Poemas neste tema
Outros
Affonso Romano de Sant'Anna
Viii Reunião de Intelectuais
(Lembrando Octávio Paz e José Guilherme Merquior, presentes)
Estamos atrás desta mesa
e somos donos de uma certa sabedoria
que se compraz
num jeito narcísico de se expor.
Teorizamos. Com a linguagem
tentamos
ladrilhar a angústia e a história.
Lá fora, a rua,
a cidade onde os homens se amam e se devoram.
Ah! se os governantes nos ouvissem.
Que duro
– além da culpa histórica –
carregar a impotência,
a impotência
para realizar as utopias
de mais uma
perdida geração.
Estamos atrás desta mesa
e somos donos de uma certa sabedoria
que se compraz
num jeito narcísico de se expor.
Teorizamos. Com a linguagem
tentamos
ladrilhar a angústia e a história.
Lá fora, a rua,
a cidade onde os homens se amam e se devoram.
Ah! se os governantes nos ouvissem.
Que duro
– além da culpa histórica –
carregar a impotência,
a impotência
para realizar as utopias
de mais uma
perdida geração.
960
Affonso Romano de Sant'Anna
A Porta do Messias
Entardecia dentro dos muros de Jerusalém:
crianças pedalavam atrás do azul
homens sentados negociavam os últimos raios de sol
mulheres vestiam antigas profecias
quando vi o fantasma do Messias
uma vez mais se aconchegando para dormir
na soleira da murada Porta de Herodes
para ele fechada, todavia.
crianças pedalavam atrás do azul
homens sentados negociavam os últimos raios de sol
mulheres vestiam antigas profecias
quando vi o fantasma do Messias
uma vez mais se aconchegando para dormir
na soleira da murada Porta de Herodes
para ele fechada, todavia.
1 024
Affonso Romano de Sant'Anna
Significados
Comprava dicionários para compreender-me
como se colhesse os fios de uma rede.
Entre as palavras, no entanto,
a vida vazava como invisível água
enquanto me aumentava a sede.
como se colhesse os fios de uma rede.
Entre as palavras, no entanto,
a vida vazava como invisível água
enquanto me aumentava a sede.
1 127
Affonso Romano de Sant'Anna
Significados
Comprava dicionários para compreender-me
como se colhesse os fios de uma rede.
Entre as palavras, no entanto,
a vida vazava como invisível água
enquanto me aumentava a sede.
como se colhesse os fios de uma rede.
Entre as palavras, no entanto,
a vida vazava como invisível água
enquanto me aumentava a sede.
1 127
Affonso Romano de Sant'Anna
Canibalismo Repensado
Às vezes tenho a impressão
que, apressado, vivo deglutindo a vida
pensando em comer-comer
com a voracidade do gourmand
sem a sutileza do gourmet.
Às vezes, penso que estou, na pressa
perdendo o sabor, o refino do tempero
o bouquet dos sentimentos
e que os fatos e pessoas
é que finalmente me devoram.
Estou cansado disto.
Paro. Penso. E, então, escrevo:
Oh! vida, que generosa tens sido!
Adeus canibalismo apressado
começo a saborear minúcias
quero mais delicadezas
na minha cama, na minha mesa.
que, apressado, vivo deglutindo a vida
pensando em comer-comer
com a voracidade do gourmand
sem a sutileza do gourmet.
Às vezes, penso que estou, na pressa
perdendo o sabor, o refino do tempero
o bouquet dos sentimentos
e que os fatos e pessoas
é que finalmente me devoram.
Estou cansado disto.
Paro. Penso. E, então, escrevo:
Oh! vida, que generosa tens sido!
Adeus canibalismo apressado
começo a saborear minúcias
quero mais delicadezas
na minha cama, na minha mesa.
1 149
Affonso Romano de Sant'Anna
Palavras E Paisagens
Há certas palavras pelas quais passo frequentemente
sem lhes conhecer o sentido verdadeiro.
Nunca fui ao dicionário
conhecer as formas polifacéticas de seu ser.
São como pessoas que por mim passam
ou que frequentam nossa paisagem.
Não nos aprofundamos em conhecê-las.
Basta o colorido de suas vestes
e a sonoridade de seus nomes.
Não se pode esgotar o dicionário
ou amar completamente
– tudo o que encontramos.
sem lhes conhecer o sentido verdadeiro.
Nunca fui ao dicionário
conhecer as formas polifacéticas de seu ser.
São como pessoas que por mim passam
ou que frequentam nossa paisagem.
Não nos aprofundamos em conhecê-las.
Basta o colorido de suas vestes
e a sonoridade de seus nomes.
Não se pode esgotar o dicionário
ou amar completamente
– tudo o que encontramos.
1 144
Affonso Romano de Sant'Anna
Palavras E Paisagens
Há certas palavras pelas quais passo frequentemente
sem lhes conhecer o sentido verdadeiro.
Nunca fui ao dicionário
conhecer as formas polifacéticas de seu ser.
São como pessoas que por mim passam
ou que frequentam nossa paisagem.
Não nos aprofundamos em conhecê-las.
Basta o colorido de suas vestes
e a sonoridade de seus nomes.
Não se pode esgotar o dicionário
ou amar completamente
– tudo o que encontramos.
sem lhes conhecer o sentido verdadeiro.
Nunca fui ao dicionário
conhecer as formas polifacéticas de seu ser.
São como pessoas que por mim passam
ou que frequentam nossa paisagem.
Não nos aprofundamos em conhecê-las.
Basta o colorido de suas vestes
e a sonoridade de seus nomes.
Não se pode esgotar o dicionário
ou amar completamente
– tudo o que encontramos.
1 144
Affonso Romano de Sant'Anna
A Letra E a Morte
Para Fausto Henrique
Meu amigo morreu
e eu estava ao telefone encomendando estantes para os livros.
Quem me dava a notícia
explicava como o câncer devorou-lhe o fígado
em um mês,
enquanto minha mulher do outro lado da sala
perguntava se eu ia montar a árvore de Natal.
Volto pesaroso ao escritório
lembrando o amigo que restaurava obras raras
e mal repouso a tristeza e os olhos nas montanhas
outro telefonema
cobra-me uma conferência na Argentina.
Visitarei o corpo do amigo na capela 5 às três da tarde
mas não poderei acompanhar-lhe o sepultamento
porque no mesmo horário
estarei numa livraria
lançando um novo livro:
– mausoléu de palavras vivas –
celebrando o amor e a morte.
Meu amigo morreu
e eu estava ao telefone encomendando estantes para os livros.
Quem me dava a notícia
explicava como o câncer devorou-lhe o fígado
em um mês,
enquanto minha mulher do outro lado da sala
perguntava se eu ia montar a árvore de Natal.
Volto pesaroso ao escritório
lembrando o amigo que restaurava obras raras
e mal repouso a tristeza e os olhos nas montanhas
outro telefonema
cobra-me uma conferência na Argentina.
Visitarei o corpo do amigo na capela 5 às três da tarde
mas não poderei acompanhar-lhe o sepultamento
porque no mesmo horário
estarei numa livraria
lançando um novo livro:
– mausoléu de palavras vivas –
celebrando o amor e a morte.
647
Affonso Romano de Sant'Anna
A Letra E a Morte
Para Fausto Henrique
Meu amigo morreu
e eu estava ao telefone encomendando estantes para os livros.
Quem me dava a notícia
explicava como o câncer devorou-lhe o fígado
em um mês,
enquanto minha mulher do outro lado da sala
perguntava se eu ia montar a árvore de Natal.
Volto pesaroso ao escritório
lembrando o amigo que restaurava obras raras
e mal repouso a tristeza e os olhos nas montanhas
outro telefonema
cobra-me uma conferência na Argentina.
Visitarei o corpo do amigo na capela 5 às três da tarde
mas não poderei acompanhar-lhe o sepultamento
porque no mesmo horário
estarei numa livraria
lançando um novo livro:
– mausoléu de palavras vivas –
celebrando o amor e a morte.
Meu amigo morreu
e eu estava ao telefone encomendando estantes para os livros.
Quem me dava a notícia
explicava como o câncer devorou-lhe o fígado
em um mês,
enquanto minha mulher do outro lado da sala
perguntava se eu ia montar a árvore de Natal.
Volto pesaroso ao escritório
lembrando o amigo que restaurava obras raras
e mal repouso a tristeza e os olhos nas montanhas
outro telefonema
cobra-me uma conferência na Argentina.
Visitarei o corpo do amigo na capela 5 às três da tarde
mas não poderei acompanhar-lhe o sepultamento
porque no mesmo horário
estarei numa livraria
lançando um novo livro:
– mausoléu de palavras vivas –
celebrando o amor e a morte.
647
Affonso Romano de Sant'Anna
O Impossível Acontece
O Messias nasceu de uma Virgem.
O grande pensador grego nunca escreveu um livro.
A Nona Sinfonia é fruto de um homem surdo.
Na Biblioteca de Babel o leitor era um poeta cego.
E não tinha mãos, o homem que fez
as mais belas esculturas de meu país.
O grande pensador grego nunca escreveu um livro.
A Nona Sinfonia é fruto de um homem surdo.
Na Biblioteca de Babel o leitor era um poeta cego.
E não tinha mãos, o homem que fez
as mais belas esculturas de meu país.
1 217
Affonso Romano de Sant'Anna
Debruçado Sobre o Mistério
Não sou o primeiro a debruçar-me sobre o mistério.
Ovídio perscrutava as estações,
Leopardi tinha um pacto com estrelas.
Outros, deixando à parte os instrumentos
humildes e perplexos se renderam.
Não há como ao mistério decifrá-lo.
É próprio dos mistérios serem opacos.
Entrego o pasmo à sua sorte.
Passeio calmo em seus arcanos
aspiro aromas, vejo cores, toco formas
e me dissolvo extasiado nessa aura.
Ovídio perscrutava as estações,
Leopardi tinha um pacto com estrelas.
Outros, deixando à parte os instrumentos
humildes e perplexos se renderam.
Não há como ao mistério decifrá-lo.
É próprio dos mistérios serem opacos.
Entrego o pasmo à sua sorte.
Passeio calmo em seus arcanos
aspiro aromas, vejo cores, toco formas
e me dissolvo extasiado nessa aura.
1 060
Affonso Romano de Sant'Anna
Debruçado Sobre o Mistério
Não sou o primeiro a debruçar-me sobre o mistério.
Ovídio perscrutava as estações,
Leopardi tinha um pacto com estrelas.
Outros, deixando à parte os instrumentos
humildes e perplexos se renderam.
Não há como ao mistério decifrá-lo.
É próprio dos mistérios serem opacos.
Entrego o pasmo à sua sorte.
Passeio calmo em seus arcanos
aspiro aromas, vejo cores, toco formas
e me dissolvo extasiado nessa aura.
Ovídio perscrutava as estações,
Leopardi tinha um pacto com estrelas.
Outros, deixando à parte os instrumentos
humildes e perplexos se renderam.
Não há como ao mistério decifrá-lo.
É próprio dos mistérios serem opacos.
Entrego o pasmo à sua sorte.
Passeio calmo em seus arcanos
aspiro aromas, vejo cores, toco formas
e me dissolvo extasiado nessa aura.
1 060
Affonso Romano de Sant'Anna
Vou Ficar de Vez Na Porta Deste Cemitério
Vou ficar de vez na porta deste cemitério.
Assim, já não serei surpreendido
quando outro corpo dobrar a esquina.
Vou ficar de vez na porta deste cemitério.
Farei aqui minha tenda como os antigos
que ali montavam feiras e quermesses
como tranquilos inquilinos.
Aguardarei aqui a morte
que há algum tempo começou a chegar. A morte
que há muito tempo começou a cavar. A morte
repentina, que diariamente abre sua oficina. A morte
matinal e vespertina. A minha morte
que há muito tempo
nasceu em mim, em Minas.
Assim, já não serei surpreendido
quando outro corpo dobrar a esquina.
Vou ficar de vez na porta deste cemitério.
Farei aqui minha tenda como os antigos
que ali montavam feiras e quermesses
como tranquilos inquilinos.
Aguardarei aqui a morte
que há algum tempo começou a chegar. A morte
que há muito tempo começou a cavar. A morte
repentina, que diariamente abre sua oficina. A morte
matinal e vespertina. A minha morte
que há muito tempo
nasceu em mim, em Minas.
1 174
Affonso Romano de Sant'Anna
Além do Entendimento
A essa altura
há coisas
que (ainda)
não entendo.
Por exemplo:
o amor. Faz tempo
que diante dele
me desoriento.
O amor é intempestivo
eu sou lento.
Quando ele sopra
– estatelado –
mais pareço
um cata-vento.
há coisas
que (ainda)
não entendo.
Por exemplo:
o amor. Faz tempo
que diante dele
me desoriento.
O amor é intempestivo
eu sou lento.
Quando ele sopra
– estatelado –
mais pareço
um cata-vento.
1 099
Affonso Romano de Sant'Anna
Sedução Mortal
Olho as coisas com um desprendimento
com uma ternura angelical.
Olho-me já de longe, etéreo,
um centímetro acima do instinto vital.
A morte me seduz
e a ela me consagro
com um desprendimento fatal.
com uma ternura angelical.
Olho-me já de longe, etéreo,
um centímetro acima do instinto vital.
A morte me seduz
e a ela me consagro
com um desprendimento fatal.
1 206
Affonso Romano de Sant'Anna
O Telefone E o Amigo Morto
(Crônica-poema para Hélio Pellegrino)
Nesta límpida manhã de março
o telefone ainda não anunciou a morte do amigo.
A lagoa e as montanhas sabem já que algo morreu longe de mim
e, no entanto, disfarçam a notícia numa cumplicidade azul.
Quanto tempo levará ainda esta notícia
retida em outras bocas e ouvidos
até me atingir como um tijolo no peito?
Ainda não começou a morrer (em mim) aquele que já morreu
e que as gaivotas da praia não ousam anunciar.
Há uma tocaia atrás do azul desta manhã.
Desprotegido, recorto jornais, dou telefonemas,
azulejo a manhã na minha mesa,
organizando a burocracia do dia.
Nesta límpida manhã de março
o telefone não anunciou ainda a morte do amigo.
Se alguém, súbito, o mencionasse vivo
o veria no consultório das falas aflitas
ouvindo o relatório das paixões desnorteantes
o admiraria nas festas e mesas, nos comícios e textos
alternando revolução e ternura.
O telefone, porém, ainda não soou.
Estou no minuto anterior à notícia da morte
em que a felicidade é consentida.
No minuto anterior à morte
em que é possível o gesto salvador
que resgate o jovem no fatal mergulho,
o carro que se desgovernou na pista,
a bala que atravessou a noite.
Aquele minuto anterior à morte
em que a mão do médico prolonga e tece
com novos fios, a vida.
O telefone ainda não soou
e não sei que à tarde estarei no cemitério
lado a lado com seu corpo, caminhando
entre desconhecidas covas, desvalido
abraçando outros desvalidos.
Não acordei hoje para ir ao cemitério
e à luz dos refletores da tarde ter que formular o pasmo
sobre o ocaso de uma geração que vai se dizimando.
Mas a manhã azul, traiçoeira, como o alcaguete
escolhe a vítima e antegoza a tortura da notícia.
Impossível, contudo, ver no Sol desta manhã o eclipse da face amiga.
Ao contrário, o vejo: Hélio – o fulgurante
Hélio – solar criatura, verbo coruscante, mediterrânea fagulha
versando sagrada fúria.
Hélio – lírico desassombro entre ruínas
com o tropismo de sua voz nos ensinando
que é possível ser grego e tropical, nascendo em Minas.
Ah! Héliovívida aventura, Héliodescentrada figura
lançando sóis na órbita da loucura.
O telefone ainda não soou sua morte
que venha quando venha será sempre prematura.
O telefone ainda não soou
e não sei ainda como o infarto estanca na madrugada
uma usina de sonhos em forma humana.
Não posso portanto perguntar ainda
o que será de seus três eus restantes.
O telefone me dá tempo de olhar estúpido
a límpida manhã de março
ainda sem amargura.
Mas a ditadura deste azul é sufocante.
O telefone ainda não lançou manchas roxas na pele da manhã.
O telefone não sabe o que se prepara no inconsciente das manhãs.
Por ora, contemplo a manhã desta janela. É eterna.
Arrumo os papéis azulejando a burocracia do dia.
Tenho um dia pela frente
– e sou quase feliz.
Nesta límpida manhã de março
o telefone ainda não anunciou a morte do amigo.
A lagoa e as montanhas sabem já que algo morreu longe de mim
e, no entanto, disfarçam a notícia numa cumplicidade azul.
Quanto tempo levará ainda esta notícia
retida em outras bocas e ouvidos
até me atingir como um tijolo no peito?
Ainda não começou a morrer (em mim) aquele que já morreu
e que as gaivotas da praia não ousam anunciar.
Há uma tocaia atrás do azul desta manhã.
Desprotegido, recorto jornais, dou telefonemas,
azulejo a manhã na minha mesa,
organizando a burocracia do dia.
Nesta límpida manhã de março
o telefone não anunciou ainda a morte do amigo.
Se alguém, súbito, o mencionasse vivo
o veria no consultório das falas aflitas
ouvindo o relatório das paixões desnorteantes
o admiraria nas festas e mesas, nos comícios e textos
alternando revolução e ternura.
O telefone, porém, ainda não soou.
Estou no minuto anterior à notícia da morte
em que a felicidade é consentida.
No minuto anterior à morte
em que é possível o gesto salvador
que resgate o jovem no fatal mergulho,
o carro que se desgovernou na pista,
a bala que atravessou a noite.
Aquele minuto anterior à morte
em que a mão do médico prolonga e tece
com novos fios, a vida.
O telefone ainda não soou
e não sei que à tarde estarei no cemitério
lado a lado com seu corpo, caminhando
entre desconhecidas covas, desvalido
abraçando outros desvalidos.
Não acordei hoje para ir ao cemitério
e à luz dos refletores da tarde ter que formular o pasmo
sobre o ocaso de uma geração que vai se dizimando.
Mas a manhã azul, traiçoeira, como o alcaguete
escolhe a vítima e antegoza a tortura da notícia.
Impossível, contudo, ver no Sol desta manhã o eclipse da face amiga.
Ao contrário, o vejo: Hélio – o fulgurante
Hélio – solar criatura, verbo coruscante, mediterrânea fagulha
versando sagrada fúria.
Hélio – lírico desassombro entre ruínas
com o tropismo de sua voz nos ensinando
que é possível ser grego e tropical, nascendo em Minas.
Ah! Héliovívida aventura, Héliodescentrada figura
lançando sóis na órbita da loucura.
O telefone ainda não soou sua morte
que venha quando venha será sempre prematura.
O telefone ainda não soou
e não sei ainda como o infarto estanca na madrugada
uma usina de sonhos em forma humana.
Não posso portanto perguntar ainda
o que será de seus três eus restantes.
O telefone me dá tempo de olhar estúpido
a límpida manhã de março
ainda sem amargura.
Mas a ditadura deste azul é sufocante.
O telefone ainda não lançou manchas roxas na pele da manhã.
O telefone não sabe o que se prepara no inconsciente das manhãs.
Por ora, contemplo a manhã desta janela. É eterna.
Arrumo os papéis azulejando a burocracia do dia.
Tenho um dia pela frente
– e sou quase feliz.
947
Affonso Romano de Sant'Anna
Vivi 45 Anos
Vivi 45 anos.
Já fiz, suponho, metade do percurso.
Também o mundo acabará, é certo.
Primeiro o Sol – daqui a 5 bilhões de anos
numa explosão minúscula perto da que ocorrerá
quando bilhões de anos depois
explodirá toda a galáxia.
Nosso fim, portanto, é certo. Não
há museu de cera ou arca de Noé
que desta vez ultrapasse o arco-íris de horrores.
A menos, é claro,
que modifiquem as previsões da história.
Mas aí, já estarei morto.
Já fiz, suponho, metade do percurso.
Também o mundo acabará, é certo.
Primeiro o Sol – daqui a 5 bilhões de anos
numa explosão minúscula perto da que ocorrerá
quando bilhões de anos depois
explodirá toda a galáxia.
Nosso fim, portanto, é certo. Não
há museu de cera ou arca de Noé
que desta vez ultrapasse o arco-íris de horrores.
A menos, é claro,
que modifiquem as previsões da história.
Mas aí, já estarei morto.
1 146
Affonso Romano de Sant'Anna
Hopper
Hopper
e a solidão dos objetos na vitrina
Hopper
e a solidão dos corpos na varanda
na janela
na campina
Hopper
e a solidão silente.
Hopper.
Hope.
Hopeless.
e a solidão dos objetos na vitrina
Hopper
e a solidão dos corpos na varanda
na janela
na campina
Hopper
e a solidão silente.
Hopper.
Hope.
Hopeless.
1 132
Affonso Romano de Sant'Anna
Hopper
Hopper
e a solidão dos objetos na vitrina
Hopper
e a solidão dos corpos na varanda
na janela
na campina
Hopper
e a solidão silente.
Hopper.
Hope.
Hopeless.
e a solidão dos objetos na vitrina
Hopper
e a solidão dos corpos na varanda
na janela
na campina
Hopper
e a solidão silente.
Hopper.
Hope.
Hopeless.
1 132
Affonso Romano de Sant'Anna
Na 5.ª Avenida
Sou um homem de 47 anos
andando na 5.ª avenida de Nova York
e vivo num mundo onde todos se devoram.
Acabei de ver uma exposição mostrando
como Picasso, Braque, Brancusi, Modigliani, Giacometti e Wlaminck
se apropriaram da arte africana
e se apropriavam eles mesmos
da arte uns dos outros.
De Gauguin e suas figuras da Polinésia
Picasso tirou suas “Duas mulheres sentadas”.
– “Eu não procuro, eu acho” – dizia ele
e assim ia devorando artistas e mulheres.
Esta manhã li
que o deserto do Saara avança 6 a 12 milhas por mês.
Só em 1984 avançou 125 milhas
ameaçando engolir Sahel.
Como são vorazes os artistas e desertos!
Não é tão longe a África nem tão longe a Polinésia!
Ali na esquina, um cidadão acaba de matar
dois jovens canibais que o atacaram
e, nos jornais, virou herói.
andando na 5.ª avenida de Nova York
e vivo num mundo onde todos se devoram.
Acabei de ver uma exposição mostrando
como Picasso, Braque, Brancusi, Modigliani, Giacometti e Wlaminck
se apropriaram da arte africana
e se apropriavam eles mesmos
da arte uns dos outros.
De Gauguin e suas figuras da Polinésia
Picasso tirou suas “Duas mulheres sentadas”.
– “Eu não procuro, eu acho” – dizia ele
e assim ia devorando artistas e mulheres.
Esta manhã li
que o deserto do Saara avança 6 a 12 milhas por mês.
Só em 1984 avançou 125 milhas
ameaçando engolir Sahel.
Como são vorazes os artistas e desertos!
Não é tão longe a África nem tão longe a Polinésia!
Ali na esquina, um cidadão acaba de matar
dois jovens canibais que o atacaram
e, nos jornais, virou herói.
1 098
Affonso Romano de Sant'Anna
Na 5.ª Avenida
Sou um homem de 47 anos
andando na 5.ª avenida de Nova York
e vivo num mundo onde todos se devoram.
Acabei de ver uma exposição mostrando
como Picasso, Braque, Brancusi, Modigliani, Giacometti e Wlaminck
se apropriaram da arte africana
e se apropriavam eles mesmos
da arte uns dos outros.
De Gauguin e suas figuras da Polinésia
Picasso tirou suas “Duas mulheres sentadas”.
– “Eu não procuro, eu acho” – dizia ele
e assim ia devorando artistas e mulheres.
Esta manhã li
que o deserto do Saara avança 6 a 12 milhas por mês.
Só em 1984 avançou 125 milhas
ameaçando engolir Sahel.
Como são vorazes os artistas e desertos!
Não é tão longe a África nem tão longe a Polinésia!
Ali na esquina, um cidadão acaba de matar
dois jovens canibais que o atacaram
e, nos jornais, virou herói.
andando na 5.ª avenida de Nova York
e vivo num mundo onde todos se devoram.
Acabei de ver uma exposição mostrando
como Picasso, Braque, Brancusi, Modigliani, Giacometti e Wlaminck
se apropriaram da arte africana
e se apropriavam eles mesmos
da arte uns dos outros.
De Gauguin e suas figuras da Polinésia
Picasso tirou suas “Duas mulheres sentadas”.
– “Eu não procuro, eu acho” – dizia ele
e assim ia devorando artistas e mulheres.
Esta manhã li
que o deserto do Saara avança 6 a 12 milhas por mês.
Só em 1984 avançou 125 milhas
ameaçando engolir Sahel.
Como são vorazes os artistas e desertos!
Não é tão longe a África nem tão longe a Polinésia!
Ali na esquina, um cidadão acaba de matar
dois jovens canibais que o atacaram
e, nos jornais, virou herói.
1 098
Affonso Romano de Sant'Anna
Se É Paixão, Me Nego
Se é paixão, me nego.
Já resvalei, a alma em pelo
nesse áspero despenhadeiro.
Se é paixão, não quero.
Conheço seus espinhos de mel,
sei aonde conduz
embora prometa os céus.
Se é paixão, desculpe-me, não posso
conheço suas insônias
e a obsessão.
Se é paixão me vou, não devo,
não adiantam teus apelos.
Resistirei, porque aí
morri mil vezes.
Paixão é arma de três gumes,
ao seu corte estou imune.
Se é paixão me nego
e não receio que me acuses
de medo. Do desvario
conheço todos os segredos.
Se é paixão recuso-me
e sinto muito,
pois foi há custo
que saí do labirinto.
Já resvalei, a alma em pelo
nesse áspero despenhadeiro.
Se é paixão, não quero.
Conheço seus espinhos de mel,
sei aonde conduz
embora prometa os céus.
Se é paixão, desculpe-me, não posso
conheço suas insônias
e a obsessão.
Se é paixão me vou, não devo,
não adiantam teus apelos.
Resistirei, porque aí
morri mil vezes.
Paixão é arma de três gumes,
ao seu corte estou imune.
Se é paixão me nego
e não receio que me acuses
de medo. Do desvario
conheço todos os segredos.
Se é paixão recuso-me
e sinto muito,
pois foi há custo
que saí do labirinto.
1 210
Affonso Romano de Sant'Anna
Para Tigrão
Passo a mão no pelo deste cão
deitado no tapete.
Essa cabeça grande, quente, magnífica.
Passo a mão e ele aceita
meu carinho humano, animal.
No entanto, morreremos, os dois.
Nos tocamos ternamente.
Neste instante
– não morreremos jamais.
deitado no tapete.
Essa cabeça grande, quente, magnífica.
Passo a mão e ele aceita
meu carinho humano, animal.
No entanto, morreremos, os dois.
Nos tocamos ternamente.
Neste instante
– não morreremos jamais.
1 203
Affonso Romano de Sant'Anna
O Que Ficou
É falsa a versão
de que passei incólume
ao pisar as brasas,
atravessar paredes,
ser serrado ao meio,
ao beijar a víbora
e acariciar o arcanjo.
Tudo me alterou:
as notícias que Marco Polo
trouxe do Oriente,
o olhar da cachorrinha
buscando seus filhotes,
a borboleta que morreu na pia.
Certo resisti ao vento, à peste.
Mas tudo me alterou.
hoje tenho um passado.
No meu corpo está presente
tudo o que me trespassou.
de que passei incólume
ao pisar as brasas,
atravessar paredes,
ser serrado ao meio,
ao beijar a víbora
e acariciar o arcanjo.
Tudo me alterou:
as notícias que Marco Polo
trouxe do Oriente,
o olhar da cachorrinha
buscando seus filhotes,
a borboleta que morreu na pia.
Certo resisti ao vento, à peste.
Mas tudo me alterou.
hoje tenho um passado.
No meu corpo está presente
tudo o que me trespassou.
1 094