Poemas neste tema
Outros
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Activista Cultural
O passo decidido não acerta com o cismar do palácio
O ouvido não ouve a flauta da penumbra
Nem reconhece o silêncio
O pensamento nada sabe dos labirintos do tempo
O olhar toma nota e não vê
O ouvido não ouve a flauta da penumbra
Nem reconhece o silêncio
O pensamento nada sabe dos labirintos do tempo
O olhar toma nota e não vê
1 276
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ponte de Spoleto
Sob os claros arcos da ponte romana
Onde ressoa ainda o passo das legiões imperiosas
Lá em baixo o leito do rio
Selvático e penumbroso
Interior às memórias insondáveis da alma
Maio de 1994
Onde ressoa ainda o passo das legiões imperiosas
Lá em baixo o leito do rio
Selvático e penumbroso
Interior às memórias insondáveis da alma
Maio de 1994
1 229
Sophia de Mello Breyner Andresen
Inocência E Possibilidade
As imagens eram próximas
como coladas sobre os olhos
o que nos dava um rosto justo e liso;
os gestos circulavam sem choque nem ruído
as estrelas eram maduras como frutos
e os homens eram bons sem dar por isso
Granja 31 de Agosto 1943
como coladas sobre os olhos
o que nos dava um rosto justo e liso;
os gestos circulavam sem choque nem ruído
as estrelas eram maduras como frutos
e os homens eram bons sem dar por isso
Granja 31 de Agosto 1943
1 191
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ondas
Onde — ondas — mais belos cavalos
Do que estas ondas que vós sois
Onde mais bela curva do pescoço
Onde mais longa crina sacudida
Ou impetuoso arfar no mar imenso
Onde tão ébrio amor em vasta praia?
Dezembro de 1989
Do que estas ondas que vós sois
Onde mais bela curva do pescoço
Onde mais longa crina sacudida
Ou impetuoso arfar no mar imenso
Onde tão ébrio amor em vasta praia?
Dezembro de 1989
1 867
Sophia de Mello Breyner Andresen
Salgueiro Maia
Aquele que na hora da vitória
Respeitou o vencido
Aquele que deu tudo e não pediu a paga
Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite
Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com sua ignorância ou vício
Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»
Como antes dele mas também por ele
Pessoa disse
Respeitou o vencido
Aquele que deu tudo e não pediu a paga
Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite
Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com sua ignorância ou vício
Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»
Como antes dele mas também por ele
Pessoa disse
1 822
Sophia de Mello Breyner Andresen
Tejo
Aqui e além em Lisboa — quando vamos
Com pressa ou distraídos pelas ruas
Ao virar da esquina de súbito avistamos
Irisado o Tejo:
Então se tornam
Leve o nosso corpo e a alma alada
Julho de 1994
Com pressa ou distraídos pelas ruas
Ao virar da esquina de súbito avistamos
Irisado o Tejo:
Então se tornam
Leve o nosso corpo e a alma alada
Julho de 1994
1 641
Sophia de Mello Breyner Andresen
Tejo
Aqui e além em Lisboa — quando vamos
Com pressa ou distraídos pelas ruas
Ao virar da esquina de súbito avistamos
Irisado o Tejo:
Então se tornam
Leve o nosso corpo e a alma alada
Julho de 1994
Com pressa ou distraídos pelas ruas
Ao virar da esquina de súbito avistamos
Irisado o Tejo:
Então se tornam
Leve o nosso corpo e a alma alada
Julho de 1994
1 641
Sophia de Mello Breyner Andresen
Escrita Ii
Escreve numa sala grande e quase
Vazia
Não precisa de livro nem de arquivos
A sua arte é filha da memória
Diz o que viu
E o sol do que olhou para sempre o aclara
Vazia
Não precisa de livro nem de arquivos
A sua arte é filha da memória
Diz o que viu
E o sol do que olhou para sempre o aclara
1 184
Sophia de Mello Breyner Andresen
Escrita Ii
Escreve numa sala grande e quase
Vazia
Não precisa de livro nem de arquivos
A sua arte é filha da memória
Diz o que viu
E o sol do que olhou para sempre o aclara
Vazia
Não precisa de livro nem de arquivos
A sua arte é filha da memória
Diz o que viu
E o sol do que olhou para sempre o aclara
1 184
Sophia de Mello Breyner Andresen
Escrita Ii
Escreve numa sala grande e quase
Vazia
Não precisa de livro nem de arquivos
A sua arte é filha da memória
Diz o que viu
E o sol do que olhou para sempre o aclara
Vazia
Não precisa de livro nem de arquivos
A sua arte é filha da memória
Diz o que viu
E o sol do que olhou para sempre o aclara
1 184
Sophia de Mello Breyner Andresen
Escrita Ii
Escreve numa sala grande e quase
Vazia
Não precisa de livro nem de arquivos
A sua arte é filha da memória
Diz o que viu
E o sol do que olhou para sempre o aclara
Vazia
Não precisa de livro nem de arquivos
A sua arte é filha da memória
Diz o que viu
E o sol do que olhou para sempre o aclara
1 184
Sophia de Mello Breyner Andresen
Anjos Sem Asas Meus Anjos Pesados
De boca sem voz
As fadas que disseram os maus fados
Falavam de vós
De mãos dadas em círculos dançantes
Infinita valsa
Todos brilhavam como diamantes
Madrugada falsa
E eu chorando e cantando fui levada
Pálida e morta
Até à taciturna encruzilhada
Duma estrada torta
1940
As fadas que disseram os maus fados
Falavam de vós
De mãos dadas em círculos dançantes
Infinita valsa
Todos brilhavam como diamantes
Madrugada falsa
E eu chorando e cantando fui levada
Pálida e morta
Até à taciturna encruzilhada
Duma estrada torta
1940
1 216
Sophia de Mello Breyner Andresen
Orpheu
Orpheu
seu canto alto e grave
O canto de oiro o êxtase da lira
Orpheu
A palidez sagrada de seu rosto
Que de clarões e sombras se ilumina
Ante seus pés se deitam mansas feras
Vencidas pela música divina
seu canto alto e grave
O canto de oiro o êxtase da lira
Orpheu
A palidez sagrada de seu rosto
Que de clarões e sombras se ilumina
Ante seus pés se deitam mansas feras
Vencidas pela música divina
1 265
Sophia de Mello Breyner Andresen
Orpheu
Orpheu
seu canto alto e grave
O canto de oiro o êxtase da lira
Orpheu
A palidez sagrada de seu rosto
Que de clarões e sombras se ilumina
Ante seus pés se deitam mansas feras
Vencidas pela música divina
seu canto alto e grave
O canto de oiro o êxtase da lira
Orpheu
A palidez sagrada de seu rosto
Que de clarões e sombras se ilumina
Ante seus pés se deitam mansas feras
Vencidas pela música divina
1 265
Sophia de Mello Breyner Andresen
Orpheu
Orpheu
seu canto alto e grave
O canto de oiro o êxtase da lira
Orpheu
A palidez sagrada de seu rosto
Que de clarões e sombras se ilumina
Ante seus pés se deitam mansas feras
Vencidas pela música divina
seu canto alto e grave
O canto de oiro o êxtase da lira
Orpheu
A palidez sagrada de seu rosto
Que de clarões e sombras se ilumina
Ante seus pés se deitam mansas feras
Vencidas pela música divina
1 265
Sophia de Mello Breyner Andresen
Harpa
A juventude impetuosa do mar invade o quarto
A musa poisa no espaço vazio à contraluz
As cordas transparentes da harpa
E no espaço vazio dedilha as cordas ressoantes
A musa poisa no espaço vazio à contraluz
As cordas transparentes da harpa
E no espaço vazio dedilha as cordas ressoantes
1 324
Sophia de Mello Breyner Andresen
Harpa
A juventude impetuosa do mar invade o quarto
A musa poisa no espaço vazio à contraluz
As cordas transparentes da harpa
E no espaço vazio dedilha as cordas ressoantes
A musa poisa no espaço vazio à contraluz
As cordas transparentes da harpa
E no espaço vazio dedilha as cordas ressoantes
1 324
Sophia de Mello Breyner Andresen
Harpa
A juventude impetuosa do mar invade o quarto
A musa poisa no espaço vazio à contraluz
As cordas transparentes da harpa
E no espaço vazio dedilha as cordas ressoantes
A musa poisa no espaço vazio à contraluz
As cordas transparentes da harpa
E no espaço vazio dedilha as cordas ressoantes
1 324
Sophia de Mello Breyner Andresen
Métrica
O poema clássico compõe seu contraponto olímpico
Entre o fogoso sopro e o vasto espaço da sílaba medida
Inventa a ordem sem lacuna onde nada
Pode ser deslocado ou traduzido
Entre o fogoso sopro e o vasto espaço da sílaba medida
Inventa a ordem sem lacuna onde nada
Pode ser deslocado ou traduzido
1 172
Sophia de Mello Breyner Andresen
Métrica
O poema clássico compõe seu contraponto olímpico
Entre o fogoso sopro e o vasto espaço da sílaba medida
Inventa a ordem sem lacuna onde nada
Pode ser deslocado ou traduzido
Entre o fogoso sopro e o vasto espaço da sílaba medida
Inventa a ordem sem lacuna onde nada
Pode ser deslocado ou traduzido
1 172
Sophia de Mello Breyner Andresen
Childe Harold — Canto Quarto
I
Era sombrio arrogante belo e coxo
Perseguido
Pela insondável paixão do mais vedado
E amava unicamente o mais perdido
Mulheres de longos cabelos negros
Ou leves finas etéreas loiras musas
Pasmavam ensombradas
Ante a palidez lendária do seu rosto
Ele porém buscava os olhos da gazela
Ou Estrela d’Alva da manhã antiga
Ou o clarão feroz da face proibida
II
Tinha vindo para o Sul
Em perfumados jardins
Em negras luminosas noites
Perseguindo como um tigre a própria fome
Rondava o silêncio
Arrebatado convocava
O poema escrito para habitar a vida
Entre colunas lagos e suspiros
Erguia o jogo e o canto das palavras:
«Das filhas da beleza nem só uma
Trouxe magia assim
És quem desliza e canta à flor da água
Música e água é tua voz para mim
Em beleza te moves como a noite
Deste país — escura e cintilante
E em teus gestos e teus olhos se combinam
O que é mais sombrio e mais brilhante»*
III
À beira da laguna onde se espelham
Narcísicos palácios cor-de-rosa
Alta noite a si próprio se inventava
D. Juan foi em Veneza sua máscara
— Escutando o dedilhar da laguna nos degraus
De pedra
Tecia intrincadas e teatrais
Conquistas
Que as cartas contavam aos amigos longínquos
Em calculada e ingénua exibição:
Vivia até ao ponto extremo
Seu modo particular d’ironia e paixão
Queria ser quem era
Gravar para sempre
A sua imagem em todos os espelhos
IV
Sonhava-se quem era:
— Lord que foi d’Escócias de outras eras
Werther fatal e não
O sensato pai de Werther
Príncipe da Aquitânia da abolida torre
Ou pirata sem pátria e sem regresso
* As estrofes entre aspas são glosas do poema de Byron «There be none of Beauty’s daughters».
Era sombrio arrogante belo e coxo
Perseguido
Pela insondável paixão do mais vedado
E amava unicamente o mais perdido
Mulheres de longos cabelos negros
Ou leves finas etéreas loiras musas
Pasmavam ensombradas
Ante a palidez lendária do seu rosto
Ele porém buscava os olhos da gazela
Ou Estrela d’Alva da manhã antiga
Ou o clarão feroz da face proibida
II
Tinha vindo para o Sul
Em perfumados jardins
Em negras luminosas noites
Perseguindo como um tigre a própria fome
Rondava o silêncio
Arrebatado convocava
O poema escrito para habitar a vida
Entre colunas lagos e suspiros
Erguia o jogo e o canto das palavras:
«Das filhas da beleza nem só uma
Trouxe magia assim
És quem desliza e canta à flor da água
Música e água é tua voz para mim
Em beleza te moves como a noite
Deste país — escura e cintilante
E em teus gestos e teus olhos se combinam
O que é mais sombrio e mais brilhante»*
III
À beira da laguna onde se espelham
Narcísicos palácios cor-de-rosa
Alta noite a si próprio se inventava
D. Juan foi em Veneza sua máscara
— Escutando o dedilhar da laguna nos degraus
De pedra
Tecia intrincadas e teatrais
Conquistas
Que as cartas contavam aos amigos longínquos
Em calculada e ingénua exibição:
Vivia até ao ponto extremo
Seu modo particular d’ironia e paixão
Queria ser quem era
Gravar para sempre
A sua imagem em todos os espelhos
IV
Sonhava-se quem era:
— Lord que foi d’Escócias de outras eras
Werther fatal e não
O sensato pai de Werther
Príncipe da Aquitânia da abolida torre
Ou pirata sem pátria e sem regresso
* As estrofes entre aspas são glosas do poema de Byron «There be none of Beauty’s daughters».
1 253
Sophia de Mello Breyner Andresen
Childe Harold — Canto Quarto
I
Era sombrio arrogante belo e coxo
Perseguido
Pela insondável paixão do mais vedado
E amava unicamente o mais perdido
Mulheres de longos cabelos negros
Ou leves finas etéreas loiras musas
Pasmavam ensombradas
Ante a palidez lendária do seu rosto
Ele porém buscava os olhos da gazela
Ou Estrela d’Alva da manhã antiga
Ou o clarão feroz da face proibida
II
Tinha vindo para o Sul
Em perfumados jardins
Em negras luminosas noites
Perseguindo como um tigre a própria fome
Rondava o silêncio
Arrebatado convocava
O poema escrito para habitar a vida
Entre colunas lagos e suspiros
Erguia o jogo e o canto das palavras:
«Das filhas da beleza nem só uma
Trouxe magia assim
És quem desliza e canta à flor da água
Música e água é tua voz para mim
Em beleza te moves como a noite
Deste país — escura e cintilante
E em teus gestos e teus olhos se combinam
O que é mais sombrio e mais brilhante»*
III
À beira da laguna onde se espelham
Narcísicos palácios cor-de-rosa
Alta noite a si próprio se inventava
D. Juan foi em Veneza sua máscara
— Escutando o dedilhar da laguna nos degraus
De pedra
Tecia intrincadas e teatrais
Conquistas
Que as cartas contavam aos amigos longínquos
Em calculada e ingénua exibição:
Vivia até ao ponto extremo
Seu modo particular d’ironia e paixão
Queria ser quem era
Gravar para sempre
A sua imagem em todos os espelhos
IV
Sonhava-se quem era:
— Lord que foi d’Escócias de outras eras
Werther fatal e não
O sensato pai de Werther
Príncipe da Aquitânia da abolida torre
Ou pirata sem pátria e sem regresso
* As estrofes entre aspas são glosas do poema de Byron «There be none of Beauty’s daughters».
Era sombrio arrogante belo e coxo
Perseguido
Pela insondável paixão do mais vedado
E amava unicamente o mais perdido
Mulheres de longos cabelos negros
Ou leves finas etéreas loiras musas
Pasmavam ensombradas
Ante a palidez lendária do seu rosto
Ele porém buscava os olhos da gazela
Ou Estrela d’Alva da manhã antiga
Ou o clarão feroz da face proibida
II
Tinha vindo para o Sul
Em perfumados jardins
Em negras luminosas noites
Perseguindo como um tigre a própria fome
Rondava o silêncio
Arrebatado convocava
O poema escrito para habitar a vida
Entre colunas lagos e suspiros
Erguia o jogo e o canto das palavras:
«Das filhas da beleza nem só uma
Trouxe magia assim
És quem desliza e canta à flor da água
Música e água é tua voz para mim
Em beleza te moves como a noite
Deste país — escura e cintilante
E em teus gestos e teus olhos se combinam
O que é mais sombrio e mais brilhante»*
III
À beira da laguna onde se espelham
Narcísicos palácios cor-de-rosa
Alta noite a si próprio se inventava
D. Juan foi em Veneza sua máscara
— Escutando o dedilhar da laguna nos degraus
De pedra
Tecia intrincadas e teatrais
Conquistas
Que as cartas contavam aos amigos longínquos
Em calculada e ingénua exibição:
Vivia até ao ponto extremo
Seu modo particular d’ironia e paixão
Queria ser quem era
Gravar para sempre
A sua imagem em todos os espelhos
IV
Sonhava-se quem era:
— Lord que foi d’Escócias de outras eras
Werther fatal e não
O sensato pai de Werther
Príncipe da Aquitânia da abolida torre
Ou pirata sem pátria e sem regresso
* As estrofes entre aspas são glosas do poema de Byron «There be none of Beauty’s daughters».
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