,
mas eu era tão pequeno,
eles não podiam me ver,
todos aqueles grandalhões
a minha volta.
você está falando daquele lugar
com a grande tela verde?
perguntei.
sim. bem, não importa, eu finalmente consegui entrar
dias atrás
para colher tomates, e Jesus Cristo,
eu não conseguia ir a lugar nenhum
fazia um calor dos diabos, muito calor
e eu não conseguia colocar nenhum no saco
então me deitei debaixo do caminhão
na sombra e fiquei bebendo
vinho. Não consegui ganhar
dez centavos.
tome uma bebida, eu disse.
claro, ele disse.
duas mulheres enormes entraram e
eu digo ENORMES
e elas se sentaram junto
a nós.
uma dose de uísque barato, uma delas
disse ao atendente.
pra mim também, disse a outra.
elas fizeram subir os vestidos
em volta dos quadris e
cruzaram as pernas.
ai, ai. acho que vou pirar, eu disse
a meu amigo que colhia tomates.
Jesus, ele disse, Jesus Cristinho, não
acredito no que estou vendo.
está tudo
ali, eu disse.
você é um lutador? a mais próxima de mim
perguntou.
não, eu disse.
o que aconteceu com seu
rosto?
um acidente de automóvel na autoestrada de
San Berdoo. um bêbado passou por cima da mureta. eu
era o bêbado.
quantos anos você tem, papi?
sou velho o bastante para saber uns truques, eu disse,
despejando as cinzas de meu charuto na cerveja para me dar
força.
sabe mesmo uns truques? ela perguntou.
você já foi perseguida pelo Mojave e
estuprada?
não, ela disse.
puxei minha última nota de 20 e com o abandono
de um velho homem viril pedi
quatro bebidas.
as duas garotas sorriram e ergueram ainda mais
seus vestidos, como se isso fosse possível.
quem é seu amigo? elas perguntaram.
este é o Lord Chesterfield, eu disse a elas.
prazer em conhecer você, elas
ecoaram.
olá, vadias, ele respondeu.
atravessamos o túnel da rua 3 até chegarmos
a um hotel verde. as garotas tinham uma
chave.
havia apenas uma cama e todos deitamos
nela. não sei quem pegou
quem.
na manhã seguinte meu amigo e eu
acabamos no Mercado dos Trabalhadores Rurais
na rua San Pedro
segurando e balançando nossos
cartões da previdência.
eles não conseguiram ver o
dele.
fui o último a entrar no caminhão. uma mulher grande ficou
grudada em mim. ela cheirava a
vinho do Porto.
doçura, o que diabos aconteceu com a sua
cara?
numa feira, um urso dançarino que não
dançou.
mentira, ela disse.
talvez, eu disse, mas mantenha suas mãos
longe dos meus
bagos. está todo mundo olhando.
quando chegamos à
plantação o sol ia
já alto
e o mundo
parecia
horrível.
1 075
Charles Bukowski
John Dillinger E Le Chasseur Maudit
é uma desgraça, e simplesmente não é o estilo, mas não estou nem aí:
garotas me lembram cabelos no ralo, garotas me lembram de intestinos
e bexigas e movimentos excretórios; é uma desgraça que também
carrocinhas de sorvete, bebês, válvulas de motor, plagióstomos, palmeiras,
passos no corredor... tudo isso me excita com a fria calma
de uma lápide; em nenhum lugar, talvez, haja santuário exceto
em ouvir falar que houve antes outros homens desesperados:
Dillinger, Rimbaud, Villon, Babyface Nelson, Sêneca, Van Gogh,
ou mulheres desesperadas: lutadoras, enfermeiras, garçonetes, prostitutas
poetas... ainda que
eu considere que o estalar dos gelos na forma seja importante
ou um rato farejando uma lata de cerveja vazia –
dois vazios profundos se encarando,
ou o mar noturno entupido de asquerosos navios
que entram pela cuidadosa teia de seu cérebro com suas luzes,
com suas luzes salgadas
que tocam você e o abandonam
pelo amor mais sólido de alguma Índia;
ou dirigir longas distâncias sem nenhuma razão
dormir drogado entre janelas abertas que
rasgam e golpeiam sua camisa como um pássaro assustado,
e sempre os semáforos, sempre vermelhos,
fogo noturno e derrota, derrota...
escorpiões, pancadarias, fardos:
ex-empregos, ex-mulheres, ex-rostos, ex-vidas,
Beethoven em sua cova tão morto como uma beterraba;
carretas vermelhas, sim, talvez,
ou uma carta do Inferno assinada pelo diabo
ou dois bons rapazes mandando porrada um no outro
em algum estádio de segunda cheio de fumaça urrante,
mas a maior parte do tempo, nem aí, eu sentado aqui
com a boca cheia de dentes podres,
sentado aqui lendo Herrick e Spenser e
Marvell e Hopkins e Brontë (Emily, hoje);
e ouvindo A bruxa do meio-dia do Dvorak
ou Le Chasseur Maudit do Franck,
de fato não estou nem aí pra nada, e isso é uma desgraça:
venho recebendo cartas de um jovem poeta
(muito jovem, ao que parece) me dizendo que algum dia
serei seguramente reconhecido como
um dos maiores poetas do mundo. Poeta!
uma má conduta: hoje caminhei ao sol pelas ruas
desta cidade: vendo nada, aprendendo nada, sendo
nada, para depois voltar ao meu quarto
passei por uma velha senhora que sorria um sorriso horrendo;
ela já estava morta, e em toda a parte eu me lembrava de cabos:
cabos de telefone, cabos da rede elétrica, cabos para rostos elétricos
encurralados como peixes dourados no aquário e sorrindo,
e os pássaros já se foram, nenhum dos pássaros a fim de cabos
ou sorrisos de cabos
e eu fecho minha porta (finalmente)
mas através das janelas seguia tudo igual:
uma buzina soou, alguém riu, outro deu a descarga,
e então de um jeito estranho
pensei em todos os cavalos numerados
que se foram ao som do grito,
como Sócrates, como Lorca,
como Chatterton...
prefiro imaginar que nossas mortes não importarão muita coisa
senão como uma questão exposta, um problema,
como pôr o lixo para fora,
e ainda que eu tenha guardado as cartas do jovem poeta
não acredito nelas
mas feito as
palmeiras enfermas
e o pôr do sol
eu de vez em quando as olho.
garotas me lembram cabelos no ralo, garotas me lembram de intestinos
e bexigas e movimentos excretórios; é uma desgraça que também
carrocinhas de sorvete, bebês, válvulas de motor, plagióstomos, palmeiras,
passos no corredor... tudo isso me excita com a fria calma
de uma lápide; em nenhum lugar, talvez, haja santuário exceto
em ouvir falar que houve antes outros homens desesperados:
Dillinger, Rimbaud, Villon, Babyface Nelson, Sêneca, Van Gogh,
ou mulheres desesperadas: lutadoras, enfermeiras, garçonetes, prostitutas
poetas... ainda que
eu considere que o estalar dos gelos na forma seja importante
ou um rato farejando uma lata de cerveja vazia –
dois vazios profundos se encarando,
ou o mar noturno entupido de asquerosos navios
que entram pela cuidadosa teia de seu cérebro com suas luzes,
com suas luzes salgadas
que tocam você e o abandonam
pelo amor mais sólido de alguma Índia;
ou dirigir longas distâncias sem nenhuma razão
dormir drogado entre janelas abertas que
rasgam e golpeiam sua camisa como um pássaro assustado,
e sempre os semáforos, sempre vermelhos,
fogo noturno e derrota, derrota...
escorpiões, pancadarias, fardos:
ex-empregos, ex-mulheres, ex-rostos, ex-vidas,
Beethoven em sua cova tão morto como uma beterraba;
carretas vermelhas, sim, talvez,
ou uma carta do Inferno assinada pelo diabo
ou dois bons rapazes mandando porrada um no outro
em algum estádio de segunda cheio de fumaça urrante,
mas a maior parte do tempo, nem aí, eu sentado aqui
com a boca cheia de dentes podres,
sentado aqui lendo Herrick e Spenser e
Marvell e Hopkins e Brontë (Emily, hoje);
e ouvindo A bruxa do meio-dia do Dvorak
ou Le Chasseur Maudit do Franck,
de fato não estou nem aí pra nada, e isso é uma desgraça:
venho recebendo cartas de um jovem poeta
(muito jovem, ao que parece) me dizendo que algum dia
serei seguramente reconhecido como
um dos maiores poetas do mundo. Poeta!
uma má conduta: hoje caminhei ao sol pelas ruas
desta cidade: vendo nada, aprendendo nada, sendo
nada, para depois voltar ao meu quarto
passei por uma velha senhora que sorria um sorriso horrendo;
ela já estava morta, e em toda a parte eu me lembrava de cabos:
cabos de telefone, cabos da rede elétrica, cabos para rostos elétricos
encurralados como peixes dourados no aquário e sorrindo,
e os pássaros já se foram, nenhum dos pássaros a fim de cabos
ou sorrisos de cabos
e eu fecho minha porta (finalmente)
mas através das janelas seguia tudo igual:
uma buzina soou, alguém riu, outro deu a descarga,
e então de um jeito estranho
pensei em todos os cavalos numerados
que se foram ao som do grito,
como Sócrates, como Lorca,
como Chatterton...
prefiro imaginar que nossas mortes não importarão muita coisa
senão como uma questão exposta, um problema,
como pôr o lixo para fora,
e ainda que eu tenha guardado as cartas do jovem poeta
não acredito nelas
mas feito as
palmeiras enfermas
e o pôr do sol
eu de vez em quando as olho.
639
Charles Bukowski
John Dillinger E Le Chasseur Maudit
é uma desgraça, e simplesmente não é o estilo, mas não estou nem aí:
garotas me lembram cabelos no ralo, garotas me lembram de intestinos
e bexigas e movimentos excretórios; é uma desgraça que também
carrocinhas de sorvete, bebês, válvulas de motor, plagióstomos, palmeiras,
passos no corredor... tudo isso me excita com a fria calma
de uma lápide; em nenhum lugar, talvez, haja santuário exceto
em ouvir falar que houve antes outros homens desesperados:
Dillinger, Rimbaud, Villon, Babyface Nelson, Sêneca, Van Gogh,
ou mulheres desesperadas: lutadoras, enfermeiras, garçonetes, prostitutas
poetas... ainda que
eu considere que o estalar dos gelos na forma seja importante
ou um rato farejando uma lata de cerveja vazia –
dois vazios profundos se encarando,
ou o mar noturno entupido de asquerosos navios
que entram pela cuidadosa teia de seu cérebro com suas luzes,
com suas luzes salgadas
que tocam você e o abandonam
pelo amor mais sólido de alguma Índia;
ou dirigir longas distâncias sem nenhuma razão
dormir drogado entre janelas abertas que
rasgam e golpeiam sua camisa como um pássaro assustado,
e sempre os semáforos, sempre vermelhos,
fogo noturno e derrota, derrota...
escorpiões, pancadarias, fardos:
ex-empregos, ex-mulheres, ex-rostos, ex-vidas,
Beethoven em sua cova tão morto como uma beterraba;
carretas vermelhas, sim, talvez,
ou uma carta do Inferno assinada pelo diabo
ou dois bons rapazes mandando porrada um no outro
em algum estádio de segunda cheio de fumaça urrante,
mas a maior parte do tempo, nem aí, eu sentado aqui
com a boca cheia de dentes podres,
sentado aqui lendo Herrick e Spenser e
Marvell e Hopkins e Brontë (Emily, hoje);
e ouvindo A bruxa do meio-dia do Dvorak
ou Le Chasseur Maudit do Franck,
de fato não estou nem aí pra nada, e isso é uma desgraça:
venho recebendo cartas de um jovem poeta
(muito jovem, ao que parece) me dizendo que algum dia
serei seguramente reconhecido como
um dos maiores poetas do mundo. Poeta!
uma má conduta: hoje caminhei ao sol pelas ruas
desta cidade: vendo nada, aprendendo nada, sendo
nada, para depois voltar ao meu quarto
passei por uma velha senhora que sorria um sorriso horrendo;
ela já estava morta, e em toda a parte eu me lembrava de cabos:
cabos de telefone, cabos da rede elétrica, cabos para rostos elétricos
encurralados como peixes dourados no aquário e sorrindo,
e os pássaros já se foram, nenhum dos pássaros a fim de cabos
ou sorrisos de cabos
e eu fecho minha porta (finalmente)
mas através das janelas seguia tudo igual:
uma buzina soou, alguém riu, outro deu a descarga,
e então de um jeito estranho
pensei em todos os cavalos numerados
que se foram ao som do grito,
como Sócrates, como Lorca,
como Chatterton...
prefiro imaginar que nossas mortes não importarão muita coisa
senão como uma questão exposta, um problema,
como pôr o lixo para fora,
e ainda que eu tenha guardado as cartas do jovem poeta
não acredito nelas
mas feito as
palmeiras enfermas
e o pôr do sol
eu de vez em quando as olho.
garotas me lembram cabelos no ralo, garotas me lembram de intestinos
e bexigas e movimentos excretórios; é uma desgraça que também
carrocinhas de sorvete, bebês, válvulas de motor, plagióstomos, palmeiras,
passos no corredor... tudo isso me excita com a fria calma
de uma lápide; em nenhum lugar, talvez, haja santuário exceto
em ouvir falar que houve antes outros homens desesperados:
Dillinger, Rimbaud, Villon, Babyface Nelson, Sêneca, Van Gogh,
ou mulheres desesperadas: lutadoras, enfermeiras, garçonetes, prostitutas
poetas... ainda que
eu considere que o estalar dos gelos na forma seja importante
ou um rato farejando uma lata de cerveja vazia –
dois vazios profundos se encarando,
ou o mar noturno entupido de asquerosos navios
que entram pela cuidadosa teia de seu cérebro com suas luzes,
com suas luzes salgadas
que tocam você e o abandonam
pelo amor mais sólido de alguma Índia;
ou dirigir longas distâncias sem nenhuma razão
dormir drogado entre janelas abertas que
rasgam e golpeiam sua camisa como um pássaro assustado,
e sempre os semáforos, sempre vermelhos,
fogo noturno e derrota, derrota...
escorpiões, pancadarias, fardos:
ex-empregos, ex-mulheres, ex-rostos, ex-vidas,
Beethoven em sua cova tão morto como uma beterraba;
carretas vermelhas, sim, talvez,
ou uma carta do Inferno assinada pelo diabo
ou dois bons rapazes mandando porrada um no outro
em algum estádio de segunda cheio de fumaça urrante,
mas a maior parte do tempo, nem aí, eu sentado aqui
com a boca cheia de dentes podres,
sentado aqui lendo Herrick e Spenser e
Marvell e Hopkins e Brontë (Emily, hoje);
e ouvindo A bruxa do meio-dia do Dvorak
ou Le Chasseur Maudit do Franck,
de fato não estou nem aí pra nada, e isso é uma desgraça:
venho recebendo cartas de um jovem poeta
(muito jovem, ao que parece) me dizendo que algum dia
serei seguramente reconhecido como
um dos maiores poetas do mundo. Poeta!
uma má conduta: hoje caminhei ao sol pelas ruas
desta cidade: vendo nada, aprendendo nada, sendo
nada, para depois voltar ao meu quarto
passei por uma velha senhora que sorria um sorriso horrendo;
ela já estava morta, e em toda a parte eu me lembrava de cabos:
cabos de telefone, cabos da rede elétrica, cabos para rostos elétricos
encurralados como peixes dourados no aquário e sorrindo,
e os pássaros já se foram, nenhum dos pássaros a fim de cabos
ou sorrisos de cabos
e eu fecho minha porta (finalmente)
mas através das janelas seguia tudo igual:
uma buzina soou, alguém riu, outro deu a descarga,
e então de um jeito estranho
pensei em todos os cavalos numerados
que se foram ao som do grito,
como Sócrates, como Lorca,
como Chatterton...
prefiro imaginar que nossas mortes não importarão muita coisa
senão como uma questão exposta, um problema,
como pôr o lixo para fora,
e ainda que eu tenha guardado as cartas do jovem poeta
não acredito nelas
mas feito as
palmeiras enfermas
e o pôr do sol
eu de vez em quando as olho.
639
Charles Bukowski
Fora Dos Braços...
fora dos braços de um amor
e dentro dos braços de outro
fui salvo de morrer crucificado
por uma dona que fumava baseado
escrevia canções e contos,
e é muito mais doce que a anterior
muito mais doce,
e o sexo é tão bom quanto ou até melhor.
não é nada agradável ser pregado a uma cruz e lá esquecido,
é muito mais agradável esquecer um amor que não deu
certo
como todo amor
por fim
não dá certo...
é muito mais agradável fazer amor
ao longo da costa de Del Mar
no quarto 42, e depois disso
sentar na cama
beber bom vinho, falar e nos tocar
fumar
ouvindo o barulho das ondas...
já morri vezes demais
acreditando e esperando, esperando
em um quarto
olhando para as rachaduras no teto
esperando por um telefonema, uma carta, uma batida à porta, um som...
enlouquecendo ali dentro
enquanto ela dançava com estranhos em alguma boate...
fora dos braços de um amor
e dentro dos braços de outro
não é nada agradável morrer na cruz,
é muito mais agradável ouvir seu nome sussurrado no
escuro.
e dentro dos braços de outro
fui salvo de morrer crucificado
por uma dona que fumava baseado
escrevia canções e contos,
e é muito mais doce que a anterior
muito mais doce,
e o sexo é tão bom quanto ou até melhor.
não é nada agradável ser pregado a uma cruz e lá esquecido,
é muito mais agradável esquecer um amor que não deu
certo
como todo amor
por fim
não dá certo...
é muito mais agradável fazer amor
ao longo da costa de Del Mar
no quarto 42, e depois disso
sentar na cama
beber bom vinho, falar e nos tocar
fumar
ouvindo o barulho das ondas...
já morri vezes demais
acreditando e esperando, esperando
em um quarto
olhando para as rachaduras no teto
esperando por um telefonema, uma carta, uma batida à porta, um som...
enlouquecendo ali dentro
enquanto ela dançava com estranhos em alguma boate...
fora dos braços de um amor
e dentro dos braços de outro
não é nada agradável morrer na cruz,
é muito mais agradável ouvir seu nome sussurrado no
escuro.
1 035
Charles Bukowski
A Sorte É a Diferença Entre Um Bom E Um Mau Poeta
assim suponho.
eu vivia em um sótão na Filadélfia
fazia ali muito calor no verão de modo que eu ficava nos
bares. eu não tinha um puto tostão e então com os últimos trocados
paguei um pequeno anúncio no jornal em que eu dizia ser um escritor
à procura de trabalho...
o que era uma mentira descarada; eu era um escritor
em busca de um pouco de tempo e um pouco de comida e algum
para o aluguel do sótão.
alguns dias depois quando finalmente voltei para casa
vindo sei lá de onde
a senhoria disse, há alguém atrás de
você. e eu disse,
deve haver algum engano. ela disse,
não, era um escritor e ele disse que queria sua ajuda para escrever
um livro de história.
ah, maravilha, eu disse, e sabia que com isso eu tinha outra semana
de aluguel – quero dizer, para pendurar –
então fiquei ali sentado bebendo vinho a crédito e assistindo aos
pombos tórridos
sofrendo e se comendo no meu teto tórrido.
liguei o rádio a pleno volume
bebi o vinho e fiquei a me perguntar como poderia fazer um livro de história
interessante mas verdadeiro.
mas o filho da puta nunca retornou,
e eu tive por fim que me juntar a uma equipe da ferrovia
que ia para o oeste
e eles nos deram comida enlatada mas nenhum
abridor
e nós abríamos as latas contra os assentos e nas laterais dos
trens tomadas por uma poeira centenária
a comida não era cozida e a água tinha gosto de
pavio
e eu saltei fora sobre uns arbustos em algum lugar no
Texas
tudo verde e com casas bacanas à
distância
encontrei um parque
dormi a noite toda
e então eles me encontraram e me jogaram numa cela
e me perguntaram sobre assassinatos e
roubos.
queriam aliviar seus muitos inquéritos
para provar sua eficiência
mas eu não estava tão cansado
e eles me levaram para a cidade grande mais próxima
a noventa quilômetros dali
o maior deles me deu uma bica no rabo
e eles tomaram seu rumo.
mas aquilo me favoreceu:
duas semanas depois eu estava sentado no escritório da prefeitura
semiacordado ao sol como a grande mosca em meu cotovelo
e de vez em quando ela me levava até uma reunião do conselho
e eu os escutava com extrema gravidade como se soubesse o que se passava
como se soubesse como os fundos de uma cidade de merda vinham se
desmantelando.
mais tarde eu fui para a cama e acordei com marcas de dente por todo o
corpo, e disse, Cristo, veja isso, baby! assim você acaba me gerando um
câncer! e estou reescrevendo a história da Guerra da Crimeia!
e todos eles vinham até a casa dela –
todos os caubóis, todos os caubóis:
gordos, tontos, cobertos de pó.
e todos nos cumprimentamos.
eu vestia uma velha calça azul de brim, e eles diziam
ah, você é o escritor, certo?
e eu dizia: bem, alguns acham que sim.
e alguns seguem achando...
outros, claro, ainda não atingiram esta sabedoria.
duas semanas depois eles
me correram
da cidade.
eu vivia em um sótão na Filadélfia
fazia ali muito calor no verão de modo que eu ficava nos
bares. eu não tinha um puto tostão e então com os últimos trocados
paguei um pequeno anúncio no jornal em que eu dizia ser um escritor
à procura de trabalho...
o que era uma mentira descarada; eu era um escritor
em busca de um pouco de tempo e um pouco de comida e algum
para o aluguel do sótão.
alguns dias depois quando finalmente voltei para casa
vindo sei lá de onde
a senhoria disse, há alguém atrás de
você. e eu disse,
deve haver algum engano. ela disse,
não, era um escritor e ele disse que queria sua ajuda para escrever
um livro de história.
ah, maravilha, eu disse, e sabia que com isso eu tinha outra semana
de aluguel – quero dizer, para pendurar –
então fiquei ali sentado bebendo vinho a crédito e assistindo aos
pombos tórridos
sofrendo e se comendo no meu teto tórrido.
liguei o rádio a pleno volume
bebi o vinho e fiquei a me perguntar como poderia fazer um livro de história
interessante mas verdadeiro.
mas o filho da puta nunca retornou,
e eu tive por fim que me juntar a uma equipe da ferrovia
que ia para o oeste
e eles nos deram comida enlatada mas nenhum
abridor
e nós abríamos as latas contra os assentos e nas laterais dos
trens tomadas por uma poeira centenária
a comida não era cozida e a água tinha gosto de
pavio
e eu saltei fora sobre uns arbustos em algum lugar no
Texas
tudo verde e com casas bacanas à
distância
encontrei um parque
dormi a noite toda
e então eles me encontraram e me jogaram numa cela
e me perguntaram sobre assassinatos e
roubos.
queriam aliviar seus muitos inquéritos
para provar sua eficiência
mas eu não estava tão cansado
e eles me levaram para a cidade grande mais próxima
a noventa quilômetros dali
o maior deles me deu uma bica no rabo
e eles tomaram seu rumo.
mas aquilo me favoreceu:
duas semanas depois eu estava sentado no escritório da prefeitura
semiacordado ao sol como a grande mosca em meu cotovelo
e de vez em quando ela me levava até uma reunião do conselho
e eu os escutava com extrema gravidade como se soubesse o que se passava
como se soubesse como os fundos de uma cidade de merda vinham se
desmantelando.
mais tarde eu fui para a cama e acordei com marcas de dente por todo o
corpo, e disse, Cristo, veja isso, baby! assim você acaba me gerando um
câncer! e estou reescrevendo a história da Guerra da Crimeia!
e todos eles vinham até a casa dela –
todos os caubóis, todos os caubóis:
gordos, tontos, cobertos de pó.
e todos nos cumprimentamos.
eu vestia uma velha calça azul de brim, e eles diziam
ah, você é o escritor, certo?
e eu dizia: bem, alguns acham que sim.
e alguns seguem achando...
outros, claro, ainda não atingiram esta sabedoria.
duas semanas depois eles
me correram
da cidade.
1 064
Charles Bukowski
O Beijo de Boa-Noite Aos Vermes
sereno demais para morrer mas não para
matar tomo a pílula verde do meu
médico
bebo chá
enquanto os tubarões dançam através de vasos de
flores
dão dez voltas depois
vinte
buscando por meu coração
efeminado
numa noite louca de maio em
Los Angeles
domingo
alguém tocando
Beethoven
sento-me atrás de persianas baixadas
em emboscada
enquanto homens ambiciosos com seus carros novos e
novas loiras
comandam as ruas
sento-me num quarto alugado
esculpindo um rifle de madeira
desenhando retratos de mulheres nuas
touros
casos de amor
velhos
nas paredes com gizes de
cera
cabe a cada um de nós viver
do melhor jeito que pudermos
enquanto generais, doutores, policiais
nos advertem e
torturam
tomo banho uma vez por dia
assusto-me com gatos e
sombras
durmo mal quando durmo
quando meu coração parar
o mundo todo ficará mais rápido
melhor
mais quente
ao verão se seguirá outro verão
o ar terá o cristalino da água do lago
e assim também será o
significado
mas enquanto isso
a pílula verde
esses pisos engordurados fora da
avenida e
lá em baixo uma conspiração de vermes de vermes de
vermes
e aqui em cima
nenhuma ninfa loira
para me amar e dormir enquanto
espero.
matar tomo a pílula verde do meu
médico
bebo chá
enquanto os tubarões dançam através de vasos de
flores
dão dez voltas depois
vinte
buscando por meu coração
efeminado
numa noite louca de maio em
Los Angeles
domingo
alguém tocando
Beethoven
sento-me atrás de persianas baixadas
em emboscada
enquanto homens ambiciosos com seus carros novos e
novas loiras
comandam as ruas
sento-me num quarto alugado
esculpindo um rifle de madeira
desenhando retratos de mulheres nuas
touros
casos de amor
velhos
nas paredes com gizes de
cera
cabe a cada um de nós viver
do melhor jeito que pudermos
enquanto generais, doutores, policiais
nos advertem e
torturam
tomo banho uma vez por dia
assusto-me com gatos e
sombras
durmo mal quando durmo
quando meu coração parar
o mundo todo ficará mais rápido
melhor
mais quente
ao verão se seguirá outro verão
o ar terá o cristalino da água do lago
e assim também será o
significado
mas enquanto isso
a pílula verde
esses pisos engordurados fora da
avenida e
lá em baixo uma conspiração de vermes de vermes de
vermes
e aqui em cima
nenhuma ninfa loira
para me amar e dormir enquanto
espero.
1 687
Charles Bukowski
O Beijo de Boa-Noite Aos Vermes
sereno demais para morrer mas não para
matar tomo a pílula verde do meu
médico
bebo chá
enquanto os tubarões dançam através de vasos de
flores
dão dez voltas depois
vinte
buscando por meu coração
efeminado
numa noite louca de maio em
Los Angeles
domingo
alguém tocando
Beethoven
sento-me atrás de persianas baixadas
em emboscada
enquanto homens ambiciosos com seus carros novos e
novas loiras
comandam as ruas
sento-me num quarto alugado
esculpindo um rifle de madeira
desenhando retratos de mulheres nuas
touros
casos de amor
velhos
nas paredes com gizes de
cera
cabe a cada um de nós viver
do melhor jeito que pudermos
enquanto generais, doutores, policiais
nos advertem e
torturam
tomo banho uma vez por dia
assusto-me com gatos e
sombras
durmo mal quando durmo
quando meu coração parar
o mundo todo ficará mais rápido
melhor
mais quente
ao verão se seguirá outro verão
o ar terá o cristalino da água do lago
e assim também será o
significado
mas enquanto isso
a pílula verde
esses pisos engordurados fora da
avenida e
lá em baixo uma conspiração de vermes de vermes de
vermes
e aqui em cima
nenhuma ninfa loira
para me amar e dormir enquanto
espero.
matar tomo a pílula verde do meu
médico
bebo chá
enquanto os tubarões dançam através de vasos de
flores
dão dez voltas depois
vinte
buscando por meu coração
efeminado
numa noite louca de maio em
Los Angeles
domingo
alguém tocando
Beethoven
sento-me atrás de persianas baixadas
em emboscada
enquanto homens ambiciosos com seus carros novos e
novas loiras
comandam as ruas
sento-me num quarto alugado
esculpindo um rifle de madeira
desenhando retratos de mulheres nuas
touros
casos de amor
velhos
nas paredes com gizes de
cera
cabe a cada um de nós viver
do melhor jeito que pudermos
enquanto generais, doutores, policiais
nos advertem e
torturam
tomo banho uma vez por dia
assusto-me com gatos e
sombras
durmo mal quando durmo
quando meu coração parar
o mundo todo ficará mais rápido
melhor
mais quente
ao verão se seguirá outro verão
o ar terá o cristalino da água do lago
e assim também será o
significado
mas enquanto isso
a pílula verde
esses pisos engordurados fora da
avenida e
lá em baixo uma conspiração de vermes de vermes de
vermes
e aqui em cima
nenhuma ninfa loira
para me amar e dormir enquanto
espero.
1 687
Charles Bukowski
O Aluguel Também É Alto
há feras no saleiro
e aeródromos na cafeteira.
a mão da minha mãe está na gaveta das sacolas
e da parte de trás das colheres vêm
os gritos de pequenos animais torturados.
no armário há um homem que foi assassinado
vestindo uma nova gravata verde
e sob o piso
há um anjo prestes a se sufocar com narinas resplandecentes.
é difícil viver aqui.
é bem difícil viver aqui.
à noite as sombras são criaturas não nascidas.
debaixo da cama
aranhas matam pequenas e minúsculas ideias.
as noites são ruins
as noites são bem ruins
bebo para dormir
preciso beber para dormir.
pela manhã
durante o café
vejo-os rolarem os mortos rua abaixo
(nunca leio sobre isso nos jornais).
e há águias por toda a parte
pousadas sobre os telhados, no gramado, dentro do meu carro.
as águias não possuem olhos e cheiram a enxofre.
é bem desencorajador.
as pessoas me visitam
sentam-se em cadeiras a minha frente
e eu as vejo rastejando com parasitas –
insetos verdes e dourados e amarelos
eles não são nunca varridos.
tenho vivido aqui por muito tempo.
logo preciso ir para Omaha.
dizem que tudo é de jade por lá
e que não se move.
dizem que você pode pregar desenhos na água
e dormir no alto dos olivais.
me pergunto será que isso é
verdade?
não posso viver aqui por muito mais tempo.
e aeródromos na cafeteira.
a mão da minha mãe está na gaveta das sacolas
e da parte de trás das colheres vêm
os gritos de pequenos animais torturados.
no armário há um homem que foi assassinado
vestindo uma nova gravata verde
e sob o piso
há um anjo prestes a se sufocar com narinas resplandecentes.
é difícil viver aqui.
é bem difícil viver aqui.
à noite as sombras são criaturas não nascidas.
debaixo da cama
aranhas matam pequenas e minúsculas ideias.
as noites são ruins
as noites são bem ruins
bebo para dormir
preciso beber para dormir.
pela manhã
durante o café
vejo-os rolarem os mortos rua abaixo
(nunca leio sobre isso nos jornais).
e há águias por toda a parte
pousadas sobre os telhados, no gramado, dentro do meu carro.
as águias não possuem olhos e cheiram a enxofre.
é bem desencorajador.
as pessoas me visitam
sentam-se em cadeiras a minha frente
e eu as vejo rastejando com parasitas –
insetos verdes e dourados e amarelos
eles não são nunca varridos.
tenho vivido aqui por muito tempo.
logo preciso ir para Omaha.
dizem que tudo é de jade por lá
e que não se move.
dizem que você pode pregar desenhos na água
e dormir no alto dos olivais.
me pergunto será que isso é
verdade?
não posso viver aqui por muito mais tempo.
706
Charles Bukowski
Garrafa de Cerveja
uma coisa de fato miraculosa acaba de acontecer:
minha garrafa de cerveja girou e caiu
e aterrissou com a parte do fundo no chão,
e eu a coloquei de volta na mesa para baixar a espuma,
mas as fotos não estavam lá essas coisas hoje
e havia uma pequena fenda no couro
do meu sapato esquerdo, mas é tudo muito simples:
não podemos adquirir muita coisa: há leis
que desconhecemos de todo, todo tipo de cutucão
para nos queimar ou congelar; o que faz com que
o melro se encaixe na boca do gato
não nos cabe dizer, ou por que certos homens
terminam enjaulados como esquilos de estimação
enquanto outros se espremem contra peitos enormes
ao longo de infindáveis noites – esta é a
missão e o terror, e não nos é dito
por quê. ainda assim, que sorte a garrafa
ter aterrissado direito, e embora
eu tivesse uma de vinho e uma de uísque,
isto prediz, de algum modo, uma noite boa,
e talvez amanhã meu nariz esteja mais comprido:
novos sapatos, menos chuva, mais poemas.
minha garrafa de cerveja girou e caiu
e aterrissou com a parte do fundo no chão,
e eu a coloquei de volta na mesa para baixar a espuma,
mas as fotos não estavam lá essas coisas hoje
e havia uma pequena fenda no couro
do meu sapato esquerdo, mas é tudo muito simples:
não podemos adquirir muita coisa: há leis
que desconhecemos de todo, todo tipo de cutucão
para nos queimar ou congelar; o que faz com que
o melro se encaixe na boca do gato
não nos cabe dizer, ou por que certos homens
terminam enjaulados como esquilos de estimação
enquanto outros se espremem contra peitos enormes
ao longo de infindáveis noites – esta é a
missão e o terror, e não nos é dito
por quê. ainda assim, que sorte a garrafa
ter aterrissado direito, e embora
eu tivesse uma de vinho e uma de uísque,
isto prediz, de algum modo, uma noite boa,
e talvez amanhã meu nariz esteja mais comprido:
novos sapatos, menos chuva, mais poemas.
1 109
Charles Bukowski
O Corpo
estive
enforcado aqui
decapitado
há tanto tempo
que o corpo já esqueceu
por que
ou onde ou quando isto
aconteceu
e os dedos dos pés
avançam em sapatos
que não estão nem
aí
e ainda que
os dedos das mãos
fatiem coisas e
segurem coisas e
movam coisas e
toquem
coisas
como
laranjas
maçãs
cebolas
livros
corpos
já não tenho
suficiente certeza
do que essas coisas
são
são em sua maioria
como
lamparina e
névoa
então com frequência as mãos
buscarão pela
cabeça perdida
como as mãos de uma
criança
em volta de uma bola
um bloco
de ar e madeira –
sem dentes
sem partes pensantes
e quando uma janela
se escancara
para uma
igreja
colina
mulher
cachorro
ou algum ser cantante
os dedos da mão
são insensíveis à vibração
porque eles não possuem
ouvidos
insensíveis à cor porque
eles não têm
olhos
insensíveis ao cheiro
por não terem nariz
o país prossegue assim
sem sentido
os continentes
as luzes diurnas e as noites
brilham
nas minhas
unhas sujas
e em algum espelho
meu rosto
um bloco para desaparecer
parte gasta da bola de uma
criança
enquanto todos os lugares se
movem
vermes e aviões
fogos na terra
altas violetas em santidade
minhas mãos deixam tudo ir tudo ir
tudo ir
enforcado aqui
decapitado
há tanto tempo
que o corpo já esqueceu
por que
ou onde ou quando isto
aconteceu
e os dedos dos pés
avançam em sapatos
que não estão nem
aí
e ainda que
os dedos das mãos
fatiem coisas e
segurem coisas e
movam coisas e
toquem
coisas
como
laranjas
maçãs
cebolas
livros
corpos
já não tenho
suficiente certeza
do que essas coisas
são
são em sua maioria
como
lamparina e
névoa
então com frequência as mãos
buscarão pela
cabeça perdida
como as mãos de uma
criança
em volta de uma bola
um bloco
de ar e madeira –
sem dentes
sem partes pensantes
e quando uma janela
se escancara
para uma
igreja
colina
mulher
cachorro
ou algum ser cantante
os dedos da mão
são insensíveis à vibração
porque eles não possuem
ouvidos
insensíveis à cor porque
eles não têm
olhos
insensíveis ao cheiro
por não terem nariz
o país prossegue assim
sem sentido
os continentes
as luzes diurnas e as noites
brilham
nas minhas
unhas sujas
e em algum espelho
meu rosto
um bloco para desaparecer
parte gasta da bola de uma
criança
enquanto todos os lugares se
movem
vermes e aviões
fogos na terra
altas violetas em santidade
minhas mãos deixam tudo ir tudo ir
tudo ir
1 397
Charles Bukowski
No 6
vou mesmo com o cavalo no 6
numa tarde chuvosa
um copo de papel com café
na mão
falta ainda um pouco,
o vento fazendo voejar em espiral
pequenas cambaxirras do
telhado da arquibancada superior,
os jóqueis surgindo
para uma meia corrida
em silêncio
e a chuva mansa fazendo
tudo
de uma só vez
parecer quase igual,
os cavalos em paz uns
com os outros
antes da guerra bêbada
e eu estou na parte coberta da arquibancada
ansiando por
cigarros
conformado com o café,
então os cavalos se aproximam
levando seus homenzinhos
dali –
é fúnebre e gracioso
e agradável
como o abrir
das flores.
numa tarde chuvosa
um copo de papel com café
na mão
falta ainda um pouco,
o vento fazendo voejar em espiral
pequenas cambaxirras do
telhado da arquibancada superior,
os jóqueis surgindo
para uma meia corrida
em silêncio
e a chuva mansa fazendo
tudo
de uma só vez
parecer quase igual,
os cavalos em paz uns
com os outros
antes da guerra bêbada
e eu estou na parte coberta da arquibancada
ansiando por
cigarros
conformado com o café,
então os cavalos se aproximam
levando seus homenzinhos
dali –
é fúnebre e gracioso
e agradável
como o abrir
das flores.
1 248
Charles Bukowski
O Artista de Domingo
tenho pintado nos últimos dois domingos;
não é muito, você está certo,
mas neste torneio grandes sonhos se partem:
a história remove seu vestido e se torna uma meretriz,
e eu acordei de manhã
para ver águias batendo suas asas como sombras;
encontrei Montaigne e Fídias
nas chamas de minha lixeira,
encontrei bárbaros pelas ruas
suas cabeças balançando com roedores;
vi crianças malignas em banheiras azuis
querendo caules belos como flores
e eu vi o beberrão passar mal
com seu último tostão furado;
escutei Domenico Theotocopoulos
em noites de frio, tossir em sua cova;
e Deus, não mais alto do que a senhoria,
os cabelos de um ruivo apagado, veio me pedir as horas;
vi gramados cinzentos de amantes em meu espelho
enquanto acendia um cigarro para o aplauso de um maníaco;
Cadillacs rastejaram por minhas paredes como baratas,
peixe dourado a girar meu aquário, tigres amestrados;
sim, tenho pintado nesses domingos –
a máquina de moer cinzenta, o novo rebelde; é realmente terrível:
tenho de enfiar meu punho no diluidor e no cloro,
em Andernach e nas maçãs e no ácido,
mas, então, eu preciso de fato lhe dizer que tenho uma
mulher por aqui a cantar fazendo massa para panqueca
e a tinta gruda no meu esboço como doce.
não é muito, você está certo,
mas neste torneio grandes sonhos se partem:
a história remove seu vestido e se torna uma meretriz,
e eu acordei de manhã
para ver águias batendo suas asas como sombras;
encontrei Montaigne e Fídias
nas chamas de minha lixeira,
encontrei bárbaros pelas ruas
suas cabeças balançando com roedores;
vi crianças malignas em banheiras azuis
querendo caules belos como flores
e eu vi o beberrão passar mal
com seu último tostão furado;
escutei Domenico Theotocopoulos
em noites de frio, tossir em sua cova;
e Deus, não mais alto do que a senhoria,
os cabelos de um ruivo apagado, veio me pedir as horas;
vi gramados cinzentos de amantes em meu espelho
enquanto acendia um cigarro para o aplauso de um maníaco;
Cadillacs rastejaram por minhas paredes como baratas,
peixe dourado a girar meu aquário, tigres amestrados;
sim, tenho pintado nesses domingos –
a máquina de moer cinzenta, o novo rebelde; é realmente terrível:
tenho de enfiar meu punho no diluidor e no cloro,
em Andernach e nas maçãs e no ácido,
mas, então, eu preciso de fato lhe dizer que tenho uma
mulher por aqui a cantar fazendo massa para panqueca
e a tinta gruda no meu esboço como doce.
1 277
Charles Bukowski
O Artista de Domingo
tenho pintado nos últimos dois domingos;
não é muito, você está certo,
mas neste torneio grandes sonhos se partem:
a história remove seu vestido e se torna uma meretriz,
e eu acordei de manhã
para ver águias batendo suas asas como sombras;
encontrei Montaigne e Fídias
nas chamas de minha lixeira,
encontrei bárbaros pelas ruas
suas cabeças balançando com roedores;
vi crianças malignas em banheiras azuis
querendo caules belos como flores
e eu vi o beberrão passar mal
com seu último tostão furado;
escutei Domenico Theotocopoulos
em noites de frio, tossir em sua cova;
e Deus, não mais alto do que a senhoria,
os cabelos de um ruivo apagado, veio me pedir as horas;
vi gramados cinzentos de amantes em meu espelho
enquanto acendia um cigarro para o aplauso de um maníaco;
Cadillacs rastejaram por minhas paredes como baratas,
peixe dourado a girar meu aquário, tigres amestrados;
sim, tenho pintado nesses domingos –
a máquina de moer cinzenta, o novo rebelde; é realmente terrível:
tenho de enfiar meu punho no diluidor e no cloro,
em Andernach e nas maçãs e no ácido,
mas, então, eu preciso de fato lhe dizer que tenho uma
mulher por aqui a cantar fazendo massa para panqueca
e a tinta gruda no meu esboço como doce.
não é muito, você está certo,
mas neste torneio grandes sonhos se partem:
a história remove seu vestido e se torna uma meretriz,
e eu acordei de manhã
para ver águias batendo suas asas como sombras;
encontrei Montaigne e Fídias
nas chamas de minha lixeira,
encontrei bárbaros pelas ruas
suas cabeças balançando com roedores;
vi crianças malignas em banheiras azuis
querendo caules belos como flores
e eu vi o beberrão passar mal
com seu último tostão furado;
escutei Domenico Theotocopoulos
em noites de frio, tossir em sua cova;
e Deus, não mais alto do que a senhoria,
os cabelos de um ruivo apagado, veio me pedir as horas;
vi gramados cinzentos de amantes em meu espelho
enquanto acendia um cigarro para o aplauso de um maníaco;
Cadillacs rastejaram por minhas paredes como baratas,
peixe dourado a girar meu aquário, tigres amestrados;
sim, tenho pintado nesses domingos –
a máquina de moer cinzenta, o novo rebelde; é realmente terrível:
tenho de enfiar meu punho no diluidor e no cloro,
em Andernach e nas maçãs e no ácido,
mas, então, eu preciso de fato lhe dizer que tenho uma
mulher por aqui a cantar fazendo massa para panqueca
e a tinta gruda no meu esboço como doce.
1 277
Charles Bukowski
O Padre E o Matador
no lento ar mexicano assisto o touro morrer
e eles lhe cortam a orelha, e sua enorme cabeça não guarda
mais terror do que uma pedra.
dirigindo de volta no dia seguinte paramos na Missão
e assistimos às flores vermelhas e douradas e azuis se estendendo
como tigres na ventania.
coloque isto na métrica: o touro e o forte de Cristo:
o matador de joelhos, o touro morto seu menino;
e o padre a olhar pela janela
como um urso enjaulado.
você pode discutir no mercado e manipular as suas
dúvidas com cordas de seda: vou lhe dizer apenas
isto: eu vivi em ambos os templos,
acreditando em tudo e em nada – talvez, agora, eles venham
a morrer no meu.
e eles lhe cortam a orelha, e sua enorme cabeça não guarda
mais terror do que uma pedra.
dirigindo de volta no dia seguinte paramos na Missão
e assistimos às flores vermelhas e douradas e azuis se estendendo
como tigres na ventania.
coloque isto na métrica: o touro e o forte de Cristo:
o matador de joelhos, o touro morto seu menino;
e o padre a olhar pela janela
como um urso enjaulado.
você pode discutir no mercado e manipular as suas
dúvidas com cordas de seda: vou lhe dizer apenas
isto: eu vivi em ambos os templos,
acreditando em tudo e em nada – talvez, agora, eles venham
a morrer no meu.
1 118
Charles Bukowski
Amor & Fama & Morte
agora ela senta do lado de fora de minha janela
como uma velha senhora indo ao mercado;
ela senta e me olha,
sua nervosamente
através de fios e neblina e um latido de cão
até que de súbito
eu bato na tela com um jornal
como se fosse esmagar uma mosca
e você pode ouvir o grito
cortar esta cidade plana
e então a coisa se vai.
a maneira de terminar um poema
como este
é se tornar de repente
silencioso.
como uma velha senhora indo ao mercado;
ela senta e me olha,
sua nervosamente
através de fios e neblina e um latido de cão
até que de súbito
eu bato na tela com um jornal
como se fosse esmagar uma mosca
e você pode ouvir o grito
cortar esta cidade plana
e então a coisa se vai.
a maneira de terminar um poema
como este
é se tornar de repente
silencioso.
1 269
Charles Bukowski
Amor & Fama & Morte
agora ela senta do lado de fora de minha janela
como uma velha senhora indo ao mercado;
ela senta e me olha,
sua nervosamente
através de fios e neblina e um latido de cão
até que de súbito
eu bato na tela com um jornal
como se fosse esmagar uma mosca
e você pode ouvir o grito
cortar esta cidade plana
e então a coisa se vai.
a maneira de terminar um poema
como este
é se tornar de repente
silencioso.
como uma velha senhora indo ao mercado;
ela senta e me olha,
sua nervosamente
através de fios e neblina e um latido de cão
até que de súbito
eu bato na tela com um jornal
como se fosse esmagar uma mosca
e você pode ouvir o grito
cortar esta cidade plana
e então a coisa se vai.
a maneira de terminar um poema
como este
é se tornar de repente
silencioso.
1 269
Charles Bukowski
Amor & Fama & Morte
agora ela senta do lado de fora de minha janela
como uma velha senhora indo ao mercado;
ela senta e me olha,
sua nervosamente
através de fios e neblina e um latido de cão
até que de súbito
eu bato na tela com um jornal
como se fosse esmagar uma mosca
e você pode ouvir o grito
cortar esta cidade plana
e então a coisa se vai.
a maneira de terminar um poema
como este
é se tornar de repente
silencioso.
como uma velha senhora indo ao mercado;
ela senta e me olha,
sua nervosamente
através de fios e neblina e um latido de cão
até que de súbito
eu bato na tela com um jornal
como se fosse esmagar uma mosca
e você pode ouvir o grito
cortar esta cidade plana
e então a coisa se vai.
a maneira de terminar um poema
como este
é se tornar de repente
silencioso.
1 269
Charles Bukowski
Um Cavalo de 340 Dólares E Uma Puta de Cem
jamais tenha para si que sou um poeta; você pode me ver
semibêbado nas corridas todos os dias
apostando em todos os tipos de cavalos,
mas deixe eu dizer uma coisa a você, há algumas mulheres lá
que vão aonde o dinheiro está, e às vezes quando você
olha para essas putas essas putas de cem dólares
você por vezes se pergunta se a natureza não está de brincadeira
esbanjando tanto peito e rabo no modo como
estão reunidos, você olha e olha e
olha e não consegue acreditar; há mulheres ordinárias
e então há alguma coisa a mais que faz você querer
rasgar pinturas e quebrar discos de Beethoven
na parte dos fundos no banheiro; de todo modo, a temporada
ia se arrastando e os grandes figurões não paravam de se ferrar,
todos os amadores, os produtores, os operadores de câmeras,
os traficantes de Maria, os vendedores de pele, os proprietários
em pessoa, e Saint Louie estava correndo neste dia:
um cavalo que conseguiu romper no final;
corria com a cabeça baixa e era mau e feio
e pagava 35 por 1, e eu tinha apostado dez nele.
o jóquei lançou-o para a extremidade
colando-o na cerca onde avançaria sozinho
mesmo que tivesse de percorrer uma distância quatro vezes maior,
e foi assim que ele seguiu
o trajeto todo até a cerca exterior
avançando três quilômetros em um só
e ele venceu como se estivesse possuído pelo demônio
e não estava sequer cansado,
e a maior de todas as loiras
feita de quase nada além de peitos e bunda
foi até o guichê de pagamento comigo.
naquela noite eu não pude acabar com ela
ainda que as molas disparassem faíscas
e golpeassem as paredes.
mais tarde ela se sentou apenas de calcinha
bebendo um Old Grandad
e ela disse
o que um cara como você faz
vivendo num buraco como este?
e eu disse
sou um poeta
e ela jogou sua bela cabeça para trás e gargalhou.
você? você... um poeta?
acho que você está certa, eu disse, acho que você está certa.
mas ainda assim ela parecia legal para mim, continuava parecendo legal,
e tudo graças a um cavalo feioso
que escreveu este poema.
semibêbado nas corridas todos os dias
apostando em todos os tipos de cavalos,
mas deixe eu dizer uma coisa a você, há algumas mulheres lá
que vão aonde o dinheiro está, e às vezes quando você
olha para essas putas essas putas de cem dólares
você por vezes se pergunta se a natureza não está de brincadeira
esbanjando tanto peito e rabo no modo como
estão reunidos, você olha e olha e
olha e não consegue acreditar; há mulheres ordinárias
e então há alguma coisa a mais que faz você querer
rasgar pinturas e quebrar discos de Beethoven
na parte dos fundos no banheiro; de todo modo, a temporada
ia se arrastando e os grandes figurões não paravam de se ferrar,
todos os amadores, os produtores, os operadores de câmeras,
os traficantes de Maria, os vendedores de pele, os proprietários
em pessoa, e Saint Louie estava correndo neste dia:
um cavalo que conseguiu romper no final;
corria com a cabeça baixa e era mau e feio
e pagava 35 por 1, e eu tinha apostado dez nele.
o jóquei lançou-o para a extremidade
colando-o na cerca onde avançaria sozinho
mesmo que tivesse de percorrer uma distância quatro vezes maior,
e foi assim que ele seguiu
o trajeto todo até a cerca exterior
avançando três quilômetros em um só
e ele venceu como se estivesse possuído pelo demônio
e não estava sequer cansado,
e a maior de todas as loiras
feita de quase nada além de peitos e bunda
foi até o guichê de pagamento comigo.
naquela noite eu não pude acabar com ela
ainda que as molas disparassem faíscas
e golpeassem as paredes.
mais tarde ela se sentou apenas de calcinha
bebendo um Old Grandad
e ela disse
o que um cara como você faz
vivendo num buraco como este?
e eu disse
sou um poeta
e ela jogou sua bela cabeça para trás e gargalhou.
você? você... um poeta?
acho que você está certa, eu disse, acho que você está certa.
mas ainda assim ela parecia legal para mim, continuava parecendo legal,
e tudo graças a um cavalo feioso
que escreveu este poema.
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