Poemas neste tema
Outros
Pablo Neruda
Se Chama a Uma Porta
Se chama a uma porta de pedra
na costa, na areia,
com muitas mãos de água.
A rocha não responde.
Ninguém abrirá. Chamar é perder água,
perder tempo.
Se chama, ainda,
se bate
todo dia e ano,
todo o século, os séculos.
Pôr fim algo passou.
A pedra é outra.
Há uma curva sonora como um seio,
há um canal por onde passa a água,
a rocha não é a mesma e é a mesma.
Ali onde era duro o recife
a onda sobe suave pela porta
terrestre.
na costa, na areia,
com muitas mãos de água.
A rocha não responde.
Ninguém abrirá. Chamar é perder água,
perder tempo.
Se chama, ainda,
se bate
todo dia e ano,
todo o século, os séculos.
Pôr fim algo passou.
A pedra é outra.
Há uma curva sonora como um seio,
há um canal por onde passa a água,
a rocha não é a mesma e é a mesma.
Ali onde era duro o recife
a onda sobe suave pela porta
terrestre.
1 345
Pablo Neruda
Noite - LXXXIII
É bom, amor, sentir-te perto de mim na noite,
invisível em teu sonho, seriamente noturna,
enquanto eu desenrolo minhas preocupações
como se fossem redes confundidas.
Ausente, pelos sonhos teu coração navega,
mas teu corpo assim abandonado respira
buscando-me sem ver-me, completando meu sonho
como uma planta que se duplica na sombra.
Erguida, serás outra que viverá amanhã,
mas das fronteiras perdidas na noite,
deste ser e não ser em que nos encontramos
algo fica acercando-nos na luz da vida
como se o selo da sombra assinalasse
com fogo suas secretas criaturas.
invisível em teu sonho, seriamente noturna,
enquanto eu desenrolo minhas preocupações
como se fossem redes confundidas.
Ausente, pelos sonhos teu coração navega,
mas teu corpo assim abandonado respira
buscando-me sem ver-me, completando meu sonho
como uma planta que se duplica na sombra.
Erguida, serás outra que viverá amanhã,
mas das fronteiras perdidas na noite,
deste ser e não ser em que nos encontramos
algo fica acercando-nos na luz da vida
como se o selo da sombra assinalasse
com fogo suas secretas criaturas.
1 323
Pablo Neruda
Espaços
Dali, da honra do oceano e da Patagônia agachada
pelo vendaval, pelo peso da solidão rancorosa,
voando vai o voo, a fúria e a ordem, longitudinal e severo,
voando o transcurso queimando a dura distância,
engolindo a névoa:
as aves do mar em seu triângulo atravessam o céu como calafrio
e em seu movimento reúnem a terra selvagem do Sul de minha pátria
com meu coração transbordado que espera na torre da fumaça
o signo do gelo magnético, o Sul da dor borrascosa,
a hipnótica herança olvidada entre o pasto e as cavalgaduras.
pelo vendaval, pelo peso da solidão rancorosa,
voando vai o voo, a fúria e a ordem, longitudinal e severo,
voando o transcurso queimando a dura distância,
engolindo a névoa:
as aves do mar em seu triângulo atravessam o céu como calafrio
e em seu movimento reúnem a terra selvagem do Sul de minha pátria
com meu coração transbordado que espera na torre da fumaça
o signo do gelo magnético, o Sul da dor borrascosa,
a hipnótica herança olvidada entre o pasto e as cavalgaduras.
600
Pablo Neruda
II. A Glória
Oh clara! Oh delgada sonata! Oh cascata de clã cristalino!
Surgiu do idioma voando uma rajada de asas de ouro
e então a névoa do mundo retrocede à infame adega
e a claridade do favo adianta uma torrente de trinos
que decretam a lei de cristal, o racimo de neve do cisne:
o pâmpano jádico ondula seus signos interrogativos
e Flora e Pomona descartam os desfiados gabões
tirando da rua o fulgor de suas tetas de nácar marinho.
Oh grande tempestade do Tritão encefálico! Oh buzina do céu infinito!
Tremeu Echegaray encapando o guarda-chuva de ferro enlousado
que o protegeu das iras eróticas da primavera
e pela vez primeira a estátua jazente de Jorge Manrique desperta:
seus lábios de mármore sorriem e levantando uma mão enluvada
dirige uma rosa cheirosa a Rubén Darío que chega a Castela e inaugura a língua espanhola.
Surgiu do idioma voando uma rajada de asas de ouro
e então a névoa do mundo retrocede à infame adega
e a claridade do favo adianta uma torrente de trinos
que decretam a lei de cristal, o racimo de neve do cisne:
o pâmpano jádico ondula seus signos interrogativos
e Flora e Pomona descartam os desfiados gabões
tirando da rua o fulgor de suas tetas de nácar marinho.
Oh grande tempestade do Tritão encefálico! Oh buzina do céu infinito!
Tremeu Echegaray encapando o guarda-chuva de ferro enlousado
que o protegeu das iras eróticas da primavera
e pela vez primeira a estátua jazente de Jorge Manrique desperta:
seus lábios de mármore sorriem e levantando uma mão enluvada
dirige uma rosa cheirosa a Rubén Darío que chega a Castela e inaugura a língua espanhola.
994
Pablo Neruda
II. A Glória
Oh clara! Oh delgada sonata! Oh cascata de clã cristalino!
Surgiu do idioma voando uma rajada de asas de ouro
e então a névoa do mundo retrocede à infame adega
e a claridade do favo adianta uma torrente de trinos
que decretam a lei de cristal, o racimo de neve do cisne:
o pâmpano jádico ondula seus signos interrogativos
e Flora e Pomona descartam os desfiados gabões
tirando da rua o fulgor de suas tetas de nácar marinho.
Oh grande tempestade do Tritão encefálico! Oh buzina do céu infinito!
Tremeu Echegaray encapando o guarda-chuva de ferro enlousado
que o protegeu das iras eróticas da primavera
e pela vez primeira a estátua jazente de Jorge Manrique desperta:
seus lábios de mármore sorriem e levantando uma mão enluvada
dirige uma rosa cheirosa a Rubén Darío que chega a Castela e inaugura a língua espanhola.
Surgiu do idioma voando uma rajada de asas de ouro
e então a névoa do mundo retrocede à infame adega
e a claridade do favo adianta uma torrente de trinos
que decretam a lei de cristal, o racimo de neve do cisne:
o pâmpano jádico ondula seus signos interrogativos
e Flora e Pomona descartam os desfiados gabões
tirando da rua o fulgor de suas tetas de nácar marinho.
Oh grande tempestade do Tritão encefálico! Oh buzina do céu infinito!
Tremeu Echegaray encapando o guarda-chuva de ferro enlousado
que o protegeu das iras eróticas da primavera
e pela vez primeira a estátua jazente de Jorge Manrique desperta:
seus lábios de mármore sorriem e levantando uma mão enluvada
dirige uma rosa cheirosa a Rubén Darío que chega a Castela e inaugura a língua espanhola.
994
Pablo Neruda
II. A Glória
Oh clara! Oh delgada sonata! Oh cascata de clã cristalino!
Surgiu do idioma voando uma rajada de asas de ouro
e então a névoa do mundo retrocede à infame adega
e a claridade do favo adianta uma torrente de trinos
que decretam a lei de cristal, o racimo de neve do cisne:
o pâmpano jádico ondula seus signos interrogativos
e Flora e Pomona descartam os desfiados gabões
tirando da rua o fulgor de suas tetas de nácar marinho.
Oh grande tempestade do Tritão encefálico! Oh buzina do céu infinito!
Tremeu Echegaray encapando o guarda-chuva de ferro enlousado
que o protegeu das iras eróticas da primavera
e pela vez primeira a estátua jazente de Jorge Manrique desperta:
seus lábios de mármore sorriem e levantando uma mão enluvada
dirige uma rosa cheirosa a Rubén Darío que chega a Castela e inaugura a língua espanhola.
Surgiu do idioma voando uma rajada de asas de ouro
e então a névoa do mundo retrocede à infame adega
e a claridade do favo adianta uma torrente de trinos
que decretam a lei de cristal, o racimo de neve do cisne:
o pâmpano jádico ondula seus signos interrogativos
e Flora e Pomona descartam os desfiados gabões
tirando da rua o fulgor de suas tetas de nácar marinho.
Oh grande tempestade do Tritão encefálico! Oh buzina do céu infinito!
Tremeu Echegaray encapando o guarda-chuva de ferro enlousado
que o protegeu das iras eróticas da primavera
e pela vez primeira a estátua jazente de Jorge Manrique desperta:
seus lábios de mármore sorriem e levantando uma mão enluvada
dirige uma rosa cheirosa a Rubén Darío que chega a Castela e inaugura a língua espanhola.
994
Pablo Neruda
II. A Glória
Oh clara! Oh delgada sonata! Oh cascata de clã cristalino!
Surgiu do idioma voando uma rajada de asas de ouro
e então a névoa do mundo retrocede à infame adega
e a claridade do favo adianta uma torrente de trinos
que decretam a lei de cristal, o racimo de neve do cisne:
o pâmpano jádico ondula seus signos interrogativos
e Flora e Pomona descartam os desfiados gabões
tirando da rua o fulgor de suas tetas de nácar marinho.
Oh grande tempestade do Tritão encefálico! Oh buzina do céu infinito!
Tremeu Echegaray encapando o guarda-chuva de ferro enlousado
que o protegeu das iras eróticas da primavera
e pela vez primeira a estátua jazente de Jorge Manrique desperta:
seus lábios de mármore sorriem e levantando uma mão enluvada
dirige uma rosa cheirosa a Rubén Darío que chega a Castela e inaugura a língua espanhola.
Surgiu do idioma voando uma rajada de asas de ouro
e então a névoa do mundo retrocede à infame adega
e a claridade do favo adianta uma torrente de trinos
que decretam a lei de cristal, o racimo de neve do cisne:
o pâmpano jádico ondula seus signos interrogativos
e Flora e Pomona descartam os desfiados gabões
tirando da rua o fulgor de suas tetas de nácar marinho.
Oh grande tempestade do Tritão encefálico! Oh buzina do céu infinito!
Tremeu Echegaray encapando o guarda-chuva de ferro enlousado
que o protegeu das iras eróticas da primavera
e pela vez primeira a estátua jazente de Jorge Manrique desperta:
seus lábios de mármore sorriem e levantando uma mão enluvada
dirige uma rosa cheirosa a Rubén Darío que chega a Castela e inaugura a língua espanhola.
994
Pablo Neruda
Vamos Ver, Chamei a Minha Tribo
Vamos ver, chamei a minha tribo e disse:
vamos ver, quem somos, que fazemos, que
[pensamos.
O mais pálido deles, de nós,
me respondeu com outros olhos,
com outra sem-razão, com sua bandeira.
Esse era o pavilhão do inimigo.
Aquele homem, talvez, tinha direito
a matar minha verdade, assim aconteceu
comigo e com meu pai,
e assim acontece.
Mas sofri como se me mordessem.
vamos ver, quem somos, que fazemos, que
[pensamos.
O mais pálido deles, de nós,
me respondeu com outros olhos,
com outra sem-razão, com sua bandeira.
Esse era o pavilhão do inimigo.
Aquele homem, talvez, tinha direito
a matar minha verdade, assim aconteceu
comigo e com meu pai,
e assim acontece.
Mas sofri como se me mordessem.
1 239
Pablo Neruda
Vamos Ver, Chamei a Minha Tribo
Vamos ver, chamei a minha tribo e disse:
vamos ver, quem somos, que fazemos, que
[pensamos.
O mais pálido deles, de nós,
me respondeu com outros olhos,
com outra sem-razão, com sua bandeira.
Esse era o pavilhão do inimigo.
Aquele homem, talvez, tinha direito
a matar minha verdade, assim aconteceu
comigo e com meu pai,
e assim acontece.
Mas sofri como se me mordessem.
vamos ver, quem somos, que fazemos, que
[pensamos.
O mais pálido deles, de nós,
me respondeu com outros olhos,
com outra sem-razão, com sua bandeira.
Esse era o pavilhão do inimigo.
Aquele homem, talvez, tinha direito
a matar minha verdade, assim aconteceu
comigo e com meu pai,
e assim acontece.
Mas sofri como se me mordessem.
1 239
Pablo Neruda
Regresso
Ardente é voltar à espuma que acossa minha casa, ao vazio
que deixa o oceano depois de entregar sua carreta de trovões,
tocar outra vez com o sangue a rajada de frio e salmoura
que morde a beira do Chile aventando a areia amarela.
É azul regressar à terra escolhida durante o combate,
levantar a bandeira de um homem sem reino
e esperar da luz uma rede que aprisione a trêmula prata
dos peixes escuros que povoam o pélago puro.
É eterno comer outra vez com o vinho ancestral no copo
a carne enrolada, os tomates de Janeiro com a linguiça,
a pimenta cuja fresca fragrância te ataca e te morde,
e a esta hora de sol as humitas6 de sal e delícia
desenroladas de suas folhas de ouro como virgens no sacrifício.
que deixa o oceano depois de entregar sua carreta de trovões,
tocar outra vez com o sangue a rajada de frio e salmoura
que morde a beira do Chile aventando a areia amarela.
É azul regressar à terra escolhida durante o combate,
levantar a bandeira de um homem sem reino
e esperar da luz uma rede que aprisione a trêmula prata
dos peixes escuros que povoam o pélago puro.
É eterno comer outra vez com o vinho ancestral no copo
a carne enrolada, os tomates de Janeiro com a linguiça,
a pimenta cuja fresca fragrância te ataca e te morde,
e a esta hora de sol as humitas6 de sal e delícia
desenroladas de suas folhas de ouro como virgens no sacrifício.
1 009
Pablo Neruda
LIX
Por que não nasci misterioso?
Por que cresci sem companhia?
Quem me mandou desvencilhar
as portas de meu próprio orgulho?
E quem saiu para viver por mim
quando eu dormia ou adoecia?
Que bandeira se desatou
ali onde não me esqueceram?
Por que cresci sem companhia?
Quem me mandou desvencilhar
as portas de meu próprio orgulho?
E quem saiu para viver por mim
quando eu dormia ou adoecia?
Que bandeira se desatou
ali onde não me esqueceram?
1 130
Pablo Neruda
Tarde - LXV
Matilde, onde estás? Notei, para baixo,
entre gravata e coração, acima,
certa melancolia intercostal:
era que de repente estavas ausente.
Fez-me falta a luz de tua energia
e olhei devorando a esperança,
olhei o vazio que é sem ti uma casa,
não ficam senão trágicas janelas.
De puro taciturno o teto escuta
cair antigas chuvas desfolhadas,
plumas, o que a noite aprisionou:
e assim te espero como casa só
e voltarás a ver-me e habitar-me.
De outro modo me doem as janelas.
entre gravata e coração, acima,
certa melancolia intercostal:
era que de repente estavas ausente.
Fez-me falta a luz de tua energia
e olhei devorando a esperança,
olhei o vazio que é sem ti uma casa,
não ficam senão trágicas janelas.
De puro taciturno o teto escuta
cair antigas chuvas desfolhadas,
plumas, o que a noite aprisionou:
e assim te espero como casa só
e voltarás a ver-me e habitar-me.
De outro modo me doem as janelas.
1 177
Pablo Neruda
XXI - Os homens
Eu, dos bosques, das ferrovias no inverno,
eu, conservador daquele inverno,
do barro
em uma rua tortuosa, miserável,
eu, poeta obscuro, recebi o beijo de pedra em minha face
e se purificaram minhas angústias.
eu, conservador daquele inverno,
do barro
em uma rua tortuosa, miserável,
eu, poeta obscuro, recebi o beijo de pedra em minha face
e se purificaram minhas angústias.
1 164
Pablo Neruda
Noite - LXXXVIII
O mês de março volta com sua luz escondida
e deslizam peixes imensos pelo céu,
vago vapor terrestre progride sigiloso,
uma por uma caem ao silêncio as coisas.
Por sorte nesta crise de atmosfera errante
reuniste as vidas do mar com as do fogo,
o movimento cinza da nave de inverno,
a forma que o amor imprimiu à guitarra.
Oh amor, rosa molhada por sereias e espumas,
fogo que dança e sobe a invisível escada
e desperta no túnel da insônia ao sangue
para que se consumam as ondas no céu,
esqueça o mar seus bens e leões
e caia o mundo dentro das redes escuras.
e deslizam peixes imensos pelo céu,
vago vapor terrestre progride sigiloso,
uma por uma caem ao silêncio as coisas.
Por sorte nesta crise de atmosfera errante
reuniste as vidas do mar com as do fogo,
o movimento cinza da nave de inverno,
a forma que o amor imprimiu à guitarra.
Oh amor, rosa molhada por sereias e espumas,
fogo que dança e sobe a invisível escada
e desperta no túnel da insônia ao sangue
para que se consumam as ondas no céu,
esqueça o mar seus bens e leões
e caia o mundo dentro das redes escuras.
1 195
Pablo Neruda
Noite - LXXXVIII
O mês de março volta com sua luz escondida
e deslizam peixes imensos pelo céu,
vago vapor terrestre progride sigiloso,
uma por uma caem ao silêncio as coisas.
Por sorte nesta crise de atmosfera errante
reuniste as vidas do mar com as do fogo,
o movimento cinza da nave de inverno,
a forma que o amor imprimiu à guitarra.
Oh amor, rosa molhada por sereias e espumas,
fogo que dança e sobe a invisível escada
e desperta no túnel da insônia ao sangue
para que se consumam as ondas no céu,
esqueça o mar seus bens e leões
e caia o mundo dentro das redes escuras.
e deslizam peixes imensos pelo céu,
vago vapor terrestre progride sigiloso,
uma por uma caem ao silêncio as coisas.
Por sorte nesta crise de atmosfera errante
reuniste as vidas do mar com as do fogo,
o movimento cinza da nave de inverno,
a forma que o amor imprimiu à guitarra.
Oh amor, rosa molhada por sereias e espumas,
fogo que dança e sobe a invisível escada
e desperta no túnel da insônia ao sangue
para que se consumam as ondas no céu,
esqueça o mar seus bens e leões
e caia o mundo dentro das redes escuras.
1 195
Pablo Neruda
Acontece
Bateram à minha porta em 6 de agosto,
aí não havia ninguém
e ninguém entrou, sentou-se numa cadeira
e transcorreu comigo, ninguém.
Nunca me esquecerei daquela ausência
que entrava como Pedro por sua causa
e me satisfazia com o não ser,
com um vazio aberto a tudo.
Ninguém me interrogou sem dizer nada
e contestei sem ver e sem falar.
Que entrevista espaçosa e especial!
aí não havia ninguém
e ninguém entrou, sentou-se numa cadeira
e transcorreu comigo, ninguém.
Nunca me esquecerei daquela ausência
que entrava como Pedro por sua causa
e me satisfazia com o não ser,
com um vazio aberto a tudo.
Ninguém me interrogou sem dizer nada
e contestei sem ver e sem falar.
Que entrevista espaçosa e especial!
1 429
Pablo Neruda
Acontece
Bateram à minha porta em 6 de agosto,
aí não havia ninguém
e ninguém entrou, sentou-se numa cadeira
e transcorreu comigo, ninguém.
Nunca me esquecerei daquela ausência
que entrava como Pedro por sua causa
e me satisfazia com o não ser,
com um vazio aberto a tudo.
Ninguém me interrogou sem dizer nada
e contestei sem ver e sem falar.
Que entrevista espaçosa e especial!
aí não havia ninguém
e ninguém entrou, sentou-se numa cadeira
e transcorreu comigo, ninguém.
Nunca me esquecerei daquela ausência
que entrava como Pedro por sua causa
e me satisfazia com o não ser,
com um vazio aberto a tudo.
Ninguém me interrogou sem dizer nada
e contestei sem ver e sem falar.
Que entrevista espaçosa e especial!
1 429
Pablo Neruda
Final
Matilde, anos ou dias
dormidos, febris,
aqui ou ali,
cravando,
rompendo a espinha dorsal,
sangrando sangue verdadeiro,
despertando talvez
o perdido, dormido:
camas clínicas, janelas estrangeiras,
vestidos brancos
das sigilosas,
o torpor nos pés.
Depois estas viagens
e o meu mar de novo:
tua cabeça na cabeceira,
na luz
tuas mãos voadoras,
na minha luz,
sobre minha terra.
Foi tão belo viver
quando vivias!
O mundo é mais azul
e mais terrestre de noite,
quando durmo,
enorme, dentro de tuas breves mãos.
dormidos, febris,
aqui ou ali,
cravando,
rompendo a espinha dorsal,
sangrando sangue verdadeiro,
despertando talvez
o perdido, dormido:
camas clínicas, janelas estrangeiras,
vestidos brancos
das sigilosas,
o torpor nos pés.
Depois estas viagens
e o meu mar de novo:
tua cabeça na cabeceira,
na luz
tuas mãos voadoras,
na minha luz,
sobre minha terra.
Foi tão belo viver
quando vivias!
O mundo é mais azul
e mais terrestre de noite,
quando durmo,
enorme, dentro de tuas breves mãos.
1 416
Pablo Neruda
Meio-Dia - XXXV
Tua mão foi voando de meus olhos ao dia.
Entrou a luz como uma roseira aberta.
Areia e céu palpitavam como uma
culminante colmeia cortada nas turquesas.
Tua mão tocou sílabas que tilintavam, taças,
almotolias com azeites amarelos,
corolas, mananciais e, sobretudo, amor,
amor: tua mão pura preservou as colheres.
A tarde foi. A noite deslizou sigilosa
sobre o sonho do homem sua cápsula celeste.
Um triste olor selvagem soltou a madressilva.
E tua mão voltou de seu voo voando
a fechar sua plumagem que eu julguei perdida
sobre meus olhos devorados pela sombra.
Entrou a luz como uma roseira aberta.
Areia e céu palpitavam como uma
culminante colmeia cortada nas turquesas.
Tua mão tocou sílabas que tilintavam, taças,
almotolias com azeites amarelos,
corolas, mananciais e, sobretudo, amor,
amor: tua mão pura preservou as colheres.
A tarde foi. A noite deslizou sigilosa
sobre o sonho do homem sua cápsula celeste.
Um triste olor selvagem soltou a madressilva.
E tua mão voltou de seu voo voando
a fechar sua plumagem que eu julguei perdida
sobre meus olhos devorados pela sombra.
1 346
Pablo Neruda
Ressurreições
Amiga, é teu beijo quem canta como um sino na água
da catedral submergida por cujas janelas
entravam os peixes sem olhos, as algas viciosas,
embaixo no lodo do lago Llanquihue que adora a neve,
teu beijo desperta o som e propaga para as ilhas do vento
uma encubação de nenúfar e sol submarino.
Assim do letargo cresceu a corrente que nomeia as coisas:
teu amor sacudiu os metais que afundou a catástrofe,
teu amor amassou as palavras, dispôs a cor da areia,
e levantou no abismo a torre terrestre e celeste.
da catedral submergida por cujas janelas
entravam os peixes sem olhos, as algas viciosas,
embaixo no lodo do lago Llanquihue que adora a neve,
teu beijo desperta o som e propaga para as ilhas do vento
uma encubação de nenúfar e sol submarino.
Assim do letargo cresceu a corrente que nomeia as coisas:
teu amor sacudiu os metais que afundou a catástrofe,
teu amor amassou as palavras, dispôs a cor da areia,
e levantou no abismo a torre terrestre e celeste.
1 069
Pablo Neruda
Ressurreições
Amiga, é teu beijo quem canta como um sino na água
da catedral submergida por cujas janelas
entravam os peixes sem olhos, as algas viciosas,
embaixo no lodo do lago Llanquihue que adora a neve,
teu beijo desperta o som e propaga para as ilhas do vento
uma encubação de nenúfar e sol submarino.
Assim do letargo cresceu a corrente que nomeia as coisas:
teu amor sacudiu os metais que afundou a catástrofe,
teu amor amassou as palavras, dispôs a cor da areia,
e levantou no abismo a torre terrestre e celeste.
da catedral submergida por cujas janelas
entravam os peixes sem olhos, as algas viciosas,
embaixo no lodo do lago Llanquihue que adora a neve,
teu beijo desperta o som e propaga para as ilhas do vento
uma encubação de nenúfar e sol submarino.
Assim do letargo cresceu a corrente que nomeia as coisas:
teu amor sacudiu os metais que afundou a catástrofe,
teu amor amassou as palavras, dispôs a cor da areia,
e levantou no abismo a torre terrestre e celeste.
1 069
Pablo Neruda
Ressurreições
Amiga, é teu beijo quem canta como um sino na água
da catedral submergida por cujas janelas
entravam os peixes sem olhos, as algas viciosas,
embaixo no lodo do lago Llanquihue que adora a neve,
teu beijo desperta o som e propaga para as ilhas do vento
uma encubação de nenúfar e sol submarino.
Assim do letargo cresceu a corrente que nomeia as coisas:
teu amor sacudiu os metais que afundou a catástrofe,
teu amor amassou as palavras, dispôs a cor da areia,
e levantou no abismo a torre terrestre e celeste.
da catedral submergida por cujas janelas
entravam os peixes sem olhos, as algas viciosas,
embaixo no lodo do lago Llanquihue que adora a neve,
teu beijo desperta o som e propaga para as ilhas do vento
uma encubação de nenúfar e sol submarino.
Assim do letargo cresceu a corrente que nomeia as coisas:
teu amor sacudiu os metais que afundou a catástrofe,
teu amor amassou as palavras, dispôs a cor da areia,
e levantou no abismo a torre terrestre e celeste.
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