Poemas neste tema
Outros
Marina Colasanti
Talvez saiba
Meu braço é uma extensão imensa
longa colina plana
que o cotovelo rompe
e que o pulso ameaça.
E nessa geografia pulsante
floresta dos meus finos pelos
um inseto desbrava
o áspero chão.
Menos que um ponto
malvisível
sinto o peso nenhum das patas filiformes
pousando em alternância
sobre a pele.
O inseto vai
e talvez saiba aonde
a cabeça examina um lado e outro
os olhos indistintos deste nada
caçam atentos.
Tudo é perigo no seu curto tempo
e no peito
se é peito que se chama
o escuro mais escuro desse corpo
um coração bombeia
em puro medo.
longa colina plana
que o cotovelo rompe
e que o pulso ameaça.
E nessa geografia pulsante
floresta dos meus finos pelos
um inseto desbrava
o áspero chão.
Menos que um ponto
malvisível
sinto o peso nenhum das patas filiformes
pousando em alternância
sobre a pele.
O inseto vai
e talvez saiba aonde
a cabeça examina um lado e outro
os olhos indistintos deste nada
caçam atentos.
Tudo é perigo no seu curto tempo
e no peito
se é peito que se chama
o escuro mais escuro desse corpo
um coração bombeia
em puro medo.
1 175
Marina Colasanti
E rainúnculos
Trezentos anos
metem os dedos
entre meus cabelos
e cantam.
É o pente que comprei
oliveira entalhada
com seus veios.
Um peso antigo na mão
uma escolha
entre os tantos da loja
pentes e objetos todos
antes tronco em
algum campo
e frutos
e perfume na mesa
e na garganta.
Meu pente passa nos cabelos
como em um prado
de finos talos
e rainúnculos beijam
minha testa.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
metem os dedos
entre meus cabelos
e cantam.
É o pente que comprei
oliveira entalhada
com seus veios.
Um peso antigo na mão
uma escolha
entre os tantos da loja
pentes e objetos todos
antes tronco em
algum campo
e frutos
e perfume na mesa
e na garganta.
Meu pente passa nos cabelos
como em um prado
de finos talos
e rainúnculos beijam
minha testa.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 132
Marina Colasanti
E rainúnculos
Trezentos anos
metem os dedos
entre meus cabelos
e cantam.
É o pente que comprei
oliveira entalhada
com seus veios.
Um peso antigo na mão
uma escolha
entre os tantos da loja
pentes e objetos todos
antes tronco em
algum campo
e frutos
e perfume na mesa
e na garganta.
Meu pente passa nos cabelos
como em um prado
de finos talos
e rainúnculos beijam
minha testa.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
metem os dedos
entre meus cabelos
e cantam.
É o pente que comprei
oliveira entalhada
com seus veios.
Um peso antigo na mão
uma escolha
entre os tantos da loja
pentes e objetos todos
antes tronco em
algum campo
e frutos
e perfume na mesa
e na garganta.
Meu pente passa nos cabelos
como em um prado
de finos talos
e rainúnculos beijam
minha testa.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 132
Marina Colasanti
Pontos de vista
Quando Nero queria ver
o mundo melhor
olhava-o através de
uma esmeralda.
Quando quero ver melhor
o mundo
eu o olho através
das palavras.
o mundo melhor
olhava-o através de
uma esmeralda.
Quando quero ver melhor
o mundo
eu o olho através
das palavras.
1 262
Marina Colasanti
Pontos de vista
Quando Nero queria ver
o mundo melhor
olhava-o através de
uma esmeralda.
Quando quero ver melhor
o mundo
eu o olho através
das palavras.
o mundo melhor
olhava-o através de
uma esmeralda.
Quando quero ver melhor
o mundo
eu o olho através
das palavras.
1 262
Marina Colasanti
No túmulo de inox
Morto
resseco
o inseto
jaz sobre o fogão e
me recebe quando tiro a panela.
Ainda há pouco
eu lhe admirava a beleza na janela
exata esmeralda
lançando ao ar o acento
das antenas.
No túmulo de inox
encontro um inseto calcinado
invólucro de inseto
para sempre imóvel
com o rigor das patas.
Chamado pela chama
saltou do vidro onde pousava
vivo verde contra o verde jardim.
A panela cozinhava lenta a sopa
para a cerimônia da ceia;
debaixo do barro
cumpria-se em silêncio
o ritual
de sedução e morte.
resseco
o inseto
jaz sobre o fogão e
me recebe quando tiro a panela.
Ainda há pouco
eu lhe admirava a beleza na janela
exata esmeralda
lançando ao ar o acento
das antenas.
No túmulo de inox
encontro um inseto calcinado
invólucro de inseto
para sempre imóvel
com o rigor das patas.
Chamado pela chama
saltou do vidro onde pousava
vivo verde contra o verde jardim.
A panela cozinhava lenta a sopa
para a cerimônia da ceia;
debaixo do barro
cumpria-se em silêncio
o ritual
de sedução e morte.
1 089
Marina Colasanti
No túmulo de inox
Morto
resseco
o inseto
jaz sobre o fogão e
me recebe quando tiro a panela.
Ainda há pouco
eu lhe admirava a beleza na janela
exata esmeralda
lançando ao ar o acento
das antenas.
No túmulo de inox
encontro um inseto calcinado
invólucro de inseto
para sempre imóvel
com o rigor das patas.
Chamado pela chama
saltou do vidro onde pousava
vivo verde contra o verde jardim.
A panela cozinhava lenta a sopa
para a cerimônia da ceia;
debaixo do barro
cumpria-se em silêncio
o ritual
de sedução e morte.
resseco
o inseto
jaz sobre o fogão e
me recebe quando tiro a panela.
Ainda há pouco
eu lhe admirava a beleza na janela
exata esmeralda
lançando ao ar o acento
das antenas.
No túmulo de inox
encontro um inseto calcinado
invólucro de inseto
para sempre imóvel
com o rigor das patas.
Chamado pela chama
saltou do vidro onde pousava
vivo verde contra o verde jardim.
A panela cozinhava lenta a sopa
para a cerimônia da ceia;
debaixo do barro
cumpria-se em silêncio
o ritual
de sedução e morte.
1 089
Marina Colasanti
Algum vibrar
A borboleta parda
pousou na minha pele
logo acima do pulso.
Eu poderia apagá-la
com pomadas
com ácidos ou laser
mas onde a dermatologia
vê só uma mancha
eu vejo mansas asas
que obedecem
ao mover-se da mão.
Uma nova leveza
invade a manga
escorre pela palma.
E eu gostaria de crer
que desse voo
algum vibrar viaja
no meu verso.
pousou na minha pele
logo acima do pulso.
Eu poderia apagá-la
com pomadas
com ácidos ou laser
mas onde a dermatologia
vê só uma mancha
eu vejo mansas asas
que obedecem
ao mover-se da mão.
Uma nova leveza
invade a manga
escorre pela palma.
E eu gostaria de crer
que desse voo
algum vibrar viaja
no meu verso.
995
Marina Colasanti
Algum vibrar
A borboleta parda
pousou na minha pele
logo acima do pulso.
Eu poderia apagá-la
com pomadas
com ácidos ou laser
mas onde a dermatologia
vê só uma mancha
eu vejo mansas asas
que obedecem
ao mover-se da mão.
Uma nova leveza
invade a manga
escorre pela palma.
E eu gostaria de crer
que desse voo
algum vibrar viaja
no meu verso.
pousou na minha pele
logo acima do pulso.
Eu poderia apagá-la
com pomadas
com ácidos ou laser
mas onde a dermatologia
vê só uma mancha
eu vejo mansas asas
que obedecem
ao mover-se da mão.
Uma nova leveza
invade a manga
escorre pela palma.
E eu gostaria de crer
que desse voo
algum vibrar viaja
no meu verso.
995
Marina Colasanti
Algum vibrar
A borboleta parda
pousou na minha pele
logo acima do pulso.
Eu poderia apagá-la
com pomadas
com ácidos ou laser
mas onde a dermatologia
vê só uma mancha
eu vejo mansas asas
que obedecem
ao mover-se da mão.
Uma nova leveza
invade a manga
escorre pela palma.
E eu gostaria de crer
que desse voo
algum vibrar viaja
no meu verso.
pousou na minha pele
logo acima do pulso.
Eu poderia apagá-la
com pomadas
com ácidos ou laser
mas onde a dermatologia
vê só uma mancha
eu vejo mansas asas
que obedecem
ao mover-se da mão.
Uma nova leveza
invade a manga
escorre pela palma.
E eu gostaria de crer
que desse voo
algum vibrar viaja
no meu verso.
995
Marina Colasanti
Para poder
Assim como os cães sacodem do pelo
água e pulgas
assim também certas mulheres
sacodem da pele
palavras de homem
para poderem pisar com passos
limpos.
água e pulgas
assim também certas mulheres
sacodem da pele
palavras de homem
para poderem pisar com passos
limpos.
1 217
Marina Colasanti
Sem vermelho, porém
Um jovem de Botticelli
toma café
no libre service das Galeries Lafayette.
É aquele de barrete vermelho
com quem já estive em Washington,
mas sem barrete vermelho.
Com a mesma elegante precisão
a mão
fraciona nas falanges luz e sombra
- embora aqui se lhe acrescente
o branco estridor da xícara -
e a cabeça se inclina para o lado
o quanto basta para enviesar o olhar
e deixá-lo descer condescendente
sobre os outros
o nada
sobre o tênue vapor que evola do café.
O jovem de Botticelli pousa a xícara
veste o blusão de couro
os cachos brilham debaixo das lâmpadas.
Falta faz porém o barrete vermelho
o vermelho sangue gerânio laca do barrete
do barrete que em pura cor coroa o jovem
de Washington.
E mais pobre sem ele
o meu quadro incompleto
já se vai.
toma café
no libre service das Galeries Lafayette.
É aquele de barrete vermelho
com quem já estive em Washington,
mas sem barrete vermelho.
Com a mesma elegante precisão
a mão
fraciona nas falanges luz e sombra
- embora aqui se lhe acrescente
o branco estridor da xícara -
e a cabeça se inclina para o lado
o quanto basta para enviesar o olhar
e deixá-lo descer condescendente
sobre os outros
o nada
sobre o tênue vapor que evola do café.
O jovem de Botticelli pousa a xícara
veste o blusão de couro
os cachos brilham debaixo das lâmpadas.
Falta faz porém o barrete vermelho
o vermelho sangue gerânio laca do barrete
do barrete que em pura cor coroa o jovem
de Washington.
E mais pobre sem ele
o meu quadro incompleto
já se vai.
943
Marina Colasanti
Sem vermelho, porém
Um jovem de Botticelli
toma café
no libre service das Galeries Lafayette.
É aquele de barrete vermelho
com quem já estive em Washington,
mas sem barrete vermelho.
Com a mesma elegante precisão
a mão
fraciona nas falanges luz e sombra
- embora aqui se lhe acrescente
o branco estridor da xícara -
e a cabeça se inclina para o lado
o quanto basta para enviesar o olhar
e deixá-lo descer condescendente
sobre os outros
o nada
sobre o tênue vapor que evola do café.
O jovem de Botticelli pousa a xícara
veste o blusão de couro
os cachos brilham debaixo das lâmpadas.
Falta faz porém o barrete vermelho
o vermelho sangue gerânio laca do barrete
do barrete que em pura cor coroa o jovem
de Washington.
E mais pobre sem ele
o meu quadro incompleto
já se vai.
toma café
no libre service das Galeries Lafayette.
É aquele de barrete vermelho
com quem já estive em Washington,
mas sem barrete vermelho.
Com a mesma elegante precisão
a mão
fraciona nas falanges luz e sombra
- embora aqui se lhe acrescente
o branco estridor da xícara -
e a cabeça se inclina para o lado
o quanto basta para enviesar o olhar
e deixá-lo descer condescendente
sobre os outros
o nada
sobre o tênue vapor que evola do café.
O jovem de Botticelli pousa a xícara
veste o blusão de couro
os cachos brilham debaixo das lâmpadas.
Falta faz porém o barrete vermelho
o vermelho sangue gerânio laca do barrete
do barrete que em pura cor coroa o jovem
de Washington.
E mais pobre sem ele
o meu quadro incompleto
já se vai.
943
Marina Colasanti
Livres à noite
Tirar o sutiã à noite
quando o dia se acaba
e com ele o dever de rijos seios.
Tirar o sutiã à noite
despir a couraça
a constrictor
a alheia pele.
Livrar-se de arames
elásticos presilhas
cortar com tesoura o wonderbra.
Toda noite a mulher regressa
da cruzada
e liberta sua santa carne.
Descem as alças pelos ombros
as mãos se encontram nas costas
soltando amarras
e na quietude do quarto
os peitos
como navios
fazem-se ao largo.
quando o dia se acaba
e com ele o dever de rijos seios.
Tirar o sutiã à noite
despir a couraça
a constrictor
a alheia pele.
Livrar-se de arames
elásticos presilhas
cortar com tesoura o wonderbra.
Toda noite a mulher regressa
da cruzada
e liberta sua santa carne.
Descem as alças pelos ombros
as mãos se encontram nas costas
soltando amarras
e na quietude do quarto
os peitos
como navios
fazem-se ao largo.
1 029
Marina Colasanti
Com seu grito imenso
O moço meu vizinho
jogou-se da janela.
Quinze andares
abismo de pastilhas azuis
céu vertical
que acaba no cimento.
Nenhum arbusto ou galho
na descida
nenhuma mão estendida
e as janelas iguais
que ninguém abre.
Agora
quando olho da rua
o meu edifício
vejo um corpo caindo
ao lado esquerdo
caindo sempre
e sempre ali suspenso
um corpo mudo
com seu grito imenso.
jogou-se da janela.
Quinze andares
abismo de pastilhas azuis
céu vertical
que acaba no cimento.
Nenhum arbusto ou galho
na descida
nenhuma mão estendida
e as janelas iguais
que ninguém abre.
Agora
quando olho da rua
o meu edifício
vejo um corpo caindo
ao lado esquerdo
caindo sempre
e sempre ali suspenso
um corpo mudo
com seu grito imenso.
1 145
Manuel Bandeira
Escusa
Eurico Alves, poeta baiano,
Salpicado de orvalho, leite cru e tenro cocô de cabrito,
Sinto muito, mas não posso ir a Feira de Sant'Ana.
Sou poeta da cidade.
Meus pulmões viraram máquinas inumanas e aprenderam a respirar O gás carbônico das salas de cinema.
Como o pão que o diabo amassou.
Bebo leite de lata.
Falo com A., que é ladrão.
Aperto a mão de B., que é assassino.
Há anos que não vejo romper o sol, que não lavo os olhos nas cores das madrugadas.
Eurico Alves, poeta baiano,
Não sou mais digno de respirar o ar puro dos currais da roça.
Salpicado de orvalho, leite cru e tenro cocô de cabrito,
Sinto muito, mas não posso ir a Feira de Sant'Ana.
Sou poeta da cidade.
Meus pulmões viraram máquinas inumanas e aprenderam a respirar O gás carbônico das salas de cinema.
Como o pão que o diabo amassou.
Bebo leite de lata.
Falo com A., que é ladrão.
Aperto a mão de B., que é assassino.
Há anos que não vejo romper o sol, que não lavo os olhos nas cores das madrugadas.
Eurico Alves, poeta baiano,
Não sou mais digno de respirar o ar puro dos currais da roça.
1 452
Marina Colasanti
Jerusalém, Jerusalém
O açafrão que comprei
botei na mala
e na mala botei
a roupa branca comprada
no mercado.
Minha roupa chegou
bordada de perfume
pano branco
com cheiro de dourado.
botei na mala
e na mala botei
a roupa branca comprada
no mercado.
Minha roupa chegou
bordada de perfume
pano branco
com cheiro de dourado.
1 173
Marina Colasanti
Quem saberá?
Aqui
luz de montanha fria como um espelho
e como espelho límpida e
cortante
blocos de luz que varam as
vidraças da casa sem cortinas e
sem panos
arestas claras navalhando sombras.
Há um remador num quarto
inseto de madeira gigantesco
libélula sem asas
pousada
sobre o brilho do chão
rígida água.
Além dos vidros
o vale azul é poço
inalcançável
e o olhar despenca nas escarpas
nuas.
Aqui
onde não sou filha
onde não sou parte
menina de tranças
como tantas meninas de tranças
quem saberá quem sou
se o ônibus
que acabou de levar a minha mãe
não regressar?
luz de montanha fria como um espelho
e como espelho límpida e
cortante
blocos de luz que varam as
vidraças da casa sem cortinas e
sem panos
arestas claras navalhando sombras.
Há um remador num quarto
inseto de madeira gigantesco
libélula sem asas
pousada
sobre o brilho do chão
rígida água.
Além dos vidros
o vale azul é poço
inalcançável
e o olhar despenca nas escarpas
nuas.
Aqui
onde não sou filha
onde não sou parte
menina de tranças
como tantas meninas de tranças
quem saberá quem sou
se o ônibus
que acabou de levar a minha mãe
não regressar?
1 103
Marina Colasanti
Tão clara a água
Naquele verão
um homem afogou-se
no meu mar de criança.
Disseram que uma câimbra
que um mal súbito
que um peixe
uma água-viva.
Procuraram desculpas
para morte
em tão límpidas águas.
Eu não me perguntei por que
mas onde,
procurando no claro
a escuridão.
E até o fim do verão
não mergulhei no mar
adentrei numa tumba.
um homem afogou-se
no meu mar de criança.
Disseram que uma câimbra
que um mal súbito
que um peixe
uma água-viva.
Procuraram desculpas
para morte
em tão límpidas águas.
Eu não me perguntei por que
mas onde,
procurando no claro
a escuridão.
E até o fim do verão
não mergulhei no mar
adentrei numa tumba.
1 048
Manuel Bandeira
A Silhueta
Na sala obscura, onde branqueja
A mancha ebúrnea do teclado,
Morre e revive, expira, arqueja
O estribilho desesperado.
Um Pierrot de vestes de seda
Negra, ele próprio toca e canta.
O timbre múrmuro segreda
Uma dor que sobe à garganta.
E uma tristeza de tal sorte
Vem nessa pobre voz humana,
Que se pensa em fugir na morte
À miséria cotidiana.
Como a voz, também a mão geme.
E na parede se debruça
A sombra pálida, que treme,
De uma garganta que soluça...
A mancha ebúrnea do teclado,
Morre e revive, expira, arqueja
O estribilho desesperado.
Um Pierrot de vestes de seda
Negra, ele próprio toca e canta.
O timbre múrmuro segreda
Uma dor que sobe à garganta.
E uma tristeza de tal sorte
Vem nessa pobre voz humana,
Que se pensa em fugir na morte
À miséria cotidiana.
Como a voz, também a mão geme.
E na parede se debruça
A sombra pálida, que treme,
De uma garganta que soluça...
1 627
Manuel Bandeira
A Silhueta
Na sala obscura, onde branqueja
A mancha ebúrnea do teclado,
Morre e revive, expira, arqueja
O estribilho desesperado.
Um Pierrot de vestes de seda
Negra, ele próprio toca e canta.
O timbre múrmuro segreda
Uma dor que sobe à garganta.
E uma tristeza de tal sorte
Vem nessa pobre voz humana,
Que se pensa em fugir na morte
À miséria cotidiana.
Como a voz, também a mão geme.
E na parede se debruça
A sombra pálida, que treme,
De uma garganta que soluça...
A mancha ebúrnea do teclado,
Morre e revive, expira, arqueja
O estribilho desesperado.
Um Pierrot de vestes de seda
Negra, ele próprio toca e canta.
O timbre múrmuro segreda
Uma dor que sobe à garganta.
E uma tristeza de tal sorte
Vem nessa pobre voz humana,
Que se pensa em fugir na morte
À miséria cotidiana.
Como a voz, também a mão geme.
E na parede se debruça
A sombra pálida, que treme,
De uma garganta que soluça...
1 627
Marina Colasanti
A medida do pai
O filho primogênito
abaixa a cabeça
sempre que passa
por aquela porta.
O filho primogênito cresceu.
Alteie a porta,
digo para ele,
não abaixe a cabeça.
Não posso,
me responde,
já tentei, mas
a porta foi feita
e posta a viga
na minha antiga medida.
O filho primogênito cresceu
e a casa do pai
só lhe cabe
abaixando a cabeça.
El Moro, Roma, 2001
abaixa a cabeça
sempre que passa
por aquela porta.
O filho primogênito cresceu.
Alteie a porta,
digo para ele,
não abaixe a cabeça.
Não posso,
me responde,
já tentei, mas
a porta foi feita
e posta a viga
na minha antiga medida.
O filho primogênito cresceu
e a casa do pai
só lhe cabe
abaixando a cabeça.
El Moro, Roma, 2001
1 148
Marina Colasanti
O gosto que se foi
Quando eu era menina
gostava de sugar nas flores de glicínia
no exato centro
no protegido ponto que as pétalas escondem:
o pistilo.
Tinha um tanto de açúcar
parecia
e era crocante.
Adulta
inutilmente busco
o mesmo gosto.
Estala em minha boca
a carne tenra
a língua escarva
sem que nada me chegue
nem o açúcar da infância
nem gosto de lembrança.
gostava de sugar nas flores de glicínia
no exato centro
no protegido ponto que as pétalas escondem:
o pistilo.
Tinha um tanto de açúcar
parecia
e era crocante.
Adulta
inutilmente busco
o mesmo gosto.
Estala em minha boca
a carne tenra
a língua escarva
sem que nada me chegue
nem o açúcar da infância
nem gosto de lembrança.
1 009
Marina Colasanti
Matisse em flor
O gerânio que
nesse quadro
está parado e cresce
é o mesmo que floresce em minha casa
nas casas todas
em que vivo
e vivi.
É o mesmo que pintei
e que a amiga levou para um país cinzento
o mesmo que Pavese nos deixou
comido pelo sol
e entregue ao vento.
Gerânio
mais que flor
cor plantada no vaso
na terra
na beira da janela
onde o sol bate
e a noite se enovela.
Teu gerânio, Matisse
eu o planto
e replanto
vida afora
tempo adentro
tirando as mudas
dos seus próprios caules
gerando nova planta onde outra morre
flor que se acende e apaga
como chama
e que se lança
seixo rolado
abrindo em meu olhar
giros concêntricos.
nesse quadro
está parado e cresce
é o mesmo que floresce em minha casa
nas casas todas
em que vivo
e vivi.
É o mesmo que pintei
e que a amiga levou para um país cinzento
o mesmo que Pavese nos deixou
comido pelo sol
e entregue ao vento.
Gerânio
mais que flor
cor plantada no vaso
na terra
na beira da janela
onde o sol bate
e a noite se enovela.
Teu gerânio, Matisse
eu o planto
e replanto
vida afora
tempo adentro
tirando as mudas
dos seus próprios caules
gerando nova planta onde outra morre
flor que se acende e apaga
como chama
e que se lança
seixo rolado
abrindo em meu olhar
giros concêntricos.
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