Outros
Sophia de Mello Breyner Andresen
Beira-Mar
A maré alta sete vezes cresce
Sete vezes decresce o seu inchar
E a métrica de um verso a determina
Crianças brincam nas ondas pequeninas
E com elas em brandíssimo espraiar
Em volutas e crinas brinca o mar
Outubro de 1997
Sophia de Mello Breyner Andresen
Saltimbancos
E as árvores tomaram vida humana.
Passado o muro, para além dos campos,
Ressoou o tambor dos saltimbancos.
Corpo de escamas como o de um peixe
Nas águas da noite cheias de correntes
Tem dois búzios do mar sobre os ouvidos,
Ouve, só para si, uma canção.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Alentejo
Da calçada
Os muros brancos — a ponta do telhado
Se revira como a mão da bailarina
Chinesa —
A loja de barros: tigelas e cestos empilhados
Cheira a palha e a barro
Aroma de hortelã cheiro a vinho entornado
Junto ao sol excessivo a penumbra fina
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Manhã Estática Parada
Que branca e barroca sobe das águas
Manhã acesa de silêncio e louvor
Na breve primavera violenta
Assim a minha vida que era calma
De repente se tornou ânsia e saudade
Mas a brisa da varanda é doce e suave
Um pássaro canta porque alguém regou
Maio de 2000
Sophia de Mello Breyner Andresen
Elsinore
Cheirava a mar em Elsinore
Um leve cheiro a mar misturado
Com o aroma primaveril de ervas e arvoredo
O castelo fora por várias vezes reconstruído
E uma vez purificado pelo fogo
Tudo fora lavado e pintado
Passado a limpo exorcizado
No entanto
Numa das salas do castelo
Um quadro do século dezoito mostrava
Uma rainha bela imperiosa arrogante
E no seu rosto a sombra de outro se espelhava
E também as muralhas vermelhas de tijolo
Sobre as águas obscuras do fosso projectavam
Uma sombra muito antiga e cor de sangue
2
Cá fora o mar era de um azul claríssimo
Crianças brincavam na relva à luz do sol
E famílias felizes de perto as olhavam
Porém a guia disse que o passado mora do outro lado do castelo
E que o pano só sobe depois do sol descer
E que as palavras só se cruzam como facas
Quando soa a hora em que se embruxa a noite
E eu entre barco e avião cheguei desencontrada
Nada vi da profunda e visionária noite
Sophia de Mello Breyner Andresen
Elsinore
Cheirava a mar em Elsinore
Um leve cheiro a mar misturado
Com o aroma primaveril de ervas e arvoredo
O castelo fora por várias vezes reconstruído
E uma vez purificado pelo fogo
Tudo fora lavado e pintado
Passado a limpo exorcizado
No entanto
Numa das salas do castelo
Um quadro do século dezoito mostrava
Uma rainha bela imperiosa arrogante
E no seu rosto a sombra de outro se espelhava
E também as muralhas vermelhas de tijolo
Sobre as águas obscuras do fosso projectavam
Uma sombra muito antiga e cor de sangue
2
Cá fora o mar era de um azul claríssimo
Crianças brincavam na relva à luz do sol
E famílias felizes de perto as olhavam
Porém a guia disse que o passado mora do outro lado do castelo
E que o pano só sobe depois do sol descer
E que as palavras só se cruzam como facas
Quando soa a hora em que se embruxa a noite
E eu entre barco e avião cheguei desencontrada
Nada vi da profunda e visionária noite
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Branco
Foi pelo branco da praia que te reconheci
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Activista Cultural
O ouvido não ouve a flauta da penumbra
Nem reconhece o silêncio
O pensamento nada sabe dos labirintos do tempo
O olhar toma nota e não vê
Sophia de Mello Breyner Andresen
Veneza
Esta história aconteceu
Num país chamado Itália
Na cidade de Veneza
Que é sobre água construída
E noite e dia se mira
Sobre a água reflectida
Suas ruas são canais
Onde sempre gondoleiros
Vão guiando barcas negras
Em Veneza tudo é belo
Tudo rebrilha e cintila
Há quatro cavalos gregos
Sobre o frontão de S. Marcos
E a ponte do Rialto
Desenha aéreo o seu arco
Em Veneza tudo existe
Pois é senhora do mar
Dos quatro cantos do mundo
Os navios carregados
Desembarcam no seu cais
Sedas tapetes brocados
Pérolas rubis corais
Colares anéis e pulseiras
E perfumes orientais
Cidade é de mercadores
E também de apaixonados
Sempre perdidos de amores
E cada dia ali chegam
Persas judeus e romanos
Franceses e florentinos
Artistas e bailarinos
E ladrões e cavaleiros
Aqui só há uma sombra
As prisões da Signoria
E os esbirros do doge
Que espiam a noite e o dia
De resto em Veneza há só
Dança canções fantasia
Cada ano aqui se tecem
Histórias tão variadas
Que às vezes até parecem
Aventuras inventadas
Por isso aqui sempre digo
Que Veneza é como aquela
Cidade de Alexandria
Onde há sol à meia-noite
E há lua ao meio-dia**
** Os últimos 3 versos são da tradição popular.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Anjos Sem Asas Meus Anjos Pesados
As fadas que disseram os maus fados
Falavam de vós
De mãos dadas em círculos dançantes
Infinita valsa
Todos brilhavam como diamantes
Madrugada falsa
E eu chorando e cantando fui levada
Pálida e morta
Até à taciturna encruzilhada
Duma estrada torta
1940
Sophia de Mello Breyner Andresen
Perca
me separa da sombra do pinhal
como viver de novo a alegria una
de ter sido nova que falhei
só o tempo e bem tarde
me envelheceu
depois perdi sem saber como o andar
dos meus passos
Setembro de 2001
Sophia de Mello Breyner Andresen
Navegadores
Contornando os cabos e dando nome às ilhas
E por entre brilhos espelhos e distâncias
Por entre aéreas brumas irisadas
Em extáticas manhãs solenes e paradas
No breve instante eterno surpreenderam
O arcaico sorrir do mar recém-criado
1987
Sophia de Mello Breyner Andresen
No Ângulo Das Coisas Visíveis
Os ventos em flor abriram em segredo
Trazendo peixes e medusas aos teus dedos
E o mar cortado de silêncios outonais
Era preciso cantar a Terra toda
Mas mais que tudo as praias e as florestas
Onde incessantemente se renovam
Desertos desumanos e desumanas festas.
1951
Sophia de Mello Breyner Andresen
Quem Me Roubou o Tempo Que Era Um
o tempo todo inteiro que sorria
onde o meu Eu foi mais limpo e verdadeiro
e onde por si mesmo o poema se escrevia
Setembro de 2001
Sophia de Mello Breyner Andresen
Quem Me Roubou o Tempo Que Era Um
o tempo todo inteiro que sorria
onde o meu Eu foi mais limpo e verdadeiro
e onde por si mesmo o poema se escrevia
Setembro de 2001
Sophia de Mello Breyner Andresen
Teu Passo Não Enraizou Nas Areias de Seda
Quando atravessaste a roxa
Respiração da aurora tropical
Tomaste em tua mão o sopro
Como um fruto ou como um rosto
Nas palavras tupi procuraste o segredo
Extremo do lugar
Uma névoa velou o azul dos morros
As praias como braços se estendiam
No mar corriam todas as quadrigas
Atreladas em mão azul
Sophia de Mello Breyner Andresen
Noite
E encontramos um silêncio imenso,
Um silêncio perfeito que nos esperava desde sempre.
E uma solidão que era a nossa imagem,
E uma profunda esperança,
Como se a noite tremesse
De tocar a aurora.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Noite
E encontramos um silêncio imenso,
Um silêncio perfeito que nos esperava desde sempre.
E uma solidão que era a nossa imagem,
E uma profunda esperança,
Como se a noite tremesse
De tocar a aurora.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Narciso
Outro Narciso em busca do retrato.
29 de Novembro de 1949
Sophia de Mello Breyner Andresen
Narciso
Outro Narciso em busca do retrato.
29 de Novembro de 1949
Sophia de Mello Breyner Andresen
Narciso
Outro Narciso em busca do retrato.
29 de Novembro de 1949
Sophia de Mello Breyner Andresen
Inverno
E confuso
Na varanda só o vento passa
E o vento olha-nos de esguelha quando passa
Nenhum poema aflora
Entre as linhas finas e aéreas
Da página em branco
Inverno de 1999
Sophia de Mello Breyner Andresen
Inverno
E confuso
Na varanda só o vento passa
E o vento olha-nos de esguelha quando passa
Nenhum poema aflora
Entre as linhas finas e aéreas
Da página em branco
Inverno de 1999
Sophia de Mello Breyner Andresen
D. António Ferreira Gomes Bispo do Porto
Entre névoas sombras e cintilações
A cidade parece firme e inexpugnável
E sólida — mas habitada
Por súbitos clarões de profecia
Junto ao rio em cujo verde se espelham as visões —
Assim quando eu entrava no paço do Bispo
E passava a mão sobre a pedra rugosa
O paço me parecia fortaleza
Porém a fortaleza não era
Os grossos muros de pedra caiada
Nem os lintéis de pedra nem a escada
De largos degraus rugosos de granito
Nem o peso frio que das coisas inertes emanava
Fortaleza era o homem — o Bispo —
Alto e direito firme como torre
Ao fundo da grande sala clara: fortaleza
De sabedoria e sapiência
De compaixão e justiça
De inteligência a tudo atenta
E na face austera por vezes ao de leve o sorriso
Inconsútil da antiga infância
1998