Poemas neste tema
Outros
Marina Colasanti
Fino sangue
Gosto de poema
que fala de ovo
frito latido de cão
e cheiro de queimado.
Poema que com pequenos cortes
vara as coisas pequenas
fura a casca
o odre
rasga a placenta
e deixa gotejar
o fino
sangue.
que fala de ovo
frito latido de cão
e cheiro de queimado.
Poema que com pequenos cortes
vara as coisas pequenas
fura a casca
o odre
rasga a placenta
e deixa gotejar
o fino
sangue.
1 603
Marina Colasanti
E mais existo
Os filósofos querem que o vermelho
só exista
quando olho para ele.
Mas diante da papoula
sobre a mesa
minha funda certeza é
que este sangue em flor
independe de mim para existir
sem mim se acende e expande
na luta que a cor trava
contra o escuro.
Ao contrário,
sou eu que
nessa noite queda me enriqueço
olhando a viva luz de uma papoula
e mais existo
porque existo nela.
só exista
quando olho para ele.
Mas diante da papoula
sobre a mesa
minha funda certeza é
que este sangue em flor
independe de mim para existir
sem mim se acende e expande
na luta que a cor trava
contra o escuro.
Ao contrário,
sou eu que
nessa noite queda me enriqueço
olhando a viva luz de uma papoula
e mais existo
porque existo nela.
946
Marina Colasanti
E mais existo
Os filósofos querem que o vermelho
só exista
quando olho para ele.
Mas diante da papoula
sobre a mesa
minha funda certeza é
que este sangue em flor
independe de mim para existir
sem mim se acende e expande
na luta que a cor trava
contra o escuro.
Ao contrário,
sou eu que
nessa noite queda me enriqueço
olhando a viva luz de uma papoula
e mais existo
porque existo nela.
só exista
quando olho para ele.
Mas diante da papoula
sobre a mesa
minha funda certeza é
que este sangue em flor
independe de mim para existir
sem mim se acende e expande
na luta que a cor trava
contra o escuro.
Ao contrário,
sou eu que
nessa noite queda me enriqueço
olhando a viva luz de uma papoula
e mais existo
porque existo nela.
946
Marina Colasanti
Entre nosso olhar e
A luz sobre o lago é
um biombo chinês
que se desdobra
entregando transparências
que se recolhe
em sedas superpostas
anteparo irredutível
que estremece
entre nosso olhar
e as montanhas.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
um biombo chinês
que se desdobra
entregando transparências
que se recolhe
em sedas superpostas
anteparo irredutível
que estremece
entre nosso olhar
e as montanhas.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 080
Marina Colasanti
Entre nosso olhar e
A luz sobre o lago é
um biombo chinês
que se desdobra
entregando transparências
que se recolhe
em sedas superpostas
anteparo irredutível
que estremece
entre nosso olhar
e as montanhas.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
um biombo chinês
que se desdobra
entregando transparências
que se recolhe
em sedas superpostas
anteparo irredutível
que estremece
entre nosso olhar
e as montanhas.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 080
Marina Colasanti
Quando fomos a Delfos
Eu estava encharcada de cortisona
quando fomos a Delfos
e o Dr. Zorus tinha dito
que não comesse carne.
Mas não vinha dos deuses
o interdito
e chegando no alto
entre ruínas afundei os dentes de minh'alma
em carne de carneiro
aquela doce carne que balia
encosta abaixo
fendendo os montes
e entregando-me
ao longe
um mar exato e insondável
como as palavras do oráculo.
quando fomos a Delfos
e o Dr. Zorus tinha dito
que não comesse carne.
Mas não vinha dos deuses
o interdito
e chegando no alto
entre ruínas afundei os dentes de minh'alma
em carne de carneiro
aquela doce carne que balia
encosta abaixo
fendendo os montes
e entregando-me
ao longe
um mar exato e insondável
como as palavras do oráculo.
1 235
Marina Colasanti
Sera d'estate a Roma
Accanto a Palazzo Altemps
in trattoria
il vecchio cameriere spina il pesce
con la stessa protesa devozione
con cui San Girolamo curava
i suoi scritti,
e con gli stessi occhiali tondi
che appaiono in tanti quadri.
La luna
il montone
e il leone
antichi come le lische del pesce
osservano sopra al frontone.
in trattoria
il vecchio cameriere spina il pesce
con la stessa protesa devozione
con cui San Girolamo curava
i suoi scritti,
e con gli stessi occhiali tondi
che appaiono in tanti quadri.
La luna
il montone
e il leone
antichi come le lische del pesce
osservano sopra al frontone.
1 322
Marina Colasanti
Razão tem Ghirlandaio
Giovanna Tornabuoni não tem frente
o seu perfil lhe basta.
Lado esquerdo do rosto que
aniquila o direito
medalha sem reverso
face exposta da lua sem
outra face.
Que aia penteia Giovanna?
As mechas caídas em ondas
caídas em mar
as mechas medusas
e ao alto o cabelo partido
retido por fitas
cabelo esculpido que pousa na nuca
seu ninho.
Damasco brocado batista
com que rigor de esquadro
e de compasso
o traje se constrói arquitetura
suporte para a longa coluna
do pescoço.
Geométrico jardim brota
na manga
obedecem veludos e pistilos
à exata simetria
que ordena as flores
e corta
pelo meio
as mãos cruzadas.
Ao fundo
entre um colar e um livro
há um bilhete pintado:
mais bela seja a natureza
que se pode imitar
do que a palavra escrita.
Razão tem Ghirlandaio
mas defendendo a minha ferramenta
observo ao mestre:
para que seu recado fosse claro
foi necessário
escrevê-lo.
o seu perfil lhe basta.
Lado esquerdo do rosto que
aniquila o direito
medalha sem reverso
face exposta da lua sem
outra face.
Que aia penteia Giovanna?
As mechas caídas em ondas
caídas em mar
as mechas medusas
e ao alto o cabelo partido
retido por fitas
cabelo esculpido que pousa na nuca
seu ninho.
Damasco brocado batista
com que rigor de esquadro
e de compasso
o traje se constrói arquitetura
suporte para a longa coluna
do pescoço.
Geométrico jardim brota
na manga
obedecem veludos e pistilos
à exata simetria
que ordena as flores
e corta
pelo meio
as mãos cruzadas.
Ao fundo
entre um colar e um livro
há um bilhete pintado:
mais bela seja a natureza
que se pode imitar
do que a palavra escrita.
Razão tem Ghirlandaio
mas defendendo a minha ferramenta
observo ao mestre:
para que seu recado fosse claro
foi necessário
escrevê-lo.
1 031
Marina Colasanti
Razão tem Ghirlandaio
Giovanna Tornabuoni não tem frente
o seu perfil lhe basta.
Lado esquerdo do rosto que
aniquila o direito
medalha sem reverso
face exposta da lua sem
outra face.
Que aia penteia Giovanna?
As mechas caídas em ondas
caídas em mar
as mechas medusas
e ao alto o cabelo partido
retido por fitas
cabelo esculpido que pousa na nuca
seu ninho.
Damasco brocado batista
com que rigor de esquadro
e de compasso
o traje se constrói arquitetura
suporte para a longa coluna
do pescoço.
Geométrico jardim brota
na manga
obedecem veludos e pistilos
à exata simetria
que ordena as flores
e corta
pelo meio
as mãos cruzadas.
Ao fundo
entre um colar e um livro
há um bilhete pintado:
mais bela seja a natureza
que se pode imitar
do que a palavra escrita.
Razão tem Ghirlandaio
mas defendendo a minha ferramenta
observo ao mestre:
para que seu recado fosse claro
foi necessário
escrevê-lo.
o seu perfil lhe basta.
Lado esquerdo do rosto que
aniquila o direito
medalha sem reverso
face exposta da lua sem
outra face.
Que aia penteia Giovanna?
As mechas caídas em ondas
caídas em mar
as mechas medusas
e ao alto o cabelo partido
retido por fitas
cabelo esculpido que pousa na nuca
seu ninho.
Damasco brocado batista
com que rigor de esquadro
e de compasso
o traje se constrói arquitetura
suporte para a longa coluna
do pescoço.
Geométrico jardim brota
na manga
obedecem veludos e pistilos
à exata simetria
que ordena as flores
e corta
pelo meio
as mãos cruzadas.
Ao fundo
entre um colar e um livro
há um bilhete pintado:
mais bela seja a natureza
que se pode imitar
do que a palavra escrita.
Razão tem Ghirlandaio
mas defendendo a minha ferramenta
observo ao mestre:
para que seu recado fosse claro
foi necessário
escrevê-lo.
1 031
Marina Colasanti
Razão tem Ghirlandaio
Giovanna Tornabuoni não tem frente
o seu perfil lhe basta.
Lado esquerdo do rosto que
aniquila o direito
medalha sem reverso
face exposta da lua sem
outra face.
Que aia penteia Giovanna?
As mechas caídas em ondas
caídas em mar
as mechas medusas
e ao alto o cabelo partido
retido por fitas
cabelo esculpido que pousa na nuca
seu ninho.
Damasco brocado batista
com que rigor de esquadro
e de compasso
o traje se constrói arquitetura
suporte para a longa coluna
do pescoço.
Geométrico jardim brota
na manga
obedecem veludos e pistilos
à exata simetria
que ordena as flores
e corta
pelo meio
as mãos cruzadas.
Ao fundo
entre um colar e um livro
há um bilhete pintado:
mais bela seja a natureza
que se pode imitar
do que a palavra escrita.
Razão tem Ghirlandaio
mas defendendo a minha ferramenta
observo ao mestre:
para que seu recado fosse claro
foi necessário
escrevê-lo.
o seu perfil lhe basta.
Lado esquerdo do rosto que
aniquila o direito
medalha sem reverso
face exposta da lua sem
outra face.
Que aia penteia Giovanna?
As mechas caídas em ondas
caídas em mar
as mechas medusas
e ao alto o cabelo partido
retido por fitas
cabelo esculpido que pousa na nuca
seu ninho.
Damasco brocado batista
com que rigor de esquadro
e de compasso
o traje se constrói arquitetura
suporte para a longa coluna
do pescoço.
Geométrico jardim brota
na manga
obedecem veludos e pistilos
à exata simetria
que ordena as flores
e corta
pelo meio
as mãos cruzadas.
Ao fundo
entre um colar e um livro
há um bilhete pintado:
mais bela seja a natureza
que se pode imitar
do que a palavra escrita.
Razão tem Ghirlandaio
mas defendendo a minha ferramenta
observo ao mestre:
para que seu recado fosse claro
foi necessário
escrevê-lo.
1 031
Marina Colasanti
TARDE FRIA
Frio
nesta tarde de pinheiros azuis
nesta casa
neste casal à frente desta casa
sentado ele no degrau da entrada
chamando inutilmente o cão.
Frio na grama descorada e alta
nos braços que ela cruza sobre o peito
no pelo do cão tocado por um vento
que não move as cortinas.
Frio na luz
a última do dia e
na atenção do cão voltada para um ponto
um ponto além do quadro
que só Edward Hopper conhece.
nesta tarde de pinheiros azuis
nesta casa
neste casal à frente desta casa
sentado ele no degrau da entrada
chamando inutilmente o cão.
Frio na grama descorada e alta
nos braços que ela cruza sobre o peito
no pelo do cão tocado por um vento
que não move as cortinas.
Frio na luz
a última do dia e
na atenção do cão voltada para um ponto
um ponto além do quadro
que só Edward Hopper conhece.
1 156
Marina Colasanti
TARDE FRIA
Frio
nesta tarde de pinheiros azuis
nesta casa
neste casal à frente desta casa
sentado ele no degrau da entrada
chamando inutilmente o cão.
Frio na grama descorada e alta
nos braços que ela cruza sobre o peito
no pelo do cão tocado por um vento
que não move as cortinas.
Frio na luz
a última do dia e
na atenção do cão voltada para um ponto
um ponto além do quadro
que só Edward Hopper conhece.
nesta tarde de pinheiros azuis
nesta casa
neste casal à frente desta casa
sentado ele no degrau da entrada
chamando inutilmente o cão.
Frio na grama descorada e alta
nos braços que ela cruza sobre o peito
no pelo do cão tocado por um vento
que não move as cortinas.
Frio na luz
a última do dia e
na atenção do cão voltada para um ponto
um ponto além do quadro
que só Edward Hopper conhece.
1 156
Marina Colasanti
COM A DOÇURA DE BOTTICELLI
Um tronco ao lado
de outro tronco
negras colunas
floresta
e o cavalo branco
e a branca mulher
nua
correndo à frente
e o cavalo branco
e a clara carne
em desespero
e o cavalo branco
e o lago ao longe
além dos troncos
do cavalo branco
e no branco dorso montado
o cavaleiro de espada em riste
espada a afundar
no meio das costas
das costas pálidas
das delicadas costas
da mulher em fuga
cujos despojos
caberão aos cães.
de outro tronco
negras colunas
floresta
e o cavalo branco
e a branca mulher
nua
correndo à frente
e o cavalo branco
e a clara carne
em desespero
e o cavalo branco
e o lago ao longe
além dos troncos
do cavalo branco
e no branco dorso montado
o cavaleiro de espada em riste
espada a afundar
no meio das costas
das costas pálidas
das delicadas costas
da mulher em fuga
cujos despojos
caberão aos cães.
1 091
Marina Colasanti
DEPOIS, A ATERRISSAGEM
À noite
em terras de Amsterdam
brilham acesas
as estufas de flores,
Piscinas de luz
recortadas no negro
fundas águas de vidro,
eu as vejo do alto
desse avião que desliza
como um fuso
trazendo a madrugada.
Flutuam lá embaixo
pálidos crisântemos
pétalas
e o lento desdobrar das brotações.
Navegamos acima
desfeitos rostos
olheiras
o sono confrontado
com a noturna bandeja
do breakfast.
A manhã chegará em silêncio
quando tivermos sacudido migalhas.
E então veremos o mar
atrás dos diques
escuro
à espreita.
em terras de Amsterdam
brilham acesas
as estufas de flores,
Piscinas de luz
recortadas no negro
fundas águas de vidro,
eu as vejo do alto
desse avião que desliza
como um fuso
trazendo a madrugada.
Flutuam lá embaixo
pálidos crisântemos
pétalas
e o lento desdobrar das brotações.
Navegamos acima
desfeitos rostos
olheiras
o sono confrontado
com a noturna bandeja
do breakfast.
A manhã chegará em silêncio
quando tivermos sacudido migalhas.
E então veremos o mar
atrás dos diques
escuro
à espreita.
939
Marina Colasanti
A LARGURA DE UM HOMEM
A largura de um homem
se mede
naquele exato ponto
que não sendo a cintura
está à altura dos rins
naquele ponto exato
em que a charneira do corpo
se dobra para o ato.
A largura de um homem
não é a mesma
quando caminha ou senta
e quando está deitado
porque de pé se apresenta
com uma frente que é larga
e um perfil que é magro
mas deitado se expande
e se faz todo massa
mesmo visto de lado.
Não é como a da estrada
atada à terra
e rasa
a largura de um homem.
É largura de rio
espessa e funda
que correndo no leito
de outro corpo não se contenta
e força
e desbarranca
as brancas margens
até abater
vencidos
os pilares das coxas
que o contêm.
se mede
naquele exato ponto
que não sendo a cintura
está à altura dos rins
naquele ponto exato
em que a charneira do corpo
se dobra para o ato.
A largura de um homem
não é a mesma
quando caminha ou senta
e quando está deitado
porque de pé se apresenta
com uma frente que é larga
e um perfil que é magro
mas deitado se expande
e se faz todo massa
mesmo visto de lado.
Não é como a da estrada
atada à terra
e rasa
a largura de um homem.
É largura de rio
espessa e funda
que correndo no leito
de outro corpo não se contenta
e força
e desbarranca
as brancas margens
até abater
vencidos
os pilares das coxas
que o contêm.
1 079
Marina Colasanti
CASA EM MEIO AO CAMPO
A casa abandonada
foi tomada por vacas.
Nos cômodos vazios
dorsos e chifres
são paisagem castanha
montanhas
que no vão da janela
o olho estranha.
Sobre tacos
uma vaca não pasta
uma vaca se basta
com o verde pasto
que na boca masca
Uma vaca na sala
não é sofá nem mesa
embora as quatro patas.
Não é um móvel
a vaca
que no entanto se move.
Sem ter função precisa
uma vaca na sala
visita sua estranheza.
A vaca no banheiro
não se alarma
de parede a chão
tudo é tão leite
que ela se põe
calma.
Não cabe
uma vaca
no caco
de espelho esquecido
no prego do quarto
no entanto
a prata oxidada reflete
uma curva
e o olho da vaca se abre
no olho de vidro.
Na cozinha
uma vaca
se avizinha
do mistério que o fogão apagado
não delata.
Incauta
não fareja sangue ou faca
não sabe que ali termina
sua carne
que a fome mata.
foi tomada por vacas.
Nos cômodos vazios
dorsos e chifres
são paisagem castanha
montanhas
que no vão da janela
o olho estranha.
Sobre tacos
uma vaca não pasta
uma vaca se basta
com o verde pasto
que na boca masca
Uma vaca na sala
não é sofá nem mesa
embora as quatro patas.
Não é um móvel
a vaca
que no entanto se move.
Sem ter função precisa
uma vaca na sala
visita sua estranheza.
A vaca no banheiro
não se alarma
de parede a chão
tudo é tão leite
que ela se põe
calma.
Não cabe
uma vaca
no caco
de espelho esquecido
no prego do quarto
no entanto
a prata oxidada reflete
uma curva
e o olho da vaca se abre
no olho de vidro.
Na cozinha
uma vaca
se avizinha
do mistério que o fogão apagado
não delata.
Incauta
não fareja sangue ou faca
não sabe que ali termina
sua carne
que a fome mata.
983
Marina Colasanti
SOBRE A ESTRADA
Pasta de pomba
esmagada no asfalto
penas prensadas em sangue.
Uma única asa
ainda aberta
ergue-se ao vento dos carros
último
desassombrado voo.
esmagada no asfalto
penas prensadas em sangue.
Uma única asa
ainda aberta
ergue-se ao vento dos carros
último
desassombrado voo.
1 162
Marina Colasanti
SIM, PODE-SE
Podem-se abrir as pernas
com a mesma firmeza
de uma quilha que avança.
Abrir-se à alheia entrada
e ser aquele que aproa.
Pode-se porto ser
e navegante.
com a mesma firmeza
de uma quilha que avança.
Abrir-se à alheia entrada
e ser aquele que aproa.
Pode-se porto ser
e navegante.
1 052
Marina Colasanti
Perspectiva à noite
Na altura do quinto andar
uma traineira
vara o negro céu negro mar
saindo ao longe
por trás da quina de concreto.
Luz do mastro somente
traço invisível
estrela que cai na horizontal
com o ventre carregado de escamas.
uma traineira
vara o negro céu negro mar
saindo ao longe
por trás da quina de concreto.
Luz do mastro somente
traço invisível
estrela que cai na horizontal
com o ventre carregado de escamas.
1 139
Marina Colasanti
ATRÁS DO TRONCO
Toda vez que o nome do meu pai
ou essa expressão "meu pai"
vem combinada com a palavra "guerra"
uma alta palmeira cresce em mim
e atrás do tronco há um homem escondido.
Um homem escondido que pode ser um morto
ou pode ser assassino
um homem tão oculto quanto oculto
é o seu destino.
É o inimigo
ali posto pela voz do meu pai
quando lhe perguntei
se havia matado muitos nas tantas guerras
de que se orgulhava.
Na guerra
disse ele
é impossivel saber
se o inimigo escondido atrás de um tronco
aquele em que atiramos em defesa
e que não mais se vê
está vivo
está morto
está ferido
ou se sequer estava
atrás do tronco.
ou essa expressão "meu pai"
vem combinada com a palavra "guerra"
uma alta palmeira cresce em mim
e atrás do tronco há um homem escondido.
Um homem escondido que pode ser um morto
ou pode ser assassino
um homem tão oculto quanto oculto
é o seu destino.
É o inimigo
ali posto pela voz do meu pai
quando lhe perguntei
se havia matado muitos nas tantas guerras
de que se orgulhava.
Na guerra
disse ele
é impossivel saber
se o inimigo escondido atrás de um tronco
aquele em que atiramos em defesa
e que não mais se vê
está vivo
está morto
está ferido
ou se sequer estava
atrás do tronco.
1 158
Marina Colasanti
UMA CAMÉLIA
Uma camélia só
no vaso esguio
rijo traço do talo
apunhalando
a dupla transparência
de água e vidro.
As folhas não concedem
nervuras
frisos
ou recortadas bordas.
Exata
a curvatura do dorso
reparte
em vírgulas
a luz.
Ao alto
a flor.
Uma flor de camélia
não é rosa
uma flor de camélia
é rigorosa obediência
das pétalas
espaço dividido
a compasso
cêntricos círculos e o miolo
o miolo fechado
pedra branca
que na superficie da tarde
se lança.
Uma camélia
ideograma vivo
se escreve em minha sala.
no vaso esguio
rijo traço do talo
apunhalando
a dupla transparência
de água e vidro.
As folhas não concedem
nervuras
frisos
ou recortadas bordas.
Exata
a curvatura do dorso
reparte
em vírgulas
a luz.
Ao alto
a flor.
Uma flor de camélia
não é rosa
uma flor de camélia
é rigorosa obediência
das pétalas
espaço dividido
a compasso
cêntricos círculos e o miolo
o miolo fechado
pedra branca
que na superficie da tarde
se lança.
Uma camélia
ideograma vivo
se escreve em minha sala.
1 192
Marina Colasanti
UMA CAMÉLIA
Uma camélia só
no vaso esguio
rijo traço do talo
apunhalando
a dupla transparência
de água e vidro.
As folhas não concedem
nervuras
frisos
ou recortadas bordas.
Exata
a curvatura do dorso
reparte
em vírgulas
a luz.
Ao alto
a flor.
Uma flor de camélia
não é rosa
uma flor de camélia
é rigorosa obediência
das pétalas
espaço dividido
a compasso
cêntricos círculos e o miolo
o miolo fechado
pedra branca
que na superficie da tarde
se lança.
Uma camélia
ideograma vivo
se escreve em minha sala.
no vaso esguio
rijo traço do talo
apunhalando
a dupla transparência
de água e vidro.
As folhas não concedem
nervuras
frisos
ou recortadas bordas.
Exata
a curvatura do dorso
reparte
em vírgulas
a luz.
Ao alto
a flor.
Uma flor de camélia
não é rosa
uma flor de camélia
é rigorosa obediência
das pétalas
espaço dividido
a compasso
cêntricos círculos e o miolo
o miolo fechado
pedra branca
que na superficie da tarde
se lança.
Uma camélia
ideograma vivo
se escreve em minha sala.
1 192
Marina Colasanti
ALI, ONDE
Onde a coxa acaba
e a nádega começa
fronteira do obscuro
que ainda não é sexo
mas diz do seu início
há um resvalar de curvas
beirando o precipicio
prenúncio de voragem
onde o futuro é agora.
Ali, onde sol não nasce,
evadem-se os caminhos
ali traçam-se os rumos
se homem
se mulher
carta marcada.
E ali o desejo dorme
ou canta
senhor da encruzilhada.
e a nádega começa
fronteira do obscuro
que ainda não é sexo
mas diz do seu início
há um resvalar de curvas
beirando o precipicio
prenúncio de voragem
onde o futuro é agora.
Ali, onde sol não nasce,
evadem-se os caminhos
ali traçam-se os rumos
se homem
se mulher
carta marcada.
E ali o desejo dorme
ou canta
senhor da encruzilhada.
1 211
Marina Colasanti
CIRCO DE SOL
Chovia em Viena
quando te vi ao lado do Opera
e fomos juntas ao
Circo do Sol.
Fazia frio
era noite
mas debaixo da lona
o sol
andou de bicicleta
sobre um fio e despencou
na ponta de um elástico.
Em Viena
quando saímos
debaixo das pequenas lonas
dos guarda-chuvas abertos
trazíamos todos
no peito
um coração saltimbanco.
Viena 1995
quando te vi ao lado do Opera
e fomos juntas ao
Circo do Sol.
Fazia frio
era noite
mas debaixo da lona
o sol
andou de bicicleta
sobre um fio e despencou
na ponta de um elástico.
Em Viena
quando saímos
debaixo das pequenas lonas
dos guarda-chuvas abertos
trazíamos todos
no peito
um coração saltimbanco.
Viena 1995
1 230