Poemas neste tema
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Pablo Neruda
VIII - A ilha
No centro os rostos derrotados,
partidos e tombados, com seus grandes narizes
fundidos na crosta calcária da ilha,
para quem apontam os gigantes? ninguém?
um caminho, um estranho caminho de gigantes:
e ali ficou seu prodigioso peso caído,
beijando a cinza sagrada, regressando
ao magma natal, malferidos, cobertos
pela luz oceânica, a pouca chuva, o pó
vulcânico, e mais tarde
por esta solidão do umbigo do mundo:
a solidão redonda de todo o mar reunido.
Parece estranho ver viver aqui, dentro
do círculo, contemplar as lagostas
róseas, hostis caírem os caixotes
das mãos dos pescadores,
e estes, fundirem os corpos outra vez na água
agredindo as tocas de sua mercadoria,
ver as velhas cerzirem calças gastas
pela pobreza, ver entre folhagens
partidos e tombados, com seus grandes narizes
fundidos na crosta calcária da ilha,
para quem apontam os gigantes? ninguém?
um caminho, um estranho caminho de gigantes:
e ali ficou seu prodigioso peso caído,
beijando a cinza sagrada, regressando
ao magma natal, malferidos, cobertos
pela luz oceânica, a pouca chuva, o pó
vulcânico, e mais tarde
por esta solidão do umbigo do mundo:
a solidão redonda de todo o mar reunido.
Parece estranho ver viver aqui, dentro
do círculo, contemplar as lagostas
róseas, hostis caírem os caixotes
das mãos dos pescadores,
e estes, fundirem os corpos outra vez na água
agredindo as tocas de sua mercadoria,
ver as velhas cerzirem calças gastas
pela pobreza, ver entre folhagens
1 136
Pablo Neruda
O Anjo da Guarda
Em minha casa, de menino, me disseram,
“Escuta. Há um anjo
que vai contigo e te defende:
um anjo da Guarda”.
Eu cresci, dolorido, nos rincões.
E o pranto acumulado fui deixando
cair de gota em gota em minha escrita.
Adolescente fui, de perigo em perigo,
de noite a noite, com minha própria espada
defendendo meu pão e meu poema,
cortando o lugar da rua escura
que devia cruzar, armazenando
minha solitária força no vazio.
Quem não veio à minha porta para quebrar alguma coisa?
Quem não me trouxe corrosiva lava?
Quem não levou uma pedra venenosa
à velocidade de minha existência?
O proprietário me expulsou iroso.
O elegante desdenhou meu rosto.
E de sua letrinha mexicana
ou de cinzentos silabários,
malévolos barbudos, mercadores
de rosas mortas, poetas
sem poesia, deslizaram tinta
contra minha combatente cabeleira.
Abriram poços de alma lamacenta
para que eu caísse entre seus dentes,
coroaram meu canto com facas,
mas não quis fugir, nem defender-me:
cantei, cantei enchendo-me de estrelas,
cantei sem que ninguém me defendesse,
exceto o azul aço de meu canto.
“Escuta. Há um anjo
que vai contigo e te defende:
um anjo da Guarda”.
Eu cresci, dolorido, nos rincões.
E o pranto acumulado fui deixando
cair de gota em gota em minha escrita.
Adolescente fui, de perigo em perigo,
de noite a noite, com minha própria espada
defendendo meu pão e meu poema,
cortando o lugar da rua escura
que devia cruzar, armazenando
minha solitária força no vazio.
Quem não veio à minha porta para quebrar alguma coisa?
Quem não me trouxe corrosiva lava?
Quem não levou uma pedra venenosa
à velocidade de minha existência?
O proprietário me expulsou iroso.
O elegante desdenhou meu rosto.
E de sua letrinha mexicana
ou de cinzentos silabários,
malévolos barbudos, mercadores
de rosas mortas, poetas
sem poesia, deslizaram tinta
contra minha combatente cabeleira.
Abriram poços de alma lamacenta
para que eu caísse entre seus dentes,
coroaram meu canto com facas,
mas não quis fugir, nem defender-me:
cantei, cantei enchendo-me de estrelas,
cantei sem que ninguém me defendesse,
exceto o azul aço de meu canto.
1 449
Pablo Neruda
O Anjo da Guarda
Em minha casa, de menino, me disseram,
“Escuta. Há um anjo
que vai contigo e te defende:
um anjo da Guarda”.
Eu cresci, dolorido, nos rincões.
E o pranto acumulado fui deixando
cair de gota em gota em minha escrita.
Adolescente fui, de perigo em perigo,
de noite a noite, com minha própria espada
defendendo meu pão e meu poema,
cortando o lugar da rua escura
que devia cruzar, armazenando
minha solitária força no vazio.
Quem não veio à minha porta para quebrar alguma coisa?
Quem não me trouxe corrosiva lava?
Quem não levou uma pedra venenosa
à velocidade de minha existência?
O proprietário me expulsou iroso.
O elegante desdenhou meu rosto.
E de sua letrinha mexicana
ou de cinzentos silabários,
malévolos barbudos, mercadores
de rosas mortas, poetas
sem poesia, deslizaram tinta
contra minha combatente cabeleira.
Abriram poços de alma lamacenta
para que eu caísse entre seus dentes,
coroaram meu canto com facas,
mas não quis fugir, nem defender-me:
cantei, cantei enchendo-me de estrelas,
cantei sem que ninguém me defendesse,
exceto o azul aço de meu canto.
“Escuta. Há um anjo
que vai contigo e te defende:
um anjo da Guarda”.
Eu cresci, dolorido, nos rincões.
E o pranto acumulado fui deixando
cair de gota em gota em minha escrita.
Adolescente fui, de perigo em perigo,
de noite a noite, com minha própria espada
defendendo meu pão e meu poema,
cortando o lugar da rua escura
que devia cruzar, armazenando
minha solitária força no vazio.
Quem não veio à minha porta para quebrar alguma coisa?
Quem não me trouxe corrosiva lava?
Quem não levou uma pedra venenosa
à velocidade de minha existência?
O proprietário me expulsou iroso.
O elegante desdenhou meu rosto.
E de sua letrinha mexicana
ou de cinzentos silabários,
malévolos barbudos, mercadores
de rosas mortas, poetas
sem poesia, deslizaram tinta
contra minha combatente cabeleira.
Abriram poços de alma lamacenta
para que eu caísse entre seus dentes,
coroaram meu canto com facas,
mas não quis fugir, nem defender-me:
cantei, cantei enchendo-me de estrelas,
cantei sem que ninguém me defendesse,
exceto o azul aço de meu canto.
1 449
Pablo Neruda
Tarde - LXXI
De pena em pena cruza suas ilhas o amor
e estabelece raízes que logo rega o pranto,
e ninguém pode, ninguém pode evadir os passos
do coração que corre calado e carniceiro.
Assim tu e eu buscamos um vazio, outro planeta
onde não tocasse o sal tua cabeleira,
onde não crescessem dores por minha culpa,
onde viva o pão sem agonia.
Um planeta enredado por distância e folhagens,
um páramo, uma pedra cruel e desabitada,
com nossas próprias mãos fazer um ninho duro.
Queríamos, sem dano nem ferida nem palavra,
e não foi assim o amor, senão uma cidade louca
onde as pessoas empalidecem nas sacadas.
e estabelece raízes que logo rega o pranto,
e ninguém pode, ninguém pode evadir os passos
do coração que corre calado e carniceiro.
Assim tu e eu buscamos um vazio, outro planeta
onde não tocasse o sal tua cabeleira,
onde não crescessem dores por minha culpa,
onde viva o pão sem agonia.
Um planeta enredado por distância e folhagens,
um páramo, uma pedra cruel e desabitada,
com nossas próprias mãos fazer um ninho duro.
Queríamos, sem dano nem ferida nem palavra,
e não foi assim o amor, senão uma cidade louca
onde as pessoas empalidecem nas sacadas.
1 098
Pablo Neruda
Manhã - XVIII
Pelas montanhas vais como vem a brisa
ou a corrente brusca que baixa da neve
ou melhor tua cabeleira palpitante confirma
os altos ornamentos do sol na espessura.
Toda a luz do Cáucaso cai sobre teu corpo
como numa pequena vasilha interminável
em que a água se muda de vestido e de canto
a cada movimento transparente do rio.
Pelos montes o velho caminho de guerreiros
e embaixo enfurecida brilha como uma espada
a água entre muralhas de mãos minerais,
até que tu recebes dos bosques de repente
o ramo ou o relâmpago de umas flores azuis
e a insólita flecha de um aroma selvagem.
ou a corrente brusca que baixa da neve
ou melhor tua cabeleira palpitante confirma
os altos ornamentos do sol na espessura.
Toda a luz do Cáucaso cai sobre teu corpo
como numa pequena vasilha interminável
em que a água se muda de vestido e de canto
a cada movimento transparente do rio.
Pelos montes o velho caminho de guerreiros
e embaixo enfurecida brilha como uma espada
a água entre muralhas de mãos minerais,
até que tu recebes dos bosques de repente
o ramo ou o relâmpago de umas flores azuis
e a insólita flecha de um aroma selvagem.
1 216
Pablo Neruda
Manhã - XVIII
Pelas montanhas vais como vem a brisa
ou a corrente brusca que baixa da neve
ou melhor tua cabeleira palpitante confirma
os altos ornamentos do sol na espessura.
Toda a luz do Cáucaso cai sobre teu corpo
como numa pequena vasilha interminável
em que a água se muda de vestido e de canto
a cada movimento transparente do rio.
Pelos montes o velho caminho de guerreiros
e embaixo enfurecida brilha como uma espada
a água entre muralhas de mãos minerais,
até que tu recebes dos bosques de repente
o ramo ou o relâmpago de umas flores azuis
e a insólita flecha de um aroma selvagem.
ou a corrente brusca que baixa da neve
ou melhor tua cabeleira palpitante confirma
os altos ornamentos do sol na espessura.
Toda a luz do Cáucaso cai sobre teu corpo
como numa pequena vasilha interminável
em que a água se muda de vestido e de canto
a cada movimento transparente do rio.
Pelos montes o velho caminho de guerreiros
e embaixo enfurecida brilha como uma espada
a água entre muralhas de mãos minerais,
até que tu recebes dos bosques de repente
o ramo ou o relâmpago de umas flores azuis
e a insólita flecha de um aroma selvagem.
1 216
Pablo Neruda
Aqui Vem Nazim Hikmet
Nazim, das prisões
recém-saído,
presenteou-me sua camisa bordada
com fios de ouro vermelho
como sua poesia.
Fios de sangue turco
são seus versos,
fábulas verdadeiras
com antiga inflexão, curvas ou retas,
como alfanjes ou espadas,
seus clandestinos versos
feitos para defrontar
todo o meio-dia da luz,
hoje são como as armas escondidas,
brilham sob os andares,
esperam nos poços,
debaixo da escuridão impenetrável
dos olhos escuros
de seu povo.
De suas prisões veio
para ser meu irmão
e percorremos juntos
as neves das estepes
e a noite acesa
com nossas próprias lâmpadas.
Aqui está seu retrato
para que não se esqueça sua figura:
É alto
como uma torre
levantada na paz das campinas
e acima
duas janelas:
seus olhos
com a luz da Turquia.
Errantes
encontramos
a terra firme sob nossos pés,
a terra conquistada
pelos heróis e poetas,
pelas ruas de Moscou, a lua cheia
florescendo nos muros,
as moças
que amamos,
o amor que adoramos,
a alegria,
nossa única seita,
a esperança total que compartilhamos,
e mais que tudo
uma luta
de povos
onde são uma gota e outra gota,
gotas do mar humano,
seus versos e meus versos.
Mas
detrás da alegria de Nazim
há feitos,
feitos como madeiros
ou como fundações de edifícios.
Anos
de silêncio e presídio.
Anos
que não conseguiram
morder, comer, engolir
sua heróica juventude.
Contava-me
que por mais de dez anos
deixaram-lhe
a luz da lâmpada elétrica
toda a noite e hoje
esquece cada noite,
deixa na liberdade
ainda a luz acesa.
Sua alegria
tem raízes negras
fundidas em sua pátria
como flor de pântanos.
Por isso
quando ri,
quando Nazim ri,
Nazim Hikmet,
não é como quando ris:
é mais alvo seu riso,
nele sorri a lua,
a estrela,
o vinho,
a terra que não morre,
todo o arroz saúda com seu riso,
todo seu povo canta por sua boca.
IV
ALBÂNIA
Nunca na Albânia
estive,
áspera terra amada,
pedregosa
pátria dos pastores.
Hoje
espero
chegar a ti como a uma festa,
uma nova
festa terrestre: o sol
sobre a musculosa empunhadura
de tuas serras
e vislumbrar entre penhascos
como cresce
o novo lírio terno,
a cultura,
as letras que se estendem,
o respeito ao antigo camponês,
a origem do operário,
o monumento insigne
da fraternidade, o crescimento
da bondade como uma jovem planta
que floresce nas velhas terras pobres.
Albânia, pequeninha,
forte, firme, sonora,
tua corda na guitarra
— fio de água e aço —
conjuga-se ao som da História,
ao canto do tempo invencível,
com uma voz de bosques
e edifícios,
aromas e brancuras,
canto de todo o homem e todo o bosque,
pássaros e macieiras,
ventos e ondas.
Força, firmeza e flor são teu regalo
na construção do terrestre.
recém-saído,
presenteou-me sua camisa bordada
com fios de ouro vermelho
como sua poesia.
Fios de sangue turco
são seus versos,
fábulas verdadeiras
com antiga inflexão, curvas ou retas,
como alfanjes ou espadas,
seus clandestinos versos
feitos para defrontar
todo o meio-dia da luz,
hoje são como as armas escondidas,
brilham sob os andares,
esperam nos poços,
debaixo da escuridão impenetrável
dos olhos escuros
de seu povo.
De suas prisões veio
para ser meu irmão
e percorremos juntos
as neves das estepes
e a noite acesa
com nossas próprias lâmpadas.
Aqui está seu retrato
para que não se esqueça sua figura:
É alto
como uma torre
levantada na paz das campinas
e acima
duas janelas:
seus olhos
com a luz da Turquia.
Errantes
encontramos
a terra firme sob nossos pés,
a terra conquistada
pelos heróis e poetas,
pelas ruas de Moscou, a lua cheia
florescendo nos muros,
as moças
que amamos,
o amor que adoramos,
a alegria,
nossa única seita,
a esperança total que compartilhamos,
e mais que tudo
uma luta
de povos
onde são uma gota e outra gota,
gotas do mar humano,
seus versos e meus versos.
Mas
detrás da alegria de Nazim
há feitos,
feitos como madeiros
ou como fundações de edifícios.
Anos
de silêncio e presídio.
Anos
que não conseguiram
morder, comer, engolir
sua heróica juventude.
Contava-me
que por mais de dez anos
deixaram-lhe
a luz da lâmpada elétrica
toda a noite e hoje
esquece cada noite,
deixa na liberdade
ainda a luz acesa.
Sua alegria
tem raízes negras
fundidas em sua pátria
como flor de pântanos.
Por isso
quando ri,
quando Nazim ri,
Nazim Hikmet,
não é como quando ris:
é mais alvo seu riso,
nele sorri a lua,
a estrela,
o vinho,
a terra que não morre,
todo o arroz saúda com seu riso,
todo seu povo canta por sua boca.
IV
ALBÂNIA
Nunca na Albânia
estive,
áspera terra amada,
pedregosa
pátria dos pastores.
Hoje
espero
chegar a ti como a uma festa,
uma nova
festa terrestre: o sol
sobre a musculosa empunhadura
de tuas serras
e vislumbrar entre penhascos
como cresce
o novo lírio terno,
a cultura,
as letras que se estendem,
o respeito ao antigo camponês,
a origem do operário,
o monumento insigne
da fraternidade, o crescimento
da bondade como uma jovem planta
que floresce nas velhas terras pobres.
Albânia, pequeninha,
forte, firme, sonora,
tua corda na guitarra
— fio de água e aço —
conjuga-se ao som da História,
ao canto do tempo invencível,
com uma voz de bosques
e edifícios,
aromas e brancuras,
canto de todo o homem e todo o bosque,
pássaros e macieiras,
ventos e ondas.
Força, firmeza e flor são teu regalo
na construção do terrestre.
1 477
Pablo Neruda
Veio a Morte de Paul
Nestes dias recebi a morte
de Paul Éluard.
Aí, o pequeno sobrescrito
do telegrama.
Fechei os olhos, era
sua morte, algumas letras,
e um grande vazio branco.
Assim é a morte. Assim
veio através do ar
a flecha de sua morte
a transpassar meus dedos
e ferir-me como espinho
de uma rosa terrível.
Herói ou pão, não recordo
se sua louca doçura
foi a do coroado vencedor
ou foi só o mel que se reparte.
Eu recordo
seus olhos,
gotas daquele oceano celeste,
flores de azul cerejeira,
antiga primavera.
Quantas coisas
caminham pela terra e pelo tempo,
até formar um homem.
Chuva,
pássaros litorais cujo grito
rouco ressoa na espuma,
torres,
jardins e batalhas.
Isso
era Éluard: um homem
rumo ao que tinham vindo
caminhando
raias de chuva, verticais fios
de intempérie,
e espelho de água clássica
em que se refletia e florescia
a torre da paz e a formosura.
de Paul Éluard.
Aí, o pequeno sobrescrito
do telegrama.
Fechei os olhos, era
sua morte, algumas letras,
e um grande vazio branco.
Assim é a morte. Assim
veio através do ar
a flecha de sua morte
a transpassar meus dedos
e ferir-me como espinho
de uma rosa terrível.
Herói ou pão, não recordo
se sua louca doçura
foi a do coroado vencedor
ou foi só o mel que se reparte.
Eu recordo
seus olhos,
gotas daquele oceano celeste,
flores de azul cerejeira,
antiga primavera.
Quantas coisas
caminham pela terra e pelo tempo,
até formar um homem.
Chuva,
pássaros litorais cujo grito
rouco ressoa na espuma,
torres,
jardins e batalhas.
Isso
era Éluard: um homem
rumo ao que tinham vindo
caminhando
raias de chuva, verticais fios
de intempérie,
e espelho de água clássica
em que se refletia e florescia
a torre da paz e a formosura.
1 054
Pablo Neruda
Veio a Morte de Paul
Nestes dias recebi a morte
de Paul Éluard.
Aí, o pequeno sobrescrito
do telegrama.
Fechei os olhos, era
sua morte, algumas letras,
e um grande vazio branco.
Assim é a morte. Assim
veio através do ar
a flecha de sua morte
a transpassar meus dedos
e ferir-me como espinho
de uma rosa terrível.
Herói ou pão, não recordo
se sua louca doçura
foi a do coroado vencedor
ou foi só o mel que se reparte.
Eu recordo
seus olhos,
gotas daquele oceano celeste,
flores de azul cerejeira,
antiga primavera.
Quantas coisas
caminham pela terra e pelo tempo,
até formar um homem.
Chuva,
pássaros litorais cujo grito
rouco ressoa na espuma,
torres,
jardins e batalhas.
Isso
era Éluard: um homem
rumo ao que tinham vindo
caminhando
raias de chuva, verticais fios
de intempérie,
e espelho de água clássica
em que se refletia e florescia
a torre da paz e a formosura.
de Paul Éluard.
Aí, o pequeno sobrescrito
do telegrama.
Fechei os olhos, era
sua morte, algumas letras,
e um grande vazio branco.
Assim é a morte. Assim
veio através do ar
a flecha de sua morte
a transpassar meus dedos
e ferir-me como espinho
de uma rosa terrível.
Herói ou pão, não recordo
se sua louca doçura
foi a do coroado vencedor
ou foi só o mel que se reparte.
Eu recordo
seus olhos,
gotas daquele oceano celeste,
flores de azul cerejeira,
antiga primavera.
Quantas coisas
caminham pela terra e pelo tempo,
até formar um homem.
Chuva,
pássaros litorais cujo grito
rouco ressoa na espuma,
torres,
jardins e batalhas.
Isso
era Éluard: um homem
rumo ao que tinham vindo
caminhando
raias de chuva, verticais fios
de intempérie,
e espelho de água clássica
em que se refletia e florescia
a torre da paz e a formosura.
1 054
Pablo Neruda
O Anjo Dos Pampas
Oh lua inabarcável, nas campinas,
oh sol azul sobre todo o espaço,
pampa de solidão, estrela reta
estendida em desertas dimensões.
Erva argentina, terra interminável,
olor de céu cereal, caminho
feito de todos os caminhos, larga
primavera sem pálpebras, planura.
Eu fui de cabo a cabo, trepidando
na velocidade, transpondo o dia
e a noite nua do planeta.
E ali perdido na distância, quando
o avestruz errante ou a pomba
da terra selvagem apareceram,
quando cansaço e solidão encheram
a taça transparente do pampa,
quando pude sentir-me desamparado e último, quando fui só ausência, sonho, suor e pó,
rumo à liberdade com os olhos abertos,
com outro rosto,
amarradas as mãos ao volante,
sem sonho e sorrindo através da noite,
ali estava de novo, ali
estava defendendo minha fadiga:
não sei como se chama, talvez López,
talvez Ibieta, o anjo
do Comitê Central.
oh sol azul sobre todo o espaço,
pampa de solidão, estrela reta
estendida em desertas dimensões.
Erva argentina, terra interminável,
olor de céu cereal, caminho
feito de todos os caminhos, larga
primavera sem pálpebras, planura.
Eu fui de cabo a cabo, trepidando
na velocidade, transpondo o dia
e a noite nua do planeta.
E ali perdido na distância, quando
o avestruz errante ou a pomba
da terra selvagem apareceram,
quando cansaço e solidão encheram
a taça transparente do pampa,
quando pude sentir-me desamparado e último, quando fui só ausência, sonho, suor e pó,
rumo à liberdade com os olhos abertos,
com outro rosto,
amarradas as mãos ao volante,
sem sonho e sorrindo através da noite,
ali estava de novo, ali
estava defendendo minha fadiga:
não sei como se chama, talvez López,
talvez Ibieta, o anjo
do Comitê Central.
1 317
Pablo Neruda
Então Te Ocultavas
Ali onde estavas, anjo da Guarda?
Eras tu a vivenda com espinhos
em que devi dormir? Eras a mesa
da pobreza que me preparavam?
Eras o ódio, arame interminável
que tive que cortar, ou talvez eras
a miséria de seres infelizes,
o que fui encontrando nos caminhos,
nas cidades, nos socavões
dos abandonados? Aí, foste invisível,
posto que só a lances de infortúnio,
só rompendo portas inumanas,
vi crescer na minha voz todas as vozes,
e saí entre as vidas ao combate.
Eras tu a vivenda com espinhos
em que devi dormir? Eras a mesa
da pobreza que me preparavam?
Eras o ódio, arame interminável
que tive que cortar, ou talvez eras
a miséria de seres infelizes,
o que fui encontrando nos caminhos,
nas cidades, nos socavões
dos abandonados? Aí, foste invisível,
posto que só a lances de infortúnio,
só rompendo portas inumanas,
vi crescer na minha voz todas as vozes,
e saí entre as vidas ao combate.
1 145
Pablo Neruda
Não Um Caso Doentio
Não um caso doentio,
nem a ausência de grandeza, não,
nada pode matar o melhor de nós,
a bondade, sim senhor, que padecemos:
— bela é a flor do homem, sua conduta
e cada porta é a bela verdade
e não a sussurrante aleivosia.
Sempre ganhei, por ter sido melhor,
melhor que eu, melhor do que fui,
a condecoração mais taciturna:
— recuperar aquela pétala perdida
de minha melancolia hereditária
— buscar mais uma vez a luz que canta
dentro de mim, a luz inapelável.
nem a ausência de grandeza, não,
nada pode matar o melhor de nós,
a bondade, sim senhor, que padecemos:
— bela é a flor do homem, sua conduta
e cada porta é a bela verdade
e não a sussurrante aleivosia.
Sempre ganhei, por ter sido melhor,
melhor que eu, melhor do que fui,
a condecoração mais taciturna:
— recuperar aquela pétala perdida
de minha melancolia hereditária
— buscar mais uma vez a luz que canta
dentro de mim, a luz inapelável.
1 123
Pablo Neruda
Meio-Dia - L
Cotapos disse que teu riso tomba
como um falcão de alguma brusca torre
e, é verdade, atravessas a folhagem do mundo
com um só relâmpago de tua estirpe celeste
que cai, e corta, e saltam as línguas do orvalho,
as águas do diamante, a luz com suas abelhas
e ali onde vivia com sua barba o silêncio
rebentam as granadas do sol e as estrelas,
vem abaixo o céu com a noite sombria,
ardem à lua cheia, sinos e cravos,
e correm os cavalos dos talabarteiros1,
porque tu sendo tão pequeninha como és,
do teu meteoro deixas cair o riso
eletrizando o nome da natureza.
1 Talabarteiros – seleiros. Termo usado no Rio Grande do Sul. (N.T.)
como um falcão de alguma brusca torre
e, é verdade, atravessas a folhagem do mundo
com um só relâmpago de tua estirpe celeste
que cai, e corta, e saltam as línguas do orvalho,
as águas do diamante, a luz com suas abelhas
e ali onde vivia com sua barba o silêncio
rebentam as granadas do sol e as estrelas,
vem abaixo o céu com a noite sombria,
ardem à lua cheia, sinos e cravos,
e correm os cavalos dos talabarteiros1,
porque tu sendo tão pequeninha como és,
do teu meteoro deixas cair o riso
eletrizando o nome da natureza.
1 Talabarteiros – seleiros. Termo usado no Rio Grande do Sul. (N.T.)
1 247
Pablo Neruda
Meio-Dia - L
Cotapos disse que teu riso tomba
como um falcão de alguma brusca torre
e, é verdade, atravessas a folhagem do mundo
com um só relâmpago de tua estirpe celeste
que cai, e corta, e saltam as línguas do orvalho,
as águas do diamante, a luz com suas abelhas
e ali onde vivia com sua barba o silêncio
rebentam as granadas do sol e as estrelas,
vem abaixo o céu com a noite sombria,
ardem à lua cheia, sinos e cravos,
e correm os cavalos dos talabarteiros1,
porque tu sendo tão pequeninha como és,
do teu meteoro deixas cair o riso
eletrizando o nome da natureza.
1 Talabarteiros – seleiros. Termo usado no Rio Grande do Sul. (N.T.)
como um falcão de alguma brusca torre
e, é verdade, atravessas a folhagem do mundo
com um só relâmpago de tua estirpe celeste
que cai, e corta, e saltam as línguas do orvalho,
as águas do diamante, a luz com suas abelhas
e ali onde vivia com sua barba o silêncio
rebentam as granadas do sol e as estrelas,
vem abaixo o céu com a noite sombria,
ardem à lua cheia, sinos e cravos,
e correm os cavalos dos talabarteiros1,
porque tu sendo tão pequeninha como és,
do teu meteoro deixas cair o riso
eletrizando o nome da natureza.
1 Talabarteiros – seleiros. Termo usado no Rio Grande do Sul. (N.T.)
1 247
Pablo Neruda
Foi Sangrenta
Foi sangrenta toda a terra do homem.
Tempo, edificações, rotas, chuva,
apagam as constelações do crime,
o certo é que um planeta tão pequeno
foi mil vezes coberto pelo sangue,
guerra ou vingança, armadilha ou batalha,
caíram homens, foram devorados,
depois o esquecimento foi limpando
cada metro quadrado: alguma vez
um vago monumento mentiroso,
às vezes uma cláusula de bronze,
depois conversações, nascimentos,
municipalidades, e o esquecimento.
Que artes temos para o extermínio
e que ciência para extirpar lembranças!
Está florido o que foi sangrento.
Preparar-se, rapazes,
para outra vez matar, morrer de novo,
e cobrir com flores o sangue.
Tempo, edificações, rotas, chuva,
apagam as constelações do crime,
o certo é que um planeta tão pequeno
foi mil vezes coberto pelo sangue,
guerra ou vingança, armadilha ou batalha,
caíram homens, foram devorados,
depois o esquecimento foi limpando
cada metro quadrado: alguma vez
um vago monumento mentiroso,
às vezes uma cláusula de bronze,
depois conversações, nascimentos,
municipalidades, e o esquecimento.
Que artes temos para o extermínio
e que ciência para extirpar lembranças!
Está florido o que foi sangrento.
Preparar-se, rapazes,
para outra vez matar, morrer de novo,
e cobrir com flores o sangue.
697
Pablo Neruda
V - A ilha
Todas as ilhas do mar foram feitas pelo vento.
Mas aqui, o coroado, o vento vivo, o primeiro,
fundou sua casa, fechou as asas, viveu:
a mínima Rapa Nui repartiu seus domínios,
soprou, inundou, manifestou seus dons
até o Oeste, até o Este, até o espaço unido
até que estabeleceu germes puros,
até que começaram as raízes.
Mas aqui, o coroado, o vento vivo, o primeiro,
fundou sua casa, fechou as asas, viveu:
a mínima Rapa Nui repartiu seus domínios,
soprou, inundou, manifestou seus dons
até o Oeste, até o Este, até o espaço unido
até que estabeleceu germes puros,
até que começaram as raízes.
1 188
Pablo Neruda
Henri Martin
Henri Martin escuta
o rumor
que fazem o medo e o sangue.
Em sua prisão de França
ouve
as bandeiras do bosque.
Os seus morrem
inutilmente,
apodrecem, se os carregam
escaravelhos cor de estanho.
Caem
filhos da França
lá longe.
Por quê?
Henri Martin se opôs
à carnificina
sem glória,
e agora
com um traje listrado,
com um número nas costas,
trabalha encarcerado
a radiante
honra da França.
Para desembarcar com aguaceiro
quente, entre as moscas,
tanques e pústulas,
maldições, desgraças,
para desembarcar
rapazes
nascidos da rosa
da França,
filhos
do jasmim e as uvas,
para matá-los,
para condecorá-los
e assassiná-los,
o governinho
da França
deve crucificar a honra,
encarcerá-la,
pôr-lhe traje listrado,
numerá-lo,
deve industrializar sua estrumeira
para vendê-la
aos cowboys de Washington,
deve romper os ossos
da antiga
honra nunca extinta.
Por isso
Henri Martin,
radiante,
indomável
através das barras
que aprisionam
os olhos tricolores
de seu povo,
olha
como cai
o sangue nos pântanos,
lá longe,
sem glória,
sob as asas tórridas,
e os escaravelhos
com suas pequenas
bocas de estanho
carreando
às úmidas tocas,
homens,
fragmentos de rapazes,
a força e a doçura
da França
sacrificada
para que os cowboys
da Filadélfia
dancem com a suavíssima senhora
do embaixador da França.
Henri Martin: o trevo
do pasto matutino,
as coisas mais humildes,
o banco
do carpinteiro,
a flor azul sem nome
entre as pedras,
o terrível
vento sulfúrico
de Chuquicamata na noite,
os homens
amontoados
nas minas,
o pão,
o guerrilheiro
de nossa dolorosa,
materna, infortunada,
heróica
Grécia de hoje.
tudo
o simples, o que sem aprender e sem sabê-lo
canta em todas as terras e os rios,
tudo
te saúda,
Henri Martin, honra
de quanto existe, irmão
da claridade e do sonho,
irmão
da retidão e do dia,
irmão
de toda a esperança,
marinheiro.
Eu passo e vejo o mundo.
Ali estive,
ali onde estiveste.
Conheço
o sangue e a morte.
Por isso, porque és
o irmão da vida,
Henri Martin, honra
da França, folha
da mais alta azinheira,
loureiro das campinas,
herói
da paz e da pureza,
te saúdo
com a simplicidade
da areia e a neve
de minha pátria distante.
o rumor
que fazem o medo e o sangue.
Em sua prisão de França
ouve
as bandeiras do bosque.
Os seus morrem
inutilmente,
apodrecem, se os carregam
escaravelhos cor de estanho.
Caem
filhos da França
lá longe.
Por quê?
Henri Martin se opôs
à carnificina
sem glória,
e agora
com um traje listrado,
com um número nas costas,
trabalha encarcerado
a radiante
honra da França.
Para desembarcar com aguaceiro
quente, entre as moscas,
tanques e pústulas,
maldições, desgraças,
para desembarcar
rapazes
nascidos da rosa
da França,
filhos
do jasmim e as uvas,
para matá-los,
para condecorá-los
e assassiná-los,
o governinho
da França
deve crucificar a honra,
encarcerá-la,
pôr-lhe traje listrado,
numerá-lo,
deve industrializar sua estrumeira
para vendê-la
aos cowboys de Washington,
deve romper os ossos
da antiga
honra nunca extinta.
Por isso
Henri Martin,
radiante,
indomável
através das barras
que aprisionam
os olhos tricolores
de seu povo,
olha
como cai
o sangue nos pântanos,
lá longe,
sem glória,
sob as asas tórridas,
e os escaravelhos
com suas pequenas
bocas de estanho
carreando
às úmidas tocas,
homens,
fragmentos de rapazes,
a força e a doçura
da França
sacrificada
para que os cowboys
da Filadélfia
dancem com a suavíssima senhora
do embaixador da França.
Henri Martin: o trevo
do pasto matutino,
as coisas mais humildes,
o banco
do carpinteiro,
a flor azul sem nome
entre as pedras,
o terrível
vento sulfúrico
de Chuquicamata na noite,
os homens
amontoados
nas minas,
o pão,
o guerrilheiro
de nossa dolorosa,
materna, infortunada,
heróica
Grécia de hoje.
tudo
o simples, o que sem aprender e sem sabê-lo
canta em todas as terras e os rios,
tudo
te saúda,
Henri Martin, honra
de quanto existe, irmão
da claridade e do sonho,
irmão
da retidão e do dia,
irmão
de toda a esperança,
marinheiro.
Eu passo e vejo o mundo.
Ali estive,
ali onde estiveste.
Conheço
o sangue e a morte.
Por isso, porque és
o irmão da vida,
Henri Martin, honra
da França, folha
da mais alta azinheira,
loureiro das campinas,
herói
da paz e da pureza,
te saúdo
com a simplicidade
da areia e a neve
de minha pátria distante.
1 183
Pablo Neruda
VI - A ilha
Oh Melanésia, espiga poderosa,
ilhas de vento genital, criadas,
cedo multiplicadas pelo vento.
De argila, bosques, barro, de sêmen que voava
nasceu o colar selvagem dos mitos:
Polinésia: pimenta verde, espargida
na área do mar pelos dedos errantes
do dono de Rapa Nui, o Senhor Vento.
A primeira estátua foi de areia molhada,
ele a formou e a desfez alegremente.
Construiu de sal a segunda estátua
e o mar hostil a derrubou cantando.
Mas a terceira estátua que fez o Senhor Vento
foi um moai de granito, e este sobreviveu.
Esta obra que lavraram as mãos do ar,
as luvas do céu, a turbulência azul,
este trabalho fizeram os dedos transparentes:
um torso, a ereção do Silêncio desnudo,
o olhar secreto da pedra,
o nariz triangular da ave ou da proa
e na estátua o prodígio de um retrato:
− porque a solidão tem este rosto,
porque o espaço é esta retidão sem rincões,
y a distância é esta claridade do retângulo.
ilhas de vento genital, criadas,
cedo multiplicadas pelo vento.
De argila, bosques, barro, de sêmen que voava
nasceu o colar selvagem dos mitos:
Polinésia: pimenta verde, espargida
na área do mar pelos dedos errantes
do dono de Rapa Nui, o Senhor Vento.
A primeira estátua foi de areia molhada,
ele a formou e a desfez alegremente.
Construiu de sal a segunda estátua
e o mar hostil a derrubou cantando.
Mas a terceira estátua que fez o Senhor Vento
foi um moai de granito, e este sobreviveu.
Esta obra que lavraram as mãos do ar,
as luvas do céu, a turbulência azul,
este trabalho fizeram os dedos transparentes:
um torso, a ereção do Silêncio desnudo,
o olhar secreto da pedra,
o nariz triangular da ave ou da proa
e na estátua o prodígio de um retrato:
− porque a solidão tem este rosto,
porque o espaço é esta retidão sem rincões,
y a distância é esta claridade do retângulo.
1 130
Pablo Neruda
VI - A ilha
Oh Melanésia, espiga poderosa,
ilhas de vento genital, criadas,
cedo multiplicadas pelo vento.
De argila, bosques, barro, de sêmen que voava
nasceu o colar selvagem dos mitos:
Polinésia: pimenta verde, espargida
na área do mar pelos dedos errantes
do dono de Rapa Nui, o Senhor Vento.
A primeira estátua foi de areia molhada,
ele a formou e a desfez alegremente.
Construiu de sal a segunda estátua
e o mar hostil a derrubou cantando.
Mas a terceira estátua que fez o Senhor Vento
foi um moai de granito, e este sobreviveu.
Esta obra que lavraram as mãos do ar,
as luvas do céu, a turbulência azul,
este trabalho fizeram os dedos transparentes:
um torso, a ereção do Silêncio desnudo,
o olhar secreto da pedra,
o nariz triangular da ave ou da proa
e na estátua o prodígio de um retrato:
− porque a solidão tem este rosto,
porque o espaço é esta retidão sem rincões,
y a distância é esta claridade do retângulo.
ilhas de vento genital, criadas,
cedo multiplicadas pelo vento.
De argila, bosques, barro, de sêmen que voava
nasceu o colar selvagem dos mitos:
Polinésia: pimenta verde, espargida
na área do mar pelos dedos errantes
do dono de Rapa Nui, o Senhor Vento.
A primeira estátua foi de areia molhada,
ele a formou e a desfez alegremente.
Construiu de sal a segunda estátua
e o mar hostil a derrubou cantando.
Mas a terceira estátua que fez o Senhor Vento
foi um moai de granito, e este sobreviveu.
Esta obra que lavraram as mãos do ar,
as luvas do céu, a turbulência azul,
este trabalho fizeram os dedos transparentes:
um torso, a ereção do Silêncio desnudo,
o olhar secreto da pedra,
o nariz triangular da ave ou da proa
e na estátua o prodígio de um retrato:
− porque a solidão tem este rosto,
porque o espaço é esta retidão sem rincões,
y a distância é esta claridade do retângulo.
1 130
Pablo Neruda
Contarei
Contarei que na cidade vivi
em certa rua com nome de capitão,
e essa rua tinha multidão,
sapateiros, venda de licores,
armazéns repletos de rubis.
Não se podia ir ou vir,
havia tanta gente
Comendo ou cuspindo ou respirando,
comprando e vendendo trajes.
Tudo mc pareceu brilhante,
ludo estava aceso
e tudo era sonoro
como para cegar ou ensurdecer.
Esta rua já faz tanto tempo,
já faz tempo que não escuto nada,
mudei de estilo, vivo entre as pedras
e o movimento da água.
Aquela rua talvez morreu
de morte natural.
em certa rua com nome de capitão,
e essa rua tinha multidão,
sapateiros, venda de licores,
armazéns repletos de rubis.
Não se podia ir ou vir,
havia tanta gente
Comendo ou cuspindo ou respirando,
comprando e vendendo trajes.
Tudo mc pareceu brilhante,
ludo estava aceso
e tudo era sonoro
como para cegar ou ensurdecer.
Esta rua já faz tanto tempo,
já faz tempo que não escuto nada,
mudei de estilo, vivo entre as pedras
e o movimento da água.
Aquela rua talvez morreu
de morte natural.
1 143
Pablo Neruda
O Anjo da Poesia
União Soviética, floresces
com outras flores que na terra
não têm ainda nome.
Tua firmeza é a flor da árvore do aço.
É tua fraternidade a flor do pão fragrante.
É teu inverno uma flor em que a neve
ilumina o amor sem ameaça.
Eu percorri a terra onde Pushkin voltava
para elevar em seu canto a luz dos cristais,
e presenciei como seu povo levantava
esta constelação sobre as mãos
acostumadas a elevar o trigo.
Pushkin, foste o anjo
do Comitê Central.
Contigo visitei ruínas sagradas
ali onde os soldados de teu povo
defenderam as sílabas de tua alma.
Contigo vi crescer dos escombros
o gigantesco voo da vida,
as rodas do trator rumo ao outono,
novas cidades cheias de ruídos,
aviões amarelos como abelhas.
E quando entrei no museu ou na casa,
na fábrica, no rio que te segue cantando,
ou quando na cidade de Lenin vi apagadas
as cicatrizes do martírio augusto,
oh camarada transparente, estavas
junto a meu coração dando-me toda
a orgulhosa estrutura de tua pátria.
Ali, enfim, um anjo não levava mais arma
que um ramo cristalino de relâmpagos
e ele e toda sua terra defendiam
as sílabas errantes de meu canto.
Ali por fim a paz me resguardava.
E Pushkin me dizia: “Vem comigo
até Novosibirsk, além nas terras
desérticas, povoadas
antes pela solidão e pelas dores,
hoje a bandeira de minha voz passeia
sobre as construções orgulhosas”
Anjo, querias que toda tua vida
visitasse, tocando as espigas,
enumerando fábricas e escolas,
conversando com meninos e soldados.
com outras flores que na terra
não têm ainda nome.
Tua firmeza é a flor da árvore do aço.
É tua fraternidade a flor do pão fragrante.
É teu inverno uma flor em que a neve
ilumina o amor sem ameaça.
Eu percorri a terra onde Pushkin voltava
para elevar em seu canto a luz dos cristais,
e presenciei como seu povo levantava
esta constelação sobre as mãos
acostumadas a elevar o trigo.
Pushkin, foste o anjo
do Comitê Central.
Contigo visitei ruínas sagradas
ali onde os soldados de teu povo
defenderam as sílabas de tua alma.
Contigo vi crescer dos escombros
o gigantesco voo da vida,
as rodas do trator rumo ao outono,
novas cidades cheias de ruídos,
aviões amarelos como abelhas.
E quando entrei no museu ou na casa,
na fábrica, no rio que te segue cantando,
ou quando na cidade de Lenin vi apagadas
as cicatrizes do martírio augusto,
oh camarada transparente, estavas
junto a meu coração dando-me toda
a orgulhosa estrutura de tua pátria.
Ali, enfim, um anjo não levava mais arma
que um ramo cristalino de relâmpagos
e ele e toda sua terra defendiam
as sílabas errantes de meu canto.
Ali por fim a paz me resguardava.
E Pushkin me dizia: “Vem comigo
até Novosibirsk, além nas terras
desérticas, povoadas
antes pela solidão e pelas dores,
hoje a bandeira de minha voz passeia
sobre as construções orgulhosas”
Anjo, querias que toda tua vida
visitasse, tocando as espigas,
enumerando fábricas e escolas,
conversando com meninos e soldados.
1 220
Pablo Neruda
Manhã - IV
Recordarás aquela quebrada caprichosa
onde os aromas palpitantes subiram,
de quando em quando um pássaro vestido
com água e lentidão: traje de inverno.
Recordarás os dons da terra:
irascível fragrância, barro de ouro,
ervas do mato, loucas raízes,
sortílegos espinhos como espadas.
Recordarás o ramo que trouxeste,
ramo de sombra e água com silêncio,
ramo como uma pedra com espuma.
E aquela vez foi como nunca e sempre:
vamos ali onde não espera nada
e achamos tudo o que está esperando.
onde os aromas palpitantes subiram,
de quando em quando um pássaro vestido
com água e lentidão: traje de inverno.
Recordarás os dons da terra:
irascível fragrância, barro de ouro,
ervas do mato, loucas raízes,
sortílegos espinhos como espadas.
Recordarás o ramo que trouxeste,
ramo de sombra e água com silêncio,
ramo como uma pedra com espuma.
E aquela vez foi como nunca e sempre:
vamos ali onde não espera nada
e achamos tudo o que está esperando.
1 276
Pablo Neruda
Manhã - IV
Recordarás aquela quebrada caprichosa
onde os aromas palpitantes subiram,
de quando em quando um pássaro vestido
com água e lentidão: traje de inverno.
Recordarás os dons da terra:
irascível fragrância, barro de ouro,
ervas do mato, loucas raízes,
sortílegos espinhos como espadas.
Recordarás o ramo que trouxeste,
ramo de sombra e água com silêncio,
ramo como uma pedra com espuma.
E aquela vez foi como nunca e sempre:
vamos ali onde não espera nada
e achamos tudo o que está esperando.
onde os aromas palpitantes subiram,
de quando em quando um pássaro vestido
com água e lentidão: traje de inverno.
Recordarás os dons da terra:
irascível fragrância, barro de ouro,
ervas do mato, loucas raízes,
sortílegos espinhos como espadas.
Recordarás o ramo que trouxeste,
ramo de sombra e água com silêncio,
ramo como uma pedra com espuma.
E aquela vez foi como nunca e sempre:
vamos ali onde não espera nada
e achamos tudo o que está esperando.
1 276
Pablo Neruda
Ida e Volta
Celebro a mensagem indireta e a taça de tua transparência
(quando em Valparaíso encontraste meus olhos perdidos)
porque eu a distância fechei o olhar buscando-te, amada,
e me despedi de mim mesmo deixando-te só.
Um dia, um cavalo que cruza o caminho do tempo, uma fogueira
que deixa na areia carvões noturnos como queimaduras
e desvencilhado, sem ver nem saber, prisioneira em minha curta desdita,
espero que voltes apenas partida de nossas areias.
Celebro esses passos que não divisei entre teus passos delgados,
a farinha incitante que tu despertaste nas padarias
e naquela gota de chuva que me dedicavas
achei, ao recolhê-la na costa, teu rasto encerrado na água.
Não devo descer as dunas nem ver o enxame da pescaria,
não tenho por que espreitar as baleias que atrai o Outono a Quintay
desde suas espaçosas moradias e procriações antárticas:
a natureza não pode mentir a seus filhos e espero,
espera, te espero. E se chegas, a sombra porá em seu
hemisfério
uma claridade de violetas que não conhecia a noite.
(quando em Valparaíso encontraste meus olhos perdidos)
porque eu a distância fechei o olhar buscando-te, amada,
e me despedi de mim mesmo deixando-te só.
Um dia, um cavalo que cruza o caminho do tempo, uma fogueira
que deixa na areia carvões noturnos como queimaduras
e desvencilhado, sem ver nem saber, prisioneira em minha curta desdita,
espero que voltes apenas partida de nossas areias.
Celebro esses passos que não divisei entre teus passos delgados,
a farinha incitante que tu despertaste nas padarias
e naquela gota de chuva que me dedicavas
achei, ao recolhê-la na costa, teu rasto encerrado na água.
Não devo descer as dunas nem ver o enxame da pescaria,
não tenho por que espreitar as baleias que atrai o Outono a Quintay
desde suas espaçosas moradias e procriações antárticas:
a natureza não pode mentir a seus filhos e espero,
espera, te espero. E se chegas, a sombra porá em seu
hemisfério
uma claridade de violetas que não conhecia a noite.
1 081