Outros
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Viagem
Infinita esmeralda desdobrada.
Como um incenso os halos da maresia.
Cristais de distância.
Um navio esticado no seu vento
Êxtase e poder
Plenitude do tempo
Um navio esticado no seu vento
Presa do espaço intenso.
Um navio de homens carregado,
De vagabundos mareantes procurando
Terras quase lendárias,
Filhos duma áspera pátria de pedras e luz clara
Filhos duma áspera pátria exacta e avara
Que vão de porto em porto derivando.
Filhos duma áspera pátria procurando
A aparição do mundo
Filhos duma áspera pátria sobre o mar errando.
No alto mar os homens parecem
Semelhantes a deuses
Participantes dum rito antiquíssimo e sagrado
De água, luz e vento
Os seus corpos se tornam
Inteiros e ritmados
À própria essência da vida relegados.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Enigmáticos, Desertos E Suspensos
Países de completa maravilha,
Cobrem o campo morto dos destroços
Um por um morremos olhos fitos
No caminho dos deuses.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Alcácer do Sal
O branco vivo da palavra sal
Sophia de Mello Breyner Andresen
Alcácer do Sal
O branco vivo da palavra sal
Sophia de Mello Breyner Andresen
Quero
Onde nenhum dos meus gestos faz barulho
Voltar.
E sentar-me um instante
Na beira da janela contra os astros
E olhando para dentro contemplar-te,
Tu dormindo antes de jamais teres acordado,
Tu como um rio adormecido e doce
Seguindo a voz do vento e a voz do mar
Subindo as escadas que sobem pelo ar.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Xiv. Através do Teu Coração Passou Um Barco
Que não pára de seguir sem ti o seu caminho
1982
Sophia de Mello Breyner Andresen
Senhor
Embora sempre soubesse que me vias
Quis ver o mundo em si e não em ti
E embora nunca te negasse te apartei
1987
Sophia de Mello Breyner Andresen
Notas
1. Os poemas I e III são invocações da voz de Camões.
2. O poema VII é um poema sobre Dom Sebastião.
DERIVA
3. O poema IV é uma invocação de Bartolomeu Dias, o maior de todos os navegadores.
4. O poema V é uma glosa livre da Carta de Pêro Vaz de Caminha.
5. O poema XIII é uma invocação de Pessoa, que disse pertencer ao número daqueles portugueses que depois da descoberta da Índia ficaram sem emprego.
6. O poema XIV é uma invocação de Jorge de Sena.
7. O poema XV é um poema sobre as diversas Reboleiras de Lisboa, atro-zes e sem Tejo.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Era o Tempo
Entregues à sombra à luz à penumbra
E ao rumor mais secreto das ramagens
Era o tempo extático das luas
Quando a noite se azulava fabulosa e lenta
Era o tempo do múltiplo desejo e da paixão
Os dias como harpas ressoavam
Era o tempo de oiro das praias luzidias
Quando a fome de tudo se acendia
Sophia de Mello Breyner Andresen
Escrita Ii
Vazia
Não precisa de livro nem de arquivos
A sua arte é filha da memória
Diz o que viu
E o sol do que olhou para sempre o aclara
Sophia de Mello Breyner Andresen
Escrita Ii
Vazia
Não precisa de livro nem de arquivos
A sua arte é filha da memória
Diz o que viu
E o sol do que olhou para sempre o aclara
Sophia de Mello Breyner Andresen
Escrita Ii
Vazia
Não precisa de livro nem de arquivos
A sua arte é filha da memória
Diz o que viu
E o sol do que olhou para sempre o aclara
Sophia de Mello Breyner Andresen
Escrita Ii
Vazia
Não precisa de livro nem de arquivos
A sua arte é filha da memória
Diz o que viu
E o sol do que olhou para sempre o aclara
Sophia de Mello Breyner Andresen
Memória
De leve passo nos cimos do Parnaso
Suave a brisa — a fonte impetuosa
Princípio fundamento rosto-início
Espelho para sempre os olhos verdes
As longas mãos as azuladas veias
Sophia de Mello Breyner Andresen
Memória
De leve passo nos cimos do Parnaso
Suave a brisa — a fonte impetuosa
Princípio fundamento rosto-início
Espelho para sempre os olhos verdes
As longas mãos as azuladas veias
Sophia de Mello Breyner Andresen
Memória
De leve passo nos cimos do Parnaso
Suave a brisa — a fonte impetuosa
Princípio fundamento rosto-início
Espelho para sempre os olhos verdes
As longas mãos as azuladas veias
Sophia de Mello Breyner Andresen
Xvii. Estilo Manuelino
Não a nave românica onde a regra
Da semente sobe da terra
Nem o fuste de espiga
Da coluna grega
Mas a flor dos encontros que a errância
Em sua deriva agrega
1982
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sobre Um Desenho de Graça Morais
Rijeza firme do tronco
As pálidas folhas como ponta de lança
E o pequeno fruto negro
Compacto e brilhante
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Poeta Sábio
Porém quando ele escreve
As Ménades não dançam
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Poeta Sábio
Porém quando ele escreve
As Ménades não dançam
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Poeta Sábio
Porém quando ele escreve
As Ménades não dançam
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ondas
Do que estas ondas que vós sois
Onde mais bela curva do pescoço
Onde mais longa crina sacudida
Ou impetuoso arfar no mar imenso
Onde tão ébrio amor em vasta praia?
Dezembro de 1989
Sophia de Mello Breyner Andresen
Eurydice Em Roma
A voz da flauta na penumbra fina
E ao longe sob a copa dos pinheiros
Com leves pés que nem as ervas dobram
Intensa absorta — sem se virar pra trás —
E já separada — Eurydice caminha
Sophia de Mello Breyner Andresen
Retrato
E jornalista. Consigo traz
— Mais do que Escócias de outras eras —
Um futuro de eficácia errância e pressa
Porém seu perfil de estátua desenha a noite morna
E negro se anela na brisa o seu cabelo
Com ele vem um rumor de amor perdido
E a seu bem talhado rosto conviria
Turbante de palikare ou de fakir
E parece surgir de um filme antigo